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terça-feira, 29 de outubro de 2024

O celibato está sob ataque cerrado

O celibato está sob ataque cerrado. O mundo quer o fim do celibato porque odeia o celibato. O mundo não entende como é que alguém voluntariamente se pode privar do prazer carnal, visto como o único fim do acto conjugal (que já nem conjugal é).

Dizem que o celibato dos Padres foi inventado apenas há 1000 anos (como se fosse coisa pouca) e que antes disso era tudo à grande. Mas isso não é verdade. Os Apóstolos (os primeiros Bispos) apesar de serem casados, na sua maioria, deixaram as mulheres para seguir Jesus, quando Ele os escolheu. A partir daí viveram em continência perfeita, sem qualquer relação conjugal com as suas mulheres.

O mesmo aconteceu aos sacerdotes logo nos primeiros séculos da Igreja. Por escassez de 'mão-de-obra', digamos assim, eram escolhidos também homens casados para serem ordenados Padres. As mulheres deles tinham de dar o assentimento, porque tinham com eles um vínculo indissolúvel. Depois disso vivam separados e vivam em continência.

O Concílio de Elvira (300-305 d.C.) diz que os sacerdotes se devem abster das esposas e não gerar filhos, e se algum o fizer deve ser declarado decaído do estado clerical. O Can. III do Concílio de Niceia (325 d.C.) diz que os sacerdotes apenas podem viver com a Mãe, uma irmã ou uma tia.

São Jerónimo, Doutor da Igreja e um dos 4 principais Padres da Igreja do Ocidente não deixa margem para dúvidas numa carta 'ad Pammachium':

"Cristo é virgem, virgem é Maria; mostraram a cada um dos sexos a preeminência da virgindade. Os Apóstolos são ou virgens, ou após o casamento, continentes. Escolhem-se para bispos, sacerdotes e diáconos, quer virgens, quer viúvos, ou pessoas que em todo caso, depois do sacerdócio, observam para sempre a continência."

Já se percebeu que o celibato está associado ao sacerdócio desde o seu início, por isso deixem o celibato em paz. Se 2000 anos de Padres não conseguiram acabar com ele também não vão ser vocês a conseguir.



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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Um Bispo corrige outro Bispo: "O celibato sacerdotal nunca foi facultativo"

Mons. Cesare Bonivento, Bispo emérito de Vanimo (Nova Guiné), historiador e autor de publicações sobre o celibato clerical, pediu ao Arcebispo de Malta, Charles Scicluna, que corrigisse a sua mentira histórica de que o celibato foi "opcional durante o primeiro milénio da Igreja".

- O celibato nunca foi facultativo na Igreja Católica.

- A Igreja sempre permitiu que tanto os homens casados como os celibatários fossem ordenados, mas sempre exigiu que todos os clérigos se abstivessem de qualquer actividade sexual após a ordenação.

- Não existe um único documento do Magistério Católico, seja da Igreja Ocidental ou Oriental, que permita o matrimónio ou o uso do matrimónio após a recepção das Ordens Sagradas.

- Esta disciplina remonta às origens do Cristianismo e o seu ensinamento vem directamente de Cristo e dos Apóstolos.

- A codificação desta disciplina teve lugar a partir do Concílio de Elvira, em 305, depois com os Concílios de Arles, em 314, de Amcyra, em 314, e de Neocesariana, em 315, até ao grande Concílio de Niceia, em 325, que ensinou a obrigação do celibato para todos os clérigos.

- O celibato foi instituído por Cristo, que convidou todos os apóstolos a segui-lo, deixando tudo, até as suas famílias, o que os apóstolos fizeram (Mateus 19, 27-29).

- O celibato foi ensinado por São Pedro (Mt 19,27-29) e São Paulo (I Cor 7; 1 Tm 5,9-10, Tt 1,89; Hb 7,23-28).

- O celibato foi defendido inúmeras vezes pelo Magistério durante mais de dois milénios, devido aos seus fundamentos bíblicos e patrísticos, por exemplo, Sirício I, Inocêncio, Gregório Magno, o Concílio de Cartago em 390, Can. 2.

- Foi legislado para a Igreja pelo cân. 3 do Concílio de Niceia e sancionado solenemente pelo cân. 9 da 24ª sessão do Concílio de Trento.

- O celibato foi o motivo da primeira cisão entre a Igreja e os ortodoxos.

- Só em 691 é que o Concílio de Trullano II, cedendo às pressões internas das Igrejas Orientais, concedeu aos clérigos casados [mas não aos Bispos] o uso do matrimónio quando não estivessem a servir no altar, apesar da forte oposição do Papa Sérgio I.

- Mons. Bonivento pergunta: "Qual é o papel de Mons. Scicluna como Subsecretário do Dicastério para a Doutrina da Fé? Não é seu dever recordar a todos os Bispos da Igreja Católica que a disciplina bimilenar do celibato eclesiástico se baseia na pessoa do próprio Jesus Cristo?"

- As declarações de Scicluna não são um sinal de clareza e coragem, mas apenas de uma imprudência muito grave.

in gloria.tv



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sábado, 14 de outubro de 2023

A Ignorância Crassa da Hierarquia e demais clero, que engana tantos fiéis

Poderá um Papa abolir o celibato para os Padres? Sim, pode. De facto, em casos excepcionais é permitido que, por exemplo, Pastores protestantes casados, convertidos ao Catolicismo, possam ser Ordenados Padres Católicos. No entanto, não poderá abolir a exigência da continência sexual para os Sacerdotes, casados ou não.
 
Enquanto o Celibato, isto é, a decisão de Ordenar Sacramentalmente somente varões célibes que se comprometem a uma castidade perfeita, é do âmbito disciplinar, disciplina esta muito fundamentada teologicamente, a Continência sexual absoluta é do âmbito Doutrinal e assim foi sempre entendida quer pelos apóstolos (Lc. 18, 28-29) quer pela Igreja primitiva e durante toda a história da Igreja, estando ainda em vigor actualmente, pelo menos nos documentos (Vescovo Cesare Bonivento, CELIBATO E CONTINENZA ECCLESIALI - BREVE COMPENDIO STORICO-TEOLOGICO.)
 
Antes da decisão da Igreja de Ordenar somente varões célibes os varões casados podiam ser Ordenados Sacerdotes desde que a esposa desse o seu consentimento para daí em diante viverem somente como irmãos com separação de leito, de quarto ou mesmo de casa.
 
Quando S. Paulo escreve que o Bispo deve ser varão de uma só mulher, refere-se a varões que depois de enviuvarem não se casaram de novo.
 
Nos dias de hoje, infelizmente, há uma superstição-idolátrica arraigada em muitos de que não é possível ser feliz sem actividade sexual, solitária ou com outra pessoa. Ora a superstição, que é uma forma de Idolatria, é um pecado mortal contra o primeiro Mandamento. De facto, uma pessoa não casada pode ser inteiramente feliz, desde que, evidentemente, viva no amor, como dom casto/continente de si próprio a Deus e ao próximo. O único caminho para a felicidade é o amor, o serviço, a entrega sacrificial de si mesmo.
 
Muitos cuidam, tantas vezes peremptoriamente, ser impossível que Sacerdotes e Religiosos vivam em continência sexual. Mas a verdade é que é possível e realmente é praticada. Certamente seria impossível com as forças puramente humanas, mas com a Graça de Deus tudo é possível. Essa fidelidade de entrega total a Jesus Cristo para que Ele viva em nós não está isenta de tentações, por vezes, muito fortes, mas como dizia São Paulo, tudo posso n’ Aquele que me conforta, e não sereis tentados acima das vossas forças.
Não só é realmente possível como é factível, isto é, de facto praticada e vivida.
 
Quanto aos abusos de menores, é uma imbecilidade atribuí-lo ao Celibato ou à Continência, deverá sim, pelo contrário, ser atribuído à falta de Celibato e de Continência.
 
À Honra e Glória de Cristo Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira


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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Conclusão do livro do Papa Bento e Cardeal Sarah sobre celibato sacerdotal

Vivemos em tristeza e sofrimento nestes tempos difíceis e conturbados. Era o nosso dever sagrado (com este livro) relembrar a verdade do sacerdócio católico. Pois, pondo-o dele toda a beleza da Igreja é posta em causa. A Igreja não é uma organização humana. Ela é um mistério. Ela é a noiva mística de Cristo. É isso que o nosso celibato sacerdotal constantemente lembra ao Mundo. 

É urgente e necessário que todos, bispos, padres e leigos, não se deixem impressionar por apelos maldosos, produções teatrais, mentiras diabólicas e erros da moda que procuram desvalorizar o celibato sacerdotal. 
É urgente e necessário que todos, bispos, sacerdotes e leigos, redescubram um olhar de fé na Igreja e no celibato sacerdotal que protege o seu mistério. Esta será a melhor defesa contra o espírito de divisão, contra o espírito político, mas também contra o espírito de indiferença e relativismo.

Papa Bento XVI e Cardeal Robert Sarah no livro 'Do profundo dos nossos corações'


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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Não aos sacerdotes de "segunda classe" - Cardeal Sarah

O celibato sacerdotal, bem compreendido, sendo por vezes uma provação, é uma libertação. Permite ao Padre estabelecer-se coerentemente na sua identidade de esposo da Igreja. O projecto de privar comunidades e Padres dessa alegria não é uma obra de misericórdia. 

Como filho da África, não posso, em consciência, apoiar a ideia de que os povos no caminho da evangelização sejam privados desse encontro com um sacerdócio vivido em plenitude. 

Os povos da Amazónia têm direito a uma experiência completa de Cristo, o Noivo. Eles não podem receber padres de "segunda classe". Pelo contrário, quanto mais jovem é uma Igreja, mais ela precisa para se encontrar com a radicalidade do Evangelho.

Cardeal Robert Sarah in 'Do profundo dos nossos corações' (livro sobre o celibato sacerdotal escrito com Bento XVI)


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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Um Padre desabafa: "Querem-nos casar à força!"

Querem-nos casar à força! Graças a Deus, a hipótese que estava em cima da mesa seria a de aceitar homens casados para a Ordenação e não o que muitos pensam (e até, sei lá porquê, queriam!) de permitir que os Padres se casem.

Também eu desejei casar e ter filhos. Mas Deus concedeu-me este dom que é o celibato. Insisto: é um DOM. O celibato não é fruto de um esforço inumano, desumano ou super-humano. É um dom de Deus a acolher, a cuidar e a rezar!

A Igreja (especialmente a latina) ao longo dos tempos tem percebido que este dom é de grande ajuda para que os seus Padres sejam mais claramente sinal da realidade do Céu, para a qual todos somos chamados a caminhar. Mas se se perde o horizonte, perde-se a razão. Se o Padre deixa de ser sinal da vida futura e é apenas uma profissão como qualquer outra neste mundo, então porque não podem ser casados? A pergunta é claramente pertinente.

Com a contínua perda do conceito sagrado de vocação (de modo especial da vocação sacerdotal), perdeu-se a noção do plano de Deus. Hoje tudo se escolhe segundo critérios que, por vezes, de divinos nada têm.

Vivemos um tempo de crise familiar (acima de tudo conjugal), porque se deixou de ver a vida como vocação, o Matrimónio como vocação (e também o Sacerdócio). Vocação entendida como um chamamento de Deus a uma vida de amor que é o seu próprio Amor (Caridade) a caminho do Céu e da plena comunhão na Caridade.

Ao perder-se isto, perde-se noção de toda a vida cristã e, então, já nada nos distingue do resto do mundo. Ao esquecer-se a Caridade (que é o maior fruto do Espírito Santo, e, por isso, sinal de uma vida espiritual incarnada), resta apenas a moralidade, ou, pior, o moralismo.

Com a crise familiar em que estamos e com a crise de espiritualidade que vivemos, será um risco enorme para as pessoas envolvidas (marido, mulher e filhos) e para a Igreja (latina e ocidental) permitir a ordenação a homens casados.

Na experiência recente de conferir o diaconado permanente a homens casados, têm-se assistido a problemas familiares, que seria bom serem bem avaliados antes de se dar esse passo. Infelizmente, não estou a falar de cor!

À imitação de S. Paulo, permiti que fale como um louco ao terminar este texto. Olhando para a realidade da Igreja como está, se eu amasse verdadeiramente a minha hipotética mulher e os meus hipotéticos filhos, nunca pediria o sacerdócio. Coitados deles! O povo de Deus sabe ser cruel. Como seria eu capaz de ouvir falar mal ou ver tratar mal aqueles que amasse assim? Eu nunca seria capaz de deixar que a minha hipotética mulher e os meus hipotéticos filhos fossem sujeitos aos impropérios, calúnias, maledicências a que eu estou sujeito!

Querem-nos casar à força! Mas eu, querendo ser Padre, por força do amor, nunca casaria!

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre


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sábado, 1 de fevereiro de 2020

Sem a renúncia aos bens materiais não pode haver Sacerdócio

Sem a renúncia a bens materiais não pode haver sacerdócio. O chamamento para seguir a Jesus não é possível sem esse sinal de liberdade e renúncia a todos os compromissos. Eu acredito que o celibato tem um grande significado como abandono de um possível domínio terrestre e círculo da vida familiar. 

O celibato torna-se verdadeiramente indispensável para que o nosso caminho em direcção a Deus possa permanecer o fundamento da nossa vida e expressar-se concretamente. 

Isso significa, é claro, que o celibato deve permear todas as atitudes da vida com as suas exigências. Não pode atingir o seu pleno significado se nos conformamos às regras da propriedade e às atitudes da vida comumente praticadas hoje. 

Não pode haver estabilidade se não colocarmos a nossa união com Deus no centro de nossas vidas.

Papa Bento XVI in 'Do profundo dos nossos corações' (livro sobre o celibato sacerdotal escrito com o Cardeal Sarah)


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domingo, 19 de janeiro de 2020

O celibato no Antigo Testamento


Deus ordenou a Moisés que consagrasse os israelitas “hoje e amanhã” e os instruísse a lavarem suas vestes, a fim de estarem preparados para ver o Senhor descer no Monte Sinai ao terceiro dia. Moisés consagrou e instruiu o povo como Deus havia ordenado e também disse que eles deveriam se abster de relações sexuais (cf. Ex 19, 10-15).
Por que Deus estabeleceu como condição a abstinência sexual? É evidente que a Bíblia não afirma que haja algo intrinsecamente impuro no acto sexual realizado segundo o plano criador de Deus. Quanto a isso, basta lembrar as passagens mais relevantes dos dois relatos da Criação (cf. Gn 1, 27-28; 2, 21-25), às quais a exaltação bíblica da boa esposa (cf. Pr 31, 10-31) e da fecundidade procriadora (cf. Sl 128, 3-4) serve de comentário. Portanto, a relação sexual legítima entre marido e mulher não os tornaria indignos de estar na presença de Deus, depois de se terem purificado.

Por outro lado, o pedido que Moisés faz ao povo de abster-se de relações sexuais antes do encontro com o Senhor pode ser uma alusão à “vergonha” associada à sexualidade humana desde a Queda (cf. Gn 2, 25 e 3, 7-10). A forte inclinação aos pecados sexuais é, decerto, o principal “calcanhar de Aquiles” do homem caído. Por isso, Moisés exigiu que os israelitas exercitassem a continência sexual como um sacrifício de purificação e consagração, preparando-se assim para o acontecimento profundamente sagrado que seria a manifestação de Deus no Sinai: assim como Deus é santo, também eles devem sê-lo.

Assim, de maneira simbólica, Moisés procurou reconduzir o povo a um apropriado estado de inocência “virginal”, isto é, o que existia antes de os olhos humanos se abrirem à rebelião contra Deus (cf. Gn 3, 7). Além de coerente estima pela fecundidade conjugal, o Antigo Testamento parece sugerir aqui que os israelitas viam na virgindade certa pureza condizente com o sagrado (cf. Lv 21, 13-15; Is 62, 4-5).

Por mais que nos pareça estranho, Israel também tratava as suas batalhas militares como acontecimentos religiosos. Afinal de contas, foi sob o comando de Deus que Israel marchou para tomar posse da terra prometida a Abraão e aos seus descendentes. E era a Deus que Israel devia as suas vitórias militares. De facto, no início da conquista [da terra prometida], os sacerdotes levíticos às vezes levavam a Arca da Aliança — o local da presença tangível de Deus entre os israelitas — para o próprio campo de batalha (cf. Js 6).

Mesmo assim, a vitória dependia da fidelidade do povo ao Senhor (cf. 1Sm 4, 1-11). Portanto, Israel precisava de uma pureza virginal em sua relação com Deus para cumprir sua missão e receber o que Ele havia prometido. Por essa razão, os empreendimentos militares de Israel eram precedidos por um rito de purificação: os soldados tinham de se consagrar ao Senhor e aos seus desígnios.

Temos provas disso, por exemplo, num dos episódios em que David foge de Saul. David foi sozinho ao sacerdote Aimeleque, em Nobe (perto de Jerusalém), alegando ter sido enviado em segredo pelo rei, quando estava, na verdade, à procura de algo que comer. Como Aimeleque só tivesse pão sagrado, ofereceu-o a David, mas sob a condição de que o seu séquito — que David alegou estar à sua espera — evitasse contacto com mulheres. David respondeu que, em campanha, a ele e à sua comitiva era proibido ter contacto com mulheres. Após constatar que estavam aptos para comer, o sacerdote deu o pão a David (cf. 1Sm 21, 1-6).

A mesma purificação consecratória aparece novamente no relato do adultério de David com Betsabé, esposa de Urias, o hitita. Num esforço para ocultar a gravidez, fruto do seu pecado, Davi mandou Urias retirar-se de batalha e tentou por duas vezes induzi-lo a ir para casa e dormir com a esposa. Mas Urias, embora fosse um mercenário, era um soldado leal, que insistia em observar a obrigação religiosa da continência durante a campanha militar de que estava participando. Por isso, Davi elaborou um plano a fim de provocar a morte de Urias no campo de batalha. Depois disso, tomaria Betsabé para si, desfazendo qualquer suspeita quanto à gravidez (cf. 2Sm 11).

Levando em conta o que vimos acima, podemos concluir que, para os homens que participavam numa guerra santa, a observância da continência sexual simbolizava, de um modo físico, o desejo que cada soldado tinha de se entregar plenamente a Deus e aos seus desígnios. Além disso, dadas as inclinações sexuais do homem caído, os soldados com certeza entendiam que a continência sexual realmente os ajudava, de algum modo, nessa consagração especial — mesmo que isso apenas os estimulasse a focar exclusivamente em sua missão designada por Deus e lhes conferisse uma determinação singular para cumprir, em nome do povo, os desígnios de Deus para Israel. 

As suas vitórias militares ajudavam a reforçar o seu próprio senso de identidade — e o do povo — como escolhidos de Deus, ao mesmo tempo que cultivavam a fé no Senhor da sua história. A observância da continência sexual também cultivava entre os próprios soldados um senso de fraternidade e propósito comuns. Urias, o hitita, é um grande exemplo bíblico de solidariedade auto-sacrificial para com os seus companheiros de luta (cf. 2Sm 11, 11).

Em relação à condução da guerra, parece difícil conciliar a consagração a Deus, em período de guerra, a rectidão de intenção e a liderança de Deus na batalha com a aparente inclemência de Deus ao lançar sobre os espólios de guerra — povos, animais e coisas — um “interdito”, isto é, uma “maldição de destruição”. Isso diz respeito à injunção divina que exigia de Israel dar a Deus algumas ou todas as pessoas e coisas capturadas numa batalha, fosse por meio da sua destruição, fosse por meio do seu depósito no santuário (e.g., ouro e prata). A violação do interdito por uma única pessoa era uma ofensa tão grave, que faria a maldição alastrar-se por todo o Israel, que seria considerado culpado de desobedecer a Deus. Assim, Israel infiel seria incapaz de resistir aos seus inimigos. Para remover a maldição imposta ao povo, o responsável pela violação do interdito tinha de ser desmascarado e morto, e os ganhos ilícitos destruídos junto com a família do culpado (cf. Js 6, 17-19; 7, 1-26).

Temos de compreender a brutalidade do interdito em termos daquilo que Israel perderia em troca dos espólios de guerra. Se cobiçasse e retivesse os ídolos de prata e ouro dos povos conquistados, em vez de os queimar e destruir, Israel sucumbiria à ganância e à idolatria. Por isso, Moisés alertou: “Não introduzirás em tua casa coisa alguma abominável, porque serias, como ela, votado ao interdito” (Dt 20, 16-18). O risco que mulheres estrangeiras ofereciam à fé de Israel (cf., e.g., Nm 25) — daí a sua inclusão no interdito — talvez estivesse relacionado à (e enfatizado pela) disciplina da continência sexual durante campanhas militares.

A probabilidade de Israel ceder à cobiça, à luxúria, à idolatria, à hipocrisia e à complacência era tão grande, que estava em jogo nada menos que sua relação de aliança exclusiva com o único Deus verdadeiro. Havia sempre o risco de que Israel perdesse a sua herança na Terra Prometida e perecesse como as outras nações ímpias, a menos que Deus, na sua misericórdia, quisesse redimi-lo (cf., e.g., Dt 4, 23-31; 8, 11-20). O interdito servia para impedir essas ameaças. Foi precisamente por Saul ter desobedecido aos termos do interdito na sua guerra contra os amalequitas, pondo em perigo assim a todo o povo, que Deus tirou dele a realeza e a deu a David (cf. 1Sm 15).

Celibato sacerdotal e batalha espiritual

Como se relaciona o que foi dito acima com a questão do ministério e do celibato sacerdotal sob a Nova Aliança em Cristo? Como nos diz São Paulo, “não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar (…), mas contra as forças espirituais do mal” (Ef 6, 12). Por outras palavras, cada um de nós está envolvido numa guerra de tudo ou nada contra inimigos incomensuravelmente cruéis e implacáveis — i.e., as legiões invisíveis, os anjos caídos, que estão sob o comando de Satanás. Eles querem a todo o custo provocar nossa condenação eterna (incitando-nos a pecar), a fim de que percamos a nossa herança na terra prometida do Reino de Deus.

Guerras humanas, como as que estão registradas no Antigo Testamento, não são apenas símbolos dessa guerra invisível e espiritual: são manifestações visíveis dela. A nossa submissão ao pecado por causa do estímulo realizado pelos espíritos malignos sempre causa algum tipo de divisão, e finalmente a guerra, tão logo nossos pecados tenham atingido um nível crítico, pois pouquíssimos de nós estamos dispostos a nos arrepender, a fazer penitência e a emendar de vida com o auxílio da graça de Deus. Isso significa que a guerra é um sinal claro da revolta generalizada contra Deus.

Portanto, seguindo o exemplo da radical maldição de destruição veterotestamentária, temos de nos dedicar à guerra espiritual “pondo um interdito” em todos e em tudo o que poderia resultar em nossa separação eterna de Deus e das suas promessas. Se não o fizermos, nós mesmos sofreremos a maldição do interdito por meio do pecado. Esse é precisamente o sentido do ensinamento de Cristo segundo o qual deveríamos arrancar o nosso olho ou cortar a nossa mão, se um deles nos levasse a pecar. Antes isso do que ser lançado no inferno para sempre (cf. Mc 9, 43-48). Jesus está a exortar-nos, de forma hiperbólica, a que nos afastar radicalmente do pecado e de tudo o que nos poderia levar a pecar, pois o que está em jogo é nossa salvação eterna. Ao contrário do interdito antigo, no entanto, nós não entregamos a Ele ninguém para que seja destruído, mas apenas na esperança de que seja salvo.

Todas as batalhas físicas descritas no Antigo Testamento foram efémeras, pois Israel tentava obter controle sobre a sua herança terrena. Aos soldados que lutavam para garantir as promessas de Deus (e, nesse sentido, eram mediadores dessas promessas) cabia simbolizar apenas temporariamente, enquanto durasse a batalha, a sua consagração a Deus por meio da observância da continência sexual. A autodisciplina desses homens permitia-lhes voltar sua atenção e energia exclusivamente para o propósito de obter a vitória em nome do Senhor.

Permanecem sempre activos, porém, os mesmos seres espirituais e malévolos que se escondiam nas batalhas de Israel. Actualmente, são muitas as manifestações visíveis de sua actividade rebelde — todas elas focadas na degradação e na destruição da própria vida humana. Para nos dedicarmos à batalha espiritual enquanto tal — isto é, para pegar em armas e lutar contra nossos inimigos poderosos e invisíveis — precisamos de soldados que estejam espiritualmente equipados para liderar o restante de nós nesta batalha violenta e implacável e, portanto, que se consagrarem a Deus de modo permanente, com esse único propósito. A natureza permanente dessa guerra de soma zero requer bispos e sacerdotes fiéis ao celibato, cuja missão indispensável é agir como mediadores da verdade do Evangelho e da salvação, dons sacramentais da graça que Deus Pai nos oferece em, e por, meio de Jesus Cristo, seu Filho eterno. Quando agem in persona Christi capitis, eles intermedeiam para nós nada menos do que a promessa de vida eterna em Cristo.

Como os bispos e os sacerdotes têm a obrigação de lutar pela salvação das almas, a sua dedicação a Deus — e o cumprimento da missão dada por Ele — deve ser exclusiva. Pois o único objetivo dos nossos inimigos invisíveis é frustrar essa missão. Pelo exposto, exige-se do clero católico desapego extraordinário em relação às preocupações terrenas e, portanto, um foco decidido, ao qual se presta a continência sexual permanente do celibato (cf. 1Cor 7, 28.32-33) e para cuja observância Deus jamais deixa de conceder graças.

O Matrimónio e a família requerem um tipo de morte absoluta para si. O ministério sacerdotal requer outro. O mesmo homem não pode morrer simultaneamente das duas formas. Para o sacerdote, é crucial que recaia um “interdito” sobre o Matrimónio. Ele deve desapegar-se de tudo e de todos, excepto de Jesus Cristo, para que não seja tentado a transigir com o inimigo implacável em detrimento das almas. Ao mesmo tempo, a sua fidelidade à vida celibatária serve como um sinal indispensável da vida ressuscitada em Cristo e do poder da graça de Deus.

E a escassez de sacerdotes? Não deveríamos fortalecer as fileiras com homens casados? Concluamos com dois pontos a respeito desta questão.

Sobre o número de vocações

Em primeiro lugar, Deus não precisa de números por si mesmos. Dentre trinta e dois mil homens, Deus fez Gideão escolher apenas trezentos — os mais destemidos e atentos do grupo — para derrotar um exército enorme e muito superior. Isso mostrava com clareza que a vitória era de Deus (cf. Jz 7, 1-23).

Do mesmo modo, Jesus Cristo é a cabeça da Igreja militante. Se necessário, ele pode liderar a Igreja na vitória contra o pecado, a morte e o demónio com um pequeno número de sacerdotes dedicados e consagrados exclusivamente a Ele e à missão que lhes foi confiada. Essa exclusividade implica o celibato.

Quando aceito com alegria, por meio da graça, ainda hoje o celibato sacerdotal significa — e produz verdadeiramente — uma pureza sagrada que conforma e une de modo mais perfeito o sacerdote a Cristo, a quem e em cujo serviço ele é livre para se doar incondicionalmente. Sacerdotes desse tipo formam um poderoso grupo de irmãos. Sempre atentos às artimanhas do demónio, eles combatem sem medo e com eficácia, usando os meios espirituais que Deus lhes deu para defenderem a si mesmos e ao seu povo. Desta forma, pastor e rebanho triunfam juntos sobre os ataques violentos do inimigo infernal.

Em segundo lugar, não faltariam homens respondendo ao chamamento de Deus para se tornarem sacerdotes celibatários dedicados, se a Igreja resgatasse, enfatizasse e treinasse os homens de acordo com a analogia militar esboçada acima (cf. também Ef 6, 13-20). Isso atrairia os homens viris, que são naturalmente inclinados e dispostos, pela graça de Deus, a se sacrificar de modo supremo para defender a Esposa de Cristo. Os nossos melhores sacerdotes vivem segundo essa perspectiva, que é ao mesmo tempo marcial e marital.

Em contrapartida, os “modelos” eclesiais afeminados aos quais somos apresentados actualmente — e.g., a Igreja politicamente correta, a Igreja calada que só escuta, a Igreja que aceita e abençoa o pecado mortal, a Igreja “sinodal” ou feita sob medida — podem facilmente dissuadir muitos homens fiéis e moralmente íntegros de seguir o chamado ao sacerdócio. Embora eles tenham a vocação sacerdotal e estejam dispostos, voluntariamente, a canalizar o seu natural instinto de protecção (ou de paternidade) para combater o bom combate da fé (cf. 1Tm 6, 12), em vez de canalizá-lo para a formação de uma família, é legítima a preocupação que eles manifestam com a possibilidade de serem removidos da batalha e “desarmados” por bispos e sacerdotes infiéis que não têm interesse algum em entrar no combate. O intuito destes, muito ao contrário, é introduzir na Igreja aquilo que Deus interditou irrevogavelmente. Eles conspiram para eviscerar os mandamentos de Deus e a lei natural; para admitir à Sagrada Comunhão católicos divorciados e “recasados”, pecadores impenitentes e não católicos; para reconhecer e abençoar “uniões” sodomitas; para ordenar mulheres; e assim por diante, ad nauseam.

O demónio prospera por meio desses inimigos da cruz: “para quem a própria ignomínia é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno” (Fl 3, 19). Embora preservem a aparência da religião, eles negam o seu poder (cf. 2Tm 3, 5). Parece que o “que domina até este momento é o orgulho, o ódio, a desordem e a cólera” (1Mb 2, 40).

Em vez de se sentirem desencorajados, os homens que se sentem chamados ao sacerdócio — e também todos os soldados cristãos, independentemente do estado de vida — podem inspirar-se na derradeira exortação de Matatias, pai da revolta dos Macabeus: “Sede, pois, agora, meus filhos, os defensores da Lei e dai a vossa vida pela Aliança dos nossos pais (…). Todos os que esperam em Deus não desfalecem” (1Mb 2, 50.61).

Jeffrey Tranzillo in Crisis Magazine
Tradução: FratresInUnum.com


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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Cardeal Sarah encontrou-se hoje com Papa Bento por causa do livro sobre celibato

Nos últimos dias o Cardeal Robert Sarah foi humilhado em praça pública com ataques vis e cobardes. Estes ataques, infelizmente, partiram de meios de comunicação e fiéis católicos. Para acabar de vez com qualquer dúvida sobre a sua rectidão no processo do livro sobre o celibato, o Cardeal Sarah deslocou-se ao Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, e encontrou-se pessoalmente com Bento XVI. O Cardeal acabou de anunciar nas redes sociais esse encontro:

Por causa das polémicas incessantes, nauseabundas e mentirosas que não pararam desde o início da semana, relativamente ao livro "Da profundeza dos nossos corações", encontrei esta tarde o Papa Emérito Bento XVI. 

Com o Papa Emérito Bento XVI, pudemos constatar que não há nenhum mal-entendido entre nós. Saí de lá muito feliz, pleno de paz e de coragem por causa dessa bela conversa. Convido-vos a ler e a meditar "Da Profundeza dos nossos corações".


Agradeço calorosamente ao meu editor, Nicolas Diat, assim como à editora Fayard, pelo rigor, integridade, seriedade e profissionalismo dos quais fizeram prova. Boa leitura a todos! 

+Robert Sarah


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Bento XVI explica por que razão sacerdócio e celibato são indissociáveis

Tem sido um tanto polémica a participação do Papa Bento XVI no mais recente livro do Cardeal Sarah. Mas passando à frente as polémicas vale a pena ler este trecho, no qual o Papa Bento fala da ligação entre sacerdócio e celibato, desde o início da Igreja:

A celebração diária da Eucaristia, que implica um estado permanente de serviço a Deus, não deixa espontaneamente a impossibilidade de um vínculo matrimonial. Pode-se dizer que a abstinência sexual, que foi funcional, se transformou em abstinência ontológica. (...) 

Actualmente, é muito fácil afirmar que tudo isto é simplesmente a consequência de um desprezo pela corporalidade e pela sexualidade. (...) 

Tal julgamento está errado. Para provar isso, apenas temos de lembrar que a Igreja sempre considerou o casamento como um presente concedido por Deus do céu na Terra. No entanto, o estado conjugal diz respeito ao homem na sua totalidade e, como o serviço do Senhor também exige o dom total do homem, não parece possível realizar as duas vocações simultaneamente. Assim, a capacidade de renunciar ao casamento para se colocar totalmente à disposição do Senhor é um critério para o ministério sacerdotal. 

Quanto à forma concreta de celibato na Igreja antiga, deve-se salientar que os homens casados ​​só poderiam receber o sacramento das Ordens Sagradas se se tivessem comprometido com a abstinência sexual, ou seja, com um casamento Josefino. Tal situação parece ter sido bastante normal durante os primeiros séculos.

Papa Bento XVI no livro 'Do profundo dos nossos corações'


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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O Celibato Sacerdotal explicado pelo Papa Bento XVI

Na Vigília para a Conclusão do Ano Sacerdotal, na Praça de São Pedro, vários sacerdotes colocaram as suas dúvidas ao Papa Bento. Um Padre missionário fez uma pergunta sobre o celibato sacerdotal, que tanto tem vindo a ser atacado:

Padre Karol Miklosko: Santo Padre, sou Pe. Karol Miklosko e venho da Europa, exactamente da Eslováquia, e sou missionário na Rússia. Quando celebro a Santa Missa encontro-me a mim mesmo e compreendo que ali encontro a minha identidade, a raiz e a energia do meu ministério. O sacrifício da Cruz revela-me o Bom Pastor que dá tudo pelo rebanho, por cada ovelha, e quando digo: "Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue" oferecido e derramado em sacrifício por vós, então compreendo a beleza do celibato e da obediência, que livremente prometi no momento da ordenação. Mesmo com as dificuldades naturais, o celibato parece-me óbvio, olhando para Cristo, mas sinto-me transtornado ao ler tantas críticas mundanas a este dom. Peço-lhe humildemente, Padre Santo, que nos ilumine sobre a profundeza e o sentido autêntico do celibato eclesiástico. 

Papa Bento XVI: Obrigado pelas duas partes da sua pergunta. A primeira, onde mostra o fundamento permanente e vital do nosso celibato; a segunda, que mostra todas as dificuldades nas quais nos encontramos no nosso tempo. A primeira é importante, isto é: o centro da nossa vida deve ser realmente a celebração quotidiana da Sagrada Eucaristia; e aqui são centrais as palavras da consagração: "Isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue", ou seja: falamos "in persona Christi". Cristo permite que usemos o seu "eu", que falemos no "eu" de Cristo, Cristo "atrai-nos para si" e permite que nos unamos, une-nos com o seu "eu". 

E assim, através desta acção, este facto que Ele nos "atrai" para si mesmo, de modo que o nosso "eu" se torna um só com o seu, realiza a permanência, a unicidade do seu Sacerdócio; assim Ele é sempre realmente o único Sacerdote, e contudo muito presente no mundo, porque nos "atrai" para si mesmo e deste modo torna presente a sua missão sacerdotal. Isto significa que somos "atraídos" para o Deus de Cristo: é esta união com o seu "eu" que se realiza nas palavras da consagração. Também no "estás perdoado" – porque nenhum de nós poderia perdoar os pecados – é o "eu" de Cristo, de Deus, o único que pode perdoar. Esta unificação do seu "eu" com o nosso implica que somos "atraídos" também para a sua realidade de Ressuscitado, que prosseguimos rumo à vida plena da ressurreição, da qual Jesus fala aos Saduceus em Mateus, capítulo 22: é uma vida "nova", na qual já estamos além do matrimónio (cf. Mt 22, 23-32). 

É importante que nos deixemos sempre de novo embeber por esta identificação do "eu" de Cristo connosco, por este ser "lançados" para o mundo da ressurreição. Neste sentido, o celibato é uma antecipação. Transcendamos este tempo e caminhemos em frente, e assim "atrairemos" para nós próprios e o nosso tempo rumo ao mundo da ressurreição, à novidade de Cristo, à vida nova e verdadeira. Por conseguinte, o celibato é uma antecipação tornada possível pela graça do Senhor que nos "atrai" para si rumo ao mundo da ressurreição; convida-nos sempre de novo a transcender-nos a nós mesmos, este presente, rumo ao verdadeiro presente do futuro, que hoje se torna presente. E chegamos a um ponto muito importante. 

Um grande problema da cristandade do mundo de hoje é que já não se pensa no futuro de Deus: só o presente deste mundo parece suficiente. Queremos ter só este mundo, viver só neste mundo. Assim fechamos as portas à verdadeira grandeza da nossa existência. O sentido do celibato como antecipação do futuro é precisamente abrir estas portas, tornar o mundo maior, mostrar a realidade do futuro que deve ser vivido por nós como presente. Por conseguinte, viver assim num testemunho da fé: cremos realmente que Deus existe, que Deus tem a ver com a minha vida, que posso fundar a minha vida em Jesus, na vida futura. 

E conhecemos agora as críticas mundanas das quais o senhor falou. É verdade que para o mundo agnóstico, o mundo no qual Deus não tem lugar, o celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade. Com a vida escatológica do celibato, o mundo futuro de Deus entra nas realidades do nosso tempo. E isto deveria desaparecer! 

Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um "não" ao vínculo, um "não" à definitividade, um ter a vida só para si mesmos. 

Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um "sim" definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu "eu", e portanto é um acto de fidelidade e de confiança, um acto que supõe também a fidelidade do matrimónio; é precisamente o contrário deste "não", desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o "sim" definitivo que supõe, confirma o "sim" definitivo do matrimónio. E este matrimónio é a forma bíblica, a forma natural do ser homem e mulher, fundamento da grande cultura cristã, das grandes culturas do mundo. E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. 

Por isso, o celibato confirma o "sim" do matrimónio com o seu "sim" ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. Sabemos que ao lado deste grande escândalo, que o mundo não quer ver, existem também os escândalos secundários das nossas insuficiências, dos nossos pecados, que obscurecem o verdadeiro e grande escândalo, e fazem pensar: "Mas, não vivem realmente no fundamento de Deus!". Mas há tanta fidelidade! 

O celibato, mostram-no precisamente as críticas, é um grande sinal de fé, da presença de Deus no mundo. Rezemos ao Senhor para que nos ajude a tornar-nos livres dos escândalos secundários, para que torne presente o grande escândalo da nossa fé: a confiança, a força da nossa vida, que se funda em Deus e em Jesus Cristo!


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terça-feira, 12 de março de 2019

Como lidar com o escândalo dos abusos sexuais no Clero?

Pergunta: Os media vêm noticiando, com frequência cada vez maior, casos escandalosos de abusos sexuais por parte de clérigos, o que leva alguns a duvidarem da Fé católica e afastarem-se da Igreja, ou pelo menos da prática religiosa. Outros dizem que seria melhor eliminar o celibato sacerdotal, alegando que é o responsável por tais abusos. Qual é a melhor defesa que um católico pode fazer da Igreja nessa situação constrangedora? 

Resposta: Começamos por esclarecer que nem todas as denúncias de abuso divulgadas pelos media ou investigadas pela Justiça são verdadeiras. Sabe-se que em muitos países os veículos de divulgação, como também muitas autoridades da Justiça, são hostis à Igreja Católica, e vão acusando e condenando sacerdotes e prelados sem ouvi-los, desrespeitando assim a presunção de inocência de que goza qualquer acusado até o julgamento.

É inegável, contudo, que muitas das investigações confirmaram grande número de casos de abuso sexual por parte de clérigos, incluindo Bispos e até mesmo um Cardeal de muito destaque. Revelou-se ainda a existência de verdadeiras redes de corrupção dentro de alguns seminários e em organismos ligados à Igreja.

O celibato sacerdotal nada tem a ver com a difusão dessa praga moral do abuso sexual. Estudos estatísticos sérios provam que em mais de 80% dos casos trata-se de abusos de adolescentes ou de jovens de sexo masculino por parte de clérigos homossexuais. Um estudo, em particular, provou que o número desses abusos cresceu exactamente na mesma proporção em que aumentou o número de pessoas com atracção homossexual nas fileiras do Clero.

A arca de Noé continha animais puros e impuros

Essa infiltração deu-se de modo especial a partir da década de 1960, devido ao relaxamento nas condições para a admissão nos seminários e na disciplina destes, bem como pela relativização da Moral nos estudos de Teologia após o Concílio Vaticano II. Contribuiu também a difusão da chamada “homo-heresia”, ou seja, o erro de afirmar que a atracção homossexual não é contrária à natureza, e que as relações homossexuais são lícitas.

Não é a primeira vez na história da Igreja que a heresia e a corrupção moral se espalham como um cancro entre os que são chamados a ser “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5, 13-14). Mas, em cada uma dessas circunstâncias, os Papas e os Santos conseguiram reformar o Clero e restaurar tanto a disciplina eclesiástica como a pureza dos costumes, que deve caracterizar os ministros de Deus. No tenebroso período que atravessamos hoje essa necessária reforma moral das fileiras do Clero e da Hierarquia nem sequer começou.

Diante desses escândalos, e para fortalecer a nossa fé, convém relembrar que, de acordo com o Catecismo do Concílio de Trento, a Santa Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo não é como a imaginavam Lutero e os seus sequazes, ou seja, como uma comunidade puramente espiritual e constituída somente por justos que têm fé.

Ao falar da Igreja militante — “o conjunto dos fiéis que ainda vivem na Terra” —, diz o referido Catecismo: “Há na Igreja militante duas categorias de homens: bons e maus. Certo é que os maus participam, com os bons, dos mesmos Sacramentos, professam a mesma fé, mas não lhes são semelhantes nem na vida, nem nos costumes“. Mais adiante, ainda repete: “A Igreja comporta não só os bons, mas também os maus. Assim o demonstra o Evangelho por muitas parábolas, quando diz, por exemplo, que o Reino dos céus — isto é, a Igreja militante — se compara a uma ‘rede lançada ao mar’ (Mt 13, 47); a um ‘campo semeado em que se espalhou joio’ (Mt 13, 24); a uma ‘eira, na qual o trigo se acha misturado com a palha’ (Mt 13, 12; Lc 3, 17); a ‘dez virgens’, umas loucas, outras prudentes (Mt 25, 1). Muito antes [de tais parábolas], a Arca de Noé, que continha animais puros e impuros (Gn 7, 2; 1 Pd 2, 6; cfr. At 10, 9; 11, 4-18), era também uma imagem e semelhança desta Igreja [militante]. A fé católica sempre ensinou, expressamente, que à Igreja pertencem bons e maus; não obstante, devemos explicar aos fiéis cristãos, em virtude das mesmas normas de fé, que entre ambas as partes há grande diferença de condição. Os maus assistem na Igreja, à semelhança da palha que na eira se mistura com o trigo; ou, como os membros quase mortos, às vezes continuam ligados ao corpo”.

Pagãos, hereges, cismáticos e excomungados não pertencem à Igreja

Em consequência, conforme continua o mesmo Catecismo, apenas três classes de homens estão excluídas da comunhão com a Igreja: os pagãos, que nunca estiveram no seu seio; os hereges e cismáticos, porque apostataram; e os excomungados que foram excluídos judicialmente, enquanto não se reconciliarem com Ela. E acrescenta sabiamente, referindo-se de modo específico aos pastores que levam vida má, mas nem por isso perdem sua autoridade dentro da Igreja: “Quanto aos demais, não há dúvida que continuam ainda no grémio da Igreja, apesar de maus e perversos. Sejam os fiéis bem instruídos neste ponto, para que tenham a firme convicção de que os prelados da Igreja continuam no grémio da mesma, não obstante qualquer deslize moral; e que nem por isso lhes fica diminuída a jurisdição [eclesiástica]”.

Acrescenta ainda o Catecismo que o facto de haver no seio da Igreja membros maus, e até pastores que dão escândalo, não lhe diminui em nada a santidade, porque a santidade lhe vem do facto de ser “consagrada e dedicada a Deus” (Lv 27, 28-30); de estar “unida como corpo a uma Cabeça santa, a Cristo Nosso Senhor (Ef 4, 15-6), fonte de toda a santidade (Dn 9, 24; Is 41, 14; Lc 1, 35); e da qual dimanam os dons do Espírito Santo e as riquezas da bondade divina (Ef 2, 7; 3, 8; 3, 16-19)”; e também do fato de Ela ser a única a possuir “o culto legítimo do Sacrifício e o uso salutar dos Sacramentos”, que são “os meios eficazes, pelos quais Deus opera a verdadeira santidade”. O Catecismo ainda acrescenta: “É impossível haver verdadeiros santos fora desta Igreja”.

A Igreja é santa, apesar dos numerosos pecadores

O Catecismo conclui: “não é de estranhar que a Igreja tenha o nome de santa, apesar de haver nela muitos pecadores. Pois são chamados santos os fiéis que se fizeram povo de Deus (1 Pd 2-9; Os 2, 1), e que pela fé e a recepção do Baptismo se consagraram a Cristo, embora sejam fracos em muitos pontos e não cumpram o que prometeram”.

Sendo de fé que a Igreja é santa, mas nela há muitos pecadores junto aos bons, não é preciso cobrir com um manto de silêncio os pecados de seus membros que se tornaram públicos, e que dão escândalo aos fiéis (e até aos infiéis). Nas situações históricas em que a imoralidade do Clero se generaliza, e às vezes é até aceita como normal pelas autoridades eclesiásticas, a denúncia pública desse cancro por parte dos fiéis é benéfica e pode tornar-se até obrigatória, por ser o primeiro passo para a necessária reforma.

A esse respeito, no livro Igreja e homens de Igreja, o teólogo passionista Pe. Enrico Zoffoli escreve: “Não temos nenhum interesse em cobrir as culpas dos maus cristãos, dos sacerdotes indignos, dos pastores vis e ineptos, desonestos e arrogantes. Seria ingénuo e inútil o intento de defender a sua causa, atenuar as suas responsabilidades, reduzir o alcance dos seus erros ou fazer uso do ‘contexto histórico’ e de ‘situações específicas’, com a pretensão de tudo explicar e tudo absolver”.

Como dissemos, a veracidade e a santidade da Igreja Católica não dependem da virtude dos seus filhos, os quais, por fraqueza ou por maldade, podem tornar-se infiéis ao seu Baptismo, à sua ordenação sacerdotal, à sua sagração episcopal, ou até mesmo ao seu ministério petrino (a história registra, infelizmente, não poucos casos de Papas que deram grande escândalo). E isso porque a santidade da Igreja provém da sua condição de Corpo Místico de Cristo. Basta, portanto, que um “pequeno rebanho” (Lc 12, 32-34) permaneça inteiramente fiel aos ensinamentos de Nosso Senhor em meio à corrupção geral — como já aconteceu, por exemplo, nos séculos IV e XI —, para que a Igreja não só permaneça santa, mas cresça ainda em graça e santidade, como o Divino Mestre na sua vida terrena.

Nas aparições de 1848 em La Salette, Nossa Senhora disse que os sacerdotes tinham-se tornado cloacas de impureza. Peçamos a Ela que envie almas generosas, as quais implorem dia e noite misericórdia e perdão para o povo, a fim de que Deus se reconcilie com os homens e Jesus Cristo seja novamente servido, adorado e glorificado

Padre David Francisquini in Catolicismo n° 818 (Fevereiro de 2019)


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quinta-feira, 15 de março de 2018

A continência como acto de amor é possível

A nota do Senhor Patriarca sobre o capítulo VIII da Amoris Laetitia gerou muita perplexidade ao dizer que, às pessoas casadas pela Igreja e que depois de uma separação se juntam a outra em casamento civil, se deve propor a continência. A meu ver, o valor desta proposta não está tanto, ou só, na apresentação de uma norma justa, mas no facto de testemunhar a convicção de que a graça de Deus não é um sonho, mas uma ajuda real. 

Para se perceber de que se está a falar, lembremos que a continência está ligada à virtude da castidade e que, como recordava o Papa Francisco na Amoris Laetitia, a Igreja está ciente de que “é necessário lembrar a importância das virtudes. Dentre elas –  continua o Papa – resulta ser condição preciosa para o crescimento genuíno do amor interpessoal a castidade.” (AL 206) Neste contexto, a palavra continência, longe de ser uma violência à natureza, apresenta-se como uma proposta positiva que ajuda a viver bem o amor.

É essa a experiência de quem se consagra. Os padres e religiosos(as) não são continentes porque há uma regra que os impede de seguir os instintos, mas porque respondem a um chamamento de amor e para o amor que a graça de Deus torna possível e belo seguir. A Igreja, remando contra a maré, também propõe a continência antes do casamento, não para preservar uma imagem, mas porque está certa do grande valor da comunhão de vida que uma relação sexual pressupõe e gera e que só é completa dentro do casamento.

Além disso, muitos casais, no âmbito da regulação da fertilidade, aceitam viver períodos de continência. Quando se seguem os métodos naturais como a Igreja ensina, e se o casal considera naquele momento não ser conveniente ficar à espera de um filho, há dias em que é necessário abster-se de ter relações sexuais. Também aqui a continência tem um valor positivo. É uma proposta que une a sexualidade ao diálogo e ao amor, e leva os dois a sentirem-se protagonistas de um projecto de vida totalizante, capaz de vencer os egoísmos que ainda estejam presentes. É isso que faz com que não ter relações sexuais nesses dias seja um sim de amor ao outro e à comunhão dos dois.

É neste contexto que se pode perceber que, numa situação em que duas pessoas recasadas, cuja separação poderia ter consequências complicadas para si e para outros – especialmente para filhos que tenham nascido desta segunda união – mas em que há um desejo real de viver na fidelidade a Deus se deve propor que vivam como irmãos.

Sim, é verdade que a Igreja sabe que está a propor algo de exigente a pessoas frágeis. Somos todos frágeis! Mas a Igreja não propõe aos seus filhos coisas estranhas! Ela faz propostas que têm em vista o bem maior de todos. Ela vê através da fé que o amor aprendido em Jesus Cristo e tornado possível com a Sua Páscoa renova a pessoa e torna-a mais feliz.

O Senhor Patriarca, além disso, explica justamente que, porque nem sempre conseguimos ser fiéis ao que sabemos ser bom e que decidimos sinceramente seguir, se depois desta decisão se cai na tentação e se têm relações sexuais, é possível pedir perdão através do sacramento da confissão. A mim isso parece completamente correcto, e não tem nada a ver com hipocrisia. Tem a ver com a certeza que o ideal cristão é bom para todos e liga-se à consciência da fragilidade da pessoa. Um paradoxo que só a misericórdia de Deus consegue resolver.

Acontece o mesmo quando num casal um dos esposos cai na tentação do adultério; ou um padre é infiel ao celibato; ou um namorado tem relações sexuais com a namorada. Quando alguém tem fé na misericórdia de Deus, sabe e acredita que depois de realizar um acto errado, se se dá conta do mal feito a si e aos outros e se arrepende, não está condenado porque olha para Deus como um Pai. Confiar no perdão não conduz ao relativismo que tudo desculpa, mas abre ao horizonte da reconciliação e da santidade.

Pela fé, não se vive a continência como uma castração ou uma distração do instinto, mas como um sinal concreto do amor e da vida em Cristo. A proposta da continência, por isso, parecerá sempre impossível a quem só raciocina com o intelecto ou se limita a seguir a mentalidade dominante e não se dá conta da potência da graça de Deus. Mas quem vive com Deus e, mais ainda, vive em Deus – e muitos casais vivem assim, e muitos divorciados querem viver assim – experimenta na continência uma paz e uma serenidade que o “mundo” não conhece. A Igreja, na fidelidade a Jesus Cristo, acredita que esta proposta seja boa e possível, mas não se limita a fazer um discurso, ela é companhia, presença, apoio contínuo que torna presente o próprio Deus.

Uma última palavra para agradecer o facto de esta proposta não se dirigir apenas a uns poucos que se pensam capazes de chegar aos ideais. O Senhor Patriarca mostra bem que confia que a graça de Deus está disponível para todos os que se abrem a ela.

Mons. Duarte da Cunha in 'A Voz da Verdade'


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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Será o Celibato uma vida de repressão sexual?

Recentemente, um "ex-Padre" Católico apareceu no programa da Oprah para defender a sua escolha de deixar o seu ministério para se casar. Este padre combateu o seu desejo por esta mulher durante vários anos e finalmente decidiu que as suas únicas opções eram casar-se com ela ou reprimir os seus desejos sexuais. De facto, como anunciou à audiência internacional, a “repressão” é a única escolha para quem permanece celibatário.

Será isto verdade? Será que as nossas únicas opções no que diz respeito ao desejo sexual são “ceder” ou “reprimir”? De certeza que para um mundo dominado pela luxúria sexual, o celibato vitalício parece absurdo. A atitude geral do mundo em relação ao celibato Cristão pode resumir-se a isto: “Olhem, o casamento é a única hipótese “legítima” que vocês, os Cristãos, têm de satisfazer os vossos desejos sexuais. Porque diabo haviam de desperdiçar isso? Iriam condenar-se a uma vida de repressão sem esperança.”

A diferença entre casamento e celibato, no entanto, nunca deve ser entendida como a diferença entre ter uma saída legítima para o desejo sexual por um lado e ter de o reprimir por outro. Cristo chama todos – independentemente da sua vocação particular – à experiência da redenção pelo domínio da concupiscência. Apenas nesta perspectiva é que as vocações cristãs (casamento e celibato) fazem sentido. Ambas as vocações – se forem vividas como Cristo pretende – decorrem da mesma experiência da redenção da sexualidade.

Em primeiro lugar, o casamento não é uma saída legítima para satisfazer os desejos sexuais. Como o Papa João Paulo II uma vez realçou, os esposos podem cometer “adultério no coração” um com o outro se se tratam um ao outro apenas como um escape para a auto-gratificação. Sei que é um cliché mas porque é que tantas mulheres se queixam de dores de cabeça quando os seus maridos querem sexo? Será porque se sentem usadas em vez de amadas? É a isto que a luxúria conduz: à utilização das pessoas, não a amá-las.

A libertação do domínio da concupiscência – essa desordem dos afectos causada pelo pecado original – é essencial, ensina-nos João Paulo II, se queremos viver as nossas vidas “na verdade” e experimentar o plano divino para o amor humano. De facto, o ethos sexual cristão “está sempre associado… com a libertação do coração do domínio da concupiscência”. E essa libertação é igualmente essencial para os que vivem o celibato consagrado, os solteiros ou os casados. 

É precisamente essa liberdade que nos permite descobrir o que João Paulo II chamou a “pureza amadurecida”. Na pureza amadurecida “O homem apercebe-se dos frutos da vitória sobre a concupiscência”. Esta vitória é gradual e certamente permanece frágil aqui na terra, mas não deixa de ser real. Para os que são agraciados com os seus frutos, um mundo novo abre-se – uma nova forma de ver, pensar, viver, falar, amar, rezar. 

O acto conjugal torna-se uma experiência de contacto com o sagrado, impregnada de graça, em vez de uma grosseira satisfação do instinto. E o celibato cristão torna-se uma forma libertadora de viver a sexualidade como “um dom total de si” por Cristo e pela Sua Igreja.

João Paulo II observou que o celibatário tem de submeter “a tendência para o pecado da sua humanidade aos poderes que fluem do mistério da redenção do corpo… tal como qualquer outra pessoa faz”. É por esta razão, indica ele, que a vocação ao celibato não é apenas uma questão de formação, mas de transformação. A pessoa que vive esta transformação não está dominada pela necessidade de ceder aos seus desejos. Está livre com o que João Paulo II chamou a “liberdade do dom”. Isto significa que os desejos não controlam a pessoa; mas é a pessoa que controla os seus desejos.

Resumindo, a verdadeira liberdade sexual não é a liberdade de ceder às compulsões, mas liberdade da compulsão de ceder. Apenas uma pessoa com essa liberdade é capaz de fazer de si um dom livre no amor… tanto no casamento, como numa vida de devoção consagrada a Cristo e à Igreja. Porque a pessoa que é livre desta forma, sacrificando a expressão genital da sua sexualidade por um bem tão grande como as Núpcias Eternas de Cristo com a Igreja, não só se torna uma possibilidade, mas até bastante atraente.

Christopher West


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