quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Reforma Católica vs Reforma Protestante

Um leitor protestante perguntou se tolerar heresias é "honrável" e também perguntou porque é que a Igreja Católica condenava os reformadores protestantes que quiseram fazer a reforma. O leitor escreveu: 

Então o ensinamento herético dentro da Igreja Católica deve manter-se sem reparação porque seria mais honrável? Ou isso só se aplica aos protestantes?

No fundo, esta questão procura perceber a diferença entre "Reforma Protestante" e "Reforma Católica". Esta é uma boa questão e digna de uma resposta longa. Eis a minha pobre tentativa: 

Caro Clamence,

Não podemos combater a heresia criando novas heresias. Por exemplo, de muitos modos a heresia monofisita (i.e. "Cristo tem uma natureza") foi uma reacção exagerada à heresia nestoriana (i.e. "Cristo são duas pessoas"). A Igreja Católica sempre procurou indicar a verdade e não a mera destruição do erro. A refutação do erro passa demasiadas vezes para outro erro pior.

Do mesmo modo, Lutero e Calvino procuraram acabar com as confusões relacionadas com a graça e o mérito (i.e. o defeituoso nominalismo iniciado por William de Ockham) criando uma visão alternativa da graça e do mérito (que ironicamente abraçava o nominalismo de Ockham e reembalava-o). A solução de Lutero era de facto herética. Um pequeno arranjo é várias vezes defeituoso. A fita cola consegue "resolver" quase tudo - mas acaba por ceder a outros problemas.

Os passos da história da Igreja estão cheios de reformadores Católicos: Paulo, Atanásio, João Crisóstomo, Máximo, João Damasceno, Papa Gregório VII, Francisco, Domingos, Catarina de Sena, Inácio, Teresa de Ávila, etc. Cada um destes reformadores Católicos manteve a unidade da Igreja de Cristo, submetia-se à liderança da Igreja e trazia a sua renovação com paciência. Em muitos casos, cada um experimentou perseguição activa de outros cristãos e caíram mesmo sob suspeita de heresia. No entanto, a sua humildade e silêncio eventualmente reforçaram a sua causa como advogados da verdade evangélica da doutrina da Igreja.

São Francisco de Assis é talvez um dos melhores exemplos de paciência nisto das reformas. Quando S. Francisco foi a Roma procurar reconhecimento do Papa, o Papa dispensou-o impacientemente e disse-lhe para ir "deitar-se com os porcos."

Um bocado depois, Francisco regressou sujo com fezes de porco com cheiro até aos altos céus. Quando o Papa se opôs, Francisco respondeu, "Eu obedeci às suas palavras e fiz simplesmente como disse. Deitei-me com os porcos." De repente o Papa percebeu que este era um homem santo que estava disposto a obedecer mesmo na face de humilhação. O Papa ouviu a visão de Francisco para a reforma e o resto é história.

Quando foi rejeitado pelo Papa, São Francisco podia ter recorrido à Sagrada Escritura, mostrando que o seu modo de vida era pobre e humilde como o de Cristo. Ele até podia ter contrastado a sua "vida bíblica" contra a extravagância da corte Papal. Francisco até podia ter repreendido com razão os abades, bispos e cardeais por lhes faltar o testemunho evangélico. Em vez disso, Francisco seguiu o caminho de Cristo. Permitiu-se a si mesmo ser incompreendido e caluniado, sabendo que Deus traria ao de cima a sua justificação... e Deus traz sempre.

Comparem São Francisco com Martinho Lutero. Lutero não visitou Roma para confirmar a sua causa, nem respeitou as estruturas da Igreja. De facto, o Cardeal Cajetan encontrou-se em privado com Lutero e explicou-lhe como podia modificar a sua mensagem de modo a que o próprio Cardeal conseguisse tê-la aprovada pela Cúria Romana. Se Lutero tivesse sido mais calmo e caridoso, podia ter-se tornado "São" Martinho Lutero.

Infelizmente, Lutero foi inflexível e obstinado. Não ia tentar o compromisso. Se o Papa não concordava com ele, então iria rejeitar o papado. Ponto. Lutero não tolerava nenhuma autoridade que não o suportasse imediatamente e sem o questionar. Consequentemente, quando a bula papal chegou, Lutero queimou-a publicamente e começou a amaldiçoar o Papa como o Anticristo.

Reparem na diferença entre Francisco e Lutero. O primeiro moveu-se com calma e humildemente. O último agiu independentemente e de modo rude. Consequentemente, a história do Protestantismo é marcada por divisões rudes e precipitadas - existem agora 36 mil denominações protestantes.

Como escreveu o Apóstolo Tiago: "a ira do homem não produz a justiça de Deus" (Tiago 1, 20). A história mostra que Deus não usa "cabeças-quentes" para guiar a Sua Igreja para a justiça. Deus escolhe aqueles que são pequenos, mansos e humildes - para eles é o reino dos Céus. Eis onde jaz o mistério da Reforma Católica.

Taylor Marshall


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