Apesar de estarem proibidas as Missas nos altares laterais da Basílica de São Pedro, foi ontem celebrada uma Missa Solene, em Rito Tradicional, no altar de São Miguel Arcanjo.
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
Como ler a Bíblia: um plano em três etapas
Hoje é a festa de São Jerónimo, que uma vez disse: "A ignorância da Escritura é ignorância de Cristo."
Diz-se que se alguém quer encontrar um versículo da Bíblia deve perguntar a um protestante e não a um Católico. Os protestantes lêem a Bíblia. Os Católicos nem por isso. Mas porque é que os Católicos não lêem a Bíblia?
Eu acho que a resposta está no facto de que nós Católicos vamos à Missa. A Santa Missa tem sempre leituras da Bíblia. Se rezarem o Breviário, ou Liturgia das Horas, multiplicam isso por várias vezes.
O 'Zé Católico' diz a si mesmo, "Porque é que devo estudar a Bíblia? Eu vou à Missa. Oiço-a lá. Está feito!" Há algo de belo nisto. Para os Católicos, ler a Bíblia é algo litúrgico. Assim, a leitura da Bíblia mantém-se principalmente uma experiência comunitária.
É bom ouvir as leituras da Bíblia na Santa Missa. No entanto, também precisamos de um encontro pessoal (e mesmo privado) com Deus nas páginas da Sagrada Escritura. Todos os Santos respiravam a Sagrada Escritura. A Escritura servia como a gramática das suas almas. Não conseguiam comunicar sem ela.
Aqui estão algumas necessidades espirituais que vocês têm todos os dias da vossa vida:
Louvor – Dar voz à vossa alegria em Deus e na Sua providência para a vossa vida. A gratidão destrói o desencorajamento.
Sabedoria – São precisos conselhos práticos para navegar pelas complexidades da vida.
Desafio – Precisam de subir mais alto. Precisam de crescer na vossa fé. Precisam de se inspirar. Têm de ser Cristãos com intenção.
Portanto, quando acordarem amanhã, façam o seguinte:
1. Leiam um Salmo. Comecem com o Salmo 1. Façam dele o vosso hino de louvor para esse dia.
2. Leiam pelo menos um Provérbio. Os provérbios são os pedaços de sabedoria do vosso dia. Há 31 capítulos. Por que não ler um capítulo todos os dias durante um mês. Out 1 é Provérbios 1. Outubro 31 é Provérbios 31.
3. Leiam um capítulo de um dos Evangelhos. Este é o vosso desafio. O vosso Salvador desafia-vos nos quatro Evangelhos. Chama-vos a não serem apenas um Católico de nome, mas um discípulo. Não é possível ler seriamente os Evangelhos e continuar morno. Cristo fala de uma maneira que não pode ser ignorada.
Fazer estas três leituras demora apenas 5 minutos. E vai mudar a vossa vida para melhor. Demora 21 dias a criar um hábito. Por isso dêem 21 dias às leituras e vejam lá se não vos apetece continuar. Ponham a Bíblia na vossa mesa de cabeceira e leiam-na de manhã. Se falharem recomecem.
Taylor Marshall
Temas:
Livros,
Sagrada Escritura,
Santos,
Taylor Marshall
quarta-feira, 29 de setembro de 2021
O Monte São Miguel na Normandia (França)
terça-feira, 28 de setembro de 2021
Cardeal Burke está em recuperação fora do hospital
O Cardeal Raymond Burke emitiu mais um comunicado no qual revela que deixou o hospital no passado dia 3 de Setembro e que se encontra agora a recuperar numa casa, perto de onde vivem alguns familiares seus. Diz que precisa de algum tempo para voltar a estar em forma.
O Cardeal considera que Nosso Senhor o manteve vivo por algum motivo de força maior:
«Nosso Senhor preservou-me vivo para alguma obra que Ele deseja que eu realize, com a
ajuda da Sua graça, por amor a Ele e ao Seu Corpo Místico, a Igreja. Estou determinado a
usar o presente tempo de reabilitação da melhor maneira possível, de modo a estar preparado
para realizar a Sua obra.
Ao longo do tempo no hospital e agora, continuo a colocar-me aos
cuidados da Nossa Santíssima Mãe, para que o meu coração, um com o seu Imaculado
Coração, possa descansar sempre em segurança no Santíssimo Coração de Nosso Senhor.
Como pai espiritual na Igreja, contei fortemente com a ajuda de São José, cujo Puríssimo
Coração abraçou o Coração de Maria, sua verdadeira esposa, e o de Jesus, seu Divino Filho,
confiado aos seus cuidados paternais.
Por favor, continuai a rezar pela minha total recuperação. Da minha parte, a cada dia ofereço
as minhas orações e sofrimentos pelas vossas múltiplas intenções.
Rezemos todos e ofereçamos sacrifícios pelo mundo e pela Igreja, que estão assolados por tanta confusão e
erro, para grande e mesmo mortal dano de muitas almas.
Pedindo a Deus que vos abençoe, às vossas casas e a todos os vossos trabalhos, permaneço
Vosso no Sagrado Coração de Jesus e no Imaculado Coração de Maria,
e no Puríssimo Coração de São José,
Raymond Leo Cardeal Burke»
domingo, 26 de setembro de 2021
Como deve ser o comportamento dentro das igrejas?
Nas igrejas deve-se entrar com humildade e devoção; o comportamento nos seus interiores deve ser calmo, agradável a Deus, trazendo a paz aos demais, uma fonte não só de instrução mas de frescura mental.
Nas igrejas, as solenidades sagradas devem dominar o coração e a mente; toda a atenção deve ser orientada à oração. Portanto, onde é apropriado oferecer desejos celestiais com paz e tranquilidade, que a ninguém seja permitido provocar rebelião, provocar estrondo ou usar da violência.
Devem ser evitadas as conversas vãs, e principalmente o baixo calão e a linguagem profana; o falatório deve cessar em todas as suas formas. Em suma, tudo o que possa perturbar o culto divino ou ofender os olhos da divina majestade deve ser absolutamente alheio às igrejas, para que, no lugar onde o perdão pelos nossos pecados deveria ser pedido, não haja ocasião de pecado nem o pecado seja cometido.
Aqueles porém que desafiem imprudentemente estas proibições hão de temer a severidade da vingança divina e da nossa, até que tenham confessado a sua culpa e tenham o firme propósito de evitar tais condutas no futuro.
Papa Gregório X - Segundo Concílio de Lyon, 1274, Constituição 25
sábado, 25 de setembro de 2021
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Zelo bom e zelo mau
Há formas de zelo mau que tomam a aparência de zelo bom. É o caso, por exemplo, do zelo dos fariseus, que cumpriam rigorosamente a lei exterior. A origem deste zelo «amargo» não é o amor a Deus e ao próximo, mas o orgulho.
Os que a ele se entregam estão cheios de uma estima desordenada pela sua própria perfeição, não concebendo outro ideal para além do seu; tudo o que não esteja de acordo com esse ideal é necessariamente censurado; tais pessoas pretendem submeter todas as coisas à sua maneira de ver e de fazer - daí as dissensões; este zelo desemboca no ódio.
Vede com que aspereza os fariseus, animados por este zelo, perseguiam o Senhor, colocando-Lhe perguntas insidiosas, preparando-Lhe armadilhas e emboscadas, não tendo interesse em conhecer a verdade, mas apenas em apanhar Cristo em falta. Vede como O pressionam, como O provocam a condenar a mulher adúltera: «Moisés ordenou-nos que lapidássemos esta mulher; e Tu, Mestre, que dizes?» (Jo 8,5).
Vede como Lhe censuram o facto de fazer curas ao sábado (cf Lc 6,7); como criticam os discípulos por apanharem espigas no dia do repouso (cf Mt 12,2); como se escandalizam ao verem que o divino Mestre come com publicanos e pecadores (cf Mt 9,2): são tudo manifestações deste «zelo amargo», tantas vezes acompanhado de hipocrisia.
Beato Columba Marmion in 'O Zelo Bom'
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
Padre Pio: dizia Missa humildemente, confessava de manhã à noite
Hoje a Igreja celebra a memória do Santo Capuchinho que marcou o século passado e continua do Céu, mais do que nunca, a sua obra de evangelização: Padre Pio de Pietrelcina.
Onze dias antes da sua morte, o Padre Pio de Pietrelcina escreveu uma carta ao Papa Paulo VI. Nessa missiva dizia o santo: “Sei bem das profundas aflições que angustiam o vosso coração nestes dias relativamente aos novos rumos da Igreja, à paz do mundo e as múltiplas necessidades dos povos. Mas sobretudo pela falta de obediência de alguns católicos a respeito dos esclarecedores ensinamentos que Sua Santidade, com o auxílio do Espírito Santo, nos tem dado em nome de Deus”, e agradece ao Pontífice, “em nome de meus filhos espirituais e dos grupos de oração” pela “posição clara e decisiva que nos transmitistes, especialmente na última encíclica Humanae Vitae, e reafirmo a minha fé e a minha obediência incondicional às vossas iluminadas diretrizes”.
Hoje a Igreja comemora o 45° aniversário da entrada ao paraíso do Santo Estigmatizado, canonizado por João Paulo II no dia 16 de Junho de 2002.
“Qual é o segredo de tanta admiração e amor a este novo Santo?”- perguntava João Paulo II no discurso da cerimônia de canonização – “Ele é, em primeiro lugar, um ‘frade do povo’, característica tradicional dos Capuchinhos. Além disso, ele é um santo taumaturgo, como testemunham os extraordinários acontecimentos que adornam a sua vida. Mas, sobretudo, Padre Pio é um religioso sinceramente apaixonado de Cristo crucificado. Ele participou no mistério da Cruz também de maneira física ao longo da sua vida”.
Vida e vocação
Nascido no dia 25 de Maio de 1887, às cinco horas duma tarde chuvosa, Francisco Forgione, o futuro capuchinho santo, é da cidade de Pietrelcina (Província de Benevento), na época uma pacata região onde a população era sã e crente. O casamento de Grazio Forgione e Maria Giusappa De Nunzio foi abençoado com o fruto de oito nascimentos, sendo o Padre Pio, o quinto filho.
Já como criança mostrou ter uma grande sensibilidade para o sobrenatural; desde a idade de onze anos, consagrou-se espontaneamente ao Senhor e a S. Francisco.
Depois de terminados os estudos preparatórios como postulante, quando as primeiras dificuldades que ameaçavam o desabrochar da sua vocação foram vencidas, foi permitido a Francisco começar o seu noviciado nos Padre Capuchinhos no convento de Morcone, na província de Benevento, no dia 22 de Janeiro de 1903. A 10 de Agosto de 1910 foi ordenado sacerdote na catedral de Benevento por Monsenhor Shinosi. Entre a numerosa assistência notava-se sua mãe. Chorava comovida: um filho padre!
Sofrimento, oferecimento e estigmas
“Sinto dores violentas. Tenho a impressão que as minhas mãos, os meus pés e o meu lado são trespassados por uma lâmina, enquanto eu medito na Paixão de Cristo”, escrevia o santo ao seu confessor por volta de 1912, quando tinha apenas 23 anos.
“A missa do Padre Pio era um mistério incompreensível”, declara Don Giuseppe Orlando, um santo padre, também ele nascido em Pietrelcina: “A missa por vezes durava mais de quatro horas. Via-se que estava de tal forma abrasado em Deus que ficava mais de uma hora imóvel em êxtase. Por vezes, ficava como que petrificado como o altar. A expressão do seu rosto transfigurava-se; por momentos irradiava felicidade, depois exprimia de novo sofrimento e dores físicas”.
Na Sexta-Feira, 20 de Setembro de 1918 recebeu, tal como o seu bem-aventurado patrono S. Francisco de Assis, a marca sangrenta das chagas de Cristo, nas mãos, nos pés e no lado esquerdo. O Padre Pio estava só no convento. Recebeu os estigmas durante uma visão. Enquanto o jovem capuchinho estava em oração no coro da pequena igreja, meditando na Paixão de Cristo diante do grande crucifixo que aí se encontrava e ainda se encontra, Cristo apareceu-lhe com as chagas sangrentas. Ele mesmo narra em uma das suas cartas:
“Encontrava-me no coro – conta ele – depois da celebração da missa, quando fui surpreendido por uma calma que se assemelhava a um doce sono. Todos os meus sentidos, internos e externos e a faculdade do meu espírito, também se encontravam numa tranquilidade indescritível...” E continua “E todo o resto se passou num relâmpago, e enquanto isto se passava, eu vi diante de mim um personagem misterioso, o mesmo que tinha aparecido a cinco de Agosto, com a única diferença que desta vez as suas mãos e os seus pés e o seu peito escorriam sangue. Esta visão apavorou-me; o que senti nesse instante, nunca lho saberei contar. Sentia-me morre e decerto teria morrido se o Senhor não interviesse, para suster o meu coração que me parecia querer saltar do meu peito. Essa personagem desapareceu e então reparei que as minhas mãos, os meus pés e o meu peito, estavam trespassados e escorriam sangue! Imagine a tortura que senti então e que sinto continuamente cada dia...”
Zelo apostólico
Entre as pessoas ilustres que o procuraram encontra-se o então bispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, futuro Papa João Paulo II. Testemunham isso também duas cartas enviadas ao santo no ano de 1962, quando Karol se encontrava em Roma durante o Concílio Vaticano II. Nessa carta agradece a oração do Padre Pio pela cura de uma médica com cancro e pelo filho de um advogado de Cracóvia que trazia uma doença de nascença. Na carta pedia também a intercessão por mais duas intenções: uma senhora paralisada e as enormes necessidades pastorais da sua diocese.
O Padre Pio não pensava senão nas almas. Numa carta dirigia ao seu confessor, escrevia: “Nada mais vos quero dizer senão isto: Jesus concede-me uma íntima alegria quando posso sofrer e trabalhar pelos meus irmãos. Trabalhei e continuarei a trabalhar. Rezei e quero continuar a rezar pelos meus irmãos. Velei e quero continuar a velar ainda mais. Chorei e quero chorar sempre pelos meus irmãos no exílio”.
“Segui o exemplo do vosso santo confrade falecido há pouco – dizia Paulo VI em um discurso aos membros do Capítulo Geral da Ordem dos Capuchinhos – “Vede a fama que ele teve! Que clientela mundial ele não conseguiu à sua volta! Mas, porquê? – Seria ele um filósofo, um sábio, dispondo de meios? – Apenas porque dizia missa humildemente, confessava de manhã à noite, e era, é difícil de o dizer, o representante de Nosso Senhor, marcado com as chagas da nossa Redenção”. Peçamos hoje a intercessão de tão poderoso amigo de Deus.
in Zenit
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
Sacerdote escreve carta ao Sumo Pontífice para a revogação do motu próprio Traditionis Custodes
Se decidi publicar esta carta quando já tantas vozes se manifestaram sobre Traditionis Custodes, é porque, em geral, aqueles que lamentam a publicação deste motu proprio são utilizadores habituais do antigo missal. Eu, no entanto, uso o novo diariamente, tendo rezado missa de acordo com o antigo apenas em ocasiões muito raras.
Além disso, foi afirmando desejar promover a aceitação do Concílio Vaticano II que o Sumo Pontífice o publicou: mas o facto é que o novo missal não corresponde ao que os Padres conciliares disseram sobre aquela reforma litúrgica que seria conforme aos seus desejos. Assim, é precisamente em nome do próprio Concílio Vaticano II que, ao contrário, peço que Traditionis Custodes seja revogado.
Por fim, e embora isso torne mais pesada a argumentação, entendi também dever mostrar, passo a passo, de que modo me encontro envolvido nas discussões litúrgicas em curso.
Carta Aberta
Summo Pontifici Francisco Papae
Beatíssimo Padre,
O bem da Igreja e o vosso são inseparáveis, e é em prol de ambos que Vos escrevo. Filialmente, sugiro-Vos que revogueis o motu proprio Traditionis Custodes, e faço-o em espírito de fidelidade ao Concílio Vaticano II, pois é errado afirmar que o missal promulgado por São Paulo VI é o desejado pelos Padres conciliares.
Considero que sois o Soberano Pontífice, o Vigário de Cristo, o sucessor de Pedro. Tendes direito não só ao meu respeito, mas também ao meu afecto, e certamente não Vo-lo nego.
Respeito plenamente o ensinamento de Santo Inácio, que não tenho dúvidas Vos seja muito caro: se vejo algo branco, e se a Igreja me diz que é preto, eu alinho-me com a opinião da Igreja. Mas, é claro, isso pressupõe que a Igreja não se contradiz. Com efeito, se a Igreja dissesse "Ontem eu disse que era preto, mas hoje digo que também ontem era branco", pareceria então que eu fora estulto em aderir ao que a Igreja dizia ontem, e por isso já não teria qualquer razão para aderir ao que ela pudesse dizer no futuro. Estou a falar aqui, como é óbvio, daquelas coisas que não podem mudar, especialmente o dogma e a moral. É pois repleto deste espírito de fidelidade à Igreja que Vos escrevo.
Sei que Traditionis Custodes é um documento disciplinar e pastoral, e portanto falível; é todavia um documento que diz respeito à comunhão eclesial e à fidelidade ao Vaticano II e, por conseguinte, reveste-se de capital importância. Além de que aquilo que é atinente à liturgia está frequentemente muito ligado ao dogma.
A moralidade, aqui sancionada pelo direito canónico, faz gravar sobre o subordinado a obrigação de dar a sua opinião ao superior, sempre que julgue que este se engana em assuntos graves. Se o faço por meio de uma carta aberta, é por um lado para evitar que, uma vez publicada, algum cortesão venha dizer que estou a publicar uma correspondência privada mantida com o Papa, como tristemente foi dito aquando da publicação dos dubia por alguns cardeais. Esta carta é pois pública.
Isto, porque, como estou certo compreenderá, Beatíssimo Padre, creio ter deveres para com os fiéis que desejam usar os meios mais tradicionais para chegar a Deus. Com efeito, é sabido que fui um dos primeiros seminaristas de Monsenhor Lefebvre, quando ele iniciou a sua obra em Friburgo, na Suíça. Volvidos mais de cinquenta anos desde então, há ainda muitos que me culpam disso e que ainda me consideram suspeito de integrismo: uma tonteria! Porque, é preciso lembrá-lo, Monsenhor Lefebvre, quando começou, tinha todas as autorizações necessárias; e foi praticamente sozinho, com apenas vinte anos, que pensei que deveria deixar essa obra. Pressentia que ela ia bem além do desejável, especialmente no que diz respeito ao missal.
Mas nunca desisti dos valores que os membros da Fraternidade São Pio X legitimamente defendiam. Para dar apenas um exemplo, quando a obra de Monsenhor Lefebvre foi condenada, na maioria das dioceses da França os sacerdotes foram dissuadidos de usar traje eclesiástico: o Código de 1983 mostrou que Monsenhor Lefebvre estava certo quanto a isso; e ele estava certo em vários outros pontos. Procuro nunca perder a oportunidade de dialogar com os herdeiros espirituais de Monsenhor Lefebvre, na esperança de um seu retorno à plena comunhão convosco e com toda a Igreja, e se não tomasse a palavra publicamente nas actuais circunstâncias, a minha participação nesse diálogo soaria a falso.
Devo, portanto, esclarecer a minha posição em relação aos pontos de litígio entre a Igreja e aqueles usualmente chamados de "lefebvri". Adiro plenamente ao Concílio Vaticano II, como a um concílio pastoral, isto é, a meu ver, um concílio destinado a colocar a Igreja em estado de evangelização. Este concílio é bom, mas não é isento de críticas: a Igreja reconheceu isso mesmo quando, no seu diálogo com a Fraternidade São Pio X, veio dizer que tais críticas deveriam ser construtivas. Por exemplo, concordo com a intenção da Dignitatis humanae, mas acho que a sua apresentação e a base da sua argumentação minam essa intenção.
Da mesma forma, considero que o chamado missal de Paulo VI é perfeitamente válido e legítimo; perante os tradicionalistas, afirmo que era necessária uma reforma do antigo missal, e indico-lhes que, uma vez que defendem que o chamado missal de São Pio V é uma garantia da ortodoxia, devem também ser sensíveis ao facto de que o os Padres conciliares, que usavam todos (à excepção dos orientais) esse mesmo missal, consideraram necessária uma reforma. E é com base na minha experiência de 43 anos de sacerdócio que posso afirmar que o missal mais recente é um autêntico meio de santificação. No entanto, concedo aos lefebvrianos que este missal não está isento de críticas, e faço-o com base no Vaticano II. Com efeito, não se tem notado o suficiente que o missal promulgado por São Paulo VI não segue as recomendações do parágrafo 23 da Sacrosanctum Concilium, particularmente esta:
«não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes por um desenvolvimento de algum modo orgânico».
Esta passagem da Sacrosanctum Concilium é fundamental, porque o que ela diz está enraizado num dos primeiros princípios da ciência litúrgica, que foi recordado vigorosamente pelo Vosso venerado predecessor, o Papa Bento XVI: a liturgia é recebida, não construída. E este mesmo princípio deriva ainda da atitude de São Paulo: «Transmiti-vos o que eu próprio recebi.» Eis aqui uma lição de profunda sabedoria que os Padres conciliares deram nesse parágrafo, válida para qualquer reforma litúrgica em qualquer época que a mesma possa ser levada a cabo. Se os reformadores da liturgia tivessem sido receptivos a esta lição, sem dúvida não teria havido discordância sobre o assunto do missal, ou, em todo o caso, não teria alcançado a magnitude que hoje conhecemos. Infelizmente, porém, no missal promulgado por São Paulo VI, o ofertório e o lecionário, para citar apenas dois exemplos, não se conformam a esta exigência.
É por isso que não se pode deixar de concordar com Bento XVI quando afirmava a necessidade de uma "reforma da reforma". Recusá-lo é rejeitar um ponto fundamental do Vaticano II. Tanto quanto posso discernir, Bento XVI viu claramente que esta reforma da reforma não poderia ser decretada, queria, em vez disso, que fosse feita por uma influência recíproca - ou um enriquecimento mútuo - das duas formas do missal, uma sobre a outra. Neste ponto, ele foi mal interpretado. Alguns disseram que ele queria um retorno total à antiga forma e que, se ele havia falado em reciprocidade, era por razões diplomáticas; outros afirmaram, ao contrário, que o que ele pretendia era o desaparecimento gradual do antigo missal, e que se não o dizia abertamente, era também por razões diplomáticas, embora opostas (em particular, o seu desejo de uma reconciliação com a Fraternidade São Pio X). Tais suposições são absolutamente contrárias ao que se sabe sobre a grande simplicidade de coração do Vosso antecessor, que nada tinha de um "furbo", como creio se diga na Vossa língua materna.
Como poderá, então, dar-se esse indispensável enriquecimento mútuo, se um dos dois missais estiver posto de lado como Vós desejais que aconteça? Enquanto não tivermos chegado a um missal de acordo com os desejos dos Padres conciliares, é indispensável que o uso do missal antigo permaneça livre de entraves. Daí a necessidade de revogar Traditionis Custodes. Não podemos dizer-nos aderentes ao Vaticano II e aprovar sem reservas o missal mais recente, assim como não podemos dizer-nos aderentes ao antigo e contestar depois a validade das reflexões dos Padres conciliares sobre a necessidade de uma reforma do missal que eles próprios utilizavam.
Receio que em tudo isto se esteja a confundir unidade com uniformidade. Houve um tempo em que a Igreja existia no espaço ocidental num mundo que, em geral, era quase culturalmente homogéneo. Mas hoje, mesmo no Ocidente, estamos confrontados com um multiculturalismo. Não se mediu suficientemente a mudança que ocorreu, da qual, um dos principais componentes é a passagem de uma cultura de transcendência para uma cultura de imanência. Essas duas culturas dão origem a duas espiritualidades distintas. Visto que Deus é transcendente e imanente, não há necessidade de se preocupar com a passagem de uma espiritualidade de transcendência para uma espiritualidade de imanência: é simplesmente necessário permanecer dentro de limites razoáveis e, em particular, lembrar que numa espiritualidade de imanência é mais difícil ter o sentido do sagrado – e Bento XVI veio precisamente denunciar uma certa perda do sentido do sagrado. Ora, o sagrado é algo de constitutivo na nossa religião. Vejo-o como uma necessidade decorrente do facto de que, se a ordem sobrenatural é como que no prolongamento da ordem natural, ele vem situar-se num plano totalmente diferente: é sagrado o que, tomado na ordem natural, é considerado, por natureza ou convenção, como dando acesso à ordem sobrenatural.
Neste contexto, comete-se geralmente um erro duplo. Por um lado, sem dúvida porque muitos clérigos foram aderindo à ideologia do progresso, pensou-se que esta passagem de uma mentalidade para outra era necessariamente uma coisa boa. Por outro lado, e como consequência disso, quis-se impor essa mudança a todos. Mas, afinal, não existem muitas moradas na casa do Pai? Unidade não é uniformidade. O pluralismo dos ritos na Igreja deve incitar-nos à prudência: se a Igreja, ao longo dos tempos, soube adaptar-se às diversas culturas, também hoje o deve continuar a fazer. Deve cristianizar as culturas, não impô-las.
Lamento, portanto, que no Vosso motu proprio e na carta aos bispos que o acompanha, os fiéis ligados ao antigo missal apareçam como condenados, sem que tenham sido ouvidos e sem que se lhes tenha sido dado o tempo, no curso de um diálogo, para que pudessem reconhecer a validade própria do Vaticano II e do novo missal - pelo menos, para aqueles que ainda pudessem ter dúvidas a esse respeito. Não se deu a necessária importância ao diálogo com os tradicionalistas. Como prova disso seja o facto de que, embora seja tido por próximo deles, nunca, em qualquer das muitas dioceses onde prestei serviço, alguém me perguntou o que quer que fosse a este respeito.
Parece, pois, ser muito prejudicial que se venha punir uma comunidade inteira pelas supostas faltas de alguns dos seus membros. Lembro-Vos Mambré: «Fareis perecer o inocente junto com o injusto?», diz Abraão a Deus, e Deus valida o seu argumento. Porque a redução das possibilidades de utilização do antigo missal sob pretexto de que alguns dos que o estimam têm maus sentimentos, aparece necessariamente como uma punição. Em suma, uma vez que Vós afirmais ter agido em resposta ao pedido de alguns bispos, deve concluir-se que estes não pertencem à pars sanior do episcopado católico.
Além disso, Beatíssimo Padre, acaso aceitaríeis o seguinte raciocínio? Consistiria ele em dizer que é aconselhável restringir o uso da língua vernácula na liturgia porque alguns dos seus adeptos têm maus sentimentos, por exemplo em relação à Humanae Vitae, ou em relação ao ensino da Igreja sobre a impossibilidade de ordenar mulheres, e por criticarem o uso do latim na liturgia, opondo-se, também aí, à Sacrosanctum Concilium? (Pois os Padres do Vaticano II foram constantes na sua vontade de continuidade, tanto a respeito do uso da língua litúrgica dos ritos latinos como a propósito da reforma dos livros litúrgicos.) Tal raciocínio, não o posso admitir, como também não admito o Vosso, que se lhe assemelha.
Será que se teve o cuidado de quantificar com seriedade qual a proporção desses detractores do concílio, ou do novo missal, por entre os sacerdotes ligados à forma extraordinária do missal romano? Não será que se acolhe com demasiada facilidade uma acusação movida contra os mais velhos? Contra isso, já São Paulo advertira São Timóteo.
Além disso, esses bispos que consultastes e que Vos falaram dum "fechamento" de alguns membros dos institutos "Ecclesia Dei", serão todos eles fiáveis a este respeito? Em França, temos neste momento o caso de um bispo que expulsa um desses institutos da sua diocese, alegando que os sacerdotes desse instituto se recusam a concelebrar. No entanto, está em contradição com a própria natureza da concelebração que se procure torná-la obrigatória: na verdade, ela pressupõe que haja no concelebrante a vontade de perfazer apenas um único acto junto com aquele do celebrante, de modo que a mais pequena reticência em relação à concelebração, seja ela justificada ou não, vicia a vontade de fazer um único acto com aquele do celebrante.
Diz-se, por vezes, que o prórpio do integrismo é o impor a todos as coisas que deveriam permanecer facultativas ou sujeitas a uma livre adesão: em se seguindo esta concepção, no caso em questão, o integrista não será então o tradicionalista, mas o próprio bispo; de resto, também já lhe escrevi há várias semanas e espero que uma resposta sua possa vir infirmar parcialmente o que disse acima a propósito da falta de diálogo em relação a este assunto que agora nos preocupa. O "fechamento" está mais espalhado do que parece, e nenhum dos lados tem dele o monopólio.
Por outro lado, tendo já falado de quantos condenam o uso do latim na liturgia, em contradição com o Vaticano II, eles são também numerosos entre os bispos franceses; é por isso que podemos perguntar-nos se tais bispos serão para Vós os melhores conselheiros em matéria de liturgia. Um deles chegou até a escrever-me em tempos o seguinte: «é mau para o povo rezar habitualmente numa língua que não é a sua». Em primeiro lugar, cumpre rejeitar a ideia de que a lingua litúrgica dum povo não é a “sua” lingua: acaso diríamos que o copta não é precisamente a lingua ... dos coptas? O latim é uma das línguas dos povos de ritos latinos. Mas, sobretudo, quanto orgulho não se encerra na reflexão deste bispo!
Vejamos: para ele os Papas e os bispos enganaram-se durante quinze séculos ao fazer os seus povos rezar em latim, mas ele, este bispo, teria compreendido as coisas bem melhor do que eles! É este tipo de atitude que me faz dizer, como disse acima, que os adeptos da ideologia do progresso são numerosos entre os eclesiásticos: por causa do progresso seríamos necessariamente mais capazes de compreender a Revelação do que os nossos predecessores. Além disso, o orgulho torna as pessoas tontas: esse mesmo bispo continuava ainda: «Não sou o único a pensar assim, porque o Papa, quando vem a França, reza a missa em francês.» Estávamos então sob São João Paulo II. É, de facto, o nível zero da lógica, é como se ele escrevesse: “A prova de que o Papa é contra o ciclismo é que ele faz esqui.” Não é porque rezamos a missa em francês que nos opomos a que ela seja rezada em latim! É por causa deste tipo de atitude que ponho em dúvida a qualificação de alguns bispos para Vos aconselhar nesta matéria. Tendes razão quando afirmais que eles são por inerência os guardiães da tradição, mas pelos factos pude verificar que muitos deles são os seus coveiros.
Dou-Vos outro exemplo. O Vosso predecessor, Bento XVI, sustentava que as traduções litúrgicas não são um campo para a adaptação. As razões são várias: por um lado, isso liga-se ao facto de que a liturgia não é fabricada, mas sim recebida, e por outro lado, os textos litúrgicos pertencem ao âmbito da Tradição, e, portanto, da Revelação, conquanto devamos reconhecer que alguns são mais ricos do que outros em lugares teológicos. Ora, a ninguém compete modificar a Revelação. Apoiando o ponto de vista do Papa, em 2011, por ocasião do décimo aniversário de Liturgiam authenticam, critiquei as traduções litúrgicas em língua francesa que à época estavam em vigor: havia-se reivindicado oficialmente tratar-se de adaptações, para assim se poder beneficiar dos seus direitos de autor, e não apenas daqueles de tradução. Três bispos exigiram então um direito de resposta, mas exerceram-no com conteúdo desdenhoso e mentiroso.
Ora, eu havia feito notar que um dos defeitos dessas traduções era a diminuição do papel próprio do sacerdote na missa; eles responderam «que parece ignorar-se que os fiéis também oferecem o sacrifício» - mas, se se fala de um papel próprio do sacerdote, é porque sabemos que outros além do sacerdote também têm um papel! Portanto, como vedes, Beatíssimo Padre, não posso depositar a minha confiança em certos bispos para serem os guardiães da Tradição e para Vos aconselharem nestes assuntos. Além disso, esses bispos afirmavam ainda que se houvesse que reformular as traduções, não seria porque as anteriores fossem más, mas por causa da evolução da língua francesa: ver-se-iam bem aflitos a tentar agora encontrar justificação numa qualquer mudança da língua para a maioria das diferenças entre a tradução antiga do missal e a que está prestes a ser publicada!
A este respeito, deve ter-se em consideração que uma adaptação a ser adoptada nas traduções - aspecto cuja menção Vós fizestes inserir no direito canônico -, para ser legítima só pode incidir sobre o que é exigido pelo génio da língua da tradução, e em caso algum sobre o sentido do texto. Se as adaptações fossem feitas com o fito de obter um lucro a partir dos textos sagrados, estaríamos perante um caso de simonia qualificada. Seria, portanto, uma honra para Vós e para o Vosso pontificado assegurar que, no futuro, a Igreja possa estar livre de qualquer suspeita a este respeito; a solução é simples: basta legislar para que os textos utilizados na liturgia sejam desprovidos de quaisquer direitos uma vez que que estejam cobertos os custos de tradução, e que se isso for além dum certo período, a precisar, deveriam apresentar-se as contas à Santa Sé. Fazê-lo não tomaria muito tempo aos Vossos colaboradores, sabendo que se esta reforma não viesse a ser feita, isso seria uma mancha nas vestes da Igreja.
Mais: que crédito dar aos resultados do inquérito? Haveis inquirido se houve elementos da antiga liturgia que tenham passado para a nova no seguimento de Summorum Pontificum. A este propósito, gostaria primeiro de fazer a seguinte observação. Muitos sacerdotes que gostariam de adoptar alguns desses elementos foram impedidos de o fazer pelo respeito que guardam pelas normas litúrgicas: ninguém tem o direito de mudar o que quer que seja na liturgia por sua conta. Até ouvi dum sacerdote o seguinte sobre o manter juntos os dedos que tocaram a hóstia consagrada: «se as normas não dizem que o devemos fazer, é porque não se deve fazer». Pela minha parte, ao ver que Vós mesmo havíeis feito essa pergunta, compreendi que a Igreja permitia que se importassem elementos da antiga liturgia, e adoptei alguns usos da antiga maneira de fazer: é por isso que estendo às outras orações eucarísticas a inclinação prevista no cânone romano durante a epiclese após a consagração; faço a genuflexão após o Per Ipsum, antes do Pater; traço o sinal horizontal da cruz acima do cálice, antes de deixar cair nele a partícula tirada da hóstia; etc.
Todavia, convém ainda notar que para responder à Vossa pergunta, os bispos, primeiro, deveriam ter consultado amplamente os seus sacerdotes, interrogando-os a este propósito. Mas em nenhum lugar, ouvi dizer que uma tal consulta tenha tido lugar. Pode-se, portanto, ter dúvidas sobre pelo menos alguns dos resultados do inquérito.
Faço, pois, apelo ao Vosso sentido pastoral e paternal. As comunidades ligadas ao missal de São João XXIII já sofreram muito; foram frequentemente perseguidas, e se, nesta carta, me detive um pouco demais sobre o meu caso pessoal, foi precisamente para apoiar esta ideia de que os tradicionalistas têm sido frequentemente perseguidos, desprezados, rejeitados: porque a mim, que adoptei os usos pós-conciliares, houve sacerdotes que me fizeram passar por integrista, não só junto dos bispos, mas também junto das autoridades leigas das quais eu dependia, prejudicando assim o meu ministério: em certos meios eclesiásticos bastava que usasse o colarinho romano ou dissesse o breviário em latim para logo ser incomodado. Ora, se eu fui maltratado, quanto mais esses fiéis ligados às formas anteriores da liturgia? Por isso, peço-Vos respeitosamente que não acrescenteis sofrimento ao sofrimento.
Também se Vos pode fazer notar que se a Vossa vontade é realmente a de não deixar que se diga mal do Vaticano II nem do novo missal - e quem poderia duvidar disso? -, então, o Vosso motu proprio parece ser muito desajeitado: se os fiéis ligados à forma extraordinária do missal não podem encontrá-la facilmente entre os que estão em plena comunhão convosco e com a Igreja, muitos deles irão procurá-la nos lugares de culto da Fraternidade São Pio X, e não tenho qualquer razão para acreditar que, aí, eles oiçam dizer muito bem daquilo que Vós pretendeis defender, isto é, o Vaticano II e o recente missal. Assim, o Vosso motu proprio vem, afinal, agravar os males que pretende combater. Como podeis ver, não é só em nome do Vaticano II que se deve criticar o Vosso recente motu proprio, é em nome do mais simples bom senso: aconselharam-Vos mal.
Antes de terminar, desejo agradecer-Vos do fundo do coração por nos terdes recordado a importância do respeito pelas normas litúrgicas. Também aqui, tenho razões pessoais para o fazer, além das razões que qualquer sacerdote pode ter. Pouco depois da minha ordenação, queriam que eu rezasse missa fora das normas do missal, e porque me recusei, fizeram de mim um pária condenado a vagar pelo mundo. Obrigado, pois, Beatíssimo Padre, e possais Vós nomear bispos convencidos desta necessária obediência às leis litúrgicas e punir aqueles que as desrespeitam gravemente.
Deixo-Vos, enfim, a garantia das minhas frequentes orações por Vós e peço-Vos, Beatíssimo Padre, Vos digneis aceitar a expressão dos meus sentimentos muito filiais.
Padre Bernard Pellabeuf
Carta 111 - Paix Liturgique em Português
Terramoto e tempestades violentas no dia em que o México despenalizou o aborto
O Supremo Tribunal de Justiça do México descriminalizou o aborto, decisão considerada histórica por juízes ideologizados e feministas. A decisão não torna legal o aborto mas abre as portas para esse crime, informou “El Universal”, do México.
Por sua vez, o actor Eduardo Verástegui expressou no Twitter a sua insatisfação, tendo depois sofrido ataques, mensagens críticas e memes pelas redes sociais, por parte de activistas da morte.
Aconteceu que, na noite do dia que foi aprovada a medida contra a vida, o país registrou um terremoto e tempestades em vários estados e Verástegui atribuiu as calamidades à descriminalização do aborto:
"Hoje o México chora. Hoje o México treme. Chove incontrolavelmente em várias partes do país, e a terra range. Hoje, milhares de bebés mexicanos foram condenados à morte. Hoje, o México chora; hoje, o México treme, por suas filhas e filhos que não nascerão”.
Em outra mensagem, Verástegui considera que os bebés no México são condenados à morte por causa do Ministro da Justiça e que este governo deixa um legado sangrento:
“Milhares de bebés mexicanos foram condenados à morte, porque ao descriminalizar o aborto em todo o México, a mensagem dos irresponsáveis ministros da Justiça é: ‘Vão em frente, podem matar o vossos bebés agora!’ A este governo, o povo cobrará caro por este legado sangrento”.
Embora alguns internautas concordassem com a sua opinião, muitos outros criticaram que o acto tenha atribuído os fenómenos naturais a uma punição por causa da descriminalização do aborto; os memes sobre isso foram imediatos.
O Supremo Tribunal aprovou por unanimidade a anulação de vários artigos de uma lei no Estado de Coahuila, no norte do país, onde o aborto é considerado crime e tanto as mulheres quanto as pessoas que poderiam ajudá-las são criminalizadas. A decisão do tribunal afetará imediatamente aquele Estado.
E estabelece um importante “critério obrigatório para todos os juízes do país”, que devem actuar no mesmo sentido se tiverem que decidir sobre um caso de aborto, disse o presidente do Tribunal, Arturo Zaldívar:
“A partir de agora não será possível, sem violar os critérios do Tribunal e da Constituição, processar qualquer mulher que faça um aborto nos casos que este tribunal considerou válidos”.
A descriminalização incluirá o aborto até às 12 semanas, período em que o aborto é permitido nos quatro Estados em que essa prática é legal: Cidade do México, Oaxaca, Veracruz e Hidalgo.
Nos restantes 28 Estados, ainda é penalizado, excepto em caso de estupro, e algumas regiões também o permitem quando a saúde da mãe está em perigo.
Luís Dufaur
terça-feira, 21 de setembro de 2021
segunda-feira, 20 de setembro de 2021
Francisco I e Bento XVI
Confesso que nunca fui um Padre
que se especializasse em Liturgia. Acrescento que fui Ordenado Sacerdote numa
Missa de Paulo VI (Novus Ordo) e que até hoje até hoje sempre celebrei essa Missa.
Nascido em 1953, ainda tenho
vagas recordações da Celebração do Santo Sacrifício da Missa tal como oferecido
antes da chamada “Missa de Paulo VI”. O Missal que meus pais me tinham dado em
latim e com a tradução portuguesa tornou-se “inútil”. O altar antes usado foi
substituído por um outro, virado, não para Deus, mas para os fiéis,
aproximando-se deles. A Sagrada Comunhão, que era feita de joelhos e recebida
na boca, na balaustrada, dispensou esta, que demarcava o santuário da nave e
continuou, durante pouco temo, a ser realizada no mesmo modo. Brevemente
foi-nos mandado comungar de pé, em filas paralelas, sendo que se podia receber
Nosso Senhor na boca ou nas mãos.
Depois de alguns anos em que vivi
afastado da Igreja, ao ser tocado pela Graça, voltei e procurei empenhar-me,
não só na assistência aos desfavorecidos, mas também nas coisas intraeclesiais.
Assisti a conferências-pregações sobre a liturgia, chegando a participar numa
semana dedicada à mesma, em Fátima.
Depois de entrar no Seminário franciscano,
lia tudo o que saía da Santa Sé sobre liturgia - não somente os documentos a ela
dedicados, mas também as cartas admiráveis de S. João Paulo II aos sacerdotes
por ocasião das Quinta-feira Santa. Mais tarde, estudei com a máxima atenção e
gratidão as suas esplêndidas encíclicas sobre a Eucaristia.
Como, desde o Noviciado (1980/81),
depois de ter adquirido, em Assis, um livro sobre a Eucaristia do teólogo
Joseph Ratzinger, que eu desconhecia inteiramente. Maravilhado tornei-me num seu
grande entusiasta e, não obstante, as minhas limitações, procurei ser não ser
somente discípulo de S. João Paulo II, mas também do Cardeal Ratzinger.
Infelizmente, os ignorantes que não leram ou não estudaram, ou não
compreenderam, estes dois admiráveis filósofos e teólogos, cuidam que o Cardeal
Ratzinger era o mentor, influenciador, de S. João Paulo II, passando-lhes
despercebida a enorme influência teológica, aliás, confessada pelo próprio
Ratzinger, que S. João Paulo II nele exerceu.
Não obstante, a leitura de todos
os livros de Joseph Ratzinger publicados em francês, italiano e espanhol,
familiarizaram-me com as suas obras sobre liturgia; o que foi para mim
muitíssimo salutar.
De modo que, ao ser eleito Papa
Bento XVI, pareceu-me absolutamente normal e totalmente coerente com a Sagrada
Tradição da Igreja a sua iniciativa Magistral de promulgar o Motu Proprio SummorumPontificum.
A Sagrada Tradição da Igreja é fonte de Revelação, a par com a Sagrada
Escritura, sendo ela que elaborou o Novo Testamento e discerniu quais os livros
inspirados da Antiga Aliança.
Foi, pois, com um espanto desmedido,
enorme, que tomei conhecimento da promulgação do Motu
ProprioTraditionesCustodes[1], e da carta que o
acompanha, que contradiz ponto por ponto o Motu Proprio,
acima referido, de Bento XVI.
Uma vez que a contradição, entre
os dois, é patente e notória somos obrigados a perguntar-nos sobre qual será o
verdadeiro, isto é, aquele que se adequa à Realidade. Decidi por isso
aprofundar, nos últimos 3 meses, o assunto. Pessoalmente não tenho dúvidas. No
entanto, aqui vos deixo os livros que então estudei:
T&T
Clark Companion to Liturgy - Editor Alcuin Reid, mais 17 Autores, pp. 550
The
Organic Development Of The Liturgy - Dom Alcuin Reid, OSB, pp. 374
The
Voice of The Church at Prayer: Reflections on Liturgy and Language - Uwe Michael Lang, 225 pp.
Turning
Towards The Lord - Uwe
Michael Lang, pp. 180
The
Traditional Mass: History, Form, and Theology of the Classical Roman Rite- Michael Fiedrowicz, 350 pp.
Reclaiming
Our Roman Catholic Birthright: The Genius and Timeliness of the Traditional
Latin -
Peter A. Kwasniewski,
388 pp.
In persona Christi: La Messa unicotesoro e la sua
concelebrazione- EnricoZoffoli,
Athanasius Schneider, Nicola Bux, AurelioPorfiri, 90 pp.
Nothing
Superfluous -
James W. Jackson Fssp, 357 pp.
La distribuzione della comunione sulla mano: Profilistorici,
giuridici e pastorali
Padre Nuno Serras Pereira
[1] Este documento com a carta aos Bispos que o enquadra tem dados incorrectos, contraditórios e falsos. Acresce que somente 30% dos Bispos responderam ao inquérito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé - algo inédito. Enigmaticamente, as respostas estão na posse do Papa e em segredo Pontifício. Não se pode, pois, verificar da veracidade ou da falsidade das informações de Oficiais da Sagrada Congregação para a D. da Fé, as quais afirmam que muitas das respostas eram favoráveis, no que diz respeito aos grupos, comunidades e paróquias que celebravam a Missa de S. Gregório Magno, aperfeiçoada e confirmada por S. Pio V, após o Concílio de Trento.
sábado, 18 de setembro de 2021
Fiéis impedidos de ter Missa Tradicional em paróquia francesa
Poitou, França. A 'Association Renaissance Catholique' organizou a 29ª edição da sua Universidade de Verão. O tema foi: "O nascimento de uma nova religião, o eco-higienismo". Foram 3 dias de estudo e amizade entre católicos. Estavam presentes 150 adultos e 50 crianças.
Tendo pedido à paróquia mais próxima, Santa Clotilde, para que um dos sacerdotes do grupo pudesse celebrar a Santa Missa de Domingo esse pedido foi negado terminantemente. A justificação, dada pelo diácono permanente, foi a seguinte: "Não emprestamos a igreja para ritos dos séculos passados."
Na sua ingenuidade, para não pensar que pudesse ser maldade, crê o diácono que o Rito que durou séculos e séculos pertence exclusivamente ao passado. Um dia perceberá que também pertence ao presente e ao futuro. Faz parte do conceito de Tradição.
Quando à Missa propriamente dita, foi celebrada ao ar livre, nas ruínas de uma antiga Abadia. Louvado seja Deus!
sexta-feira, 17 de setembro de 2021
O hino de guerra do homem casto
Castidade é força!
Godofredo de Bouillon com um golpe de espada cortava couraça e cavaleiro. Perguntaram-lhe de onde tirara tanta força. “Esta mão” — disse, levantado a direita — “nunca foi profanada pela impureza”.
Castidade é liberdade!
Enquanto latiram dentro de ti matilhas de cães, não és livre. Só a castidade lança em ferros os hábitos que aprisionavam a alma.
Castidade é alegria!
Toca para longe os remorsos e as tristes recordações de vis baixezas. Meu jovem amigo, de joelhos te imploro, nunca deixes entrar no paraíso da alegria tão asquerosa serpente — a impureza. Pois mil raminhos conduzem para fora e nenhum para dentro dele. Como é encantador o rosto de um homem casto! Recorda a inocência de criança.
Castidade é beleza!
Há muitos anos, um pintor viu certo jovem mui formoso. Pintou-o na tela. Anos mais tarde, encontra-se com um velho horrivelmente feio. Pintou-o também, colocando os dois quadros um ao lado do outro com os dizeres: “A virtude” e “O vício”. A vista do que o velho começa a chorar.
— Por que choras? — pergunta o pintor.
— Sou o mesmo nos dois quadros. Há vinte anos, representava a virtude porque era belo vivendo casto. Remorso de velho!
Em Roma, todos queriam ver o rosto de Luiz Gonzaga, o anjo da pureza.
Castidade é nobreza!
É a fonte perene dos nobres pensamentos, a chama que ateia o entusiasmo por tudo quanto é alto, grande, elevado, digno. Dá ao homem cristão a elegância cristã perante a mulher formosa ou feia, moça ou velha. Até nos pensamentos fá-lo perfeito cavalheiro. Queria o rei da Itália que Achtermann esculpisse uma estátua escarnecendo a pureza. Generosamente pagaria o trabalho.
— Nem todo dinheiro da Itália poderia levar-me a isso! — foi a nobre resposta do homem que fizera voto de virgindade.
Tens a pureza nos olhos, meu amigo? Sai pelo mundo; a ti a ciência nada poderá ensinar, mas, sim, aprenderá de ti.
Conheces esta melodia? Eu passo ao longe tocando. Ao largo da ilha em que Apolo Musageto cresce no meio dos afagos das musas, eu passo tocando estas fanfarras de guerra. Ao ouvi-la, um dia lembrou-se Apolo que era “homem”. Largou as musas e seguiu a frota para a luta. Farás o mesmo, meu caro!
A exemplo de tantos outros, deixarás a ilha onde vivem os moles e seguirás atrás dos clarins que soam alvoradas para vida. Scipião colocou no túmulo a palavra:
“Maxima omnium viela voluptas.” A maior de minhas vitórias foi vencer a volúpia.
O mármore das sepulturas espera esses dizeres a respeito de todo moço cristão. Junto ao rio mandou o Senhor que Gedeão despachasse para casa os manchados. A vitória ficou reservada aos limpos.
O mesmo ordena ainda hoje o Senhor, que distribui os triunfos na vida.
Deixa vibrar em tua alma os sons de guerra desta melodia!
Padre Geraldo Pires in 'Páginas para Rapazes – Vigílias e Alvoradas'
Godofredo de Bouillon com um golpe de espada cortava couraça e cavaleiro. Perguntaram-lhe de onde tirara tanta força. “Esta mão” — disse, levantado a direita — “nunca foi profanada pela impureza”.
Castidade é liberdade!
Enquanto latiram dentro de ti matilhas de cães, não és livre. Só a castidade lança em ferros os hábitos que aprisionavam a alma.
Castidade é alegria!
Toca para longe os remorsos e as tristes recordações de vis baixezas. Meu jovem amigo, de joelhos te imploro, nunca deixes entrar no paraíso da alegria tão asquerosa serpente — a impureza. Pois mil raminhos conduzem para fora e nenhum para dentro dele. Como é encantador o rosto de um homem casto! Recorda a inocência de criança.
Castidade é beleza!
Há muitos anos, um pintor viu certo jovem mui formoso. Pintou-o na tela. Anos mais tarde, encontra-se com um velho horrivelmente feio. Pintou-o também, colocando os dois quadros um ao lado do outro com os dizeres: “A virtude” e “O vício”. A vista do que o velho começa a chorar.
— Por que choras? — pergunta o pintor.
— Sou o mesmo nos dois quadros. Há vinte anos, representava a virtude porque era belo vivendo casto. Remorso de velho!
Em Roma, todos queriam ver o rosto de Luiz Gonzaga, o anjo da pureza.
Castidade é nobreza!
É a fonte perene dos nobres pensamentos, a chama que ateia o entusiasmo por tudo quanto é alto, grande, elevado, digno. Dá ao homem cristão a elegância cristã perante a mulher formosa ou feia, moça ou velha. Até nos pensamentos fá-lo perfeito cavalheiro. Queria o rei da Itália que Achtermann esculpisse uma estátua escarnecendo a pureza. Generosamente pagaria o trabalho.
— Nem todo dinheiro da Itália poderia levar-me a isso! — foi a nobre resposta do homem que fizera voto de virgindade.
Tens a pureza nos olhos, meu amigo? Sai pelo mundo; a ti a ciência nada poderá ensinar, mas, sim, aprenderá de ti.
Conheces esta melodia? Eu passo ao longe tocando. Ao largo da ilha em que Apolo Musageto cresce no meio dos afagos das musas, eu passo tocando estas fanfarras de guerra. Ao ouvi-la, um dia lembrou-se Apolo que era “homem”. Largou as musas e seguiu a frota para a luta. Farás o mesmo, meu caro!
A exemplo de tantos outros, deixarás a ilha onde vivem os moles e seguirás atrás dos clarins que soam alvoradas para vida. Scipião colocou no túmulo a palavra:
“Maxima omnium viela voluptas.” A maior de minhas vitórias foi vencer a volúpia.
O mármore das sepulturas espera esses dizeres a respeito de todo moço cristão. Junto ao rio mandou o Senhor que Gedeão despachasse para casa os manchados. A vitória ficou reservada aos limpos.
O mesmo ordena ainda hoje o Senhor, que distribui os triunfos na vida.
Deixa vibrar em tua alma os sons de guerra desta melodia!
Padre Geraldo Pires in 'Páginas para Rapazes – Vigílias e Alvoradas'
quinta-feira, 16 de setembro de 2021
O regresso da Igreja das Catacumbas
Neste vídeo vemos a celebração da Missa Tradicional em casa de uma família. Decorria o ano 1982. A Missa Tradicional era proibida ainda que nunca tenha sido revogada. Os sacerdotes que a celebravam, tirando raras excepções, era perseguidos, separados das almas que lhes tinham sido confiadas e por fim suspensos.
Parte da Igreja deixa as igrejas, de onde foi expulsa, e procura abrigo em casas de família, à imagem do que tinha acontecido aos primeiros cristãos. Centenas de comunidades ocultas, em luta para manter a fé católica na sua integridade.
O que durante séculos foi considerado bom e santo era agora considerado prejudicial e nocivo às almas. Aquelas almas não percebiam como isso poderia ser possível porque ia contra o que experimentavam e também contra o que tinham testemunhado os antigos.
Com o passar dos anos a Missa Tradicional foi crescendo e regressou às igrejas. A algumas. Nos últimos 10 anos o crescimento foi impressionante, especialmente numa Igreja cada vez mais envelhecida e com menos gente, especialmente no Ocidente. Os frutos espirituais faziam-se sentir: centenas de vocações ao sacerdócio e religiosas, famílias numerosas, novas comunidades, conversões, vida de oração, etc.
Esse desenvolvimento foi abruptamente atacado há exactamente 2 meses, com a publicação do motu proprio Traditionis Custodes. Esse foi o dia que, para muitos católicos, significou o regresso às catacumbas, que podem ser relembradas neste vídeo. Aí ficarão. Mas não para sempre.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Ter orgulho na Exaltação da Santa Cruz
Não só não devemos nos envergonhar da morte de nosso Deus e Senhor, como temos que confiar nela com todas as nossas forças e nos gloriarmos nela por cima de tudo: pois ao tirar de nós a morte, que em nós encontrou, prometeu-nos com toda a fidelidade que nos daria em Si mesmo a vida que nós não podemos chegar a possuir por nós mesmos.
E se aquele que não tem pecado nos amou a tal ponto que por nós, pecadores, sofreu o que tinham merecido os nossos pecados, como é que depois de nos haver justificado deixaria de nos dar o que é justo? Ele, que promete com verdade, não nos daria os prémios dos santos, se suportou, sem cometer iniquidade, o castigo que os iníquos lhe infligiram?
Confessemos, portanto, intrepidamente, irmãos, e declaremos bem às claras que Cristo foi crucificado por nós: e façamo-lo não com medo, mas com júbilo, não com vergonha, mas sim com orgulho.
O apóstolo Paulo, que se deu conta deste mistério, proclamou-o como um título de glória. E embora pudesse recordar muitos aspectos grandiosos e divinos de Cristo, não disse que se gloriava destas maravilhas – que tivesse criado o Mundo, quando, como Deus que era, achava-se junto do Pai, e que tivesse imperado sobre o Mundo, quando era homem como nós – mas sim: "Deus me livre de me gloriar a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo."
Santo Agostinho in Sermão Güelferbitano 3
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
domingo, 12 de setembro de 2021
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
A cura da Razão e da Vontade para chegar à Humildade e Caridade
Primeiro, o Filho, o Verbo
e a sabedoria de Deus Pai, quando vê a potência de nossa alma chamada razão
deprimida pela carne, cativa do pecado, cegada pela ignorância, entregue às
coisas exteriores, toma-a com clemência, ergue-a com fortaleza, instrui-a
com prudência, fá-la entrar em si mesma; e, revestindo-a de seus
mesmos poderes de forma prodigiosa, constitui-a juiz de si mesma. E a razão é,
assim, ao mesmo tempo acusadora, testemunha e tribunal, e desempenha diante de
si mesma a função da verdade.
Desta primeira conjunção entre o Verbo e a razão, nasce
a humildade. Depois, o Espírito Santo digna-se a visitar a outra potência, que
se diz vontade, ainda infectada pelo veneno da carne, mas ilustrada já
pela razão. Purga-a o Espírito com suavidade, sela-a com seu fogo e torna-a, assim, misericordiosa.
Assim, com efeito, como uma pele se estica quando untada, a vontade, coberta pela unção celestial, estende-se por amor até aos inimigos. E desta segunda conjunção, do Espírito Santo com a vontade, nasce a caridade. Atendamos porém ainda a estas duas potências, a saber, a razão e a vontade.
A razão é instruída pelo Verbo da verdade, enquanto a vontade o é pelo Espírito da verdade. A razão é aspergida pelo hissopo da humildade, enquanto a vontade é abrasada pelo fogo da caridade. As duas juntas são a alma perfeita, sem mácula, em razão da humildade, e sem ruga, em razão da caridade.
Quando a vontade já não resistir à razão, e a razão já não encobrir a verdade, então o Pai se unirá a elas como a uma gloriosa esposa; e então a razão já não poderá pensar nada de si mesma, nem a vontade julgar o próximo, porque, com efeito, tal alma fustigada não encontrará consolo senão repetindo: “O Rei introduziu-me em sua câmara” [Ct 1, 4]. Tornou-se digna já de superar a escola da humildade, e aqui, ensinada pelo Filho, aprendeu a entrar em si mesma, conforme à advertência que se lhe fez: “Se não te conheces, vai e apascenta os teus cabritos” [Ct 1, 7].
Tornou-se digna, pois, de passar da escola da humildade ao celeiro da caridade, que é o coração dos próximos. O Espírito Santo guiou-a e introduziu-a mediante o selo do amor, e ela nutre-se de passas e robustece-se de maçãs, as quais são os bons costumes e as santas virtudes; e abre-se-lhe por fim a câmara do rei, por cujo amor languesce.
Ali, entre o grande silêncio que reina no céu por meia hora, descansa ela docemente entre os desejados abraços, e dorme; o seu coração, todavia, vigia. Ali vê coisas invisíveis, ouve coisas inefáveis que o homem nem sequer pode balbuciar e que excede toda a ciência que a noite sussurra à noite; e no entanto o dia-a-dia lhe passa sua mensagem, razão por que é lícito comunicar a sabedoria entre os sábios, e compartilhar o espiritual entre os espirituais.
São Bernardo de Claraval in 'Os graus da humildade e da soberba'
Subscrever:
Mensagens (Atom)


















