quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Te Deum de acção de graças por 2020

Te Deum laudámus: te Dóminum confitémur. Te ætérnum Patrem, omnis terra venerátur.Tibi omnes ángeli, tibi cæli et univérsæ potestátes: tibi chérubim et séraphim incessábili voce proclámant: Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dòminus Deus Sábaoth. Pleni sunt cæli et terra maiestátis glóriæ tuæ.

Te gloriósus apostolórum chorus, te prophetárum laudábilis númerus, te mártyrum candidátus laudat exércitus. Te per orbem terrarum sancta confitétur Ecclésia, Patrem imménsæ maiestátis; venerándum tuum verum et únicum Filium; Sanctum quoque Paráclitum Spíritum.

Tu rex glòriæ, Christe. Tu Patris sempitérnus es Filius. Tu, ad liberándum susceptúrus hóminem, non horrúisti Virginis úterum. Tu, devícto mortis acúleo, aperuísti credéntibus regna cælórum. Tu ad déxteram Dei sedes, in glória Patris. Iudex créderis esse ventúrus.


Te ergo quǽsumus, tuis famulis súbveni, quos pretiòso sanguine redemísti. Ætérna fac curo sanctis tuis in glória numerári. Salvum fac pópulum tuum, Dómine, et bénedic hereditáti tuæ. Et rege eos, et extólle illos usque in ætérnum. Per síngulos dies benedícimus te; et laudámus nomen tuum in sǽculum, et in sǽculum sǽculi.



Dignáre, Dómine, die isto sine peccáto nos custodíre. Miserére nostri, Dómine, miserére nostri. Fiat misericórdia tua, Dómine, super nos, quemádmodum sperávimus in te. In te, Dómine, sperávi: non confúndar in ætérnum.
Nós Vos louvamos, ó Deus, nós Vos bendizemos, Senhor. Toda a terra Vos adora, Pai eterno e omnipotente. Os Anjos, os Céus e todas as Potestades, os Querubins e os Serafins Vos aclamam sem cessar: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo, o céu e a terra proclamam a vossa glória.


O coro glorioso dos Apóstolos, a falange venerável dos Profetas, o exército resplandecente dos Mártires cantam os vossos louvores. A santa Igreja anuncia por toda a terra a glória do vosso nome: Deus de infinita majestade, Pai, Filho e Espírito Santo.


Senhor Jesus Cristo, Rei da glória, Filho do Eterno Pai, para salvar o homem, tomastes a condição humana no seio da Virgem Maria. Vós despedaçastes as cadeias da morte e abristes as portas do céu. Vós estais sentado à direita de Deus, na glória do Pai, e de novo haveis de vir para julgar os vivos e os mortos.

Socorrei os vossos servos, Senhor, que remistes com vosso Sangue precioso; e recebei-os na luz da glória, na assembleia dos vossos Santos. Salvai o vosso povo, Senhor, e abençoai a vossa herança; sede o seu pastor e guia através dos tempos e conduzi-o às fontes da vida eterna. Nós Vos bendiremos todos os dias da nossa vida e louvaremos para sempre o vosso nome.

Dignai-Vos, Senhor, neste dia, livrar-nos do pecado. Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós. Desça sobre nós a vossa misericórdia, Porque em Vós esperamos. Em Vós espero, meu Deus, não serei confundido eternamente.



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Afinal quem é o Salvador?

Parece - a acreditar nos grandes meios de comunicação social, nos políticos e muitos dignitários eclesiásticos - que pela primeira vez, celebrámos verdadeiramente o Natal. De facto, pelos vistos, a Salvação não está no Menino, Deus humanado, que sempre celebrámos, mas sim numa vacina, experimentada em linhas celulares derivadas de abortos provocados, que é incapaz de proteger do pecado e da morte eterna.

 

E, no entanto, a mais perigosa e mortal de todas as pandemias é a do pecado que nos traz a morte eterna. Este pecado de que ninguém fala, que ninguém combate, mas pelo contrário o promove sistematicamente, através de empresas gigantes sem escrúpulos, de poderes político-mundanos e, também, de um número, cada vez maior de dignitários eclesiásticos.

 

Ninguém se une para guerrear esta ruindade perversa, origem e nutridora de todos as outras malignidades.

 

Usam máscaras e desinfectantes para não serem contagiados e virem a padecer da Covid 19, mas não evitam, antes as procuram, as ocasiões de pecado. Recorrem aos médicos e aos hospitais para que lhes salvem a pele, mas são incapazes de buscarem um Padre para salvarem a alma. Tomam suplementos na expectativa de fortalecerem o sistema imunitário, mas não recorrem à Sagrada Eucaristia para se robustecerem contra a epidemia do pecado.

 

Sendo assim, não será de admirar que doravante o Natal passe a ser narrado e celebrado de um modo diferente. A comunicação social e os políticos proclamarão:


Anunciamos-vos uma grande alegria, hoje nasceu a vacina salvadora, que será para toda a humanidade. Isto vos servirá de sinal encontrareis frasquinhos acondicionados em sofisticados congeladores. Entretanto uma multidão de propagandistas e prelados, uns comprados outros submissos, anunciará: Glória às farmacêuticas nas eminências e paz na terra aos políticos do desenrascanço. Depois aparecem os especialistas vindos do ocidente, guiados pelo lucro luminoso, oferecendo seringas, desinfectantes e máscaras. E será melhor não continuar...

 

À honra de Cristo. Ámen.


Padre Nuno Serras Pereira



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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

O último dia do ano do Beato Carlos da Áustria

O Beato Carlos da Áustria (Imperador da Áustria) a rezar na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no Tirol, em 1916.

O Beato Carlos da Áustria foi o último Imperador da Áustria, Rei da Hungria, Croácia e Boémia. No final do ano de 1921 foi exilado, com a sua família, na Ilha da Madeira. Aceitou a vontade de Deus e perdoou os seus inimigos. Do último dia desse ano, a poucos meses da sua morte, relata-se:

«À tarde, como devoção de encerramento do ano, houve na capela da casa uma solene Bênção Eucarística. Estávamos apenas o Imperador, a Imperatriz e nós. Também foi rezado o Te Deum. Atrás de nós, ficava um ano que tinha sido o mais duro da vida do Servo de Deus. Ele encontrava-se longe da pátria, no exílio; na mais drástica necessidade material; estava separado de seus filhos e não sabia o que o dia seguinte haveria de lhe trazer de mal. Durante o Te Deum, nós, um após o outro, fomos nos silenciando, porque a dor nos fazia fugir a voz. Somente o Servo de Deus manteve-se firme e entoou forte e claramente o cântico ambrosiano até o fim, acentuando cada palavra. (...) 

Olhei-o com admiração. Percebia-se com toda evidência que para ele, naquele momento, existia apenas Deus — ninguém mais — e que aquele Te Deum era um íntimo diálogo entre Deus e o seu mais fiel servidor. Na época, ele não sabia se tornaria a ver seus filhos, não sabia o que o dia seguinte haveria de lhe trazer, e contudo, rezou com muito fervor aquela oração de acção de graças. [...] O Beato Carlos havia aprendido o sentido de seu reinado: entregar tudo Àquele de quem ele tudo havia recebido. Tanto que, ao final de sua vida, ele dirá à sua esposa: “Deus deu-me a graça de que, sobre a terra, não exista mais nada que eu não esteja pronto a sacrificar por seu amor, para o bem da Santa Igreja” 

Giovanna Brizi in A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria 

O Beato Carlos da Áustria, a Serva de Deus Zita Bourbon-Parma e sete dos seus oito filhos durante o exílio, na Suíça.

Os restos mortais do Beato Carlos da Áustria, aquando da sua morte, em Abril de 1922, na Madeira


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Natal no Seminário da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro em Wigraztbad









Fotografias: fsspwigratzbad.blogspot.com

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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Não há nada melhor do que uma família que ri à volta da mesa

Assim como a vida pessoal e privada situa-se num plano inferior ao da participação no corpo de Cristo, a vida colectiva também se situa num plano inferior ao da vida pessoal e privada e não possui valor, a não ser pelo serviço que presta. A comunidade secular, uma vez que existe para o nosso bem natural e não sobrenatural, não tem finalidades maiores do que auxiliar e proteger a família, a amizade e a solidão. 

Estar feliz em casa, disse Johnson, é o objectivo de todo o esforço humano. Se considerarmos apenas os valores naturais, podemos dizer que nada há melhor debaixo do sol do que uma família que ri à volta da mesa, dois amigos que conversam bebendo café ou um homem só, lendo um livro que lhe interesse; e que toda a economia, a política, o direito, o exército e as instituições, salvo à medida que contribuem para prolongar e multiplicar tais cenas, são como um arado na areia ou uma sementeira no oceano, uma vaidade sem sentido e uma afronta para o espírito. 

As actividades colectivas são, evidentemente, necessárias; mas é aquele o seu objectivo. Aqueles que possuem essa felicidade particular talvez sejam obrigados a sacrificar grande parte dela, para que possa ser distribuída mais amplamente. É possível que todos tenham de comer menos para que ninguém morra de fome. Mas não confundamos males necessários com bem. É fácil cometer esse erro. 

Para ser transportada, a fruta deve ser enlatada, perdendo, por consequência, parte das suas propriedades. Mas há gente que acaba por preferir a fruta enlatada à fruta fresca. Uma sociedade doente precisa pensar muito em política, como um enfermo é obrigado a preocupar-se com a digestão; desprezar o assunto pode ser uma covardia fatal para ambos. Mas se ambos passarem a considerar que esses são o alimento natural da mente — se esquecerem que essas preocupações só se justificam porque lhes permitem pensar em outras coisas — então o tratamento a que se submetem por amor à saúde transforma-se em nova enfermidade mortal. 

Existe, com efeito, em todas as actividades humanas, uma tendência fatal de os meios usurparem os próprios fins que eles se destinam a servir. Assim o dinheiro acaba atrapalhando a troca de mercadorias, as regras de arte asfixiam os génios e os exames impedem os jovens de tornar-se doutos. Não se conclui, infelizmente, que os meios usurpadores sejam sempre dispensáveis. 

É provável que o colectivismo de nossa vida seja necessário e venha a aumentar; e creio que a única salvaguarda contra as suas propriedades mortais está na vida cristã; porque temos a promessa de que podemos lidar com serpentes e beber veneno, e resistir. É essa a verdade que está por trás da definição errónea de religião com que começamos. Errónea porque opõe a mera solidão ao colectivismo. 

O cristão é chamado não ao individualismo, mas à participação no corpo de Cristo. A distinção entre a colectividade secular e o corpo de Cristo é, portanto, o primeiro passo para compreender como o cristianismo, sem ser individualista, pode neutralizar o colectivismo.

C.S. Lewis in O Peso da Glória


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São Francisco de Assis iniciou o costume de fazer presépios vivos no Natal

A celebração da festa de Natal remonta aos primeiros séculos da Igreja, sendo uma comemoração especificamente católica. Desde o século IV as relíquias da manjedoura da gruta de Belém são veneradas na Basílica de Santa Maria Maior em Roma. Encontram-se num precioso relicário de ouro e cristal, onde podem ser admiradas e adoradas por todos. A liturgia própria da festa era chamada ad praecepe, de onde vem a palavra presépio, e que significa literalmente em volta do berço.
Em 1223, São Francisco de Assis criou o primeiro presépio vivo, com personagens reais, na sua igreja de Grecchio, em Itália. Os figurantes (o Menino Jesus numa manjedoura, Nossa Senhora, São José, os Reis Magos, os pastores e os anjos) eram representados por habitantes da aldeia. Os animais, o boi, o burrico, as ovelhas e outros, também eram reais. Este piedoso costume medieval espalhou-se rapidamente.

Os primeiros presépios em escala reduzida com imagenzinhas, entraram nas igrejas no século XVI por obra dos padres jesuítas. Nessa época os jesuítas eram heróis na luta contra o protestantismo seco e hirsuto que desconhece o presépio e os seus imponderáveis divinos que enchem as almas de gáudio. Por volta dos séculos XV e XVI ficaram famosos os presépios de Nápoles, Itália, pela proliferação de figurinhas.

No início do século XIX, após a anticatólica Revolução Francesa, em França parecia que o costume tinha morrido. Mas, os habitantes da região de Provence (sul) deram novo impulso a esta piedosa devoção a partir de 1803 em casas particulares e igrejas criando famosos santons (figurinhas de massa).
Na hora de montar o presépio, em geral, deixa-se a manjedoura vazia. Nela, o Menino Jesus será instalado na noite do dia 24 para o 25. Forma parte do costume colocar uma estrela no topo do presépio. Ela lembra-nos da estrela que no Céu guiou os três santos Reis de Oriente que foram venerar o Salvador do mundo.

Os três Reis Magos (Gaspar, Melchior e Balthazar), simbolizam o conjunto dos povos da terra. Em geral, são representados com camelos, ou até elefantes e dromedários que lhes teriam servido de montaria. É um costume muito praticado, colocá-los longe da gruta e, dia após dia, aproximá-los dela, até introduzi-los na gruta na festa da Epifania (6 de Janeiro). Epifania significa a irradiação da glória externa de Deus, precisamente posta em relevo pela adoração dos potentados de Oriente.

A presença dos anjos é de rigor, relembrando o cântico angélico “Glória a Deus nos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” de que nos falam as Escrituras.

Luis Dufaur in luzesdeesperanca.blogspot.com


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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O Menino escondido

Quando era jovem - uma doença que se cura com o tempo -, já lá vão muitos e muitos anos, tinha um grupo de amigos que nos intervalos dos seus jogos de basquete e das corridas de motas se reunia num café-pastelaria. Este bando de gente amiga era muito diversificado, havia católicos praticantes e fervorosos, mas também não praticantes, outros que se foram aproximando da Fé e da Igreja; uns eram agnósticos, outros ateus, e também havia os indiferentes. Claro que estas diferenças suscitavam conversas e mesmo discussões, embora cordiais. Apesar de ao longo dos anos nos encontrarmos esporadicamente, normalmente em jantaradas, a amizade nunca se quebrou.

 

Ora, neste grupo havia um, aliás excelente pessoa, que nunca tinha tido catequese nem formação religiosa adequadas. Mas ouvindo-nos falar e discutir, um dia resolveu, por curiosidade, entrar na Igreja paroquial de S. João de Brito que encimava o largo onde nos reuníamos. Sucede que estava a ser celebrada a Santa Missa, e quando entrou os Fiéis concluíam o Prefácio da oração Eucarística, louvando a Deus, com o “Santo, Santo, Santo, é o Senhor”, etc. Não se deteve nem mais um segundo e saiu imediatamente com gargalhando, pois cuidou, como mais tarde nos disse, que os católicos não passavam de uns alienados porque aclamavam o Sacerdote celebrante chamando-lhe santo...

 

Há um conto de Sherlock Holmes, cujo nome não recordo, que narra, simplificando, a existência de um crime homicida, relatado pelos jornais, com toda a informação que a polícia local dispôs, no qual dão por culpada certa pessoa. Ora o famoso detective, partindo dos mesmos indícios e das mesmíssimas informações conclui que aquela condenação é injusta, provando com as suas investigações que o culpado era outro. A sua inteligência superior capacitava-o para ver coisas que todos os outros não percebiam, embora a realidade fosse a mesma.

 

Mutatis mutandis (mudando o que há a mudar): Um ateu, um pagão, um ignorante, etc., veem na Hóstia Consagrada um bocado de pão. Pelo contrário, um católico, não porque seja mais inteligente que os outros, mas porque, é iluminado pela Fé, um conhecimento infinitamente superior que não contradiz a razão, mas que a supera e a ilumina, vê, com os olhos da Fé, o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, ali presente, realmente, verdadeiramente e substancialmente.

 

S. Francisco Marto adorava e procurava consolar o Jesus escondido nas espécies eucarísticas, e, por isso, passava horas junto a Ele no Sacrário.

 

Onde está o Menino Jesus? Está no Sacrário, esperando, de braços e Coração aberto a nossa visita e adoração, como sucedeu com os pastores e os magos vindos do oriente, para nos consolar e salvar.

 

À honra de Cristo. Ámen.


Padre Nuno Serras Pereira



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domingo, 27 de dezembro de 2020

Puer Natus in Bethlehem

Hino de Natal em latim e português
Legendas: Iniciativa Condor


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São João Evangelista

O discípulo amado. São João Evangelista, o Apóstolo Virgem, é sem dúvida um dos maiores Santos da Igreja, merecendo o título de “o discípulo a quem Jesus amava”. Junto à Cruz, recebeu, do Redentor, Nossa Senhora como Mãe, e com Ela – como Fonte da Sabedoria – a segurança doutrinária que lhe mereceu dos Padres da Igreja o título de “o Teólogo” por excelência. Comemoramos a sua festa no dia 27 de Dezembro.

Sabemos pelos Evangelhos que São João era filho de Zebedeu e de Maria Salomé. Com o seu irmão Tiago, auxiliava o pai na pesca no lago de Genezaré. Pelos Evangelhos, sabemos também que o seu pai possuía alguns barcos e empregados que trabalhavam para ele. Maria Salomé é apontada como uma das santas mulheres que acompanhavam o Divino Mestre para O servir.

Como os outros dois irmãos Simão e André, também pescadores, era discípulo de São João Baptista, o Precursor. Deste, haviam recebido o baptismo, zelosos que eram, preparando-se para a vinda do Messias prometido.

Certa vez, estavam João e André com o Precursor, quando passou Jesus a alguma distância. O Baptista exclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo”. No dia seguinte, repetiu-se a mesma cena, e desta vez os dois discípulos seguiram Jesus e permaneceram com Ele naquele dia (Jo 1, 35-39).

Algumas semanas depois, estavam Simão e André lançando as redes às águas, quando passou Jesus e lhes disse: “Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens.” Mais adiante, estavam Tiago e João numa barca, consertando as redes. “E logo os chamou. E eles deixaram no barco seu pai Zebedeu com os assalariados e partiram com Ele.” (Mc 1, 16-20).

A partir de então, passaram a acompanhar o Messias em sua missão pública. Logo se lhes juntaram outros, que perfariam o número de doze, completando assim o Colégio Apostólico.

Preeminência de três Apóstolos sobre os demais 

Desde logo, Pedro, Tiago e João tomaram preeminência sobre os outros Apóstolos, tornando-se os “escolhidos dentre os escolhidos”. E, como tais, participaram de alguns dos mais notáveis episódios na vida do Salvador, como a ressurreição da filha de Jairo, a Transfiguração no Tabor e a Agonia no Horto das Oliveiras.

São João foi também um dos quatro que estavam presentes quando Jesus revelou os sinais da ruína de Jerusalém e do fim do mundo. Mais tarde, com São Pedro, a quem o unia respeitosa e profunda amizade, foi encarregado de preparar a Última Ceia. São Pedro amava ternamente São João, e essa amizade é visível tanto no Evangelho quanto nos Atos dos Apóstolos.

Por sua pureza de vida, inocência e virgindade, João tornou-se logo o discípulo amado, e isso de um modo tão notório que ele sempre se identificará em seu Evangelho como “o discípulo que Jesus amava”. Apesar de os Apóstolos não estarem ainda confirmados em graça, isso não provocava neles inveja nem emulação. Quando queriam obter algo de Nosso Senhor, faziam-no por meio de São João, pois seu bom génio e bondade de espírito tornavam-no querido de todos.

“Mas esta serenidade, esta doçura, este caráter recolhido e amoroso [de João Evangelista] são algo diferente da inércia e da passividade. Os pintores nos acostumaram a ver nele um não sei quê de feminino e sentimental, que está em contraste com a energia varonil e o zelo fulgurante que se descobre em algumas passagens evangélicas.” (1)

Se Nosso Senhor amava particularmente São João, também era por ele amado de maneira especialíssima. Com seu irmão Tiago, recebeu de Cristo o cognome de “Boanerges”, ou “filhos do trovão”, por seu zelo. Indignaram-se contra os Samaritanos, que não quiseram receber o Mestre, e pediram-Lhe para fazer descer sobre aqueles indóceis o fogo do Céu.

Foi por esse amor, e não por ambição, que ele e o irmão secundaram a mãe, Salomé, solicitando que um e outro ficassem à direita e à esquerda do Redentor, em seu Reino (um tanto equivocadamente, pois imaginavam ainda um reino terreno). Quando Nosso Senhor perguntou-lhes se estavam dispostos a beber com Ele o mesmo cálice do sofrimento e da amargura, com determinação responderam afirmativamente.

O primeiro devoto do Coração de Jesus
  
Entretanto, uma das maiores provas de afeição de Nosso Senhor a São João deu-se na Última Ceia. Quis o Divino Mestre ter à sua direita o Apóstolo Virgem, permitindo-lhe a familiaridade de recostar-se em seu coração. Diz Santo Agostinho que, nesse momento, estando tão próximo da fonte de Luz, ele absorveu dela os mais altos segredos e mistérios que depois derramaria sobre a Igreja.

A pedido de Pedro, perguntou a Jesus quem seria o traidor, e obteve a resposta.

São João teve, porém, um momento de fraqueza — e das mais censuráveis — quando os inimigos prenderam Jesus, tendo então fugido como os outros Apóstolos. Era o momento em que Nosso Senhor mais precisava de apoio! Logo depois, o vemos acompanhando, de longe, o Mestre ao palácio do Sumo Sacerdote. Como era ali conhecido, fez entrar também Simão Pedro. Pode-se supor que ele tenha permanecido sempre nas proximidades de Nosso Senhor durante toda aquela trágica noite, e que não saiu senão para ir comunicar a Maria Santíssima o que se passava com seu Filho. Acompanhou-A, então, no caminho do Calvário e com Ela permaneceu ao pé da Cruz. Era o sinal evidente de seu arrependimento.

Custódia da Mãe de Deus ao Apóstolo Virgem
  
Foi então que, recebendo-A como Mãe, obteve o maior legado que criatura humana jamais podia receber. Diz São Jerónimo:  

“João, que era virgem, ao crer em Cristo, permaneceu sempre virgem. Por isso, foi o discípulo amado e reclinou sua cabeça sobre o coração de Jesus. Em breves palavras, para mostrar qual é o privilégio de João, ou melhor, o privilégio da virgindade nele, basta dizer que o Senhor virgem pôs sua Mãe virgem nas mãos do discípulo virgem.” (2)  

Ensinam os Padres da Igreja que esse grande Apóstolo representava naquele momento todos os fiéis. E que, por meio de São João, Maria nos foi dada por Mãe, e nós a Ela como filhos. Mas João foi o primeiro em tal adoção.

Foi ele, também, o único dos Apóstolos a presenciar e a sofrer o drama do Gólgota, servindo de apoio à Mãe das Dores, que com seu Filho compartilhava a terrível Paixão.

Quando, no Domingo da Ressurreição, Maria Madalena veio dizer aos Apóstolos que o túmulo estava vazio, foi ele o primeiro a correr, seguido de Pedro, para o local. E depois, estando no Mar de Tiberíades, aparecendo Nosso Senhor na margem, foi o primeiro a reconhecê-Lo.

Uma das três colunas da Igreja nascente
  
Nos Actos dos Apóstolos, ele aparece sempre com São Pedro. Juntos estavam quando, indo rezar no Templo junto à Porta Formosa, um coxo pediu-lhes esmola. Pedro curou-o e depois pregou ao povo que se reuniu por causa de tal maravilha. Juntos foram presos até ao dia seguinte, quando corajosamente defenderam a sua fé em Cristo diante dos fariseus. Mais adiante, quando o diácono Felipe havia convertido e baptizado muitos na Samaria, era necessário que para lá fosse um dos Apóstolos, a fim de os crismar. Foram escolhidos Pedro e João para a missão.

São Paulo, na sua terceira ida a Jerusalém, narra na Epístola aos Gálatas (2, 9) que lá encontrou “Tiago, Cleofas e João, que são considerados as colunas”, e que eles, “reconhecendo a graça que me foi dada [para pregar o Evangelho], deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo.”

Depois disso, os Evangelhos calam a respeito de São João. Mas resta a Tradição. Segundo esta, ele permaneceu com Maria Santíssima durante o que restou da sua vida mortal, dedicando-se também à pregação. Depois da intimidade com o Filho, o Apóstolo Virgem é chamado a uma estreita intimidade de alma com a Mãe que, sendo a Medianeira de todas as graças, deve tê-lo cumulado delas em altíssimo grau. Que grande virtude deveria ter alguém para ser o custódio da Rainha do Céu e da Terra! Assim, teria ele permanecido com Ela em Jerusalém e depois em Éfeso. 

“Dois motivos principais deveriam ter ocasionado essa mudança de residência: de um lado, a vitalidade do Cristianismo nessa nobre cidade; de outro, as perniciosas heresias que começavam a germinar. João queria assim empenhar sua autoridade apostólica, quer para preservar quer para coroar o glorioso edifício construído por São Paulo; e sua poderosa influência não contribuiu pouco para dar às igrejas da Ásia a surpreendente vitalidade que elas conservaram durante o século II.” (3)

Após a dormição de Nossa Senhora — que é como a Igreja chama o fim da sua vida terrena — e a Assunção d’Ela aos Céus, ele fundou muitas comunidades cristãs na Ásia menor.

Vivo após o martírio
  
Ocorre, então, o martírio de São João, que é comemorado no dia 6 de Maio. O Imperador Domiciano prendeu-o e foi levado a Roma. Na Cidade Eterna, ele foi flagelado e colocado num caldeirão de azeite a ferver. Mas o Apóstolo Virgem saiu dele rejuvenescido e sem sofrer dano algum. Domiciano, espantado com o grande milagre, não ousou atentar uma segunda vez contra ele, mas desterrou-o para a ilha de Patmos, que era pouco mais do que um rochedo. Foi ali, segundo a Tradição, que São João escreveu o mais profético dos livros das Sagradas Escrituras, o Apocalipse.

Após a morte de Domiciano, o Apóstolo voltou a Éfeso. É lá que, segundo vários Padres e Doutores da Igreja, para combater as doutrinas nascentes de Cerinto e de Ebion — que negavam a natureza divina de Cristo — escreveu o seu Evangelho (4). Ordenou antes a todos os fiéis um jejum que ele mesmo observou rigorosamente, para, em seguida, ditar ao seu discípulo Prócoro, no alto de uma montanha, o monumento que é o seu Evangelho. Transportado em Deus, com um vôo de águia, o texto começa de uma altura sublime: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus”. Este Evangelho, dos mais sublimes textos jamais escritos, era tido em tanta veneração pela Igreja, que figura no Ordinário da Missa promulgado por São Pio V, pela fundamental doutrina que contém.

Segundo São João Crisóstomo, os próprios Anjos aí aprenderam coisas que não sabiam.

São João escreveu também três Epístolas, sempre visando estabelecer a verdadeira doutrina contra erros incipientes que se infiltravam na Igreja.

Segundo uma tradição, o discípulo que Jesus amava teria morrido em Éfeso, provavelmente a 27 de Dezembro do ano 101 ou 102.

Mas alguns exegetas levantam a hipótese de ele não ter falecido, com base na seguinte passagem do Evangelho. Logo após a pesca milagrosa no lago de Tiberíades — depois da Ressurreição de Jesus — Nosso Senhor confiou mais uma vez a Igreja a São Pedro. Este, voltando-se a Nosso Senhor, perguntou-lhe, referindo-se a São João: “E este? Que será dele?” Respondeu-lhe Jesus: “Que te importa se eu quero que ele fique até que eu venha?” O próprio São João comenta: “Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse 'não morrerá', mas 'que te importa se quero que ele fique assim até que eu venha?'.” (Jo 21, 15-23).

in lepanto.com.br

Notas:
1.Frei Justo Pérez de Urbel, OSB, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo IV, p. 614.
2.Apud Frei Justo Pérez de Urbel, OSB, op. cit., p. 612.
3.Abbé L.Cl. Fillion, La Sainte Bible avec commentaires, Évangile selon S. Jean, P. Lethielleux, Libraire-Éditeur, Paris, 1897, Prefácio.
4.Les Petits Bollandistes, Vies des Saints d’après le Père Giry, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo XIV, p 489.

Outras obras consultadas:Pe. M.-J. Lagrange, Évangile selon Saint Jean, Librairie Lecoffre, Paris, 1936, 6a. edição, Introduction, pp. VI a XII.
Pe. Jean Croisset, SJ, Año Cristiano, Saturnino Calleja, Madrid, 1901, tomo IV, pp. 963 a 969.
Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoza, 1949, tomo VI, pp. 573 a 581.
Pe. José Leite, SJ, Santos de Cada Dia, Editorial A. O., Braga, 1987, pp. 490 a 495.


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sábado, 26 de dezembro de 2020

Jesus nasceu mesmo no dia 25 Dezembro: Maria e a Tradição

Maria Imaculada: As mães nunca se esquecem

Perguntem a qualquer mãe sobre o nascimento dos seus filhos. Ela vai dizer-vos não só a data do nascimento, mas também será capaz de recitar a hora, o local, o tempo, o peso do bébé, o comprimento do bébé e um número de outros detalhes. Eu sou pai de seis filhos abençoados e enquanto que eu algumas vezes me esqueço destes detalhes (mea maxima culpa), a minha mulher não. Como vêem, as mães nunca esquecem estes detalhes.

Agora perguntem a vocês mesmos: Iria a Santíssima Virgem Maria alguma vez esquecer-se do nascimento do seu Filho Jesus Cristo, que foi concebido sem semente humana, anunciado por anjos, nascido de uma forma milagrosa e visitado por Magos? Ela sabia desde o momento da Sua Divina Encarnação no seu ventre que Ele era o Filho de Deus e Messias. Iria ela alguma vez esquecer este dia?

A seguir, perguntem-se isto: Estariam os Apóstolos interessados em ouvir Maria contar esta história? Claro! Pensam que o santo Apóstolo que escreveu "E o Verbo fez-se carne" não estaria interessado nos detalhes minuciosos do Seu nascimento?

Sempre que eu dou uma volta com o nosso filho de sete meses, as pessoas perguntam "Que idade tem?" ou "Quando é que nasceu?" Não acham que as pessoas perguntavam estas coisas a Maria?

Portanto o aniversário exacto (25 Dez) e a hora (meia-noite) deviam ser conhecidas no primeiro século. Mais ainda, os Apóstolos teriam perguntado sobre isso e teriam, sem dúvida, comemorado o santo acontecimento que Mateus e Lucas ambos nos narram.

Nós americanos temos um feriado federal para o Martin Luther King, Jr a 16 de Janeiro. Também celebramos os aniversários de George Washington e Abraham Lincoln. Se os Americanos dão esta importância ao nascimento de um homem que acabou com a segregação racial, os Apóstolos não iriam também dar esta importância ao nascimento de Cristo nosso Salvador?

Resumindo, é completamente razoável dizer que os primeiros Cristãos sabiam e comemoravam o nascimento de Cristo. A sua fonte deve ter sido a Sua Mãe Imaculada.

Os Padres da Igreja testemunham o 25 de Dezembro

No post anterior, mostrámos que o Natal não poderia ser uma tentativa cristã de substituir um feriado pagão com um feriado cristão recém-formado. Testemunhos seguintes revelam que os Católicos afirmavam 25 de Dezembro como o Nascimento de Cristo antes da conversão de Constantino e do Império Romano.

O Papa S. Telésforo (reinou entre 126 e 137 AD) instituiu a tradição da Missa à Meia-noite na Véspera de Natal. Apesar do Liber Pontificalis não nos dar a data do Natal, este assume que o Natal já era celebrado pelo Papa e que tinha sido acrescentada uma Missa à meia-noite. Eu não duvido da tradição de maneira nenhuma.

Se formos para cerca de 70 anos mais tarde, S. Hipólito escreve de passagem que o nascimento de Cristo ocorreu numa Quarta-Feira dia 25 de Dezembro. Santo Hipólito escreveu algures entre 200 e 211 AD!! Eis a citação:
"O Primeiro Advento [vinda] de nosso Senhor na carne ocorreu quando Ele nasceu em Belém, era 25 de Dezembro, uma Quarta-Feira, quando Augustus estava no seu quadragésimo-segundo ano, que é cinco mil e quinhentos anos desde Adão. Ele sofreu no trigésimo-terceiro ano, dia 25 de Março, Sexta-Feira, do décimo-oitavo ano de Tiberius Caesar, enquanto Rufus e Roubellion eram Cônsules."
Santo Hipólito de Roma, Comentário a Daniel
Reparem também na citação acima no significado especial de 25 de Março, que marca a morte de Cristo (25 de Março era visto como o correspondente ao mês hebraico Nisan 14 - a data tradicional da crucifixão).**

Acreditava-se que Cristo, como homem perfeito, tinha sido concebido e morto no mesmo dia (25 de Março). No seu Chronicon, Santo Hipólito diz que a terra foi criada no dia 25 de Março, 5500 a.C. Então, 25 de Março era identificado pelos Padres da Igreja como:

  • a data da Criação do Mundo
  • a data da Anunciação e Encarnação de Cristo
  • a data da Morte de Cristo nosso Salvador
Na Igreja Síria 25 de Março ou a festa da Anunciação era vista como uma das festas mais importantes do ano inteiro. Indicava o dia em que Deus assumiu a sua morada no ventre da Virgem. De facto, a Anunciação e a Sexta-Feira Santa apareciam em conflito no calendário, a Anunciação superava-a - tão importante que era na tradição síria! Isto sem dizer que a Igreja Síria preservou algumas das mais antigas tradições cristãs e tinha um profunda e doce devoção por Maria e a Encarnação de Cristo!

Agora, 25 de Março era consagrado na mais antiga tradição Cristã e a partir desta é fácil descobrir a data do nascimento de Cristo. 25 de Março (Cristo concebido pelo Espírito Santo) mais nove meses leva-nos a 25 de Dezembro (o nascimento de Cristo em Belém).

Santo Agostinho confirma esta tradição de 25 de Março como a concepção messiânica e 25 de Dezembro como o Seu Nascimento:
“Porque se acredita que Cristo foi concebido a 25 de Março, dia em que também sofreu; portanto o ventre da Virgem, onde Ele foi concebido, onde nenhum mortal foi gerado, corresponde ao novo sepulcro onde ele foi sepultado, onde nenhum homem alguma vez esteve nem antes nem desde então. Mas ele nasceu, de acordo com a tradição, a 25 de Dezembro.” 
Santo Agostinho, De trinitate, Livro IV, 5 
Por volta de 400 A.D., Santo Agostinho também notou como os donatistas cismáticos se recusavam a celebrar a Epifania a 6 de Janeiro, visto que viam a Epifania como uma nova festa sem base na Tradição Apostólica. O cisma donatista começou em 311 A.D. o que pode indicar que a Igreja Latina estava a celebrar o Natal a 25 de Dezembro (mas não uma Epifania a 6 de Janeiro) antes de 311 A.D.

Entretanto, visto que é quase dia 25, contemplemos José e Maria a chegar a Belém, à procura de abrigo para a noite que aí vinha. Então foi-lhes permitido usarem uma caverna estábulo e por volta do meio dia S. José começa a preparar o lugar para o acontecimento milagroso. José e Maria deviam estar cheios de uma expectativa tranquila. Que eles rezem por nós, enquanto esperamos também ansiosamente o Menino Jesus.  

Taylor Marshall


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O Natal do Natal

Era o dia 25 de Março quando Deus humanado foi concebido, por virtude do Espírito Santo, no caminho para a Gruta Virginal da Imaculada Maria de Nazaré. No seu seio brilhou uma Luz fulgurante e imensa, que despedindo alegres luminosidades pelo mundo-universo as enviou a todos os recém gerados. A cada um deles apareceu uma multidão de Anjos jucundos e jubilosos entoando Glórias e Aleluias com exultações celebrativas. 

E de um modo só do Mistério conhecido anunciaram-lhes uma alegria desmedida, uma felicidade incomensurável: Foi concebido (nasceu no seio) o Salvador que o será para todos os concebidos, por nascer ou já nascidos. Ide depressa adorá-Lo; reconhecê-lo-eis porque sereis atraídos e o encontrareis na Gruta interior, a mais íntima e limpa de quantas houve ou haverá.

Uma multidão de miríades de miríades, de milhões de milhões, enfim, incontável, de recém concebidos viu-se num repente rodeando uma Santidade, coroada de estrêlas, revestida de Sol, tendo a Lua sob os pés, de cujo seio brotava uma Luz inefável, mais brilhante que o sol, puríssima, simplicíssima, claríssima, cristalina, suave, pacífica, castíssima Levantou-se então daquela multidão de congregados um alto clamor, um brado de grande dor: ai de nós que somos indignos de entrar na Gruta, fomos manchados da culpa de nossos primeiros pais. 

Então daquela Luz infinita esvoaçaram uns Serafins, a mais alta e nobre hierarquia angélica, duas asas alteavam-se sobre as suas cabeças, outras duas saíam das espáduas, e mais duas cobriam o resto de seus corpos celestes que aparentavam o Filho do Homem. De suas bocas sopraram um fogo poderoso e benigno que incendiou a todos os concebidos, sem os chamuscar nem consumir, antes purificandos, avivando-os e conduzindo-os, como faúlhas que não esmorecem, crepitando contentamentos e regozijos, à Presença da Luz minúscula-infinita. 

Ouviu-se então uma voz sonora – não para ouvidos já formados mas para organismos humanos, pessoais, já iniciados -, como a de um Homem já feito, brotando daquela Pesssoa miudinha, que assim Se apresentava e se punha, frágil, indefesa, vulnerável, ínfima, que dizia: Não tenham mêdo, meus filhos e irmãos mínimos, porque o Pai em Mim tem desígnios de Misericórdia sobre vós. A Misericórdia que nós somos cuidará de vós, de um modo que não é dado a conhecer às criaturas. Tende confiança, porque tanto a Justiça como a Misericórdia se cumprirão, pois são duas faces da mesma Realidade.

A inumerável multidão, depois de terem adorado o Infinito-ínfimo, regressou cheia de alegria, dividindo-se de modo a que cada um regressasse ao seu sítio. E foi nesse lugar: uns acolhidos com amor no ventre materno, outros congelados em laboratórios, aqueles despejados em sanitas, estes vítimas de experimentações letais, outros desfeitos, desmanchados, violentamente nessa habitação, que julgavam segura, outros ainda dela escorraçados, quimicamente, mecânicamente, por produtos que impedindo-os de se nutrir morriam à fome. 

Foi nesses lugares, dizia, que viram com os olhos de suas almas o Senhor da Glória, apresentar-se com todo o Seu poder e Majestade, colocando os pais destes concebidos, uns à Sua direita e outros à Sua esquerda; e olhando benignamente para os primeiros dizer-lhes: vinde benditos de Meu Pai porque o amor que destes ao mais pequenino e insignificante de todos, a Mim mesmo o destes; e de seguida com rosto severo e voz rigorosa dirá aos da sua esquerda: ide-vos malditos para o fogo do inferno, reservado para satanás e os seus anjos, porque todas as crueldades que praticastes com os mínimos entre todos, foram feitas a Mim mesmo.

Uma multidão jubilosa conclamou: Por fim, fez-se justiça! Essa mesma que nunca nos foi reconhecida na Terra, ser-nos-á concedida no Céu. Glória, honra e louvor ao Verdadeiro, o Amor imolado, a Misericórdia entregue em Sacrifício!! Amen. Amen. Pelos séculos dos séculos e eternamente. Amen.

E O Concebido apareceu irradiando lumes resplandecentes de Glória de dentro de Sua luminosa Mãe, que d’ Ele recebia todo o esplendor. E os concebidos impedidos de nascer, não osbtante a desmesurada felicidade de anteverem a Justiça realizada, uma vez que mantinham ainda réstias do fogo, em que foram abrasados para poder penetrar na Gruta Limpidíssima, perguntaram à Luz da Luz, com um ardor caritativo, se não seria possível, sem prejuízo da Justiça, resgatar e salvar os cabritos da esquerda. Ao que a Luz mostrou, em visão espiritual, que sim, que a Sua Misericórdia também era Infinita, ponto era que a quisessem receber e acolher, de modo que de cabritos, e mesmo lobos, se tornassem ovelhas. 

Ele, O Concebido, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Consubstancial ao Pai, por Quem todas as coisas foram criadas, que morreu na Cruz para nos Salvar, só pede que cooperemos com a Sua Graça, arrependendo-nos, com verdadeira dor espiritual e detestação mal, por mais abominável que tenha sido, façamos um firme propósito de emenda de vida de vida, e recebamos o perdão no Sacramento da Confissão ou Reconciliação. Os que assim procederem serão inteiramente renovados, e uma vez transfigurados por aquela Graça que superabunda onde abundou o pecado entrarão na Glória do Seu Senhor, porque terão o Presépio no coração.

Padre Nuno Serras Pereira


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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O Magnum Mysterium

O Magnum Mysterium é um responsório das Matinas do dia de Natal. Esta é a versão musical da autorida de Tomás Luis de Victoria, interpretada pelos Fieri Consort

O magnum mysterium, et admirabile sacramentum, ut animalia viderent Dominum natum, jacentem in praesepio! Beata Virgo, cuius viscera meruerunt portare Dominum Christum. Alleluia! 

Ó grande mistério, e admirável sacramento, que os animais viram o Senhor nascido, deitado numa manjedoura! Abençoada Virgem, cujas entranhas mereceram carregar o Senhor Cristo Aleluia!


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O Santo Natal segundo o Catecismo Maior de São Pio X

4. O que é a festa do santo Natal? O santo Natal é a festa criada para celebrar a memória do tempo do nascimento de Jesus Cristo.

5.  Entre  outras  particularidades  o  que  é  mais  especial  no  santo  Natal? No Santo Natal, entre todas as outras particularidades, há duas coisas especiais:1º que os ofícios divinos são celebrados na noite prece-dente, segundo antigo costume da Igreja nas vigílias :2º  que todos os sacerdotes celebram três Missas.

6. Por que a Igreja quis conservar o costume de celebrar de noite os ofícios de Natal?A Igreja quis manter o uso de celebrar de noite os ofícios de Natal para renovar, com profunda gratidão, a memória daquela noite em que o Divino Salvador deu início, com seu nascimento, à obra de nossa redenção.

7. Que propõe a Igreja à nossa consideração no Evangelho da primeira Missa de Natal? No evangelho da primeira Missa de Natal, a Igreja propõe--nos considerar que a Santíssima Virgem, em companhia de S. José,  foi  de  Nazaré  até  Belém  para  o  recenseamento,  segundo  as ordens do imperador, e não encontrando outro albergue, ela deu a luz a Jesus em um estábulo e colocou-o num presépio, ou seja, em uma manjedoura para animais.

8. E no evangelho da segunda Missa? No  evangelho  da  segunda  Missa  propõe  à  nossa  consideração a visita feita a Jesus Cristo por alguns pobres pastores, a quem um anjo anunciara o nascimento do Salvador.9. E o Evangelho da terceira Missa? No evangelho da terceira Missa a Igreja nos leva a considerar como este menino, que nasceu da Virgem Maria no tempo, é desde toda a eternidade o Filho de Deus.

10.  O  que  pretende  a  Igreja  ao  propor  à  nossa  consideração  os  mistérios das três Missas de Natal? Ao propor à nossa consideração os mistérios das três Missas de Natal, a Igreja quer que agradeçamos ao Divino Redentor por ter-se feito homem para nossa salvação, reconhecendo-lhe — com os pastores — e O adoremos como verdadeiro Filho de Deus, atendendo aos ensinamentos que tacitamente Ele nos dá com as circunstâncias de seu nascimento.

11. Que nos ensina Jesus Cristo com as circunstâncias de seu nascimento? Com as circunstâncias de seu nascimento, Jesus Cristo nos ensina a renunciar às vaidades do mundo e estimar a pobreza e o sofrimento.

12. Temos a obrigação de ouvir três missas na festa de Natal? Na festa de Natal, somos obrigados a ouvir uma só missa, no entanto, é bom ouvir todas as três para conformar-nos melhor com as intenções da Igreja.

13. O que devemos fazer no santo Natal para conformar-nos plenamente com as intenções da Igreja? No santo Natal devemos fazer essas quatro coisas:

1º    prepararmo-nos  na  véspera  com  um  recolhimento  maior do que de costume;
2º  procurar grande pureza por meio de uma boa confissão e um vivo desejo de receber o Senhor;
3º  assistir, se nos é possível, os ofícios divinos da noite anterior e as três Missas, meditando o mistério que se celebra;
4º  empregarmos esse dia, tanto quanto nos seja possível, em obras de piedade cristã.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Há 106 anos: Noite de tréguas na Primeira Guerra Mundial

Um pouco por todo no mundo, crianças, jovens e graúdos comemoram o Natal. É interessante perceber que estes se deixam contagiar por esperança de amor e fraternidade. Contactam-se os amigos, que durante o ano foram esquecidos pelo tempo, reúne-se a família para com pompa festejar, e trocam-se presentes.

Ainda que nem todos vivam o Natal pela sua verdadeira razão de ser – o nascimento de Deus menino – quase todos partilham dos bons sentimentos do Natal cristão.

A esperança que é dada à Humanidade pelo nascimento de Jesus, o amor familiar que Ele nos pede para dar, a humildade e partilha que durante a Sua vida exemplificou, são as razões para esse preenchimento de alma que a todos cativa. É pena que não se consigam perpetuar estes sentimentos de paz e união ao longo de todo o ano.

Certa noite, em plena guerra, separados por apenas algumas dezenas de metros, encontravam-se guardas britânicos e guardas alemães. Protegidos pelas suas respectivas trincheiras, os militares mantinham-se bem protegidos, e ao mínimo sinal, disparavam para matar a quem do lado inimigo se expusesse.

A lua cheia dessa noite clareava a cor escura do céu e deixava visível o campo que existia entre eles, destruído pelas explosões de até então e onde se encontravam os corpos dos soldados abatidos de ambos os lados. O silêncio imperava. Não se ouviam tiros nem nenhum soldado gritava de dores. O frio do Inverno era rigoroso.

Foi então que dentre o silêncio alguns militares alemães começaram a cantar a música “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Os militares ingleses duplicaram a sua atenção e ficaram à escuta. A melodia não deixava dúvidas. Era da música “Silent Night”. Terminada a cantoria, o silêncio voltava a envolver o campo de batalha.

Passados uns segundos, um soldado inglês entusiasmado grita na sua própria língua “Boa alemães!” obtendo do outro lado a resposta “Feliz Natal ingleses! Nós não disparamos e vocês não disparam”.

Os ingleses, sem estarem certos da última parte da mensagem, voltaram a reforçar a atenção. Do outro lado, um militar alemão desarmado sai da sua trincheira e caminha em direcção às trincheiras inglesas. O lado inglês retribui enviando um soldado nas mesmas condições. Depois de algumas conversas, acordaram um período de tréguas.
Estamos na noite 24 de Dezembro. Durante aquela noite, as forças alemãs e forças inglesas enterraram os seus compatriotas e confraternizam. Ajudaram-se mutuamente a escavar sepulturas e conversaram sobre as suas terras e famílias. Trocaram cigarros e alimentos, riram-se das piadas que iam dirigindo uns aos outros… A língua não era impedimento. O recurso gestual era permanentemente utilizado e todos se entendiam.

No dia seguinte, dia de Natal, um sacerdote inglês celebrou a Missa ajudado por um ex seminarista alemão, que traduzia as orações. Todos rezaram o salmo 23 com que o sacerdote começou a missa: “O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo.” Dedicaram a missa aos seus colegas defuntos.

Depois, juntos, cozinharam o almoço e fizeram, dentro das possibilidades de um local de guerra, um banquete. Trocaram brasões da unidade e botões de uniforme como lembranças.

As forças inglesas, habituadas a ouvir e a ler nos jornais que os alemães eram bárbaros e sem escrúpulos, descobriram que estes eram em tudo idênticos a eles, com sentimentos e anseios, com famílias e amores, com esperanças e desejos de paz.

Após o almoço, surgiram duas equipas de futebol e, improvisando uma bola com trapos, defrontou-se um jogo. Os alemães venceram por três bolas a duas.
Paralelamente decorreu uma luta de boxe entre lutadores das duas nacionalidades. Bastante acesa, a disputa foi terminada com a separação dos lutadores, para que nenhum se aleijasse mais que o suposto. Seguido disto e de comum acordo geral, manteve-se o cessar-fogo por mais alguns dias. Fizeram-se amizades e partilharam-se experiências.

É hora de regressar. De despedidas feitas, cada nação regressou às suas trincheiras. Foram disparados vários tiros, de um lado e de outro, para o ar, como forma de aviso de que tudo estava de volta. A guerra era retomada. A Alemanha queria vencer e conquistar o espaço Inglês e a Inglaterra queria defendê-lo.

Muitas daquelas amizades, feitas uns minutos, umas horas, uns dias antes, terminaram com a morte. Morreram uns milhares de soldados. A guerra só terminou 4 anos depois, com a Alemanha derrotada.

Este foi o Natal, não oficializado, daqueles homens, em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, que ficou conhecida como a Trégua de Natal e que ocorreu numa linha de 43 km que ligava Ypres até ao Canal de La Bassée.

Tiago Rodrigues


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