Mostrar mensagens com a etiqueta S. Agostinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta S. Agostinho. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja

Origens

O seu nome era Aurélio Agostinho. Nasceu em Tagaste, uma cidade do Norte da África dominada pelos romanos (na região onde hoje fica a Argélia) no dia 13 de Novembro do ano 354. Filho primogénito, o seu pai, Patrício, era pagão e pequeno proprietário de terras. A sua mãe, pelo contrário, era cristã fervorosa, tanto que se tornou santa. Santa Mónica sempre tentou educar o filho na fé cristã. Agostinho, porém, por causa do exemplo do pai, não se importava com a fé.

Infância

Santa Mónica queria que seu filho se tornasse cristão, mas percebia que a hora de Deus ainda não tinha chegado. Tanto que adiou o seu baptismo, com receio de que ele profanasse o Sacramento. Aos 11 anos, Agostinho foi enviado para estudar em Madauro, perto de Tagaste. Lá, estudou literatura latina e algo que o distanciaria da fé cristã: as práticas e crenças do paganismo local e romano.
Juventude conturbada

Com 17 anos foi para Cartago estudar retórica. Embora tenha recebido formação cristã passou a seguir a doutrina maniqueísta, negada veementemente pelos cristãos. Além disso, tornou-se hedonista, ou seja, seguidor da filosofia que tem o prazer como fim absoluto da vida. Dois anos depois, passou a viver com uma mulher cartaginense, com a qual teve um filho chamado Adeodato. O relacionamento dos dois durou 13 anos. Durante todo esse tempo, Santa Mónica rezava pela conversão do filho.

Passagem por várias doutrinas

Agostinho tornou-se um professor de retórica reconhecido. Chegou a abrir uma escola em Roma e conseguiu o posto de professor na corte imperial situada em Milão. Decepcionado com as incoerências do maniqueísmo, aproximou-se do cepticismo. A sua mãe mudou-se para Milão e exerceu certa influência sobre o seu comportamento. Nesse tempo, também decepcionado com o cepticismo, Agostinho aproximou-se do Bispo de Milão (Santo Ambrósio). A princípio, queria apenas ouvir a retórica excelente do Bispo. Antes de se converter, Agostinho separou-se da sua companheira e ainda se envolveu com outras mulheres. Depois, foi-se convencendo da verdade sobre Jesus Cristo pelas pregações de Santo Ambrósio. A sua mãe, ao mesmo tempo, não cessava de orar por ele.

Conversão

Depois das buscas incessantes pela verdade e de vários casos amorosos, Agostinho finalmente rendeu-se à coerência da mensagem de Jesus Cristo. Encontrou em Jesus o que não encontrara em nenhuma outra filosofia, em nenhum outro mestre. Assim, ele e seu filho Adeodato, então com 15 anos, foram baptizados em Milão por Santo Ambrósio, durante uma vigília Pascal. A partir de então, passou a escrever contra o maniqueísmo, que ele conhecia muito bem. Escreveu obras tão importantes que fizeram com que fosse declarado Doutor da Igreja.

Sofrimentos

Agostinho dedicava grande atenção a Adeodato formando-o na fé e nas ciências humanas. De repente, porém, o seu filho veio a falecer. Foi um grande choque. Por causa disso, decidiu voltar para Tagaste. No caminho de volta a sua mãe também faleceu. Agostinho menciona nas suas “Confissões” a maravilha e o alimento espiritual que eram os diálogos que ele tinha com sua a mãe sobre a pessoa de Jesus Cristo e a beleza da fé cristã. Esses diálogos foram decisivos para a sua formação. 

De volta à terra natal

Depois de sepultar a sua mãe continuou decidido a voltar para a terra natal. Ele chegou a Tagaste no ano 288. Lá, optou pela vida religiosa. Junto com alguns amigos na fé, deu início a uma comunidade monástica cujas regras foram escritas por ele mesmo. Deste embrião nasceram várias ordens e congregações religiosas masculinas e femininas, todas seguindo as regras e a inspiração “Agostiniana”.

Não se coloca uma lâmpada debaixo da mesa

O Bispo de Hipona, ao perceber a forte inspiração que Deus colocara na alma de Agostinho, convidou-o para ir juntamente com ele nas missões e pregações. O Bispo, já idoso e enfraquecido, vendo confirmada a sabedoria de Agostinho, ordenou-o como sacerdote, o que foi aceite com grande alegria pelos fiéis. E, depois, em 397, logo após a morte do bispo, o povo, em uma só voz, aclamou Santo Agostinho como Bispo de Hipona. Ele ocupou o cargo durante 34 anos, derramando toda a sua sabedoria nas pregações, nos livros, na caridade para com os pobres, na espiritualidade profunda. Combateu heresias, tornou-se um dos mais importantes teólogos e filósofos da Igreja, influenciando pensadores até o presente. Foi aclamado Doutor da Igreja e um dos “Padres da Igreja” por causa do seu ministério iluminador. Entre os livros de maior destaque nas suas obras, estão “Confissões” e “Cidade de Deus”.

Morte

Santo Agostinho faleceu feliz pela força da Igreja de Hipona, mas, ao mesmo tempo, triste, por causa da invasão bárbara em Hipona, motivo de grandes perseguições contra os fiéis. A sua morte ocorreu a 28 de Agosto do ano 430. Mais tarde, no ano 725, os seus restos mortais foram exumados e trasladados para a cidade de Pavia, em Itália, onde são venerados na igreja de São Pedro do Céu de Ouro. A igreja fica perto do local onde ocorreu a sua conversão.

Oração a Santo Agostinho

Gloriosíssimo Pai Santo Agostinho, que por divina providência fostes chamado das trevas da gentilidade e dos caminhos do erro e da culpa a admirável luz do Evangelho e aos rectíssimos caminhos da graça e da justificação para ser ante os homens vaso de predilecção divina e brilhar em dias calamitosos para a Igreja, como estrela da manhã entre as trevas da noite: alcançai-nos do Deus de toda consolação e misericórdia o sermos chamados e predestinados, como Vós o fostes, a vida da graça e a graça da eterna vida, onde juntamente convosco cantemos as misericórdias do Senhor e gozemos a sorte dos eleitos pelos séculos dos séculos. Amém.

in cruzterrasanta.com.br


blogger

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Dia de Santo Agostinho

Foi um dos maiores doutores da Igreja e um dos maiores génios da literatura ocidental. Agostinho foi um herói improvável: a sua vida tinha tudo para correr mal. E de facto correu, durante muitos anos. Teve um percurso errante, entregue aos prazeres mundanos, e foi a essa época a que se referia quando escreveu, nas suas Confissões:

"Andemos honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças."

Com uma inteligência e uma sede de verdade muito acima da média, Santo Agostinho percebeu que as ideias que seguia até aí não podiam ser verdadeiras nem saciavam o desejo do seu coração, como se percebe por esta que é uma das suas frases mais conhecidas:

"Senhor criaste-nos para Ti, e nosso coração vive inquieto enquanto não repousar em Ti."

A sua conversão deu-se em grande parte às orações e lágrimas da sua Mãe, Santa Mónica, que muito sofreu com a vida do seu filho até que este foi baptizado, aos 33 anos. Mesmo com essa idade ainda foi a tempo de ser ordenado sacerdote e mais tarde sagrado bispo de Hipona. A influência decisiva de Santa Mónica na vida de Santo Agostinho mostra bem que as mulheres sempre tiveram, e continuam a ter, um grande poder.


blogger

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

A insensatez diante da morte dos outros

"Enterramos os nossos parentes e amigos, vemos funerais todos os dias, e, não obstante, continuamos prometer-nos longos anos de vida. Insensata promessa que ninguém pode fazer a si próprio!" 

Santo Agostinho


blogger

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Fora da Igreja é possível tudo excepto a salvação

Fora da Igreja é possível tudo excepto a salvação. É possível ter honras, é possível ter Sacramentos, é possível cantar Alelulias, é possível responder Ámen, é possível possuir o Evangelho, é possível ter Fé no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, é possível pregar; mas em nenhum lugar, senão na Igreja Católica, é possível encontrar a salvação. 

Santo Agostinho (referindo-se aos Donatistas) in 'Sermo ad Caesariensis Ecclesia plebem'


blogger

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Quod non fecit Dominus fecit baculus

Santo Agostinho conta que um certo homem, não ouvia nem os conselhos nem as súplicas dos que procuravam convencê-lo a abandonar uma casa de má vida que frequentava com grande escândalo. Não quis saber de nada, dizendo que simplesmente não podia. 

Aconteceu que um dia, naquela mesma casa, lhe deram uma carga de pauladas das mais respeitáveis. Aquele homem abandonou no mesmo instante a casa ... a impossibilidade desapareceu subitamente.

Comenta Santo Agostinho: “Quod non fecit Dominus fecit baculus” (aquilo que Deus e o amor da alma não conseguiram conseguiu-o a bengala).

Pe. Luiz Chiavarino in 'Confessai-vos bem'


blogger

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Santo Agostinho sobre a Santa Missa, purgatório e salvação das almas

Não se pode negar que as almas dos falecidos são aliviadas pela piedade dos parentes vivos, quando oferecem por elas o sacrifício da Missa ou quando praticam esmolas na Igreja. 

No entanto, estas coisas aproveitam àquelas almas que, quando viviam, mereceram que se lhes pudessem aproveitar depois. Pois há um certo modo de viver, nem tão bom que aproveite destas coisas depois da morte, nem tão mau que não lhes aproveitem. Há tal grau no bem que o que possui não aproveita de menos; ao contrário, há tal grau no mal que não pode ser ajudado por elas quando passar desta vida. 

Portanto, aqui o homem adquire todo o mérito com que pode ser aliviado ou oprimido após a morte. Ninguém espere merecer diante de Deus, quando tiver falecido, o que durante a vida desprezou.

Santo Agostinho in 'As Oito Questões de Dulcício' 2, 4


blogger

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Ter orgulho na Exaltação da Santa Cruz

Não só não devemos nos envergonhar da morte de nosso Deus e Senhor, como temos que confiar nela com todas as nossas forças e nos gloriarmos nela por cima de tudo: pois ao tirar de nós a morte, que em nós encontrou, prometeu-nos com toda a fidelidade que nos daria em Si mesmo a vida que nós não podemos chegar a possuir por nós mesmos. 

E se aquele que não tem pecado nos amou a tal ponto que por nós, pecadores, sofreu o que tinham merecido os nossos pecados, como é que depois de nos haver justificado deixaria de nos dar o que é justo? Ele, que promete com verdade, não nos daria os prémios dos santos, se suportou, sem cometer iniquidade, o castigo que os iníquos lhe infligiram?

Confessemos, portanto, intrepidamente, irmãos, e declaremos bem às claras que Cristo foi crucificado por nós: e façamo-lo não com medo, mas com júbilo, não com vergonha, mas sim com orgulho.

O apóstolo Paulo, que se deu conta deste mistério, proclamou-o como um título de glória. E embora pudesse recordar muitos aspectos grandiosos e divinos de Cristo, não disse que se gloriava destas maravilhas – que tivesse criado o Mundo, quando, como Deus que era, achava-se junto do Pai, e que tivesse imperado sobre o Mundo, quando era homem como nós – mas sim: "Deus me livre de me gloriar a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo."

Santo Agostinho in Sermão Güelferbitano 3


blogger

sábado, 28 de agosto de 2021

Quem és tu, meu Deus?

Santo Agostinho, além de um dos maiores santos de todos os tempos, foi um dos melhores escritores da História da Humanidade. As suas "Confissões" relatam - com toda a eloquência que o génio humano consegue atingir - a história de alguém apaixonado por Deus. Logo no início, no capítulo I, o santo pergunta "Quem és tu, meu Deus?", dando, em seguida, a resposta: 

Altíssimo, boníssimo, poderosíssimo, omnipotente ao extremo; 
misericordiosíssimo, mas extremamente justo; 
misteriosíssimo, mas sempre presente; 
belíssimo, mas extremamente forte; 
estável, mas incompreensível; 
imutável, mas mudando tudo; 
nunca novo, nunca velho; 
tudo renovando e envelhecendo os orgulhosos, que não se dão conta disso; 
sempre actuando, sempre em repouso; 
sempre acumulando, sem precisar de nada; 
sustentando, enchendo e sempre te espalhando; 
criando, nutrindo e amadurecendo; 
buscando, mas tendo tudo. 

Tu amas, mas sem paixão; 
és zeloso, sem ansiedade; 
arrependes-te mas não te afliges; ficas irado, mas sereno; 
mudas as tuas obras, mas o teu propósito não muda; 
recebes de volta o que encontras, sem nunca tê-lo perdido; 
nunca estás necessitado, mas os lucros de alegram; 
jamais cobiças, mas cobras juros. 

Tu recebes mais do que o devido, para que possas dever; 
e quem tem o que quer que seja que não seja teu? 

Tu pagas dívidas, sem nada dever; 
perdoas dívidas, sem nada perder! 

E o que acabei de dizer, meu Deus, minha vida, minha alegria?

Santo Agostinho de Hipona in 'Confissões' (I, 4)


blogger

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Santo Agostinho sobre a fragilidade da vida

Só Deus sabe quando será o fim do mundo: seja quando for, o tempo da fé é hoje. O tempo está próximo para todos nós, porque somos mortais. Caminhamos no meio de perigos. 

Se fôssemos de vidro, não os recearíamos tanto; com efeito, não há coisa mais frágil que um recipiente de vidro, e no entanto conservamo-lo e dura séculos, porque pode cair, mas não pode envelhecer nem ser atingido por uma febre. 

Mas nós somos mais frágeis e mais fracos que o vidro, e essa fragilidade faz-nos recear em cada dia todos os acidentes que são constantes na vida dos homens. E se não houver acidentes, continua a existir o tempo que avança. O homem evita os choques; poderá evitar a sua última hora? Ele evita o que vem do exterior; poderá extirpar o que nasce no seu interior? 

Por vezes, é subitamente dominado por uma doença. E, mesmo que tenha sido poupado toda a vida, quando a velhice por fim chega, não há adiamento possível.

in Sermão 109


blogger

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O perigo e a injustiça dos Juízos Temerarios

O Senhor previne-nos contra os juízos temerários e injustos, pois pretende que ajamos com um coração simples, olhando sempre só para Deus. 

Dado que ignoramos os motivos de muitas acções, seria temerário da nossa parte julgá-las. Os mais dispostos a fazer juízos temerários e a condenar os outros são aqueles que preferem condená-los a corrigi-los e conduzi-los ao bem, uma atitude que denota orgulho e mesquinhez. 

Por exemplo, um homem peca por cólera, e tu repreende-lo com ódio. Ora, entre a cólera e o ódio vai a mesma distância que separa a trave do argueiro. O ódio é uma cólera inveterada que, com o tempo, assumiu proporções tais que bem merece o nome de trave. 

Pode acontecer que te encolerizes quando pretendias corrigir, mas não deves nunca deixar-te levar pelo ódio. Afasta primeiro o ódio para longe de ti, e poderás depois corrigir aquele que amas.

Santo Agostinho in 'Explicação do Sermão da Montanha' (19, 63)


blogger

sábado, 29 de agosto de 2020

Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro

Os bem-aventurados apóstolos foram os primeiros a ver Cristo suspenso na cruz; choraram a sua morte, ficaram atemorizados face ao prodígio da sua ressurreição mas, logo a seguir, transportados de amor por esta manifestação do seu poder, não hesitaram em derramar o seu sangue para atestar a verdade do que tinham visto. 

Pensai, irmãos no que era pedido a esses homens: ir por todo o mundo pregar que um morto tinha ressuscitado e subido ao céu; e sofrer, devido à pregação dessa verdade, tudo o que aprouvesse a um mundo insensato: privações, exílio, cadeias, tormentos, carrascos, feras ferozes, a cruz e morte. Teriam sofrido tudo isso por um desconhecido?

Teria Pedro morrido para sua própria glória? Teria pregado em proveito próprio? Ele morria e Outro, que não ele, era glorificado por essa morte; ele foi morto e Outro foi adorado. Só a chama ardente da caridade, unida à convicção da verdade, pode explicar semelhante audácia! Eles pregavam o que tinham visto. 

Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro. Ou deveriam eles negar o que tinham visto? Mas não negaram, antes pregaram esse Morto que sabiam estar perfeitamente vivo. Eles sabiam por que vida desprezavam a vida presente, sabiam por que felicidade suportavam provas passageiras, por que recompensa espezinhavam todos esses sofrimentos. A sua fé pesava mais na balança que o mundo inteiro.

Santo Agostinho in Sermão 311, 2


blogger

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Lição de vida: Quem ama o perigo cai nele

Nas suas Confissões, Santo Agostinho conta a história de um amigo que, por virtude, se recusava terminantemente a ir aos espectáculos de gladiadores, em Roma. Os romanos tinham espectáculos de circo em que os homens lutavam uns contra os outros; de anfiteatro em que combatiam homens contra feras; e de teatro, em que se representavam as histórias dos deuses. Aqui trata-se de espectáculos de anfiteatro em que havia quase sempre mortos. Porém, uma vez consentiu em ir, mas disse que estaria de olhos fechados. O resto da história é uma lição de vida:

Detestava ao principio, por completo, tais divertimentos. Uma vez, alguns amigos e condiscípulos, ao voltarem dum jantar, encontraram-no por acaso no caminho e levaram-no com amigável violência ao anfiteatro, a assistir aos jogos cruéis e funestos daquele dia. Ele recusava com veemência e resistia, dizendo: «Por arrastardes a esse lugar e lá colocardes o meu corpo, julgais que podereis fazer com que o espírito e os olhos prestem atenção aos espectáculos? Assistirei como ausente, saindo assim triunfante de vós e mais dos espectáculos».

Ouvindo estas palavras, levaram-no ao anfiteatro, sem mais demora, com o desejo, talvez, de observar se era capaz de cumprir a promessa. Apenas lá chegaram, ocuparam os lugares que puderam. Tudo fervia nas paixões mais selvagens. Ele, fechando as portas dos olhos, proibiu ao espírito de cair em tais crueldades. Oxalá tivesse também tapado os ouvidos! Num incidente da luta, um grande clamor saído de toda a multidão sobressaltou-o terrivelmente: vencido pela curiosidade e julgando-se preparado para desprezar e dominar a cena, fosse qual fosse, abriu os olhos. 

Imediatamente foi ferido na alma por um golpe mais profundo do que o que havia recebido no corpo o gladiador a quem desejou contemplar. Caiu mais miseravelmente do que aquele por cuja queda se tinha levantado o clamor. Entrou-lhe este pelos ouvidos e abriu-lhe os olhos, por onde foi ferida e abatida a alma, até então mais audaz que corajosa e tanto mais fraca quanto mais presumida de si mesma, em vez de confiar em Vós, como devia. Logo que viu o sangue, bebeu simultaneamente a crueldade. Não se retirou do espectáculo, antes se fixou nele. Sem o saber, sorvia o furor popular, deleitava-se no combate criminoso e inebriava-se no prazer sangrento. 

Já não era o mesmo que tinha vindo, mas um da turba a que se ajuntara, um verdadeiro companheiro daqueles por quem se deixara arrastar. Que mais direi? Presenciou, gritou, apaixonou-se e trouxe de lá um ardor tão louco que o incitava a voltar, não só com os que o haviam arrastado, mas indo à sua frente e arrastando os outros. 

Santo Agostinho in Confissões - Livro Sexto 


blogger

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Será possível amar os inimigos?

Ao amares o teu inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não amas o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne. Imaginemos um pedaço de madeira de carvalho em bruto. Um artesão hábil vê essa madeira, cortada na floresta; a madeira agrada-lhe; não sei o que quer fazer dela, mas não é para a deixar como está que o artista gosta dela. A sua arte faz com que pense em que é que se pode transformar essa madeira; o seu amor não é dirigido à madeira em bruto: ele ama o que fará com ela e não a madeira em bruto. 


Foi assim que Deus nos amou quando éramos pecadores. Na verdade, Ele disse: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes». Ter-nos-á Ele amado pecadores para que permaneçamos pecadores? O Artesão viu-nos como um pedaço de madeira em bruto, vindo da floresta; porém, o que Ele tinha em vista era a obra que nela faria e não a madeira em si, nem a floresta. 

Contigo passa-se a mesma coisa: vês o teu inimigo opor-se a ti, encher-te de palavras mordazes, tornar-se rude nas afrontas que te faz, perseguir-te com o seu ódio. Mas tu sabes que ele é um homem. Vês tudo o que esse homem fez contra ti, mas também vês nele aquilo que foi feito por Deus. Aquilo que ele é, enquanto homem, é obra de Deus; o ódio que te tem é obra dele. 

E que dizes tu para contigo? «Senhor sê benevolente para com ele, perdoa-lhe os pecados, inspira-lhe o teu temor, converte-o.» Não amas nesse homem aquilo que ele é, mas aquilo que queres que ele venha a ser. Assim, quando amas um inimigo, amas nele um irmão.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja in 'Comentário sobre a primeira carta de João' (§ 8,10)


blogger

domingo, 28 de agosto de 2016

Governar o Universo é mais difícil do que multiplicar pães

Governar todo o universo é na verdade um milagre maior do que saciar cinco mil homens com cinco pães. E contudo, isso não espanta ninguém, mas as pessoas espantam-se diante de um milagre de menor importância, porque sai do habitual. Com efeito, quem sustenta ainda hoje o universo inteiro, senão Aquele que, apenas com algumas sementes, cria as searas? Cristo fez o mesmo que Deus faz. Usando do seu poder de multiplicar as searas a partir de uns quantos grãos, Ele multiplicou cinco pães; porque tinha poder para tal, e esses cinco pães eram como sementes, que o Criador da terra multiplicou mesmo sem as lançar à terra.

Esta obra foi-nos apresentada aos sentidos para nos elevar o espírito. Tornou-se-nos assim possível admirar «o Deus invisível, através das suas obras visíveis» (Rom 1,20). Depois de termos sido ensinados na fé e purificados por ela, podemos desejar ver sem os olhos do corpo o Ser invisível que conhecemos a partir do visível.

Com efeito, Jesus fez este milagre para que ele fosse visto pelos que ali se encontravam, e eles puseram-no por escrito para que nós tomássemos conhecimento dele. O que os olhos fizeram para eles, fá-lo para nós a fé. De igual modo, reconhecemos na nossa alma o que os nossos olhos não puderam ver e recebemos um belo elogio, pois foi acerca de nós que Ele disse: «Felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20,29).

Santo Agostinho in Sermões sobre o evangelho de João, nº 24


blogger