quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Afinal quem é o Salvador?

Parece - a acreditar nos grandes meios de comunicação social, nos políticos e muitos dignitários eclesiásticos - que pela primeira vez, celebrámos verdadeiramente o Natal. De facto, pelos vistos, a Salvação não está no Menino, Deus humanado, que sempre celebrámos, mas sim numa vacina, experimentada em linhas celulares derivadas de abortos provocados, que é incapaz de proteger do pecado e da morte eterna.

 

E, no entanto, a mais perigosa e mortal de todas as pandemias é a do pecado que nos traz a morte eterna. Este pecado de que ninguém fala, que ninguém combate, mas pelo contrário o promove sistematicamente, através de empresas gigantes sem escrúpulos, de poderes político-mundanos e, também, de um número, cada vez maior de dignitários eclesiásticos.

 

Ninguém se une para guerrear esta ruindade perversa, origem e nutridora de todos as outras malignidades.

 

Usam máscaras e desinfectantes para não serem contagiados e virem a padecer da Covid 19, mas não evitam, antes as procuram, as ocasiões de pecado. Recorrem aos médicos e aos hospitais para que lhes salvem a pele, mas são incapazes de buscarem um Padre para salvarem a alma. Tomam suplementos na expectativa de fortalecerem o sistema imunitário, mas não recorrem à Sagrada Eucaristia para se robustecerem contra a epidemia do pecado.

 

Sendo assim, não será de admirar que doravante o Natal passe a ser narrado e celebrado de um modo diferente. A comunicação social e os políticos proclamarão:


Anunciamos-vos uma grande alegria, hoje nasceu a vacina salvadora, que será para toda a humanidade. Isto vos servirá de sinal encontrareis frasquinhos acondicionados em sofisticados congeladores. Entretanto uma multidão de propagandistas e prelados, uns comprados outros submissos, anunciará: Glória às farmacêuticas nas eminências e paz na terra aos políticos do desenrascanço. Depois aparecem os especialistas vindos do ocidente, guiados pelo lucro luminoso, oferecendo seringas, desinfectantes e máscaras. E será melhor não continuar...

 

À honra de Cristo. Ámen.


Padre Nuno Serras Pereira



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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Não há nada melhor do que uma família que ri à volta da mesa

Assim como a vida pessoal e privada situa-se num plano inferior ao da participação no corpo de Cristo, a vida colectiva também se situa num plano inferior ao da vida pessoal e privada e não possui valor, a não ser pelo serviço que presta. A comunidade secular, uma vez que existe para o nosso bem natural e não sobrenatural, não tem finalidades maiores do que auxiliar e proteger a família, a amizade e a solidão. 

Estar feliz em casa, disse Johnson, é o objectivo de todo o esforço humano. Se considerarmos apenas os valores naturais, podemos dizer que nada há melhor debaixo do sol do que uma família que ri à volta da mesa, dois amigos que conversam bebendo café ou um homem só, lendo um livro que lhe interesse; e que toda a economia, a política, o direito, o exército e as instituições, salvo à medida que contribuem para prolongar e multiplicar tais cenas, são como um arado na areia ou uma sementeira no oceano, uma vaidade sem sentido e uma afronta para o espírito. 

As actividades colectivas são, evidentemente, necessárias; mas é aquele o seu objectivo. Aqueles que possuem essa felicidade particular talvez sejam obrigados a sacrificar grande parte dela, para que possa ser distribuída mais amplamente. É possível que todos tenham de comer menos para que ninguém morra de fome. Mas não confundamos males necessários com bem. É fácil cometer esse erro. 

Para ser transportada, a fruta deve ser enlatada, perdendo, por consequência, parte das suas propriedades. Mas há gente que acaba por preferir a fruta enlatada à fruta fresca. Uma sociedade doente precisa pensar muito em política, como um enfermo é obrigado a preocupar-se com a digestão; desprezar o assunto pode ser uma covardia fatal para ambos. Mas se ambos passarem a considerar que esses são o alimento natural da mente — se esquecerem que essas preocupações só se justificam porque lhes permitem pensar em outras coisas — então o tratamento a que se submetem por amor à saúde transforma-se em nova enfermidade mortal. 

Existe, com efeito, em todas as actividades humanas, uma tendência fatal de os meios usurparem os próprios fins que eles se destinam a servir. Assim o dinheiro acaba atrapalhando a troca de mercadorias, as regras de arte asfixiam os génios e os exames impedem os jovens de tornar-se doutos. Não se conclui, infelizmente, que os meios usurpadores sejam sempre dispensáveis. 

É provável que o colectivismo de nossa vida seja necessário e venha a aumentar; e creio que a única salvaguarda contra as suas propriedades mortais está na vida cristã; porque temos a promessa de que podemos lidar com serpentes e beber veneno, e resistir. É essa a verdade que está por trás da definição errónea de religião com que começamos. Errónea porque opõe a mera solidão ao colectivismo. 

O cristão é chamado não ao individualismo, mas à participação no corpo de Cristo. A distinção entre a colectividade secular e o corpo de Cristo é, portanto, o primeiro passo para compreender como o cristianismo, sem ser individualista, pode neutralizar o colectivismo.

C.S. Lewis in O Peso da Glória


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

24 de Dezembro: A Gruta de Belém

Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar na gruta de Belém, afim de dar à luz o Filho de Deus? Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; e ao Rei do céu prepara-se para nascer uma estrebaria fria, para cobri-lo uns pobres paninhos, para cama um pouco de palha e para colocar uma vil manjedoura? Oh, ingratidão dos homens! Oh, confusão para nosso orgulho que sempre ambiciona comodidades e honras!

I. Continuemos hoje a meditar na história do nascimento de Jesus Cristo. Vendo-se repulsos de toda parte, São José e a Bem-aventurada Virgem saem da cidade afim de achar fora dela ao menos algum abrigo. Os pobres viandantes (viajantes)caminham na escuridão, errando e espreitando; afinal deparasse-lhes ao pé dos muros de Belém uma rocha escavada em forma de gruta, que servia de estábulo para os animais. Disse então Maria: José, meu Esposo, não precisamos ir mais longe; entremos nesta gruta e deixemo-nos ficar aqui. – Mas como? responde São José; não vês, minha Esposa, que esta gruta é tão fria e húmida que a água escorre em toda parte? Não vês que não é uma morada para homens, senão uma estribaria para animais? Como queres passar aqui a noite e dar à luz? – Contudo é verdade, tornou Maria, que este estábulo é o paço real onde quer nascer na terra o Filho eterno de Deus.

Ah! Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar naquela gruta para dar à luz! Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; preparam-se-lhes berços incrustados com pedras preciosas, e mantilhas preciosas; e fazem-lhe cortejo os primeiros senhores do reino. E ao Rei do céu prepara-se uma gruta fria e sem lume para nela nascer, uns pobres paninhos para cobri-lo, um pouco de palha para leito, e uma vil manjedoura para o colocar? Ubi aula, ubi thronus? Meu Deus, assim pergunta São Bernardo, onde está a corte, onde está o trono real deste Rei do céu, porquanto não vejo senão dois animais para lhe fazerem companhia, e uma manjedoura de irracionais, na qual deve ser posto?

Ó Gruta ditosa, que tiveste a ventura de ver o Verbo divino nascido dentro de ti! Ó presépio ditoso, que tiveste a honra de receber em ti o Senhor do céu! Ó palha ditosa, que serviste de leito àquele cujo trono é sustentado pelos serafins! Sim, fostes ditosos, ó Gruta, ó presépio, ó palha; mais ditosos, porém, são os corações que tenra e fervorosamente amam esse amabilíssimo Senhor, e que abrasados em amor o recebem na santa Comunhão. Oh, com que alegria e satisfação vai Jesus Cristo pousar no coração que o ama!

II. Um Deus que quer começar a sua infância num estábulo, confunde o nosso orgulho, e, segundo a reflexão de São Bernardo, já prega com exemplo o que mais tarde havia de pregar à viva voz: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. Eis porque ao contemplarmos o nascimento de Jesus Cristo e ao ouvirmos falar em gruta, em manjedoura, em palha, em leite, em vagidos, estas palavras deveriam ser para nós como que chamas de amor, e como que setas que nos ferissem os corações e nos fizessem amantes da santa humildade.

É verdade, ó meu Jesus, Vós, tão desprezado por nosso amor, com o vosso exemplo fizestes os desprezos excessivamente caros e amáveis aos que Vos amam. Mas como então é possível que eu, em vez de os abraçar, como Vós os abraçastes, ao receber algum desprezo da parte dos homens, me tenha mostrado tão orgulhoso, e tenha ainda chegado a ofender-Vos, ó Majestade infinita? Pecador e orgulhoso!

Ah, Senhor, já o compreendo: eu não soube aceitar com paciência as humilhações e as afrontas, porque não Vos soube amar. Se Vos tivera amor, ter-me-iam sido doces e amáveis. Mas visto que prometeis o perdão a quem se arrepende, de toda a minha alma arrependo-me de toda a minha vida desordenada, tão diferente da vossa. Quero emendar-me, e por isso Vos prometo que para o futuro aceitarei com paz todos os desprezos que me vierem, e que os sofrerei por vosso amor, ó Jesus meu, que por meu amor tendes sido tão desprezado. Compreendo que as humilhações são as minas preciosas por meio das quais quereis enriquecer as almas com tesouros eternos. 

Já sou digno de outras humilhações e de outros desprezos, porque desprezei a vossa graça. Mereço ser pisado aos pés do demônio. Mas os vossos merecimentos são a minha esperança. Quero mudar de vida; não quero mais causar-Vos desgosto; para o futuro não quero buscar senão a vossa vontade, e por isso Vos dou todo o meu coração. Possui-o, e possui-o para sempre, afim de que eu seja sempre vosso e todo vosso.

“E Vós, ó Pai Eterno, que cada ano nos alegais com a esperança de nossa Redenção, concedei-me que com confiança possa esperar a vinda do vosso Filho unigênito como Juiz, a quem agora recebo alegremente como Salvador (1)”. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

Referências:
(1) Or. fer. curr.

Santo Afonso Maria de Ligório in Meditações para todos os Dias e Festas do Ano (Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa)


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Bispo Strickland contra as vacinas que usam bebés abortados

O Bispo de Tyler (Texas), Joseph Strickland, comentou na sua conta de Twitter a questão de algumas vacinas contra a Covid usarem tecidos de bebés abortados:

«Toda a retórica sobre as vacinas desvia-se da simples verdade que foram assassinadas crianças, partes dos seus corpos foram usadas e voilá, temos uma vacina que nos dará mais alguns anos de vida. Ofendam-me como quiserem, vou continuar a falar em nome dos inocentes que foram MORTOS!»


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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Missa Tradicional ao som de Palestrina

Kyrie da Missa Papae Marcelli
Vídeo: Mass of the Ages


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O que é a Eternidade?

Eternidade é a posse perfeita e permanente de vida interminável. A eternidade em Deus é permanência sem princípio nem fim, sem passado nem futuro; é um presente continuado. Neste sentido só Deus é eterno. 

Para nós, a eternidade, ou a vida eterna, começa no momento da morte; nesse momento termina o passado e começa um presente que nunca mais acaba. Então, a alma entra na morada da sua eternidade, que será ou o Céu, embora passando pelo Purgatório, ou o Inferno. 

E a vida, quer de felicidade quer de tormentos, nunca mais acaba. Eternidade de gozo no céu com Deus, ou eternidade de tormentos no inferno com o demónio.

Padre José Lourenço in Dicionário da Doutrina Católica


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O Pároco do Canadá

Este é o Padre Yves Normandin, outrora chamado "Pároco do Canadá". Foi o grande responsável por manter e promover a Missa Tradicional nesse País. 

A dada altura ele tinha mais de 30 pequenas capelas instaladas em todo o Canadá e voava regularmente para oferecer a Missa Tradicional aos católicos que ansiavam por essa herança litúrgica. 

A saúde dele piorou muito nos últimos dias. O médico acha que não sobreviverá até ao Natal. Rezemos pelo Padre Normandin.

Padre Paul Joseph Martin McDonald


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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O que são as Têmporas de Setembro?

Hoje é Sexta-Feira das Têmporas de Advento. Mas o que são as Têmporas?

Do Missal Quotidiano de Dom Gaspar Lefebvre: «As Quatro Têmporas representam uma velha tradição, muito querida da Igreja romana. Quatro vezes no ano, na mudança das estações, consagravam-se três dias da semana – Quarta, Sexta e Sábado – ao jejum e à oração, a fim de evocar as bênçãos de Deus para a nova estação e para as Ordenações, que tinham lugar na vigília de Sábado para Domingo. 

As Quatro Têmporas de Setembro são conjuntamente dias de jejum e momentos de jubilosa acção e graças. Lembram aos Judeus a dupla promulgação da Lei, a saída do Egipto e depois do cativeiro da Babilónia. Lembram aos Cristãos a protecção permanente de Deus concedida ao seu povo, e a sua libertação. A acção de graças pelas colheitas do ano vai unir-se à evocação dos antigos benefícios de Deus.»

Do Catecismo de São Pio X: «Para que fim foi instituído o jejum das quatro Têmporas? O jejum das quatro Têmporas foi instituído:

1.º - Para santificar cada estação do ano com alguns dias de penitência;
2.º - Para pedir a Deus que nos dê e conserve os frutos da terra;
3.º - Para agradecer a Deus o frutos concedidos;
4.º - Para pedir a Deus que dê à sua Igreja bons ministros, cuja ordenação se faz ordinariamente nos Sábados das quatro Têmporas.»

Os dias das Têmporas sempre foram dias de jejum e abstinência, por isso apenas com uma refeição completa durante o dia (almoço ou jantar), se necessário mais duas pequeninas refeições, que juntas não cheguem a uma refeição completa. Hoje em dia esta disciplina cumpre-se por devoção e não por obrigação jurídica, visto que o Código de Direito Canónico não prevê estes dias de jejum. Seja como for, a penitência, tantas vezes pedida por Nossa Senhora de Fátima, é bastante necessária, especialmente diante da crise na Igreja.

Do Pale Ideas: «O tempura (lê-se tempurá), prato da culinária japonês, deve o seu nome às Quatro Têmporas. Tradicionalmente, remonta ao século XVI, com os primeiros contactos entre japoneses e os marinheiros portugueses que levavam consigo missionários cristãos.  Uma vez que nesse período os católicos comiam apenas verduras e peixe, e se dedicavam à oração, pediram aos habitantes locais que preparassem para eles um prato adequado às “tempora”.»


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A Misericórdia e a condenação eterna

Não é propriamente uma originalidade dos dias que correm a invocação da Misericórdia infinita de Deus para desculpabilizar a gravidade do pecado mortal e as suas consequências no destino eterno da pessoa humana. Já Orígenes, de resto um excelente teólogo, admitia uma restauração final em que os condenados ao Inferno e o próprio diabo seriam resgatados e salvos. Em meados do século vinte Giovanni Pappini, no seu livro O Diabo, caiu no mesmo engodo. A Igreja sempre condenou essa teoria, porque não concorde com a Sagrada Escritura nem com a Tradição, reafirmando a eternidade da condenação ao Inferno. A existência deste e a sua eternidade são aliás um Dogma de Fé, isto é, uma verdade Revelada por Deus.

Um outro grande e cultíssimo teólogo contemporâneo, em dois dos seus últimos livros, não advogando embora a apocatástases (restauração final dos condenados, do diabo e demais demónios) defende que o cristão não só pode como deve esperar que todos os homens se possam salvar. Esperar, não significa ter a certeza. Para ele significa que cada um deve viver com tal radicalidade, generosidade e empenho a sua Fé de modo a que “completando na sua carne o que falta à paixão de Cristo” carregue com os pecados dos outros passando, de algum modo, a Graça que lhe é dada para eles, de modo a que se possam converter. 

Chega a interpretar o sofrimento dos místicos, as suas noites escuras, e o sofrimento dos inocentes como uma participação na Paixão de Cristo capaz de transformar a liberdade inquinada ou ímpia dos outros em liberdade de tender para Deus. Afinal, como diz a Escritura “ Deus quer que todos os homens se salvem”. Adverte, no entanto, que cada um deve, como exorta S. Paulo, “trabalhar com temor e tremor” na sua própria salvação, não a dando, de modo nenhum, como adquirida. O inferno não terá sido criado directamente por Deus mas produzido pela liberdade da criatura (angélica) que ao rebelar-se definitivamente contra Ele, se fechou ao Seu amor ou ao Amor que Ele é: “Ide para o fogo eterno destinado ao demónio e aos seus anjos” (Mateus 25, 41). 

Uma vez que não existirá nenhum pronunciamento solene explícito do Magistério da Igreja declarando, segundo este teólogo, a existência de qualquer ser humano no Inferno podemos e devemos esperar, segundo ele, que todos se possam salvar. A verdade, porém, é que também não há nenhuma declaração do Magistério da Igreja afirmando que o Inferno está vazio de pessoas humanas.

A vulgarização desta hipótese ou especulação teológica acabou por gerar naqueles poucos que ainda aderiam à verdade Revelada da existência do Inferno a convicção de que ninguém lá estaria nem se poderia condenar. Daí se passou à desculpabilização sistemática de toda e qualquer pessoa, por maiores que fossem as enormidades que ela cometesse.

Grandes teólogos reagiram, entre eles o eminente (Cardeal) Avery Dulles, a muitas das afirmações deste autor. Reconhecendo embora os seus méritos, e muita da doutrina exposta, contestam a necessidade de um pronunciamento solene e explícito do Magistério sobre o assunto e mostram como asserções da Sagrada Escritura, da Tradição e de documentos do Magistério seriam incompreensíveis sem a admissão da eterna perdição efectiva, não só de pessoas angélicas (demónios) mas também de pessoas humanas.

É verdade, como dizia o então Cardeal Ratzinger, que a Fé nos foi dada não para que nos salvemos e os outros se percam, mas para que através da nossa Fé os outros também se possam salvar. No entanto, também não é menos verdade, como dizia numa outra obra, que Deus criou-nos livres e leva a nossa liberdade a sério.

Estou em crer que a Misericórdia de Deus não deve ser invocada em vão, nem para aquietar as consciências dos que procederam mal infundindo-lhes uma falsa esperança de que se podem salvar permanecendo, embora, nos seus pecados porque afinal a última palavra caberá à Misericórdia Divina, que tudo ignorará. Não! A Misericórdia, como nos ensina a parábola do filho pródigo, deve ser invocada para chamar as pessoas ao arrependimento e há conversão, enquanto é tempo, e o tempo é breve. “Morte certa. Hora incerta. Juízo particular. Inferno ou Céu para sempre”. Afinal é isso mesmo que nos diz a Carta de S. Tiago: “Haverá Juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia” (2, 13).

Evidentemente que não usa de misericórdia, ou seja, não é misericordioso, todo aquele que pratica, é cúmplice, coopera formalmente ou é indiferente em relação aquelas monstruosidades legisladas e promulgadas a que me referi no texto de ontem.

Que ninguém duvide: cada um será julgado segundo as suas obras. (Obras praticadas pelo amor, gerado pela Fé que nos foi dada, sem mérito algum da nossa parte. A graça precede sempre, acompanha e guia a vontade.) Por isso podemos ler no Evangelho as palavras severas de Jesus, na parábola do Juízo final, “retirai-vos de Mim, malditos! … para o fogo eterno … ” (Mateus, 25, 41).

E S. Paulo adianta: “ … (C)om a tua dureza e o teu coração impenitente, estás a acumular ira sobre ti, para o dia da cólera e do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um conforme as suas obras: para aqueles que, ao perseverarem na prática do bem, procuram a glória, a honra e a incorruptibilidade, será a vida eterna; para aqueles que, por rebeldia, são indóceis à verdade e dóceis à injustiça, será ira e indignação. Tribulação e angústia para todo o ser humano que pratica o mal … Glória, honra e paz para todo aquele que pratica o bem …” (Romanos 2, 5-10).

Padre Nuno Serras Pereira



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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

5 Bispos publicam declaração sobre vacinas derivadas de fetos humanos abortados

Cinco Bispos, entre eles um Cardeal, tornaram pública uma declaração na qual demonstram preocupação em relação à utilização de fetos abortados nas novas vacinas e explicam o que diz a doutrina moral católica sobre este tema:

Recentemente, constatou-se, a partir de serviços e de várias fontes de informação, que, em relação à emergência COVID-19, foram produzidas, em alguns países, vacinas que utilizam linhas celulares de fetos humanos abortados, noutros países está prevista a produção de tais vacinas. São cada vez mais numerosas as vozes de eclesiásticos (conferências episcopais, bispos e sacerdotais individuais) que afirmam que, na ausência de alternativas para uma vacinação com substâncias eticamente lícitas, seria moralmente lícito para os católicos utilizar as vacinas, apesar do uso de linhas celulares de crianças abortadas para o seu desenvolvimento.

Os defensores de tal vacina invocam dois documentos da Santa Sé (Pontifícia Academia para a Vida, Reflexões morais sobre vacinas preparadas a partir de células derivadas de fetos humanos abortados, de 9 de Junho de 2005, e Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Dignitas Personæ, sobre algumas questões bioéticas, de 8 de Setembro de 2008), que consentem o uso desta vacinação em casos excepcionais e por um tempo limitado com base no que, na teologia moral, é chamado de cooperação material, passiva e remota com o mal. Os documentos citados afirmam que os católicos que recorrem a esta vacinação têm, ao mesmo tempo, «o dever de manifestar o próprio desacordo a este respeito e de solicitar que os sistemas de saúde disponibilizem outros tipos de vacinas».
  

No caso das vacinas obtidas a partir de linhas celulares de fetos humanos abortados, vemos uma clara contradição: entre a doutrina católica, que rejeita categoricamente, e para além de qualquer sombra de ambiguidade, o aborto em todos os casos como um grave mal moral que clama por vingança ao céu (ver Catecismo da Igreja Católica 2268, 2270ss.), e a prática de considerar as vacinas derivadas de linhas de células fetais abortadas moralmente aceitáveis ​​em casos excepcionais de “urgência” – com base numa cooperação material, passiva e remota. Argumentar que tais vacinas podem ser moralmente lícitas se não houver alternativas é, em si mesmo, contraditório e não pode ser aceitável para os católicos. 

Devem-se recordar as seguintes palavras do Papa João Paulo II sobre a dignidade da vida humana não nascida: «Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida humana. É totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que, aliás, justamente se faz, dos direitos humanos – como, por exemplo, o direito à saúde, à casa, ao trabalho, à família e à cultura, – se não se defende, com a máxima energia, o direito à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros direitos da pessoa» (Christifideles Laici, 38). O uso de vacinas produzidas a partir de células de crianças não nascidas assassinadas contradiz a máxima energia em defender a vida por nascer.    

O princípio teológico da cooperação material é, certamente, válido e pode ser aplicado a toda uma série de casos (pagamento de impostos, uso de produtos de trabalho escravo, etc.). Todavia, este princípio dificilmente pode ser aplicado ao caso das vacinas obtidas a partir de linhas celulares fetais, porque aqueles que, consciente e voluntariamente, recebem tais vacinas, entram numa espécie de vínculo, embora muito remoto, com o processo da indústria do aborto. O crime do aborto é tão monstruoso que qualquer tipo de concatenação com este crime, mesmo que muito remota, é imoral e não pode ser aceite, em nenhuma circunstância, por um católico, uma vez que esteja plenamente ciente disso. Quem usa estas vacinas deve perceber que o seu corpo está a beneficiar dos “frutos” (embora tenham ocorrido uma série de processos químicos) de um dos maiores crimes da humanidade.

Qualquer ligação com o processo de aborto, mesmo o mais remoto e implícito, lançaria uma sombra sobre o dever da Igreja de dar firme testemunho da verdade de que o aborto deve ser completamente rejeitado. Os fins não podem justificar os meios. Estamos a viver um dos piores genocídios conhecidos pelo Homem. Milhões e milhões de bebés em todo o mundo foram massacrados no útero da mãe e, dia após dia, este genocídio oculto continua através da indústria do aborto e das tecnologias fetais e da pressão de governos e de organismos internacionais para promover tais vacinas como um dos seus objectivos. 

Os católicos não podem ceder agora; fazê-lo seria grosseiramente irresponsável. A aceitação destas vacinas da parte dos católicos, sob o fundamento de que envolvem apenas uma “cooperação remota, passiva e material” com o mal, faria o jogo dos seus inimigos e enfraqueceria o último reduto contra o aborto.    

O que mais pode ser o uso de linhas células embrionárias de bebés abortados senão a violação da ordem da criação dada por Deus, considerando que se baseia na já grave violação desta ordem matando um nascituro? Se o direito à vida não tivesse sido negado a essa criança, se as suas células (que, desde então, foram cultivadas várias vezes em tubo de ensaio) não estivessem disponíveis para a produção de uma vacina, não poderiam ser comercializadas. Assim, há uma dupla violação da sagrada ordem de Deus: de um lado, por meio do próprio aborto, e, do outro, através do atroz negócio de comercializar o tecido dos bebés abortados. 

Contudo, este duplo desprezo pela ordem da criação nunca pode ser justificado, mesmo com a intenção de preservar a saúde de uma pessoa por meio de uma vacinação baseada neste desprezo pela ordem da criação dada por Deus. A nossa sociedade criou uma religião substitutiva: a saúde tornou-se o bem maior, operação feita com a criação de um “deus” a quem se devem fazer sacrifícios. Neste caso, com uma vacinação que explora a morte de uma outra vida humana.

Ao examinar as questões éticas que envolvem as vacinas, devemos perguntar-nos: por que tudo isto se tornou possível? Por que a tecnologia baseada no homicídio surgiu na medicina, cujo objectivo é trazer vida e saúde? A investigação biomédica que explora os nascituros inocentes e usa os seus corpos como “matéria-prima” para os fins das vacinas, parece mais semelhante ao canibalismo. Devemos também considerar que, em última análise, para alguns na indústria biomédica, as linhas celulares dos bebés ainda não nascidos são um “produto”, o abortista e o fabricante da vacina são o “fornecedor” e os destinatários da vacina são os consumidores. A tecnologia baseada no homicídio está enraizada no desespero e termina no desespero. Devemos resistir ao mito de que “não há alternativas”. Ao contrário, devemos prosseguir com a esperança e a convicção de que existem as alternativas e que o engenho humano, com a ajuda de Deus, as pode descobrir. Esta é a única maneira para passar das trevas à luz e da morte à vida.  

O Senhor disse que, no fim dos tempos, até os eleitos serão seduzidos (cf. Mc 13, 22). Hoje, toda a Igreja e todos os fiéis católicos devem procurar urgentemente fortalecer-se na doutrina e na prática da fé. Ao lidar com o mal do aborto, os católicos devem, mais do que nunca, «afastar-se de toda a espécie de mal» (1 Ts 5, 22). A saúde física não é um valor absoluto. A obediência à lei de Deus e a salvação eterna das almas devem ter o primado. As vacinas derivadas das células de crianças não nascidas e cruelmente assassinadas têm um carácter claramente apocalíptico e podem pressagiar a marca da besta (cf. Ap 13, 16).        

Actualmente, alguns clérigos tranquilizam os fiéis afirmando que uma vacinação com uma vacina anti-COVID-19, preparada com linhas celulares de uma criança abortada, é moralmente lícita se não houver alternativas disponíveis, justificando-a com a chamada “cooperação material e remota” com o mal. Tais afirmações dos eclesiásticos são altamente anti-pastorais e contraproducentes, considerando o contínuo crescimento da indústria do aborto e das tecnologias fetais desumanas num cenário quase apocalíptico. 

É precisamente neste contexto actual, que provavelmente pode ainda piorar, que os católicos categoricamente não podem encorajar e promover o pecado do aborto, mesmo de forma muito remota e branda, aceitando a mencionada vacina. Portanto, como sucessores dos Apóstolos e dos Pastores, responsáveis ​​pela salvação eterna das almas, consideramos impossível ficar calados e adoptar uma atitude ambígua quanto ao nosso dever de resistir com a «máxima energia» (Papa João Paulo II) ao «crime abominável» do aborto (Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 51).     

Esta nossa declaração foi escrita com o aconselhamento de médicos e cientistas de diversos países. Um contributo substancial veio também dos leigos, das avós, dos avôs, dos pais e das mães de família, dos jovens. Todas as pessoas consultadas, independentemente da idade, nacionalidade e profissão, recusaram, de forma unânime e quase instintiva, uma vacina preparada a partir de linhas celulares embrionárias de crianças abortadas e, ao mesmo tempo, consideraram inadequada a aplicação do princípio da “cooperação material e remota” e algumas analogias relacionadas a este caso. Isto é reconfortante e, simultaneamente, muito revelador, uma vez que a sua unânime resposta é mais uma demonstração da força da razão e do sensus fidei.     

Precisamos, mais do que nunca, do espírito dos confessores e dos mártires que evitaram a mínima suspeita de colaboração com o mal da sua época. A Palavra de Deus diz: «Sede irrepreensíveis e íntegros, filhos de Deus sem mancha, no meio de uma geração perversa e corrompida; nela brilhais como astros no mundo» (Fl 2, 15).            

12 de Dezembro de 2020, Memória de Nossa Senhora de Guadalupe

Cardeal Jānis Pujāts, Arcebispo Metropolita emérito de Riga (Letónia)
Tomasz Peta, Arcebispo Metropolita da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana (Cazaquistão)
Jan Paweł Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda (Cazaquistão)
       
 Joseph Edward Strickland, Bispo de Tyler (Estados Unidos da América)    
 Athanasius Schneider, Bispo auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana (Cazaquistão)

Tradução: diesirae.pt


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Hungria define Família como tendo uma Mãe e um Pai

O Parlamento da Hungria aprovou uma lei que define a família como tendo uma mulher como mãe e um homem como pai, efectivamente proibindo adopção de crianças por parelhas do mesmo sexo e dificultando a adopção por pessoas solteiras.

A mudança é a mais recente de várias feitas nos últimos anos, no que o governo disse serem tentativas de preservar a identidade cristã da Hungria e aumentar as suas taxas de natalidade, que estão em queda livre.

“Se desistirmos do Cristianismo perderemos nossa própria identidade, como húngaros, como europeus”, disse Katalin Novák, Ministro de Estado da Família da Hungria.

Aproximadamente metade da população da Hungria identifica-se como Católica, enquanto cerca de um quinto se identifica como protestante ou alguma outra denominação cristã. Outro quinto da população identifica-se como não tendo afiliação religiosa, com judeus, muçulmanos e outras minorias religiosas constituindo o resto da população.

Novák disse em 2019 que os líderes da Hungria estavam preocupados com o futuro do país devido à queda na taxa de natalidade, que é de 1,48, bem abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos por mulher. “Temos um desafio demográfico pela frente”, disse Novák.

Embora alguns países possam depender da imigração, a Hungria está a tentar reverter a tendência com uma abordagem em duas frentes: incentivos financeiros para que as famílias tenham mais filhos e promoção de uma cultura pró-vida e acolhimento de famílias numerosas, acrescentou ela.

Nesse sentido, o governo húngaro começou a oferecer incentivos financeiros para as pessoas se casarem e terem filhos, incluindo empréstimos subsidiados para aqueles que se casarem antes do 41º aniversário da noiva.

Os incentivos para ter filhos estão incluídos no empréstimo. Um terço da dívida pode ser perdoada se o casal tiver dois filhos, e toda a dívida pode ser perdoada se eles tiverem três filhos. Mulheres com quatro ou mais filhos estarão isentas do imposto de renda vitaliciamente. Famílias com pelo menos três filhos têm direito a uma bolsa para comprar um carro com capacidade para sete ou mais pessoas.

A Hungria afirma que as políticas estão a funcionar, já que o centro de estatísticas relatou recentemente um aumento de 20% nos casamentos em 2019.

Mas o aumento na fertilidade ainda não foi visto e outros países europeus, como França e Alemanha, que tentaram aumentar a fertilidade por meio de subsídios governamentais, não viram um aumento significativo nas taxas de natalidade.

No início deste ano, a Hungria também aprovou uma lei que declara que o sexo de uma pessoa é o seu sexo biológico no nascimento, bloqueando as tentativas de pessoas 'trans' de mudar a sua "identidade de género". A acção foi amplamente criticada por alguns como um ataque aos "direitos" LGBT. 

in National Catholic Register


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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A Velha, a Mota e Nós

1. a) Um dia, nos idos da minha juventude, caminhando eu pela Avenida de Roma, da praça de Londres para o Lg. Frei Heitor Pinto, um pouco antes de chegar ao cruzamento com a linha férrea, perto do Maria Matos, deparei com um aglomerado de gente no meio da via - naquele tempo, tirante as horas de ponta, o trânsito era escasso -, rodeando espavorida uma velhinha estendida no alcatrão, empapada no próprio sangue que lhe corria abundante de uma perna praticamente decepada. A pouca distância uma motorizada empenada, modelo recentíssimo em Portugal, gotejando gasolina. De pé, com o capacete na mão, pálido como a cal mais branca, um jovem que logo percebi ser o condutor do motociclo. Uma vez que já se tinha chamado o 115 (hoje 112) e a mulher estraçalhada estava sendo assistida pelos populares, procurei confortar o moço dirigindo-lhe uma pergunta com o intuito de lhe possibilitar uma oportunidade de desabafar. A sua resposta pronta, gélida, dura, implacável, foi: O estupor da velha estragou-me a mota toda!


b) A velha tinha sido nova, linda de morrer, a pele lisa, os olhos vivos, o corpo estatuário. Andou na barriga da mãe, amamentou-se aos seus peitos, brincou no colo dos pais, aprendeu entre tombos a andar, adolescente e jovem teve os seus sonhos, os seus devaneios, apaixonou-se, namorou, casou-se. Com paciência aturou as manias do marido, com grande sacrifício criou os filhos que lhe deram grandes desgostos. Enviuvou cedo, trajou o luto, cismou com saudade. Viu nascer os netos, tomou conta deles, enxugou-lhes as lágrimas, mudou-lhes e lavou-lhes as fraldas (naquele tempo era assim), deu-lhes de comer, aturou-lhes as birras, curou-lhes a feridas, passou noites em claro a cuidá-los nas doenças. Quando deixaram de precisar dela atiraram-na para um lar escabroso. As visitas eram raras, os carinhos nenhuns. O único consolo que possuía era assistir à missa diariamente e conversar com o Senhor no Sacrário confiando-Lhe a alma do seu marido e as vidas dos seus familiares. Era de lá, da Igreja paroquial, que vinha quando ao atravessar a rua lhe caiu em cima aquela calamidade, veloz como uma turba de diabos que se precipita para perder o mundo. A sua muita idade ofuscara-lhe a vista, entupira-lhe os ouvidos, estorvara-lhe a percepção das distâncias e o difícil cálculo das velocidades.

c) Ele era de boas famílias. Tinha andado no melhor colégio do país e agora cursava um curso superior numa excelente Universidade. A mota tinha sido caríssima, novinha em folha fora estragada pelo raio da velha. O veículo valia muito, a velha nada. Ele identificava-se com o que tinha. Ouvia o pai dizer, quando alguém chocava com o seu Ferrari, bateram-me. Cada visita lá de casa ao ver o que possuíam, logo os consideravam mais. Daí que tenha concluído que ser é ter. Tenho muito, sou muito. Não tenho nada, nada sou.

2. No Novo Testamento os Apóstolos e Evangelistas reservam a palavra “caríssimo” somente para as pessoas, que Jesus Cristo veio resgatar. Esta palavra encontra-se em S. Lucas, S. Paulo, S. Pedro e S. João: no singular 7 vezes e no plural 20. A razão de tal uso é dada por S. Paulo e por S. Pedro: “Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” (1 Cor 6, 20); “Fostes comprados por um alto preço; não vos torneis escravos dos homens.” (1 Cor 7, 23); “ … fostes resgatados da vossa vã maneira de viver herdada dos vossos pais, não a preço de bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo … “. (1 Pe 1, 18-19).

O Pai criou-nos por Cristo no Espírito Santo, fazendo-nos à imagem e semelhança do Seu Filho unigénito. Como tivéssemos desbaratado a nossa dignidade o Deus Filho fez-Se um de nós para a restaurar e sublimar, redimindo-nos pela Sua morte e Ressurreição. Uma gota de sangue do Deus humanado vale, evidentemente, mais do que todo o universo. Por isso todas as riquezas por mais abundantes e preciosas que sejam não passam de lixo imundo em comparação com aqueles por quem Jesus Cristo derramou o Seu Sangue. Quem beber desse Sangue torna-se irmão de sangue do Senhor: “Quem realmente … bebe o Meu sangue fica a morar em Mim e Eu nele.” (Jo 6, 56).

Valiosíssimas, caríssimas são as pessoas. Só elas, humanamente falando, não têm preço. Tudo o mais se compra ou vende, se negoceia. As coisas usam-se, as pessoas amam-se, em todas as etapas da sua existência, desde o momento da concepção até à morte natural. O valor das coisas é relativo ao bem absoluto, transcendente, da dignidade da pessoa humana. Isto é, tanto quanto servem, protegem e promovem a pessoa tanto valem e nada mais.

À honra de Cristo. Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira


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domingo, 13 de dezembro de 2020

Domingo Gaudete, o Domingo de cor-de-rosa

Igreja 'Notre Dame de Lourdes'
Libreville, Gabão 
Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote








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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Um Sultão, Pio IX e o cálice da Imaculada

A Missa da Imaculada Conceição começa com a antífona no Introito que diz: "Gaudens gaudébo in Dómino, et exsultábit ánima mea in Deo meo: quia índuit me vestiméntis salútis: et induménto iustítiæ circúmdedit me, quasi sponsam ornátam monílibus suis" (Alegrar-me-ei no Senhor e a minha alma exulstará no meu Deus: porque me revestiu com o manto da salvação e me adornou com o manto da justiça, como uma noiva adornada com as suas jóias).

Entre estas jóias da Puríssima podemos muito bem incluir um dos cálices mais belos e preciosos, senão o mais belo e precioso, que enriquece o Tesouro da Basílica de São Pedro: o cálice da Imaculada Conceição.

Mandado fazer em Roma pelo Papa Pio IX, em 1854, para que pudesse ser utilizado para a oferta do Santo Sacrifício no dia em que se definisse o dogma da Imaculada Conceição, este cálice encanta os olhos de quem o vê, com o esplendor de quase 700 diamantes, que o adornam.

Essas pedras preciosas foram doadas ao Papa Mastai (Pio IX), para a sua coroação (1846), por um sultão árabe e cravejadas em arreios de cavalo. De facto, até recentemente, era costume dar animais de certo valor aos Sumos Pontífices (ver o elefante de Leão X ou os leões de São Pio X).

Com a morte do corcel, decidiu-se reutilizar aquelas gemas de imenso valor e, portanto, foram votadas para a maior glória do culto divino e para a honra da Mãe de Deus concebida sem pecado original, que tem direito ao louvor de todas as criaturas, fiéis e infiéis, por ter dado ao Mundo o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo.

in Cuore Ecclesiastico Sacratissimo di Gesù


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Leis humanas e a imutabilidade da Fé Católica

Ao tratar as leis humanas — portanto aquelas que envolvem sempre imperfeições, como tudo o que procede de um agente destituído da plenitude do ser — S. Tomás de Aquino declara que elas não devem ser mudadas, a não ser quando haja evidente necessidade, ou, ao menos grande utilidade que o exija. E dá como razão o facto de que a própria mudança encerra uma imperfeição, uma vez que lança certo descrédito sobre a mesma lei (S. T. I-II, q. 97, a. 2). 

Que diria, então, S. Tomás da Fé? Porque a Fé não impõe apenas uma prática de procedimento, que pode variar, segundo os povos e os tempos. A Fé versa sobre verdades e verdades reveladas por Deus. Portanto, é, de si, imutável. Daí o axioma sintetizado na frase latina “immota fides”, para significar a fidelidade perfeita em matéria de Fé. 

Não quer dizer que o fiel não possa progredir na Fé. Pode e deve. Mas enquanto aprofunda os seus conhecimentos, não enquanto os muda ou substitui por novas verdades. Por isso, distingue bem o mesmo S. Tomás entre a “substância” da Fé, ou seja, entre “as verdades” que são o objeto da Fé, e a explicitação maior ou menor dessa mesma Fé. 

Nesta elucidação da sua Fé, pode o fiel crescer; não no conteúdo, que permanece idêntico até ao fim do mundo. Basta lembrar que o “Credo” admitido por um fiel batizado, quando chega ao uso da razão, é o mesmo “Creio em Deus Padre” do maior teólogo do mundo. Eis porque recomendava insistentemente São Paulo aos Tessalonicenses (2, 2-15) que permanecessem fiéis às tradições dele recebidas.

D. António de Castro Mayer in 'Monitor Campista' (1978)


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150 anos do decreto que proclamou S. José Patrono da Igreja

Por ocasião dos 150 anos da proclamação de S. José como Patrono da Igreja, pelo Papa Pio IX, o Papa Francisco estabeleceu 1 ano dedicado a S. José, que perdurará até 8 de Dezembro de 2021, festa da Imaculada. Vale a pena ler o curto decreto através do qual o pai putativo de Nosso Senhor Jesus Cristo foi feito Patrono da Igreja:

QUEMADMODUM DEUS
Decreto de S.S. o Papa Pio IX
Proclamando São José como Patrono da Igreja

À Cidade e ao Mundo

Da mesma maneira que Deus havia constituído José, gerado do patriarca Jacob, superintendente de toda a terra do Egipto para guardar o trigo para o povo, assim, chegando a plenitude dos tempos, estando para enviar à Terra o Seu Filho Unigénito Salvador do Mundo, escolheu um outro José, do qual o primeiro era figura, fê-lo Senhor e Príncipe de sua casa e propriedade e elegeu-o guarda dos seus tesouros mais preciosos.

De facto, ele teve como sua esposa a Imaculada Virgem Maria, da qual nasceu, pelo Espírito Santo, Nosso Senhor Jesus Cristo, que perante os homens dignou-se ter sido considerado filho de José e lhe foi submisso. E Aquele que tantos reis e profetas desejaram ver José não só viu, mas com Ele conviveu e com paterno afecto abraçou e beijou; e além disso, nutriu cuidadosamente Aquele que o povo fiel comeria como Pão descido dos Céus para conseguir a vida eterna. Por esta sublime dignidade, que Deus conferiu a este fidelíssimo servo seu, a Igreja teve sempre em alta honra e glória o Beatíssimo José, depois da Virgem Mãe de Deus, sua esposa, implorando a sua intercessão em momentos difíceis.

E agora, nestes tempos tristíssimos em que a Igreja, atacada de todos os lados pelos inimigos, é de tal maneira oprimida pelos mais graves males, a tal ponto que homens ímpios pensam ter finalmente as portas do Inferno prevalecido sobre ela, é que os Veneráveis e Excelentíssimos Bispos de todo o mundo católico dirigiram ao Sumo Pontífice as suas súplicas e as dos fiéis por eles guiados, solicitando que se dignasse constituir São José como Patrono da Igreja Católica. 

Tendo depois no Sacro Concílio Ecuménico do Vaticano insistentemente renovado as suas solicitações e desejos, o Santíssimo Senhor Nosso Papa Pio IX, consternado pela recentíssima e funesta situação das coisas, para confiar a si mesmo e os fiéis ao potentíssimo patrocínio do Santo Patriarca José, quis satisfazer os desejos dos Excelentíssimos Bispos e solenemente declarou-o Patrono da Igreja Católica, ordenando que a sua festa, marcada para 19 de março, seja de agora em diante celebrada com rito duplo de primeira classe, porém sem oitava, por causa da Quaresma.

Além disso, ele mesmo dispôs que tal declaração, por meio do presente Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, fosse tornada pública neste santo dia da Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus e Esposa do castíssimo José.

Rejeite-se qualquer coisa em contrário.

8 de Dezembro de 1870


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Tota Pulchra es Maria (latim e português)



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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Premier League: Jogador destrói bandeira LGBT em campo

Jamie Vardy, jogador do Leicester City, marcou o golo da victória da sua equipa frente ao Sheffield United no último minuto de jogo. Celebrando efusivamente o importante golo marcado, Vardy fez um sprint até ao canto mais próximo e um carrinho que destruiu completamente a bandeirola LGBT que ali se encontrava. 

A Premier League tinha usado esta jornada para fazer uma campanha pró-LGBT, na qual todas as bandeirolas de canto tinham a bandeira do arco-íris, impropriamente usada por esse movimento.

James Vardy é católico, pai de 5 filhos e defensor da família. Em 2016, antes do Europeu de Futebol, durante o qual jogou pela Inglaterra, teve as suas chuteiras abençoadas, por intercessão de Santa Rita de Cássia (padroeira das causas impossíveis).


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domingo, 6 de dezembro de 2020

Rejeitar um único artigo da doutrina católica é deixar de ser católico

Os Arianos, os Montanistas, os Novacianos, os Quartodecimanos, os Eutiquianos não abandonaram a doutrina católica por inteiro, mas apenas esta ou aquela parte: e no entanto quem é que não sabe que eles foram declarados hereges e rejeitados do seio da Igreja? 

E julgamento semelhante tem condenado todos os fautores de doutrinas erradas que entretanto apareceram, ao longo das diferentes épocas da História. 

“Nada pode ser mais perigoso do que esses hereges que, conservando em tudo o mais a integridade da doutrina, alterando uma só palavra, como uma gota de veneno, corrompem a pureza e a simplicidade da Fé que recebemos através da Tradição Apostólica.” (Anon., Tract. de Fide Orthodoxa contra Arianos)

Tal foi sempre o costume da Igreja, apoiada no juízo unânime dos santos Padres, os quais sempre consideraram como excluído da comunhão católica e fora da Igreja quem quer que se separasse o menor que fosse da doutrina ensinada pelo magistério autêntico.

Papa Leão XIII in Encíclia 'Satis Cognitum', 1896


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sábado, 5 de dezembro de 2020

Consagração: o momento mais importante da Santa Missa



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A Superstição do Divórcio - Chesterton

Se o divórcio for uma doença, já não é uma doença chique, como a apendicite, mas uma epidemia, como o sarampo. Já vimos que os jornais e os homens públicos, hoje em dia, fazem uma tremenda algazarra ao proclamar a necessidade de ajudar os pobres a obter um divórcio. Mas por que tanto ansiariam eles pela liberdade do pobre se divorciar, e nem um pouco por que ele tenha qualquer outra liberdade? Por que as mesmas pessoas ficam felizes, à beira das gargalhadas, quando ele se divorcia, e horrorizadas quando ele bebe uma cerveja? 

O que o pobre faz com seu dinheiro, o que acontece com seus filhos, onde ele trabalha, quando ele sai do serviço, tudo isso está cada vez menos sob o controle dele. Bancos de Empregos, Carteiras de Trabalho, Seguros-Desemprego e centenas de outras formas de supervisão e inspecção policial foram combinadas, para o bem ou para o mal, para fixá-lo cada vez mais estritamente num determinado lugar na sociedade.

Cada vez menos lhe é permitido procurar outro serviço; por que carga d’água se lhe quer permitir que procure outra mulher?! Ele está cada vez mais constrito a obedecer a uma espécie de lei muçulmana que proíbe a bebida; porquê facilitar que ele abandone a velha lei cristã sobre o sexo?! Qual é o sentido desta imunidade misteriosa, desta permissão especial para o adultério? Por que razão a única alegria que ainda lhe está aberta deveria ser fugir com a mulher do vizinho?! Por que razão ele deveria amar como lhe der na telha, se não pode viver como lhe dá na telha?! 

A resposta, lamento dizê-lo, é que esta campanha social, na maioria senão em todos os seus proponentes mais proeminentes, baseia-se, neste tema, num interesse particular do tipo mais hipócrita e pestilento. Há defensores da democratização do divórcio que são realmente defensores da liberdade democrática em geral. Estes, contudo, são a excepção. Mais ainda: eu diria, com todo o respeito, que são fantoches.

A omnipresença do assunto na imprensa e na sociedade política é devida a um motivo diametralmente oposto ao que é abertamente professado. Os governantes modernos, que são simplesmente os ricos, mudam muito pouco na sua atitude em relação aos pobres. É o mesmo espírito que arranca deles os filhos com o pretexto da ordem e quer arrancar-lhes a esposa com o pretexto da liberdade. Quem deseja, como diz a letra da música satírica, “destruir o lar feliz”, procura, antes de tudo, não destruir a fábrica, que não é nada feliz.

O capitalismo, é claro, está em guerra contra a família, pela mesma razão que o levou à guerra contra o sindicato. Este é, realmente, o único sentido em que o capitalismo está ligado ao individualismo; o capitalismo acredita no colectivismo para ele mesmo e no individualismo para os seus inimigos. Ele quer que as suas vítimas sejam indivíduos, ou, em outras palavras, quer atomizá-los. A palavra “átomo”, no seu sentido mais claro (que não é nem um pouco evidente) pode ser traduzida como “indivíduo”. 

Se restar alguma ligação ou fraternidade, se houver qualquer lealdade de classe ou disciplina doméstica pela qual o pobre possa ajudar o outro pobre, estes emancipadores farão o que puder para afrouxar este laço ou destruir esta disciplina da maneira mais liberal possível. Se houver tal fraternidade, estes individualistas vão redistribuí-la na forma de indivíduos; ou, em outras palavras, atomizá-la, reduzi-la a átomos.

Os mestres da plutocracia moderna sabem o que estão a fazer. Eles não estão a cometer qualquer engano. Eles podem ser absolvidos de qualquer acusação de incoerência. Um instincto preciso e muito profundo levou-os a determinar que o lar humano é o obstáculo maior diante do seu progresso desumano. Sem a família não há recurso diante do Estado, que em nosso caso, na modernidade, é o Estado Servil. Para usar uma metáfora militar, a família é a única formação em que o ataque dos ricos pode ser debelado. É uma força que forma casais como os soldados formam esquadras e que, em todos os países agrários, guardou a casa ou o sítio como a infantaria guardou sua trincheira contra a cavalaria. 

Como esta força o opera, e o seu porquê, tentaremos explicar no último destes artigos. Mas é quando ela está prestes a ser destroçada pelos cavaleiros do orgulho e do privilégio, como na Polónia ou na Irlanda, quando a batalha se torna mais desesperada e a esperança é mais obscura, que os homens começam a entender por que este voto selvagem, no seu início, já era mais forte que todas as lealdades deste mundo; e o que pareceria fugaz como uma aparição é tornado permanente, na forma de um voto.

G.K.Chesterton no livro 'A Superstição do Divórcio' 


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