sábado, 19 de julho de 2014

O admirável testemunho dos mártires no genocídio de Ruanda

XX Aniversário de um massacre que deixou um milhão de mortos

No ano de 2014 cumprem-se 20 anos de um dos acontecimentos mais horríveis da história recente. No Ruanda produzia-se um autêntico genocídio no qual cerca de um milhão de pessoas foram assassinadas brutalmente em apenas três meses no intento de extermínio dos tutsi por parte dos hutus. Crê-se que neste curto período de tempo conseguiram aniquilar 85% dos tutsis deste país.

Este terrível acontecimento causou um sofrimento extra à Igreja Católica, pois o Ruanda era considerado um dos países mais cristãos de toda a África. O genocídio no qual participou uma parte da sociedade civil deixou em evidência os escassos cimentos da fé de um país no qual alguns sacerdotes e religiosas foram inclusive condenados por participar nos massacres. Mesmo João Paulo II reconhecia esta triste realidade em 1996 quando dizia que “todos os membros da Igreja que pecaram durante o genocídio” tinham que “ter a valentia de aceitar as consequências dos actos que cometeram contra Deus e contra o seu próximo”.

O sangue dos mártires da Igreja


Sem dúvida, também houve um comportamento heróico da Igreja e agora Ruanda está banhado pelo sangre dos mártires. A sua fidelidade ao Evangelho fez que três bispos, uma centena de sacerdotes e até 117 religiosos e religio- sas fossem assassinados.

Além disso, milhares de leigos foram assassinados das maneiras mais horríveis por serem cristãos e negarem-se a actuar contra a vontade de Deus. É o caso dos mártires do Caminho Neocatecumenal. Centenas de irmãos desta realidade eclesial foram assassinados por negar-se a matar outros, por protegerem tutsis e por formar parte de comunidades nas quais os tutsis, os hutus e os twa se amavam e conviviam.
Um relato sobre as mortes dos irmãos

A revista Communio recolhia em 1995 o testemunho destes mártires. Enrico Zabeo, um sacerdote italiano responsável do Caminho Neocatecumenal no Ruanda, relatava numa carta enviada em 1994 à sua paróquia em Roma a sua experiência durante essas semanas e o firme testemunho de fé dos irmãos ruandeses e como muito tinham morrido rezando pelos seus verdugos.

O padre Zabeo conseguiu escapar para as colinas junto com o espanhol Ignacio Moreno e a francesa Jeanne Watrelot, responsáveis desta realidade no Ruanda, e assim salvar a vida ainda que algum tempo depois voltassem às cidades para procurar os irmãos das comunidades e os sacerdotes.

Na carta enviada à sua paróquia de Roma dizia que os irmãos “tinham sido marcados pela presença do Senhor ao seu lado” e explicava que “nas comunidades neocatecumenais do sul há muitíssimos irmãos mortos; em Kigali as coisas tinham sido um pouco melhor”.

“Morreu rezando pelos assassinos”

Mas apesar das enormes dificuldades e o medo os sobreviventes imediatamente se procuraram uns aos outros para reunir-se nas celebrações da Eucaristia e da Palavra. Contava este sacerdote “dizem ter experimentado a Ressurreição: ter passado de morte anunciada em morte anunciada, vendo como a Páscoa se fazia realidade, quer dizer, vendo a intervenção de Deus que os livrava da morte ali onde humanamente teriam que ter sido mortos”.

O padre Zabeo resumia na sua carta alguns dos testemunhos que tinham podido recolher depois de encontrar-se com os sobreviventes. “Duas raparigas, em situações diferentes, por duas vezes foram arrojadas ao buraco com outros cadáveres, cheias de feridas e pancadas, e por duas vezes conseguiram sair dele encontrando a salvação. Outra rapariga (…) morreu rezando pelos assassinos que a fizeram em pedaços.(…) Em Butare soubemos de um rapaz do Caminho a quem assassinaram por não ter aceitado matar, de outro disposto a morrer por ter escondido duas irmãs procuradas pelos assassinos”.

“Escutar os testemunhos dos irmãos foi para mim um grande consolo. Ver a iluminação de alguns irmãos e irmãs foi uma catequese inigualável: feita de acontecimentos de vida, não de palavras vazias”, dizia na sua carta o catequista itinerante do Ruanda.

Em Ruanda o Caminho Neocatecumenal estava presente desde 1989 e no momento do genocídio havia um total de 19 comunidades, em 8 paróquias repartidas por cinco dioceses.

Rezar o Rosário durante o martírio

Uns destes mártires foram Jean Baptiste e Bernardette, casal responsável da primeira comunidade de Nyanza. Conta Enrico Zabeo na carta recolhida por Communio que “fizeram-nos sair de casa e os espancaram com paus. Enquanto os golpeavam Jean Baptiste gritava: ‘porque me fazeis isto? Que mal fiz?’. Recorda a Paixão. Bernardette por outro lado calada e a cada golpe fazia correr uma conta do Rosário.” Levaram ambos ao matadouro e ali os mataram a catanadas arrojando-os na fossa comum. “Faço notar (acrescentava) que ao mata- douro foram conduzidos também muitos outros irmãos de Nyanza”. Além disso, ressaltava “a crueldade contra os irmãos das comunidades acusados de reunir-se de noite (as celebrações!) para tramar contra o regime”, utilizando isto como pretexto.

“Um jovem irmão, Innocent Habyarimana, sobrevivente dos massacres junto à sua mulher Eugénie e à sua menina, contava-nos que durante a sua fuga tinha ouvido os milicianos, também eles fugitivos de Nyanza, contar admirados o modo como os irmãos das comunidades tinham morrido. Aos milicianos tinha-os chocado a dignidade e serenidade com que os irmãos afrontavam a mor- te: de maneira totalmente diferente dos demais. Os irmãos, de facto, entregavam-se sem resistência, sem desesperar-se, sem insultar e sem odiar”, recordava.

Também as crianças respondiam com heroicidade

Na sua carta, afirmava que esta atitude, “que certamente não significava a ausência de medo, era própria também dos filhos pequenos dos irmãos”. A estas crianças, os milicianos gritavam troçando deles: “ensinaram-vos bem nas vossas reuniões nocturnas a disciplina para enfrentar a morte”.

Uma morte brutal teve também a irmã Françoise, religiosa e catequista do Caminho Neocatecumenal. Foi vítima de múltiplas catanadas e dada por morta pelo que foi arrojada num profundo buraco junto com outra irmã. “Durante três dias ouviram-se os seus lamentos e em vão as monjas sobreviventes, anciãs e medrosas, tentaram tirá-la para fora lançando-lhe uma corda, também por culpa das fracturas e feridas dos braços. As irmãs recorreram então à polícia que, em vez de enviar os socorristas, enviou os milicianos, aqueles lançaram pedras no buraco, acabando com a irmã Françoise e fechando o buraco com terra”.

Também a jovem Grace Uwera, de somente 25 anos, teve uma morte admirável. “O relato tão simples e bonito, é digno dos mártires da primitiva Igreja, e convergem (segundo conta o padre Zabeo) num ponto: Grace morreu pedindo a Deus pelos seus assassinos”.
Abriu a Bíblia e rezou pelos seus assassinos Quando chegaram os assassinos por ela, conseguiu fugir com a sua Bíblia mas uma vez “apanhada pelos milicianos Grace foi levada a um posto de controlo no qual se faziam as execuções e onde estava a vala comum. Antes de ser assassinada pediu um tempo para rezar. Disse aos seus assassinos: mundekere akanya, nisabire nkabasabira: ‘deixai-me um momento para rezar por mim e também por vós’. Pegando na sua Bíblia abriu-a, leu, rezou e depois dirigiu-se aos assassinos dizendo: ‘agora fazei o que quereis´. E ofereceu a cabeça”. Primeiro foi golpeada com uma enxada e depois mataram-na a catanadas.

Estes são só alguns dos testemunhos dos irmãos de Nyanza. Houve irmãos hutus que jogaram a vida escondendo tutsis da comunidade tal como fizeram os twa (pigmeus). E o sacerdote italiano afirmava que “quando reunimos de novo os ir- mãos sobreviventes de Nyanza, contamos 51 entre as seis comunidades”. Um autêntico massacre.

“Mesmo tendo nada, tinham tudo”

Também conseguiram encontrar outros membros das comunidades do resto de Ruanda. Num acampamento de refugiados puderam estar com dez jovens que tendo estado escondidas nas colinas continuavam levando a cabo a celebração da Palavra. Contava admirado o padre Enrico Zabeo que era “impressionante constatar que não proferiam palavra alguma de tristeza, de raiva, lamento ou murmúrio. E sem dúvida, desde há já 6 meses não tinham nada e comiam grãos de milho com feijão cozidos, e só isso! A Palavra saciava-os. Impressionou-nos verdadeiramente a sua alegria”. Emocionado, este sacerdote italiano acrescenta que “ainda não tendo nada, tinham tudo! “.

Um dia depois acharam outro irmão, Vedaste, que arriscou a sua vida em várias ocasiões “debaixo das ameaças dos milicianos porque ia visitar as irmãs tutsis ao acampamento, sendo ele hutu”.

Também heróico foi o comportamento de Faustin, o responsável da comunidade.

“Contou-nos que os milicianos foram buscá-lo para o obrigar a unir-se às milícias nos massacres. Faustin, chamando a mulher e os filhos, fez pública profissão de fé dizendo: ‘desejamos ser cristãos e não queremos fazer nada contra a lei de Deus; não queremos fazer dano a ninguém, nem eu, nem a minha mulher, nem os meus filhos. Aqui estamos todos. Fazei de nós o que quereis, mas ne- nhum da nossa família fará algo que esteja mal”. O soldado marcou-lhe a cara com uma baioneta e golpeou-o mas não os matou. O que fez foi abrir uma enorme vala comum debaixo da sua casa para que visse todas as execuções.

“Temos em essência um batalhão inumerável de irmãos que rezam por nós. TE MARTYRUM CANDIDATUS LAUDAT EXERCITUS” (o branco exército dos mártires), concluía Enrico Zabeo.



in sumateologica.wordpress.com


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2 comentários:

Rui Almeida disse...

Apenas um reparo: o Papa S. João Paulo II não precisou de 2 anos para se pronunciar, como é referido. Pronunciou-se pouco mais de um mês depois, no ângelus de 15 de Maio de 1994, sem omitir a responsabilidade de católicos: «Sento il dovere di evocare, oggi ancora, le violenze di cui sono vittime le popolazioni del Rwanda. Si tratta di un vero e proprio genocidio, di cui purtroppo sono responsabili anche dei cattolici. Giorno per giorno sono vicino a questo popolo in agonia e vorrei nuovamente richiamare la coscienza di tutti quelli che pianificano questi massacri e li eseguono. Essi stanno portando il paese verso l’abisso. Tutti dovranno rispondere dei loro crimini davanti alla storia e, anzitutto, davanti a Dio. Basta col sangue! Dio attende da tutti i Rwandesi, con l’aiuto dei paesi amici, un risveglio morale: il coraggio del perdono e della fratellanza.»

João Silveira disse...

Obrigado Rui. O texto, que não é da nossa autoria, não diz que o Papa João Paulo II só se pronunciou em relação ao massacre apenas em 1996, mas sim que nesse ano criticou os membros da Igreja que tinham participado activamente no massacre.