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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Papa Leão, escute-nos! Estamos órfãos!

No livro-entrevista com Elise Ann Allen: "Léon XIV, ciudadano del mundo, misionero del siglo XXI (Penguin Peru, 2025)", o Papa Leão abordou o tema da liturgia tradicional, e dos seus defensores, dizendo que não nos conhece bem e que ainda não teve ocasião de encontrar fiéis da nossa sensibilidade.

Pedimos a Christian Marquant, presidente do Cœtus Internationalis Summorum Pontificum, que organiza todos os anos, em Outubro, uma peregrinação a Roma, que partilhasse connosco as suas reflexões e experiências no domínio do diálogo com as autoridades da Igreja, tanto no Vaticano como em França, com a CEF ou com os chamados “sínodos diocesanos”.

PAIX LITURGIQUE (PL) – Caro Christian, como compreende a observação do Santo Padre?
Christian Marquant (CM) – Antes de mais, devemos agradecer ao Papa Leão por se interessar por nós e por esta questão. Depois, se me permite, é preciso voltarmos à realidade actual.

PL – Qual é essa realidade?
CM – É muito simples: tudo é feito na Igreja para nos tornar inaudíveis e para fazer crer que não existimos... Infelizmente, os inimigos da paz fazem isso há muito tempo, mas especialmente há quatro anos, pois anteriormente, mesmo que a situação não fosse idílica, permitia-nos conservar um laço directo e real com as autoridades da Igreja.

PL – Pode precisar melhor?
CM – Tomemos um exemplo: desde 1988 e até 2021 existia em Roma a Comissão Ecclesia Dei. Teoricamente tinha por missão “facilitar a plena comunhão eclesial dos padres, seminaristas e comunidades religiosas que mantinham vínculos com a FSSPX”. Um objectivo algo estreito, o que levava a FSSPX a dizer que era uma máquina de “rallying”... Na realidade, era competente em matéria das comunidades tradicionais. Mas, concretamente, tornara-se também para nós, leigos, um verdadeiro lugar de encontro e de diálogo muito livre.

PL – De que modo?
CM – Os leigos podiam dirigir-se a ela por correio e, quando passavam por Roma, encontrar os seus responsáveis e membros para lhes expor as nossas dificuldades.

PL – Chegou a fazê-lo?
CM – Inúmeras vezes! Quer no tempo do Cardeal Mayer, que foi Presidente da Comissão, quer dos Secretários da mesma, Mons. Perl – que era um grande homem de escuta, sempre muito aberto – Mons. Pozzo, Mons. Descourtieux e, evidentemente, todas as suas equipas.

PL – Isso terminou?
CM – Desde 19 de Janeiro de 2019, a Comissão foi suprimida.

PL – Mas existem outros interlocutores possíveis em Roma?
CM – Outrora existia um costume bem católico e caritativo de receber nos Dicastérios, no nosso caso no do Culto Divino.

PL – Cujos responsáveis os acolhiam?
CM – Amistosamente, pode-se dizer. Assim, desde há trinta anos creio ter sido recebido por todos os Prefeitos do Culto Divino – os cardeais Medina, Arinze, Cañizares e Robert Sarah – para lhes expor as nossas dificuldades.

PL – E isso foi útil?
CM – Utilíssimo! Foi graças a esses contactos que pudemos ser recebidos pelo Cardeal Ratzinger e por muitos outros cardeais ou oficiais da Cúria. Foi também assim que pudemos, por exemplo, convidar o Cardeal Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, a celebrar Missa em São Pedro de Roma na primeira peregrinação Summorum Pontificum, em 2012, e que pudemos evocar uma multidão de outros assuntos.

PL – Mas isso já não é possível?
CM – Desde a partida do Cardeal Sarah do Dicastério do Culto Divino, já não me foi possível encontrar o seu sucessor, o Cardeal Roche.

PL – Tentou?
CM – Solicitei o cardeal por carta e por correio electrónico inúmeras vezes, passei mais vezes ainda pelos seus gabinetes... em vão. O Cardeal Roche está muito ocupado...

PL – É desagradável?
CM – É simplesmente dramático. Sentimo-nos como órfãos. Nos Dicastérios e nas repartições, fala-se da liturgia tradicional e daqueles que a ela estão ligados, mas sem nos conhecer, sem manter o mínimo contacto connosco.

PL – Nenhum diálogo?
CM – Não, nenhum diálogo, numa época em que este é diariamente apresentado como uma caridade indispensável.

PL – Mas existe o Sínodo dos Bispos e as suas assembleias…
CM – O Sínodo dos Bispos em Roma, como os sínodos diocesanos, multiplica as suas assembleias, mas ignora-nos como se não existíssemos.

PL – Não exagera um pouco?
CM – Poderia escrever um verdadeiro livro sobre o último sínodo da Diocese de Versalhes, ao qual muitos grupos quiseram participar, mas todos foram afastados. O diálogo só existe com aqueles que partilham aproximadamente os mesmos pontos de vista!

PL – E ao nível das Conferências Episcopais?
CM – A minha experiência limita-se à França, mas também aí enfrentamos um encerramento autístico. Embora numerosos grupos estejam representados junto da CEF, não existe qualquer representação, mesmo informal, dos fiéis tradicionais junto dos nossos bispos, nem um contacto estabelecido com eles. Não é por falta de o ter pedido muitas vezes. Nem sequer contactos oficiosos. Nada. Só na Igreja se vê isto – seria inimaginável no mundo político ou empresarial.

PL – Mas não existe um grupo de reflexão CEF/Tradição na Igreja de França?
CM – A CEF só conhece as comunidades ex-Ecclesia Dei, que falam apenas em nome próprio – e, aliás, é de ver a forma cavaleira como são tratadas. Ora, há numerosos padres diocesanos que celebram a Missa tradicional. E há sobretudo a massa dos fiéis leigos que, para a CEF, não existem.

PL – Porque os leigos constituem uma realidade particular?
CM – Pensava eu que isso era, teoricamente, o caso desde o Concílio Vaticano II. Mas parece que tal não concerne a todos os leigos, apenas àqueles que aderem às ideias novas.

PL – Sois, portanto, órfãos?
CM – Somos órfãos, ignorados e, digamo-lo, cuidadosamente afastados da vida eclesial. Pelo menos, as palavras do Papa deixam-nos esperar que as coisas possam mudar. Esse será o objecto das nossas orações durante a décima quarta peregrinação Summorum Pontificum a Roma, de 23 a 25 de Outubro próximo.

in Paix Liturgique


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sábado, 20 de dezembro de 2025

O empobrecido ritual de baptismo das crianças

A reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II revestiu-se duma dupla característica: a de ter aparecido como uma metamorfose extremamente profunda, o que explica as oposições imediatas com que se defrontou (por exemplo, as do Cardeal Ratzinger, desde 1966), e a de ter transformado o conjunto do culto católico –  missa, sacramentos, bênçãos – sem nada deixar intacto (quando aconteceu que restassem elementos da liturgia tradicional – como por exemplo, no caso de certas orações –, os reformadores não deixaram de os fazer passar a todos por uma qualquer transformação, ainda que pequena, como se se tratasse de uma questão de princípio).

Assim, se bem que a Paix Liturgique se interesse em particular pelo que foi mudado na e com a missa nova, uma vez que o seu projecto essencial consiste em fazer conhecer, amar e defender cada vez mais a missa tradicional, nem por isso deixa de considerar necessário que se tenha em conta o conjunto global dessa reforma que quis ser total. Os fiéis ligados à missa tradicional assim o merecem, pois a sua vida cristã leva-os a ter de participar noutras cerimónias além da missa: baptismos, crismas, exéquias, ordenações sacerdotais... E também aí, eles se ressentem de um grande mal-estar. Para que o possam expressar correctamente, estimámos ser oportuno fornecer-lhes alguns elementos de análise nesta carta e nas que se seguirão.
 
A nova cerimónia do baptismo das crianças: um ritual irénico

Concentraremos o nosso estudo no baptismo das crianças, a fim de comparar o respectivo ritual tradicional com aquele na forma nova (1). Nesta, o baptismo traduz-se numa cerimónia claramente mais longa do que a antiga, na qual o discurso ocupa um lugar de destaque, incluindo-se na cerimónia uma liturgia da palavra ao que se junta o que, para todos os efeitos, é uma homilia (2). Ao mesmo tempo, a mensagem transmitida é claramente mais débil, pelo menos num ponto: o aspecto do combate contra o demónio, que caracteriza fortemente a cerimónia antiga e que, na prática, resulta esbatido na nova cerimónia, o que se manifesta nomeadamente pelo desaparecimento de exorcismos propriamente ditos e de ritos com valor de exorcismo.

É como se os redactores do novo ritual do baptismo já não tivessem uma fé muito firme na doutrina do pecado original. O pecado original mais não seria então do que a contaminação das almas vindas de novo ao mundo por uma influência totalizada de todas as culpas passadas, presentes e vindouras. Os novos teólogos preferem falar de “pecado do mundo”, como é o caso do P. André-Marie Dubarle, OP (3), ou do P. Gustave Martelet, SJ, em Libre réponse à un scandale. La faute originelle, la souffrance et la mort (4), do P. Jean-Michel Maldamé, OP, etc.
  
Uma tonalidade menos sagrada

No ritual tradicional de Paulo V, as fórmulas são fixas, cerimoniais, e acompanhadas por gestos ritualizados: exsuflação (espírito do mal expulso, Espírito Santo infundido); repetidos sinais da cruz; gustação do sal (sal exorcizado e exorcizante, sal de sabedoria, anúncio do alimento eucarístico); dois exorcismos propriamente ditos; imposição da mão e imposições da estola (tomada de poder em nome de Cristo sobre a criança que estava retida pelo demónio); rito da Ephpheta (saliva sobre as narinas do baptizado e sobre as suas orelhas, para abrir os seus sentidos às coisas de Deus); unções obrigatórias com o óleo dos catecúmenos (óleo de salvação; o que corresponde, de facto, a um outro tipo de exorcismo); passagem da estola roxa de penitência, que se usa durante toda a cerimónia preparatória, à estola branca da alegria, para o baptismo propriamente dito.

Já o baptismo novo, é precedido por uma fórmula de acolhimento que evoca uma reunião profana: «O celebrante saúda os presentes, sobretudo os pais e os padrinhos». Duma análise de diversas versões nacionais resulta que chega a ser sugerido que se o sacerdote os conhece, pode chamá-los pelos seus nomes. Aqui, as variantes possíveis também são numerosas, com aquele efeito a-ritual a que já se fez referência em cartas anteriores. Por exemplo, as questões preliminares são estas: «Que nome dais ao vosso filho? - N. Que pedis à Igreja de Deus para os vossos filhos? - O baptismo.» Mas precisa-se que: «No diálogo, o celebrante pode usar outras palavras […] Na segunda resposta, os pais também podem usar outras palavras: por exemplo, A fé, ou A graça de Cristo, ou A entrada na Igreja, ou A vida eterna» (tratando-se de meros exemplos, tal equivale a dizer que o sacerdote “pode admitir por parte dos pais respostas espontâneas”). 

As leituras têm várias alternativas à escolha, a oração universal apresenta também várias alternativas e há monições que o sacerdote pode modificar segundo o seu critério. São ainda possíveis várias fórmulas de bênção da água, à escolha. Também à escolha do sacerdote, pode haver ou uma imposição da mão ou uma unção com o óleo dos catecúmenos. Os exorcismos foram reduzidos a uma oração, com duas fórmulas à escolha, cujo alcance é menor e de que voltaremos a falar.

O escamotear da batalha contra o demónio em favor da simples noção de acolhimento na comunidade

Na forma tradicional, o baptismo é apresentado como uma infusão da vida divina no âmbito de um dinamismo de explícito combate contra o poder exercido pelo demónio por causa do pecado original; no rito novo, esta perspectiva aparece muito pouco.

No ritual de Paulo V, o sacerdote, envergando uma estola roxa, após ter procedido ao interrogatório sobre o pedido do baptismo e ter recordado o duplo mandamento da caridade enquanto fundamento da vida cristã, sopra três vezes sobre o rosto da criança e pronuncia estas palavras: «Retira-te dele, espírito imundo, e dá o lugar ao Espírito Santo Paráclito.» Depois, faz o sinal da cruz sobre a fronte e o coração da criança. Mais adiante, durante a cerimónia, após o primeiro exorcismo e a tríplice renúncia a Satanás, às suas obras e pompas, o sacerdote fará ainda o sinal da cruz com o óleo dos catecúmenos, o óleo do combate, sobre o peito e entre os ombros. A imposição da mão – sinal da autoridade que rompe «todas as correntes com que Satanás o havia prendido» – e o exorcismo sobre o sal, que se seguem, colocam-se no mesmo sentido do movimento iniciado pelo primeiro exorcismo.

No novo ritual, as cerimónias preparatórias são mais curtas, mas mais do que a brevidade das mesmas, é o significado que lhes é dado que, ao contrastar com o antigo ritual, nos chama a atenção. Após o interrogatório sobre o pedido do baptismo, o sacerdote, envergando desde o início uma estola branca (ou «de cor festiva»), faz um sinal da cruz sobre a fronte da criança e proclama: «é com muita alegria que a comunidade cristã vos recebe. Em seu nome, eu vos assinalo com o sinal da cruz, e, depois de mim, os vossos pais (e padrinhos) vão também assinalar-vos com o mesmo sinal de Cristo Salvador.» Segue-se a entrada e uma procissão enquanto se entoa um cântico à escolha; dá-se a sugestão do salmo 84 – na Vulgata, 83, mas mundo fora, também se sugere o salmo 100 (99) Iubilate Deo, omnis terra/Aclamai o Senhor terra inteira, um salmo de louvor por excelência, ou outro de tonalidade semelhante.

A impressão que fica é a de que o futuro baptizado entra já em pleno na Igreja e que, por isso, a alegria se impõe imediatamente, como se a marca de Satanás sobre a alma do futuro baptizado e o seu poder sobre ela fossem algo insignificante. O contraste é bem claro com a tonalidade dramática que caracteriza toda a primeira parte da celebração segundo o ritual tradicional, que nem por isso desconhece, também desde o começo, a alegria da nova vida inaugurada pelo baptismo (a oração que antecede a imposição do sal é disso exemplo: «a fim de que, marcado [o baptizado] pelo sinal da vossa sabedoria fique livre da infecção de todas as más paixões e animado pelo perfume dos vossos mandamentos, vos sirva em vossa Igreja alegremente»).

Por fim, a diferença entre os dois rituais vem a concentrar-se especialmente nos exorcismos. Aí, ela é considerável:

· No ritual tradicional, os dois exorcismos propriamente ditos são particularmente explícitos: «Exorcizo-te, espírito imundo, em nome do Pai † e do Filho † e do Espírito † Santo, vai-te, retira-te deste servo de Deus: é o mesmo Deus que te comanda, maldito, o mesmo cujos pés caminharam sobre o mar e cuja mão direita susteve Pedro que investia. Por isso, demónio maldito, aceita a tua sentença e dá honra ao Deus vivo e verdadeiro, dá honra a seu Filho Jesus Cristo e ao Espírito Santo, e deixa este servo de Deus...» O exorcismo conclui-se então com o traçar do sinal da Cruz: «E este sinal da Santa Cruz † que nós traçamos sobre a sua fronte, tu, demónio maldito, nunca ouses violar.» E o segundo exorcismo: «Exorcizo-te, espírito imundo, em nome de Deus † Pai todo-poderoso, e em nome do seu Filho Jesus † Cristo, Nosso Senhor e Juiz, e pela virtude do Espírito † Santo; vai-te desta criatura de Deus...»

·  No novo ritual, há lugar a uma oração que precede a celebração do sacramento. Não se trata de um exorcismo propriamente dito, pelo qual o ministro de Cristo, em seu nome, comanda a Satanás que se vá, mas antes de uma oração pela qual simplesmente se pede a Deus que se digne genericamente «expulsar de nós o poder de Satanás», e assim o baptizado venha a ser, em tom mais velado ou difuso, «arrebatado às trevas».

o   1ª fórmula (na versão portuguesa, já que pode sempre haver variações de texto e mesmo de sentido segundo as línguas): «Deus todo-poderoso e eterno, que enviastes ao mundo o vosso filho para expulsar de nós o poder de Satanás, espírito do mal, e transferir o homem, arrebatado às trevas, para o reino admirável da vossa luz, humildemente vos pedimos que esta criança, libertada da mancha original, se torne morada do Espírito Santo e templo da vossa glória.»

o   2ª fórmula: « Deus todo-poderoso, que enviastes o vosso Filho unigénito para dar ao homem, preso na escravidão do pecado, a liberdade dos vossos filhos, humildemente imploramos a vossa misericórdia para esta criança: pela morte e ressurreição de Cristo, libertai-a agora da mancha da culpa original, e, como há-de experimentar as seduções do mundo e lutar contra as ciladas do demónio, fortalecei-a com a graça do mesmo Cristo e guardai-a continuamente no caminho da sua vida.»

É certo que, assim como na missa, a consagração individualmente considerada contém em si a realidade do sacrifício que as outras orações, como as do ofertório da missa tradicional, mais não fazem do que explicitar, também no baptismo, a infusão de água acompanhada pelas palavras do baptismo contém toda a significação do sacramento, inclusive a expulsão do demónio, que os exorcismos do rito tradicional também pretendem explicitar. Isso não tolhe, contudo, que a supressão desta explicitação tenha forçosamente consequências sobre a fé dos fiéis.
  
… E não apenas em relação à fé. O P. Jean-Régis Fropo, que foi sacerdote da diocese de Fréjus-Toulon entre 2005 e 2014, chamou a atenção das autoridades da Igreja, em França e em Roma, para as deficiências presentes no ritual do baptismo de 15 de Maio de 1969, no que toca à luta contra o demónio. Segundo ele, há certos casos de possessão diabólica de crianças e de pessoas adultas baptizadas cuja explicação se pode encontrar na indigência deste novo ritual em matéria de exorcismo (5). Em todo o caso, são razões semelhantes às que levam a preferir a missa tradicional à missa nova – a saber, insuficiências presentes na nova liturgia quanto à expressão doutrinal – aquelas que também levam muitos pais, no momento em que devem baptizar os seus filhos, a optarem pela forma tradicional. Ora, desde 2007, isso é para eles um direito claramente reconhecido.
   
1. Ordo baptismi parvulorum – Celebração do Baptismo das Crianças, ritual publicado pela Conferência Episcopal Portuguesa, de acordo com a 2ª ed. típica, Gráfica de Coimbra (primeira edição típica, 1969; segunda, 1973).

2. Ordo, Preliminares, n. 17.

3. Le péché originel dans l’Écriture, Cerf, 1958.

4. Cerf, 1986.

5. Blog de L’Homme nouveau



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quarta-feira, 11 de maio de 2022

Cardeal que foi preso hoje em Hong Kong: "Quem gosta da Missa Antiga deve ter acesso a ela"

Que lugar tem a liturgia na vida de Vossa Eminência?

Cardeal Zen: É o momento mais importante do meu dia. Eu sou religioso [salesiano] e, enquanto tal, dou grande valor à nossa oração comunitária. A nossa comunidade dispõe, além disso, de belas instalações para a liturgia.

Vossa Eminência foi um dos primeiros sacerdotes chineses a celebrar o Novus Ordo, como sinal de unidade com Roma. Desde então, o Papa Bento XVI permitiu que a missa tradicional se celebrasse novamente, o que Vossa Eminência fez com grande agrado, nomeadamente em Hong-Kong…

Cardeal Zen: Pessoalmente, vi com muito bons olhos a direcção indicada pelo Papa Bento XVI, agora emérito. Teve toda a razão em dizer que a missa tradicional jamais havia sido abolida. E se os fiéis a acham mais propícia para alimentar a sua devoção, devemos dar-lhes a possibilidade de a ela terem acesso. Coube-me introduzir entre os seminaristas chineses a missa do pós-concílio [de 1989 a 1996, o Cardeal Zen ensinou nos Seminários chineses, que até então estavam vedados aos sacerdotes romanos, NDR], e poder fazê-lo foi uma felicidade. Mas já nessa altura, lhes lembrava que não havia qualquer mal em celebrar a liturgia antiga. A nossa fé, a nossa vocação, os nossos santos, tudo nos vem dessa liturgia, dessa maneira de rezar.

Tem apreço pelo latim?

Cardeal Zen: Muito. Estimo muito os cânticos gregorianos e sei vários de cor. Recito-os durante as minhas orações privadas e acho-os admiráveis! Gostaria de ver mais vezes a forma ordinária celebrada em latim, como o desejava o concílio.

Na Europa, os opositores das missa tradicional dizem que ela só é querida por um pequeno número de pessoas: que comentário lhe merece essa observação?

Cardeal Zen: Não vejo onde esteja o problema. Também em Hong-Kong, há um pequeno grupo. Quem gosta da Missa Antiga deve poder ter acesso a ela. É um direito que lhes assiste. Não é preciso obrigar os fiéis a agruparem-se de modo artificial: é suficiente um pequeno grupo.

E a Missa Antiga não ameaça a unidade da Igreja?

Cardeal Zen: Não, de todo. Por que motivo o deveria fazer? Na Igreja, há muitas liturgias, nomeadamente as das igrejas do Oriente. A diversidade dos ritos não é um problema.

in Paix Liturgique


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sábado, 2 de abril de 2022

Uma Missa jamais proibida

A eleição de João Paulo II em 1978 marcou um ponto de viragem na tentativa de tomar de novo as rédeas sobre o rumo que estava a tomar o pós-concílio, ainda que de modo extremamente tímido*. A 18 de Novembro de 1978, um mês depois de sua eleição, por iniciativa do Cardeal Siri, João Paulo II recebia o arcebispo Lefebvre na presença do Cardeal Seper.

1981: O Cardeal Ratzinger toma em mãos a questão litúrgica

A mudança que se seguiu deveu-se em grande parte ao facto de João Paulo II ter chamado a Roma, em 1981, o Arcebispo de Munique, o Cardeal Ratzinger, para lhe confiar aquele que era o cargo de confiança por excelência nesses tempos de grande confusão doutrinal: o de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O Relatório sobre a Fé, que o cardeal publicou em 1985, expôs o seu pensamento no campo teológico e disciplinar, resumido pela palavra "restauração", que devia ser entendida - explicou-o claramente - num quadro conciliar e não com um propósito de “involutivo”. Em todo o caso, pelo menos não expressamente involutivo.

Já nas questões litúrgicas, existia claramente na mente do cardeal uma perspectiva de retorno a um estado anterior. Importa não esquecer que Joseph Ratzinger, ex-perito do Cardeal Frings, Arcebispo de Colónia, uma das figuras proeminentes da maioria conciliar, havia lançado o seu primeiro sinal de alarme em matéria litúrgica numa conferência em Münster, em 1966, onde era então professor, seguindo-se depois outro, nesse mesmo ano, em Bamberg, no Katholikentag (o encontro de católicos alemães organizado a cada dois anos). Atacou o “novo ritualismo” dos especialistas litúrgicos, que haviam substituído os velhos costumes pela fabricação de “formas” e “estruturas” suspeitas, entre as quais, a obrigatoriedade do “virado-para-o-povo”, por exemplo. 

Pela primeira vez na sua vida, o ex-especialista do grupo maioritário do Vaticano II via-se descrito como “conservador” (pelo Cardeal Döpfner). Nomeado professor da Escola Católica da Universidade de Tübingen no final de 1966, assistiu aí ao Maio de 68 à maneira alemã, ou seja, a marxização de uma universidade (Ernst Bloch era então a figura dominante no corpo docente), na qual a Escola Católica passara a seguir em grande parte a teologia da desmitologização de Bultmann.

Em 1969, aceitou o cargo de professor de teologia dogmática e história dos dogmas em Ratisbona, ao mesmo tempo que era nomeado membro da Comissão Teológica Internacional. Foi também em Ratisbona que se veio a tornar amigo do historiador da liturgia Klaus Gamber, que permanecera fiel à missa tradicional. Ali, nas margens do Danúbio, esperava-o um novo choque após o da primeira etapa da reforma e da revolução de 68: o completar-se da reviravolta litúrgica. É certo que muitos aspectos dessa reforma lhe convinham, mas a sua radicalidade parecia-lhe insustentável, escorado como estava neste seu juízo reprovador pelas longas conversas das caminhadas diárias com o seu colega Gamber. “Destruímos o antigo edifício para construir outro”, viria a escrever mais tarde.

Foi nesse momento que se cristalizou o pensamento complexo de Joseph Ratzinger sobre as coisas litúrgicas, o de um centrista fundamentalmente conciliar, mas atento à voz tradicionalista dos seus amigos da universidade, o Professor Klaus Gamber, e mais tardo o Professor Robert Spæmann e o Professor Heinz-Lothar Barth. Foi também em Ratisbona que, em 1977, foi nomeado por Paulo VI, cada vez mais assustado com "a fumaça de Satanás no interior da Igreja", para uma das sedes mais importantes da Alemanha, a de Munique e Freising. João Paulo II viria depois a tirá-lo de lá para o pôr à cabeça da Congregação para a Doutrina da Fé, em 25 de Novembro de 1981.

1982: a ab-rogação do antigo missal posta em questão

Todos se tinham já apercebido da impossibilidade de reduzir a importância a contestação à reforma, tanto doutrinal como litúrgica, por parte de todo um sector da Igreja, cuja figura mais proeminente era a de Mons. Lefebvre, ex-arcebispo de Dacar. João XXIII e Paulo VI, "príncipes esclarecidos", haviam presidido ao processo que punha fim ao modelo tridentino na Igreja Romana. Mas eis que, de repente, o espartilho disciplinar tridentino já não constringia ninguém, mas também não constringia os defensores de Trento, os tradicionalistas.

Não é irrelevante ter noção de que o próprio Annibale Bugnini, exilado como núncio em Teerão, havia enviado uma carta em 1976 ao Cardeal Villot, Secretário de Estado de Paulo VI, na qual propunha que, permanecendo ressalvada a obrigação de princípio da Missa de Paulo VI, a Missa de São Pio V pudesse ser celebrada, sob certas condições e em igrejas específicas, para grupos com dificuldades com o novo Ordo Missæ.

Foi precisamente o que Joseph Ratzinger propôs, uma vez em Roma. Logo em 16 de Novembro de 1982, organizou uma reunião interdicasterial no Palácio do Santo Ofício sobre a questão litúrgica e a questão lefebvrista, na qual participaram: o Cardeal Sebastiano Baggio, Prefeito da Congregação dos Bispos; o Cardeal William W. Baum, Arcebispo de Washington; o Cardeal Agostino Casaroli, Secretário de Estado; o Cardeal Silvio Oddi, Prefeito da Congregação do Clero; o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; e Dom Giuseppe Casoria, Pró-Prefeito da Congregação para o Culto e os Sacramentos. Todos os participantes deste encontro afirmaram que, uma vez que «se podia duvidar da plena validade jurídica da ab-rogação do antigo missal», o «antigo» missal romano deveria ser «admitido pela Santa Sé em toda a Igreja para as missas celebradas em língua latina». Em 1982, ou seja, 25 anos antes do Summorum Pontificum!

1984: Quattuor abhinc annos

No entanto, foi preciso esperar até 1984 para que esta permissão ganhasse forma. Em 19 de abril de 1984, teve lugar uma nova reunião entre os Cardeais Casaroli, Ratzinger e Casoria.

Numa carta de 18 de março de 1984, o Cardeal Casaroli, Secretário de Estado, pedia ao Cardeal Casoria, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que preparasse um decreto nesse sentido, invocando como precedente a permissão concedida por Paulo VI para a Inglaterra e o País de Gales em 1971, precisando que «uma proibição absoluta [do missal anterior] não [poderia] ser justificada nem do ponto de vista teológico nem do ponto de vista litúrgico». Isto veio a resultar na carta circular Quattuor abhinc annos, da Congregação para o Culto Divino, de 3 de outubro de 1984, que concedia aos bispos diocesanos a faculdade de usar um indulto pelo qual os fiéis que o solicitassem pudessem beneficiar da missa celebrada segundo missal romano na sua edição típica de 1962.

O Cardeal Stickler revelaria que o Cardeal Ratzinger organizou ainda uma outra reunião com nove cardeais em 1986, para de novo perguntar se, na sua opinião, a missa tridentina havia sido ou não sido juridicamente ab-rogada: 8 em 9 consideraram que não, mas todos convieram unanimemente em que não se podia impedir um sacerdote de a rezar. Em 1986, ou seja, 21 anos antes do Summorum Pontificum!

Quatro anos depois, após a consagração por Mons. Lefebvre, sem mandato apostólico, de quatro bispos, Monsenhores de Galarreta, Tissier de Mallerais, Williamson e Fellay, a 30 de junho de 1988, era publicado um novo texto: o motu proprio Ecclesia Dei adflicta, de 2 de julho de 1988, em que se determinava que os sacerdotes do rito tradicional podiam criar institutos votados à liturgia tradicional. Além disso, constituía-se aí uma Pontifícia Comissão, a Comissão “Ecclesia Dei”, da qual haviam de depender esses institutos, e que também ficaria encarregue de regular as autorizações dadas pelos bispos para usar o missal tridentino nas respectivas dioceses.

A partir desse ano de 1988, foi-se tornando relativamente grande o número de prelados que começaram a celebrar ocasionalmente o Missal Tridentino, e alguns entre eles logo surgiram como uma espécie de protectores desse modo de celebração. Assim, para falar apenas de cardeais da Cúria, podemos evocar os cardeais Oddi, Palazzini, Stickler, e depois, o próprio Cardela Ratzinger, e ainda os Cardeais Medina, Castrillón, e mais tarde, os Cardeais Burke, Rodé, Ranjith, Cañizares, Cordes, Sarah. É de sublinhar muito especialmente que três deles, Medina, Cañizares e Sarah, foram prefeitos da Congregação para o Culto Divino.

***

Seria ainda necessário esperar dezanove anos para se chegar à promulgação do motu proprio Summorum Pontificum de 7 de Julho de 2007. Sob a pressão duma contestação que não podia ser travada, e que agora já se estendia ao mais alto nível, passo a passo, o legislador acabava por reconhecer que se devia interpretar as prescrições do Missale Romanum de 1969 como não obrigatórias.

* Inspirámo-nos aqui no livro do Padre Claude Barthe, La messe de Vatican II. Dossier historique, Via Romana, 2018, e nas observações que dele decorrem.



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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos...mas não com os Católicos ligados à Tradição?

 
Para esta carta, usamos o título que demos à nossa carta 729, publicada em 15 de Janeiro de 2020, e que se mostra muito actual, como o confirma um artigo do “La Croix” sobre o qual iremos falar aqui. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foi criada por iniciativa do Padre Paul Couturier (1881-1953), sacerdote de Lyon, em Janeiro de 1933, tendo em vista a unidade de todos os cristãos batizados, e assim, de católicos, ortodoxos, anglicanos e reformados.

Depois do Concílio, a Semana assistiu à organização de orações comuns e, por vezes, até mesmo de cerimónias comuns. Realiza-se de 18 de Janeiro, data da antiga festa da Cátedra de São Pedro em Roma, até 25 de Janeiro, festa da Conversão de São Paulo, e, hoje, é preparada conjuntamente pelo Conselho Mundial das Igrejas (Genebra) e pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos.

Em 2020, levantávamos esta questão bem simples: aqueles que são fiéis à celebração da liturgia tradicional – pelas sólidas razões por eles tantas vezes enunciadas –, serão ainda católicos? Se já não são católicos, por causa da mudança de paradigma, como se diz, efectuada no Vaticano II, ou, pelo menos, se já o não são inteiramente, isto é, se estão em “comunhão imperfeita”, segundo a nova terminologia, eles serão, então, cristãos separados, da mesma forma que os ortodoxos, os anglicanos, etc... 

E, nesse caso, os mesmos princípios de um diálogo compreensivo e caritativo, acompanhados do generoso empréstimo de edifícios de culto, devem ser aplicados à pastoral que lhes diz respeito. Mas se ainda são católicos, mais ainda devem ser tratados com caridade e respeito, como são os católicos de ritos orientais ou duma língua diferente da que se fala num dado país, que têm direito à liberdade total e a todos os meios para celebrar o culto divino da maneira a que estão habituados.

Coerência dos partidários do ecumenismo!

Regozijamo-nos, por isso, em ver quatro personalidades católicas francesas, Dom Jean Pateau, abade de Notre-Dame de Fontgombault, o Padre Pierre Amar, sacerdote diocesano, Christophe Geffroy, director do “La Nef”, e Gérard Leclerc, escritor, a servirem-se desta mesma argumentação num artigo publicado no “La Croix” de 19 de Janeiro passado, com o título: “Guerra litúrgica: ‘Em vez de nos acusarmos mutuamente de preconceitos ideológicos, não seria melhor se nos ouvíssemos uns aos outros?’”. Mais abaixo, reproduziremos por completo o texto do artigo.

Pode talvez achar-se o tom deste texto um pouco sentimental, ou mesmo demasiado irénico, neste momento em que bem conhecemos a violência desencadeada e empregue hoje em Roma contra os partidários da liturgia tradicional. Isto não tolhe, porém, que o apelo desse artigo ao diálogo, à compreensão, à fraternidade, possa ser visto antes de mais um apelo à coerência dirigido aos partidários do ecumenismo: «a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, levanta em primeiro lugar uma questão interna à Igreja Católica. O processo sinodal agora aberto convida-nos a ir além da verticalidade, do autoritarismo severo e do legalismo mesquinho, que só criam situações insuportáveis ​​e ressentimentos duradouros.»

Se alguém for, portanto, um fervoroso defensor do ecumenismo ad extra, com maior razão deverá sê-lo ad intra e tratar os irmãos não separados mas diferentes «com fraterna reverência e amor», como exige o decreto conciliar Unitatis redintegratio.

É certo que o artigo de Dom Pateau, Padre Pierre Amar, Christophe Geffroy e Gérard Leclerc, se dirige tanto a ecumenistas como a tradicionalistas, e evoca a reciprocidade que esta atitude deve assumir. Parece, pelo menos, ter razão no que respeita ao ponto de vista da caridade, que nunca deve ser esquecida em situação alguma. No entanto, pela nossa parte, diríamos, ainda assim, que não devemos deixar de distinguir a situação do cordeiro da do lobo que o quer devorar: é primeiro ao lobo que devemos pregar a caridade!

E a coerência dos tradicionalistas…

E, sobretudo, cumpre que os defensores da liturgia tradicional sejam eles próprios coerentes. Sucede muitas vezes que critiquem a forma como o processo ecumênico é concebido. Assim, Christophe Geffroy, num editorial do “La Nef”, em Dezembro de 2016, pedia que o ecumenismo fosse um «diálogo ... na verdade».

Ele reflectia então sobre a viagem do Papa Francisco à Suécia, a fim de aí abrir o ano comemorativo do 500º aniversário da Reforma Protestante, desde que Lutero afixou as suas 95 Teses em Wittenberg a 31 de Outubro de 1517.

Christophe Geffroy evocava aquilo a que se chama «diálogo da vida», mediante o qual se postula o seguinte: «já que a doutrina nos separa, deixemo-la de lado e vejamos o que nos une». E continuava: «O processo pode ser aceitável desde que aqueles que se envolvem nele estejam cientes da realidade das diferenças doutrinárias, o que nos permite concentrarmo-nos nas coisas concretas da vida que nos unem». É assim que, dizia concretizando, «devemos ler a “declaração conjunta” de 31 de Outubro de 2016, em Lund, do Papa Francisco e do bispo luterano Munib Younan. É realmente significativo que não aborde nenhuma questão fundamental (excepto uma breve passagem sobre intercomunhão, em que apenas se afirma a vontade de «progredir»), permanecendo ao invés no mero plano das generalidades».

O director do “La Nef” afirmava ainda: «o diálogo ecuménico é necessário, mas deve ser feito na verdade.» Para isso, deve evitar-se com cautela a «recusa da realidade [que] só pode levar à desilusão e, em última análise, a sabotar o que se afirma construir – construindo na areia e não na rocha…»

Não podemos deixar de subscrever e aplicar o diálogo “ecuménico” que Christophe Geffroy defende às relações entre católicos favoráveis à nova liturgia e católicos ligados à liturgia tradicional. Eles devem estar cientes, e dizer-se entre si, com toda a sinceridade, com toda a verdade e, claro, com toda a caridade, o que separa as suas práticas litúrgicas. Os tradicionalistas já o explicaram mil vezes, mas um diálogo pacífico tornaria possível fazê-lo mais uma vez. Dirão, pois, que não é por motivos sentimentais que eles se apegam à Missa Tridentina, mas por motivos doutrinais sérios. 

Ouvirão, então, com boa vontade, os seus “parceiros” deste diálogo litúrgico, quando estes lhes tentarem explicar que a nova liturgia é mais participativa. Ao que eles responderão que a liturgia tradicional prevê a participação dos fiéis, mas que a participação excessiva à qual a nova liturgia cede corrói o significado do sacerdócio hierárquico. Explicar-lhes-ão ainda que, quanto a eles, a nova missa, que pretendeu substituir a missa tradicional, procedeu a consideráveis ​​enfraquecimentos na teologia do sacrifício eucarístico, da presença real, do sacerdócio hierárquico, etc., etc..

E, de seguida, pedirão enfim, caridosamente, afectuosamente até, para que, ecumenicamente, os deixem rezar de acordo com a liturgia tradicional da Igreja de Roma.

Artigo do “La Croix” de 19 de Janeiro de 2022 – “Guerra litúrgica: ‘Em vez de nos acusarmos mutuamente de pressupostos ideológicos, não seria melhor se nos ouvíssemos uns aos outros?’”.

Por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, quatro personalidades católicas apelam à «mútua estima» entre os católicos ligados à antiga forma da liturgia e os demais. Convidam-nos a «tomarmos em mãos» a fraternidade à qual todos os cristãos são chamados.

«Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio» (1). Estas foram as primeiras palavras do decreto sobre o ecumenismo do Concílio Vaticano II. Desde então, foi-nos sendo explicado o método que lhe devia corresponder: dialogar, ouvir o outro, valorizar o outro; aceitar por vezes as suas diferenças, sem as negar; rezar juntos com frequência. Foi-nos dito que o ecumenismo é afectivo antes de ser dogmático ou legal. Também pudemos compreender que a unidade dos cristãos é vital para a própria credibilidade do Evangelho. «Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

Talvez Bento XVI tivesse isso em mente quando pretendeu pôr termo à divisão interna dos católicos suscitada a propósito da liturgia nascida do Concílio. Em vez de argumentos jurídicos ou dogmáticos, ele propôs um diálogo. Teríamos de “enriquecer-nos mutuamente”. Isto supunha pôr fim à guerra litúrgica fratricida que tanto dividia as comunidades cristãs. A partir de agora, ele pedia que nos ouvíssemos uns aos outros, que dialogássemos. Mas foi isso o que fizemos? Certamente não o suficiente. Aconteceu, por vezes, vivermos lado a lado como estranhos, substituindo o enriquecimento fraterno pela mútua ignorância. Hoje, estamos a pagar o preço disso.

Uma espécie de guerra interna

Será então que temos de renunciar à busca da paz litúrgica? Estaremos reduzidos à uniformidade litúrgica como único meio de unidade? A questão é mais séria do que parece. Porque também abre uma espécie de guerra interna. É essencial estar em paz com o seu passado para seguir em frente. Se não podemos viver em paz com a forma anterior da liturgia, então instalamos a guerra no centro do que deveria ser o sacramento da unidade dos homens com Deus e de uns com os outros.

Assim, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, levanta em primeiro lugar uma questão interna à Igreja Católica. O processo sinodal agora aberto convida-nos a ir além da verticalidade, do autoritarismo severo e do legalismo mesquinho, que só criam situações insuportáveis ​​e ressentimentos duradouros.

Preconceitos ideológicos

Se dialogamos? Em vez de nos acusarmos reciprocamente de preconceitos ideológicos, em vez de atribuir ao outro intenções que ele não disse ter, ou prendê-lo à sua história e ao seu historial, não seria melhor se nos ouvíssemos? Descobriríamos emoções feridas, corações humilhados de ambos os lados. Sim, as décadas de 1960 e 1970 foram por vezes atravessadas por uma politização e uma radicalização das posições eclesiais (nomeadamente litúrgicas), que foram criando crispações. Sim, tanto uns como outros, todos recebemos a herança de atitudes culturais e sociológicas que precisam de ser purificadas à luz do Evangelho. Mas como fazê-lo? Lançando anátemas reciprocamente: «Modernistas!», «Integristas!», «Maurrassianos!», «Progressistas!»? Prestar-se-á assim um bom serviço à verdade? Proibindo por regulamento a publicação dos horários das Missas? Desde quando contribuiu um tal método para a caridade e a unidade?

Pelo contrário, a multiplicação das interdições cria o fascínio e o desejo da transgressão junto das gerações mais jovens tanto de clérigos como de leigos. Não se esqueça que as condenações romanas de Lubac e Congar contribuíram para que fossem lidos nos seminários, e não conseguiram fortalecer a confiança na autoridade romana. A mais disso, ao multiplicar as medidas vexatórias relativas a pormenores contra a antiga liturgia, corre-se o risco de passar ao lado do essencial da reforma litúrgica desejada pelo Concílio, encerrando-a num novo rubricismo jurídico e autoritário, em vez de a abrir à participação do povo de Deus.

Rezemos uns pelos outros

E se ousássemos rezar uns com os outros? Certamente, todos devem dar um passo. Mas então, esses passos seriam dados por amor e não por coacção. O ecumenismo não é um trabalho de diplomacia e habilidade. É antes de mais uma atitude espiritual. Abramos então as portas. Os adeptos da liturgia antiga, quando o puderem, por amor e não por obrigação legal, abram as portas a ousar experimentar a concelebração, a bela riqueza bíblica dos lecionários do Novus Ordo.

Os que seguem a liturgia renovada após o Concílio, abram as portas a deixarem-se sentir tocados com alegria por estas comunidades que celebram o Vetus Ordo e que geram tão belos frutos de missão. Haverá por acaso alguma obrigação de estarmos em concorrência? Não será possível viver em fraternidade? Quem sabe até se as nossas paróquias não beneficiariam de se celebrar de vez em quando voltados para Oriente ou de se usar o antigo texto do ofertório?

Um coração benevolente

Visitemo-nos uns aos outros! Porque não ir passar um domingo, cheios de benevolência, com quem celebra o mesmo Senhor com ritos diferentes dos nossos? Talvez nos fira esta ou aquela maneira de fazer as coisas. Mas se o nosso coração for um coração benevolente, descobriremos ali sementes do Verbo que nós mesmos poderemos ter esquecido.

A paz litúrgica na Igreja não pode ser alcançada enquanto um lado continuar a lançar a suspeita sobre a Missa do outro lado.

Pois que o Papa no-lo pede, cabe a todos, bispos, sacerdotes e leigos, tomarmos em mãos esta fraternidade a partir da base, ao invés de esperar por decretos que a regulem. O risco da unidade é-nos assim confiado pelo Papa. E se ousássemos tomá-lo em mãos? Se ousássemos estender as mãos ao outro?

[1] Vaticano II, decreto Unitatis redintegratio, 1.



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