quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Jesus ordena ao demónio: "Vai com os porcos"

Vede a que ponto a alma do homem é preciosa. O que contraria os que pensam que os homens e os animais têm uma alma idêntica e que somos animados pelo mesmo espírito. Noutra altura, o demónio foi expulso de um só homem e foi enviado para dois mil porcos (cf Mt 8,32). 

Aquilo que era precioso foi salvo, e o que era vil, perdido: «Sai do homem, vai para os porcos. Vai para onde quiseres, vai para os abismos. Deixa o homem que é Minha propriedade. Não te vou deixar possuir o homem pois seria para Mim um ultraje instalares-te nele em Meu lugar. Assumi um corpo humano, vivo no homem: essa carne que possuis faz parte da Minha carne: sai deste homem!»

São Jerónimo in Homilias sobre o Evangelho de São Marcos, nº2


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A Eutanásia e a Amoris Laetitia

Apesar do Papa João Paulo II reafirmar a Doutrina-Disciplina de sempre na Familiaris Consortio a impossibilidade de absolver e dar a Sagrada Comunhão a quem tendo casado validamente pela Igreja se divorciava (ou separava) e vivesse amantizado, contraindo ou não um pseudocasamento civil, havia padres que desobedecendo à Verdade o contrariavam fazendo exactamente o contrário, confirmando assim as pessoas no pecado.

Também de há uns anos a esta parte há padres que admitem aos Sacramentos pessoas que obstinadamente procuram a eutanásia e/ou o suicídio assistido, absolvendo-os, dando-lhes a Santa Unção e a Sagrada Comunhão. Contra esta prática insurge-se, condenando-a, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em documento aprovado pelo Santo Padre. 


O que aí consta, a Doutrina-Disciplina de sempre, pode e deve também ser aplicado ao adultério. E, no entanto, a Amoris Laetitia, tal como interpretada pelo Papa Francisco na sua Carta aos Bispos Argentinos, por diversas Conferências Episcopais, vários Bispos e Cardeais, contradiz perentoriamente aquilo que é afirmado categoricamente nesta carta da CDF, aprovada pelo Santo Padre, intitulada Samaritanus bónus. Por isso, receio que estes padres continuem a absolver e conceder os restantes Sacramentos a quem está decidido a dar cabo da sua vida, na esperança que apareça um novo Papa que aprove a conduta.

 

De facto, esta diz textualmente:

 

“Um caso todo particular em que hoje é necessário reafirmar o ensinamento da Igreja é o acompanhamento pastoral de quem pediu expressamente a eutanásia ou o suicídio assistido. A respeito do sacramento da Reconciliação, o confessor deve assegurar-se que haja a contrição, a qual é necessária para a validade da absolvição, e que consiste na «dor da alma e a reprovação do pecado cometido, acompanhada do propósito de não mais pecar no futuro». No nosso caso, encontramo-nos diante de uma pessoa que, além de suas disposições subjetivas, realizou a escolha de um ato gravemente imoral e persevera nisso livremente. Trata-se de uma manifesta não-disposição para a recepção dos sacramentos da Penitência, com a absolvição, e da Unção, assim como do Viático.


Poderá receber tais sacramentos no momento em que a sua disposição em dar passos concretos permita ao ministro concluir que o penitente modificou sua decisão. Isto comporta também que uma pessoa que se registrou em uma associação para receber a eutanásia ou o suicídio assistido deva mostrar o propósito de anular tal inscrição antes de receber os sacramentos. Recorde-se que a necessidade de postergar a absolvição não implica um juízo sobre a imputabilidade da culpa, dado que a responsabilidade pessoal poderia ser diminuída ou até mesmo não subsistir.” (Congregação para a Doutrina da Fé, Carta Samaritanus Bonus, nº 11)

 

À Honra de CRISTO. Amen.


Padre Nuno Serras Pereira



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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Ladainha a São Miguel Arcanjo

Senhor, tende piedade de nós 
Jesus Cristo, tende piedade de nós 
Senhor, tende piedade de nós 

Jesus Cristo, ouvi-nos 
Jesus Cristo, atendei-nos 

Pai do Céu, que sois Deus, tende piedade de nós. 
Filho Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós. 
Espírito Santo que sois Deus, tende piedade de nós. 
Santíssima Trindade que sois um só Deus, tende piedade de nós.  

Santa Maria, Rainha dos Anjos, rogai por nós, 
São Miguel rogai por nós, rogai por nós
São Miguel, cheio de graça de Deus, rogai por nós
São Miguel, perfeito adorador do Verbo Divino rogai por nós
São Miguel, coroado de honra e de glória, rogai por nós
São Miguel, poderosíssimo Príncipe dos exércitos do SENHOR, rogai por nós
São Miguel, porta e estandarte da Santíssima Trindade, rogai por nós

São Miguel, guardião do Paraíso rogai por nós,
São Miguel, guia e consolador do povo Israelita, rogai por nós
São Miguel, esplendor e fortaleza da Igreja militante, rogai por nós
São Miguel, honra e alegria da Igreja triunfante, rogai por nós
São Miguel, luz dos Anjos, rogai por nós
São Miguel, baluarte da verdadeira fé, rogai por nós
São Miguel, força daqueles que combatem pelo estandarte da Cruz, rogai por nós

São Miguel, baluarte da verdadeira fé rogai por nós
São Miguel, força daqueles que combatem pelo estandarte da Cruz, rogai por nós
São Miguel, luz e confiança das almas no último momento da vida, rogai por nós
São Miguel, socorro muito certo, rogai por nós
São Miguel, nosso auxílio em todas as adversidades, rogai por nós
São Miguel, mensageiro da sentença eterna, rogai por nós

São Miguel, consolador das almas do Purgatório, Vós a quem o SENHOR incumbiu de receber as almas depois da morte, rogai por nós
São Miguel, nosso Príncipe, rogai por nós
São Miguel, nosso Advogado, rogai por nós.

Cordeiro de DEUS que tirais o pecado do Mundo, perdoai-nos Senhor 
Cordeiro de DEUS que tirais o pecado do Mundo, ouvi-nos Senhor 
Cordeiro de DEUS que tirais o pecado do Mundo, tende piedade de nós, Senhor 

Jesus Cristo ouvi-nos. 
Jesus Cristo atendei-nos. 

Rogai por nós glorioso São Miguel, Príncipe da Igreja de Jesus Cristo. 
Para que sejamos dignos das Suas promessas. Ámen

Oremos:

Senhor Jesus Cristo, santificai-nos por uma bênção sempre nova e concedei-nos, por intercessão de São Miguel, a sabedoria que nos ensina a ajuntar riquezas no Céu e a trocar os bens do tempo presente pelos bens eternos. Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Ámen.


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domingo, 27 de setembro de 2020

Por que razão a crítica de Viganò ao Concílio deve ser levada a sério

Esta tem sido a linha dos conservadores há muito tempo: uma “hermenêutica da continuidade” combinada com fortes críticas às brigadas episcopais e clericais. A implausibilidade dessa abordagem é demonstrada por, entre outros sinais, o sucesso mínimo que os conservadores tiveram em reverter as “reformas” desastrosas, tendências, hábitos e instituições estabelecidas na esteira e em nome do último concílio, com aprovação ou tolerância papal. 

Um paralelo secular vem à lembrança: o terreno árido do “conservadorismo” político americano, no qual qualquer conformidade remanescente das leis humanas e das decisões judiciais com a lei natural evapora-se diante dos nossos olhos.
  
O que o arcebispo Viganò tem dito recentemente com uma franqueza incomum nos sacerdotes de hoje é apenas uma nova parte de uma crítica de longa data oferecida pelos católicos tradicionais, do “O concílio de João XXIII” de Michael Davies e “Iota Unum” de Romano Amerio a “O Concílio Vaticano II: uma história não escrita” de Roberto de Mattei e “Phoenix from the Ashes” de Henry Sire.

Vemos bispos, conferências episcopais, cardeais e papas a construir um “novo paradigma”, peça por peça, durante mais de meio século – uma “nova” fé católica que, na melhor das hipóteses, apenas se sobrepõe parcialmente e, na pior das hipóteses, contradiz a tradicional fé católica como a encontramos expressa nos Padres e Doutores da Igreja, nos concílios anteriores e nas centenas de catecismos tradicionais, sem mencionar os antigos ritos litúrgicos latinos que foram suprimidos e substituídos por ritos radicalmente diferentes. 

Tão enorme é o abismo separa o velho e o novo que não podemos deixar de perguntar qual o papel desempenhado pelo Concílio Ecuménico Vaticano II no desenrolar de uma história modernista que tem o seu início no final dos anos do século XIX e o seu desfecho no presente. A linha de Loisy, Tyrrell e Hügel a Küng, Teilhard e Ratzinger (jovem) a Kasper, Bergoglio e Tagle é bastante directa quando se começa a ligar os pontos. Isso não quer dizer que não haja diferenças interessantes e importantes entre esses homens, mas apenas que compartilham princípios que seriam tidos como duvidosos, perigosos ou heréticos por qualquer um dos grandes confessores e teólogos, de Agostinho e Crisóstomo a Tomás de Aquino e Roberto Belarmino. 

Temos que abandonar de uma vez por todas a ingenuidade de pensar que a única coisa que importa no Vaticano II são seus textos promulgados. Não. Nesse caso, os progressistas e os tradicionalistas concordam, com razão, que o evento é tão importante quanto os textos (neste ponto, veja-se o livro incomparável de Roberto de Mattei). A imprecisão dos propósitos para os quais o Concílio foi convocado; a maneira manipuladora como foi conduzido; a maneira consistentemente liberal em que foi implementado, quase sem reclamações por parte episcopado mundial – nada disso é irrelevante para interpretar o significado e significância dos textos do Concílio, que exibem géneros novos e ambiguidades perigosas, sem mencionar passagens que têm todos os traços de erro claros, como os ensinamentos sobre os muçulmanos e os cristãos adorarem o mesmo Deus, dos quais o bispo Athanasius Schneider fez uma crítica devastadora em Christus Vincit [i] . 

É surpreendente que, nesta fase tardia, ainda houvesse defensores dos documentos do Concílio, quando é claro que eles se prestavam primorosamente ao objectivo de uma total modernização e secularização da Igreja. Mesmo que o seu conteúdo fosse inquestionável, a sua verbosidade, complexidade e mistura de verdades óbvias com ideias duvidosas forneciam o pretexto perfeito para a revolução. Essa revolução agora está derretida nesses textos, fundida a eles como peças de metal passadas por um forno superaquecido. 

Assim, o próprio acto de citar o Vaticano II tornou-se um sinal de que a pessoa deseja alinhar-se com tudo o que foi feito pelos papas – sim, pelos papas! – em seu nome. Na vanguarda está a destruição litúrgica, mas exemplos podem ser multiplicados ad nauseam: consideremos momentos sombrios como os encontros interreligiosos de Assis, cuja lógica João Paulo II defendeu exclusivamente nos termos de uma série de citações do Vaticano II. O pontificado de Francisco apenas pisou o acelerador. O Vaticano II é sempre usado para explicar ou justificar todos os desvios e afastamentos da histórica fé dogmática. 

Tudo isso é pura coincidência – uma série de notáveis interpretações infelizes e julgamentos desobedientes que uma leitura honesta dos textos poderia dissipar, como o sol que brilha através das nuvens cinzentas? Não existem coisas boas nos documentos?
  
Estudei e ensinei os documentos do Concílio, alguns deles inúmeras vezes. Conheço-os muito bem. Como sou um devoto dos “Grandes Livros” e sempre lecionei nas escolas de Grandes Livros, os meus cursos de teologia normalmente começavam com as Escrituras e os Padres da Igreja, depois entrava nos escolásticos (especialmente São Tomás) e terminava com textos magisteriais: encíclicas papais e documentos conciliares.
  
Muitas vezes senti um aperto no coração quando o curso chegava a algum documento do Vaticano II, como Lumen Gentium, Sacrosanctum Concilium, Dignitatis Humanae, Unitatis Redintegratio, Nostra Aetate ou Gaudium et Spes. É claro, é claro! – esses textos têm muito de belo e ortodoxo. Eles nunca teriam conseguido o número necessário de votos se fossem flagrantemente contra a doutrina católica. 

No entanto, são também produtos de comissões extensas, pesadas e inconsistentes, que desnecessariamente complicam muitos assuntos e carecem da clareza cristalina que um concílio deveria alcançar pelo trabalho duro. Basta examinar os documentos de Trento ou os sete primeiros concílios ecumênicos para ver exemplos brilhantes desse estilo rigidamente construído, que interrompe a heresia em todos os pontos possíveis, na medida em que os padres do concílio eram capazes naquela conjuntura [ii]. 

Ao passo que há frases no Vaticano II – e não poucas – em que se pára e se diz: “Sério? Estou realmente a ler estas palavras? Que coisa errada de se dizer” [iii].
  
Eu costumava dizer, com os conservadores, que deveríamos “pegar no que há de bom no Concílio e deixar para trás o resto”. O problema dessa abordagem é denunciado pelo Papa Leão XIII na sua Encíclica Satis Cognitum: 

"Os arianos, os montanistas, os novacianos, os quartodecimanos, os eutiquianos, certamente não rejeitaram toda a doutrina católica: eles abandonaram apenas uma parte dela. Ainda há quem não saiba que eles foram declarados hereges e banidos do seio da Igreja? Da mesma forma, foram condenados todos os autores de princípios heréticos que os seguiram nos tempos subsequentes. Não pode haver nada mais perigoso do que aqueles hereges que admitem quase toda a doutrina e, no entanto, com uma palavra, como com uma gota de veneno, infectam a fé real e simples ensinada por Nosso Senhor e transmitida pela tradição apostólica.” (Anon., Tratado da Fé Ortodoxa contra os Arianos). 

Por outras palavras: é a mistura, a confusão, de grande, bom, indiferente, ruim, genérico, ambíguo, problemático, errado, tudo isso em enorme quantidade, que faz com que o Vaticano II seja merecedor de repúdio. [iv] 

Sempre houve problemas depois dos concílios da Igreja? 

Sim, sem dúvida: os concílios da Igreja foram seguidos por um grau maior ou menor de controvérsia. Mas essas dificuldades eram geralmente apesar, não por causa da natureza e do conteúdo dos documentos. Santo Atanásio podia apelar repetidamente a Niceia, como a uma bandeira de batalha, porque o seu ensino era sucinto e sólido. Os papas, após o Concílio de Trento, podiam apelar repetidamente aos seus cânones e decretos, porque o ensino era sucinto e sólido. Embora Trento tenha produzido um grande número de documentos ao longo dos anos em que as sessões ocorreram (1545 a 1563), cada documento é uma maravilha de clareza, sem uma palavra desperdiçada. 

No mínimo, os documentos do Vaticano II falharam miseravelmente no propósito do Concílio, conforme explicado pelo Papa João XXIII. Ele disse em 1962 que queria uma apresentação mais acessível da Fé para o Homem Moderno. ”Em 1965, tornou-se dolorosamente óbvio que os 16 documentos nunca seriam algo que apenas se reuniria num livro e se entregaria a todos os leigos ou interessados. Pode-se dizer que o Concílio caiu entre dois suportes: não produziu um ponto de entrada acessível para o mundo moderno nem um “plano de compromisso” sucinto para os pastores e teólogos confiarem. O que conseguiu? Uma enorme quantidade de papelada, muita prosa ventosa e uma cutucada: “Adaptem-se ao mundo moderno, meninos!” 

É por isso que o último concílio é absolutamente irrecuperável. Se o projecto de modernização resultou numa perda maciça de identidade católica, mesmo de competência doutrinária básica e moral, o caminho a seguir é prestar os últimos respeitos ao grande símbolo desse projecto e vê-lo enterrado. Como Martin Mosebach diz, a verdadeira “reforma” significa sempre um retorno à forma – isto é, um retorno a uma disciplina mais rígida, doutrina mais clara, adoração mais completa. Não significa nem pode significar o contrário. 

Existe algo da substância da Fé, ou algum benefício indiscutível, que perderíamos se nos despedissemos do último concílio e nunca mais ouvíssemos o seu nome mencionado novamente? A Tradição Católica já possui em si imensos recursos (e, especialmente hoje, em grande parte inexplorados) para lidar com todas as questões irritantes que enfrentamos no mundo de hoje. Agora, quase um quarto do caminho para um século diferente, estamos num lugar muito diferente, e as ferramentas de que precisamos não são as da década de 1960. 

O que, então, pode ser feito no futuro? 

Desde a carta do arcebispo Viganò em 9 de Junho e os seus subsequentes escritos sobre o assunto, as pessoas discutem o que pode significar “anular” o Concílio Vaticano II. Eu vejo três possibilidades teóricas para um futuro papa. 

Poderia publicar um novo Sílabo de erros (como o bispo Schneider propôs em 2010) que identifica e condena os erros comuns associados ao Vaticano II, sem atribuí-los explicitamente ao Vaticano II: “Se alguém disser XYZ, seja anátema.” Isso deixaria em aberto o grau em que os documentos do Concílio realmente contêm os erros; no entanto, fecharia a porta para muitas “leituras” populares do Concílio. 

Poderia declarar que, olhando para o meio século passado, podemos ver que os documentos do Concílio, por causa das suas ambiguidades e dificuldades, causaram mais mal do que bem na vida da Igreja e deveriam, no futuro, não ser mais referenciados como autoritários na discussão teológica. O Concílio deve ser tratado como um evento histórico cuja relevância já passou. Novamente, essa postura não precisaria afirmar que os documentos estão errados; seria um reconhecimento de que o Concílio mostrou que “não vale o problema”. 

Poderia especificamente “negar” ou anular certos documentos ou partes de documentos, como partes do Concílio de Constança que nunca foram reconhecidas ou foram repudiadas. 

A segunda e terceira possibilidades decorrem do reconhecimento de que o Concílio assumiu a forma, única entre todos os concílios ecumênicos da história da Igreja, de ser “pastoral” em propósito e natureza, de acordo com João XXIII e Paulo VI; isso tornaria deixá-lo de lado relativamente fácil. À objeção de que, ainda, forçosamente, ele diz respeito a questões de fé e moral, eu responderia que os bispos nunca definiram nada e nunca anatematizaram nada. Até as “constituições dogmáticas” não estabelecem dogmas. É um concílio curiosamente expositivo e catequético, que não resolve quase nada e incomoda bastante. 

Como quer que seja que um futuro papa ou concílio lide com essa confusão completamente arraigada, a nossa tarefa como católicos permanece como sempre foi: manter a fé dos nossos pais nas suas expressões normativas e confiáveis, a saber, a lex orandi dos ritos litúrgicos tradicionais do Oriente e do Ocidente, a lex credendi dos Credos aprovados e o testemunho consistente do Magistério ordinário universal, e a lex vivendi demonstrada pelos santos canonizados ao longo dos séculos, antes da confusão se estabelecer. Isso é suficiente, e mais que suficiente.

Peter Kwasniewski in onepeterfive
(Tradução: Fratres in Unum)

[i] Veja-se a sinopse aqui
[ii] É digno de nota que João XXIII nomeou comissões preparatórias que produziram documentos curtos, justos e claros para o próximo Concílio trabalhar – e depois permitiram que a facção liberal ou “Reno” dos pais do Concílio descartassem esses projetos e os substituíssem por novos. A única exceção foi o Sacrosanctum Concilium, projeto de Bugnini, que navegou sem grandes problemas. 
[iii] Não se trata apenas de más traduções; as primeiras traduções eram geralmente boas e então depois as traduções pioravam os textos ainda mais. 
[iv] Como o cardeal Walter Kasper admitiu num artigo publicado no L’Osservatore Romano a 12 de Abril de 2013: “Em muitos lugares, [os Padres do Concílio ] tiveram que encontrar fórmulas de compromisso, nas quais, frequentemente, as posições da maioria são localizado imediatamente ao lado da minoria, projectado para delimitá-los. Assim, os próprios textos conciliares têm um enorme potencial de conflito, abrindo a porta para uma recepção selectiva em qualquer direcção.” 


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Cardeal Raztinger explica que o Papa não pode fazer tudo o que quer

O Papa não pode fazer tudo o que quer. Não é um monarca absoluto, como por vezes aconteceu com alguns Reis. É completamente o oposto: ele é o garante da obediência. Ele é o garante do facto de que não seguimos a sua opinião ou a de qualquer outra pessoa, mas professamos a Fé de sempre da Igreja que ele, "oportuna e inoportunamente", defende contra as opiniões do momento. 

O Senhor nos assegurou, e dois mil anos de história da Igreja o demonstram, que Ele cumpre estas promessas até mesmo com Papas maus e inadequados; que a Palavra de Deus será justamente explicada e assim será preservada a Fé, que não é  uma mera opinião mas um dom de Deus.

Cardeal Joseph Ratzinger, homilia no dia 22 de Agosto de 1999 na 'St. Johannes Kirche'


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sábado, 26 de setembro de 2020

Prova única de divindade: sentir-se em casa em qualquer altar de qualquer país do mundo

[Neste ponto da história o Padre está num navio a fazer a travessia do Atlântico em direcção à Europa, prestes a oferecer Missa]
Senti-me que nem um bispo ao paramentar-me no pequeno altar - uma violação da lei liturgica que era justificada pela necessidade. Os paramentos de estilo italiano tinham uma sensação um pouco estranha, e o missal e o cálice pareciam muito pequenos. E não havia degraus para subir e descer. Mas eu saí do tapete anterior ao altar, benzi-me e comecei - "Introibo ad altare Dei". Imaginem a minha surpresa quando praticamente toda a congregação respondeu! "Ad Deum qui laetificat juventutem meam". 

Claro, eram italianos, e o Latim é muito parecido com a sua bela língua. Além disto, praticamente todos os homens italianos aprendem a servir à Missa, e em Itália é mais provável ter um homem velho no povo vir a coxear até ao altar para responder às orações do que encontrar um rapazinho em batina e sobrepeliz para servir à nossa Missa.

Então a Missa continuou, com as pessoas a sentarem-se, levantarem-se e ajoelharem-se na altura própria, apesar de o mais pequeno movimento do barco tornarem isto difícil e muitos, com bastante razão se desculparem de se ajoelharem excepto na consagração. Certamente não era uma distracção quando pensei, durante uma pausa nas orações, que bela criatura de Deus é esta nossa Igreja Católica, espalhada por toda a Terra, cobrindo até o mar, trazendo homens e mulheres de todas as terras e línguas a ajoelharem-se perante um altar comum. 

Aqui estava eu, um sacerdote americano, sem o menor conhecimento de qualquer língua estrangeira, a começar uma jornada que me levaria a vários países, e no entanto bastante em casa neste altar no meio do Oceano, tal como estaria em qualquer altar de qualquer dos países que ia visitar. 

Os mesmos arranjos, o mesmo missal, as mesmas orações, as mesmas cerimónias em qualquer lugar, apenas com pequenas e não-essenciais diferenças, o que tornaria o estudo dos costumes eclesiásticos dos vários lugares interessante sem ser distractivo. Certamente, pensei, nenhuma outra religião pode mostrar tamanha prova de divindade como esta. 

Pe. Michael Andrew Chapman, in Open My Heart: Travel Sketches By A Pilgrim Priest (1930)


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Conselhos práticos para seguir a vontade de Deus

O que Cristo fez e ensinou foi a vontade de Deus: 

A humildade na conduta, a firmeza na fé, a contenção nas palavras, a justiça nas acções, a misericórdia nas obras, a rectidão nos costumes; ser incapaz de fazer o mal, mas poder tolerá-lo quando se é vítima dele; manter a paz com os irmãos; querer ao Senhor de todo o coração; amar nele o Pai e temer a Deus. 

Não pôr nada à frente de Cristo, pois Ele próprio nada pôs à nossa frente; ligarmo-nos inabalavelmente ao seu amor; abraçar com força e confiança a própria cruz; quando for preciso, lutar pelo seu nome e pela sua honra, mostrar constância na nossa profissão de fé; sob tortura, mostrar essa confiança que sustenta o nosso combate e, na morte, essa perseverança que nos faz alcançar a coroa. 

Querer ser herdeiro com Cristo, é nisso que consiste obedecer aos preceitos de Deus. É nisso que consiste cumprir a vontade do Pai.

São Cipriano (bispo de Cartago e mártir) in 'A oração do Senhor'


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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

As graves consequências do pecado da Luxúria

A luxúria é contada entre os sete vícios capitais. No plano individual, ela destrói a paz da alma, a nobreza do caráter, o desejo do Céu, e provoca cegueira espiritual. Quanto mais alguém satisfaz a luxúria, mais ela se torna veemente, provocando nervosismo, excitação e impaciência, conduzindo com frequência a outros pecados e até ao crime. 

A luxúria alimenta o egoísmo, a negligência, a impulsividade e a instabilidade. Por meio dela se contraem e se disseminam doenças extremamente dolorosas, sendo fatais algumas delas. Em relação à sociedade, a luxúria facilita a corrupção, fomenta a prostituição e a pornografia, torna instáveis as famílias, prejudica a formação infantil, incentiva a contracepção e o aborto.

A virtude da castidade liberta o homem da tirania da concupiscência, tornando-o mais apto para actividades nobres e espirituais e fortalecendo a sua vontade para as batalhas da vida. A castidade orienta os sentimentos e controla ou aperfeiçoa a sensibilidade. A temperança confere ao homem equilíbrio, especialmente nas acções e sentimentos mais directamente vinculados aos instintos de autopreservação e procriação.

Pe. David Francisquini in 'Homem e mulher Deus os criou' (Edit. Artpress, São Paulo, 2012, pp. 16-17)


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50 anos da FSSPX e trasladação do corpo de Mons. Lefebvre

Ontem, no Seminário de Êcone, foi celebrada Missa Pontifical de acção de graças pelos 50 anos da Fraternidade de São Pio X. Em seguida, procedeu-se à trasladação do corpo de Mons. Lefebvre, fundador da Fraternidade, da cripta do Seminário para a cripta da Igreja do Imaculado Coração de Maria.













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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Profissão Monástica em França

O Mosteiro de São Bento, na diocese de Fréjus-Toulon celebrou a profissão solene de um dos monges, Dom Ildefonso. O rito é belíssimo, especialmente a parte em que o monge está prostrado no chão da capela coberto por um pano fúnebre, que simboliza a sua morte para o mundo.


Vale a pena ler toda a descrição das cerimónias na página do New Liturgical Movement.











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Nossa Senhora das Mercês, padroeira dos escravos

Nossa Senhora das Mercês é um dos títulos da Virgem Maria.

A devoção originou-se na Espanha, daí também ser conhecida por Nossa Senhora das Mercedes. A Virgem é a protectora dos cristãos cativos dos mouros (muçulmanos) em África, principalmente os marinheiros e mercadores subjugados no Mar Mediterrâneo.  

A Ordem Real e Militar de Nossa Senhora das Mercês da Redenção dos Cativos, ou simplesmente Ordem de Nossa Senhora das Mercês foi fundada por São Pedro Nolasco e São Raimundo de Peñafort, em 1223, por ocasião da libertação dos escravos cristãos, tendo generalizado-se  sua festa na Igreja em 1696.

Foi no dia primeiro de agosto de 1223 que São Pedro Nolasco foi agraciado com uma Aparição de Nossa Senhora, a qual lhe indicou os meios para libertar os cristãos das mãos dos mouros. A França, na época, era palco de graves desordens devido aos abusos dos albigenses, que infestavam todo o sul do país. Achava-se Pedro associado ao conde Simão de Monfort, comandante do exército católico e com ele lhe chegou à Espanha, onde lhe foi confiada a educação do príncipe Jaime de Aragão. Investiu toda a sua fortuna e arrecadou somas avultadas com pessoas caridosas, a fim de resgatar cristãos escravos que tiveram a infelicidade de cair em poder dos muçulmanos.

Maria Santíssima, mostrando grande satisfação pelo bem que fizera aos cristãos, deu-lhe a ordem de fundar uma congregação como fim determinado da Redenção dos cativos. Pedro comunicou isso a São Raimundo de Peñafort, seu confessor e ao Rei Jaime, e grande surpresa teve, quando deles soube, que ambos, na mesma noite, haviam tido a mesma aparição. foi criada a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, e Pedro foi nomeado o grão-mestre da Ordem, sendo depois canonizado com o nome de São Pedro Nolasco. Foi elaborada a constituição da regra da nova Ordem, que teve gratíssimo acolhimento do povo e dos nobres. Já em 1235, uma nova regra obteve aprovação da Santa Sé. Deste modo, a devoção à Virgem das Mercês foi-se espalhando por toda a Europa.  

A devoção chegou a Portugal, onde se difundiu de Alenquer para Santarém e para Lisboa, e foi levada pelos frades mercedários para o Brasil, onde floresceram diversas confrarias, formadas principalmente por escravos, os quais consideravam Nossa Senhora das Mercês padroeira da sua libertação.

in Pale Ideas 


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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Imagens inéditas do Padre Pio

Imagens inéditas do Padre Pio from Senza Pagare on Vimeo.



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Padre Pio de Pietrelcina

Hoje é dia de São Pio de Pietrelcina, mais conhecido por 'Padre Pio'. O Padre Pio foi frade num convento franciscano em San Giovanni Rotondo (Foggia). Este santo ficou conhecido pelas horas seguidas que passava no confessionário, pelas muitas conversões que conseguiu com isso e pelos muitos milagres que fez ainda em vida. Padre Pio, à semelhança de São Francisco de Assis, recebeu também os estigmas. As feridas nas suas mãos sangravam constantemente.

Deixamos aqui uma pequena meditação deste grande São Pio sobre a agonia de Nosso Senhor

Espírito Divino iluminai a minha inteligência, inflamai o meu coração, enquanto medito na Paixão de Jesus. Ajudai-me a penetrar nesse mistério de amor e sofrimento do meu Deus, que, feito homem sofre, agoniza, morre por mim. 

Ó Eterno, ó Imortal, descei até nós para sofrer um martírio inaudito, a morte infame sobre a cruz no meio dos insultos, de impropérios e ignomínias, a fim de salvar a criatura que o ultrajou e continua a atolar-se na lama do pecado. O homem saboreia o pecado e, por causa do pecado, Deus está mortalmente triste; os tormentos duma agonia cruel fazem-no suar sangue!... Não, não posso penetrar neste oceano de amor e de dor sem a ajuda da vossa graça, ó meu Deus. 

Abri-me o acesso à mais íntima profundidade do coração de Jesus, para que eu possa participar da amargura que o conduziu ao Jardim das Oliveiras, até às portas da morte — para que me seja dado consolá-lo no seu extremo abandono. Ah! Pudesse eu unir-me a Cristo, abandonado pelo Pai e por Si próprio, a fim de expirar com Ele!''

in 'A Agonia de Jesus'' - 'Padre Pio da Pietrelcina Meditazioni' (Edizioni Casa Sollievo della Sofferenza San Giovanni Rotondo Foggia, 1991)


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terça-feira, 22 de setembro de 2020

O inquérito romano relativo à Missa Tradicional revisitado

No dia 7 de Março passado, a Congregação para a Doutrina da Fé lançou junto de todos os bispos da Igreja latina um inquérito sobre a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum, com o fito de auscultar também quais as necessidades sentidas no âmbito da forma extraordinária do rito romano (veja-se a carta 744 de 4 de Maio de 2020). Muitos foram os que então, mas ainda hoje, se inquietaram e se inquietam a propósito do que se seguirá a uma tal medida. Pedimos, por isso, a Christian Marquant, presidente de “Oremus-Paix Liturgique” que nos desse conta das suas impressões, agora que são volvidos sete meses sobre o lançamento dessa iniciativa.


Paix Liturgique: Na sua opinião, qual o motivo de se ter decidido levar a cabo este inquérito?

Christian Marquant: Por um lado, é notório que, em Roma e no episcopado italiano, existe uma tendência que preferiria que a missa tradicional e, mais ainda, os institutos “Ecclesia Dei” ficassem sob a alçada do direito comum, isto é, que ficassem submetidos, respectivamente, à Congregação para o Culto Divino e à Congregação para os Religiosos (como era conhecida). A resposta do Papa, que sofre tais pressões, foi a resposta clássica de um governo que procura furtar-se à crítica: organizar um inquérito. Para além disso, é também normal que a Santa Sé queira obter mais informações sobre a situação e o desenvolvimento actual no âmbito do universo Summorum Pontificum, e isto fá-lo segundo o método que é habitual em Roma: interroga-se os bispos. O que até então acontecia por ocasião e no decurso das visitas ad limina que os bispos fazem a Roma, país por país, decide-se agora fazer a nível mundial. E é por isso que, no fim de contas, tomo este inquérito como uma boa notícia, na medida que esse deveria obrigar os nossos pastores diocesanos a abandonarem a situação de negociacionismo autístico em que tão amiúde se encerram diante da nossa realidade. Isso, se, pelo menos, responderem objectivamente às questões que lhes foram postas.


Paix Liturgique: E crê que as autoridades vaticanas não conhecem de facto esta realidade?

Christian Marquant: Apenas imperfeitamente, porque apenas se ocupam de uma parte desta realidade. Desde há muito tempo (desde as conversações com Mons. Lefebvre, que fracassaram em 1988, e desde o reinício dessas conversações, a partir de 2000 até às últimas eleições da FSSPX), a atenção das autoridades vaticanas voltou-se exclusivamente para a Fraternidade São Pio X. Para quem não está a par da realidade das coisas, importa dizer que ela, não sendo a totalidade, constitui ainda assim o núcleo essencial do mundo tradicional, conquanto, e isto cada vez mais, ela não seja senão um dos elementos – ainda que importante – do universo ligado à liturgia e ao catecismo tradicionais. Depois, para a Roma pós-conciliar, ela representa também um insucesso simbólico de grande monta, uma pedra no sapato: desde que a Igreja, com o Vaticano II, se abriu ao ecumenismo, não conseguiu fazer reentrar no seu seio qualquer comunidade separada (excepto um certo número de anglicanos); pelo contrário: teve sim de enfrentar uma nova ruptura, a da FSSPX.


Paix Liturgique: Entende que a prioridade dada a este interesse particular é um erro?

Christian Marquant: Não me cabe julgar das prioridades e dos polos de interesse das autoridades romanas. Ainda assim, atrever-me-ia a dizer que interessar-se essencialmente pela questão da Fraternidade São Pio X, para essas mesmas autoridades, tem representado uma falta de profissionalismo, por carecer de uma análise objectiva e duma visão da realidade tal como ela é. Roma acabou por ficar contaminada pela questão da FSSPX, porque esta era a vitrina da oposição ao Concílio, porque, desde 1974, se tornou um reservatório de sacerdotes tradicionais e porque, em 1988, se realizaram as consagrações episcopais. Quanto ao resto do universo tradicional, em 1988, a Santa Sé estabeleceu-lhe uma situação de tolerância (Ecclesia Dei), que teoricamente se veio a tornar uma situação de direito em 2007 (Summorum Pontificum), mas não olha para o fenómeno como ele é na realidade nem para o que ele se vai tornando dia após dia. As conferências episcopais nacionais fizeram ainda pior, interpretando sempre em sentido minimalista as decisões de Roma.


Paix Liturgique: Porquê?

Christian Marquant: Neste plano do episcopado, o que frequentemente se encontra é uma cegueira. Verifico que a maioria dos nossos pastores não dedicaram muita energia a tentar compreender o movimento tradicional e o potencial que ele apresentava. Procuraram simplesmente ostracizá-lo por meio de ataques, e amiúde, é preciso dizê-lo, com retoques de consumado despropósito ou tolice, enquanto continuavam a afirmar a torto e a direito que não havia qualquer problema litúrgico ou catequético, quando mais de 90% dos católicos da Europa ocidental se afastavam da Igreja!...


Paix Liturgique: Mas será que poderiam ter visto as coisas doutra maneira?

Christian Marquant: Certamente que sim. Bastaria abrir os olhos. Desde há três anos que publicamos e expomos qual a situação da liturgia tradicional no conjunto dos continenentes do globo. Damo-nos logo conta de que o universo Summorum Pontificum está em constante desenvolvimento. Hoje, inclusivamente, está mais difundido e é mais importante do que o universo da São Pio X. E os dois juntos, representam na Igreja um conjunto que cada vez menos admite ser ignorado, no meio de uma derrocada do ponto de vista do número de sacerdotes e de religiosos (no Ocidente) como do ponto de vista da doutrina (por todo o lado).


Paix Liturgique: Crê que as proporções desta situação vão aumentar?

Christian Marquant: Com efeito, é o que irá acontecer. Importa notar, em primeiro lugar, que as iniciativas tradicionais no âmbito Summorum Pontificum são hoje muito numerosas – pense-se, em França, na rede de escolas privadas sem contrato com o Estado – e que o seu público vem multiplicar o da liturgia tradicional. O crescimento do número de lugares onde se celebra a missa tradicional foi objecto de uma medição exacta por ocasião dos 10 anos do motu proprio (grosso modo, esse número duplicou). Este crescimento irá continuar. A par disso, se, quando se pensa no universo tradicional, importa que evitemos centrar-nos na FSSPX, por outro lado, ao pensarmos no meio tradicional “oficial”, também convém evitar não ir além das comunidades “Ecclesia Dei”. É bem verdade que, no que toca a sacerdotes e apostolados, elas mostram estar em pleno vigor, mas observamos que o movimento Summorum Pontificum é hoje maioritariamente diocesano e paroquial, o que deixa entrever um futuro desenvolvimento rápido e praticamente ilimitado.


Paix Liturgique: Não haverá aí algum exagero?

Christian Marquant: Lembro que, nos últimos 20 anos, já levámos a cabo mais de 40 sondagens de opinião, não apenas em França, mas nos principais países europeus e, agora, em todos os continentes... Ora bem, os resultados são muito significativos, indicando que, por todo o lado, quaisquer que sejam as regiões analisadas ou a cultura dominante aí presente, deparamos com pelo menos 30% dos católicos praticantes que desejam viver a sua fé católica ao ritmo da liturgia tradicional. Já não se trata, por conseguinte, de umas quantas ilhotas de nostálgicos que possamos apontar e contar pelos dedos: estes 30% de fiéis representam hoje centenas de milhões de católicos que, decididamente, não estão satisfeitos com a liturgia que se lhes apresenta.


Paix Liturgique: Trata-se de uma novidade?

Christian Marquant: De todo! O ribombar mediático pós-conciliar que nos foi matraqueando mascarou a realidade e quis fazer crer que todos os católicos eram fervorosos apoiantes das novidades: ora, isso é falso, e sempre foi falso! Mas aqui, como em tantos outros domínios, as elites, e assim, as autoridades diocesanas, não quiseram dar ouvidos, e, hoje, deparam com esta realidade diante dos olhos e não a compreendem.


Paix Liturgique: É por isso, então, que se alegra com este inquérito romano enviado a todos os bispos do mundo?

Christian Marquant: Há pouco, comecei por falar dos bispos italianos hostis ao desenvolvimento da liturgia tradicional. Pois eles aperceberam-se tão bem do perigo deste inquérito – cujos resultados serão tratados pelo pessoal do departamento da Congregação para a Doutrina da Fé encarregue da liturgia tradicional –, que, por própria iniciativa, decidiram modificar o método ditado por Roma: os bispos italianos receberam da sua Conferência Episcopal a ordem de enviar as suas respostas, não à Congregação para a Doutrina da Fé, mas sim à Conferência Episcopal Italiana, encarregando-se ela própria de os tratar, de fazer uma síntese e de os enviar à Santa Sé.

Não podendo ser ingénuo (sei bem que os opositores da liturgia tradicional continuarão a fazer de tudo contra ela), vejo nisto a prova de que a verdade incomoda. Ora, esta verdade é o peso que tem o universo Summorum Pontificum, enquanto o mesmo representa o descontentamento duma fracção muito considerável dos católicos de todos os países do mundo.


Paix Liturgique: Crê, portanto, que este estado de coisas incomoda? 

Christian Marquant: É o que acho, e dou-lhe uma razão: dias atrás, o nosso amigo Marco Sgroi, presidente da Coordenação Summorum Pontificum de Itália, anunciava-nos que, em 2019, ou seja, no espaço de apenas um ano, o número dos lugares onde se celebra a liturgia tradicional em Itália, passara de 129 para 134, ou seja, mais 5 novos lugares de culto, um crescimento de 4% no âmbito de 77 das 222 dioceses latinas italianas, e que, em Itália, os pedidos de celebração são cada vez mais numerosos (pelo menos, trinta pedidos conhecidos, situados na maior parte em dioceses onde, actualmente, a liturgia tradicional não é celebrada); e sabemos que nesse país, como em muitos outros, se esteve a martelar anos a fio que o “problema tradicional era um problema franco-francês”... Bem se pode compreender que, hoje, o episcopado italiano esteja inquieto como outrora foi o caso do episcopado francês.


Paix Liturgique: Parece, então, que está optimista?

Christian Marquant: Por natureza e por esperança crsitã. No caso vertente, contra ventos e marés, o facto é que já não será mais possível negar o desenvolvimento da liturgia tradicional. Isto, se quisermos ser honestos. Mas, nem por isso, desaparecerá a má fé, também o sabemos. Haverá quem continuará a afirmar, contra toda a réstea de bom senso, que este movimento e os seus fiéis não existem. Na Carta 744 da “Paix Liturgique”, relatava-se que o mais virulento dos inimigos da liturgia tridentina, o Professor Andrea Grillo, que ensina na Pontifícia Universidade de Santo Anselmo, havia lançado uma petição a 1 de Abril de 2020 em que se pedia que esta liturgia cessasse de gozar de um estatuto de excepção e que fosse plenamente submetida aos bispos diocesanos e à Congregação para o Culto Divino. Dito doutro modo, o escopo dos inimigos da missa tradicional é que ela fique sujeita aos bispos, e, por fim, seja aniquilada.


Paix Liturgique: E isso não será possível?

Christian Marquant: Não! Primeiro, porque a ligação à missa tradicional é como que consubstancial à fé católica, na medida em que se trata de uma ligação a uma lex orandi muito pura da Igreja romana. A Igreja romana, e por conseguinte a sua fé litúrgica, têm palavras de vida eterna. Não Andrea Grillo.

Muitas foram já as tentativas para sufocar esta liturgia e tudo o que ela traz consigo, já lá vão 50 anos, e todas se demonstraram infrutíferas. Mais o serão amanhã, com o passar do tempo, em virtude do risco de se ver deflagrar uma guerra litúrgica bem mais intensa do que a dos anos 70, num corpo eclesiástico hoje extremamente fragilizado... Alguém imagina o Papa Francisco que, amanhã, lança uma cruzada clerical – horresco referens – contra os que amam o silêncio e a piedade tradicional? Para mim, creio ser impensável, e, sobretudo, impossível.


Paix Liturgique: Se assim é, o que se pode esperar deste inquérito?

Christian Marquant: Não sei, mas, assim o espero, poderá vir a ajudar a que se tome consciênciada da amplitude do fenómeno tradicional. É que estou persuadido de que, dentro de cinquenta anos, a maior parte dos sacerdotes diocesanos ou religiosos já serão, pelo menos, algo bi-ritualistas, e a liturgia tradicional será reconhecida por todos, tanto por fiéis como por sacerdotes, como um tesouro espiritual e teológico da Igreja romana.

Carta 105 - Paix Liturgique em Português

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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Porta Pia: ainda por resolver a questão Igreja-Estado 150 anos depois

O Estado que ocupou Roma a 20 de Setembro de 1870 é o estado liberal moderno que rompeu os laços com a lei natural e divina como fontes de legitimidade. Surge de um acto de força, portanto não tem legitimidade, que é sempre um facto moral: o que respeita a ordem natural e finalística das coisas é legítimo, o que não o respeita é violência ilegítima, mesmo que tenha o sufrágio da maioria . Uma questão que até a Igreja evita esclarecer.

A questão da captura de Roma a 20 de setembro de 1870 não deve ser descartada, nem mesmo na sua versão de facto providencial que finalmente teria libertado a Igreja do lastro do poder temporal. Deve ser examinado em todos os seus aspectos que, no entanto, não são apenas históricos, mas também de princípio, digamos teóricos.

Isso colocava e ainda levanta o problema da legitimidade do Estado. Pio IX excomungou, então, o Estado italiano e o rei Vittorio Emanuele II e, assim, reafirmou os critérios correctos para considerar um Estado como legítimo, começando com o critério mais combatido e tenazmente negado então e agora, que é: dar legitimidade a um Estado (ou removê-la como no caso da Porta Pia) fica a cargo da Igreja. A posição de Pio IX também apresenta outros aspectos, mas este parece-me o fundamental e altamente actual, porque com o passar do tempo parece não ter sido resolvido, aliás a questão da legitimidade do Estado foi abandonada e quase ninguém o apresenta: os Estados existem e o simples facto de existirem também os legitima.

O estatuto (a constituição diríamos hoje) do Estado italiano proclamado em 1861 ainda continha a referência a Deus e considerava que o Rei de Itália o era por vontade de Deus, termo que foi retomado pelo Estatuto do Reino de Sabóia, posteriormente estendido a quase toda a península. No entanto, sabemos que essa expressão legal era agora letra morta, porque tanto o estado piemontês, primeiro, como o estado italiano, de então, foram inspirados, como todos os estados liberais do século XIX, pelo modelo do estado napoleónico. Este tipo de Estado - Homem-animal-máquina-Deus como disse Hobbes - que quer reduzir a si mesma toda a sociedade, padronizando-a às suas próprias necessidades, exclui o próprio problema da legitimidade, fazendo-o coincidir com a sua própria vontade.

O Estado que ocupou Roma a 20 de setembro de 1870 é o estado liberal moderno que rompeu os laços com a lei natural e, mais ainda, com a lei divina como fontes últimas de legitimidade. Não que tenha procurado em outro lugar outros critérios de legitimação, na verdade eliminou o problema: o Estado nasce de um acto de força, seja expresso por uma Vontade geral (Rousseau) ou por um Leviatã (Hobbes). Portanto, não tem legitimidade, porque um acto de força não pode ter legitimidade moral, nem a busca: sua legitimidade consiste na actualidade, isto é, em impô-la.

Portanto, ainda que o estatuto se referisse explicitamente a uma legitimidade derivada do direito natural e divino, os estados piemontês e italiano mantiveram essas afirmações por conveniência de imagem, mas esvaziaram-nas de qualquer significado. A política cavouriana e, depois, dos governos italianos com respeito ao casamento e à família, a destruição ope legis das ordens religiosas, as mãos postas na educação dos futuros cidadãos, a imposição de uma religião civil ateísta inspirada no materialismo positivista eliminam qualquer dúvida em mérito. Tudo isso havia sido contestado por Gregório XVI e Pio IX no plano doutrinário, após a brecha da Porta Pia o acto de excomunhão do Estado foi aprovado com o convite aos católicos para considerá-lo alheio a eles. Estranho porque é deslegitimado, portanto ilegítimo.

Podemos perguntar: a República Italiana é hoje um Estado legítimo? E a França ateia e anticlerical? E a Holanda com as suas leis desumanas? Ou a Alemanha que Peter Hahne disse ser agora um grande bordel? Hoje ninguém questiona se esses (e outros) estados são legítimos. O tema foi posto de lado, mas a lembrança de Porta Pia e a encíclica Rescipientes de Pio IX de 1 de Novembro de 1870 trazem-no de volta à vida. Em rigor, devemos dizer que nenhum estado actual é legítimo?

Normalmente, hoje acredita-se que o voto popular legitima o estado. Acima de tudo, o voto popular expresso na fase constituinte. Mas o voto popular não legitima nada porque é uma contagem quantitativa pura de opiniões desmotivadas. O voto popular também pede para ser legitimado, pois é apenas uma forma de tomar decisões e não o seu fundamento. A legitimação é sempre um facto moral, o que respeita a ordem natural e finalística das coisas é legítimo, o que não o respeita é a violência ilegítima, ainda que tenha o sufrágio da maioria. A constituição italiana não é legitimada porque é aprovada por maioria em assembleia e depois por referendo, é o contrário. Se o voto fosse para legitimar uma constituição que não respeita a lei natural, seria - o voto - deslegitimado. Entre outras coisas, a tomada de Roma em 1870 nem sequer foi decidida dessa forma, portanto, nem sequer tem a desculpa do formalismo processual democrático.

150 anos se passaram desde a Brecha da Porta Pia. A Igreja foi a primeira a perder a memória deste acontecimento. Mas como pode a Igreja hoje falar na esfera pública sem ter ideias claras sobre o que legitima o poder político? E se o problema da legitimidade é resolvido através da realidade (o que é necessário é legítimo) toda a estrutura da sociedade justa se desmorona, em todos os aspectos da vida comunitária e falar sobre o bem comum torna-se impossível.

Stefano Fontana in La Nuova Bussola Quotidiana


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