sábado, 11 de junho de 2016

A Moda: vaidade ou decoro?


Mesmo seguindo a moda, a virtude está no meio. Aquilo que Deus pede é recordar sempre que a moda não é, nem pode ser, a regra suprema de conduta; que acima da moda e das suas exigências existem leis mais altas e imperiosas, princípios superiores e imutáveis, que em nenhum caso podem ser sacrificados ao talante do prazer ou do capricho, e diante dos quais o ídolo da moda deve saber inclinar a sua fugaz omnipotência. 

Estes princípios foram proclamados por Deus, pela Igreja, pelos santos e pelas santas, pela razão e pela moral cristãs, assinalados limites, além dos quais não florescem lírios e rosas, nem pairam nuvens de perfume da pureza, da modéstia, do decoro e da honra feminina, mas aspira-se e domina um ar malsão de leviandade, de linguagem dúbia, de vaidade audaz, de vanglória, não menos de espírito que de traje. São aqueles princípios que S. Tomás mostra para ornamento feminino e recorda, quando ensina qual deve ser a ordem de nossa caridade, de nossas afeições: o bem da própria alma deve preceder o do nosso corpo, e à vantagem de nosso próprio corpo devemos preferir o bem da alma de nosso próximo. Não se vê portanto que há um limite que nenhuma idealizadora de modas pode fazer ultrapassar, a saber, aquele além do qual a moda se torna mãe de ruína para a alma própria e dos outros?

Alguns jovens dirão talvez que uma determinada forma de vestido é mais cómoda, e também mais higiénica; mas, se constitui para a saúde da alma um perigo grave e próximo, não é certamente higiénica para o espírito: tem-se o dever de renunciar. A salvação da alma fez heroínas as mártires como Inês e Cecília, em meio dos tormentos e lacerações dos seus corpos virginais.

Se por um simples prazer próprio, não se tem o direito de colocar em perigo a saúde física dos outros, não é talvez ainda menos lícito comprometer a saúde, até a própria vida de suas almas? Se, como pretendem alguns, uma moda audaz não faz sobre elas impressão alguma, que sabem da impressão que os outros vão ter? Quem lhes assegura que os outros não tenham disto um incentivo mau? 

Não se conhece o fundo da fragilidade humana, nem de que sangue de corrupção sangram as feridas deixadas na natureza humana pela culpa de Adão com a ignorância no intelecto, com a malícia na vontade, com a ânsia do prazer e a debilidade para o bem, árduo nas paixões dos sentidos a tal ponto que o homem, como cera amoldável ao mal, ‘vê o melhor e o aprova, e ao pior se apega’, por causa daquele peso que sempre, como chumbo, o arrasta para o fundo. 

Sobre isso justamente se observou que, se algumas cristãs suspeitassem as tentações e quedas que causam em outros com vestes e familiaridade a que, em suas leviandades, dão tão pouca importância, teriam pavor de suas responsabilidades. Ao que Nós não duvidamos de acrescentar: ó mães cristãs, se soubésseis que futuro de perigos e íntimos desgostos, de dúvidas e irreprimível rubor preparais para vossas filhas e filhos, com imprudência em acostumá-los a viver apenas cobertos, fazendo deles desaparecer o sentido ingénuo da modéstia, vós mesmas enrubesceríeis, e vos horrorizaríeis pela vergonha que causareis a vós mesmas e o dano que ocasionareis aos filhos que vos foram confiados pelo Céu, para que crescessem cristãmente. 

E aquilo que dizemos para as mães, repetimo-lo a não poucas senhoras crentes, e mesmo piedosas, que aceitam seguir esta ou aquela moda arrojada, e com o seu exemplo, fazem cair as últimas hesitações que retêm uma turba das suas irmãs que estão longe daquela moda, a qual poderá tornar-se para elas fonte de ruína espiritual. Até certos provocadores ornamentos permanecem triste privilégio de mulheres de reputação duvidosa e quase sinal que as faz reconhecer; não se ousará, pois, usá-lo para si; mas no dia em que aparecerem como ornamentos de pessoas superiores a qualquer suspeitas, não se duvidará mais de seguir tal corrente, corrente que arrastará talvez para dolorosas quedas.


Papa Pio XII in Discurso às Delegações de Juventude Feminina da Acção Católica - 22 de Maio de 1941


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2 comentários:

Anónimo disse...

Não sei o que quer dizer com “Se por um simples prazer próprio, não se tem o direito de colocar em perigo a saúde física dos outros”??
Acho estranhíssimo que alguém possa achar este texto com validade actual. Mal só vejo para a imagem da própria pessoa, referente a avaliações negativas de apenas também uma parcela de pessoas. O mal nunca está nos outros, ou nunca devia estar… o mal está sempre em nós, que não sabemos lidar com as supostas “tentações e quedas que causam em outros com vestes e familiaridade a que, em suas leviandades, dão tão pouca importância” Discurso machista dirigido a “algumas cristãs” como se as mulheres é que fossem as responsáveis da incapacidade dos homens, que até diga-se são peritos em ver e em pensar o que lá não está, e possuem uma imaginação profundamente fértil, mas (então no que respeita a padres, peço desculpa) são sempre as vítimas… Pobres homens, pensam em demasia, não com a cabeça, e em vez de terem menos instintos selvagens sentem-se vitimizados pela liberdade alheia, mas não pela sua própria natureza. E que culpa tem um homem se uma mulher se sente perturbada ao vê-los de calças abaixo do rabo? Ele é que faz figura de tonto, fora isso quem se perturba que tente mudar.

Anónimo disse...

Não quero parecer rude, mas na verdade não pude deixar de expressão uma certa indignação por se achar que os outros é que são culpados das nossas dificuldades em lidar com os desejos etc... as pessoas são livres de serem o que querem ser, cristão ou não.