terça-feira, 8 de novembro de 2016

Da meditação sobre a Morte - Imitação de Cristo

1. Bem depressa chegará o teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas. Hoje o homem está vivo e amanhã já não existe. E logo que se perder da vista, assim mesmo perder-se-á da memória. Oh, cegueira e dureza de coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo, deverias proceder em todas as tuas obras e pensamentos, como se já fosse a hora da morte. Se tivesses boa consciência, não temerias demasiado a morte. Melhor fora evitares o pecado do que fugires da morte. Se não estás preparado hoje, como estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto; sabes tu se lá chegarás?

2. Que nos aproveita viver muito tempo, se tão pouco nos emendamos? Infelizmente, nem sempre a longa vida nos torna melhores, antes, muitas vezes, aumenta-nos as culpas. Oxalá tivéssemos vivido bem, ao menos um só dia, neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; frequentemente, porém, pouco é o fruto da sua emenda. Se morrer mete medo, talvez seja ainda mais perigoso viver muito. Feliz aquele que medita sobre a hora da morte, e para ela se dispõe em cada dia. Se já viste alguém morrer, considera que também passarás pelo mesmo caminho.

3. Logo de manhã, pensa que poderás não chegar à noite, e à noite não consideres seguro o dia seguinte. Por isso, anda sempre preparado, vivendo de tal modo que a morte nunca te encontre desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois, «na hora em que menos se espera, virá o Filho do Homem» (Lc 12, 40). Quando chegar aquela hora derradeira, então começarás a pensar muito seriamente sobre a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e leviano.

4. Quão feliz e prudente é aquele que procura ter uma vida santa, tal como deseja que a morte o encontre! O que dará grande confiança duma morte abençoada é o grande desprezo do mundo, o desejo ardente de progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo, e a paciência de sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade. É fácil praticares o bem enquanto tiveres saúde; mas quando estiveres enfermo, não sei o que poderás fazer. Poucos melhoram com a enfermidade; assim como também, entre aqueles que andam em muitas peregrinações, raros são os que se santificam.

5. Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio da tua salvação, porque, mais depressa do que pensas, os homens esquecer-te-ão. É preferível providenciares agora, fazendo todo o bem possível, do que esperares mais tarde pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Muito precioso é o tempo presente: «Agora são os dias de salvação, agora é o tempo favorável» (2 Cor 6, 2). Que pena não aproveitares espiritualmente todo este tempo, pelo qual poderás alcançar o prémio da Vida eterna! Depressa chegará o tempo em que desejarás um dia, ou pelo menos uma hora, para te emendares, e não sei se o alcançarás.

6. Ah, caríssimo irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos temores poderias fugir, se andasses sempre prevenido e desconfiado da morte! Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte antes tenhas motivos para te alegrar do que para temer. Aprende agora a desprezar o mundo, para poderes, à última hora, voar livremente para Cristo. Castiga agora pela penitência o teu corpo, a fim de então poderes ter legítima confiança e paz.

7. Oh, insensato, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos se deixaram enganar, e repentinamente foram arrancados do seu corpo! Quantas vezes ouviste dizer: Este morreu à espada, aquele afogou-se; este outro, caindo do alto, partiu a cabeça; um expirou quando comia, outro quando jogava; estes morreram pelo fogo, aqueles pelo ferro; uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões. Assim acaba a vida do homem, que o fim de todos é a morte, e «a vida passa tão depressa como a sombra» (Sl 143, 4; Job 14, 10).

8. Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Irmão caríssimo, faz já todo o bem que puderes; pois não sabes quando morrerás, nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto ainda tens tempo, acumula riquezas espirituais. Cuida bem da tua salvação eterna; ocupa-te sobretudo das coisas de Deus. «Granjeia agora amigos espirituais (venerando os Santos de Deus e imitando as suas virtudes), para que, quando saíres desta vida, eles te recebam na eterna morada» (Lc 16, 9).

9. Considera-te como hóspede e peregrino deste mundo, não te procupando com os negócios terrenos. Conserva o coração sempre puro e voltado para Deus, porque «não tens aqui morada permanente» (Heb 13, 14). Dirige ao Céu as tuas preces e dores de cada dia, como lágrimas de amor, para que a tua alma, depois da morte, mereça passar ditosamente ao Senhor. Amém. 

in 'Imitação de Cristo', Cap.XXIII


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3 comentários:

popup disse...

Como é possível em 2016 ainda se recorrer a tácticas deste género???? Não consigo entender... pelo medo? Pela ameaça?? Deus é amor! Não é este o caminho! Acordem para a vida, por favor!!!

Anónimo disse...

Morte a pedido, eutanásia, morte assistida.
Uma petição apresentada à Assembleia da República, depoimentos publicados
em jornais, ou opiniões veiculadas pela rádio ou pela televisão, têm contribuído para
uma certa crispação e confusão da opinião pública.
Na realidade, ao falar-se de morte assistida e de suicídio assistido está-se a
praticar uma grave confusão de conceitos. Morte assistida é aquela em que alguém é
assistente, companhia e ajuda. Neste sentido, ninguém quer morrer sozinho, mas sim
na companhia daquele(s) a quem escolhesse para o(a) acompanhar. Na realidade, o
que os proponentes de uma revisão da lei desejam é a legalização da eutanásia, esta
definida como a morte a pedido, que ocorre quando alguém é morto por outrem após
ter dirigido insistente pedido a esta última pessoa (geralmente um profissional de
saúde). O suicídio assistido, por sua vez, consiste numa ajuda ao suicídio, quando a
pessoa solicita a outrem que lhe forneça os meios necessários para se suicidar. Do
ponto de vista de conceito e da prática, trata-se da mesma questão: alguém não quer
continuar a viver e solicita a outra pessoa que a mate ou lhe dê os meios necessários
para conseguir esse fim.
Dizem os proponentes da legalização desta prática que ela se justifica (1) por a
pessoa ter o direito a dispor da sua vida e (2) por haver vidas em que o sofrimento e a
incapacidade retiram toda a qualidade e dignidade a essa mesma vida. Por isso,
doentes incuráveis, em grande sofrimento, lúcidos, deveriam ter o direito de por
termo à vida com a ajuda de terceiros.
Estes argumentos não são consistentes, em primeiro lugar, porque a autonomia
assim invocada, enquanto capacidade de dispor da própria vida, nunca é absoluta,
antes deve ser entendida como autonomia relacional, modulada e influenciada pelo
enquadramento da pessoa no ambiente familiar, social e cultural em que vive.
Ninguém é dono de ninguém, nem sequer do próprio corpo, componente do seu eu
indissociável de todas as outras. A autonomia, em matéria de cuidados de saúde,
nunca é absoluta e, ainda que deva imperar no sentido da autodeterminação,
circunscreve-se sempre num âmbito relacional, mediada pelo estabelecimento duma
relação interpessoal
Quanto ao argumento do sofrimento, este também não resiste à análise crítica.
Se é certo que muitas doenças evoluem com dor e sofrimento, também é verdade que
a medicina encontrou meios terapêuticos poderosos para afastar esses companheiros
da doença. Não obstante, e ainda que possa ser argumentável que haverá sempre uma
réstia de sofrimento ao qual a atual ciência não consegue responder, este deverá, no
nosso entender, impelir a uma procura de resposta efetiva. Certo é que a medicina
actual dispõe de meios para tratar todas as situações dolorosas.
Se a eutanásia e a ajuda ao suicídio fossem legalizadas, as consequências
seriam desastrosas. É claro que seria necessário mudar radicalmente todo o
enquadramento legal, acabando o preceito constitucional de que a vida humana é
inviolável. O princípio básico do respeito pela vida, não como valor mas como
plataforma sobre a qual assentam todos os valores e direitos, seria irremediavelmente
fracturado. O atual enquadramento legal e ético-deontológico das profissões da área
da saúde teria de ser completamente revisto já que, pelo menos os códigos
deontológicos médicos e de enfermagem advogam a vida e defendem o direito da
pessoa doente e, como tal, o dever destes profissionais em promover a dignidade e
qualidade de vida da pessoa que padece de doença incurável e/ou se encontra em fase
terminal de vida.
Não podemos ignorar, ao discutir esta questão, a experiência entretanto
acumulada nos três países em que, há cerca de dez anos, se encontra legalizada a
eutanásia – Bélgica, Holanda e Luxemburgo. A primeira constatação é de que apenas
nestes três países tal aconteceu; a imensa maioria dos estados do mundo não seguiu o
seu exemplo, talvez por se ter verificado que nestes três países o enquadramento legal
e a prática evoluíram no sentido de um alargamento e banalização da eutanásia.

Anónimo disse...

Acresce ainda que associações internacionais (e.g., Organização Mundial da Saúde,
Conselho da Europa e Associação Europeia de Cuidados Paliativos) sustentam a
premissa de que não se deve acelerar nem retardar a morte, estando aqui implícita a
negação das práticas de eutanásia e suicídio assistido e obstinação terapêutica,
respectivamente. A eutanásia, que inicialmente e à semelhança do que agora propõem
os signatários do manifesto, ficava sujeita a regras restritivas e limitada a casos
excepcionais, foi-se tornando cada vez mais abrangente e facilitada, a ponto de
abranger pessoas em coma, inconscientes, pessoas com demências, e até menores de
idade. Na Holanda, neste preciso momento, o Governo prepara-se para legislar de
modo a permitir a eutanásia a pessoas não doentes, sem sofrimento, que devido à sua
idade avançada entendam desejar ser mortas na incerteza de virem a adoecer ou de
ficarem diminuídas ou incapazes.
Acontece ainda que as autoridades médicas rejeitam a eutanásia (os cinco
bastonários da Ordem dos Médicos ainda vivos pronunciaram-se neste sentido) por
entenderem que o dever do médico é respeitar a vida do doente, prestar-lhe todo o
auxílio e cuidado, garantindo a melhor qualidade de vida possível e uma morte digna,
serena, sem dor nem sofrimento. Isto é possível e constitui o objectivo a alcançar.
Não, a eutanásia não é a solução e a sua legalização teria consequências
catastróficas para nós, enquanto indivíduos e cidadãos.
Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa – Porto