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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Nobel de Medicina e agnóstico rende-se à Virgem: "Os milagres de Lourdes são inexplicáveis"

Danila Castelli é uma mulher italiana que sofria de grave hipertensão e, após visitar Lourdes em 1989, ficou completamente curada. Este caso ficou conhecido como o milagre oficial número 69 a ser reconhecido pela Igreja Católica neste santuário mariano desde a aparição da Virgem à jovem Santa Bernadette, em 1858.

Desde aquela data registaram-se mais de 7 mil curas "inexplicáveis" em Lourdes, ainda que apenas umas dezenas tenham sido consideradas milagre, tendo em conta as rigorosas condições estabelecidas para o estudo de cada caso.

No entanto, o debate sobre as aparições e curas em Lourdes dura há décadas, e o desprezo e as críticas dos ateus mais beligerantes contrastam com o respeito e consideração de profissionais de reconhecido prestígio, face a um fenómeno religioso que não deixa ninguém indiferente. Como exemplo, cite-se o Prémio Nobel da Medicina, e Prémio Príncipe de Astúrias, Luc Montagnier. Este médico francês tornou-se famoso por ter descoberto o vírus do HIV bem como outros importantes contributos para a ciência.

É de extremo interesse conhecer a opinião de este reconhecido cientista, e ex-director do Instituto Pasteur, acerca de Lourdes, um lugar que exige ter uma enorme fé. Esta opinião ficou registrada no livro que recolhe os diálogos entre Montagnier e o monge cisterciense Michel Niassaut, sob o título Le Moine et le Nobel.

“Não há por que negar nada”

Num momento específico, a conversa versou acerca das curas inexplicáveis em Lourdes. Que opinião teria um Nobel da Medicina e não-crente sobre o assunto? A sua resposta significaria um exemplo de coerência para o mundo da ciência. “Quando um fenómeno é inexplicável, se realmente existe, não há necessidade de negar nada”, afirmou peremptoriamente Luc Montagnier. E continuando neste sentido, o Nobel da Medicina assegurou que “nos milagres de Lourdes há algo inexplicável”.

Além disso, Montagnier critica a conduta de alguns dos seus colegas, e diz neste livro que “muitos cientistas cometem o erro de rejeitar o que não entendem. Não gosto dessa atitude. Frequentemente cito a frase do astrofísico Carl Sagan: A Ausência de prova não é prova de ausência”.

“Os Milagres são inexplicáveis” Neste sentido, acrescentou ,“relativamente aos milagres de Lourdes que estudei, creio que realmente se trata de algo inexplicável (…) Não consigo entender estes milagres mas reconheço que há curas que não estão previstas no estado actual da ciência”.
Tendo sido quem descobriu o vírus do HIV, Montagnier teve uma enorme relevância na segunda metade do século XX e, apesar das críticas tradicionais do mundo anticatólico referentes ao posicionamento da Igreja face à Sida, este cientista louva o papel do mundo católico face a estes dramas.

“Colaboração com a Igreja”

De facto, relata que “o meu colega dos Estados Unidos da América, Robert Gallo, teve uma audiência com o Papa (João Paulo II), tentando perceber qual o modo em que seria possível aumentar a nossa colaboração com as equipas que trabalham na sombra nas missões Católicas em África. Ali tratam-se pessoas infectadas com Sida e faz-se prevenção contra a propagação do vírus”.

Este importante, e muitas vezes esquecido, trabalho, é muito destacado por este Prémio Nobel. “As ordens religiosas cristãs têm um papel muito positivo no cuidado dos doentes. Reconheço que, no âmbito da atenção hospitalar, a Igreja foi pioneira”.

O trabalho vital da Igreja contra a Sida

“Pude contactar de perto, ao longo destes largos anos de investigação sobre a Sida, e sobretudo ao princípio, com pacientes condenados a uma morte inevitável. Frequentemente, a fé e proximidade da Igreja ajudaram-nos a fazer frente à doença, e com que cada doente não se sentisse abandonado. Foi por esta experiência que sempre reconheci a contribuição pioneira e inestimável da Igreja no campo da atenção hospitalar”, afirmou o cientista francês.

A estima do agnóstico Montagnier pela Igreja é grande. Inclusivamente ofereceu-se, e ajudou a João Paulo II, a travar o avance de Parkinson de que sofria. Na sua opinião, se os valores cristãos prevalecessem no mundo, o planeta ganhara imenso. “Há 2000 milhões de cristãos, de entre os quais 1100 são católicos. Os seus bons sentimentos fazem-se presentes” mas não são os que governam o mundo. Seria bom, considera, que o amor ao próximo conduzisse o mundo.

A relação de outro prémio Nobel com Lourdes

No entanto, Montagnier não é o único Prémio Nobel em relação com Lourdes. Muito mais longe foi Alexis Carrel, Nobel de Medicina em 1912. De facto, a sua relação com estas curas levou-o, inclusivamente, à conversão ao catolicismo. Em 1903 Carrel era um jovem médico ateu. Quando um colega que iria acompanhar como médico a um grupo de peregrinos a Lourdes não pode ir, pediu-lhe que fora ele a substituí-lo. Aceitou ir somente para comprovar pessoalmente a falsidade dos milagres que se atribuíam naquele lugar. Mas ali, justamente, assistiu pessoalmente a um deles, facto que transformou a sua vida. Visitou uma mulher tuberculosa moribunda. Observou e analisou todos os sintomas. Sem sombra de dúvida, morreria em breve. 

O Milagre produziu-se diante dos seus olhos. Saiu das piscinas e tudo tinha desaparecido. Este facto produziu a sua conversão, que narrou num livro que originou um escândalo para o naturalismo céptico dominante naquele tempo em França.  

in
 religionenlibertad


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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

15 sacerdotes que também foram cientistas

Qual a relação entre a ciência e a fé? Serão opostas? Não. Ciência e fé são totalmente compatíveis e a vida destes homens é prova irrefutável disso. Aqui está uma lista de 15 sacerdotes que também foram cientistas:

1) São Silvestre II, Papa (945-1003)

Foi o primeiro Papa francês da história. Foi um grande matemático e introduziu na França o sistema decimal islâmico e o uso do zero, facilitando assim os cálculos.

2) Robert Grosseteste (1175-1253)

Sendo bispo da diocese de Lincoln (Inglaterra), foi um estudioso em quase todas as áreas de conhecimento da sua época. Também foi precursor da filosofia moderna, introduzindo o pensamento aristotélico na Universidade de Oxford.

3) Santo Alberto Magno (1193-1280)

Renomado sacerdote dominicano, bispo e Doutor da Igreja. Também foi filósofo, geógrafo e um químico famoso, descobriu o arsénio.

4) Roger Bacon (1214-1294)

Franciscano conhecido como Doutor Admirável. É um dos precursores do método científico moderno. Já no seu tempo ele dizia “a matemática é a porta e a chave de toda ciência”.

5) Jean Buridan (1300-1375)

Clérigo secular francês e precursor da mecânica de Newton por meio da sua noção de ímpeto que explicava o movimento de projécteis e objectos em queda livre. Essa teoria pavimentou o caminho para a dinâmica de Galileu e para o famoso princípio da inércia, de Isaac Newton.

6) Nicolau Oresme (1323-1382)

Foi teólogo e bispo de Lisieux e também um génio intelectual. Talvez seja o pensador mais original do século XIV, por sua actividade como economista, matemático, físico, astrónomo, filósofo, psicólogo e musicólogo. Descobriu a refracção atmosférica da luz.

7) Nicolau Copérnico (1475-1543)

Este sacerdote oriundo da Polónia é o pai da astronomia moderna por meio da sua teoria heliocêntrica. Também foi matemático, astrónomo, jurista, físico, político, líder militar, diplomata e economista.

8) Francesco Maria Grimaldi (1618-1663)

Sendo jesuíta, construiu e usou os instrumentos para medir características geológicas na lua e desenhou um mapa que foi publicado por Giovanni Battista Riccioli. Também descobriu a difracção da luz.

9) Giovanni Battista Riccioli (1598-1671)

Astrónomo jesuíta italiano considerado como um pioneiro da astronomia lunar. Foi a primeira pessoa a medir a taxa de aceleração de um corpo em queda livre.

10) Athanasius Kircher (1602-1680)

Este sacerdote jesuíta foi um dos cientistas mais importantes do período barroco. Era poliglota, erudito e estudioso orientalista. Usando um microscópio rudimentar, examinou doentes com peste e observou de forma pioneira os vermes, construiu um aparelho para projectar imagens, conhecido como lanterna mágica (1646) e relacionou peste bubónica com putrefacção.

11) Nicolau Steno (1638-1686)

É considerado o pai da geologia. Era um polímata, médico, e anatomista dinamarquês. Aderiu ao catolicismo na vida adulta, morreu como bispo missionário. Após converter-se ao catolicismo, foi ordenado padre em 1675, tendo sido ordenado bispo dois anos depois. Veio a falecer em 1686, tendo sido beatificado pelo Papa João Paulo II em 1988.

12) Ruder Boskovic (1711-1787)

Físico, astrónomo, matemático, filósofo, poeta e sacerdote jesuíta da República de Ragusa (hoje Croácia). Influenciou nas obras de Faraday, Kelvin, Einstein, etc.

13) Gregor Mendel (1822-1884)

Agostiniano austríaco, pai da genética por descobrir a origem da herança genética, através de pesquisas que conduziu com diferentes ervilhas. As chamadas “Leis de Mendel” falam da transmissão dos caracteres hereditários.

14) Georges Lemaitre (1894-1966)

Sacerdote belga, astrónomo e professor de física. Lemaitre propôs o que ficou conhecido como teoria da origem do Universo do Big Bang, que ele chamava de “hipótese do átomo primordial“, ou também conhecido como “ovo cósmico”, que posteriormente foi desenvolvida por George Gamow.

15) Manuel Carreira (1931)

Sacerdote jesuíta, teólogo, filósofo e astrofísico espanhol. É membro do Observatório Vaticano e ele tem trabalhado em numerosos projectos para a NASA. É um firme defensor da compatibilidade entre ciência e fé.

in pt.churchpop


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domingo, 10 de dezembro de 2023

A miraculosa trasladação da Casa da Sagrada Família de Nazaré até Loreto

Em Loreto, Itália, venera-se a Santa Casa: quer dizer o edifício onde Nossa Senhora nasceu, viveu e recebeu o anjo São Gabriel na Anunciação, momento em que o 'Sim' da Virgem permitiu a Encarnação do Verbo e o início da Redenção do género humano.

Em Nazaré, Terra Santa, sob a cúpula da igreja da Anunciação também se venera o local onde aconteceu este sublime mistério. Como se explica essa aparente duplicidade de endereços?

Esta contradição comporta maravilhosos acontecimentos que envolvem a translação da Santa Casa de Nazaré até Loreto por obra de Anjos.

Mas, o que diz a ciência a respeito? Não é tarefa da ciência declarar se um facto foi miraculoso ou não, se foram os anjos ou não. Mas, analisar a realidade segundo os seus métodos, instrumentos e objetivos próprios. E a ciência, trabalhando sobre o mistério da Santa Casa de Nossa Senhora, vêm trazendo a lume revelações materiais que explicam o acontecido e reforçam a fé. Eis um apanhado de algumas descobertas feitas nas últimas décadas.

O Altar dos Apóstolos na Santa Casa

O arquitecto Nanni Monelli e o Pe. Giuseppe Santarelli, director-geral da Congregação da Santa Casa de Loreto, constataram que as pedras que se encontram na Gruta da Anunciação, em Nazaré, Terra Santa, têm a mesma origem da pedra do altar dos Santos Apóstolos que está na Santa Casa de Loreto, em Itália. O Altar dos Apóstolos é constituído por uma pedra – hoje coberta por uma grade de metal – trabalhada em estilo nabateano, típico da Palestina. E leva esse nome porque nele os Apóstolos teriam celebrado a Missa quando iam a Nazaré visitar a casa de Nossa Senhora.

O Professor Giorgio Nicolini, especialista na matéria e autor do livro 'La veridicità storica della miracolosa Traslazione della Santa Casa di Nazareth a Loreto' (A veracidade da milagrosa trasladação da Santa Casa de Nazaré a Loreto), explicou à agência Zenit que “sobre a autenticidade da Santa Casa de Loreto enquanto verdadeira Casa de Nazaré de Maria jamais houve dúvida alguma, a não ser da parte daqueles que não conhecem os estudos científicos a respeito. Isso é tão verdadeiro que todos os Sumos Pontífices, durante sete séculos, confirmaram a autenticidade com solenes actas canónicas de aprovação”.

Nicolini acrescentou que este estudo sobre o Altar dos Apóstolos “é importante porque, além de proporcionar uma ulterior prova da autenticidade da Santa Casa de Loreto como a Casa de Maria em Nazaré, proporciona também uma prova ainda mais espetacular da milagrosa trasladação da Santa Casa de Nazaré”.

Percurso da Santa Casa desde a Palestina até Loreto

A tradição sempre afirmou que entre 1291 e 1296 três paredes da Santa Casa de Nazaré foram miraculosamente transportadas por anjos a “vários lugares”.

Isto está registrado em documentos antigos nos quais se fala da presença desse Altar unido às três paredes. Por exemplo, em Tersatto, Dalmácia (hoje Trsat, Croácia), onde a Santa Casa esteve entre 10 de Maio de 1291 e 10 de Dezembro de 1294.

Por isso pode-se afirmar que houve um duplo milagre: o transporte milagroso das três santas paredes na sua integridade e, em segundo lugar, junto com elas, mas como um objecto distinto da casa, o Altar dos Apóstolos.

No seu livro Nicolini demonstra que, do ponto de vista histórico e arqueológico, pelo menos cinco translações milagrosas ficaram constatadas de modo indiscutível entre 1291 e 1296.

A primeira levou a Santa Casa até Tersatto (Croácia); a segunda até Posatora (província de Ancona, Itália); a terceira até a floresta da senhora Loreta, na planície que está sob a actual cidade de Loreto (cujo nome deriva precisamente do nome dessa senhora); a quarta até a roça de dois irmãos sobre o morro lauretano (conhecido também como Monte Prodo); e a quinta até uma estrada pública, onde ainda se encontra sob a cúpula da magnífica basílica posteriormente construída em volta.

Todas estas mudanças foram registradas nos diversos lugares por testemunhas oculares contemporâneas. As mudanças foram rigorosamente controladas pelos Bispos diocesanos da época, que emitiram pronunciamentos canónicos sobre a veracidade dos factos e dos testemunhos. Tal é confirmado pelas igrejas construídas nos diversos locais na época das mudanças e consagradas pelos Bispos de Fiume, Ancona, Recanati, Macerata e Nápoles, entre outros.

Nicolini esclareceu que em Loreto se encontram apenas as três paredes que constituíam o quarto de Nossa Senhora, geralmente chamado de Santa Casa, local onde aconteceu a Anunciação. A quarta parede do quarto é a gruta, a qual pode ser visitada na igreja da Anunciação em Nazaré, Terra Santa. Ali ficaram apenas a gruta e os alicerces da Casa. Enquanto em Loreto se venera a Casa desprovida dos seus alicerces, em Nazaré ficaram a gruta e os alicerces sem a casa.

Análise de pedras, tijolos e argamassa

Ao mesmo tempo em que a análise química da massa que une as pedras apresenta características típicas da zona de Nazaré, a sua homogeneidade exclui qualquer possibilidade de uma hipotética desmontagem e remontagem das pedras. A massa foi feita com sulfato de cálcio hidratado (gesso) engrossado com pó de carvão de madeira, segundo uma técnica utilizada na Palestina há 2000 anos, mas jamais empregada na Itália.

Portanto, a Santa Casa chegou a Loreto com as pedras e os tijolos unidos pela mesma massa usada para uni-los há 2000 anos em Nazaré, assim se encontrando até hoje.

Ensinamento dos Papas sobre a Santa Casa de Loreto

O Bem-aventurado Papa Pio IX escreveu na 'Bula Inter Omnia', de 26 de Agosto de 1852:

Entre todos os santuários consagrados à Mãe de Deus, a Imaculada Virgem Maria, um encontra-se no primeiro lugar e brilha com incomparável fulgor: a venerável e augustíssima casa de Loreto. consagrada pelos mistérios divinos, ilustrada por inumeráveis milagres, honrada pelo concurso e afluência dos povos, a glória do seu nome atinge toda a Igreja universal, e constitui muito justamente objecto de culto para todas as nações e para todas as raças humanas. Em Loreto venera-se aquela casa de Nazaré, tão querida ao coração de Deus, e que, fabricada na Galileia, foi mais tarde separada das suas bases e, pela força divina, trasladada além do mar, primeiro à Dalmácia e logo à Itália.

E o santo pontífice acrescentou: 

Naquela casa, a Santíssima Virgem, que por eterna e divina disposição ficou perfeitamente isenta da culpa original, foi concebida, nasceu e cresceu, e o celestial mensageiro a saudou ‘cheia de graça’ e ‘bendita tu és entre todas as mulheres’. Naquela casa, Nossa Senhora, repleta de Deus e sob a acção fecunda do Espírito Santo, sem perder nada da sua inviolável virgindade, tornou-se a mãe do filho unigénito de Deus.

Também o Sumo Pontífice Leão XIII escreveu, na sua 'Encíclica Felix Lauretana Cives', de 23 de Janeiro de 1894: 

Compreendam todos, e em primeiro lugar os italianos, quão especial dom lhes foi concedido por Deus que, com suma providência, subtraiu prodigiosamente a Casa a um poder indigno [N.: refere-se aos muçulmanos ] e com um expressivo acto de amor a ofereceu a eles. Naquela beatíssima moradia foi sancionado o início da salvação humana, com o grande e prodigioso mistério de Deus que Se fez homem, e que reconcilia a humanidade perdida com o Pai eterno e renova todas as coisas.” 

E ainda: 

Deus quis de tal maneira exaltar o Nome de Maria para tornar realidade neste lugar (Loreto), aquela famosa profecia: ‘Todas as gerações chamar-me-ão bem-aventurada.’”

Numerosos Papas aprovaram ininterruptamente desde o início a veracidade histórica do milagroso traslado da Santa Casa, desde Nicolau IV em 1292 até João Paulo II em 2005 e o Papa Bento XVI em 2007.

in cienciaconfirmaigreja.blogspot.com


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segunda-feira, 17 de abril de 2023

Curso de Cristianismo e Ciência por Bernardo Motta

A partir de 20 de Abril vou começar, se Deus quiser, mais uma edição do meu curso "Cristianismo e Ciência", algo que já não fazia desde 2019. O conteúdo foi todo revisto, e destina-se ao público em geral.

Serão onze sessões de uma hora, sempre às Quintas-feiras às 20h30. Será possível assistir presencialmente ou remotamente através de Zoom, com possibilidade de colocar perguntas.
Serão tratados cinco temas em módulos independentes:

Módulo 1: O que diz a Ciência sobre a existência de Deus?
- Parte 1: Quinta-feira, 20 de Abril
- Parte 2: Quinta-feira, 27 de Abril

Módulo 2: A Igreja Católica atrasou o progresso da Ciência?
- Parte 1: Quinta-feira, 4 de Maio
- Parte 2: Quinta-feira, 11 de Maio

Módulo 3: Porque foi condenado Galileu?
- Parte 1: Quinta-feira, 18 de Maio
- Parte 2: Quinta-feira, 25 de Maio
- Parte 3: Quinta-feira, 1 de Junho

Módulo 4: Os milagres são incompatíveis com a Ciência? O que foi o Milagre do Sol em Fátima?
- Parte 1: Quinta-feira, 8 de Junho
- Parte 2: Quinta-feira, 15 de Junho

Módulo 5: Podemos confiar nos Evangelhos?
- Parte 1: Quinta-feira, 22 de Junho
- Parte 2: Quinta-feira, 29 de Junho

O curso é pago e as receitas vão integralmente para o Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização (IEAC-GO), que gentilmente cede o espaço e os meios audiovisuais.
Inscrição numa sessão avulsa: 5 Euro por sessão
Inscrição num Módulo: 10 Euro por módulo
Inscrição no curso completo: 40 Euro

Formulário para inscrição: https://forms.gle/yjZwgM9mMtJxnWi5A 
Pagamento através do IBAN: IBAN: PT50.0036.0071.99100105601.30 (enviar comprovativo para geral@ieacgo.pt mencionando o curso como referência)

Morada para quem quiser assistir presencialmente: Rua Peixinho Júnior, 16, Paço de Arcos, Oeiras.


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sábado, 20 de junho de 2020

Quando um Padre descobriu o Big Bang e ninguém soube

Há 54 anos atrás, no dia 20 de Junho de 1966, morria o Pe. Georges Lemaître. Mas quem foi este sacerdote belga?

Todos conhecem a Teoria do Big Bang. No entanto poucos sabem quem a inventou. Isto é estranho, dado que ninguém ignora quem é o pai da teoria do Evolucionismo ou o inventor da teoria da Relatividade. Se Darwin e Einstein ficaram tão famosos pelas suas teorias científicas, porque é que não ficou também o inventor da teoria do Big Bang?

É uma pergunta com uma resposta que não é simples. No entanto, é difícil de negar que um dos principais motivos foi o facto de ser um sacerdote Católico. Muitos ousam servir-se da ciência para atacar o Cristianismo. Dizem que existe um grande conflito entre ambos. Como a história de Lemaître não ajuda essa tese, não podia ser divulgada.

A juventude de Lemaître, passada no seminário, foi uma era de ouro para a Física moderna: estavam a nascer a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade. Cientes das suas capacidades intelectuais, os superiores de Lemaître permitiram que ele aprofundasse os estudos em Física, depois de ser ordenado sacerdote.

No seu Doutoramento passou por universidades como a Universidade de Cambridge, em Inglaterra, o MIT e o Observatório Astronómico de Harvard, em Boston.

Einstein tinha acabado de inventar as famosas equações que descreviam o universo a escalas cosmológicas, mas não se tinha percebido de algumas das consequências destas equações. Avançando nos estudos que outros físicos faziam sobre as equações de Einstein, Lemaître concluiu em 1927 que o universo estava a expandir-se. E disse ainda que por isso era suposto observar-se galáxias longínquas a afastar-se da nossa. Esta descoberta foi feita dois anos depois por Edwin Hubble, que na altura nem percebeu bem a importância da sua descoberta. Mas a lei da expansão do universo ficou conhecida por Lei de Hubble e só recentemente é que se começou a atribuir o mérito devido ao Pe. Lemaître.

Einstein não tinha ficado satisfeito com a ideia da expansão do universo e decidiu repetir as contas que Lemaître fizera a partir das suas próprias equações. Só que os resultados bateram todos certos. Era então preciso dizer que as equações não estavam bem desde o início. Para impedir que o universo se expandisse, Einstein acrescentou às suas equações um novo termo, hoje conhecido como constante cosmológica. Desta forma, as equações passavam a prever um universo estacionário.


Mas Lemaître não desistiu da ideia. Com os seus conhecimentos de Química a complementarem a sua formação em Física, desenvolveu uma teoria sobre a origem dos elementos do universo. Chamou-lhe "Teoria do Átomo Primordial". Só que Fred Hoyle, um dos físicos mais famosos do século XX, achou a ideia tão ridícula que em sentido de troça chamou-lhe "Teoria do Big Bang".
Pe. Georges Lemaître com Albert Einstein e
 Robert Millikan, Nóbel da Física (determinou a carga do electrão).
A teoria do Big Bang parecia apoiar a ideia Cristã da Criação. No entanto não tinham sido essas as motivações de Lemaître. Quem conhece os seus escritos sabe que Lemaître foi um campeão no diálogo entre a fé e a ciência, tendo insistido sempre na sua distinção. Dizia que se a astronomia fosse importante para ir para o Céu, estaria explicada na Bíblia, mas não era o caso. E quando o Papa Pio XII quis usar a teoria do Big Bang para falar da Criação, foi fortemente desaconselhado por Lemaître, acabando por não o fazer.

Durante anos muitos físicos não acreditaram na teoria do Big Bang. Apesar de Lemaître não a ter desenvolvido por ser Cristão, a maior parte destes físicos, como Hoyle, eram ateus. No entanto, a natureza impôs-se a si mesma. Nos anos 60 detectou-se no espaço uma radiação proveniente das origens do universo - a Radiação Cósmica de Fundo. Em 1965 já não havia dúvidas - esta Radiação provava a já famosa do teoria do Big Bang. Um ano depois de ver a sua teoria confirmada, morria o Pe. Lemaître.

Einstein, muito antes, também já tinha dado razão a Lemaître e voltara a pôr as suas equações na forma original.

Numa tentativa de dar o valor devido ao Pe. Georges Lemaître, a ESA (European Space Agency) deu o nome de Lemaître a um dos satélites que enviou à Estação Espacial Internacional, em 2014. Mas muito mais é preciso ser feito. Lemaître não só desenvolveu a teoria do Big Bang, como foi o primeiro a descobrir a Expansão do Universo.




Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura do paper "Who discovered the Expanding Universe?" de Helge Kragh e Robert Smith. Têm saído vários artigos sobre o facto de Lemaître não ter recebido o mérito devido pela expansão do universo, veja-se por exemplo o artigo de Mario Livio na Nature: Lost in translation: Mystery of the missing text solved.

A primeira grande biografia de Lemaître já existe e foi escrita por Dominique Lambert: Un atome d'univers : La vie et l'oeuvre de Georges Lemaître.


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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A Igreja acreditava no modelo heliocêntrico? Com provas, sim.

Quando se fala do caso Galileu muitos acham que a Igreja Católica defendia que a Terra estava no centro do universo. No entanto, como em toda a sua história, a Igreja não toma posições científicas - quando quer falar recorre ao saber científico da altura.

Eram os próprios astrónomos do século XVII que defendiam um modelo astronómico com a Terra no centro do Sistema Solar e não o Sol. Galileu não estava a falar contra a Igreja, estava a falar contra todos os cientistas.

Isto fica muito claro numa famosa passagem de S. Roberto Bellarmino, o Cardeal Inquisidor que teve várias conversas pessoais e amigáveis com Galileu.

"Se houver alguma prova efectiva de que o Sol se encontra no centro do universo, de que a Terra se encontra no terceiro céu e de que o Sol não gira à volta da Terra, mas a Terra à volta do Sol, teremos de proceder com grande circunspecção na explicação das passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário, preferindo admitir que as não compreendemos do que declarar que é falsa uma opinião que se tenha demonstrado ser verdadeira. Por mim, contudo, não acreditarei que tais provas existem enquanto não mas mostrarem."

Carta de S. Roberto Bellarmino a Paolo Foscarini (1615)

O Cardeal Jesuíta S. Roberto Bellarmino foi canonizado e declarado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI em 1930.


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segunda-feira, 15 de abril de 2019

A teoria do Big Bang foi proposta por um Padre Católico

Para muitos o pai da teoria do Big Bang chama-se George Gamov, físico russo nacionalizado americano; mas poucos sabem que anos antes já esta teoria, que procura explicar a origem do Universo, tinha sido proposta pelo sacerdote Georges Lemaître.

O Pe. Lemaître nasceu em Charleroi (Bélgica), em 1894. Era filho de um médico e já desde a sua infância se distinguiu pela sua habilidade para as matemáticas e o seu espírito curioso. Essa atracção pelas ciências enriquece com a sua vocação sacerdotal.

Graças aos seus estudos, na década de 1920, teve a intuição de que o universo tinha uma história e se encontrava em evolução; opondo-se assim à concepção de todos os cientistas da época, especialmente Albert Einstein.

Assim, em 1930 propôs um modelo de universo com o nome de universo Lemaître-Einstein ou hipótese do átomo primitivo, que mais tarde foi conhecido como Big Bang. A sua reflexão baseou-se nos dados obtidos pela observação dos espectros de certas galáxias, recentemente descobertas.

Segundo o sacerdote, a história do universo divide-se em três períodos.

O primeiro é chamado “a explosão do átomo primitivo”. Segundo ele, há cinco biliões de anos existia um núcleo de matéria hiper-densa e instável que explodiu sob a forma de uma super-radioactividade. Esta explosão propagou-se durante um bilião de anos e os astrónomos percebem os seus efeitos nos raios cósmicos e nas emissões X.

Depois vem o período de equilíbrio, ou o universo estático de Einstein. Afirma que finalizada a explosão estabelece-se um equilíbrio entre as forças de repulsão cósmicas, na origem do acontecimento, e as forças de gravitação. Durante esta fase de equilíbrio, que dura dois biliões de anos, nascem as estrelas e galáxias.

Finalmente seguem-se os períodos de expansão, iniciados há dois biliões de anos. Afirma que desde aí o Universo se encontra em expansão a uma velocidade de 170 km por segundo, de maneira indefinida.

A sua teoria foi rejeitada nos Estados Unidos, e também por Albert Einstein. O Pe. Lemaître, que nunca procurou honras nem reconhecimento, deixa os seus trabalhos de cosmologia.

Anos depois, em 1948, Gamov propõe uma nova descrição do início do Universo, cujas bases estavam nitidamente presentes na cosmologia do Pe. Lemaître, que foi presidente da Pontifícia Academia das Ciências entre 1960 e 1966.

in acidigital


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sábado, 1 de dezembro de 2018

Professor de Oxford: "Quanto mais compreendo a ciência mais creio em Deus"

Os ateus querem fazer-nos crer que não somos mais do que uma colecção aleatória de moléculas, um produto final de um processo sem uma orientação. Se esta concepção fosse verdadeira, colocaria em causa a racionalidade de que necessitamos para fazer ciência. Se o cérebro fosse, na realidade, apenas o resultado de um processo sem orientação, então não existiriam razões para acreditar na sua capacidade de nos revelar a verdade.

Para mim, a beleza das leis científicas só reforça a minha fé de uma maneira inteligente. Quanto mais compreendo a ciência, mais creio em Deus pela maravilha da sua amplitude, sofisticação e integridade da Sua criação. Longe de estar em desacordo com a ciência, a fé cristã tem um sentido científico perfeito. 

John Lennox, matemático e filósofo das ciências na Universidade de Oxford


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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

5 milagres que são autênticos mistérios para a Ciência

Um milagre é um acontecimento sobrenatural, ou seja, que vai além do natural: contraria as leis da natureza e a ciência não consegue explicá-lo, por mais que os cientistas analisem, reanalisem e debatam.

Há relatos de milagres em praticamente todas as religiões, e, ao longo do tempo, a ciência desmentiu muitos deles. Outros, porém, continuam inexplicáveis e assombrosos como os 10 milagres elencados pelo Live Science.

Particularmente interessante é o facto de que, dos dez milagres, todos os dez são milagres cristãos – e 6 deles envolvem Nossa Senhora!

Destacamos cinco dos milagres listados pelo Live Science:

1 – O milagre do sol, em Fátima
A 13 de Outubro de 1917, 70 mil pessoas, incluindo jornalistas, testemunharam o milagre que tinha sido anunciado pelas três crianças a quem Nossa Senhora tinha aparecido. Ao meio-dia, depois de uma forte chuva que parou de repente, as nuvens abriram-se diante dos olhos de todos e o sol surgiu no céu como um disco luminoso opaco, que girava em espiral e emitia luzes coloridas. O fenómeno durou cerca de 10 minutos e está na lista oficial de milagres reconhecidos pelo Vaticano. Os cépticos tentam atribuir o evento ao fenómeno atmosférico do parélio, mas sem provas e sem explicar como foi que as crianças o “previram”.

2 – O sangue de São Januário
São Januário ou “San Gennaro”, em italiano, é o padroeiro de Nápoles. Ele foi martirizado no século IV e um pouco do seu sangue foi guardado num relicário. Devendo estar completamente seco depois de 1700 anos, o que acontece é que, todos os anos, no dia 19 de Setembro, o sangue se liquefaz diante de milhares de fiéis. A liquefação começou a acontecer depois do terremoto de 1980, que matou mais de 2500 pessoas em Nápoles. Os cientistas têm muitas teorias sobre o caso, mas até hoje não conseguiram explicar o fenómeno.

3 – O corpo incorrupto de Santa Bernadette de Lourdes
O corpo de Santa Bernadette de Lourdes, que faleceu em 1879, continua em exposição na Capela de Santa Bernadette, na França, perfeitamente incorrupto. A primeira exumação foi feita em 1909 e os médicos que a realizaram ficaram surpresos ao constatar que o corpo não só não exalava qualquer odor, como também estava em perfeito estado de conservação. A pele estava macia e com consistência quase normal ao ser cortada, o que é inexplicável pelas leis da natureza. O corpo foi reavaliado em outras duas ocasiões, com as mesmas constatações de incorruptibilidade milagrosa.

4 – A imagem da Virgem de Guadalupe
A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe surgiu em 1531, quando o índio Juan Diego disse ter visto a Virgem Maria num campo próximo da Cidade do México. Como prova, ele apresentou o seu manto, um tecido feito de fibra de cacto e de qualidade bem pobre, no qual a imagem de Maria teria sido “impressa” depois da aparição. O material foi analisado em diversas ocasiões por cientistas, que nunca conseguiram determinar como é que a imagem surgiu sobre o tecido. Mais impressionante ainda: não é uma imagem pintada ou estampada “no” tecido: ela “flutua” ligeiramente “acima” do tecido! Igualmente sem explicação é a perfeita preservação do manto e da imagem mesmo depois de 500 anos. O ícone está exposto na Basílica de Guadalupe, no México.

5 – O Santo Sudário
Provavelmente a relíquia mais famosa da História, o Sudário de Turim não é considerado um milagre propriamente dito, mas nenhuma explicação conseguiu até hoje comprovar o que é e como é que a imagem impressa nele foi gerada. Trata-se do tecido que teria envolvido o corpo de Jesus no sepulcro. A imagem impressa no sudário seria, portanto, a do seu corpo. Exaustivamente analisado e estudado por uma volumosa quantidade de cientistas, o sudário parece apresentar o mesmo fenómeno do manto com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe: a impressão do suposto corpo de Jesus não é directa sobre o tecido, mas “flutua” ligeiramente acima dele. As tentativas de reproduzir a impressão nunca resultaram e, até hoje, não se explica de que forma a imagem foi gerada sobre o sudário; o que parece mais provável é que ela tenha sido impressa mediante a irradiação de uma luz poderosa, originada do próprio corpo que ficou impresso. Para os fiéis, trata-se de uma “prova” da ressurreição de Cristo. 

in Aleteia


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O mito de que os Cristãos recorriam ao 'deus-tapa-buracos'

Muitos dizem que não acreditam em Deus porque não precisam de um Deus para explicar o que não conhecem. Mas qualquer Cristão que saiba o mínimo sobre a sua Fé também não acredita num Deus assim. A fé dos Cristãos em Deus não assenta num deus-tapa-buracos. Pelo contrário, se o desconhecido estiver na própria natureza, um Cristão do século XXI vai procurar explicações na ciência e não na teologia.

O problema é que existe a ideia de que se hoje em dia um Cristão recorre à ciência, no passado nem sempre foi assim. Muitos julgam que, quando a ciência não estava tão avançada, os Cristãos e outros crentes usavam Deus para explicar fenómenos que não compreendiam, como o movimento dos planetas ou o aparecimento do arco-íris.

Mas a história da Ciência mostra que alguns dos principais cientistas da Europa Cristã não pensavam assim. Não só não recorriam a Deus para explicar a natureza, como em plena Idade Média escreveram explicitamente contra essa ideia. 

Vejam o que diz um um dos maiores historiadores de ciência num recente artigo:
Mestres que praticavam filosofia natural, as ciências matemáticas ou medicina, tipicamente tinham um forte sentido da autonomia dos seus métodos. Portanto as suas explicações naturais não desapareciam quando continuavam [os estudos] em teologia. 
Já no século XII, Gilbert de Poitiers [onde era Bispo] chamou a atenção para os diferentes significados de algumas palavras quando usadas em teologia e em filosofia natural. 
No século XIII, tanto o teólogo [Sto.] Alberto Magno e o mestre de artes Siger de Brabant asseguraram para si o direito e o dever de ignorar os milagres e a fé quando raciocinavam como physici (filósofos naturais). [O Bispo inglês] John Blund (d. 1248) não via problema nenhum em discordar com os santos sobre o mundo natural. Em matérias de fé, os santos eram porta-vozes do Espírito Santo, mas em "máterias naturais" (de rebus physicis), falavam apenas como homens, e portanto podiam-se enganar. 
No século XIV, o teólogo [e Bispo] Nicole Oresme discutiu muitas coisas inexplicáveis que, dizia ele, tinham ou eventualmente teriam explicações físicas: 
"Não há razão para recorrer aos céus, o último refúgio dos fracos, ou aos demónios, ou ao nosso glorioso Deus como se ele produzisse estes efeitos directamente, em vez de àqueles efeitos cujas causas nós julgamos serem bem conhecidas por nós." 
Entre os intelectuais, a ideia de que as causas secundárias eram necessariamente naturais era ampla, desde o uso de modelos mecânicos na astronomia ao incrível naturalismo do rabino e astrónomo Levi ben Gerson, que excluía os milagres acima da esfera da lua quando interpretava as escrituras. As conclusões sobre o mundo natural estavam desligadas dos milagres através de expressões como "de acordo com a física", "falando naturalmente", ou "de acordo com a luz da razão natural". O único ponto destas actividades era resolver problemas apenas com critérios acessíveis aos sentidos e ao intelecto.  
Michael Shank, "Natural Knowledge in the Latin Middle Ages" in Wrestling with Nature. The University of Chicago Press, 2011.


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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O Papa visitou a Academia das Ciências: 2 coisas que não sabiam

Há uns dias o Papa foi à Pontifícia Academia das Ciências e discursou para os seus membros.

Duas coisas que provavelmente não sabiam a propósito desta visita:

1. A Igreja tem uma Pontifícia Academia das Ciências. 




Sim, é verdade. E alguns dos cientistas com mais prestígio do mundo fazem parte dela. Esta Academia das Ciências, que aconselha o Papa em matérias científicas, é sucessora da primeira Academia de Ciências do mundo: a Academia dos Linces, do qual Galileu fez parte.

Na lista dos membros desta Academia Pontifícia das Ciências podem encontrar alguns dos nomes mais famosos da história da Ciência no século XX:
  • Ernest Rutherford
  • Alexis Carrel
  • Max Planck
  • Niels Bohr
  • Werner Heisenberg
  • Paul Dirac
  • Erwin Schrodinger
  • Alexander Fleming
  • Georges Lemaitre

2. Stephen Hawking é membro da Pontifícia Academia das Ciências.



Hawking é um dos físicos mais famosos de todo o mundo e é ateu. 

Em Setembro, pouco antes da canonização de Madre Teresa de Calcutá, circulou na internet um pedido de oração pela conversão e cura completa do Stephen Hawking.

Católicos por todo o mundo, muitos deles cientistas fizeram uma novena à Madre Teresa para pedir a conversão e a cura de Hawking.  Stephen Hawking costuma ir a estes encontros da Academia há anos, já o tinha feito com os Papas João Paulo II e Bento XVI. No entanto, os anos vão avançando e a sua doença não tem melhorado, antes pelo contrário.

Mas, apesar da sua idade e do estado avançado da sua doença, Stephen Hawking não quis deixar de ir a Roma a semana passada para estar com o Papa. Como doente e vítima de uma grande pobreza espiritual, parece que a Madre Teresa não o conseguiu largar.

É um bom incentivo para continuar a rezar pela sua conversão e cura. Se tal acontecesse, muitas outras conversões se seguiriam.

Nuno CB


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quarta-feira, 25 de maio de 2016

O Santo que começou a contar os anos 'antes e depois de Cristo'

Quando S. Beda escreveu a Historia Ecclesiastica, havia duas maneiras frequentes de referir as datas. Uma era usar indicções, que eram ciclos de 15 anos, contados a partir de 312 d.C. (o ano em que Constantino se tornou imperador de Roma). Havia três tipos diferentes de indicções, cada um começando num dia diferente do ano. A outra maneira era usar anos de reinado - o reinado do imperador romano, por exemplo, ou do governante do reino em questão. Isto significa que ao discutir conflictos entre reinos, a data teria que ser dada em anos de reinado de todos os reis envolvidos. S. Beda usou ambas as maneiras, mas adoptou uma terceira como o seu método principal: o anno domini (AD) inventado por Dionísio Exíguo [NT: em português "depois de Cristo"] [1]. Apesar de S. Beda não ter inventado este método, o facto de o ter adopptado e de o ter recomendado em De Temporum Ratione, a sua obra sobre cronologia, é a razão principal pela qual é hoje muito usado [1,2].

[1] Colgrave, Bertram; Mynors, R. A. B. (1969). "Introduction". Bede's Ecclesiastical History of the English People. Oxford: Clarendon Press.
[2] Stenton, F. M. (1971). Anglo-Saxon England (Third ed.). Oxford: Oxford University Press.

adaptado de en.wikipedia.org


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domingo, 13 de março de 2016

Viagem ao mundo perdido

Os investigadores Luana Giurgevich e Henrique Leitão repararam que, nalguns exemplares da Biblioteca Nacional (em Lisboa), havia marcas de posse de antigos conventos. Por aí começaram a pesquisa, para tentar recuperar o inventário dessas colecções e descobrir os hábitos de leitura e o conhecimento científico dos primitivos possuidores desses livros.

O trabalho de seis anos teve vários resultados. Em primeiro lugar, um livro de quase mil páginas, chamado «Clavis Bibliothecarum», com catálogos e inventários de bibliotecas religiosas em Portugal desde o século X até à extinção das ordens religiosas.

Em segundo lugar, descobriu-se que, há uns séculos, houve em Portugal muitas bibliotecas de grandes dimensões, apetrechadas com os livros científicos mais modernos. Quase todos os livros se perderam. O terramoto de 1755 deu um contributo. Depois, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas e as respectivas bibliotecas foram confiscadas e perderam-se. A seguir, as invasões francesas e principalmente os ataques à Igreja, em particular a extinção das ordens religiosas no século XIX, deram descaminho ao resto. 

Do que foi um património cultural riquíssimo, acumulado e valorizado durante séculos, não resta praticamente nada, a não ser os catálogos do que havia e já não há. Giurgevich e Leitão identificaram mais de um milhar de inventários de livros, provenientes de cerca de quatrocentos mosteiros e casas religiosas no nosso país. Em Portugal, praticamente só a Igreja se interessava por livros e, sobretudo, só a Igreja é que os disponibilizava à população, mas não estávamos mal servidos.

Poucos anos antes de começar a destruição das bibliotecas portuguesas, o Embaixador português em Londres escrevia para Lisboa, ao Rei D. José: «Esta universidade [a de Cambridge] se compõe de 17 colégios e a de Oxford de 23; eu corri todos novamente e a outra tinha visto já também e a sua grande biblioteca, que consta de muitas casas, mas nada digno de notar; já disse a Vossa Senhoria que tudo isto se parece com as bibliotecas dos nossos conventos».

É bom ficar a saber, com dados muito concretos, que Portugal teve a oportunidade de ser um país muito avançado, culturalmente e cientificamente. Só é pena termos perdido, logo a seguir, essa oportunidade, em nome da tentativa de erradicar a influência da Igreja católica.
Por que é que os conventos multiplicavam as bibliotecas, atafulhadas em livros? Os monges acreditavam que «claustrum sine armario, quasi castrum sine armamentario» (claustro sem biblioteca, era como uma fortaleza sem armas). O argumento soa belicoso, mas naquela época era convincente, a julgar pelos milhares e milhares de livros destas centenas de bibliotecas das instituições da Igreja.

Havia de tudo. Literatura, teologia, história, ciências da natureza, medicina, matemática... mas havia também arte e livros preciosos, como as quatro Bíblias conservadas no mosteiro de Alcobaça dentro da arca chamada «das três chaves».

Há uma semana, na sessão de lançamento do livro, D. Manuel Clemente comentou que este imenso catálogo desvendou algo da cultura do nosso país nessas épocas passadas: a primeira indicação é que era uma cultura sistemática.

Realmente, a dispersão do espólio das antigas bibliotecas portuguesas tinha tirado contexto aos livros que sobreviveram. Os poucos que restavam pareciam exemplares soltos, até esta recuperação dos inventários mostrar a estrutura lógica das colecções.

A investigação que deu origem ao «Clavis Bibliothecarum» começou como um meio para compreender e caracterizar os mecanismos de aquisição e circulação das ideias e dos livros científicos. Porque o desenvolvimento da ciência num país depende muito da formação científica e das bibliotecas e isso explica, em parte, o actual atraso português. Quando outros países puseram a render o seu património de conhecimento, em Portugal, dedicámo-nos a destruir os lugares privilegiados da ciência. Deu trabalho, sem dúvida, arruinar tão completamente o que havia, mas, ao fim de três séculos, conseguiu-se.

Os autores do «Clavis Bibliothecarum» passaram seis anos a abrir caixas e consultar documentação sobre o património perdido. Um trabalho brilhante, que respeita minuciosamente a história. Mas deixa o leitor desassossegado, a pensar como podia ser hoje o nosso país, se não fosse esta militância destruidora da cultura católica.

José Maria C.S. André in Correio dos Açores, 13-III-2016


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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Pio XII, Georges Lemaître e a teoria do Big Bang

O Padre Georges Lemaître expõe ao venerável Papa Pio XII a teoria do Big Bang, que ele havia formulado. O Papa recebeu a tese com entusiasmo e simpatia chegando mesmo a bradar que a teoria era a prova científica da existência de Deus, ao que o Padre Lemaître respondeu: "Menos, Santidade".

Num discurso a 22 de Novembro de 1951, o Pontífice declarava que “realmente parece que a ciência moderna, olhando para milhões de séculos atrás, conseguiu tornar-se testemunha daquele primordial 'FIAT LUX', pelo qual do nada irrompe, com a matéria, um mar de luz e radiação, enquanto as partículas químicas dos elementos se separam e se reúnem em milhões de galáxias.”

in Zenit


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sábado, 2 de janeiro de 2016

O Ano Internacional da Astronomia e o conhecimento de Galileu

2009 foi um ano de duas importantes comemorações. A nível mundial, por iniciativa da Organização das Nações Unidas, celebrou-se o Ano Internacional da Astronomia, aproveitando a ocasião dos quatrocentos anos sobre o início das célebres observações telescópicas realizadas por Galileu (1609); a uma escala nacional, assinalaram-se os 250 anos da expulsão da Companhia de Jesus dos territórios portugueses, em 1759. Talvez muitos dos que acompanharam estas iniciativas não se tenham dado conta da ironia subtil que a simultaneidade das duas comemorações representa para o nosso país: é que, se houve instituição a quem se ficou a dever a divulgação das ideias de Galileu em Portugal, foi a Companhia de Jesus.

Relembremos os factos essenciais. Nos últimos meses de 1609, Galileu Galilei (1564-1648) iniciou a observação sistemática dos céus com um telescópio. Pouco depois, em Março de 1610, publicava em Veneza o Sidereus Nuncius, o «Mensageiro das Estrelas», um primeiro relato dos factos extraordinários que observara. O livro foi um sucesso imediato e Galileu passou, de um dia para outro, de professor sem distinção na Universidade de Pádua para o mais importante cientista da Europa.

As observações telescópicas de Galileu são talvez o acontecimento mais dramático nesse denso complexo de factos a que se convencionou chamar a “revolução científica” do século XVII. Essencialmente, ele observou cinco novos factos: i) a aparência rugosa e acidentada da superfície lunar; ii) o muito maior número de estrelas, para lá das que são visíveis a olho nu; iii) os satélites de Júpiter; iv) a configuração peculiar de Saturno; v) as fases do planeta Vénus. Se bem que nenhuma destas observações sirva como prova do sistema heliocêntrico que Copérnico havia desenvolvido no De revolutionibus (1543), elas constituem golpes muito sérios nas ideias tradicionais da filosofia natural aristotélica e da astronomia ptolomaica. Galileu estava consciente de não possuir, em rigor, uma prova do sistema heliocêntrico, mas percebeu que estas novidades celestes poderiam ser usadas como armas na campanha que então iniciou em favor do sistema heliocêntrico. Por isso se pode dizer que o grande debate cosmológico que ocupará todo o século XVII até à síntese newtoniana, teve o seu verdadeiro começo com as observações telescópicas de Galileu.

Convém ter presentes as enormes dificuldades que o cientista italiano teve de transpor. Uma delas, por exemplo, era relativa ao próprio instrumento com que levara a cabo essas descobertas. Os telescópios do início do século XVII são instrumentos muitíssimo rudimentares, com parâmetros ópticos muito deficientes -- poderes de ampliação e resoluções medíocres -- gerando imagens afectadas por vários tipos de aberrações e distorções ópticas. Que Galileu tenha sido capaz de fazer descobertas tão notáveis com instrumentos tão deficientes é um dos maiores testemunhos do seu génio científico e da sua determinação de carácter, mas seria ingénuo não perceber que essas dificuldades foram obstáculos muito significativos para a aceitação dos novos fenómenos siderais.

O aparecimento do Sidereus Nuncius significou muito mais do que a revelação de novidades astronómicas e de um novo instrumento científico: Galileu alterou profundamente as regras de validação de novos factos científicos, transformou os códigos habituais de divulgação científica, fez um uso inovador das representações gráficas, questionou a tradicional separação entre filosofia natural e astronomia, redefiniu os próprios objectivos da astronomia. É impossível explicar aqui todas as consequências que estas alterações introduziram na prática científica, mas não oferece qualquer dúvida que há uma certa “modernidade” em ciência cujas raízes se podem relacionar com estes factos. E por isso, relembrar estes acontecimentos e o papel crucial desempenhado por Galileu, como se fez ao longo de 2009 com a realização do Ano Internacional da Astronomia, foi uma decisão mais do que justificada.

No ano passado relembrou-se também a expulsão da Companhia de Jesus dos territórios portugueses, pelo então Conde de Oeiras. Os estudos e conferências que se realizaram ao longo de 2009, reunindo os melhores especialistas portugueses e estrangeiros, tiveram o mérito de recordar novamente a extrema complexidade desses acontecimentos, uma complexidade que impossibilita qualquer explicação simples e monocausal, ao mesmo tempo que apresentaram os resultados das mais recentes abordagens historiográficas, em geral mais serenas, mais críticas e mais profundas do que as de tempos passados.

Do ponto de vista do desenvolvimento científico e cultural, a expulsão da Companhia de Jesus do nosso país foi um acontecimento de contornos dramáticos. As correntes historiográficas dominantes durante o século XIX e quase todo o século XX olharam para estes acontecimentos de forma pouco crítica, tomando como base das suas análises os textos da própria propaganda pombalina – que, muito naturalmente, apresentam essa expulsão como uma “modernização” do ensino e da cultura. Mas este não é hoje o juízo da maior parte dos historiadores, e, em especial, não é o dos historiadores de ciência. Na impossibilidade de se fazer aqui nem sequer a mais breve das análises, recordam-se apenas alguns números. 

Acerca da reforma do ensino secundário importa ter presente que em 1759, nas vésperas da expulsão, o número estimado de alunos em colégios jesuítas de Portugal andaria pelos 20.000. O desmantelamento da rede jesuíta de colégios correspondeu efectivamente a um colapso de proporções impressionantes pois o país só voltaria a registar o mesmo número de alunos do ensino secundário no princípio do século XX, isto é, 150 anos depois.1 Quanto ao ensino universitário, nas décadas que antecederam a reforma de Pombal, mais precisamente nos anos entre 1724 e 1772, o número médio de alunos na universidade de Coimbra foi de 2827 alunos por ano. No período posterior à Reforma, entre 1772 e 1820, este número contraiu-se para uma aterradora média anual de 451 alunos.2 Uma quebra vertiginosa à qual, para ser mais completo e rigoroso, se deveriam levar em conta os alunos universitários perdidos com o fecho da universidade de Évora.

Os efeitos desta contracção brutal no universo educativo do país (pré-universitário e universitário) sentir-se-iam durante muitas décadas, afectando drasticamente toda a vida cultural e as actividades científicas muito em particular. Além disso, o desaparecimento da rede internacional jesuíta e algumas medidas pombalinas, muito mais ideológicas do que sensatas, como o abandono do latim na redacção de textos científicos universitários, condenariam a ciência praticada no nosso país na segunda metade do séc. XVIII, e mesmo nas décadas seguintes, a uma dolorosa marginalidade europeia. Os matemáticos José Anastácio da Cunha e Daniel Augusto da Silva, por exemplo, escrevendo em português e não dispondo de canais para a divulgação para os seus importantes textos, acabaram por ter um impacto irrelevante na ciência europeia do seu tempo. 

Há também indicações fortes que levam a suspeitar que o património científico dos colégios jesuítas foi selectivamente destruído, para não permitir a mais pequena contradição ao axioma pombalino de que a Companhia de Jesus havia ignorado e sufocado o cultivo das ciências; pelo menos a habitual invocação do terramoto de 1755 para explicar o quase total desaparecimento desse património, não parece hoje em dia credível. Todos estes assuntos foram analisados em comunicações e publicações apresentadas no ano passado e sobre eles sabe-me muito mais agora do que há décadas atrás.

O que é ainda pouco conhecido fora dos círculos de especialistas em história da ciência é que a Companhia de Jesus foi a porta de entrada das novidades galileanas no nosso país, a tal ponto que, se não fossem os matemáticos jesuítas, essas notícias só se teriam conhecido muito mais tarde em Portugal. De facto, nas primeiras décadas do século XVII, isto é, durante o período mais crítico dos debates cosmológicos, uma instituição em Portugal, a chamada «Aula da Esfera» do colégio de Santo Antão em Lisboa, tinha uma ligação muito estreita com o grupo de matemáticos do Colégio Romano e estes, por sua vez, estavam no verdadeiro centro europeu desses debates. 

Embora os historiadores do passado tenham, na sua esmagadora maioria, passado ao lado desta peculiar conjuntura institucional, é hoje reconhecido que a «Aula da Esfera» foi uma instituição a todos os títulos singular na história científica portuguesa. Nesta «Aula» se ensinaram ciências matemáticas e astronómicas ininterruptamente durante cento e setenta anos, o que é possivelmente um caso único no nosso país. Foi a mais internacional instituição de ensino na nossa história e entre os seus mestres se contaram alguns dos nomes mais eminentes da ciência do tempo. Aí se ensinaram e se praticaram, muitas vezes com carácter verdadeiramente pioneiro entre nós, temas científicos tão variados como a matemática, a astronomia de observação e a astronomia teórica, a náutica, a cosmografia, a teoria do calendário, a cartografia, a hidráulica, a estática, a óptica geométrica, a fortificação, a construção de instrumentos, etc.3 E foi por aí que as novidades de Galileu e o telescópio fizeram a sua entrada em Portugal.

Através dos canais proporcionados pela Companhia de Jesus, as notícias acerca de Galileu e as novas observações telescópicas celestes chegaram seguramente a Lisboa muito cedo. Em 1612 essas notícias já haviam alcançado a Índia, de onde um missionário jesuíta escrevia para a Europa pedindo mais informações. Espantosamente, já em 1614, um missionário português em Pequim fora informado desses descobrimentos e, entusiasmado, redigira um resumo dessas novidades, em chinês. O texto em questão é o Tianwen lüe (Sumário de questões sobre o Céu), escrito pelo jesuíta português Manuel Dias júnior (1574-1659), e que tem a honra maior de ser o primeiro texto que deu a conhecer as descobertas telescópicas de Galileu na China. O texto causou grande impacto entre os literatos chineses e foi reeditado várias vezes.

Em 1614 veio de Roma, para leccionar matemática na «Aula da Esfera», o italiano Giovanni Paolo Lembo (ca. 1570-1618) que em Roma construíra os primeiros telescópios dos jesuítas e que conhecera pessoalmente Galileu no período em que este e os astrónomos do colégio romano trocavam informações acerca das suas respectivas observações. Recorde-se que em Maio de 1611 Galileu fora recebido apoteoticamente nesse colégio, naquilo que foi a primeira grande cerimónia de consagração na vida do cientista. O curso que Giovanni Paolo Lembo leu em Santo Antão nos anos 1615-1617 é um documento da maior importância na história da ciência em Portugal pois contém o registo das primeiras observações telescópicas feitas no nosso país e a indicação da construção dos primeiros telescópios entre nós. 

Lembo descreve as observações por ele feitas em Lisboa com um “longemira”, comentando detalhadamente as implicações cosmológicas desses novos factos. Em particular, detém-se na explicação das fases de Vénus, observação que, como explica, mostra que o tradicional sistema geocêntrico de Ptolomeu não pode continuar a ser aceite. Para além de conter descrições das primeiras observações telescópicas realizadas em Portugal, o curso de Lembo tem também importantes instruções para a construção de telescópios, sendo muito provável que a «Aula da Esfera» tenha sido a primeira instituição do mundo onde os alunos foram iniciados na construção de telescópios.

Nos anos seguintes foi na «Aula da Esfera» que se continuaram a fazer observações com telescópios e a discutir as suas profundas implicações. Todos os professores da «Aula da Esfera» colocaram a discussão das observações telescópicas de Galileu no centro das suas lições. Todos eles rejeitaram o sistema ptolomaico e, recusando a adesão ao sistema coperniciano, optaram pela solução intermédia do sistema de Tycho Brahe. Deveu-se também a um professor dessa Aula, o jesuíta Cristovão Borri, a publicação da Collecta astronomica, o primeiro impresso com explicações detalhadas acerca das novidades galileanas e do funcionamento do telescópio.

Por muito surpreendente que isso possa parecer aos menos conhecedores da história científica nacional, a comemoração dos quatrocentos anos das descobertas telescópicas de Galileu em Portugal é, antes de mais nada, a celebração da «Aula da Esfera» do colégio de Santo Antão, e a lembrança de um tempo em que, por via dos canais proporcionados pelos jesuítas, as mais recentes novidades científicas circulavam entre a Portugal, a Europa e o resto do Mundo com uma grande celeridade, enchendo de espanto tanto os astrónomos de Pádua e Lisboa, como os de Goa ou Pequim.


Henrique Leitão in Lumen Veritatis (Boletim da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa), ano XVI, n.º 1, Abril 2010 


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