quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Mulheres torturadas em casa? - G.K. Chesterton

Em sua casa, uma mulher pode ser decoradora, contadora-de-histórias, desenhadora de moda, expert em cozinha, professora... Mais que uma profissão, o que ela desenvolve são vinte passatempos e todos os seus talentos. Por isso não se faz estagnada e estreita mentalmente, mas sim criativa e livre. 

Esta é a substância do que foi o papel histórico da mulher. Não nego que muitas foram maltratadas e inclusive torturadas, mas duvido que tenham sido torturadas tanto como agora, quando se pretende que levem as rédeas da família e ao mesmo tempo triunfem profissionalmente. Não nego que antes a vida era mais dura para as mulheres que para os homens. Por isso nos vemos ante elas.

É a mesma Natureza que rodeia a mulher de filhos muito pequenos que requerem que se lhes ensine não qualquer coisa, mas sim todas as coisas. Os bebés não necessitam aprender um ofício, mas sim que se lhes introduza a um mundo inteiro. A criança é um ser humano capaz de fazer todas as perguntas possíveis, e muitas das impossíveis. Se alguém diz que responder a essa criança insaciável é uma tarefa exaustiva, tem razão. Se diz que é uma tarefa desagradável, admito que pode ser tão desagradável como a de um cirurgião ou bombeiro. 

Em contrapartida, quando alguém diz que essa tarefa feminina não é apenas cansativa, mas também trivial e odiosa, é-me impossível entender o que querem dizer. Se odioso quer dizer insignificante, descolorido e intranscedente, confesso que não o entendo. Porque decidir e organizar quase tudo; ser ministra da economia que investe e compra roupas, livros, materiais e comidas; ser Aristóteles que ensina lógica, ética, bons costumes e higiene... Tudo isto pode deixar a uma pessoa exausta, mas o que não posso imaginar é como poderia fazê-la estreita e limitada.

A maneira mais breve de resumir a minha postura é afirmar que a mulher representa a ideia de saúde mental, é o lar intelectual à que a mente regressará depois de cada excursão pela extravagância. Corrigir cada aventura e extravagância com o seu antídoto de senso comum não é - como parecem pensar muitos - ter a posição de um escravo. É estar na posição de um Aristóteles ou de um Spencer, isto é, possuir uma moral universal, um sistema completo de pensamento. 

Uma mulher assim tem que saber equilibrar muito para consertar e resolver quase tudo, para adaptar-se ao que faz falta. E equilibrar pode ser próprio de pessoas cobardes, que se aconchegam ao mais forte. Mas também define as pessoas de carácter nobre, que se colocam sempre ao lado do mais fraco, como o marinheiro que equilibra um barco sentando-se onde há necessidade do seu peso. Assim é a mulher, o seu trabalho é generoso, perigoso e romântico. A sua carga é pesada, mas a humanidade pensou que valia a pena colocar esse peso nas mulheres para manter o senso comum no mundo.

in “La mujer y la familia”, Editorial Styria


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4 comentários:

A disse...

Será que o autor se sente/sentiu torturado por lhe ter sido alguma vez exigido que tomasse as rédeas da família ao mesmo tempo que triunfe profissionalmente? Não creio, parece-me que o autor fala do que nem conhece, ou os conservadores sem que tenhamos percebido chegam ao ridículo de ainda defenderem ou acreditarem que as mulheres estariam melhor como nos primórdios em casa a tratar dos filhos? Transparece essa ideia e se assim é, então trata-se de um caso, quase de saúde mental.
Nem todos têm vocação para ser cirurgiões ou bombeiros, e sem vocação tudo pode ser desagradável, por exemplo mudar a fraldinhas, limpar o pó, apagar fogos… é também certo que embora todos tenham vocação sexual, nem todos têm vocação parental.
(…) esta não é, nem nunca devera ser vista como uma “tarefa feminina”. Debatem-se há anos os homens para que os meninos também brinque com bonecas e agora falamos de “tarefas femininas”? Isso está em extinção há seculorum. Só não se extinguirá o que não for possível contornar, o que é pouco (força etc por enquanto…)
Se alguém definiu a tarefa ao autor como “trivial e odiosa”, deveria ter satisfeito todas as dúvidas qto às designações apresentadas, mas não é difícil perceber… Organizar, gerir, comprar, ensinar, tudo isto já quando eu nasci era tarefa de pai e de mãe,(hetero!!) no mundo em que vivo. No do autor não sei, no autor do blog ignoro.…
É natural que se for apenas a mulher a fazer tarefas obrigatórias que, apesar de úteis e relevantes a impeçam de desenvolver outros projetos do seu interesse essenciais para a sua realização como mulher, é claro que qualquer tarefa boa e salutar se torna odiosa, porque somos livres e não escravos!!! Somos livres das nossas vontades e não da dos outros. O reduzido contacto interpessoal de quem se dedica quase a 100% aos filhos ou netos acaba por ser insuportável, roubando o tempo e o espaço que todos temos e precisamos de ter para nós, para “sermos nós mesmos”. Sermos nós não é nem sermos escravos nem senhores, nem Aristóteles nem Spencer, é ser Maria, é ser Ana é ser Marta, Josefina e Miquelina…. Não é representar ideias (de quem? E para quem? Muito menos ser antídoto de correção de extravagâncias! Não é assumir papeis em que se não enquadra, nem equilibrar barcos furados!!! Não há mulheres assim! Há circunstâncias e necessidades assim… e dela, sempre gritou e gritará o desejo de ser Pessoa coerente, com os seus desejos, vontades, aspirações, ambições. Equilibrando ou desequilibrando suportando ou não suportando o barco, ficar ou abandonar…
Dizer que o trabalho da mulher é generoso, perigoso e romântico, é tão naïf quanto chocante e de outro século. Parece-me na linha da Ophelia de John Everett Millais… Não sei onde vão buscar estes textos escolhidos a dedo realmente, dentro da mesma mentalidade híper conservadora quase a roçar, sem ofensa, o “insuportável”.

Antônimo disse...

Miiquelina? Isso nem no século vinte.
Organizar, gerir, comprar e ensinar: eis a extrema esquerda no poder.

Anónimo disse...

Sim,claro, que tinha de usar os nomes correspondentes ao estilo... mas está enganado antónimo... quer dizer antônimo, é que em Portugal ainda existem Miquelinas, raras é verdade, eu só conheci uma, a costureira que vivia na praceta ao pé da casa, que fazia umas bainhas para ganhar uns trocos... Sou dextra graças a Deus... Olhe passemos a assuntos mais importantes... como é que vai o Brasil?

Marta Saraiva disse...

É que só podem estar a gozar!E a gozar com muitas mulheres. A começar por todas aquelas que trabalham porque precisam, continuando nas que trabalham porque querem, porque gostam, e que assim são úteis ao mundo. Também estão a gozar com as mulheres que se mataram (literalmente) pela sua independência económica, para não dependerem de maridos tantas vezes abusivos, nem de filhos.

Parece que na vossa cabeça, devíamos continuar no modelo de sociedade da Palestina sec I ou qualquer coisa parecida. Não, obrigada.

Aos homens, percebo que seja complicado adaptarem-se a um mundo em que as mulheres são, pelo menos na teoria - na prática falta tanta, mas tanta coisa-, vossas IGUAIS!Habituem-se, adaptem-se, arranjem um psicólogo, falem com o Padre, vão para o seminário, ganhem mundo, o que melhor vos servir. Às mulheres que acreditam nisto, nem devem perceber o quão humilhante isto é.

São porcariazinhas como este artigo que afastam tanta, mas tanta tanta gente da Igreja. E ainda bem, porque desta igreja só se pode querer é distância, não vá a coisa pegar-se. Mas reconheço a eficácia.

E depois o artigo é uma risada! Se comparam uma dona de casa a uma ministra da economia, então apetece dizer que as mulheres é que deviam ser sempre ministras da economia! Porque investem o que é de todos, o que é comum, administram, tomam decisões para a família... enquanto o marido anda a curti-las na empresa (onde há sempre a boazona da contabilidade para se distrair) e a ganhar porreiramente. Um modelo possível de sociedade seria... 5 anos desta vida de protótipo de Ministra para ganhar rodagem e depois ter um Governo só de mães de família. Aos homens fica reservada a tarefa de fazer o que as mulheres decidam que eles façam. Eu compro o modelo.

"Tudo isto pode deixar a uma pessoa exausta, mas o que não posso imaginar é como poderia fazê-la estreita e limitada." Eu também não (a teoria parece o céu na terra,*) mas já vi tanta jovem mãezinha voluntariamente burra que só tem conversa de leite azedo - para além do cheiro- ou conversa CC (criadas e cozinha) que a minha imaginação capitulou...

OBVIAMENTE que em todas as festas, jantares, cafés etc em que me cruzei com esta espécie, a minha cabeça de "produto acabado dos anos 90 espiritualmente deformado pelo igualitarismo* marxista e os dramas do libertarianismo pós moderno, e (coitadinha) filha de pais separados" não aguentou tanta largura intelectual... lá tive de largar este grupo de deusas Aristotélicas e ir ter a conversa possível com o grupinho dos maridos delas e deleitar-me a ver a supervisão conjugal das senhoras.

Só mais duas coisas... Nunca consegui perceber como é de que um Livro - a Bíblia - cheio de mulheres fortíssimas, inteligentes e audazes, se concluem indigências como a do artigo. Nem quero. A ideia que nos tentam fazer passar de Nossa Senhora como uma doméstica tótó e submissa não tem a mínima correspondência no texto Bíblico. E se há coisa que também não se retira do txt dos Evangelhos é que Jesus fosse de alguma forma machista ou sobranceiro. Então porque é que vocês o são?


* Tal e qual como aquelas coisas que o fofinho do Marx dizia, go figure...
**Igualitarismo e não igualdade