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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cardeal Sarah muda o paradigma com o livro 'Dieu ou rien'

"Eles não nos têm de dizer o que temos que fazer." Foram estas as palavras usadas pela teólogo Alemão, o Cardeal Walter Kasper, para descrever o que pensava sobre as contribuições africanas durante o Sínodo de 2014 para Família, quando Bispos Católicos e leigos se juntavam para discutir os desafios que a família enfrenta no mundo moderno.

Foi difícil não relembrar esta frase quando recentemente lia este livro [1]. Isto porque neste best-seller de 424 páginas, 'Dieu ou Rien' [Deus ou Nada] (Fayard, 2015), o Cardeal Robert Sarah, o novo Prefeito da Congregação para o Culto Divino, ilustra em conversa com o jornalista francês Nicolas Diat (o autor de um surpreendente e recente livro sobre o pontificado de Bento XVI) precisamente porque é que a Igreja universal devia ouvir mais os Católicos que vêm de culturas onde a fé está a florescer e ouvir muito menos os que estão preocupados com os problemas das Igrejas particulares do Ocidente: igrejas que são fabulosamente ricas em termos materiais mas espiritualmente moribundas, de acordo com qualquer padrão.

O título do livro sublinha
o tema central de Sarah: as sociedades que perdem um sentido de Deus - e não é qualquer deus, mas o Deus que é simultaneamente Caritas, Logos, Misericordia e Veritas - e escolhem o nada não conseguem evitar a experiência de um declínio profundo. Este tema da morte de Deus/morte do homem dificilmente é novo. Está implícito na discussão de Platão sobre as três versões do ateísmo e foi anunciado séculos mais tarde por Nietzsche. No entanto, o que torna a contribuição de Sarah diferente é a sofisticação com que ele desenvolve o seu argumento. Estamos diante de um homem que está igualmente familiarizado com discutir os pontos mais finos sobre religiões animistas [2] ou ao explicar as dimensões mais obscuras do caso Galileu.

"A maior dificuldade do homem não é", escreve Sarah, "o que a Igreja ensina sobre a moral, a coisa mais dificíl para o mundo pós-moderno é acreditar em Deus". Recorrendo a fontes desde as escrituras Hebraicas e Cristãs, aos filósofos Gregos, aos Padres da Igreja, a referências Judias, à literatura Russa e aos intelectuais franceses modernos, Sarah expõe uma tese poderosa que sugere que as decisões contra o Deus que se revela a Si mesmo na Bíblia estão a devastar grande parte do mundo, especialmente o Ocidente e ainda mais especificamente a Europa Ocidental. E ao fazê-lo - pois, como qualquer pessoa que tenha conhecido Sarah pode comprovar, ele é um homem genuinamente humilde - o Cardeal, nascido na obscura vila africana de Ourous, revela surpreendentemente um intelecto formidável que apenas se compara com anos de experiência pastoral e um profundo conhecimento, e contacto pessoal directo, com os muitos e diferentes desafios que confrontam a Igreja Católica por todo o mundo.

Para Sarah, pouco importa se este "vazio" se expressa através do ateísmo militante, do materialismo marxista, do liberalismo secular ou das entidades religiosas politicamente correctas que outro Cardeal, o Beato John Henry Newman, famosamente condenou como "o espírito do Liberalismo na religião". A negação de Deus, ensina Sarah, só pode levar a uma coisa: um enorme vazio que será sempre preenchido por caminhos destrutivos. Caminhos como a auto-absorção, o hedonismo e o tecno-utopianismo. Sarah não tem medo de fazer uma analogia entre as modas do Ocidente e os caminhos que ele acredita que as religiões animistas africanas seguiram para fabricar falsos deuses e ajudarem pessoas a distraírem-se a si mesmas do medo que ataca o homem quando ele pensa que está verdadeiramente sozinho no universo.

Por outro lado, Sarah sugere que outra forma de preencher o vazio é através do implacável abraço do equalitarismo, quer na economia quer através da promoção da ideologia de género. Ao usar este argumento, é pouco provável que Sarah ganhe muitos amigos no nosso mundo obcecado com a igualdade: uma fixação que inclui mais-do-que-uns-poucos Católicos. Dado que Sarah passou a maior parte da sua vida como arcebispo na Guiné, antiga colónia francesa, a enfrentar um dos piores opressores marxistas pós-coloniais da África, Ahmed Sékou Touré (que colocou Sarah na lista de inimigos para matar mesmo antes de morrer em 1984), é pouco provável que Sarah esteja especialmente preocupado  com os ataques dos liberais do Ocidente.

A vida de Fé de Sarah exemplifica em muitas maneiras a odisseia do Catolicismo africano do século XXI. Nascido em 1945, beneficiou do impulso missionário que caracterizou o Catolicismo Francês entre o século XIX e metade do século XX. Filho único de pais animistas, convertido ao Catolicismo, Sarah fala comoventemente dos padres espiritanos que deixaram a França, em muitos casos para sempre, para viver em algumas das regiões mais desoladas de África. Sarah foi baptizado por um sacerdote espiritano em 1947 e faz questão de dizer que foi ordenado sacerdote por um bispo espiritano em 1969.

Ao reflectir sobre o impacto do Catolicismo nos africanos que conheceu como rapaz e jovem adulto, Sarah nota que havia uma força libertadora quando o Catolicismo tornava divino o mundo natural, libertando portanto as pessoas do medo e da superstição. Para Sarah, esta é uma ilustração prática de como os dogmas e doutrinas da Igreja não são opressores mas, pelo contrário, libertam as pessoas revelando-lhes a verdade sobre as realidades últimas. Esta é não só uma mensagem importante para os que imaginam tornar o Catolicismo em algo doutrinalmente incoerente como, por exemplo, a Igreja de Inglaterra que representa o progresso. Também ajuda a explicar porque é que Sarah insiste tanto que a prática pastoral tem que se conformar com a doutrina - e não o contrário.

A vocação de Sarah ao sacerdócio veio cedo. Abraçá-la envolveu verdadeiras dificuldades que poriam à prova os crentes mais fervorosos. Para além de ter que viajar centenas de milhas a pé, pela estrada e barco para ir ao seminário, Sarah teve que ultrapassar doenças que quase iam levar à sua saída do seminário. Também não podia ser fácil para um jovem Guineense ser enviado para o Senegal, França, Roma e Jerusalém para estudos mais avançados, sem saber se iria ver o seu pai e mãe outra vez: pais que, diz Sarah, põem a segurança da sua própria velhice em risco ao apoiar o caminho do seu único filho para o sacerdócio.
Parece que Sarah absorveu intelectualmente imensa teologia, filosofia e exegese escriturística durante os seus estudos na Europa e Israel. Não estava, no entanto, tão absorvido ao ponto de não reparar no caos que tomou conta da vida do Ocidente desde meados dos anos 60 para a frente. Sarah não é nada tímido ao sublinhar o que ele vê como os efeitos profundamente negativos do Maio de 68 sobre o Ocidente e a Igreja de uma forma geral, incluindo, diz ele, o seu país natal - a Guiné.

Foi uma grande mudanaça para Sarah regressar de algumas das melhores instituições educativas da Igreja e ser enviado pelo seu bispo como prior numa das áreas mais inacessíveis da Guiné. Sarah também se viu a si mesmo numa sociedade cuja economia estava a ser destruída por políticas socialistas e a viver sob um governo que era implacável nos seus esforços para acabar com quaisquer sinais de oposição. A certo ponto, Sarah foi chamado para reformar um seminário que, descreve ele, estava com uma falta total de formação espiritual e onde o regime, numa tentativa para atacar a Igreja, tomou o lado dos seminaristas rebeldes. Quando Sarah foi confirmado como arcebispo de Conakry, em 1979, na incrível jovem idade de 34 anos, o seu predecessor Raymond-Marie Tchidimbo tinha acabado de ser libertado de oito anos de um campo de concentração: uma experiência que incluía tortura regular.

Sarah serviu como arcebispo de Conakry até 2001. Os seus vinte e um anos de trabalho pastoral envolveram enfrentar não só o regime Marxista de Sékou Touré e os governos que lhe seguiram, mas também o facto de viver num país de maioria muçulmana. Aqui Sarah fala na sua boa relação pessoal com os muçulmanos e menciona que os muçulmanos na Guiné viam o trabalho da Igreja Católica como a única instituição que gozava de alguma independência durante a ditadura de Sékou Touré.

Mas Sarah não é ingénuo no que toca ao Islão. Ele não hesita, por exemplo, em usar a expressão "terrorismo Islâmico" quando fala sobre os tumultos que amaldiçoam hoje o Médio Oriente. Sarah sublinha que o Catolicismo e o Islão funcionam com base em premissas incompatíveis. Isto, diz ele, limita as oportunidades de um diálogo ao nível das ideias. Por outro lado, Sarah sugere que a cooperação prática face aos problemas comuns, como o controlo populacional dos programas neo-malthusianos promovidos por ONGs e governos do Ocidente, pode ser a melhor maneira de avançar.

Em 2001, João Paulo II nomeou Sarah para o serviço, em Roma, de Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos. No livro é evidente que Sarah não ficou especialmente contente com isto. No entanto, esta mudança fez com que em 2010 Sarah fosse transferido para Presidente do Conselho Pontifício Cor Unum, que supervisiona o trabalho caritativo da Igreja por todo o mundo - o que fez com que aprofundasse o seu conhecimento da vida da Igreja universal. Assim, a sua análise das diferentes correntes de teologia da libertação é muito subtil, e separa os horrores marxistas da teologia que é mesmo boa. As críticas de Sarah ao Catolicismo da Europa Ocidental - a profunda crise de Fé, a infinita burocratização, o humanitarianismo sentimental e a mania das ONG que substitutem a crença religiosa - são claras, directas e, podemos dizer, difíceis de refutar.

E Sarah também não se detém ao descrever as dificuldades que o Catolicismo africano enfrenta. Ele aponta não apenas as ameaças externas, tais como as formas cada vez mais violentas adoptadas pelo Islão, mas também os problemas internos. Os últimos incluem estilos litúrgicos que ocasionalmente degeneram no culto da própria pessoa e nos sacerdotes a abandonar a sua vocação para entrar em seitas esotéricas semi-animistas.

Há então aquilo que Sarah insistentemente chama "a heresia do activismo", que afecta muitos sacerdotes pelo mundo fora. Esqueceram-se, diz ele, que a centralidade da vida só se encontra em Deus. Acima de tudo, Sarah está ciente da presença do mal no mundo. Ele menciona o holocausto (para o qual, já agora, ele usa a palavra preferida por muitos judeus religiosos - "Shoah") como talvez a maior iniquidade dos tempos modernos.

No entanto, quando chegava a altura de falar destes problemas, Sarah regressava sempre à necessidade primordial do ser humano por um único Deus verdadeiro. Responder às necessidades materiais das pessoas é bom, diz Sarah, mas isso simplesmente não chega. Para ilustrar isto, Sarah conta ter conhecido um jovem rapaz muçulmano num campo de refugiados da Jordânia. O rapaz, disse Sarah, tinha todas as suas necessidades materiais que precisava no campo. No entanto, explicou Sarah, toda a assistência material do mundo não conseguia responder às dúvidas deste rapaz sobre a existência de Deus: uma crise que começara pelo facto de o pai do rapaz ter sido chacinado por terroristas islâmicos.

Isto levou Sarah a criticar aqueles Cristãos que reduzem a evangelização a ideias políticas ou à promoção de um desenvolvimento socio-económico. A certa altura, Sarah criticou fortemente os ocidentais e organizações internacionais que usam expressões como "eliminar a pobreza". A compreensão Cristã da pobreza, diz Sarah, difere radicalmente da que a mente secular tem. Há tipos de pobreza, especifica ele, que todos os Cristãos devem na verdade abraçar, tal como o desprendimento de posses materiais. Para os Cristãos, diz Sarah, é melhor falar de lutar contra a miséria para não arriscar entrar em concepções seculares de progresso ou perseguir esquemas utópicos, tais como os programas socialistas de Sékou Touré que destruiram a economia da Guiné e só trouxeram miséria e morte.

Muito mais se poderia dizer deste incrível livro. Sendo óbvio que não foi escrito como resposta ao infame comentário do Cardeal Kasper sobre os Africanos, Dieu ou Rien mostra que o Catolicismo africano tem muito mais do que parece e tem coisas profundas a dizer à Igreja universal. Isto interessa especialmente agora, tendo conta as projecções, tais como sugeriu o recente estudo Pew-Templeton, de que cada quatro em 10 Cristãos no mundo vão viver na África sub-Sahariana em 2050. Enquanto a gravidade do mundo Católico se desvia da Europa ocidental para o mundo em desenvolvimento, ouvir os africanos como o Cardeal Robert Sarah pode ser algo que até os teólogos liberais Alemães mais tacanhos não vão conseguir evitar no futuro.

Samuel Gregg in Crisis Magazine

Negritos e notas por Senza Pagare
[1] Este livro já se encontra traduzido para português, com o título 'Deus ou nada', e pode ser adquirido em qualquer livraria ou entao online, por exemplo aqui: Filoteia.
[2] Religiões animistas são seitas e religiões africanas em que se dá um carácter divino e mágico a quase tudo, mesmo às coisas naturais. No contexto ocidental está relacionado com o fenómeno New Age.


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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Querem mudar Portugal

No passado dia 13 de Maio (ele há coincidências… ou não!) fomos surpreendidos com a aprovação no Parlamento de uma lei sobre as “barrigas de aluguer”. Não houve discussão pública; ninguém informou ninguém. A lei surgiu praticamente do nada, veio silenciosa para não existir oposição.

O tema constava apenas do programa eleitoral de um partido – o habitual. Poucos deputados tiveram a coragem de votar contra esta lei. Afinal estas matérias prestam-se a tornar-se “moeda de troca” dentro dos partidos políticos: não dizem respeito à economia; não se fazem sentir directamente no bolso dos contribuintes; fazem parte dos temas rotulados como “progressistas” (e todos querem ser “progressistas”, pelo menos “nestas fotos”: parece bem à comunicação social, e com este “leve toque progressista” fica equilibrada a balança com aquelas vezes em que é necessário votar medidas mais desagradáveis).

Poucos se questionaram seriamente. Afinal, de quem é o filho que vai nascer? Daquela que, durante 9 meses o gerou no seu seio – que o alimentou, que sofreu com ele, que lhe transmitiu alegria ou tristeza, e a quem o bebé viveu ligado por um cordão umbilical? Ou será filho de quem pagou o aluguer do ventre materno, porque gostava desesperadamente de “ter” um filho (entenda-se: inteligente, de corpo perfeito e sem defeitos)? Pobres seres humanos…

E não se defenda que isto diz apenas respeito a quem acha que “tem direito” a ter um filho assim (como se um ser humano pudesse ser fruto de um direito de outro sobre ele).

Como me parece óbvio, este assunto diz respeito a toda a sociedade portuguesa. Porque o nascer, o viver e o morrer dizem respeito a todos. Têm a ver com o que somos e com o que queremos ser. Não só individualmente mas como sociedade.

O facto é que querem mudar Portugal. Daqui por uns tempos, também a nossa nação não se irá reconhecer nas leis que a regem e na sociedade que elas criam. É assim como uma “barriga de aluguer”… Não se sabe quem o gerou, nem o próprio país irá saber quem é, de onde vem e para onde vai.

Entretanto, vivemos felizes e contentes porque nos garantem que a austeridade acabou.

D. Nuno Brás, Bispo Auxiliar de Lisboa
in Voz da Verdade


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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

‘Progressismo’: a maior causa de morte e terror no século XX

por  George Neumayr

O autor inglês George Orwell escreveu que "a linguagem política está feita para fazer as mentiras parecerem verdadeiras e o homicídio respeitável e para dar uma aparência de firmeza ao que é puramente passageiro." Na história da manipulação da linguagem política, o termo "progressivo" ocupa certamente um lugar de destaque.

O termo é usado incessantemente para descrever ideias políticas, figuras políticas e homens da igreja, entre outros, que uma elite liberal julga serem iluminados. Através do uso repetitivo de "progressivo", os liberais modernos pensaram enganar o público ao igualar progressismo com progresso. Mas nenhuma igualdade destas se justifica. O fosso entre a retórica de "progresso" e a realidade do progresso é flagrante.

A escuridão do século XX é suficiente para dissuadir qualquer pessoa de confundir "progressismo" com progresso. As ideologias mais vis deste século foram todas apresentadas como "progressivas". Em nome de melhorar a humanidade, os auto-proclamados progressistas sentiram-se animados a um "progresso" que está bem mais longe dos preceitos básicos da razão e da lei natural.

Enquanto que algumas causas do século XX denominadas "progressivas" se qualificam como inócuas ou pelo menos debatíveis, muitas eram, sem dúvida, más. Os esquemas eugénicos do século, por exemplo, não vieram dos conhecidos reaccionários mas de progressistas que assim se auto-proclamavam com orgulho. Os principais juízes e presidentes de universidades do Ocidente apoiavam a eugenia abertamente antes da Segunda Guerra Mundial.


Nos anos 20, Oliver Wendell Holmes, considerado um pilar do progressismo, não pensou em mais nada se não em promover a divulgação da esterilização de quem quer que a elite considerasse inferior. Afinal de contas, disse ele, "É melhor para todo o mundo se, em vez de esperar pela execução de uma geração degenerada pelo crime ou de deixá-los a morrer à fome pela sua imbecilidade, a sociedade pudesse evitar aqueles que manifestamente não servem para a continuidade da sua espécie... Três gerações de imbecis já chegam."

Muito antes da Solução Final de Hitler, Margaret Sanger, fundadora da Planned Parenthood [N.T.: Associação internacional de Planeamento Familiar], estava a escrever sobre eliminar os de "mente fraca" e as minorias indesejáveis. Muito antes dos arquitectos do Obamacare conceberem paineis de morte para os idosos, o dramaturgo George Bernard Shaw, um querido dos progressistas, propôs alegremente painéis de exterminação: "De certeza que todos conhecem meia dúzia de pessoas, pelo menos, que não servem para nada neste mundo, que causam mais problemas do que aquilo que têm para dar. Simplesmente ponham-nos ali e digam 'Cavalheiro, ou Madame, podia ter a gentileza de justificar a sua existência?' "

A Califórnia "progressiva", o epicentro da eugenia no século XX, não foi buscar os seus esquemas à Alemanha de Hitler. Pelo contrário, os frios engenheiros sociais da Alemanha foram buscar as suas ideias eugénicas à Califórnia. Edwin Black, autor de War Against the Weak, observou que "só depois de a eugenia se tornar entranhada nos Estados Unidos é que a campanha foi transplantada para a Alemanha, e não com pouco esforço dos eugenistas da Califórnia, que publicaram folhetos a idealizar a esterelização e os faziam circular entre os oficiais e cientistas alemãos."

Locais supostamente progressivos como Pasadena e Palo Alto (o presidente de Stanford no início do século XX, David Starr Jordan, era um grande promotor da eugenia) foram faróis de iluminação aos olhos de Hitler, segundo Black:


Hitler estudou as leis eugénicas da América. Ele tentou legitimizar o seu anti-semitismo tornando-o numa espécie de medicina, envolvendo-o na fachada pseudo-científica e saborosa da eugenia. Hitler conseguiu recrutar mais seguidores entre os intelectuais alemães ao dizer que a ciência estava do seu lado. Enquanto que o ódio racista de Hitler veio da sua própria cabeça, a estrutura intelectual da eugenia, adoptada por Hitler em 1924, foi criada na América. Durante os anos 20, os cientistas eugenistas da Carnegie Institution cultivavam relações pessoais e profissionais profundas com os eugenistas fascistas da Alemanha. Na Mein Kampf, publicada em 1924, Hitler citou a ideologia eugénica da América e mostrou publicamente um conhecimento avançado da eugenia americana. "Existe hoje um estado," disse Hitler, "onde pelo menos são consideráveis os pequenos inícios que se encontram em ordem a uma melhor concepção. É óbvio, não é a nossa exemplar República Alemã, mas os Estados Unidos."


Os auto-proclamados progressistas também se enredaram nas raízes do comunismo russo. "Eu vi o futuro e funciona," disse o jornalista Lincoln Steffens depois de visitar a Rússia em 1921. O Bolchevismo e o progresso eram vistos como a única e mesma coisa.

"A maior parte dos liberais viam os bolchevistas como um movimento popular e progressista," escreveu Jonah Goldberg em Liberal Fascism: The Secret History of the American Left. "Praticamente toda a elite liberal, incluindo a equipa de confiança de Roosevelt, fez a peregrinação a Moscovo para tirar notas admiráveis sobre a experiência soviética."

Tendo em conta esta história negra, os usos contemporâneos de "progressismo" deviam merecer uma enorme suspeita. De facto, era normal esperar que a palavra tivesse desaparecido. Em vez disso, gozou de um renascimento. Para muitos políticos e jornalistas, "progressista" agora soa melhor que "liberal".

Em 2007, num debate durante as primárias presidenciais Democráticas, Hillary Clinton recusou-se a chamar-se liberal e escolheu, em vez disso, chamar-se progressista. Ela explicou:


Eu prefiro a palavra 'progressista', que tem um significado americano real, ao voltar atrás à Era Progressiva no início do século XX. Considero-me a mim mesma uma progressista moderna - alguém que acredita fortemente nos direitos e liberdades das pessoas, que acredita que estamos melhor como sociedade quando trabalhamos juntos e quando encontramos formas de ajudar aqueles que não têm todas as vantagens na vida, arranjando as ferramentas que precisam para levarem uma vida mais produtiva para si e para a sua família. Portanto, considero-me uma progressista americana moderna orgulhosa e penso que este é o tipo de filosofia e prática que precisamos de trazer de volta para a política americana.


A sua vaga definição de progressista fá-la parecer incrível e sem problemas, como se os progressistas defendessem nada mais que as normais inspecções de validade dos alimentos e uma sociedade civil robusta. Na verdade, o progressismo desencadeia noções secularistas e socialistas de perfeição humana e engenharia social divorciada de Deus e da lei moral natural que já se provaram desastrosas para a raça humana.


Se o progressismo é difícil de definir, é porque consiste em nada mais do que a vontade humana que está sempre a mudar. Não tem nenhum critério de progresso para além daquilo a que quem quer que esteja no poder chamar "progresso". A filosofia falsa e vazia que está por trás disto permite as formas mais sinistras de subjectivismo e de ideologias de poder.

Claro que é óbvio que os auto-proclamados progressistas gostavam de ver o público acreditar que as suas ideias políticas, económicas e religiosas têm o mesmo carácter de comprovadas e de mensurabilidade que o progresso tecnológico. Empurram a ideia de que a sociedade vai melhorar sob as políticas, economias e religiões "progressivas" da mesma forma que, dizem eles, os computadores melhoraram sob um progresso tecnológico mensurável e inegável.

Esta assumpção guia o progressismo, mas não tem uma base filosófica correcta. Igualmente incorrecta é o que C.S. Lewis chamava o "snobismo cronológico" construído no progressismo - "a assumpção de que o que quer que passou de prazo é, devido a isso, descredibilizado". Uma ideia verdadeira não deixa de ser verdade só porque aqueles que estão no poder deixam de a seguir.

A ironia do progressismo é que as suas políticas implicam quase sempre um regresso às más ideias e práticas corrompidas dos tempos antigos. É uma barbárie num novo disfarce. O que é que é mesmo novo em relação a eutanasiar os idosos, matar bébés, celebrar a promiscuidade e por aí em diante? Mesmo as suas noções mais sofisticadas de uma "constituição viva" e de um governo federal colectivista (ideias que são as grandes marcas do movimento Progressivo Americano) são apenas versões glorificadas de tiranias bem conhecidas dos antigos.

O termo progressismo anexa-se invariavelmente a políticas que fariam até pagãos devassos corar. Os Democratas auto-proclamados "progressistas", por exemplo, não têm meias medidas sobre extender abertamente o termo a práticas brutais como o aborto por nascimento parcial. Barack Obama, que tem orgulho no termo "progressista", nem sequer conseguiu opor-se às leis contra o infanticídio enquanto foi senador em Illinois.


Em linguagem comum, o progresso refere-se ao desenvolvimento gradual de algo. No seu uso político e religioso, "progressivo" mais frequentemente do que o contrário refere-se a práticas regressivas e primitivas e a ideias que deformam a vida e minam o desenvolvimento da civilização.


Como disse C.S. Lewis, uma pessoa verdadeiramente progressista é alguém que se mantém firme pelo meio de uma ideia falsa, seja qual for o seu estereótipo, e se move em direcção à verdade.
"Progresso significa aproximar-nos do lugar em que queremos estar", escreveu ele. "E se foram pela curva errada, então seguir em frente não vos vai levar para mais perto. Se estão na estrada errada, progresso significa dar meia volta e andar para trás, para a estrada certa; e nesse caso o homem que volta para trás mais cedo é o homem mais progressista."

O progresso autêntico, por outras palavras, é inseparável da verdade sobre o bem do homem. Qualquer ideologia com um critério de progresso não enraizado na verdade significa apenas uma corrupção e desorientação gradual. Tal como é evidente na mania pelo casamento gay no Ocidente, o "progresso" é agora definido não pela maior aderência à lei moral natural mas pela abolição total da lei natural.
Do mesmo modo, a forma como os media medem o "progresso" na Igreja Católica não é pela crescente aderência à santidade e à verdade mas pelos desvios dela. Os media coroam homens da igreja como "progressistas" se estes parecerem estar a substituir a ortodoxia pelo liberalismo moderno.
A incorporação do liberalismo moderno no Catolicismo é o destino final a que os "progressistas", tanto dentro como fora da Igreja, querem ir.


Ir para além da "verdade e falsidade" até uma aliança com o "mundo" é o contrário da missão da Igreja. Mas progressistas como Hans Kung, baseando-se num conceito darwiniano, vão sempre dizer que o último desenvolvimento, seja em religião ou política, é o melhor. Todas as mudanças são vistas como perfeitas, não destrutivas.

Uma experiência amarga já devia ter ensinado o público de que "uma mudança em que possam acreditar", como diz Obama, é normalmente uma mutação alarmante. "Progresso", aplicado à política e religião, entra na categoria de Orwell da retórica de uso pessoal para silenciar a oposição ao que quer que esteja a ser proposto. Ora isto devia pelo menos convidar ao cepticismo e não à submissão.
Para dizer como Lincoln Steffens, nós vimos o futuro sob o progressismo e claramente não funciona.

in LifeSiteNews.com


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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O triste fim do progressismo

Espetacular esta matéria que apresenta um relatório de um grupo anglicano conservador sobre as paróquias da Igreja Episcopal nos Estados Unidos. De acordo com a manchete, uma em cada três paróquias episcopalianas desaparecerá dentro de cinco anos. O motivo? Simplesmente porque elas são doutrinariamente liberais.

«Os episcopalianos aprovaram tudo o que os “progressistas” exigiam e mais. Mas isso não atraiu fiéis. No século XVI, o anglicanismo aceitou o clero casado. Em 1930, aceitaram a anticoncepção. Em 1976, os episcopalianos aprovaram o clero feminino. Em 1989, ordenou-se a primeira bispa episcopaliana. Em 1994, proibiu toda terapia para deixar a homossexualidade. Em 2000, aceitou-se o sexo fora do matrimônio. Em 2003 ordenaram como bispo a Gene Robinson, um senhor divorciado, com dois filhos, que vivia «maritalmente» com outro homem (este ano 2011 deixou o cargo). Em 2006 o episcopalianismo admitia o matrimônio homossexual. Em 2010 presumia ordenar em Los Anjos uma bispa lésbica. Em 1 de janeiro de 2011 um bispo episcopaliano casava com pompa midiático a duas sacerdotisas lésbicas episcopalianas, uma delas a famosa militante pro-aborto, Katherine Ragsdale».

Isto não é novidade. O então cardeal Ratzinger já dizia (tenho quase certeza de que é n’O Sal da Terra, mas pode ser também no “A Fé em Crise?”) em resposta àqueles que vaticinavam o fim da Igreja caso Ela não Se abrisse ao mundo moderno: os protestantes já aceitaram tudo e, mesmo assim, continuam perdendo fiéis. É claro que o mundo moderno não pode ser conselheiro em questões espirituais, e é bastante evidente que os “sábios” deste século sem Fé não podem pretender dizer à Igreja de Cristo como Ela deve Se portar para manter o rebanho que Deus Lhe confiou. Na verdade, os que pedem que a Igreja Católica “adapte-Se” aos tempos modernos são exatamente os que querem que Ela desapareça. Como já aconteceu [e está acontecendo] com os protestantes.

As pessoas têm sede de Verdade, de Bondade, de Beleza – de Deus. As pessoas não desejam algo que já encontrem no mundo: no dia em que os católicos entenderem isso, então a Igreja passará a florescer de modo abundante. Houve tempos em que a mensagem do Evangelho podia contar com “concorrentes”, do paganismo pré-cristão ao catarismo medieval, etc. É impressionante que, hoje, alguns ainda se envergonhem de anunciar “de cima dos telhados” a Doutrina de Cristo – hoje, quando as pessoas são empurradas do ateísmo irracional e estéril para um progressismo relativista e, em última instância, também ateu! É um verdadeiro mysterium iniquitatis que muitos ainda hoje queiram fazer concessões ao mundo, quando já estão historicamente demonstrados os fins trágicos aos quais levam os (impossíveis) conluios do Evangelho com o mundo moderno.

A Igreja Católica cresce por atração – por aquela sobrenatural atração que Cristo dependurado no Madeiro da Cruz exerce sobre as almas honestas. Não há “concessão” que precise ser feita aqui. Não existe “especialista” sem Fé que possa ensinar à Igreja como pregar o Evangelho. Não há verdadeiro bem no mundo que se oponha ao que ensina a Esposa de Cristo. in Deus lo vult


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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Modernos e progressistas - Zita Seabra

Em nome da modernidade e do progresso aprovaram--se duas leis que constituem um ataque brutal contra a condição feminina: a lei da legalização do aborto, a pedido, até às 10 semanas, e a lei do divórcio "à la carte". Passaram agora alguns anos sobre a entrada em vigor destas duas leis e os resultados já estão à vista. Convém olhar para eles e verificar os efeitos que tiveram para a sua principal destinatária: a mulher.

Começando pela lei da legalização do aborto, a Direcção-Geral da Saúde divulgou números "provisórios" de 2010: realizaram-se 19 438, segundo dados ainda não definitivos e mais de 250 mulheres que interromperam a gravidez em 2010 tinham feito três ou mais abortos anteriormente, sendo que destas quatro já tinham abortado mais de dez vezes. Perante estes dados, Miguel Oliveira e Silva calcula que 50% das mulheres que recorrem a um aborto não se dirigem à consulta posterior de planeamento familiar.

A lei de 1985, que tinha admitido o aborto nos casos limites e retirou a pena de prisão absurda que ameaçava uma mulher que num acto de desespero praticasse um aborto, foi substituída pela actual legislação de aborto livre e a pedido até às 10 semanas. Isto é, o aborto foi legalizado, transformado num "normal" método de contracepção, foi mesmo transformado num direito.

Espantosamente, no momento em que a ciência coloca nas farmácias uma imensa variedade de métodos contraceptivos que o Serviço Nacional de Saúde tornou gratuitos; e são divulgados como nunca métodos naturais, químicos, mecânicos, do dia seguinte ou do dia anterior; que a informação se tornou completamente acessível - é que se legalizou o aborto a pedido como se fosse um caminho para uma vida feliz e livre de compromissos.

Legaliza-se, desdramatiza-se, banaliza-se o que nunca pode ser banalizado, relativiza-se a vida humana. Qual é o problema? Diziam que o importante é impedir a culpa e viver feliz cada momento sem memória e sem futuro. Neste caminho moderno e descomprometido, tudo se torna descartável e efémero, até os afectos à vida humana. Duas noções desaparecem da vida e da sociedade portuguesa: a noção de responsabilidade pessoal de cada um perante si próprio e perante os outros; e a noção da felicidade da gravidez, a responsabilidade única de dar vida.

A gravidez, ter filhos, transformou-se no paradigma dominante da sociedade portuguesa, numa imagem terrível. Ter filhos passou a ser visto como um impedimento à carreira profissional, um impedimento ao prazer de viver livre e gozar a vida.

Os resultados começam a estar à vista e já não me refiro ao envelhecimento dramático da população portuguesa a níveis imbatíveis na Europa. Refiro-me, sim, às palavras do Presidente da Comissão de Ética, o prof. Miguel Oliveira e Silva, um dos responsáveis pela actual lei, que acaba de propor a sua revisão, sublinhando o facto de mulheres terem recorrido a dois ou três abortos nestes breves anos de vigor da lei. Considera ele que, perante estes resultados, "não devemos continuar a pagar dos nossos impostos um segundo aborto recorrente a uma pessoa que, irresponsavelmente, após o primeiro, falta à consulta de planeamento familiar".

É importante, evidentemente, que seja o presidente da Comissão de Ética a reconhecê-lo mas não se pode deixar de questionar uma sociedade em que o aborto se transformou num direito, grátis e, como sublinha, pago pelos nossos impostos, banalizado e transformado em método de planeamento familiar, quando o abono de família é retirado a mais de um milhão de famílias em razão da austeridade que vivemos. Que critérios são estes que governam o país?

A lei do divórcio, aprovada no mesmo espírito, respondendo à mesma filosofia de vida, está igualmente a ter consequências dramáticas. O divórcio "à la carte", na hora, o divórcio "simplex", radicado na ideia de que o importante é ser feliz a cada momento, os outros que tratem de si, criando a sensação que a felicidade está na infantilização dos adultos, nos Peter Pan eternos, lança diariamente para a pobreza mães e filhos. Na anterior lei, o divórcio só era obtido uma vez regularizada a situação dos filhos. Agora, com esta lei, os filhos não são entrave. Na hora, o homem sai de casa, deixa filhos e mulher, empregada ou desempregada, tendo ela sacrificado ou não a sua vida profissional à família que queria construir. Ele divorcia-se legalmente bastando invocar essa vontade. Ela e os filhos, para reaverem alguns direitos, têm de ir a tribunal.

Resultado: os tribunais estão completamente assoberbados de processos sem solução à vista, os filhos ficam sem pai e sem meios. Foi a lei mais brutalmente machista aprovada desde há muitos anos em Portugal por detrás de uma cortina de discursos de modernidade, de igualdade de género e de felicidades descartáveis ao virar de cada esquina.

A caminho das eleições e mergulhados em números da crise económica, num país endividado e sem futuro, corre-se o risco de esquecer que tudo está interligado e que dois conceitos (simplificando um pouco) estão na origem de tudo: ausência de ética e de responsabilidade na sociedade, na família e em cada português.


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