sábado, 18 de fevereiro de 2017

O destino dos mornos, segundo Dante

Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, lutas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:

- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?

- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não procuraram fazer o mal. - respondeu o Mestre. - Misturam-se com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o Céu como o inferno os rejeitam.

- Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que se lamentem tanto?

- Em poucas palavras: Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça ignoram-nos. Deixa-os. Olha, e passa.

E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todas nuas, expostas a picadas de enxames de vespas que as feriam em todo o corpo. O sangue escorria, junto com as lágrimas até os pés, onde vermes doentes ainda os roíam.

Dante Alighieri in Divina Comédia, Canto III


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1 comentário:

Anónimo disse...

Não acredito neste relato como verdadeiro, nada o prova. também sou capaz de escrever sobre um inferno inventado por mim, também posso escrever dezenas de páginas, nada do que Dante escreveu é comprovado ter fundamento