segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Chesterton descreve na perfeição o que se passa com o Ocidente

Suponhamos que surja numa rua uma grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinzenta, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: 'Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. "Se a luz for em si mesma boa…".

Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todos correm para o poste e deitam-no abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz eléctrica; outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois os seus objectivos eram maus. Alguns interessavam-se pouco pelo poste, outros, muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais. Outros porque queriam destruir alguma coisa. 

Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora temos que discutir no escuro.

G. K. Chesterton in 'Hereges' (1905)


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6 comentários:

Anónimo disse...

Ah isso é porque um poste que ilumina pouco, até as estrelas iluminam mais na escuridão. Esta é a minha filosofia da luz. As evidencias não se discutem vêm-se…

Unknown disse...

É bem verdade e vale como uma parábola.
Quando por qualquer motivo imprevisto a electricidade colapsa nos nossos lares a reposição da normalidade começa por acender um fósforo.
Há o telemóvel, está certo, mas nem sempre está no bolso e o fósforo pode encontrá-lo.
O fósforo acende a vela, o candeeiro a petróleo e tudo se vai refazendo até chegar ao habitual da vida.

Pedro d' Ajuda disse...

É curioso que as regras de segurança exigidas para o navio sair para o mar, incluam uma caixa de fósforos como artigo de primeira necessidade.
As capitanias exigem que nos espaços onde se alojam os faróis de navegação existam candeeiros a petróleo e uma caixa de fósforos com revestimento impermeável.
Porquê isto?
É que os faróis eléctricos podem falhar. E enquanto se conserta a avaria o navio não pode ir sem ser avistado. Os faróis têm de funcionar sempre.
Ora isto vale como uma parábola.
Os meios mais humildes são os mais fiéis, os que menos falham.
Não se podem dispensar
Ouro exemplo, o navio tem agulhas de marear de alta precisão, giroscópicas, electrónicas, tem GPS, enfim não falta nada do necessário à navegação.
Mas não dispensa a velhinha agulha magnética. Essa não falha.
É iluminada, a rosa dos ventos, com lâmpada eléctrica, mas não dispensa uma luz a petróleo, para ser acendida caso a electricidade falhar.
E isto ainda hoje faz parte dos mínimos e indeclináveis requisitos para o navio ser autorizado a navegar

Pedro d' Ajuda.

Anónimo disse...

Pois é, um fósforo pode atear um incêndio

Anónimo disse...

então e uma caixa de fósforos o que pode fazer?

Anónimo disse...

Pedro d' Ajuda... também concordo que é mínimos e indeclináveis requisitos para o navio ser autorizado a navegar: um fósforo, muito importante. Mas quando ele cai à água, não é de perder a cabeça?