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domingo, 23 de junho de 2024

Oração para afastar o maligno

Visitai, Senhor, esta morada
Afastai dela as emboscadas do inimigo
Habitem nela os vossos santos Anjos e nos guardem em paz
E a Vossa bênção esteja sempre connosco.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,
Que vive e reina conVosco na unidade do Espírito Santo, Deus,
Pelos séculos dos séculos. 
Ámen



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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

As duas artimanhas do demónio para afastar os jovens da virtude - S. João Bosco

O demónio tem normalmente duas principais artimanhas para afastar os jovens da virtude. A primeira consiste em persuadi-los de que o serviço de Deus exige uma vida triste, sem nenhum divertimento nem prazer. Mas isto não é verdade, meus caros jovens. Vou mostrar-vos um plano de vida cristã que poderá manter-vos alegres e contentes, fazendo-vos conhecer ao mesmo tempo quais são os verdadeiros divertimentos e os verdadeiros prazeres, para que possais exclamar com o santo profeta David: “Sirvamos ao Senhor na santa alegria”.

A segunda artimanha do demónio consiste em fazer-vos conceber uma falsa esperança duma vida longa,  que permite converter-se na velhice ou na hora da morte. Prestem atenção, meus caros jovens, muitos já se deixaram prender por esta mentira. Quem nos garante que chegaremos à velhice? Se se tratasse de fazer um pacto com a morte e de esperar até então... Mas a vida e a morte estão nas mãos de Deus, que dispõe de tudo a seu bel-prazer.

E mesmo se Deus vos concedesse uma vida longa, escutai entretanto a sua advertência: “O caminho do homem começa na juventude, ele segue-o na velhice até à morte”. Ou seja, se começamos com uma vida exemplar, seremos exemplares na idade adulta, a nossa morte será santa e entraremos na felicidade eterna. Se, pelo contrário, os vícios começam a dominar-nos desde a juventude, é muito provável que nos mantenham na escravidão toda a nossa vida até a morte, triste prelúdio de uma eternidade terrível.

Para que esta infelicidade não vos aconteça, apresento-vos um método de vida alegre e fácil, mas que lhes bastará para se tornarem a consolação dos vossos pais, a honra da vossa pátria, bons cidadãos, e depois felizes habitantes do Céu...

Meus caros jovens, amo-vos de todo o coração e basta-me que sejam jovens para que vos ame extraordinariamente. Garanto-vos que encontrareis livros que vos foram dirigidos por pessoas mais virtuosas e mais sábias que eu em muitos pontos, mas dificilmente encontrareis alguém que vos ame mais do que eu, em Jesus Cristo, e que deseje mais a vossa felicidade.

Conservem no coração o tesouro da virtude, porque possuindo-o tendes tudo, mas se o perdeis, sereis os homens mais infelizes do mundo. Que o Senhor esteja sempre convosco e vos conceda seguir os simples conselhos presentes, para que sejais capazes de aumentar a glória de Deus e obter a salvação da alma, fim supremo para o qual fomos criados. Que o Céu vos dê longos anos de vida feliz e que o santo temor de Deus seja sempre a grande riqueza que vos enche de bens celestes aqui e por toda a eternidade.


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terça-feira, 31 de outubro de 2023

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O Cristianismo libertou o Homem do medo dos Demónios

Apesar do que dizem certos teólogos superficiais, o Demónio é, para a fé cristã, uma presença misteriosa, mas real, pessoal, não-simbólica.
    
É uma realidade poderosa, 'o Príncipe deste mundo', como lhe chama o Novo Testamento, que por mais de uma vez recorda a sua existência; é uma liberdade maléfica e sobre-humana, oposta à de Deus, como mostra uma leitura realista da história, com o seu abismo de atrocidades sempre renovadas e não explicáveis apenas pelo homem.
    
O homem, sozinho, não tem força para se opor a Satanás, que não é um outro deus. Unidos a Jesus, temos a certeza de vencê-lo. Cristo é o  'Deus próximo' que tem força e vontade de nos libertar: por isso o Evangelho é realmente 'boa nova'. E por isso devemos continuar a anunciá-lo àqueles regimes de terror    que são, muitas vezes, as religiões não-cristãs.

Direi mais: a cultura ateia do Ocidente moderno sobrevive graças à libertação do medo dos demónios trazida pelo cristianismo. Mas, se esta luz redentora do Cristo se extinguisse, embora com toda a sua sabedoria e com toda a sua tecnologia, o mundo recairia no terror e no desespero.

Já existem sinais desse retorno às forças obscuras, enquanto crescem no mundo secularizado os cultos satânicos. 

Cardeal Joseph Ratzinger in Diálogos sobre a fé (1985)


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terça-feira, 17 de maio de 2022

Católico e maçon, será possível? - Entrevista a Maurice Caillet

Quais as razões que levaram o Padre Michel Riquet, jesuíta, a defender a maçonaria?

R. O Padre Riquet deu-se com maçons no período da Resistência (1940-1945) ; alguns deles tornaram-se seus amigos; nada mais natural. Mais tarde, ele aceitou, com toda a ingenuidade, um convite de uma loja, em Laval, em 1961, e ficou seduzido pela parte do ritual que aceitaram revelar-lhe, pois os maçons nunca mostram a totalidade do ritual a um profano. Não sei se ele tinha autorização dos superiores da Companhia de Jesus, mas o seu caso não foi único. Há outros jesuítas, ainda hoje, a defender a ideia de que é possível ser católico e maçon. Por exemplo, o Padre José António Ferrer Benimelli, historiador em Saragoça. O Padre Jean-Marie Glé, do serviço Incroyance et foi. O Padre Étienne Perrot, em Genebra (cf. o seu artigo em Croire aujourd'hui, de 15-4-2006), e outros. 

Confundem tolerância e sincretismo — uma « açorda » espiritual! O diálogo é sempre desejável, mas não deve levar a abalar os fundamentos da Fé. Aliás, houve reuniões, nos anos 1970/1980, entre a Igreja Católica e as Grandes Lojas Unidas da Alemanha, e chegaram à conclusão, em ambos os lados, que não é possível, razoavelmente, pertencer, simultaneamente, à Igreja e à maçonaria. E o debate incidia apenas sobre os três primeiros graus da iniciação, por os maçons se terem recusado a abordar os graus superiores…

Já sofreu pressões ou ameaças por parte de maçons?

R. Sim. Mais precisamente depois da minha conversão e quando tinha ainda responsabilidades na Segurança Social. Recebi, até, uma ameaça de morte por parte de um responsável da Grande Loge de France, quando manifestei a minha intenção de apresentar queixa nos Prud'hommes [tribunal profissional]. Devo confessar que há, no entanto, idealistas incorrigíveis entre os maçons, como, por exemplo, este irmão 33.º grau que, depois de ler o meu primeiro livro, me escreveu : « Congratulo-me por teres encontrado a Luz que eu próprio procuro há tanto tempo!»

Já participou em missas negras?

R. Não, nunca. Mas sabe-se que tem havido profanações desse género, sobretudo no início do século XX. Basta ler os testemunhos da Madre Yvonne-Aimée de Jesus, prioresa-geral das agostinhas hospitaleiras de Malestroit, na Bretanha, a quem o próprio Jesus informava da presença de hóstias consagradas em casas de certos profanadores. Ela ia buscá-las, para grande espanto dos culpados. 

Por outro lado, fiquei bastante impressionado com o ritual da minha última iniciação, 18.º grau, Cavaleiro Rosa-Cruz: esta, com o nome de «Ceia», tem lugar na noite de Quinta-Feira Santa, com partilha de pão e de vinho, sem consagração felizmente! O Senhor preservou-me de conhecer directamente os rituais dos graus superiores ; mas sei que no 30.º (Grande Eleito Cavaleiro Kadosh) — e isto foi também confirmado por D. Joseph Stimpfle, bispo de Augsburgo, que participou nas já referidas reuniões, na Alemanha —, o iniciado lança no chão a tiara do Papa.

Será possível definir a maçonaria como uma seita?

R. É a designação que lhe dá o Papa Leão XIII, na sua encíclica Humanum Genus (1884). No que diz respeito às lojas de base, não se pode falar em seita, porque o seu funcionamento é democrático, em todos os níveis da pirâmide hierárquica. Agora, os altos graus funcionam por cooptação e com progressivo secretismo. A influência intelectual e psicológica dos graus superiores sobre os inferiores induz um «efeito Janis» , ou pensamento gregário, em que cada um tende a conformar-se com o «espírito da casa» para aceder aos escalões superiores. Seja como for, é pouco provável que a maçonaria venha a ser catalogada como seita, pois, em França, a UNADFI (Union Nationale des Associations de Défense des Familles et de l'Individu Victimes des Sectes), que combate as seitas, é presidida por Catherine Picard, filiada na maçonaria!

É possível deixar de ser maçon?

R. As Constituições e Regulamentos prevêem a possibilidade de abandonar as lojas de base, e também os altos graus, mas, na realidade, o maçon que se demite volta a ser constantemente contactado; os responsáveis da loja vêm dizer-lhe que as iniciações o marcaram de maneira indelével — o que é falso —, e que poderá, a todo o momento, retomar o seu lugar «sobre as colunas», sem ser obrigado a recomeçar as iniciações — o que é verdade. Eu próprio, fui contactado por ex-amigos e irmãos, que me diziam que a minha conversão não impedia o meu regresso à loja. 

A minha resposta deixava-os sem voz : «O que é que havia de encontrar agora na loja, eu que encontrei Jesus Cristo ?» Mas os maçons comprometidos em casos políticos ou financeiros podem ser sujeitos a chantagem por parte dos seus «irmãos» e hesitar em deixá-los por medo das represálias. Em todo o caso, são raros os que ousam dizer publicamente que abandonaram as lojas. Conhece-se o caso do Reverendo Michel Viot, protestante, que se tornou padre da Igreja Católica depois de abandonar a maçonaria.

A este propósito, porque é que as relações entre o protestantismo e a maçonaria não são conflituosas?

R. Primeiro, porque a maçonaria moderna foi fundada por dois pastores protestantes, um anglicano e o outro presbiteriano, e porque, durante muito tempo, os dignitários das comunidades anglicanas tiveram responsabilidades na maçonaria anglo-saxónica. Assim, o rei de Inglaterra é, de direito, Grão-Mestre da maçonaria (a actual rainha faz-se representar pelo duque de Kent, pois a maçonaria inglesa não admite mulheres sobre as suas «colunas»). 

Convém, no entanto, referir que, ultimamente, a High Church tem desaconselhado a dupla filiação, a exemplo da Igreja Romana. Por outro lado, a independência de consciência do maçon em relação a Deus coaduna-se muito bem com o livre exame do protestante, de maneira que estes são bastante numerosos nas lojas. Os judeus também.

Existe alguma aliança entre o judaísmo e a maçonaria?

R. Católicos integristas defendem a ideia de uma conspiração judeo-maçónica para a conquista do mundo ; não acredito nisto, nem no famoso Protocolo dos Sábios de Sião, que não passa de uma falsificação escrita por um russo mais que iluminado. Tão-pouco se deve dar crédito às Instruções da maçonaria aos bispos maçons: a pobreza do texto basta para o desacreditar ; não é digno nem dos bispos nem dos maçons. 

O facto de a maçonaria estar a ser frequentemente instrumentalizada por Satanás não nos deve levar a diabolizá-la exageradamente, pois o que é excessivo é insignificante ; basta recomendar aos católicos que não entrem na maçonaria, pois nela não há qualquer espécie de vantagem espiritual que se possa encontrar… A não ser que se procurem vantagens materiais… mas com prejuízo da sua alma.

Haverá ligações entre a maçonaria e clubes como o Rotary Club e o Lion's Club?

R. Não se pode negar que estes clubes foram criados nos Estados Unidos da América por maçons dos altos graus (que encontramos também na origem dos Mormons e das Testemunhas de Jeová). Nestes clubes, de fachada mundana e aparência inócua, existe um certo número de maçons encarregados de aliciar discretamente as individualidades «interessantes».

Como é que os maçons se reconhecem uns aos outros?

R. Conforme os graus, o iniciado aprende « sinais e toques » que lhe permitem reconhecer os irmãos numa assembleia de profanos. São saudações especiais, apertos de mão significativos… Por outro lado, na maioria das cidades francesas, os mestres dispõem de um pequeno guia com os nomes e os endereços dos irmãos que podem servir de albergue. Podem também inserir na sua assinatura pequenos sinais que o iniciado reconhece facilmente.

Quais são as relações entre a maçonaria e o Islão?

R. Tirando alguns intelectuais árabes a viver nos países ocidentais, os muçulmanos não têm a ingenuidade, ou a inconsideração, de quererem entrar na maçonaria… Os únicos países muçulmanos onde houve lojas maçónicas foram o Líbano, devido ao seu cosmopolitismo, o Egipto, no tempo da ocupação inglesa, e a Turquia, mais ocidentalizada do que os seus vizinhos.

Qual foi a situação da maçonaria durante a ocupação da França pelos nazis?

R. O governo de Vichy proibiu a maçonaria e ordenou perquisições nas lojas ; os arquivos viriam a ser encontrados, mais tarde, na Alemanha… Maçons foram presos e deportados. Isso explica a animosidade dos maçons em relação ao regime de Vichy e o seu acentuado secretismo depois da Libertação.

Os rituais da maçonaria comportam elementos de magia, de ocultismo?

R. Sim, e, muitas vezes, os próprios maçons não têm consciência disso. É assim que a «cadeia de união», que reúne os irmãos no fim de cada reunião ou sessão branca, visa, na realidade, a reforçar a egrégore, isto é, a força mental do grupo com vista à transformação do mundo profano à sua volta. Além disso, venera-se nas lojas a serpente Uroboros, instigadora da desobediência. Já falei dos rituais « pouco católicos » dos graus superiores ao 18.º.

Qual é a influência da maçonaria na política francesa?

R. Esta influência tem variado consoante as épocas. Foi muito forte durante a III República (1871-1940), com inúmeros Presidentes da República e Presidentes do Conselho oriundos das lojas. Maçons como Jules Ferry e Émile Combes estiveram na origem das leis de separação da Igreja e do Estado, em 1905. Durante a IV República (1946-1958) e a V (a actual), a influência não se tem feito sentir tão fortemente como dantes, sendo porém talvez mais perniciosa, chegando a perverter o sistema democrático. 

Houve alturas em que, no Parlamento, os maçons eram tão numerosos à direita como à esquerda (exceptuando o Partido Comunista e a Frente Nacional). A lei Veil sobre o aborto foi adoptada por um voto maciço dos maçons de esquerda e de direita, independentemente das suas divergências ideológicas no plano político. Foi por isso que preconizei, em 2005, a separação da maçonaria e do Estado (cf. L'Homme Nouveau, n.o 1356).

in Do Portugal Profundo


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sábado, 14 de maio de 2022

Carta de um Diabo ao seu Aprendiz

[Nota introdutória: Esta carta foi transcrita do livro "Vorazmente teu" (The Screwtape Letters), de C.S. Lewis. Trata-se duma troca de correspondência entre o experiente diabo, Escritorpe, e o seu sobrinho Absintox. Lewis dá-nos uma aula de como são as armadilhas e artimanhas e utilizadas pelo diabo para nos confundir]

Querido Absintox,

Espero que a minha última carta te tenha convencido de que a tribulação, o ponto baixo de "aridez" e embotamento que o teu paciente enfrenta no momento, não irá, por si só, dar-te a sua alma, mas sim que é algo que precisa ser devidamente explorado. A seguir discorrerei sobre como explorar essa fase.

Em primeiro lugar, sempre fui da opinião de que os períodos de baixa da ondulação humana nos dão uma excelente oportunidade para todas as tentações de cunho sensual, principalmente as do sexo. Talvez isso seja uma surpresa para ti, porque, afinal de contas, é nas fases de pico que existe mais energia física e, portanto, mais apetite em potencial; mas tens que te lembrar que o poder da resistência também está no seu nível máximo. A saúde e a disposição que queres usar para produzir a luxúria também podem — ai de nós — ser facilmente usadas para a labuta, a diversão, o pensamento ou a alegria inócua. 

O ataque será mais bem-sucedido quando todo o mundo interior de um homem estiver frio, vazio, triste. Também é importante notar que a sexualidade nas fases de baixa difere subtilmente em qualidade da sexualidade nas fases de pico — está bem menos propensa àquele fenómeno insípido que os humanos chamam "apaixonar-se", mais propensa a ser atraída para as perversões e bem menos contaminada por aqueles acrescentos generosos, cheios de imaginação e até mesmo espirituais, que geralmente fazem com que a sexualidade humana seja tão decepcionante.

O mesmo acontece com os outros prazeres da carne. Terás mais probabilidade de tornar o teu homem um legítimo alcoólatra se lhe empurrares a bebida como solução para sua apatia e exaustão do que ao encorajá-lo a usar a bebida como forma de diversão entre amigos quando ele estiver feliz e expansivo. Nunca te esqueças que quando lidamos com qualquer prazer, na sua forma normal e gratificante, estamos, de certo modo, no campo do Inimigo. Eu sei que já ganhámos várias almas através do prazer. Ainda assim, o prazer é invenção d'Ele, não nossa. Ele concebeu os prazeres. A nossa pesquisa, até o momento, não permitiu que produzíssemos nem sequer um deles. 

Tudo o que podemos fazer é encorajar os humanos a abordar os prazeres que o nosso Inimigo criou e usá-los de certas formas, ou em certos momentos, ou em certo grau que Ele tenha proibido. Sempre tentamos, portanto, trabalhar longe das condições naturais de qualquer prazer, e sim naquelas em que ele é menos natural, em que menos sugira o seu Criador, e menos gratificante. A fórmula, portanto, resume-se a uma ânsia cada vez maior por um prazer cada vez menor. É mais seguro e é mais elegante. Possuir a alma de um homem e não lhe dar nada em troca — é isso o que realmente alegra o coração do nosso pai. E as fases de baixa são a época em que devemos dar início a esse processo.

Mas existe um método ainda melhor para explorar os momentos de baixa, que é através dos próprios pensamentos do paciente sobre eles. Como sempre, o primeiro passo é afastá-lo do conhecimento. Não o deixes sequer suspeitar da existência da lei da ondulação. Deixa-o pensar que seria natural que o entusiasmo inicial da sua conversão durasse e que deveria ter durado para sempre, e que o seu actual estado de aridez é um estado igualmente permanente. Uma vez que essa crença errada estiver bem arraigada dentro dele, poderás avançar de diversas maneiras. 

Tudo dependerá do seu homem ser do tipo fácil de desencorajar, aquele que pode ser tentado a cair em desespero, ou de ser do tipo adepto do auto-engano, aquele que pode ser levado a acreditar que está tudo bem. É cada vez mais raro o primeiro tipo entre os humanos. Se o teu paciente for desse tipo, tudo será mais fácil. Deverás apenas afastá-lo da influência dos Cristãos mais experientes (o que é fácil de conseguir nos dias de hoje), voltar s sua atenção para as passagens apropriadas nas Escrituras e guiá-lo para que fique totalmente determinado a recobrar os seus sentimentos anteriores através da pura força de vontade. Se fizeres isso, ele será nosso. 

Se ele for do tipo mais esperançoso, o teu trabalho consistirá em fazê-lo resignar-se à actual frieza de sua alma e gradualmente contentar-se com ela, tentando convencer-se de que, afinal de contas, ela não está tão fria assim. Dentro de uma ou duas semanas, ele ficará em dúvida se os primeiros dias do seu Cristianismo não foram talvez um tanto exagerados. Converse com ele sobre "moderação em todas as coisas". Se conseguires fazê-lo chegar ao ponto de pensar que "a religião é benéfica só até certa medida", poderás então soltar fogos de artifício, pois a alma dele estará prestes a ser tua. Uma religião moderada é tão proveitosa para nós quanto religião nenhuma - e ainda mais divertida.

Existe também a possibilidade de atacar a sua fé directamente. Quando conseguires fazê-lo imaginar que o período de baixa é permanente, será que não poderias também persuadi-lo que a "sua fase religiosa" irá acabar, como todas as suas fases anteriores? É claro que não existe um modo concebível de ir, através da lógica, da afirmação "Estou gradualmente a perder o interesse por este assunto" até a afirmação "Tudo isso é falso". Mas, como eu disse anteriormente, deves contar com o jargão, não com a razão. A simples palavra "fase" certamente fará magia. 

Suponho que a criatura já tenha passado por várias fases antes — todos eles passam — e que se sinta superior a todas as fases más das quais conseguiu sair; não porque as tenha realmente avaliado, mas apenas porque estão no passado. (Imagino que o alimentes sempre com ideias nebulosas sobre Progresso, Desenvolvimento e o Ponto de Vista Histórico, e que lhe dás muitas biografias modernas para ler, não é? Nesses livros, todas as pessoas estão sempre a sair de fases, não é mesmo?)

Percebeste a ideia? Distrai a atenção dele da simples antítese entre Verdadeiro e Falso. Põe na sua mente algumas expressões bem vagas - "foi só uma fase", "já passei por isso" — e nunca te esqueças desta bendita palavra: "adolescente".

Afectuosamente, o teu tio,
Escritorpe


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quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Deus é o autor dos livros bons, o Diabo dos maus

O autor de bons livros é, em última razão, o Espírito de Deus, ao passo que o demónio é propriamente o inspirador dos maus. Este sabe esconder a muitos o veneno de que estão impregnados esses livros, pretextando que, pela leitura deles, se apropria um bom estilo ou uma reta norma de vida ou que, pelo menos, se aproveita convenientemente o tempo. Eu afirmo, de minha parte, que não há coisa mais prejudicial que a leitura de maus livros, particularmente para aqueles que desejam levar uma vida devota.

Por maus livros entendo não só os que a Santa Sé proibiu em razão de sua matéria herética ou imoral, mas também todos os que tratam de amores profanos. Que piedade poderá ter um cristão que se ocupa com a leitura de romances ou de novelas amorosas? Que recolhimento de espírito terá ele na meditação ou na santa comunhão? Mas que mal poderão causar os romances e poesias mundanas, que nada têm de indecoroso? perguntará alguém. Causam um mal imenso: excitam a sensualidade; inflamam as paixões, que facilmente arrastam consigo a vontade ou, ao menos, a enfraquecem tanto que o demónio já encontra o coração preparado para uma queda desastrosa no abismo do pecado, quando sobrevém uma ocasião para um amor impuro.

Um douto escritor diz que a heresia se alastrou tanto e ainda se espalha cotidianamente justamente em consequência da leitura de tais livros, porque essa leitura favorece a imoralidade, que aplaina o caminho para o erro. O veneno de tais livros penetra pouco a pouco na alma, apodera-se do entendimento, corrompe e perverte a vontade e traz a morte à alma. Em verdade, o demónio não possui talvez um meio mais seguro e poderoso para perder os jovens do que a leitura de livros tão venenosos. Um só livro dessa espécie pode chegar para perder toda uma família.

Por isso, querido leitor, se chegar às tuas mãos um tal livro, lança-o imediatamente no fogo, para que não apareça mais; e, se és pai de família, faze o que estiver em tuas forças para afastar de tua casa uma tal peste, se não quiseres dar um dia rigorosas contas a Deus.

Santo Afonso de Ligório in Pe. Saint-Omer C. SS. R. "Escola da Perfeição Cristã" - Edit. Vozes, Petrópolis (RJ), 1955


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domingo, 29 de dezembro de 2019

O Mal no Mundo segundo o Papa Bento XVI

Não obstante o seu progresso técnico, o mundo onde vivemos, em última análise – ao que parece – não se tem tornado melhor. Existem ainda guerras, terror, fome e doença, pobreza extrema e desalmada repressão. E mesmo aqueles que, na história, se consideraram «portadores de luz», mas sem ter sido iluminados por Cristo que é a única verdadeira luz, não criaram paraíso terrestre algum, antes instauraram ditaduras e sistemas totalitários onde até a mais pequena centelha de humanismo foi sufocada.

Neste ponto, não devemos calar o facto de que o mal existe. Vemo-lo em tantos lugares deste mundo; mas vemo-lo também – e isto assusta-nos – na nossa própria vida. Sim, no nosso próprio coração, existe a inclinação para o mal, o egoísmo, a inveja, a agressividade. Com uma certa autodisciplina, talvez isto se possa, em certa medida, controlar. Caso diverso e mais difícil se passa com formas de mal mais escondido, que podem envolver-nos como um nevoeiro indefinido, tais como a preguiça, a lentidão no querer e no praticar o bem. 

Repetidamente, ao longo da história, pessoas atentas fizeram notar que o dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios. «Vós sois a luz do mundo». Só Cristo pode dizer «Eu sou a luz do mundo»; todos nós somente somos luz, se estivermos naquele «vós» que, a partir do Senhor, se torna incessantemente luz. E, tal como o Senhor, num sinal de advertência, diz do sal que poderia tornar-se insípido, assim também nas palavras sobre a luz Ele incluiu uma pequena advertência: em vez de colocar a luz num candelabro, pode-se cobri-la com um alqueire. 

Perguntemo-nos: quantas vezes teremos coberto de tal modo a luz de Deus com a nossa inércia, com a nossa obstinação, que ela não pôde brilhar, por nosso intermédio, no mundo?

Papa Bento XVI in Vigília de Oração com os Jovens na Viagem Apostólica a Alemanha (Setembro 2011)


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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Um Bispo escreve aos jovens de Manchester: "Pobres filhos da sociedade que não reconhece o Mal"

Caríssimos filhos – sinto-me inclinado a chamar-vos assim, ainda que não vos conheça, pois nas longas horas de insónia depois de saber deste terrível atentado em que muitos de vós perderam a vida e muitos outros ficaram feridos, senti-me ligado a vós de uma maneira especial.

Viestes a este mundo - muitas vezes sem ser sequer desejados - e ninguém vos deu as “razões adequadas para viver”, como nos dizia o grande Bernanos à sua geração de adultos. Puseram-vos na sociedade dando-vos dois grandes princípios: que podem fazer aquilo que quiserem porque todo o vosso desejo é um direito e que é importante ter o maior número de bens de consumo.
  
Crescestes assim, assumindo como óbvio que tínheis tudo, e quando tínheis algum problema existencial – antes dizia-se assim – e o dizíeis aos vossos pais - aos vossos adultos – estava já pronta a sessão de psicanálise para resolver esse problema. Eles esqueceram-se só de dizer-vos que existe o Mal. E o Mal é uma pessoa, não é uma série de forças ou de energias. É uma pessoa. Esta pessoa escondeu-se ali, durante o vosso concerto, e a asa terrível da morte, que traz consigo, apanhou-vos.
  
Meus filhos, vós morrestes assim, quase sem razões, da mesma maneira que vivestes. Não vos preocupeis, não vos ajudaram a viver mas far-vos-ão um “óptimo” funeral, no qual se exprimirá ao máximo este pacote retórico laicista e onde estarão todas as autoridades presentes – infelizmente também as religiosas – de pé, silenciosas. É claro que os vossos funerais serão ao ar livre, também para os crentes, porque agora o único templo é a natureza.

Robespierre com certeza que iria rir, porque nem ele chegou a fantasiar isto. Aliás, nas igrejas já não se fazem mais funerais porque, como diz nos dias de hoje o Cardeal Sarah, nas igrejas católicas já se celebram os funerais de Deus. Não se esquecerão de colocar os vossos peluches, as vossas memórias de infância e dos primeiros anos da vossa juventude. Depois, tudo acabará com a retórica de quem não tem nada a dizer perante as tragédias, porque nada tem a dizer sobre a vida.

Espero que ao menos um destes gurus – culturais, políticos e religiosos – guarde a sua língua e não nos venha com os habituais discursos a dizer que “não é uma guerra de religiões” e que “a religião é por sua natureza aberta ao diálogo e à compreensão”. Alegrar-me-ei com isso, se houver simplesmente um momento silencioso e de respeito, sobretudo pelas vossas vidas mutiladas do ódio do demónio, mas também pela verdade. Isto porque os adultos deviam de ter, antes de mais, respeito pela verdade. Até podem não a servir, mas devem-lhe respeito.
  
Eu, no entanto, que sou um bispo velho que ainda acredita em Deus, em Cristo e na Igreja, celebrarei a Missa por todos vós no dia do vosso funeral, para que do outro lado – qualquer que sejam as vossas práticas religiosas – encontreis o querido rosto de Nossa Senhora que, mantendo-vos abraçados, vos consolará desta vida desperdiçada, fugida não por vossa culpa mas por culpa dos vossos adultos.

Mons. Luigi Negri, Arcebispo de Ferrara-Comacchio in La Nuova Bussola Quotidiana

Tradução: Senza Pagare


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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Jesus aguentou pacientemente um "demónio" entre os seus

Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um «demónio» entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: «Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo» (cf Mt 13,29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: «Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão» (Mt 18,15) 

Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que «não se dêem aos cães as coisas santas», que se «tratem como aos publicanos» aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo. 

Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contacto, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não frequentarmos os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles.

Santo Agostinho in 'A fé e as obras', caps. 3-5


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terça-feira, 26 de abril de 2016

A guerra dos mitos - Guerra dos Tronos vs. Senhor dos Anéis

A imersão na corrupção e no mal são mesmo a marca da boa literatura?

"Chegou a altura de espetar uma faca no coração de J.R.R. Tolkien e de O Senhor dos Anéis". Foi isto que disse Dana Jennings em 2011 no New York Times, a frase mais explícita numa guerra literária que já há muito tempo fugiu dos caminhos normais do mundo da fantasia para a consciência popular.

"Mr. Martin [não é] o Tolkien americano, como alguns dizem", continua Jennings, "Ele é muito melhor que isso." Quem é que lidera a voz autêntica da fantasia moderna: J.R.R. Tolkien ou George R. R. Martin? O grito de guerra, "Tolkien está morto, longa vida a George Martin", diz muito sobre o estado da nossa cultura e o papel da fantasia na sociedade.

Martin tem sido aclamado pelos críticos como um novo paradigma cultural. Como escreveu Anne Hobson no The American Spectator, Martin "está a iniciar um género de neo-fantasia para milhões de leitores". Apesar de ter publicado pela primeira vez em 1976, Martin tornou-se verdadeiramente famoso na década passada com a publicação da sua série de fantasia A Song of Ice and Fire e a sua posterior transformação nos fenómenos de sucesso da série Game of Thrones da HBO TV.

A acção passa-se em Westeros, um mundo mitológico envolvido numa guerra feroz. Na cultura popular dos dias de hoje, tornou-se tão familiar como a Terra Média. Quando nasceu o Príncipe de Cambridge, o filho do Príncipe Harry e de Kate Middleton, o Twitter encheu-se com nomes como Joffrey e Tyrian, duas das personagens de Martin que são respectivamente detestadas e amadas.

Passagens dos livros, como as palavras assustadores de Ned Stark, "winter is coming", tornaram-se tão conhecidas no léxico moderno como as palavras de Gandalf "You shall not pass". O Iron Throne, a sé de poder do mundo de Martin, tornou-se um símbolo de tirania e crueldade, usado em críticas e sátiras ao governo em editoriais por todo o mundo. O Game of Thrones é a série de TV com mais downloads na história e está agora a caminho da quarta temporada, assegurando a Martin uma audiência de milhões [NT: confirma-se].

E ele ainda nem acabou a série nos livros! Com uma indústria por trás dele e um culto que o segue, Martin é o mais invejado no mundo literário.

Apesar de Martin saber contar uma boa história, tecendo brilhantemente os seus complexos enredos com histórias familiares (sem se tornar simplório), o seu apelo depende de mais coisas do que simplesmente uma prosa de qualidade. Crueldade brutal, sexo e infidelidade são as grandes marcas do mundo de Martin. Isto torna-o, dizem, bem mais realista do que Tolkien. Como diz Lev Grossman, o autor de fantasia que chamou pela primeira vez a Martin "o Tolkien americano", 

"O que ... distingue Martin, e o marca como uma força principal na evolução da fantasia, é a sua recusa em abraçar a visão do mundo como a luta maniqueia entre o Bem e o Mal. A obra de Tolkien tem uma força imaginativa enorme, mas têm que ir procurar a outro lado para encontrar uma complexidade na moral."

Claramente que não há "bonzinhos" em Westeros. As personagens ou são honráveis ou traiçoeiras conforme o dia da semana. Os bons ficam em último e os que se regem por princípios nobres são manipulados e/ou decapitados. Simpatizamos com os personagens imorais como os incestuosos Lannisters, Varys o Eunuco e uma variedade de assassinos, violadores e sadistas. Nada é tabu.

A narrativa de Tolkien permitida para pais e filhos, dizem os críticos, sobrecarregou o género da fantasia com uma "Disneyland da Idade Média". Martin é mais significativo porque é moralmente ambíguo.

Apesar de ser um admirador de Tolkien, Martin nota que "todo o conceito de Dark Lord, e dos tipos bons a lutar contra os tipos feios, o Bem versus Mal ... tornou-se uma espécie de desenhos animados." A fantasia não precisa mais de Dark Lords ou inimigos terríveis, porque "na vida real, o aspecto mais difícil da batalha entre o bem e o mal é determinar qual é qual."

"Sempre gostei de personagens cinzentas", disse Martin numa entrevista em 2001, "E quanto aos deuses, nunca fiquei satisfeito por nenhuma das respostas que são dadas. Se de facto existe mesmo um Deus que é amor, porque é que o mundo está cheio de corrupção e violência? Porque é que nós até temos dor? ... Porque é que a agonia é uma boa forma de lidar [com a morte]?"

A "guerra dos tronos" é uma visão cínica da política com os seus ataques pelas costas, luxúria desenfreada, aliados inconstantes e famílias traiçoeiras. O mundo anárquico de Westeros é fundamentalmente definido pela escada para o poder. "A alguns é dada a oportunidade de subir mas agarram-se ao seu mundo ou aos deuses ou ao amor - ilusões! Só a escada é que é real; a subida é tudo o que existe", diz o imoral e calculista supremo Lord Baelish.

Neste nevoeiro moral não há espaço para a nobreza e a beleza. "De todas as bonitas mentiras cruéis que vos dizem, a mais cruel de todas é a que se chama amor", escreveu Martin na sua short story "Meathouse" em 1976. Mas a fantasia "realista" está limitada às dimensões mais básicas da experiência humana. É como ler um jornal que só tem artigos sobre Ariel Castro, o violador de Cleveland, os bombistas suicidas da al-Qaeda e as torturas de Guantanamo. É difícil de imaginar alguém a querer viver para sempre no Westeros brutal e sádico.

Mas será que Tolkien é mesmo menos realista?

Tolkien zangava-se com a ideia de que as suas Free Peoples [NT: os seres que se opuseram a Sauron] eram inequivocamente boas e sem falhas: "preguiça e estupidez entre os Hobbits, orgulho... entre os Elfos, rancor e cobiça nos corações dos Anões e loucura e maldade entre os "reis dos Homens", e traição e desejo de poder mesmo entre os 'Feiticeiros'", disse ele.

Nem sequer a vitória é sempre certa. Existe uma tristeza assombrosa em O Senhor dos Anéis que, com a queda de Beleriand em o Silmarillion, foi mal interpretada pelos críticos como sendo derrotista. De facto, a sua obra até inclui tortura e brutalidade, assim como indícios de violação e chacinas, especialmente na saga Os Filhos de Húrin. Eu diria que a sua representação do mal está entre as melhores na literatura fantástica, mesmo sendo discreta. Enfeitar o mal com selvajaria e depravação não o faz necessariamente mais assustador ou até mais convincente.

A Terra Média mostra "a beleza contra um horror cruel, a tirania contra a dignidade dos reis, uma liberade moderada com um consentimento contra a compulsão que há muito perdeu qualquer finalidade a não ser o mero poder"; ela cobre todo o tipo de experiências de vida, incluindo a nobreza, a bondade e a lealdade.

Na verdade, chamar "maniqueu" ao tratamento que Tolkien faz do mal é uma tolice. 

Tolkien estava profundamente preocupado com a questão das qualidades corruptoras e viciantes do mal e do poder. "O bem e o mal não mudaram desde o ano passado; nem são uma coisa entre os elfos e os anões e outra entre os homens. Compete ao homem distingui-los" diz Aragorn, a quem Eomer responder "como é que um homem pode decidir o que fazer em tais alturas?".

Martin e Tolkien divergem porque a fantasia não é apenas um género de literatura, mas uma visão da vida. O propósito da literatura é revelar os segredos do coração humano. As histórias míticas ajudam-nos a perceber a mortalidade do homem e as suas limitações. Quais são os segredos de Martin? Que o mal é mais "realista" que o bem? Martin defende que a fantasia é "escrita na linguagem dos sonhos" - mas quais são exactamente os sonhos de Martin?

Tolkien, que perdeu os seus melhores amigos na carnificina de Somme, na 1ª Guerra Mundial, percebeu bem melhor a complexidade moral do que o seu duplicado americano imagina. Ao contrário de Martin, Tolkien consegue cantar a escala toda, desde os baixos aos sopranos. Criar um mal convincente não é mais difícil do que ler os jornais todos os dias; criar um bem convincente é bem mais difícil. Tolkien foi capaz de encher as suas obras com um objectivo transcendente - algo que é raro na literatura.

Mais importante, este desejo [do bem] não é um fraco encanto pós-moderno, mas pode mesmo ser satisfeito. A fantasia de Tolkien está centrada neste final feliz a que ele chamou "eucatástrofe", uma "alegria súbita". O Senhor dos Anéis, como exemplo mais conhecido, é conduzido pela esperança - uma negação de uma "derrota final universal", dando "um vislumbre de alegria, alegria por trás das paredes do mundo, cheias de tristeza". Martin é um materialista, cuja maior proximidade com a guerra e a depravidade humana são os jogos de computador e livros de banda-desenhada. O seu enredo e personagens são complexos e cheios de viravoltas sangrentas e sexuais, mas arrastam-se como uma telenovela negra e desesperante. Mas será que, sem a bondade e a beleza, o seu mundo é realista?

Toda a literatura que permanece é realista, porque reflecte a verdade da condição humana geração atrás de geração. O meu palpite é que Tolkien, independentemente do que disserem os críticos, vai estar sentado no trono da fantasia daqui a cem anos enquanto que George Martin vai ser despedido como um praticante de uma moda de um pessimismo sujo do início século XXI.

Originalmente da Terra Média (Nova Zelândia), Rowan Light está a estudar história na Universidade de Sydney.

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quarta-feira, 9 de março de 2016

O problema do mal


I. A versão lógica

Todos nós conhecemos o problema do mal... desde a queda que o mal afecta o ser humano, quer seja pela utilização indevida da sua liberdade, quer seja através de doenças, catástrofes, e outros problemas que, à partida, parecem não ter nada a ver com os defeitos humanos, mas que causam grande transtorno às pessoas por eles afectadas.

Mas como conciliar este problema com a ideia Católica de Deus? Um Deus Omnipresente, Omnipotente, Omnisciente, Bom e Misericordioso, que nos ama a todos mas, ainda assim, permite que nos aconteçam coisas desagradáveis... não será uma visão um pouco contraditória? Este raciocínio está na base do argumento do mal contra a existência de Deus e, neste pequeno texto, vou abordar a versão lógica deste argumento e explicar porque é que, do ponto de vista racional, a existência do mal não é contraditória com a existência do Deus Católico. Vou parecer um pouco frio, mas essa é a consequência de levar a discussão para o plano da argumentação lógica.

Para começar, quando se coloca o argumento numa forma mais explícita como, por exemplo, "Deus é Bom, Omnipotente e Omnisciente; O mal existe; Logo Deus não existe." notamos que há uma falha no raciocínio, a conclusão não segue das premissas. Na verdade há uma premissa implícita, a de que um Deus Bom, Omnipotente e Omnisciente não permitiria a existência de mal no mundo... e esta premissa é altamente duvidosa.

Para podermos amar a Deus é necessário que sejamos livres. O amor é um acto livre que só é possível quando quem ama tem liberdade para dizer não. Se alguém nos apontasse uma pistola à cabeça e pedisse para dizermos que a amávamos, até poderíamos dizer isso, mas o sentimento não seria amor pois não é possível obrigar alguém a amar.

Posto isto, é necessário que o Homem seja livre mas, com esta liberdade, vem também a possibilidade de negar Deus e cair no pecado.

A partir do momento em que existem seres livres, apesar de haver a possibilidade teórica de eles fazerem sempre as escolhas correctas, não é fazível criar um Universo no qual o mal não exista. A única forma de isto acontecer seria não existirem seres livres mas, nesse caso, não existia amor nem, consequentemente, salvação (por não ser possível amar Deus). Além disso, é possível que certos males sejam requisito para que um Bem maior possa ocorrer.
Daqui tiramos que a versão lógica do argumento do mal é falaciosa, uma vez que, existindo seres livres, é possível a existência do mal no mundo, mesmo com um Deus Bom. Por este motivo trata-se de um mau argumento contra a existência de Deus.

II. Tipos de mal

Apesar de termos visto que a existência do mal não implica a não existência de Deus, há ainda algumas questões que podemos colocar sobre o mal.

À primeira vista podemos catalogar dois tipos de mal, o mal que vem dos seres livres e o mal natural, que inclui catástrofes naturais, doenças, entre outros. A existência do primeiro é bastante óbvia, como foi dito na parte I deste texto, a existência de seres livres permite automaticamente este tipo de mal...

O problema aqui é o mal natural. Já que o outro tipo não se pode evitar, porque permitiria Deus a existência do mal natural? É algo que não vem, na maioria das vezes, da liberdade do Homem mas da própria natureza e que apenas parece piorar as coisas.

Esta questão daria bastante que falar, contudo gostaria de salientar apenas um ponto, nada nos garante que o mundo teria, no total, menos mal se existisse apenas o mal da liberdade, basta olharmos para a nossa história recente.

No século XX vários milhões de pessoas foram mortas pelo regime Nazi e pelos regimes Comunistas da União Soviética e da China, entre outros. Neste período histórico qualquer catástrofe natural de grandes dimensões que tenha ocorrido é practicamente desconhecida para o público em geral, uma vez que a sua gravidade é “desprezável” quando comparada com os genocídios destes governos.

Vemos assim que o mal que causamos com a nossa liberdade consegue ser muito pior que o mal vindo da natureza. Nada nos garante, por isso, que um mundo sem catástrofes naturais seria, em geral, um mundo melhor do que aquele que temos. É bastante razoável acreditar que este tipo de mal, ao mudar as condições em que as pessoas se encontram, permita que muitas mudem a forma como vivem, despertando o desejo por ajudar os outros e tornar o mundo melhor... vemos isto quando se levantam ondas de solidariedade para apoiar as vítimas de terramotos e outros cataclismos.

É, então, bastante provável que, mesmo com catástrofes naturais, este mundo seja melhor do que seria sem estas.

III. O mal e a Salvação

Uma das grandes dificuldades quando lidamos com o problema do mal é o facto de nos focarmos demasiado nas coisas deste mundo.

O grande objectivo das nossas vidas deve ser a Santidade, a nossa ida para junto de Deus após a nossa morte. A presença de Deus terá um efeito incomparavelmente superior a todo o mal deste mundo. Além disso, uma vez que a salvação é para toda a eternidade, a sua "duração" (se é que se pode usar esta palavra neste contexto) também excede por uma margem mais que confortável a duração da nossa vida sofredora. Deste ponto de vista, os males que sofremos neste mundo não passam de alguns bagos de areia numa imensa praia...

Tendo em conta que Deus quer que O escolhamos de livre vontade para nos poder salvar, possibilidades que podemos conceber para o melhor mundo seria aquela em que, desde o início até ao fim dos tempos, o maior número possível de pessoas opta livremente por amar Deus e seguir o Seu caminho.

Como vimos na parte II, nada nos garante que um mundo sem o mal natural fosse melhor deste ponto de vista e, como tal, não temos forma de saber se tal mundo conduziria a um maior número de almas salvas no fim dos tempos... há simplesmente demasiadas variáveis que não conhecemos.

Mas há ainda outro aspecto a notar... nunca devemos tirar da mente que Jesus Cristo, Deus feito Homem, veio ao nosso mundo e sofreu pelos nossos pecados... também Ele se sujeitou ao mal... Aquele que, pela Sua Perfeição e ausência de pecado menos merecia ser exposto ao sofrimento, entrega-Se por amor... para nos salvar... assim, apesar de ser difícil gerir emocionalmente, devemos, através da oração, unir os nossos sofrimentos à Cruz redentora de Nosso Senhor e oferece-los como forma de Santificação das nossas almas.

IV. O mal como argumento para a existência de Deus

Para terminar esta série de reflexões sobre o problema do mal gostaria de fazer uma pequena referência à forma como é possível dar a volta à questão e usar a existência do mal para argumentar a favor da existência de Deus.

Se Deus não existe então tudo o que temos são interacções cegas entre partículas... não existe uma referência absoluta sob a qual julgar o certo e o errado, o mal e o bem, e tudo não passam de sensações para os nossos sentidos. Pessoas diferentes podem ver o mundo de formas diferentes e, não havendo um termo de comparação absoluto, nenhuma delas tem um ponto de vista mais válido do que a outra. Assim, se discordarem quanto a certa coisa ser boa ou má, não há forma de confirmar... não existe objectivamente forma de fazer esta classificação.

Assim, se Deus não existe, então o mal não existe... não há forma de o definir... o problema é que, como todos concordamos, o mal existe... o que, seguindo as regras da lógica, nos permite concluir que Deus existe.

Nota: Pessoalmente não concordo a 100% com este argumento, pelo menos se passarmos para o plano da moralidade, pois mesmo admitindo a não existência de Deus, é possível argumentar para uma moralidade partindo das causas finais de Aristóteles. Esta via parte do princípio que um acto moral é aquele que respeita as causas finais das entidades intervenientes. Gostava só de acrescentar que, admitindo a existência de causas finais, já se está no caminho para admitir a existência de Deus (ver 5ª via de Santo Tomás de Aquino).

Gonçalo Andrade
Finalista do Mestrado de Física, Instituto Superior Técnico


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