quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Como cumprir o jejum e abstinência: o que a Igreja ensina

Hoje começa a Quaresma.
Para começar bem este tempo de penitência e conversão a Igreja fez com que a Quarta-feira de Cinzas fosse um dia penitência e de jejum.

Mas o que é que a Igreja diz mesmo sobre o assunto? O Código de Direito Canónico remete quase sempre para o que ensina a Conferência dos Bispos de cada país que, neste caso, é Portugal, por isso é o que está aqui de seguida. No entanto, no fim está também um resumo com o que a Igreja Católica desde sempre recomendou.

Num documento de 1984, os Bispos portugueses explicaram como os fiéis podem cumprir estas normas de jejum e abstinência:
2. O jejum é a forma de penitência que consiste na privação de alimentos. Na disciplina tradicional da Igreja, a concretização do jejum fazia-se limitando a alimentação diária a uma refeição, embora não se excluísse que se pudesse tomar alimentos ligeiros às horas das outras refeições. [fazer jejum é então almoçar e não jantar (ou vice-versa) e comer alimentos ligeiros ao pequeno-almoço e lanche] 
Ainda que convenha manter-se esta forma tradicional de jejuar, contudo os fiéis poderão cumprir o preceito do jejum privando-se de uma quantidade ou qualidade de alimentos ou bebidas que constituam verdadeira privação ou penitência. [os Bispos portugueses dão alguma liberdade no assunto, desde que custe mesmo. No fundo, aqueles que querem podem mesmo passar o dia sem comer nada.]
3. A abstinência, por sua vez, consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre. A sua concretização na disciplina tradicional da Igreja era a abstenção de carne. Será muito aconselhável manter esta forma de abstinência, particularmente nas sextas-feiras da Quaresma. [fazer abstinência é não comer carne e esta forma é muito recomendada pelos Bispos] 
Mas poderá ser substituída pela privação de outros alimentos e bebidas, sobretudo mais requintados e dispendiosos ou da especial preferência de cada um. [ou seja, se andam a comer caviar e lagostim todos os dias, é preciso cortar nisso] 
Contudo, devido à evolução das condições sociais e do género de alimentação, aquela concretização pode não bastar para praticar a abstinência como acto penitencial. Lembrem-se os fiéis de que o essencial do espírito de abstinência é o que dizemos acima, ou seja, a escolha de uma alimentação simples e pobre e a renúncia ao luxo e ao esbanjamento. Só assim a abstinência será privação e se revestirá de carácter penitencial. [às vezes, limitar-se a não comer carne já não custa tanto nos tempos de hoje, portanto é importante procurar algo que custe mesmo, como por exemplo uma refeição mais simples] 
4. O jejum e a abstinência são obrigatórios em Quarta-Feira de Cinzas e em Sexta-Feira Santa. [portanto, hoje é obrigatório]
5. A abstinência é obrigatória, no decurso do ano, em todas as sextas-feiras que não coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades. Esta forma de penitência reveste-se, no entanto, de significado especial nas sextas-feiras da Quaresma. [sim, obrigatório.] 
6. O preceito da abstinência obriga os fiéis a partir dos 14 anos completos. [mais uma vezes, os adolescentes e adultos estão todos obrigados a isto] 
O preceito do jejum obriga os fiéis que tenham feito 18 anos até terem completado os 59. 
Aos que tiverem menos de 14 anos, deverão os pastores de almas e os pais procurar atentamente formá-los no verdadeiro sentido da penitência, sugerindo-lhes outros modos de a exprimirem. [as crianças, ainda que não estejam obrigadas, devem ser ensinadas a viver o espírito de penitência cristão. O ponto seguinte diz que os doentes também não estão obrigados, óbvio.]

Atenção, os Bispos, verdadeiros sucessores dos Apóstolos, insistem mesmo que é obrigatório cumprir estes preceitos. Mais ainda, o Código de Direito Canónico [1249] diz que "todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer penitência." Ou seja, é uma ofensa a Deus (=pecado) não cumprir isto. Óbvio que o objectivo é sempre a conversão interior, por isso deve-se dar este carácter espiritual ao jejum e abstinência.

Felizmente, o Código de Direito Canónico antigo também explica, e muito bem, estes preceitos, pelo que fica aqui um resumo final:

  • O jejum consiste numa refeição completa e duas menores, que juntas são menos que uma refeição inteira. [c.1252]
  • A abstinência consiste em abster-se de comer carne de animais de sangue quente, molhos ou sopa de carne nos dias de abstinência. A abstinência era em todas as sextas-feiras, a não ser que fosse um Dia de Guarda [c.1252].


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9 comentários:

Anónimo disse...

E que tal entrarem no sec. XXI ? Não que tenha nada contra a igreja, mas com "instrucçoes" destas não vão ter muitos mais fiéis, ou dos que tiverem são por falsidade, ou seja, por parecer bem. Bem hajam.

João Silveira disse...

Parece-me exactamente o contrário: com "instrucções" destas, poderemos pegar na nossa cruz e seguir Jesus, de forma verdadeira.

Se somos mais ou menos, não sei nem me diz respeito fazer essas contas.

Antónimo disse...

O século XXI mais do que nunca adoptou estas instruções mas sem carácter religioso: chama-se dieta e inscrição no ginásio.
Quanta gente não faz um regime para daqui por um par de meses estar com uns quilinhos a menos na bunda ou na barriga ao mesmo tempo que dia sim-dia não faz um esforço voluntário para transpirar e abater calorias.
Por isso até dou uma dica : nestes tempos modernos comer carne hoje até pode ser maior sacrifício do que sardinha em lata. Basta pensar nas sobras do fim de semana, já ressequidas de terem ido ao micro-ondas. Sacrifício era comer isso tudo em vez de jogar no lixo.
Moral da história: há 2000 anos que a Igreja inventou uma forma de purificar a alma que indirectamente contribui para abater gorduras acumuladas desde o Natal.

Francisco Pinto disse...

Farei Jejum para expiação de todos os pecados no mundo! Tal como os pastorinhos de Fátima frequentemente faziam! Conto com o teu apoio!

João Silveira disse...

Muito bem!

Filipa Poêjo disse...

Srs. Anónimo e Antónimo, não podia estar em maior desacordo convosco...
O jejum, quando bem direccionado e orientado, pode e deve ser uma experiência profundamente espiritual. Agora como sempre.
Nada tem a ver com dietas ou ginásios, no séc. XXI ou há 2000 anos.
Eu estou a fazer jejum com devoção e alegria. Desejo, sinceramente, que um dia possam partilhar desta experiência. Acreditem, é verdadeiramente libertadora.

Obrigada João pela partilha. Nunca é demais ter estes testemunhos que nos ajudam a orientar, fortalecer e enriquecer a fé.

Anónimo disse...

Tenho um dúvida. Por distração, almocei um prato de carne e arroz, porque era o que havia em casa e tinha sobrado do jantar de ontem. Só depois de almoço é que me chamaram a atenção e me dei conta de que era quarta feira de cinzas! Disseram-me que hoje estou interdito a comungar, por estar em pecado grave. É verdade?

Obrigado.

Cristina Ribas disse...

Como já foi referido, o jejum e a abstinência não são importantes em si mesmos mas são formas de fortalecermos a nossa relação com Deus, são formas de nos centrarmos no que é verdadeiramente importante e essencial nas nossas vidas e que tem a capacidade de nos transformar em direcção a um Amor maior, o Amor de Jesus Cristo.

Deixo um belíssimo texto do Pe. Carlos Jorge Vicente, que integra o livro "Palavra de Deus @ palavras de homem" que penso que pode ajudar-nos a entrar neste profundo sentido espiritual da Quaresma, que integra os sacrifícios, não de forma gratuita mas como um esforço para, cada vez mais, nos tornarmos pessoas melhores, pessoas que pertencem a Cristo (deixarmos morrer o que em nós não é bom para deixarmos mais espaço em nós para que o que é bom possa florescer cada vez mais).

Parte de Os 2,16
"É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração."

"Quaresma.
Deus convida-nos para um encontro. No Deserto.
Só ELE e nós. E o silêncio.
Para nos falar ao coração. A cada coração.
Quer seduzir-nos; atrair-nos para ELE.
Apesar das nossas infidelidades, continua encantado connosco.
Não desiste de nós.
Também nos vai falar de Jesus, o Filho Amado.
Aquele que vai ser pregado na cruz, entre dois malfeitores,
por causa de um Amor levado ao limite.
Sim, Jesus morreu, mas Ressuscitou!
O Poder de Deus é mais forte do que a Morte!
Esta é a Vitória que iremos festejar na Páscoa.
Regressaremos do Deserto mais lives, mais felizes, mais serenos,
mais confiantes, mais disponíveis, mais amados, mais amantes.
A viagem principia com um sinal: cinzas derramadas sobre a cabeça.
Para recordar a nossa pequenez e finitude,
e expressar a nossa força quando nos unimos a Deus e uns aos outros.
Entremos no Deserto, ou antes, deixemos que o Deserto venha até nós.
AQUELE DESERTO.
Onde um AMOR imenso nos aguarda.
Para nos cativar e deslumbrar.
Novamente."

Nuno CB disse...

Caro anónimo de 18Fev (14h40m),

Não me parece que tenha cometido algum pecado grave ou sequer algum pecado por se ter esquecido de que era dia de abstinência. Portanto, pode comungar à vontade.

No entanto, não cumprir deliberadamente o jejum e a abstinência neste dias em que a Igreja diz que se devem cumprir, é matéria de pecado, que se deve levar à confissão.

Mas, para lhe ser imputada alguma culpa, é necessário haver consciência do que se faz e, pelo que disse, só se apercebeu depois.

Óbvio que a tradição cristã recomenda que nesse caso se deva fazer alguma coisa para compensar a abstinência que não cumpriu.

Afinal de contas há um objectivo nestas "regras", que é o arrependimento e a conversão do coração, logo isso é algo que se deve procurar de uma forma ou de outra, com abstinência ou outro sacrifício.

Por fim, este tipo de dúvidas é sempre bom consultar com um sacerdote santo, em particular com o confessor de cada um.

Bom dia de trabalho,
NCB