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domingo, 4 de outubro de 2020

S. Francisco de Assis e as Cruzadas

Durante a Quinta Cruzada chegou ao exército cristão um santo personagem, de nome Francisco de Assis. A sua fama de piedade havia-se difundido no mundo cristão e tinha-o precedido no Oriente. 

Desde tenra idade, Francisco tinha deixado a casa paterna para levar uma vida edificante. Um dia, quando assistia à Santa Missa, ficou impressionado com a frase do Evangelho em que Nosso Senhor diz aos seus discípulos: "Não tenhais nem ouro, nem prata, nem outra moeda, nem sacolas para a viagem, nem sandálias, nem bastões". Francisco começou então a ver com piedade todas as riquezas deste mundo e entregou-se todo à pobreza dos apóstolos. Percorreu as cidades, convidando os povos à penitência. Os discípulos que o seguiam, enfrentavam os desprezos da multidão e sentiam-se com isso grandemente honrados, diante de Deus; quando lhes perguntavam de onde vinham, eles respondiam: Somos pobres penitentes que chegamos de Assis.

Francisco foi levado ao Egipto pela fama da Cruzada e pela esperança de ali obter alguma grande conversão. No dia que precedeu a última batalha ele tivera um pressentimento da derrota dos cristãos. Francisco quis pregar aos chefes do exército que o escutaram com indiferença. Descontente com os cruzados e inflamado pelo zelo da causa de Deus, ele pensou então em fazer triunfar a fé por meio da sua eloquência e com as únicas armas do Evangelho. 

Avançou para o acampamento inimigo e fez-se aprisionar por soldados muçulmanos, que o levaram à presença do sultão. Então Francisco de Assis falou a Malek-Kamel, dizendo: 'Foi Deus que me enviou a vós para vos mostrar o caminho da salvação.' Depois destas palavras, o missionário exortou o sultão a abraçar o Evangelho. Desafiou na sua presença a todos os doutores da lei e propôs lançar-se numa fogueira acesa, para confundir a impostura e provar a veracidade da religião cristã. O sultão, admirado, despediu o zeloso pregador, que nada conseguiu do que ardentemente desejava. Não converteu o chefe dos infiéis e não obteve a palma do martírio.

Depois dessa aventura, S. Francisco de Assis voltou para a Europa, onde fundou a ordem religiosa dos frades menores que a princípio nada possuíam, nem igrejas, nem mosteiros, nem terras, nem rebanhos, e que, espalhados pelas províncias do Ocidente, trabalhavam na conversão dos pecadores. Os discípulos de S. Francisco levaram algumas vezes a palavra de Deus até os povos selvagens. Alguns foram à África e à Ásia, procurando, como o seu mestre, erros para combater e males para suportar; colocaram a cruz de Jesus Cristo em terras infiéis; durante a sua Cruzada de apóstolos repetiam estas palavras evangélicas: a paz esteja convosco! Iam somente armados com suas orações e apenas aspiravam à glória de morrer pela fé.'

Joseph François Michaud in'História das Cruzadas' (1956)


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quarta-feira, 17 de julho de 2019

O "pacifismo" islâmico desde a morte de Maomé até à Primeira Cruzada

Século VII

632: Maomé morre.
633: Mesopotâmia cai face à invasão muçulmana. Segue-se a queda de todo o Império Persa.
635: Damasco cai.
638: Jerusalém é capitulada.
643: Alexandria cai terminando assim 100 anos de cultura helénica.
648: Chipre é atacado.
649: Chipre cai.
653: Rodas cai.
673: Constantinopla é atacada.
698: Todo o Norte de África é tomado pelos muçulmanos. São apagados os vestígios de cultura romana.

Século VIII

711: Hispânia é atacada. O Reino Visigodo colapsa.
717: Os muçulmanos atacam Constantinopla de novo e são repelidos pelo Imperador Leão III.
720: Narbona cai.
721: Saragoça cai. Avistam-se muçulmanos em França.
732: Bordéus é atacada e as suas igrejas queimadas. Carlos Martel e o seu exército detêm os muçulmanos. Os ataques em França continuam.
734: Avinhão capturada por uma expedição muçulmana.
743: Lião é saqueada.
759: Os árabes são expulsos de Narbona.

Século IX

800: Começam as incursões muçulmanas na península itálica. As ilhas de Ponza e Ísquia são saqueadas.
813: Civitavecchia, o porto de Roma, é saqueado.
826: Creta cai perante as forças muçulmanas.
827: Os muçulmanos começam a atacar a Sicília (sul da península itálica).
837: Nápoles repele um ataque muçulmano.
838: Marselha saqueada e conquistada.
840: Bari cai.
842: Messina capturada e o estreito de Messina controlado pelos muçulmanos.
846: Os esquadrões muçulmanos chegam a Óstia, na foz do Tibre, e saqueiam Roma e a Basílica de São Pedro. Tarento, na Apúlia, é conquistada pelas forças muçulmanas.
849: O exército do Papa repele uma frota muçulmana na foz do Tibre.
853-871: A costa italiana desde Bari até Reggio Calabria é controlada pelos sarracenos. Os muçulmanos semeiam o terror no Sul de Itália.
859: Os muçulmanos tomam controlo de toda a Messina.
870: Malta capturada pelos muçulmanos. Bari reconquistada aos muçulmanos pelo Imperador Luis II.
872: O Imperador Luis II derrota uma frota sarracena em Cápua. As forças muçulmanas devastam a Calábria.
878: Siracusa cai após um cerco de 9 meses.
879: O Papa João VIII é obrigado a pagar aos muçulmanos um tributo anual de 25000 mancusos (cerca de 625000 dólares americanos modernos).
880: Os comandantes bizantinos conseguem uma vitória em Nápoles.
881-921: Os muçulmanos capturam uma fortaleza em Âncio e saqueiam as terras circundantes sem retaliações durante 40 anos.
889 Toulon capturada.

Século X

902: As frotas muçulmanas saqueiam e destroem Demétrias, na Tesalia, Grécia central.
904: Tesalónica cai perante as forças muçulmanos.
915: Após 3 meses de bloqueio, as forças cristãs saem victoriosas contra os sarracenos entrincheirados na sua fortaleza no norte de Nápoles.
921: Peregrinos ingleses a caminho a Roma são esmagados por uma derrocada de rochas causada pelos sarracenos nos Alpes.
934: Génova atacada pelos muçulmanos.
935: Génova conquistada.
972: Os sarracenos são finalmente expulsos de Fraxineto.
976: O Califa do Egipto envia novas expedições muçulmanas ao sul de Itália. O Imperador Oto II, que tinha o seu quartel general em Roma, consegue derrotar os sarracenos.
977: Sérgio, arcebispo de Damasco, é expulso da sua sede pelos muçulmanos.
982: As forças do Imperador Oto II são emboscadas e derrotadas.

Século XI

1003: Os muçulmanos de Espanha saqueiam Antibes, em França.
1003-1009: Hordas de saqueadores sarracenos provenientes de bases na Sardenha atacam a costa italiana desde Pisa até Roma.
1005: Os muçulmanos da Espanha saqueiam Pisa.
1009: O Califá do Egipto ordena a destruição do Santo Sepulcro em Jerusalém, o túmulo de Jesus.
1010: Os sarracenos apoderam-se da Cosença, no Sul da Itália.
1015: A Sardenha cai completamente em poder muçulmano.
1016: Os muçulmanos de Espanha saqueiam de novo Pisa.
1017: Frotas de Pisa e Génova dirigem-se à Sardenha e encontram os muçulmanos a crucificar cristãos e expulsam o líder muçulmano. Os sarracentos tentarão retomar a Sardenha até 1050.
1020: Os muçulmanos de Espanha saqueiam Narbona.
1095: O Imperador bizantino Aleixo I Comneno pede ao Papa Urbano II ajuda contra os turcos.
1096: É proclamada a Primeira Cruzada.


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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

4 mitos sobre as Cruzadas

MITO 1: “As cruzadas foram um ataque gratuito dos cristãos ocidentais contra os muçulmanos”.

Uma revisão cronológica honesta derruba esta mentira. Até o ano 632, o Egipto, a Palestina, a Síria, a Ásia Menor, o Norte da África, a Espanha, a França, a Itália e as ilhas da Sicília, da Sardenha e da Córsega eram todos territórios cristãos. Dentro das fronteiras do Império Romano, que ainda existia no Mediterrâneo oriental, o cristianismo ortodoxo era a religião oficial e esmagadoramente maioritária. Fora daquelas fronteiras, havia ainda outras grandes comunidades cristãs, não necessariamente ortodoxas e católicas, mas, ainda assim, cristãs: a maioria da população cristã da Pérsia, por exemplo, era nestoriana. Também havia várias comunidades cristãs espalhadas pela Arábia.

Apenas um século mais tarde, em 732, os cristãos já tinham perdido o Egipto, a Palestina, a Síria, o Norte da África, a Espanha, a maior parte da Ásia Menor e o sul da França. A Itália e as suas ilhas associadas também estavam sob ameaça; tanto que as ilhas acabariam sob o domínio islâmico no século seguinte. Logo após o ano de 633, as comunidades cristãs da Arábia foram inteiramente destruídas. Tanto os judeus quanto os cristãos foram expulsos da península arábica. Os da Pérsia estavam sob forte pressão. Dois terços do antigo mundo cristão romano viam-se agora governados pelos muçulmanos.

O que é que tinha acontecido? Cada uma dessas regiões listadas acima foi tomada pelos muçulmanos no espaço de apenas cem anos. Cada uma delas foi arrancada do controle cristão por meio da violência, em campanhas militares deliberadamente concebidas para expandir o território do Islão. E o programa de conquistas do Islão não terminou por aí. Carlos Magno bloqueou o avanço muçulmano rumo à Europa ocidental por volta do ano 800, mas as forças islâmicas simplesmente mudaram o seu foco para a Itália e para a costa francesa, atacando a Itália continental em 837. Uma luta confusa pelo controle do sul e do centro da Itália prosseguiu durante o resto do século IX e continuou no século X. O próprio interior italiano chegou a ser atacado. Com a urgência de proteger as vítimas cristãs, os Papas do século X e do início do século XI envolveram-se directamente na defesa do território. Os bizantinos levaram muito tempo para reunir as forças necessárias para a reacção armada. Em meados do século IX, eles montaram um contra-ataque. Mas os muçulmanos responderam com novas e ainda mais afiadas investidas.

Em 1009, um governante muçulmano mentalmente perturbado destruiu a igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, e lançou grandes perseguições contra cristãos e judeus. As peregrinações à Terra Santa tornavam-se cada vez mais difíceis e perigosas. Os peregrinos ocidentais começaram a unir-se e a portar armas para se protegerem quando tentavam visitar os lugares mais sagrados do cristianismo na Palestina.

Desesperados, os bizantinos apelaram pela ajuda do Ocidente, direcionando os seus pedidos de socorro principalmente à pessoa que eles viam como a maior autoridade ocidental: o Papa, que, como vimos, já tinha organizado a resistência cristã aos ataques muçulmanos na Itália. Finalmente, em 1095, o papa Urbano II atendeu ao desejo do papa Gregório VII. Começou a Primeira Cruzada.

Longe de serem “gratuitas” e de não terem sido provocadas de fora, as Cruzadas representam o primeiro grande contra-ataque cristão ocidental em defesa própria diante dos ataques muçulmanos ocorridos continuamente durante mais de 400 anos, desde o início do Islão, no século VII, até o final do século XI, e que ainda continuariam depois também. Três das cinco principais sedes episcopais do cristianismo (Jerusalém, Antioquia e Alexandria) tinham sido capturadas já no século VII; as outras duas (Roma e Constantinopla) tinham sido atacadas ao longo dos séculos anteriores às Cruzadas. Constantinopla seria tomada em 1453, deixando em mãos cristãs apenas uma das cinco (Roma). E Roma foi novamente ameaçada no século XVI. Isto é ausência de provocação ou é uma ameaça mortal e persistente que exigia uma defesa vigorosa, caso os cristãos quisessem exercer o seu direito de sobreviver?

É difícil subestimar as perdas sofridas pela Igreja nas várias ondas de conquistas muçulmanas. Todo o Norte da África, antigamente repleto de cristãos, foi conquistado. Chegou a haver 500 bispos cristãos no Norte da África. Hoje, as ruínas da Igreja estão enterradas na areia. Há bispos titulares, mas não residentes. Toda a Ásia Menor, tão amorosamente evangelizada por São Paulo, foi perdida. Grande parte do sul da Europa esteve a ponto de ser tomado também. É mesmo possível afirmar categoricamente que os cristãos deviam assistir impávidos ao próprio extermínio sem se defender?

MITO 2: “Os cristãos do Ocidente foram às Cruzadas por ganância, para saquear os muçulmanos e enriquecer”.

Poucos cruzados tinham dinheiro suficiente para pagar as próprias obrigações em casa e, em paralelo, sustentar-se decentemente durante uma cruzada. Desde o início, as considerações financeiras tiveram papel muito importante no planeamento dos contra-ataques. Os primeiros cruzados venderam tantos bens para financiar as suas expedições que provocaram inflação generalizada na Europa. Os cruzados posteriores levaram este facto em conta e começaram a poupar dinheiro muito antes de partirem, mas os custos ainda eram quase proibitivos.

Uma das principais razões para o fracasso da Quarta Cruzada e do seu desvio para Constantinopla foi justamente a falta de dinheiro antes mesmo do início das batalhas. A Sétima Cruzada, de Luís IX, em meados do século XIII, custou mais de seis vezes a receita anual da coroa.

Os Papas recorreram a manobras cada vez mais desesperadas para levantar fundos, desde instituir o primeiro imposto de renda, no começo do século XIII, até implantar uma série de ajustes na maneira de se concederem as indulgências (o que acabou gerando os gritantes abusos condenados por Martinho Lutero).

Em suma: as Cruzadas levaram à falência muito mais evidentemente do que à riqueza. Os cruzados estavam bastante cientes disso e não viam nas Cruzadas uma forma de melhorar a sua situação, e sim uma escolha entre lutar assumindo o risco de perder tudo e não lutar e ter a certeza de ser destruídos.

Crawford confirma que as pilhagens eram de facto permitidas ou toleradas quando os exércitos cristãos venciam. Os saques, infelizmente, eram comuns nos tempos antigos e medievais, mas é relevante observar que não eram exclusividade dos cruzados. Uma guerra dificilmente se mantém ordenada, já que os motivos de cada soldado individual não podem ser perfeitamente controlados.

MITO 3: “Os cruzados eram cínicos que não acreditavam na própria propaganda religiosa: eles tinham segundas intenções e motivações materialistas”.

Esta é uma afirmação muito popular, pelo menos a partir de Voltaire, e parece convincente para a modernidade e a contemporaneidade, mergulhadas em visões de mundo materialistas. Não há dúvida de que havia cínicos e hipócritas na Idade Média, assim como os há em qualquer época.

No entanto, mito é mito e é preciso esclarecer as coisas.

Os riscos das Cruzadas eram muito altos. Muitos cruzados, se não a maioria, nem sequer voltava das batalhas. Um historiador militar estimou que os índices de baixas na Primeira Cruzada foram uns espantosos 75%.

Além disso, a participação nas Cruzadas era voluntária: os participantes precisavam ser persuadidos a ir, e por sua conta. O principal meio de persuasão eram os sermões, repletos de advertências de que as Cruzadas implicavam privações, sofrimentos e, muitas vezes, a morte; as Cruzadas afectariam gravemente as vidas dos seus participantes, provavelmente os empobreceriam e mutilariam e certamente provocariam grandes inconvenientes para as suas famílias.

E como é que um discurso desses funcionou? Funcionou precisamente porque empreender uma cruzada em defesa da própria fé e do próprio povo era entendido como uma penitência valiosa para a alma e uma forma de purificação, além de um acto de amor desinteressado que levava a dar a vida pelos amigos.

As evidências disponíveis sugerem que a maioria dos cruzados foi motivada pelo desejo de defender o nome de Deus, colocar a própria vida a serviço da proteção dos cristãos ameaçados e expiar os pecados pessoais.

São conceitos difíceis para os ocidentais de hoje, tão laicos e tão cépticos diante de motivos espirituais. Acontece que, entre o nosso actual Ocidente e a Idade Média, existe uma grande divisão cartesiana, com o seu reducionismo materialista. São outros contextos, nos quais os parâmetros são muito diferentes. Naquela época, a vida na terra era curta e brutal; era "um vale de lágrimas" a ser suportado como tempo de purificação para o encontro com Deus. Os princípios espirituais exerciam uma influência quase incompreensível para as mentes imediatistas de hoje.

MITO 4: “Foram as Cruzadas que ensinaram os muçulmanos a odiar e atacar os cristãos”.

Os muçulmanos já vinham atacando os cristãos continuamente fazia mais de 450 anos quando o papa Urbano reagiu declarando a Primeira Cruzada. Os muçulmanos não precisavam de “incentivo” algum para atacar a cristandade. De qualquer forma, a resposta para este mito é complexa.

A primeira história muçulmana sobre as Cruzadas só apareceu em 1899. O mundo muçulmano estava na época redescobrindo as Cruzadas, mas com um “toque” de modernidade ocidental. No período moderno, havia duas principais linhas europeias de pensamento sobre as Cruzadas. Uma delas, simbolizada por pessoas como Voltaire, Gibbon e Sir Walter Scott, além de Sir Steven Runciman no século XX, via os cruzados como bárbaros gananciosos e agressivos que atacavam os muçulmanos civilizados e amantes da paz. A outra linha via as Cruzadas como um episódio glorioso da longa batalha em que os cavaleiros cristãos detiveram o avanço das hordas muçulmanas.

Não foram as Cruzadas que ensinaram o Islão a odiar e atacar os cristãos. Foi o Ocidente laico que ensinou o islã a odiar uma visão parcial e manipulada das Cruzadas.

Aliás, esta é uma estranha tendência do nosso Ocidente moribundo: abastecer os nossos detractores com amplos motivos, inclusive falsos ou no mínimo parciais, para nos odiar...

Não acho necessário defender com veemência as Cruzadas, até porque há nelas muitas coisas profundamente lamentáveis, sem dúvida alguma. Mas o justo é o justo: também há nas Cruzadas muitos elementos que a agenda anti-católica não apenas não quer admitir, mas até procura esconder.

Aos laicistas e ateus que gostam de exclamar "Olhem quantos morreram em nome das guerras e da violência religiosa!", eu respondo: "Olhem também quantas pessoas foram assassinadas no século XX em nome de ideologias laicas e ateias". O historiador britânico Paul Johnson, em seu livro “Modern Times”, estima este número em nada menos que 100 milhões.

E por acaso isso justifica que uma única pessoa morra em decorrência de uma guerra religiosa? Não. É claro que não. Mas a violência, a guerra, a conquista e as disputas territoriais são problemas humanos, não necessariamente religiosos e não apenas religiosos.

(O artigo de Paulo Crawford pode ser lido na íntegra aqui: Four Myths about the Crusades)

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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Factos e mitos: Cruzadas, Inquisição e Guerra contra as Mulheres

Em tempos de terrorismo disseminado por todos os continentes, não faltam afirmações gratuitas de todo o tipo, seja para reduzir todos os muçulmanos a farinha do mesmo saco dos terroristas, seja para tentar livrá-los dessa generalização mediante mais generalizações a respeito de outras religiões (de preferência, a católica). Entre os chavões mais batidos, voltam à berlinda as indefectíveis acusações do tipo “Não se esqueçam dos actos bárbaros cometidos em nome de Cristo durante as Cruzadas e a Inquisição!", além de reducionismos da ordem do dia, como a assim chamada “Guerra contra as Mulheres”, expressão que está na moda aqui nos Estados Unidos e em boa parte da Europa ocidental.

Mas há factos históricos que são cuidadosamente deixados de lado a respeito desses três clichés. Vejamos alguns deles.

As Cruzadas


Será verdade que os cruzados não passavam de saqueadores e vândalos cruéis que distorciam o cristianismo, como afirma a visão popularizada desses episódios da história medieval?

Thomas F. Madden, historiador das Cruzadas e director do Centro de Estudos Medievais e Renascentistas da Universidade de Saint Louis, afirma que não. Ele vem travando a sua própria “cruzada de um homem só” para desmascarar os mitos populares sobre as supostas atrocidades patrocinadas pela Igreja católica entre os séculos XII e XVI.

Madden explica que os guerreiros do Islão, com enorme energia, começaram a combater os cristãos logo depois da morte de Maomé. E os muçulmanos foram extremamente bem sucedidos nessa empreitada, a tal ponto que a Palestina, a Síria e o Egipto, que antes eram as regiões mais fortemente cristãs do mundo todo, sucumbiram rapidamente. Até ao século VIII, os exércitos muçulmanos já tinham conquistado todo o Norte da África e a Espanha, que também eram, anteriormente, áreas cristãs. No século XI, os turcos seljúcidas conquistaram a Ásia Menor (actual Turquia), que tinha sido cristã desde os tempos do Apóstolo São Paulo. O antigo Império Romano do Oriente, que os historiadores modernos preferem chamar de Império Bizantino, foi reduzido a pouco mais que o território da Grécia actual. Desesperado, o imperador bizantino, cuja sede ficava em Constantinopla (actual Istambul, na Turquia), enviou uma mensagem aos cristãos da Europa ocidental pedindo ajuda para defender os seus irmãos e irmãs no Oriente.

Foi este o contexto que deu à luz as Cruzadas. Elas não foram fruto da imaginação de um Papa ambicioso ou de cavaleiros vorazes, mas uma resposta a mais de quatro séculos de conquistas muçulmanas que já tinham dominado dois terços do velho mundo cristão. O cristianismo, como fé e cultura, precisava tomar uma decisão: ou se defendia ou era engolido pelo Islão. As Cruzadas foram a estratégia adoptada para a reacção em defesa própria.

Madden descreve os dois objectivos estabelecidos pelo papa Urbano II para as Cruzadas: resgatar os cristãos do Médio Oriente, que estavam sendo escravizados pelo domínio muçulmano, e libertar dos islâmicos a cidade de Jerusalém e outros lugares santificados pela vida de Cristo. Longe de ser uma distorção do catolicismo, as Cruzadas nasceram do próprio coração da fé, explica o historiador, citando uma carta do papa Inocêncio III aos Cavaleiros Templários: "Vós realizais em actos as palavras do Evangelho: ninguém tem amor maior do aquele que dá a vida pelos seus amigos".

Na execução prática das oito Cruzadas, aconteceram, é claro, muitos abusos inadmissíveis por parte dos grupos combatentes. Mas daí a afirmar gratuitamente que as Cruzadas já foram concebidas com fins violentos extrapola em muito a veracidade histórica.

A Inquisição

Praticamente tudo o que achamos que sabemos sobre a Inquisição também é distorcido,explica Madden. Em 1998, o Papa João Paulo II abriu os arquivos do Santo Ofício para uma equipa multidisciplinar formada por 30 estudiosos de diferentes partes do mundo. O relatório de 800 páginas escrito por essa equipa foi publicado em 2004, confirmando o que muitos historiadores já tinham descoberto ao fazerem pesquisas prévias em outros arquivos europeus: a ideia popular do que tinha sido a Inquisição baseava-se em mitos (e continua a basear-se).

Na Idade Média, a heresia era considerada um crime contra o Estado, punível com a morte. Não era a Igreja quem condenava os hereges à morte: pelo contrário, o Papa Lúcio III estabeleceu o tribunal da Inquisição precisamente para evitar que as acusações de heresia, feitas pelo Estado, fossem julgadas por juízes civis, que eram ignorantes da doutrina e consideravam os acusados indiscriminadamente culpados. Com o tribunal da Inquisição, as acusações de heresia poderiam passar pela análise de teólogos competentes que, em quase todos os casos, impediram as sentenças de morte. Enquanto os reis, de acordo com Madden, viam os hereges como traidores que questionavam a sua “autoridade concedida por Deus”, a Igreja via-os como “ovelhas perdidas que tinham se desviado do rebanho”.

A maioria das pessoas acusadas de heresia perante a Inquisição foram absolvidas ou tiveram as suas sentenças suspensas. Os culpados de grave erro doutrinal eram autorizados a confessar os seus pecados, fazer penitência e ser reintegrados ao Corpo de Cristo. Os hereges impenitentes ou obstinados eram excomungados e entregues às autoridades laicas. Apesar dos mitos populares, a Inquisição não queimava os hereges. O facto real é que a Inquisição medieval salvou incontáveis milhares de pessoas inocentes (e algumas nem tão inocentes assim) de serem queimadas vivas pelos senhores feudais ou pela fúria da multidão.

Muito tempo mais tarde, os processos inquisitoriais foram tomados pelas autoridades civis, que não mostravam o perdão e misericórdia que Igreja tinha mostrado.

A contemporânea “Guerra contra as Mulheres”

A chamada "Guerra contra as Mulheres" é a mais recente acusação infundada sofrida pela Igreja. Como a doutrina católica propõe a permanente abertura dos casais à vida, opondo-se claramente ao aborto e aos meios artificiais de controle da natalidade, a Igreja tornou-se o principal alvo de radicais feministas, progressistas, libertinos, da comunicação social, do mundo académico e do governo, entre outros grupos contrários a ela.

Quando o Papa Bento XVI afirmou que os preservativos não são a solução para a crise da SIDA na África sub-sariana, foi considerado "terrivelmente ignorante" e responsabilizado pelas mortes em decorrência da SIDA que varrem o continente (como se todas as mortes por SIDA acontecessem entre os católicos praticantes que obedecem aos ensinamentos da Igreja; aliás, esses católicos formam justamente o grupo de menor risco, por se absterem de sexo antes do casamento e por se manterem fiéis quando casados).

Enquanto o governo de Barack Obama pisoteia a liberdade religiosa nos Estados Unidos ao forçar as instituições católicas a fornecerem anticoncepcionais como parte dos planos de saúde dos seus funcionários, é a Igreja quem recebe as acusações de agressão contra as mulheres! Por se opor ao financiamento dos contribuintes norte-americanos a organizações abortistas como a Planned Parenthood, que é a mais prolífica máquina de assassinatos dos Estados Unidos, é novamente a Igreja quem é acusada de “fazer guerra contra as mulheres”!

Na última campanha eleitoral, com base na Primeira Emenda à constitução norte-americana, os candidatos que defenderam a liberdade religiosa das instituições católicas e dos indivíduos diante da tentativa do governo Obama de obrigá-los a fornecer "benefícios" que eles consideram imorais, também foram acusados de fazer parte da "guerra contra as mulheres". Essa mesma narrativa forjada será ressuscitada, muito provavelmente, nas próximas eleições.

O verdadeiro vilão da "guerra contra as mulheres" nos Estados Unidos não é a Igreja, mas a política de saúde pública do governo Obama, o popularmente chamado “Obamacare”. Contraceptivos, abortivos e esterilização servem todos para prejudicar o saudável funcionamento do sistema reprodutivo feminino, causando inúmeros riscos às mulheres. Uma pesquisa feita em 2011 sobre o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal constatou que o perfil “mais infeliz” entre os profissionais norte-americanos é o da “mulher de aproximadamente 42 anos, solteira, com renda familiar de até 100 mil dólares por ano, profissional liberal (médica ou advogada, por exemplo)”. 

No entanto, essa mulher de carreira, “livre de marido e filhos que a oprimam” e que ainda assim se declara infeliz, é precisamente o “modelo ideal de emancipação” proposto às mulheres por organizações norte-americanas como a National Organization for Women [Organização Nacional para as Mulheres] e o Fund for a Feminist Majority [Fundo por uma Maioria Feminista].

Além dessas manipulações da realidade, existe outra razão muito sólida para que os críticos contrários à Igreja católica passem a direcionar o seu sarcasmo contra outros alvos. A Igreja é a maior organização de caridade do planeta Terra em termos de ajuda concreta em áreas como a alimentação, o vestuário, a moradia, o tratamento médico e a educação. Ela ministra ajuda aos necessitados do mundo inteiro há quase dois milênios, incluindo populações que não apenas não são católicas, mas nem sequer são cristãs.

Será que é mesmo demais pedir que aos governos e à comunicação social que verifiquem os factos, pelo menos de vez em quando?

in Aleteia


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