sábado, 28 de fevereiro de 2015

“Quero que TU sejas feliz!": Uma nova perspectiva sobre o aborto

Quanto mais leio artigos ou oiço debates sobre a legalização do aborto em Portugal mais me fica a sensação de abstracção com que se fala das mulheres: “humilhação da mulher”, “mulher estigmatizada”, “dignidade da mulher”, “o direito da mulher”, etc. É a exaltação exacerbada da mulher, uma mulher que está no centro de tudo, mas que é entendida abstractamente, esquecendo-se o concreto da sua pessoa. Não estaremos a falar da mulher dentro de uma lógica de interesses? Uma vítima escolhida pelos jogos humanos do poder? O que significa “a mulher” se esquecemos “esta mulher”, a sua pessoa, a sua humanidade, o seu desejo de ser feliz?

Parece-me que todos concordamos em não existir “a mulher” em geral, mas sim um “tu”, um tu presente, real, que está grávida e que não sabe muitas vezes que decisão tomar. Está a sofrer e deseja a todo o custo afastar esse sofrimento. Para não sofrer estará disposta a abortar como estaria disposta a arrancar um dente se este lhe doesse. Mas se o estomatologista lhe sugerisse tirar-lhe a dor sem arrancar o dente, certamente aceitaria conservar o dente. Porque o problema não é uma má vontade em relação ao dente, mas em relação à dor. 

O mesmo se passa com esse bebé que, inesperada e indesejadamente, está no seu ventre. Ele perturba os planos pré-definidos, os compromissos assumidos, os sonhos idealizados e por isso faz sofrer. Faz sofrer o seu “eu”. Põe em causa os seus cálculos (ou os do seu parceiro). Faz desabar os seus projetos. E a via mais fácil é acabar com essa dor. Mas o problema não ficará resolvido, a dor permanecerá, talvez durante algum tempo anestesiada, encapotada, mas voltará para lhe recordar que não resolveu o âmago da questão: é que a felicidade não se constrói com base num projecto autodefinido. A exigência que há em cada uma de nós de ser feliz não é uma imagem criada por nós, pela nossa fantasia, mas uma abertura às circunstâncias que nos são dadas viver, justamente no ser capaz de descobrir uma positividade no embate com a realidade.

Ao abortar, a mulher não interrompe uma gravidez, como se fosse possível retomá-la mais tarde. Ela acaba com essa vida. E esse acto vai contra si própria, contra a verdade de si mesma e contra a sua natureza mais profunda. Cada uma de nós foi feita para amar e ser amada, foi feita para se dar e ser correspondida, para descobrir na sua vida, tal como ela é, a possibilidade de ser feliz. Bem sabemos que só se é feliz na carreira, nos bens materiais, no amor humano, no relacionamento com os outros, se não esquecermos a grandeza do nosso coração. O somatório dos nossos desejos e sonhos não preenchem a nossa sede de felicidade. “Há sempre um porto novo por achar”, como afirmava Fernando Pessoa.

Por isso não podemos parcelar a nossa vida. É preciso agarrá-la na totalidade. Sim! Porque o que queremos é ser felizes, cada uma de nós. Então porque não irmos ao fundo da questão? Por que não desprendermo-nos dos nossos cálculos e acreditarmos que esse bebé que está em nós (talvez não “planeado” por nós), possa ser resposta ao nosso desejo de amar e ser amada? Esse bebé, que de nós depende para ser feliz, pode ajudar-nos a descobrir como ser feliz. Esse bebé, que precisa de nós para afirmar o seu ser, pode ser a resposta àquilo que nós precisamos. Confiemos mais e calculemos menos!

Em cada gravidez vejo a grandeza de uma promessa: duas vidas que existem para serem felizes juntas, dois seres tão diferentes, que não se escolheram mas se foram dados, que ainda não se abraçaram mas já se comunicam. E se a mãe não consegue dizer ao seu bebé que o deseja, não impeçamos o bebé de poder ser ele a repetir à sua mãe: “eu quero que tu sejas feliz, feliz comigo”.

Filipa Ribeiro da Cunha, Mulher e Mãe (11 Fev.2015)


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