sexta-feira, 25 de abril de 2014

Comunismo, socialismo e Cristianismo: Um destes não encaixa - Parte 1

Nos próximos dias o Senza vai publicar em varias partes um texto do Pe. Marcel Guarnizo sobre a incompatibilidade das ideias socialistas com o Cristianismo. O Pe. Guarnizo é um sacerdote americano que se voluntariou para trabalhar ao serviço do Arcebispo de Moscovo por mais de 20 anos em Moscovo, na Rússia. Não há muitas pessoas mais que conheçam melhor que o Pe. Guarnizo o problema do comunismo e do socialismo.
Sobre o Cristianismo, o Socialismo e o Comunismo
Nas últimas semanas tem-se falado muito sobre a dívida do Cristianismo -e a sua compatilidade com - as ideias e a práxis da revolução socialista, e mesmo do comunismo. Muitos, mesmo na Igreja Católica, acreditam que partilhamos alguns dos ideais da revolução socialista porque lhes parece que o comunismo, o socialismo e o Cristianismo são para os pobres. Para além deste erro muito infeliz, a falácia oposta também se tornou popular nas mentes de muitos, isto é, a de que os capitalistas e defensores de uma economia de mercados livres, odeiam os pobres.
Mas os registos históricos do comunismo contam uma história inteiramente diferente. Eu trabalhei em países da antiga União Soviética durante mais de 20 anos e vi o que o comunismo faz às populações e nações. O flagelo da revolução socialista por todo o mundo deu-nos 6 milhões de pessoas mortas pelo genocídio da fome na Ucrânia [NT: ver aqui] e, como documentado em O Livro Negro do Comunismo [NT: livro de professores universitários da Europa, ver aqui], 20 milhões de vítimas na U.R.S.S., 65 milhões na China, um milhão no Vietname, 2 milhões na Coreia do Norte, outros 2 milhões no Camboja, mais um milhão no resto da Europa de Leste, 150.000 na América Latina, 1,7 milhões em África, 1,5 milhões no Afganistão e pelos movimentos comunistas internacionais e partidos relacionados cerca de 100.000 vítimas em várias nações. Esta é uma contagem de mortos que chega a 100 milhões de vítimas por todo o mundo. 

O comunismo destruiu completamente a economia, a estrutura social e a cultura política de dezenas de nações. Esvaziou toda a intelectualidade, arruinou todas as economias onde a semente do socialismo verdadeiramente "floresceu" e anulou os direitos fundamentais e as liberdades individuais das nações que subjugou. Claramente que o mandamento Judaico-Cristão "Não matarás," não faz parte dos ensinamentos doutrinais do comunismo e da revolução socialista. É difícil de acreditar que a revolução socialista - ao contrário do nazismo - ainda encontra promotores e defensores no Ocidente.
A compatibilidade do Cristianismo e da sua preocupação legítima pelos pobres nada deve aos regimes violentos e desumanos criados pela revolução socialista. Nenhum regime da história humana produziu mais pobreza e miséria que o comunismo.
A Igreja nunca enfrentou um adversário maior que a revolução comunista. Durante o século XX, centenas de milhares de religiosos e sacerdotes foram enviados para campos de trabalhos forçados ou simplesmente foram executados. Planos de cinco anos para acabar com a religião foram implementados e nenhum verdadeiro crente estava seguro em tais nações. Que doutrina social da Igreja é que alguma vez veio de tal loucura? O comunismo e a revolução socialista não são apenas a antítese do Cristianismo. Também são incompatíveis com sociedades livres, justas e democráticas.
O caso contra as "maravilhas" da revolução socialista acaba quando se lembra às pessoas que foram necessários muros de tijolos e argamassa, vigiados por soldados armados, para evitar que as pessoas fugissem do paraíso artificial da "igualdade social" criado pelos comunistas. Como notou Milton Friedman, a "... maior prova do fracasso do socialismo é a queda do muro de Berlim."
Também não é necessária uma apologética complexa para explicar porque é que não há uma diferença substancial entre socialismo e comunismo. Comunismo, como registou o escritor americano Whittaker Chambers, não é mais do que o socialismo com garras. Na teoria, os dois sistemas partilham os mesmos ideiais e a mesma base filosófica. O comunismo limita-se a levar o socialismo às suas últimas e lógicas consequências.
A diferença entre os dois está bem apanhada numa piada que li uma vez. Os comunistas limitam-se a disparar-vos à cabeça, mas os socialistas fazem sofrer-vos uma vida inteira.
Montar um caso contra os socialistas e comunistas devia parecer completamente desnecessário dado os registos históricos. Mas é necessário porque, como vemos, a ideologia do comunismo continua a iludir as mentes do Ocidente e muitos dos seus líderes. Talvez a frase de Whittaker Chambers, quando ele decidiu desertar do seu serviço na União Soviética, de que ele tinha escolhido juntar-se "... ao lado derrotado" não esteja totalmente resolvida. Muitos pensam que a queda da União Soviética mostrou que Chambers estava errado, mas eu penso que Chambers percebeu, talvez melhor do que todos, a natureza duradora e pérfida da revolução socialista no Ocidente. Parece-me que a grande vitória parcial do Ocidente está longe de estar acabada. Apesar do Império Soviético ter caído, o Ocidente permanece numa batalha de culturas igualmente poderosa, uma batalha que os arquitectos da revolução socialista anteciparam.

Pe. Marcel Guarnizo - A 2ª parte pode ser lida aqui.


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4 comentários:

Pyny disse...

Obrigado por publicares este texto Nuno. É de facto muito esclarecedor. Aguardo ansiosamente pela segunda parte.
Um abraço, Francisco

Nuno CB disse...

Obrigado Pyny! A segunda parte manterá o nível de interesse, penso.

Um abraço!,
Nuno

Anónimo disse...

"um caso contra os socialistas e comunistas devia parecer completamente desnecessário dado os registos históricos" , o mesmo se poderia dizer em relação à igreja...
utilizar apenas exemplos de regimes de esquerda ditatoriais é o mesmo que dizer que a direita não é se não o nazismo ou que a igreja não é se não a inquisição. Como podem os crentes de uma religião que defende o amor ao próximo como mandamento primário atacar um principio ideológico baseado na igualdade de todos os homens... Não tenho qualquer intenção de atacar o autor do texto. Isto é apenas a conclusão que dele tiro.
Cumprimentos

Nuno CB disse...

Caro anónimo,

A parte 2 do artigo explica que os princípios de igualdade dos homens são radicalmente diferentes quando tratados pelo Cristianismo e pelo comunismo.

E a Igreja, apesar de Santa, é feita por homens pecadores que falham. A diferença é que quando os princípios cristãos são bem aplicados geram felicidade autêntica e verdadeira liberdade de espírito - o contrário do comunismo.

Podemos claro alegar que o comunismo não foi bem aplicado ainda. É uma dúvida que também eu já tive muitas vezes e é o argumento usado hoje em dia pelos comunistas.

No entanto, mesmo que seja verdade que o comunismo ainda não foi bem aplicado, não é justo tentar aplicá-lo novamente quando são vidas humanas que estão em jogo. E a União Soviética não é um caso único - basta olhar para a China, América Latina entre outros (o texto refere esses casos). Podíamos tentar aplicá-lo novamente, mas não podemos pôr em risco vidas humanas.

Ora, o caso é claramente distinto quando falamos da Igreja Católica.
Já agora, caso não saiba, a Inquisição ainda existe na Igreja com o nome de Congregação para a Doutrina da Fé e, pelo que parece, tem funcionado bastante bem (e pacificamente) há séculos.

Obrigado pelo seu comentário e interesse!,
Nuno