quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A fé católica e a fidelidade e coragem de confessá-la - D. Athanasius Schneider

Apresentamos o texto da homilia proferida por D. Athanasius Schneider no dia 16 de Julho, Domingo, dia de Nossa Senhora do Carmo, na igreja da Conceição Velha em Lisboa. Muito agradecemos ao Sr. D. Athanasius Schneider as suas palavras inspiradoras.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Caros irmãos e irmãs! Nesta Santa Missa queremos de modo particular expressar a nossa fé católica, renovar a nossa fidelidade à imutável fé católica, e a nossa alegria de poder crer de modo católico. A expressão mais sublime da imutável fé católica é a liturgia, tal como nos foi transmitida organicamente pelos santos Apóstolos. Deve comover-nos o facto de se poder celebrar a Missa não apenas em espírito, mas também exteriormente, como era celebrada por tantos santos durante mais de um milénio e como era celebrada nos dias dos nossos avós e pais.

Não é preciso provar que vivemos hoje num tempo em que a fé católica e apostólica, no seu significado imutável, está sob um ataque generalizado da parte dos inimigos da Igreja. Tal ataque não se manifesta, no momento, através de uma repressão física ou cruenta, mas antes por meio de uma repressão psicológica, de discriminação e marginalização daqueles que professam a verdade católica. Contudo, observamos nos nossos dias também o facto inaudito de que os que permanecem fiéis à fé católica, e a defendem, são por vezes discriminados e marginalizados inclusive na vida da Igreja. 

Isto traz-nos à mente uma situação semelhante descrita por São Basílio, quando no século IV a verdadeira fé era perseguida pelos representantes do clero conformista com a moda intelectual daquele tempo. Escrevia São Basílio: “Hoje os homens são mais inventores de sistemas falaciosos que teólogos; a sabedoria deste mundo ganha os prémios mais altos, mas renegou a glória da Cruz” (Ep. 90, 2). “O único crime que hoje é certo de receber uma punição severa é a atenta conservação das tradições dos padres. Não somos atacados por causa da riqueza, ou da glória, ou de eventuais vantagens temporais. Nós estamos no campo para combater pela nossa herança comum, pelo tesouro da fé verdadeira, transmitida pelos nossos padres” (Ep. 243,  2.4).

 Quão actuais ressoam as seguintes palavras luminosas do Papa Pio XII, proferidas quase há setenta anos: “A Igreja não mendiga favores; a ameaça e a desgraça dos poderes terrenos não a intimidam. Ela não se imiscui em questões meramente políticas ou económicas. […] Ora, é bem notório o que o Estado totalitário e anti-religioso exige e espera dela como preço para a sua tolerância ou para o seu problemático reconhecimento. Ou seja, o Estado quereria uma Igreja que se calasse, quando deveria falar; uma Igreja que debilitasse a lei de Deus, adaptando-a ao gosto dos desejos humanos, quando deveria proclamá-la e defendê-la alto e bom som; uma Igreja que se destacasse do fundamento inconcusso sobre o qual Cristo a edificou, para se deitar comodamente sobre a areia movediça da opinião do dia ou para se abandonar na corrente que passa; uma Igreja que não resistisse à opressão das consciências, e não protegesse os legítimos direitos e a justa liberdade do povo; uma Igreja que com um indecoroso servilismo permanecesse fechada entre as quatro paredes do templo, esquecendo-se do divino mandamento recebido de Cristo: 'Ide às esquinas das ruas' (Mt 22,  9); 'instruí todas as gentes (Mt  28, 19)'” (Discurso aos fiéis, 20 de fevereiro de 1949).

Não importa onde se encontra o perseguidor, se fora ou dentro da Igreja, o que é necessário é a fidelidade à pureza da fé baptismal, isto é, a fidelidade à integridade da fé católica. Convém-nos a todos deixar-nos ser confortados pelo exemplo dos mártires e confessores. O que lhes dava a força de sofrer e a força da paz de alma no meio das tribulações era sobretudo a Sagrada Eucaristia. Quando lemos os testemunhos das suas vidas, encontramos para nós, hoje, o exemplo de sua fé profundíssima no mistério da Santíssima Eucaristia, do seu ardente amor e da sua requintada reverência a este mistério máximo da nossa fé, porque sabiam que a Eucaristia é o Senhor: "Dominus est". E com isso, está tudo dito. Rendamos a Jesus Eucarístico tanta honra, tanta atenção e tanto amor quanto formos capazes, ousemos tanto quanto pudermos.

Quantas vezes os perseguidores irrompiam naqueles lugares escondidos, onde se celebrava o santo sacrifício do altar, e matavam o sacerdote celebrante e todos os que assistiam à Santa Missa: homens, mulheres, idosos e crianças. E naqueles momentos acontecia uma coisa comovente e terrível: o sangue desses mártires – até mesmo crianças – corria sobre a terra e misturava-se com o preciosíssimo Sangue de Cristo sob a espécie do vinho, que os perseguidores, com fins sacrílegos, derramavam no chão. E eis que o Sacrifício de Cristo na Missa e o sacrifício da vida daqueles mártires da Eucaristia se tornavam um único sacrifício. O imenso oceano de amor sacrificial, que é o Sangue de Cristo. Embora esse imenso oceano se escondesse sob as espécies de algumas gotas de vinho, recebia em Si a pequeníssima gota de sangue dos mártires eucarísticos, unindo o sacrifício da sua vida ao Seu único sacrifício de amor.

“Sê fiel até à morte, e eu te darei a coroa da vida” (Ap 2, 10). Estas palavras do Senhor são um dever sagrado para todo o cristão. Ser fiel significa conservar a fé em toda a sua pureza, integridade e beleza, sem alterar esta fé que o Deus uno e trino infundiu na nossa alma. Somente a fé católica é a verdade, porque a Igreja Católica é a única detentora legítima da verdade sobrenatural. Antes do batismo ouvimos esta pergunta: “O que pedes à Igreja?”. A resposta é simples e decisiva: “A Fé”. A próxima pergunta é: “O que te dá a fé?”, e a resposta é novamente muito breve e insuperável: “A vida eterna”. É somente isso que importa.

Estas palavras de São Fiel de Sigmaringen iluminam-nos e encorajam-nos: “Ó fé católica, firme, forte e bem enraizada, o teu fundamento é uma rocha segura! (cfr. Mt 7, 25). O céu e a terra passarão, mas tu não passarás. Todo o mundo desde o princípio se opôs a ti, mas tu triunfaste sobre tudo com força invencível. ‘Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé’ (1 Jo 5, 4). Ela subjugou poderosíssimos reis ao senhorio de Cristo, levou os povos à obediência de Cristo. O que deu aos santos apóstolos e aos mártires força para suportar lutas cruéis e sofrimentos amaríssimos senão a fé, e, acima de tudo, a fé na ressurreição? O que faz com que hoje os verdadeiros cristãos renunciem ao conforto, abandonem os prazeres, suportem dores e sustentem trabalhos? A fé viva, operante pela caridade (cfr Gal 5, 6), fá-los abandonar os bens presentes com a esperança do futuro, e com o futuro mudar o presente”. “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida” (Ap 2, 10). Ámen.


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