quinta-feira, 7 de maio de 2015

Católico e maçon, será possível? - Entrevista a Maurice Caillet

Quais as razões que levaram o Padre Michel Riquet, jesuíta, a defender a maçonaria?
R. O Padre Riquet deu-se com maçons no período da Resistência (1940-1945) ; alguns deles tornaram-se seus amigos; nada mais natural. Mais tarde, ele aceitou, com toda a ingenuidade, um convite de uma loja, em Laval, em 1961, e ficou seduzido pela parte do ritual que aceitaram revelar-lhe, pois os maçons nunca mostram a totalidade do ritual a um profano. Não sei se ele tinha autorização dos superiores da Companhia de Jesus, mas o seu caso não foi único. Há outros jesuítas, ainda hoje, a defender a ideia de que é possível ser católico e maçon. Por exemplo, o Padre José António Ferrer Benimelli, historiador em Saragoça. O Padre Jean-Marie Glé, do serviço Incroyance et foi. O Padre Étienne Perrot, em Genebra (cf. o seu artigo em Croire aujourd'hui, de 15-4-2006), e outros. 

Confundem tolerância e sincretismo — uma « açorda » espiritual! O diálogo é sempre desejável, mas não deve levar a abalar os fundamentos da Fé. Aliás, houve reuniões, nos anos 1970/1980, entre a Igreja Católica e as Grandes Lojas Unidas da Alemanha, e chegaram à conclusão, em ambos os lados, que não é possível, razoavelmente, pertencer, simultaneamente, à Igreja e à maçonaria. E o debate incidia apenas sobre os três primeiros graus da iniciação, por os maçons se terem recusado a abordar os graus superiores…

Já sofreu pressões ou ameaças por parte de maçons?
R. Sim. Mais precisamente depois da minha conversão e quando tinha ainda responsabilidades na Segurança Social. Recebi, até, uma ameaça de morte por parte de um responsável da Grande Loge de France,quando manifestei a minha intenção de apresentar queixa nosPrud'hommes [tribunal profissional]. Devo confessar que há, no entanto, idealistas incorrigíveis entre os maçons, como, por exemplo, este irmão 33.º grau que, depois de ler o meu primeiro livro, me escreveu : « Congratulo-me por teres encontrado a Luz que eu próprio procuro há tanto tempo!»

Já participou em missas negras?
R. Não, nunca. Mas sabe-se que tem havido profanações desse género, sobretudo no início do século xx. Basta ler os testemunhos da Madre Yvonne-Aimée de Jesus, prioresa-geral das agostinhas hospitaleiras de Malestroit, na Bretanha, a quem o próprio Jesus informava da presença de hóstias consagradas em casas de certos profanadores. Ela ia buscá-las, para grande espanto dos culpados. 

Por outro lado, fiquei bastante impressionado com o ritual da minha última iniciação, 18.º grau, Cavaleiro Rosa-Cruz: esta, com o nome de «Ceia», tem lugar na noite de Quinta-Feira Santa, com partilha de pão e de vinho, sem consagração felizmente! O Senhor preservou-me de conhecer directamente os rituais dos graus superiores ; mas sei que no 30.º (Grande Eleito Cavaleiro Kadosh) — e isto foi também confirmado por D. Joseph Stimpfle, bispo de Augsburgo, que participou nas já referidas reuniões, na Alemanha —, o iniciado lança no chão a tiara do Papa.

Será possível definir a maçonaria como uma seita?
R. É a designação que lhe dá o Papa Leão XIII, na sua encíclica Humanum Genus (1884). No que diz respeito às lojas de base, não se pode falar em seita, porque o seu funcionamento é democrático, em todos os níveis da pirâmide hierárquica. Agora, os altos graus funcionam por cooptação e com progressivo secretismo. A influência intelectual e psicológica dos graus superiores sobre os inferiores induz um «efeito Janis» , ou pensamento gregário, em que cada um tende a conformar-se com o «espírito da casa» para aceder aos escalões superiores. Seja como for, é pouco provável que a maçonaria venha a ser catalogada como seita, pois, em França, a UNADFI (Union Nationale des Associations de Défense des Familles et de l'Individu Victimes des Sectes), que combate as seitas, é presidida por Catherine Picard, filiada na maçonaria!

É possível deixar de ser maçon?
R. As Constituições e Regulamentos prevêem a possibilidade de abandonar as lojas de base, e também os altos graus, mas, na realidade, o maçon que se demite volta a ser constantemente contactado; os responsáveis da loja vêm dizer-lhe que as iniciações o marcaram de maneira indelével — o que é falso —, e que poderá, a todo o momento, retomar o seu lugar «sobre as colunas», sem ser obrigado a recomeçar as iniciações — o que é verdade. Eu próprio, fui contactado por ex-amigos e irmãos, que me diziam que a minha conversão não impedia o meu regresso à loja. 

A minha resposta deixava-os sem voz : «O que é que havia de encontrar agora na loja, eu que encontrei Jesus Cristo ?» Mas os maçons comprometidos em casos políticos ou financeiros podem ser sujeitos a chantagem por parte dos seus «irmãos» e hesitar em deixá-los por medo das represálias. Em todo o caso, são raros os que ousam dizer publicamente que abandonaram as lojas. Conhece-se o caso do Reverendo Michel Viot, protestante, que se tornou padre da Igreja Católica depois de abandonar a maçonaria.

A este propósito, porque é que as relações entre o protestantismo e a maçonaria não são conflituosas?
R. Primeiro, porque a maçonaria moderna foi fundada por dois pastores protestantes, um anglicano e o outro presbiteriano, e porque, durante muito tempo, os dignitários das comunidades anglicanas tiveram responsabilidades na maçonaria anglo-saxónica. Assim, o rei de Inglaterra é, de direito, Grão-Mestre da maçonaria (a actual rainha faz-se representar pelo duque de Kent, pois a maçonaria inglesa não admite mulheres sobre as suas «colunas»). 

Convém, no entanto, referir que, ultimamente, a High Church tem desaconselhado a dupla filiação, a exemplo da Igreja Romana. Por outro lado, a independência de consciência do maçon em relação a Deus coaduna-se muito bem com o livre exame do protestante, de maneira que estes são bastante numerosos nas lojas. Os judeus também.

Existe alguma aliança entre o judaismo e a maçonaria?
R. Católicos integristas defendem a ideia de uma conspiração judeo-maçónica para a conquista do mundo ; não acredito nisto, nem no famoso Protocolo dos Sábios de Sião, que não passa de uma falsificação escrita por um russo mais que iluminado. Tão-pouco se deve dar crédito às Instruções da maçonaria aos bispos maçons: a pobreza do texto basta para o desacreditar ; não é digno nem dos bispos nem dos maçons. 

O facto de a maçonaria estar a ser frequentemente instrumentalizada por Satanás não nos deve levar a diabolizá-la exageradamente, pois o que é excessivo é insignificante ; basta recomendar aos católicos que não entrem na maçonaria, pois nela não há qualquer espécie de vantagem espiritual que se possa encontrar… A não ser que se procurem vantagens materiais… mas com prejuízo da sua alma.

Haverá ligações entre a maçonaria e clubes como o Rotary Club e o Lion's Club?
R. Não se pode negar que estes clubes foram criados nos Estados Unidos da América por maçons dos altos graus (que encontramos também na origem dos Mormons e das Testemunhas de Jeová). Nestes clubes, de fachada mundana e aparência inócua, existe um certo número de maçons encarregados de aliciar discretamente as individualidades «interessantes».

Como é que os maçons se reconhecem uns aos outros?
R. Conforme os graus, o iniciado aprende « sinais e toques » que lhe permitem reconhecer os irmãos numa assembleia de profanos. São saudações especiais, apertos de mão significativos… Por outro lado, na maioria das cidades francesas, os mestres dispõem de um pequeno guia com os nomes e os endereços dos irmãos que podem servir de albergue. Podem também inserir na sua assinatura pequenos sinais que o iniciado reconhece facilmente.

Quais são as relações entre a maçonaria e o islão?
R. Tirando alguns intelectuais árabes a viver nos países ocidentais, os muçulmanos não têm a ingenuidade, ou a inconsideração, de quererem entrar na maçonaria… Os únicos países muçulmanos onde houve lojas maçónicas foram o Líbano, devido ao seu cosmopolitismo, o Egipto, no tempo da ocupação inglesa, e a Turquia, mais ocidentalizada do que os seus vizinhos.

Qual foi a situação da maçonaria durante a ocupação da França pelos nazis?
R. O governo de Vichy proibiu a maçonaria e ordenou perquisições nas lojas ; os arquivos viriam a ser encontrados, mais tarde, na Alemanha… Maçons foram presos e deportados. Isso explica a animosidade dos maçons em relação ao regime de Vichy e o seu acentuado secretismo depois da Libertação.

Os rituais da maçonaria comportam elementos de magia, de ocultismo ?
R. Sim, e, muitas vezes, os próprios maçons não têm consciência disso. É assim que a «cadeia de união», que reúne os irmãos no fim de cada reunião ou sessão branca, visa, na realidade, a reforçar a egrégore, isto é, a força mental do grupo com vista à transformação do mundo profano à sua volta. Além disso, venera-se nas lojas a serpente Uroboros, instigadora da desobediência. Já falei dos rituais « pouco católicos » dos graus superiores ao 18.º.

Qual é a influência da maçonaria na política francesa?
R. Esta influência tem variado consoante as épocas. Foi muito forte durante a III República (1871-1940), com inúmeros Presidentes da República e Presidentes do Conselho oriundos das lojas. Maçons como Jules Ferry e Émile Combes estiveram na origem das leis de separação da Igreja e do Estado, em 1905. Durante a IV República (1946-1958) e a V (a actual), a influência não se tem feito sentir tão fortemente como dantes, sendo porém talvez mais perniciosa, chegando a perverter o sistema democrático. Houve alturas em que, no Parlamento, os maçons eram tão numerosos à direita como à esquerda (exceptuando o Partido Comunista e a Frente Nacional). A lei Veil sobre o aborto foi adoptada por um voto maciço dos maçons de esquerda e de direita, independentemente das suas divergências ideológicas no plano político. Foi por isso que preconizei, em 2005, a separação da maçonaria e do Estado (cf. L'Homme Nouveau, n.o 1356).

in Do Portugal Profundo


blogger

Sem comentários: