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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Resoluções de Ano Novo: Recuperar o tempo perdido

I. Um dia de balanço. O nosso tempo é breve. É parte muito importante da herança recebida de Deus.

II. Acto de contrição pelos erros e pecados que cometemos neste ano que termina. Acção de graças pelos muitos benefícios recebidos.

III. Propósitos para o ano que começa.

I. HOJE É UMA BOA OCASIÃO para fazermos um balanço do ano que passou e fixarmos propósitos para o ano que começa. É uma boa oportunidade para pedirmos perdão pelo que não fizemos, pelo amor que nos faltou; um bom momento para agradecermos a Deus todos os benefícios que nos concedeu.

A Igreja recorda-nos que somos peregrinos. 

A nossa vida também é um caminho cheio de tribulações e de “consolos de Deus”. Temos uma vida no tempo, na qual nos encontramos agora, e outra para além do tempo, na eternidade, para a qual nos encaminha a nossa peregrinação. O tempo de cada um é uma parte importante da herança recebida de Deus; é a distância que nos separa do momento em que nos apresentaremos diante de Nosso Senhor com as mãos cheias ou vazias.

Só agora, aqui nesta vida, podemos adquirir méritos para a outra. Na realidade, cada um dos nossos dias é um tempo que Deus nos presenteia para enchê-lo de amor por Ele, de caridade para com aqueles que nos rodeiam, de trabalho bem feito, de virtudes e de obras agradáveis aos olhos do Senhor. Este é o momento de amealhar o “tesouro que não envelhece”. Este é, para cada um, o tempo propício, este é o dia da salvação(1). Passado este tempo, já não haverá outro.

O tempo de que cada um de nós dispõe é curto, mas suficiente para dizer a Deus que o amamos e para concluir a obra de que o Senhor nos encarregou a cada um. Por isso São Paulo nos adverte: Vivei com prudência, não como néscios, mas como sábios, aproveitando bem o tempo(2), pois em breve vem a noite, quando já ninguém pode trabalhar(3). “Verdadeiramente, é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos nem que atiremos irresponsavelmente este tesouro pela janela fora. Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós”(4).

A brevidade do tempo é um contínuo convite para que tiremos dele o máximo rendimento aos olhos de Deus. Hoje, na nossa oração, podemos perguntar-nos se Deus está contente com a forma como vivemos o ano que passou: se foi bem aproveitado ou, pelo contrário, foi um ano de ocasiões perdidas no trabalho, na acção apostólica, na vida familiar; se fugimos com frequência da Cruz, porque nos queixávamos facilmente ao depararmos com a contrariedade e com o inesperado.

Cada ano que passa é um apelo para que santifiquemos a nossa vida diária e um aviso de que estamos um pouco mais perto do encontro definitivo com Deus. Não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo colheremos, se não desfalecermos. Por conseguinte, enquanto dispomos de tempo, façamos o bem a todos(5).

II. AO EXAMINAR-NOS, é fácil que verifiquemos ter havido, neste ano que termina, omissões na caridade, pouca laboriosidade no trabalho profissional, mediocridade espiritual consentida, pouca esmola, egoísmo, vaidade, faltas de mortificação na comida, graças do Espírito Santo não correspondidas, intemperança, mau humor, mau génio, distracções mais ou menos voluntárias nas nossas práticas de piedade... São inumeráveis os motivos para terminarmos o ano pedindo perdão a Deus, fazendo actos de contrição e de desagravo. Olhamos para o tempo que passou e “devemos pedir perdão por cada dia, porque cada dia ofendemos”(6). Nem um só dia escapou a essa realidade: foram muitas as nossas falhas e os nossos erros.

No entanto, são incomparavelmente maiores os motivos de agradecimento, tanto no campo humano como no espiritual. Foram incontáveis as moções do Espírito Santo, as graças recebidas no sacramento da Penitência e na Comunhão eucarística, as intervenções do nosso Anjo da Guarda, os méritos alcançados ao oferecermos o nosso trabalho ou a nossa dor pelos outros, as ajudas que nos prestaram. Pouco importa que agora só percebamos uma pequena parte dessa realidade. Agradeçamos a Deus todos os benefícios recebidos ao longo deste ano.

“É essencial conseguirmos novas forças para servir, e que procuremos não ser ingratos, porque o Senhor nos dá essas forças com essa condição; e se não usarmos bem do tesouro e do grande estado em que Ele nos coloca, voltará a tomá-los e ficaremos muito mais pobres, e Sua Majestade dará as jóias a quem as faça brilhar e as aproveite para si e para outros. Pois como poderia aproveitá-las e gastá-las generosamente quem não percebe que está rico? No meu modo de ver, é impossível, de acordo com a nossa natureza, que tenha ânimo para coisas grandes quem não pense estar favorecido por Deus; porque somos tão miseráveis e tão inclinados às coisas da terra, que, na verdade, mal poderá rejeitar todas as coisas daqui de baixo, com grande desprendimento, quem não perceba que tem algum penhor do além”(7).

Temos de encerrar o ano pedindo perdão por tantas faltas de correspondência à graça, pelas inúmeras vezes em que Jesus se pôs ao nosso lado e não fizemos nada para vê-lo e o deixamos passar; e, ao mesmo tempo, encerrá-lo agradecendo a Deus a grande misericórdia que teve connosco e os inumeráveis benefícios, muitos deles desconhecidos por nós mesmos, que Ele nos proporcionou.

III. NESTES ÚLTIMOS DIAS do ano que termina e nos primeiros do que se inicia, desejaremos uns aos outros que tenham um bom ano. Ao porteiro, ao farmacêutico, aos vizinhos..., dir-lhes-emos 'Feliz Ano Novo!' ou coisa parecida. Ouviremos outras tantas pessoas desejar-nos o mesmo e lhes agradeceremos.

Mas o que é que muita gente entende por 'Feliz Ano Novo'? “É, certamente, que vocês não sofram no novo ano nenhuma doença, nenhuma pena, nenhuma contrariedade, nenhuma preocupação, antes pelo contrário, que tudo lhes sorria e lhes seja favorável, que ganhem muito dinheiro e não tenham que pagar muitos impostos, que os salários aumentem e o preço dos artigos diminua, que o rádio lhes dê boas notícias todas as manhãs. Em poucas palavras, que não experimentem nenhum contratempo”(8).

É bom desejar estes bens humanos para nós mesmos e para os outros, se não nos separam do nosso fim último. O novo ano nos trará, em proporções desconhecidas, alegrias e contrariedades. Um ano bom, para o cristão, terá sido aquele em que tanto umas como outras lhe serviram para amar um pouco mais a Deus. Ano bom para o cristão não terá sido aquele que veio carregado – na hipótese de que isso fosse possível – de uma felicidade natural à margem de Deus. Ano bom terá sido aquele em que servimos melhor a Deus e aos outros, ainda que do ponto de vista humano tenha sido um completo desastre. Pode ter sido, por exemplo, um ano bom aquele em que apareceu a grave doença tantos anos latente e desconhecida, se soubemos santificar-nos com ela e com ela santificar aqueles que estavam à nossa volta.

Qualquer ano pode ser “o melhor ano” se aproveitarmos as graças que Deus nos reserva e que podem converter em bem a maior das desgraças. Para este ano que começa, Deus preparou-nos todas as ajudas de que necessitamos para que seja “um ano bom”. Não desperdicemos nem um só dos seus dias. E quando chegar a queda, o erro ou o desânimo, recomecemos imediatamente. Em muitos casos, através do sacramento da Penitência.

Que todos tenhamos “um bom ano novo”! Oxalá possamos apresentar-nos diante do Senhor, no fim deste ano que começa, com as mãos cheias de horas de trabalho oferecidas a Deus, de empenho apostólico junto dos nossos amigos, de incontáveis pormenores de caridade para com aqueles que nos rodeiam, de muitas pequenas vitórias, de encontros irrepetíveis na Comunhão...

Façamos o propósito de converter as derrotas em vitórias, recorrendo a Deus e começando de novo. E peçamos à Virgem Maria, nossa Mãe, a graça de viver este ano que se inicia lutando como se fosse o último que o Senhor nos concede.

Francisco Fernandez Carvajal

(1) 2 Cor 6, 2; (2) Ef 5, 15-16; (3) Jo 9, 4; (4) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 39; (5) Gál 6, 9-10; (6) Santo Agostinho, Sermão 256; (7) Santa Teresa, Vida, 10, 3; (8) Georges Chevrot, O Evangelho ao ar livre.


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sexta-feira, 14 de julho de 2023

A pobreza de São Francisco por São Boaventura

[O jovem] Francisco assistia devotamente à Missa em honra dos apóstolos; o Evangelho era aquele em que Jesus envia os Seus discípulos a pregar e lhes ensina a maneira evangélica de viver: «Não possuais ouro, nem prata, nem cobre em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado». 

Logo que compreendeu e interiorizou este texto, ficou apaixonado por essa pobreza dos apóstolos e gritou, num transporte de alegria: «É isto que eu quero! É isto que desejo com toda a minha alma!» E, sem mais, tirou os sapatos, deixou cair o cajado, abandonou o alforje e o dinheiro como objectos dignos de repúdio, ficou apenas com uma túnica, e deitou fora o cinto, que substituiu por uma corda: pôs todo o seu empenho em concretizar o que acabara de ouvir e quis conformar-se em tudo com esse código de perfeição, dado aos apóstolos.

Um impulso comunicado por Deus levou-o, desde então, à conquista da perfeição evangélica e a uma campanha de penitência. Quando ele falava as suas palavras eram totalmente impregnadas pela força do Espírito Santo: penetravam até ao mais profundo dos corações e mergulhavam os ouvintes em espanto. Toda a sua pregação era um anúncio de paz, e começava cada um dos seus sermões por esta saudação ao povo: «Que o Senhor vos dê a paz!» «Foi uma revelação do Senhor que me ensinou esta fórmula», declarou mais tarde. 

Falava-se cada vez mais do homem de Deus, dos seus ensinamentos tão simples e da sua vida, e alguns, com o seu exemplo, eram tocados por esse espírito de penitência e logo se juntavam a ele e, deixando tudo e vestindo-se como ele, começaram a partilhar a sua vida.


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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Amar os pobres e a pobreza

As coisas que possuímos não são nossas. Deus deu-no-las para que as cultivemos e quer que as tornemos frutuosas e úteis. Prescindi sempre, portanto, de uma parte dos vossos meios e dai-a aos pobres de bom coração. É verdade que Deus vo-lo devolverá, não só no outro mundo, mas também já neste, porque não há coisa que mais nos faça prosperar do que a esmola; mas, enquanto esperais que Deus vo-lo torne, estareis já mais pobres daquilo que destes, e como é santo e rico o empobrecimento que advém de se ter dado esmola!

Amai os pobres e a pobreza, porque por este amor tornar-vos-eis verdadeiramente pobres, tal como está dito nas Escrituras: tornamo-nos naquilo que amamos (cf. Os 9,10). O amor torna os amantes iguais: «Quem é fraco, sem que eu o seja também?», diz São Paulo (2 Co 11,29). Poderia ter dito: «Quem é pobre, sem que eu o seja também?», porque o amor tornava-o igual a quem amava. 

Portanto, se amais os pobres, sereis verdadeiramente participantes da sua pobreza, e pobres como eles. Assim, se amais os pobres, ide com frequência para o meio deles: tende prazer em os receber em vossas casas e em visitá-los; conversai voluntariamente com eles, ficai felizes por eles se aproximarem de vós na igreja, na rua ou em qualquer outro local. Sede pobres de língua para com eles, falando-lhes como amigo, mas sede ricos de mãos, largamente lhes dando dos vossos bens, pois vós os tendes em muito maior abundância. 

Quereis fazer mais, ainda? Tornai-vos servos dos pobres; ide servi-los com as vossas próprias mãos e a expensas vossas. Maior triunfo há neste serviço do que o que há na realeza.

São Francisco de Sales in 'Introdução à vida devota', parte 3, cap. 15


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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A Velha, a Mota e Nós

1. a) Um dia, nos idos da minha juventude, caminhando eu pela Avenida de Roma, da praça de Londres para o Lg. Frei Heitor Pinto, um pouco antes de chegar ao cruzamento com a linha férrea, perto do Maria Matos, deparei com um aglomerado de gente no meio da via - naquele tempo, tirante as horas de ponta, o trânsito era escasso -, rodeando espavorida uma velhinha estendida no alcatrão, empapada no próprio sangue que lhe corria abundante de uma perna praticamente decepada. A pouca distância uma motorizada empenada, modelo recentíssimo em Portugal, gotejando gasolina. De pé, com o capacete na mão, pálido como a cal mais branca, um jovem que logo percebi ser o condutor do motociclo. Uma vez que já se tinha chamado o 115 (hoje 112) e a mulher estraçalhada estava sendo assistida pelos populares, procurei confortar o moço dirigindo-lhe uma pergunta com o intuito de lhe possibilitar uma oportunidade de desabafar. A sua resposta pronta, gélida, dura, implacável, foi: O estupor da velha estragou-me a mota toda!


b) A velha tinha sido nova, linda de morrer, a pele lisa, os olhos vivos, o corpo estatuário. Andou na barriga da mãe, amamentou-se aos seus peitos, brincou no colo dos pais, aprendeu entre tombos a andar, adolescente e jovem teve os seus sonhos, os seus devaneios, apaixonou-se, namorou, casou-se. Com paciência aturou as manias do marido, com grande sacrifício criou os filhos que lhe deram grandes desgostos. Enviuvou cedo, trajou o luto, cismou com saudade. Viu nascer os netos, tomou conta deles, enxugou-lhes as lágrimas, mudou-lhes e lavou-lhes as fraldas (naquele tempo era assim), deu-lhes de comer, aturou-lhes as birras, curou-lhes a feridas, passou noites em claro a cuidá-los nas doenças. Quando deixaram de precisar dela atiraram-na para um lar escabroso. As visitas eram raras, os carinhos nenhuns. O único consolo que possuía era assistir à missa diariamente e conversar com o Senhor no Sacrário confiando-Lhe a alma do seu marido e as vidas dos seus familiares. Era de lá, da Igreja paroquial, que vinha quando ao atravessar a rua lhe caiu em cima aquela calamidade, veloz como uma turba de diabos que se precipita para perder o mundo. A sua muita idade ofuscara-lhe a vista, entupira-lhe os ouvidos, estorvara-lhe a percepção das distâncias e o difícil cálculo das velocidades.

c) Ele era de boas famílias. Tinha andado no melhor colégio do país e agora cursava um curso superior numa excelente Universidade. A mota tinha sido caríssima, novinha em folha fora estragada pelo raio da velha. O veículo valia muito, a velha nada. Ele identificava-se com o que tinha. Ouvia o pai dizer, quando alguém chocava com o seu Ferrari, bateram-me. Cada visita lá de casa ao ver o que possuíam, logo os consideravam mais. Daí que tenha concluído que ser é ter. Tenho muito, sou muito. Não tenho nada, nada sou.

2. No Novo Testamento os Apóstolos e Evangelistas reservam a palavra “caríssimo” somente para as pessoas, que Jesus Cristo veio resgatar. Esta palavra encontra-se em S. Lucas, S. Paulo, S. Pedro e S. João: no singular 7 vezes e no plural 20. A razão de tal uso é dada por S. Paulo e por S. Pedro: “Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” (1 Cor 6, 20); “Fostes comprados por um alto preço; não vos torneis escravos dos homens.” (1 Cor 7, 23); “ … fostes resgatados da vossa vã maneira de viver herdada dos vossos pais, não a preço de bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo … “. (1 Pe 1, 18-19).

O Pai criou-nos por Cristo no Espírito Santo, fazendo-nos à imagem e semelhança do Seu Filho unigénito. Como tivéssemos desbaratado a nossa dignidade o Deus Filho fez-Se um de nós para a restaurar e sublimar, redimindo-nos pela Sua morte e Ressurreição. Uma gota de sangue do Deus humanado vale, evidentemente, mais do que todo o universo. Por isso todas as riquezas por mais abundantes e preciosas que sejam não passam de lixo imundo em comparação com aqueles por quem Jesus Cristo derramou o Seu Sangue. Quem beber desse Sangue torna-se irmão de sangue do Senhor: “Quem realmente … bebe o Meu sangue fica a morar em Mim e Eu nele.” (Jo 6, 56).

Valiosíssimas, caríssimas são as pessoas. Só elas, humanamente falando, não têm preço. Tudo o mais se compra ou vende, se negoceia. As coisas usam-se, as pessoas amam-se, em todas as etapas da sua existência, desde o momento da concepção até à morte natural. O valor das coisas é relativo ao bem absoluto, transcendente, da dignidade da pessoa humana. Isto é, tanto quanto servem, protegem e promovem a pessoa tanto valem e nada mais.

À honra de Cristo. Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira


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domingo, 4 de outubro de 2020

S. Francisco de Assis e as Cruzadas

Durante a Quinta Cruzada chegou ao exército cristão um santo personagem, de nome Francisco de Assis. A sua fama de piedade havia-se difundido no mundo cristão e tinha-o precedido no Oriente. 

Desde tenra idade, Francisco tinha deixado a casa paterna para levar uma vida edificante. Um dia, quando assistia à Santa Missa, ficou impressionado com a frase do Evangelho em que Nosso Senhor diz aos seus discípulos: "Não tenhais nem ouro, nem prata, nem outra moeda, nem sacolas para a viagem, nem sandálias, nem bastões". Francisco começou então a ver com piedade todas as riquezas deste mundo e entregou-se todo à pobreza dos apóstolos. Percorreu as cidades, convidando os povos à penitência. Os discípulos que o seguiam, enfrentavam os desprezos da multidão e sentiam-se com isso grandemente honrados, diante de Deus; quando lhes perguntavam de onde vinham, eles respondiam: Somos pobres penitentes que chegamos de Assis.

Francisco foi levado ao Egipto pela fama da Cruzada e pela esperança de ali obter alguma grande conversão. No dia que precedeu a última batalha ele tivera um pressentimento da derrota dos cristãos. Francisco quis pregar aos chefes do exército que o escutaram com indiferença. Descontente com os cruzados e inflamado pelo zelo da causa de Deus, ele pensou então em fazer triunfar a fé por meio da sua eloquência e com as únicas armas do Evangelho. 

Avançou para o acampamento inimigo e fez-se aprisionar por soldados muçulmanos, que o levaram à presença do sultão. Então Francisco de Assis falou a Malek-Kamel, dizendo: 'Foi Deus que me enviou a vós para vos mostrar o caminho da salvação.' Depois destas palavras, o missionário exortou o sultão a abraçar o Evangelho. Desafiou na sua presença a todos os doutores da lei e propôs lançar-se numa fogueira acesa, para confundir a impostura e provar a veracidade da religião cristã. O sultão, admirado, despediu o zeloso pregador, que nada conseguiu do que ardentemente desejava. Não converteu o chefe dos infiéis e não obteve a palma do martírio.

Depois dessa aventura, S. Francisco de Assis voltou para a Europa, onde fundou a ordem religiosa dos frades menores que a princípio nada possuíam, nem igrejas, nem mosteiros, nem terras, nem rebanhos, e que, espalhados pelas províncias do Ocidente, trabalhavam na conversão dos pecadores. Os discípulos de S. Francisco levaram algumas vezes a palavra de Deus até os povos selvagens. Alguns foram à África e à Ásia, procurando, como o seu mestre, erros para combater e males para suportar; colocaram a cruz de Jesus Cristo em terras infiéis; durante a sua Cruzada de apóstolos repetiam estas palavras evangélicas: a paz esteja convosco! Iam somente armados com suas orações e apenas aspiravam à glória de morrer pela fé.'

Joseph François Michaud in'História das Cruzadas' (1956)


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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cardeal Sarah muda o paradigma com o livro 'Dieu ou rien'

"Eles não nos têm de dizer o que temos que fazer." Foram estas as palavras usadas pela teólogo Alemão, o Cardeal Walter Kasper, para descrever o que pensava sobre as contribuições africanas durante o Sínodo de 2014 para Família, quando Bispos Católicos e leigos se juntavam para discutir os desafios que a família enfrenta no mundo moderno.

Foi difícil não relembrar esta frase quando recentemente lia este livro [1]. Isto porque neste best-seller de 424 páginas, 'Dieu ou Rien' [Deus ou Nada] (Fayard, 2015), o Cardeal Robert Sarah, o novo Prefeito da Congregação para o Culto Divino, ilustra em conversa com o jornalista francês Nicolas Diat (o autor de um surpreendente e recente livro sobre o pontificado de Bento XVI) precisamente porque é que a Igreja universal devia ouvir mais os Católicos que vêm de culturas onde a fé está a florescer e ouvir muito menos os que estão preocupados com os problemas das Igrejas particulares do Ocidente: igrejas que são fabulosamente ricas em termos materiais mas espiritualmente moribundas, de acordo com qualquer padrão.

O título do livro sublinha
o tema central de Sarah: as sociedades que perdem um sentido de Deus - e não é qualquer deus, mas o Deus que é simultaneamente Caritas, Logos, Misericordia e Veritas - e escolhem o nada não conseguem evitar a experiência de um declínio profundo. Este tema da morte de Deus/morte do homem dificilmente é novo. Está implícito na discussão de Platão sobre as três versões do ateísmo e foi anunciado séculos mais tarde por Nietzsche. No entanto, o que torna a contribuição de Sarah diferente é a sofisticação com que ele desenvolve o seu argumento. Estamos diante de um homem que está igualmente familiarizado com discutir os pontos mais finos sobre religiões animistas [2] ou ao explicar as dimensões mais obscuras do caso Galileu.

"A maior dificuldade do homem não é", escreve Sarah, "o que a Igreja ensina sobre a moral, a coisa mais dificíl para o mundo pós-moderno é acreditar em Deus". Recorrendo a fontes desde as escrituras Hebraicas e Cristãs, aos filósofos Gregos, aos Padres da Igreja, a referências Judias, à literatura Russa e aos intelectuais franceses modernos, Sarah expõe uma tese poderosa que sugere que as decisões contra o Deus que se revela a Si mesmo na Bíblia estão a devastar grande parte do mundo, especialmente o Ocidente e ainda mais especificamente a Europa Ocidental. E ao fazê-lo - pois, como qualquer pessoa que tenha conhecido Sarah pode comprovar, ele é um homem genuinamente humilde - o Cardeal, nascido na obscura vila africana de Ourous, revela surpreendentemente um intelecto formidável que apenas se compara com anos de experiência pastoral e um profundo conhecimento, e contacto pessoal directo, com os muitos e diferentes desafios que confrontam a Igreja Católica por todo o mundo.

Para Sarah, pouco importa se este "vazio" se expressa através do ateísmo militante, do materialismo marxista, do liberalismo secular ou das entidades religiosas politicamente correctas que outro Cardeal, o Beato John Henry Newman, famosamente condenou como "o espírito do Liberalismo na religião". A negação de Deus, ensina Sarah, só pode levar a uma coisa: um enorme vazio que será sempre preenchido por caminhos destrutivos. Caminhos como a auto-absorção, o hedonismo e o tecno-utopianismo. Sarah não tem medo de fazer uma analogia entre as modas do Ocidente e os caminhos que ele acredita que as religiões animistas africanas seguiram para fabricar falsos deuses e ajudarem pessoas a distraírem-se a si mesmas do medo que ataca o homem quando ele pensa que está verdadeiramente sozinho no universo.

Por outro lado, Sarah sugere que outra forma de preencher o vazio é através do implacável abraço do equalitarismo, quer na economia quer através da promoção da ideologia de género. Ao usar este argumento, é pouco provável que Sarah ganhe muitos amigos no nosso mundo obcecado com a igualdade: uma fixação que inclui mais-do-que-uns-poucos Católicos. Dado que Sarah passou a maior parte da sua vida como arcebispo na Guiné, antiga colónia francesa, a enfrentar um dos piores opressores marxistas pós-coloniais da África, Ahmed Sékou Touré (que colocou Sarah na lista de inimigos para matar mesmo antes de morrer em 1984), é pouco provável que Sarah esteja especialmente preocupado  com os ataques dos liberais do Ocidente.

A vida de Fé de Sarah exemplifica em muitas maneiras a odisseia do Catolicismo africano do século XXI. Nascido em 1945, beneficiou do impulso missionário que caracterizou o Catolicismo Francês entre o século XIX e metade do século XX. Filho único de pais animistas, convertido ao Catolicismo, Sarah fala comoventemente dos padres espiritanos que deixaram a França, em muitos casos para sempre, para viver em algumas das regiões mais desoladas de África. Sarah foi baptizado por um sacerdote espiritano em 1947 e faz questão de dizer que foi ordenado sacerdote por um bispo espiritano em 1969.

Ao reflectir sobre o impacto do Catolicismo nos africanos que conheceu como rapaz e jovem adulto, Sarah nota que havia uma força libertadora quando o Catolicismo tornava divino o mundo natural, libertando portanto as pessoas do medo e da superstição. Para Sarah, esta é uma ilustração prática de como os dogmas e doutrinas da Igreja não são opressores mas, pelo contrário, libertam as pessoas revelando-lhes a verdade sobre as realidades últimas. Esta é não só uma mensagem importante para os que imaginam tornar o Catolicismo em algo doutrinalmente incoerente como, por exemplo, a Igreja de Inglaterra que representa o progresso. Também ajuda a explicar porque é que Sarah insiste tanto que a prática pastoral tem que se conformar com a doutrina - e não o contrário.

A vocação de Sarah ao sacerdócio veio cedo. Abraçá-la envolveu verdadeiras dificuldades que poriam à prova os crentes mais fervorosos. Para além de ter que viajar centenas de milhas a pé, pela estrada e barco para ir ao seminário, Sarah teve que ultrapassar doenças que quase iam levar à sua saída do seminário. Também não podia ser fácil para um jovem Guineense ser enviado para o Senegal, França, Roma e Jerusalém para estudos mais avançados, sem saber se iria ver o seu pai e mãe outra vez: pais que, diz Sarah, põem a segurança da sua própria velhice em risco ao apoiar o caminho do seu único filho para o sacerdócio.
Parece que Sarah absorveu intelectualmente imensa teologia, filosofia e exegese escriturística durante os seus estudos na Europa e Israel. Não estava, no entanto, tão absorvido ao ponto de não reparar no caos que tomou conta da vida do Ocidente desde meados dos anos 60 para a frente. Sarah não é nada tímido ao sublinhar o que ele vê como os efeitos profundamente negativos do Maio de 68 sobre o Ocidente e a Igreja de uma forma geral, incluindo, diz ele, o seu país natal - a Guiné.

Foi uma grande mudanaça para Sarah regressar de algumas das melhores instituições educativas da Igreja e ser enviado pelo seu bispo como prior numa das áreas mais inacessíveis da Guiné. Sarah também se viu a si mesmo numa sociedade cuja economia estava a ser destruída por políticas socialistas e a viver sob um governo que era implacável nos seus esforços para acabar com quaisquer sinais de oposição. A certo ponto, Sarah foi chamado para reformar um seminário que, descreve ele, estava com uma falta total de formação espiritual e onde o regime, numa tentativa para atacar a Igreja, tomou o lado dos seminaristas rebeldes. Quando Sarah foi confirmado como arcebispo de Conakry, em 1979, na incrível jovem idade de 34 anos, o seu predecessor Raymond-Marie Tchidimbo tinha acabado de ser libertado de oito anos de um campo de concentração: uma experiência que incluía tortura regular.

Sarah serviu como arcebispo de Conakry até 2001. Os seus vinte e um anos de trabalho pastoral envolveram enfrentar não só o regime Marxista de Sékou Touré e os governos que lhe seguiram, mas também o facto de viver num país de maioria muçulmana. Aqui Sarah fala na sua boa relação pessoal com os muçulmanos e menciona que os muçulmanos na Guiné viam o trabalho da Igreja Católica como a única instituição que gozava de alguma independência durante a ditadura de Sékou Touré.

Mas Sarah não é ingénuo no que toca ao Islão. Ele não hesita, por exemplo, em usar a expressão "terrorismo Islâmico" quando fala sobre os tumultos que amaldiçoam hoje o Médio Oriente. Sarah sublinha que o Catolicismo e o Islão funcionam com base em premissas incompatíveis. Isto, diz ele, limita as oportunidades de um diálogo ao nível das ideias. Por outro lado, Sarah sugere que a cooperação prática face aos problemas comuns, como o controlo populacional dos programas neo-malthusianos promovidos por ONGs e governos do Ocidente, pode ser a melhor maneira de avançar.

Em 2001, João Paulo II nomeou Sarah para o serviço, em Roma, de Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos. No livro é evidente que Sarah não ficou especialmente contente com isto. No entanto, esta mudança fez com que em 2010 Sarah fosse transferido para Presidente do Conselho Pontifício Cor Unum, que supervisiona o trabalho caritativo da Igreja por todo o mundo - o que fez com que aprofundasse o seu conhecimento da vida da Igreja universal. Assim, a sua análise das diferentes correntes de teologia da libertação é muito subtil, e separa os horrores marxistas da teologia que é mesmo boa. As críticas de Sarah ao Catolicismo da Europa Ocidental - a profunda crise de Fé, a infinita burocratização, o humanitarianismo sentimental e a mania das ONG que substitutem a crença religiosa - são claras, directas e, podemos dizer, difíceis de refutar.

E Sarah também não se detém ao descrever as dificuldades que o Catolicismo africano enfrenta. Ele aponta não apenas as ameaças externas, tais como as formas cada vez mais violentas adoptadas pelo Islão, mas também os problemas internos. Os últimos incluem estilos litúrgicos que ocasionalmente degeneram no culto da própria pessoa e nos sacerdotes a abandonar a sua vocação para entrar em seitas esotéricas semi-animistas.

Há então aquilo que Sarah insistentemente chama "a heresia do activismo", que afecta muitos sacerdotes pelo mundo fora. Esqueceram-se, diz ele, que a centralidade da vida só se encontra em Deus. Acima de tudo, Sarah está ciente da presença do mal no mundo. Ele menciona o holocausto (para o qual, já agora, ele usa a palavra preferida por muitos judeus religiosos - "Shoah") como talvez a maior iniquidade dos tempos modernos.

No entanto, quando chegava a altura de falar destes problemas, Sarah regressava sempre à necessidade primordial do ser humano por um único Deus verdadeiro. Responder às necessidades materiais das pessoas é bom, diz Sarah, mas isso simplesmente não chega. Para ilustrar isto, Sarah conta ter conhecido um jovem rapaz muçulmano num campo de refugiados da Jordânia. O rapaz, disse Sarah, tinha todas as suas necessidades materiais que precisava no campo. No entanto, explicou Sarah, toda a assistência material do mundo não conseguia responder às dúvidas deste rapaz sobre a existência de Deus: uma crise que começara pelo facto de o pai do rapaz ter sido chacinado por terroristas islâmicos.

Isto levou Sarah a criticar aqueles Cristãos que reduzem a evangelização a ideias políticas ou à promoção de um desenvolvimento socio-económico. A certa altura, Sarah criticou fortemente os ocidentais e organizações internacionais que usam expressões como "eliminar a pobreza". A compreensão Cristã da pobreza, diz Sarah, difere radicalmente da que a mente secular tem. Há tipos de pobreza, especifica ele, que todos os Cristãos devem na verdade abraçar, tal como o desprendimento de posses materiais. Para os Cristãos, diz Sarah, é melhor falar de lutar contra a miséria para não arriscar entrar em concepções seculares de progresso ou perseguir esquemas utópicos, tais como os programas socialistas de Sékou Touré que destruiram a economia da Guiné e só trouxeram miséria e morte.

Muito mais se poderia dizer deste incrível livro. Sendo óbvio que não foi escrito como resposta ao infame comentário do Cardeal Kasper sobre os Africanos, Dieu ou Rien mostra que o Catolicismo africano tem muito mais do que parece e tem coisas profundas a dizer à Igreja universal. Isto interessa especialmente agora, tendo conta as projecções, tais como sugeriu o recente estudo Pew-Templeton, de que cada quatro em 10 Cristãos no mundo vão viver na África sub-Sahariana em 2050. Enquanto a gravidade do mundo Católico se desvia da Europa ocidental para o mundo em desenvolvimento, ouvir os africanos como o Cardeal Robert Sarah pode ser algo que até os teólogos liberais Alemães mais tacanhos não vão conseguir evitar no futuro.

Samuel Gregg in Crisis Magazine

Negritos e notas por Senza Pagare
[1] Este livro já se encontra traduzido para português, com o título 'Deus ou nada', e pode ser adquirido em qualquer livraria ou entao online, por exemplo aqui: Filoteia.
[2] Religiões animistas são seitas e religiões africanas em que se dá um carácter divino e mágico a quase tudo, mesmo às coisas naturais. No contexto ocidental está relacionado com o fenómeno New Age.


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segunda-feira, 7 de março de 2016

Beata Teresa de Calcutá escreve às suas Irmãs

Os pobres têm sede de água, mas também de paz, de verdade e de justiça. Os pobres estão nus e têm necessidade de roupas, mas também de dignidade humana e de compaixão para com os pecadores. Os pobres estão sem abrigo e têm necessidade de um abrigo feito de tijolos, mas também de um coração alegre, compassivo e cheio de amor. Eles estão doentes e têm necessidade de cuidados médicos, mas também de uma mão amiga e de um sorriso acolhedor.

Os excluídos, os que são rejeitados, os que não são amados, os prisioneiros, os alcoólicos, os moribundos, os que estão sós e abandonados, os marginalizados, os intocáveis e os leprosos [...], os que estão na dúvida e confusos, os que não foram tocados pela luz de Cristo, os que têm fome da palavra e da paz de Deus, as almas tristes e angustiadas [...], os que são um fardo para a sociedade, os que perderam toda a esperança e a fé na vida, os que se esqueceram como se sorri e os que já não sabem o que é receber um pouco de calor humano, um gesto de amor e de amizade – todos eles se voltam para nós para serem reconfortados. Se lhes viramos as costas, viramos as costas a Cristo.

in Carta às suas colaboradoras de 10/04/1974


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domingo, 6 de setembro de 2015

A Europa laica e a crise dos refugiados: um comentário

Estás morta, Europa laica? Retiraste o cristianismo da Constituição, não foi?
Já não és cristã, pois não? Andaste ocupada a retirar crucifixos das escolas e dos tribunais. Vigias os políticos que se atrevem a trazer a sua fé cristã para a praça pública. Tens vergonha do teu cristianismo, Europa laica? Pois agora tens crianças cristãs mortas a dar à costa... Crianças que, com os seus pais, fogem de fanáticos assassinos que tu não queres combater, porque não vês vantagem económica em o fazer, nem queres tomar partidos em "guerras religiosas".

Enquanto os refugiados fogem do ISIS na Síria e no Iraque e tentam chegar às tuas praias, tu financias as mesquitas nas quais se radicaliza a nova juventude fanática. Fecham-se igrejas. Abrem-se mesquitas. Treinas o fanático europeu, que depois vai combater para a Síria, e que por sua vez vai empurrar mais refugiados para as tuas praias. E que um dia voltará a casa para matar em casa.
Agora que os refugiados batem à porta, Europa laica, vais-te apressar a construir muros, barricadas, vais fazer reuniões, plenários, debates, leis para evitar que eles entrem. Vais dizer que é da crise. Que não dá para todos...
Pobre Europa laica...
Retiraste o cristianismo da Constituição, não foi? Já não és cristã, pois não? É que se vê bem que já não és cristã!

Pois terás que um dia prestar contas.
Ao ver esta criança morta na praia, vejo que se aplicam a ti, Europa laica, as palavras que o Senhor disse a Caim:

O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.»

Bernardo Motta 

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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Uma história dos primeiros anos do Opus Dei

Texto escrito por Pedro Casciaro, um dos primeiros membros do Opus Dei. Na altura era um jovem estudante de arquitectura de 21 anos e vivia o seu primeiro ano numa residência da Obra.

"Um dia, nos começos de 1936, perguntei ao Padre quantos éramos ao todo e qual o lugar que eu ocupava. Ao notar a falta de humildade que transparecia da minha pergunta, o Padre deu-me uma resposta que, mais do que desconcertar-me, me impressionou. Disse-me mais ou menos o seguinte:

- Nas minhas visitas aos hospitais de Madrid, encontrei, conheci intimamente e dirigi muitas almas de doentes graves e incuráveis. Alguns - homens e mulheres - entenderam perfeitamente qual é a finalidade da Obra de Deus. Uns ofereceram as suas dores e a sua morte para que a Obra fosse para a frente; outros não só ofereceram esses sofrimentos, mas quiseram oferecer-se eles próprios ao Senhor, oferecer-lhe esse pouco de vida terrena que ainda lhes restava: e eu os recebi na Obra... Lembro-me de um homem jovem que tinha boa saúde e não só boa saúde, mas uma boa posição social e económica. Chamava-se Luís Gordon. Mas o Senhor levou-o inesperadamente para junto de Si.

Não me lembro das suas palavras textuais: mas foi isso, substancialmente, o que me disse. Continuou a falar-me de Luís Gordon, um jovem engenheiro industrial que falecera em 5 de Novembro de 1932. Talvez o Senhor tivesse querido levá-lo - comentou-me - para que a Obra nascesse numa pobreza real, sem meios económicos próprios, que nunca os terá. Ele já tinha herdade uma boa fortuna, que quis deixar para a Obra, mas eu - seguindo um impulso interior - dissuadi-o.

Anos mais tarde, pensei que, se o Padre não se tivesse oposto a que a Obra recebesse aquela herança, não teríamos sofrido os apertos económicos que passamos em Ferraz, nem os que vieram depois. Mas também não teríamos conhecido aquela extrema pobreza, que foi para nós uma escola rica de virtudes."

Pedro Casciaro in Sonhai e ficareis aquém


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sábado, 6 de junho de 2015

Os convidados para a Ceia do Senhor

Os convidados desculpam-se, embora o Reino não esteja fechado a ninguém que não se exclua a si próprio pela sua própria palavra. Na sua bondade, o Senhor convida todos; é a nossa covardia ou a nossa loucura que nos afasta. 

Aqueles que preferem comprar uma fazenda não têm lugar no Reino: no tempo de Noé, compradores e vendedores foram engolidos pelo dilúvio (Lc 17,26-28). O mesmo acontecerá àquele que se desculpa porque acabou de se casar, pois está escrito: «Se alguém vem ter comigo e não Me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lc 14,26).

Assim, depois do desprezo arrogante dos ricos, Cristo virou-Se para os gentios, e foi buscar bons e maus, para fazer crescer os bons e melhorar as disposições dos ímpios. Ele convida os pobres, os aleijados e os cegos, o que nos mostra que a deficiência física não exclui ninguém do Reino, e que a imperfeição do pecado é curada pela misericórdia do Senhor. 

Ele manda procurar nas encruzilhadas dos caminhos, porque «a Sabedoria clama nas esquinas» (Prov 1,20). Ele envia às praças, para dizer aos pecadores que deixem o caminho largo para alcançarem o caminho estreito que conduz à vida (Mt 7,13). Ele envia às ruas e ao longo das cercas, porque os que avançam para os bens que hão-de vir, sem serem retidos pelos bens do presente, comprometidos no caminho da boa vontade, são capazes de alcançar o Reino dos Céus; e também os que sabem distinguir o mal do bem, tal como os campos são delimitados por uma sebe, quer dizer, os que opõem o baluarte da fé às tentações do pecado.

S. Ambrósio in Comentário ao Evangelho de Lucas, 7, 200-203


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segunda-feira, 9 de março de 2015

"Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida"

"Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.’ Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?’ Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus." 
(Lc 12, 16-21)
«Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste, para quem será?» A conduta deste homem é tanto mais ridícula, quanto o castigo eterno será rigoroso. Com efeito, que projectos abriga no seu espírito esse homem que em breve vai partir deste mundo? «Deito abaixo os meus celeiros e construo uns maiores.» 

Quanto a mim, dir-lhe-ia de bom grado: fazes bem, e assim são demolidos com justa causa os celeiros da injustiça, pois que destróis com as tuas próprias mãos, de alto a baixo, o que construíste de maneira desonesta. Deita por terra as reservas desse trigo que nunca saciou ninguém e lança a razia sobre os silos que guardam a tua avareza. Arranca-lhes os tectos, derruba-lhes as paredes e expõe à luz do sol esse trigo cheio de mofo até saírem de sua prisão as riquezas até então cativas. 

«Deito abaixo os meus celeiros e construo uns maiores». E uma vez que os tenhas voltado a atafulhar, qual será a tua decisão? Demoli-los-ás para construir outros ainda maiores? Haverá maior insensatez do que atormentar-se sem fim, construindo obstinadamente para depois demolir? Se quiseres, os teus celeiros podem ser as casas dos pobres: «acumulai tesouros no céu», e tudo o que neles for armazenado «a traça e a ferrugem não corroem e os ladrões não arrombam nem furtam» (Mt 6,20).

 S. Basílio in Homilia 6, sobre as riquezas 


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quinta-feira, 5 de março de 2015

"Quem fala mal a um pobre injuria a Cristo" - S. Francisco de Assis

Francisco, pobrezinho e pai dos pobres, queria viver em tudo como pobre; sofria quando encontrava alguém mais pobre que ele, não por vaidade mas por causa da terna compaixão que os pobres lhe causavam. Só queria uma túnica de tecido grosseiro e muito comum; ainda assim acontecia-lhe bastantes vezes partilhá-la com algum infeliz. 

No entanto, era um pobre muito rico pois, movido pela sua grande caridade a socorrer os pobres sempre que podia, quando estava muito frio, ia ter com os ricos deste mundo e pedia-lhes que lhe emprestassem um sobretudo ou um casaco. Traziam-lhos mais depressa do que a pressa que ele se tinha dado em fazer o pedido. Ele então dizia: «Aceito com a condição de não esperarem que vo-los devolva.» E, com o coração em festa, Francisco oferecia o que acabava de receber ao primeiro pobre que encontrava. 

Nada lhe causava mais pena do que ver insultar um pobre ou que dissessem mal de qualquer criatura. Um dia, um irmão deixou escapar umas palavras que magoaram um pobre que pedia esmola: «Não serás por acaso um rico a fingir de pobre?» Estas palavras caíram muito mal a Francisco, o pai dos pobres, que infligiu ao delinquente uma terrível reprimenda e lhe ordenou que se despojasse das suas vestes na presença do pobre e lhe beijasse os pés, pedindo-lhe perdão. «Quem fala mal a um pobre, dizia, injuria a Cristo, de quem o pobre é o mais nobre símbolo neste mundo, uma vez que Cristo por nós Se fez pobre neste mundo» (cf 2Cor 8,9).

Tomás de Celano, biógrafo de S. Francisco in 'Vita prima' de S. Francisco, §76 


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domingo, 1 de março de 2015

Permaneçamos vazios para que Deus possa preencher-nos

As riquezas, quer sejam materiais ou espirituais, podem asfixiar-nos se não fizermos delas uma utilização adequada. Porque nem o próprio Deus consegue colocar coisa alguma num coração que já está cheio. Mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, reaparece o apetite pelo dinheiro e a avidez por tudo o que o dinheiro pode proporcionar – a procura do supérfluo, do luxo na comida, no vestuário e no entretenimento. 

As necessidades começam a aumentar, uma coisa atrai a outra. Mas no fim fica-se com um sentimento incontrolável de insatisfação. Permaneçamos tão vazios quanto possível para que Deus possa preencher-nos. 

Nosso Senhor é um exemplo vivo disto: logo no primeiro dia da sua existência humana, conheceu uma pobreza que nenhum ser humano alguma vez conhecerá porque, «sendo rico, tornou-Se pobre» (2Cor 8,9). Cristo esvaziou-Se de toda a sua riqueza. É aqui que surge a contradição: se eu quiser ser pobre como Cristo, que Se tornou pobre embora fosse rico, que devo fazer? Seria uma vergonha para nós sermos mais ricos do que Jesus que, por nossa causa, suportou a pobreza. 

Na cruz, Cristo foi privado de tudo. A própria cruz fora-Lhe dada por Pilatos; os pregos e a coroa, pelos soldados. Estava nu. Quando morreu, despojaram-no da cruz, retiraram-Lhe os pregos e a coroa. Foi envolto num pedaço de tecido dado por uma alma caridosa e foi enterrado num túmulo que não Lhe pertencia. E isto quando poderia ter morrido como um rei ou mesmo poupar-Se à morte. Mas Ele escolheu a pobreza porque sabia que ela é o verdadeiro meio de possuir Deus e de trazer o seu amor para a Terra.

Beata Teresa de Calcutá in No Greater Love 


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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Felizes os pobres de espírito

«Felizes os pobres de espírito porque é deles o reino dos céus» (Mt 5,3). Poderíamos perguntar-nos a que pobres quereria a Verdade referir-se se, ao dizer «Felizes os pobres», não tivesse acrescentado nada sobre o tipo de pobres de que falava. Pensar-se-ia então que, para merecer o Reino dos Céus, bastaria a indigência de que muitos sofrem devido a uma necessidade penosa e dura. Mas ao dizer: «Felizes os pobres de espírito», o Senhor mostra que o Reino dos Céus deve ser dado aos que são recomendados mais pela humildade da alma, do que pela penúria dos recursos. 

No entanto, não podemos duvidar de que os pobres adquirem mais facilmente do que os ricos o bem que é esta humildade, pois a doçura é uma amiga da sua indigência, ao passo que o orgulho é o companheiro da opulência dos ricos. Porém, também se encontra entre muitos ricos esta disposição de alma que os leva a servirem-se da sua abundância, não para se encherem de orgulho, mas para praticarem a bondade, e que encaram como grande lucro o que gastaram para aliviar a miséria e a infelicidade dos outros. 

A todos os tipos e classes de homens é dada a oportunidade de participarem nesta virtude, porque podem ser simultaneamente iguais em intenção e desiguais em fortuna; e pouco importam as diferenças entre os recursos terrenos que encontramos entre os homens que são iguais em bens espirituais. Feliz esta pobreza que não está agrilhoada pelo amor das riquezas materiais; ela não deseja aumentar a sua fortuna neste mundo, antes aspira a tornar-se rica dos bens dos céus.

S. Leão Magno in Sermão 95


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domingo, 10 de agosto de 2014

Como a Universidade discrimina os pobres

Laurent Lafforgue é um matemático célebre e relativamente jovem. Começou a receber prémios mundiais de Matemática nos últimos anos do liceu e depois continuou a somar: a Clay Research Award e, mais recentemente, a medalha Fields, o máximo galardão das matemáticas. Fora do âmbito científico, Lafforgue ficou conhecido pela defesa da qualidade do ensino. Só essa qualidade permite que as crianças pobres cheguem ao topo da cultura, só ela integra os filhos dos imigrantes, só ela democratiza a sociedade. 

Quando o ensino se degrada, como aconteceu em França a partir dos anos 30, alguns dos mais ricos conseguem escapar, mas a sociedade, no seu conjunto, é enganada: sem se perceber porquê, no topo da universidade aparecem quase só os ricos. Esta exclusão não acontecia quando o ensino tinha qualidade, mas passou a verificar-se quando se degradou. O problema que Laurent Lafforgue reconheceu em França, está a verificar-se em Portugal e posso testemunhar esta experiência com muitas histórias.

Desde há muitos anos, o Técnico elabora relatórios acerca do sucesso dos alunos. Uma vez, a responsável desse gabinete tentava identificar as circunstâncias que favorecem o êxito escolar e eu disse, ingenuamente, o que vem nos manuais: a variável que melhor correlaciona é o nível de escolaridade da mãe. Por exemplo, se a mãe tem um curso superior os filhos têm, estatisticamente, melhor aproveitamento. Ainda hoje me lembro da resposta: normalmente é assim, mas no Técnico esse critério dificilmente se aplica, pois mais de metade das mães dos alunos têm um curso superior.

Quem trabalha no Técnico sabe perfeitamente que são raros os alunos oriundos de famílias com um nível cultural pouco elevado, ou com dificuldades económicas. É uma boa notícia, o problema é que a sociedade tem sobretudo famílias de poucos recursos e o facto de não estarem representadas significa que há uma discriminação efectiva e não estamos a promover a ascensão social dessas pessoas. Como é sabido, o Técnico procura apoiar os alunos com dificuldades económicas, psicológicas, ou outras. Mas a verdade é que a percentagem de alunos realmente pobres é ínfima. Basta percorrer os olhos pela turma e contabilizar quem anda de automóvel ou passa férias no estrangeiro.

Na altura em que se permitiu às faculdades cobrar uma propina um pouco maior, o Técnico optou, sem hesitar, pelo escalão superior. A Associação de Estudantes protestou energicamente e lançou um inquérito, muito participado pelos alunos, a perguntar: tiveste dificuldade em pagar? A propina limitou-te? A resposta esmagadora foi: não tive dificuldade, nem me privei de nada. A Associação afixou os resultados nos placards e nunca mais houve protestos por causa das propinas.

As universidades têm todo o interesse em que ninguém fique excluído de uma formação mais completa por motivos económicos. O problema é que os alunos cujas famílias têm menos posses não estão a ser excluídos por falta de bolsas, mas por não terem notas suficientes. Quer dizer, de um modo geral, o péssimo funcionamento do ensino primário e secundário é disfarçado graças à inflação das notas e à passagem dos alunos mal preparados... até chegarem aos exames nacionais e não conseguirem entrar nas faculdades exigentes.

As famílias desafogadas têm meios para escapar a esta ratoeira. Podem aproveitar umas turmas escolhidas de certas escolas estatais e, inclusivamente, podem colocar os filhos em escolas não estatais. O resultado é que uns ficam em condições de aceder às melhores universidades e os outros ficam sistematicamente de fora.

Uma exclusão por motivos económicos choca sempre a sensibilidade democrática, mas a actual é particularmente dolorosa porque, em certo sentido, as coisas pioraram nos últimos 50 anos. Antes, o acesso ao ensino era mais restrito, mas havia mais mobilidade social e uma criança pobre podia chegar ao topo de uma carreira universitária.

Não podemos fechar os olhos à injustiça de obrigar as famílias mais pobres a porem os filhos nas escolas estatais. É dever do Estado pagar substancialmente o custo da educação, mas cativar essa verba contra a vontade das famílias é um abuso que penaliza (um pouco) os ricos e expulsa os mais pobres da universidade e de tudo o que isso significa, perpetuando as desigualdades sociais.

É da maior relevância social apoiar as famílias, sem as obrigar a escolher uma escola estatal.


José Maria C. S. André in «Expresso», 18-I-2014


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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Não desejamos uma luta de classes - Beata Teresa de Calcutá

Não consideramos ter o direito de julgar os ricos. Não é uma luta de classes o que desejamos, mas um encontro entre as classes, encontro no qual o rico salva o pobre e o pobre salva o rico. 

Diante de Deus, a pobreza é a nossa maneira humilde de admitirmos e de aceitarmos este estado de pecado, de impotência e de extremo vazio; é a maneira que temos de reconhecer o nosso estado de miséria, mas que se exprime como uma esperança nele, como uma espera para tudo recebermos dele, que é o nosso Pai. A nossa pobreza deveria ser uma autêntica pobreza evangélica – amável, terna, feliz, vivida de coração aberto, sempre pronta a dar um sinal de amor. 

A pobreza é amor antes de ser renúncia. Para amar, é necessário dar. Para dar, é necessário estar liberto de todas as formas de egoísmo.

in No Greater Love


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domingo, 29 de setembro de 2013

A parábola do homem rico e do pobre Lázaro - Papa Bento XVI

No Evangelho deste domingo (Lc 16, 19-31), Jesus narra a parábola do homem rico e do pobre Lázaro. O primeiro vive no luxo e no egoísmo, e quando morre, vai para o inferno. Ao contrário, o pobre, que se alimenta com as migalhas que caem da mesa do rico, quando morre é levado pelos anjos para a casa eterna de Deus e dos santos.

Mas a mensagem da parábola vai além: recorda que, enquanto estivermos neste mundo, devemos ouvir o Senhor que nos fala mediante as sagradas Escrituras e viver segundo a sua vontade, caso contrário, depois da morte, será demasiado tarde para se corrigir. 

Portanto, esta parábola diz-nos duas coisas: a primeira é que Deus ama os pobres e eleva-os da sua humilhação; a segunda é que o nosso destino eterno está condicionado pela nossa atitude, compete a nós seguir o caminho que Deus nos mostrou para alcançar a vida, e este caminho é o amor, entendido não como sentimento, mas como serviço aos outros, na caridade de Cristo.


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domingo, 19 de maio de 2013

O Papa Francisco, os pobres e o exorcismo

Na Vigília de ontem com os movimentos católicos o Papa Francisco mostrou mais uma vez como a sua relação com Jesus se reflecte na sua relação com os pobres e necessitados. Contou o Santo Padre, que quando se sentava no confessionário na sua diocese – agora já não se pode dar a esse luxo – fazia sempre 3 perguntas a quem se confessava: 1 – tem dado esmola aos pobres? 2 – quando dá esmola olha nos olhos do pobre? 3 – quando dá esmola toca na mão do pobre ou larga a moeda e vai-se logo embora?

Isto explica a verdadeira essência da esmola cristã. Não é apenas uma moeda que se pode dispensar, e se dá por descargo de consciência, mas antes um baixar-se para ir ao encontro do outro, do que não tem ninguém que o ame, ou que simplesmente olha para ele. As moedas são apenas um meio para um fim muito maior, que o outro sinta uma centelha do amor que Deus lhe tem. Daí que a luta contra a pobreza seja mais do que dar condições económicas a alguém, mas que aquela pessoa se sinta alguém.

No seguimento disso, hoje depois da Missa de Pentecostes, depois de ter dado a volta à Praça de S.Pedro, o Papa saiu do papamóvel no último corredor, onde tinham feito uma grande fila de pessoas deficientes mentais e motoras. Durante longos minutos o Santo Padre deteve-se a conversar, especialmente com os mais faladores, e a beijar um a um. Levou à prática o que tinha predicado no dia anterior, quando disse: “Tocar no corpo do pobre é tocar no corpo de Cristo.”

Um deles foi especialmente impressionante: um jovem que estava de cadeira de rodas, acompanhado por um Padre que conheço. Este Padre explicou ao Papa Francisco que o jovem sofria uma possessão demoníaca. O Papa deu-lhe uma bênção, que se traduziu logo ali num exorcismo. O jovem começou a gritar e as pessoas que estavam lá perto ficaram bastate impressionadas. É incrível o poder do Sucessor de Pedro, quando invoca o nome de Jesus Cristo não há quem lhe consiga resistir. Já tinha ouvido falar de exorcismos dos Papas anteriores, que tinham acontecido apenas com a bênção do Papa, mas nunca tinha testemunhado nada disso. O Papa Francisco deu mais um golpe no seu velho inimigo!


João Silveira


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