domingo, 16 de novembro de 2014

Um sacerdote que tem no coração a paz litúrgica

Entrevista concedida pelo pároco de uma paróquia de Oklahoma, o Pe. Timothy Davison, a Alberto Carosa, o correspondente em Roma de Catholic World Report. O Pe. Tim, que celebra a forma extraordinária do Rito Romano há menos de dois anos, participou na peregrinação “Summorum Pontificum”, levando consigo um grupo de peregrinos.


1) Pe. Davison, por que motivo decidiu juntar-se à terceira peregrinação do povo Summorum Pontificum a Roma?

Pe. Tim: Não é há muito tempo, não chega a um ano e meio, que celebro a missa tradicional e, quando me convidaram para participar na peregrinação como capelão de um grupo de fiéis, tive de reflectir bastante sobre o assunto. Tenho a meu cargo uma paróquia e uma escola e isso representa muito trabalho. Por fim, acabei por decidir que tinha necessidade de ir, que precisava de me encontrar com outras pessoas que fazem a experiência desta liturgia e das suas riquezas. Era já há muito tempo que a liturgia tradicional me atraía e vi que a peregrinação podia ser uma ocasião para partilhar com outras pessoas este acontecimento da vida da Igreja.

Numa palavra: decidi participar para me sentir apoiado e poder apoiar todos os que celebram a liturgia tradicional.

2) O que é que o levou a celebrar a missa tradicional?

Pe. Tim: Durante algum tempo tive como director espiritual um sacerdote beneditino, o Pe. Mark Kirby, conhecido pelo seu livro “Abuse Of The Holy Eucharist Is A Cancer At The Heart Of The Church!” (“O abuso da Santíssima Eucaristia é um cancro no coração da Igreja!”). Ele teve uma grande influência no meu interesse pela liturgia e pela sua história, em particular a liturgia tradicional. Foi através desta influência e da dos monges de um mosteiro da nossa diocese que me veio o desejo de aprender essa liturgia e de a celebrar. Ainda mais porque a minha mãe, que tem 94 anos, me pediu para ter o rito tradicional no seu enterro.

Por tudo isso, acabei pedindo à Fraternidade de São Pedro, que está presente na nossa Diocese, para que me formasse. E foi o que fizeram, e quanto mais aprendia a celebrar, mais me sentia feliz por poder compreender melhor a nossa liturgia católica e a sua tradição. Coisa que não tinha acontecido com o Novus Ordo, que havia celebrado durante os meus primeiros sete anos de sacerdócio.

A descoberta da liturgia tradicional permitiu-me aprofundar a minha compreensão do mistério da Eucaristia e do respeito, da veneração e dos gestos que a devem acompanhar.

3) Que influência teve na via da sua paróquia, a sua escolha de celebrar in utroque usu, isto é, numa como noutra forma do rito romano?

Pe. Tim: Na minha paróquia, há três grupos distintos:

– os anglófonos, para quem se celebra o Novus Ordo em inglês. Trata-se de fiéis sobretudo mais velhos, poucos jovens, e pouco interessados na missa tradicional;

– os hispânicos, que são a maior parte da população da paróquia, mas não se interessam mais do que aqueles pela missa tradicional; 

– e, por fim, os fiéis ligados à forma extraordinária, um grupo vindo de um outro lugar de missa e que já tinha acólitos e uma schola, que era tudo o que me fazia falta para a missa solene que celebramos domingo, às 13 horas.

Por agora, estes grupos quase não se misturam. Alguns fiéis anglófonos e hispânicos já vieram à missa tradicional, mas não se tornaram fixos.

4) O aparecimento da missa tradicional foi ocasião de divisão? Pergunto, porque esse é um argumento que frequentemente se levanta contra a aplicação do Motu Proprio "Summorum Pontificum".

Pe. Tim: De modo algum. Está tudo muito tranquilo e não há qualquer problema. A única dificuldade é para mim, que tenho de me multiplicar para conseguir dedicar-me às três comunidades. Devo dizer que a forma extraordinária, que se celebra às segundas, sextas e domingos, toma-me muitas energias e tempo, pois pede-me mais trabalho para poder celebrar bem e para me habituar ao calendário, que é diferente do ordinário.

5) O o que diz o seu bispo?

Pe. Tim: O nosso bispo, Mons. Edward Slattery, é muito tradicional e, pelo que sei, é um dos raros bispos a celebrar a forma ordinária ad orientem. Mas também celebra com muito agrado a forma extraordinária. É aberto e acolhedor.. No dia 24 de Abril de 2010, ele celebrou uma missa pontifical solene no santuário nacional da Imaculada Conceição, em Washington, por ocasião do quinto aniversário da eleição de Bento XVI para a Cátedra de São Pedro. Foi a primeira missa pontifical solene a ser aí celebrada desde há mais de 40 anos, diante de 3500 pessoas, entre as quais o Cardeal Baum e uma centena de sacerdotes e seminaristas. Além disso, foi Mons. Slattery quem trouxe a Fraternidade de São Pedro para a Diocese. Eles têm a seu cargo a paróquia do Preciosíssimo Sangue, que antes se chamava de São Pedro.

6) É, com efeito, uma graça poder ter um bispo assim: poderia contar-nos algo mais sobre a sua personalidade?

Pe. Tim: Tem toda a razão. Mons. Slattery tem 74 anos e por isso, está a chegar ao fim do seu mandato. É originário da Diocese de Chicago e não é por acaso que esta cidade desempenhou e continua a desempenhar um papel essencial na difusão da forma extraordinária do rito romano. É aí que está a paróquia de São João Câncio, dirigida pelo Cónego Frank Phillips, que fundo dos cónegos de São João Câncio em 1998, uma comunidade religiosa masculina votada à restauração do sentido do sagrado no quadro do ministério paroquial.

7) Ainda?

Pe. Tim: A missão desta comunidade aparece bem definida na sua divisa: Instaurare Sacra. Os cónegos de São João Câncio têm por particular missão, por exemplo, a formação de sacerdotes desejosos de aprender a celebrar a forma extraordinária. Na minha paróquia, temos um sacerdote mexicano que assim que viu que eu celebrava a forma extraordinária, logo me pediu se também podia aprender. Enviei-o a Chicago e foi o milésimo sacerdote a ser formado por eles. Se pensarmos que a Fraternidade de São Pedro também terá formado outros mil, já vamos em 2000 sacerdotes que dizem a missa tradicional nos Estados Unidos. 

8) A celebração da forma extraordinária exerce alguma influência sobre o modo como celebra a forma ordinária?

Pe. Tim: Sem dúvida. A influência maior consiste na espiritualidade, no silêncio, na reverência, na extrema atenção presente em cada gesto que agora faço – por exemplo, o assegurar-se de que nenhum fragmento de hóstia caia por terra ou fique agarrado aos dedos do celebrante. Nesta matéria, penso que não seria uma má ideia que o novo rito recuperasse um pouco da disciplina tradicional, uma disciplina que infunde temor e reverência diante do que temos o privilégio de realizar aqui nesta terra. Numa palavra: do princípio ao fim, a liturgia tradicional mergulha-nos no mistério transcendente de Deus.

in Paix Liturgique


blogger

1 comentário:

Anónimo disse...

Como eu gostava de assistir a uma dessas missas. A minha avó diz que saia da Missa a chorar tal era o impacto no coração.