segunda-feira, 19 de maio de 2014

Estou tão habituado a ser gay e católico, que já esqueci como isso soa tão estranho

Já nem me lembro de que, para alguns, dizer "homossexual" é referir-se a uma raça diferente, ou até a um género diferente. Já nem me lembro de que alguns cristãos pensam que sou o tipo mais pervertido (mas um pervertido que têm de tratar cordialmente), e de que alguns laicistas pensam que sou o tipo mais hipócrita. Uns por eu sentir atracção por pessoas do mesmo sexo, e os outros por eu não praticar essa atracção.
É melhor lerem de novo a última parte.

Exacto: sinto atracção por homens. Não, eu não durmo com eles, pela mesma razão que montes de católicos não dormem com as pessoas com quem não estão casados. Acho que iam ficar espantados com a quantidade de vezes que as pessoas ouvem a primeira parte (ele é gay) mas não a segunda (ele é celibatário) – apesar da segunda parte ser a única que é da minha responsabilidade.

Certa vez escrevi todo um artigo sobre como é que é isto de ser celibatário e gay e católico, e sabem qual foi a primeira reacção que apareceu na caixa de comentários?"Arrepende-te!".

Não é que sejam assim todos os que descobrem que eu sou gay. Na maioria dos casos, as pessoas a quem disse – principalmente família e amigos – reagem com compaixão e até admiração. Tipicamente dizem "fico contente de que confies em mim ao ponto de me contares isso". Mas mesmo os mais compreensivos nem sempre compreendem o que é que eu estou a dizer, quanto mais não seja porque (ao contrário de mim) não gastaram os últimos 14 anos a descobrir, e também porque a frase"eu sou gay" não é uma frase simples.

Não me incomoda muito a palavra "gay", mas alguns de nós no espaço católico gay preferimos a expressão "atracção pelo mesmo sexo" (ingl. same sex attraction; abrev. SSA). Parece-me mais rigorosa que "gay" ou "queer" ou outras, porque dá a entender que a homossexualidade é qualquer coisa que eu tenho, mais do que qualquer coisa que eu sou. É assim que eu vejo as coisas. Por isso a ideia de cultura gay, direitos gay, casamento gay, e "tudo o mais" gay, é estranha para mim. Seria como falar da cultura "intolerância ao glúten", ou dos direitos "músicos".

Isso não quer dizer que eu não me identifique fortemente com aqueles aspectos do meu ser que é habitual serem associados à ideia de se ser "gay". Tenho sensibilidade musical, sou palavroso, sou intuitivo, tenho um forte sentido estético. Mas os homens com SSA não tem o monopólio dessas coisas, e o facto de eu ter essas características não significa que eu faça parte de uma cultura especial; significa apenas que eu sou eu próprio, e não sou outra pessoa.

Também não quero banalizar a experiência de ter SSA (atracção pelo mesmo sexo). O sexo não é tudo, mas, como qualquer pessoa que tenha disfunção sexual sabe, é muito. Juntem o aspecto sexual às outras coisas que homens e mulheres homossexuais frequentemente experimentam – depressão, baixa auto-estima, solidão, sensação (ainda que falsa) de ser totalmente diferente – e vão descobrir que é uma cruz pesada.

Experimentei fazer tratamentos em todas as áreas que referi, mas ninguém fica totalmente tratado neste lado de cá do céu. A solidão pode ser a pior parte: não a ausência de amigos, porque eu tenho amigos, mas o esforço de abrir caminho para viver numa sociedade que constantemente te está a dizer que o amor romântico é o único acesso para a verdadeira felicidade, e que o celibato (para não dizer a virgindade!) é uma espécie de transtorno psíquico.

Depois há a questão da amizade. Gosto de homens, e vou gostar sempre. Isso não é bizarro, não é estranho, nem sequer é gay. Mas não é tão simples como dizer "vê, mas não toques" – a castidade é uma questão do coração, da alma, das emoções, mas é também uma questão inguinal. O que é que fazes se o teu melhor amigo te excita? Como se aprende a amar outro homem sem o converter num ídolo?

Estas questões continuam presentes em mim mas já nenhuma delas é o centro das atenções. É preciso lutar, rezar e pedir conselho, oferecer eventuais quedas, e levar a nossa vida para a frente. Nenhuma das coisas que tenho de fazer é exclusiva de homens ou mulheres gay. Ser "hetero" não é garantia de ter uma sexualidade saudável, luminosa, integrada; apenas significa que o mesmo concerto musical belo e dramático é tocado numa clave diferente. Ninguém pode saltar fora deste barco.

Mas as coisas melhoram. Se há dez anos alguém me dissesse que a minha vida iria ser como é hoje os meus olhos teriam saltado das órbitas. Nunca imaginei que as coisas pudessem chegar a ser tão boas, que eu me tornaria tão confiante, que muitas vezes eu iria sorrir sem ter nenhuma razão especial.

Você deve estar agora a perguntar como é que eu consegui vir de lá até aqui. Não tenho uma resposta rápida. Foi preciso muita oração e muito trabalho, e o amor e a paciência de irmãos, irmãs, conselheiros, e amigos. Se quer um bom ponto para começar – para si ou para alguém que conheça, ou simplesmente porque quer compreender tudo isto um pouco melhor, eu recomendo fazer uma visita a People Can Change e Courage. Sugiro conseguir um exemplar de Fr. Harvey The Homosexual Person e do livro de Alan Medinger Growth Into Manhood.  Também pode tentar a obra de Melinda Selmys Sexual Authenticity e a de Wesley Hill Washed and Waiting.  E obviamente também há o meu blog.

Mas o mais importante deve ser mesmo isto: é possível, mas sozinho não é possível – e a Igreja pode ser a melhor aliada. Talvez ainda não compreenda porque é que a Igreja ensina o que ensina; mas não desista de a ouvir. Talvez ainda não sinta o amor de Jesus na Missa; então vá mais vezes, não menos vezes. Talvez tenha ido a um padre que não percebeu, então encontre um que perceba.

Acima de tudo, não aceite respostas fáceis, nem da direita nem da esquerda. O caminho mais rápido raramente é o mais correcto, e o chegar pelo mais longo faz a viagem valer a pena.
Joseph Preve in "The Truth About Same Sex Attraction." Catholic Exchange(February 14, 2014)


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9 comentários:

Joao Pedro BM disse...

Aprendi imensas coisas nestas palavras deste homem. Este tipo é um homem a serio.
Muito bom!!!
God bless you Steve!!

Anónimo disse...

Muito elucidativo e bravo!
Sempre a oração :)
R.

Piedade Seisal disse...

Gostei muito, obriga nos a refletir e muito.
Obrigada pelo testemunho

bipride disse...

É impressionante o que uma lavagem cerebral pode fazer...leva uma pessoa a fugir aos seus instintos e possivelmente à sua felicidade plena.

Nuno CB disse...

Caro Bipride,

Obrigado pelo seu comentário.

Uma pessoa deve sempre fugir aos seus instintos se esses forem maus.

Exemplo1: Se uma pessoa está na rua com vontade de ir à casa de banho naturalmente aguenta até chegar a uma WC. Um animal, por outro lado, faz na rua.

Exemplo2: Uma pessoa está num concurso em que se não beber água durante um dia ganha 1 milhão de €, então se estiver com o instinto da sede naturalmente não bebe para ganhar o dinheiro. Um animal, pelo contrário, bebe da primeira poça que encontrar.

A felicidade plena na verdade só se atinge resistindo a alguns. O cristianismo chama a isso virtude da temperança.

Obrigado também a todos os outros comentadores: Joao Pedro BM, Anónimo e Piedade Seisal. Certamente haverão muitos outros casos como este por esse mundo fora. Rejoice!

Obrigado,
NCB

Anónimo disse...

Caro Nuno CB,

agradeço também a sua explicação, principalmente pelo recurso a exemplos, pois facilita a compreensão da mesma.

No entanto, surgiu-me uma questão que se prende com o facto deste caso em particular poder não ser da mesma natureza dos exemplos por si referidos.

Gostava então de lhe perguntar se de facto os acha semelhantes a ponto de comparação e se sim, porquê?

Obrigado

P.S: desculpe o anonimato mas neste momento não me sinto preparado para comentar em meu nome.

Nuno CB disse...

Caro/a Anónimo/a,

Boa pergunta!

É óbvio que os exemplos que eu dei são distintos do caso apresentado neste texto. Mas também são distintos entre si. Além disso, ainda que a natureza (ou a explicação) para eles possa ser diferente, não deixam de ser instintos ou emoções aos quais possamos resistir.

Na verdade, as origens para os nossos instintos podem ser muito variadas.
Mas aquilo que faz do homem um ser especial é precisamente a capacidade que o homem tem de resistir a esses instintos quando percebe que eles não lhe vão fazer bem. Sejam eles quais forem.

O homem é sempre capaz de pôr a razão acima dos instintos para decidir segui-los ou não.

O problema é que nos dias de hoje as pessoas põem as suas emoções/instintos acima da razão ou do intelecto. É uma escravidão total.

Quando é que um instinto deve ser seguido? Quando é usado para o seu fim na altura certa.

A sede é um bom instinto -> faz com que nos mantenhamos vivos ao avisar-nos para beber água quando estamos a precisar dela.

Ir à WC é um bom instinto -> faz com que libertemos as sobras dos alimentos que ingerimos, que já não nos dão energia.

O instinto sexual também é um bom instinto -> faz com que um marido se una muito mais à sua esposa e vice-versa.

No entanto, também este instinto não deve ser seguido nas alturas que não lhe são próprias (ex: fora do casamento) ou quando a razão de o seguir também não é a certa (ex: o caso da homossexualidade).

Compreendo que este pode ser um caso difícil de perceber.
No entanto, é importante deixar claro que as razões para dizer que os "instintos homossexuais" são desordenados não são de todo de ordem religiosa.
Platão e Aristóteles, simplesmente através do uso da razão, tiraram a mesma conclusão.

Recomendo vivamente a leitura deste artigo também:
http://actualidadereligiosa.blogspot.pt/2014/05/o-direito-ao-erro.html

Espero ter ajudado.

Bom fim-de-semana!,
N

Diana Vaz da Silva disse...

Grande texto. O "arrepende-te" era só se o não escrevesse, com certeza.
Quando diz "É preciso lutar, rezar e pedir conselho, oferecer eventuais quedas, e levar a nossa vida para a frente. Nenhuma das coisas que tenho de fazer é exclusiva de homens ou mulheres gay. Ser "hetero" não é garantia de ter uma sexualidade saudável, luminosa, integrada", é bem verdade e diz respeito a vários aspetos da vida; não só ao sexual.
Quantas pessoas hetero conhecemos com uma vida sexual disfuncional e infeliz...
Deus deu-nos a razão e a vontade própria. As nossas escolhas só dependem da nossa vontade. E são da nossa exclusiva responsabilidade. É isso que nos distingue dos outros animais.
Mas realmente, cada vez mais, as pessoas deixaram de se esforçar para fazer o que é certo e escolhem aquilo que lhes dá menos trabalho e um prazer imediato.
Por isso, admiro a sua força e espero que nunca a perca. Está no caminho certo e este artigo ajudará certamente muita gente. Admirável força e fé. Parabéns!
Diana Vaz da Silva

Anónimo disse...

Vê-se mesmo que este tipo sofreu uma autêntica lavagem cerebral por parte dos fundamentalistas religiosos. Soubesse ele que sexo gay é óptimo e não queria outra coisa. Aliás, todos nós deveríamos explorar a nossa sexualidade livremente e sem nos preocuparmos com moralismos sem sentido.