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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia do Santo Anjo da Guarda de Portugal

Os anjos, que fazem parte do mundo invisível a que se estende também a acção criadora de Deus, vivem inteiramente dedicados ao louvor e ao serviço de Deus. A inteligência humana tem dificuldade em exprimir a natureza dessas criaturas espirituais. A sua missão, porém, é-nos conhecida através da Bíblia, que, em tantos passos, dá testemunho acerca da existência dos Anjos. 

Em Portugal a devoção ao Anjo da Guarda é muito antiga. Tomou, porém, incremento especial com as aparições do Anjo aos Pastorinhos, em Fátima no ano 1916. O Papa Pio XII, em 1952 mandou inserir esta comemoração no calendário litúrgico português.

in Evangelho Quotidiano


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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Santíssimo Milagre de Santarém

No ano de 1247, vivia em Santarém uma pobre mulher, a quem o marido muito ofendia, andando desencaminhado com outra. Cansada de sofrer, foi pedir a uma bruxa judia que, com os seus feitiços, desse fim à sua sorte.

Prometeu-lhe esta remédio eficaz, para o que necessitava uma Hóstia Consagrada. Depois de naturais hesitações, consentiu no sacrilégio a pobre mulher; foi à Igreja de Santo Estêvão, confessou-se e pediu Comunhão. Recebida a Sagrada Partícula, com suma cautela a tirou da boca, embrulhando-a no véu. Saiu prestes, da Igreja, e encaminhou-se para a casa da feiticeira. Mas, então, sem que ela o notasse, do véu começou a escorrer Sangue, que, visto por várias pessoas, as levou a perguntar à infeliz que ferimentos tinha que tanto sangue jorravam. Confusa em extremo, corre logo para casa, e encerra a Hóstia Miraculosa numa das suas arcas.

Passou o dia, entretanto, e, à tarde, voltou o marido. Alta noite, acordam os dois, e vêem a casa toda resplandecente. Da arca saíam misteriosos raios de luz. Inteirado o homem do acto pecaminoso da mulher, de joelhos, passaram o resto da noite, em adoração.

Mal rompeu o dia, foi o pároco informado do prodígio sobrenatural. Espalhado o sucedido, meia Santarém acorreu pressurosa a contemplar o Milagre. A Sagrada Partícula foi então levada, processionalmente, para a Igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro de uma espécie de custódia feita de cera. Mas, passado tempo, ao abrir-se o Sacrário para expor à adoração dos fiéis o Santo Milagre, como era costume, encontrou-se a cera feita em pedaços, e, com espanto, se viu estar a Sagrada Partícula encerrada numa âmbula de cristal, miraculosamente aparecida.

Esta pequena âmbula foi colocada numa custódia de prata dourada onde ainda hoje se encontra. No ano de 1997, por decisão do 1º Bispo de Santarém, D. António Francisco, a Igreja de Santo Estêvão foi elevada a Santuário do Santíssimo Milagre de Santarém.

in santissimomilagredesantarem.pt


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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A vida do Santo Condestável

São Nuno de Santa Maria nasceu no dia 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bom Jardim, filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Priorato do Crato, dos célebres Cavaleiros de São João de Jerusalém e de Ilia, por quem Nuno conservaria sempre um terno afecto. A sua infância e a sua adolescência decorreram neste ambiente entre cavalheiresco e profundamente religioso que havia nestes grupos nos reinos do baixo medievo da Europa. 

Imbuído do ideal de Galaad, um dos cavaleiros da mesa redonda que acompanhavam o mítico Rei Artur, quis permanecer celibatário, mas, para não contrariar o seu pai, veio a casar-se com D.ª Leonor de Alvim, com quem teria três filhos e com quem teve uma vida matrimonial feliz. O casamento teve lugar a 15 de Agosto, festa da Assunção de Maria, de 1376. Dois dos seus filhos morreram crianças e apenas a terceira, D.ª Beatriz, chegaria à idade adulta, casando-se com D. Afonso, o filho do rei D. João I, a quem Nuno, seu aio, tinha servido sempre com valentia e fidelidade.

O jovem Nuno sobressaiu rapidamente na corte, para a qual foi destinado para o serviço pessoal do rei Fernando desde a adolescência, quando tinha apenas treze anos. A sua nobreza de ânimo, a sua valentia, a lealdade para com o rei e o ideal de pureza que parecia ter-se traçado desde criança, a imitação do casto herói Galaad, chamaram à atenção quer da família real quer dos outros cortesãos.

A morte do rei D. Fernando de Portugal originou um problema dinástico, algo muito frequente nos reinos da Península Ibérica, nos tempos da Reconquista. Alguns cavaleiros portugueses (alguns irmãos de Nuno, inclusivamente) defendiam o direito ao trono de Beatriz, filha do rei Fernando, casada com o rei de Castela, o que provavelmente teria suposto a incorporação da coroa portuguesa no reino de Castela, que se ia configurando – juntamente com o de Aragão – como o reino mais forte da Península Ibérica. Mas outros muitos cavaleiros lusitanos, entre eles Nuno, defendiam o direito ao trono de João, irmão do rei Fernando. Havia também interesses internacionais e não faltaram cavaleiros franceses e ingleses que ajudavam um ou outro lado. Não demorou muito a rebentar uma guerra entre os dois reinos, provocada pelo problema da sucessão dinástica. 

A guerra em si durou vários anos, com períodos de relativa calma. Em Abril de 1384, as tropas portuguesas (ao serviço de D. João) vencem a facção rival, na batalha de Atoleiros (o que originou, pouco mais tarde, a subida ao trono de João I, que nomearia Nuno como seu Condestável). Um ano mais tarde, no dia 14 de Agosto de 1385 (em vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora), as tropas comandadas por Nuno Álvares Pereira derrotaram os seguidores do rei de Castela, na memorável batalha de Aljubarrota, e, pouco depois, em Valverde (já dentro do reino de Castela), o que fez com que Nuno ganhasse uma grande fama como herói nacional. Ainda que a guerra se tenha prolongado por algum tempo, e inclusivamente tivessem havido escaramuças anos mais tarde, a vitória já estava do lado português. 

A paz definitiva seria assinada em 1411. Pode ser significativo da fama que Nuno ganhou como herói nacional e como Condestável o facto de que Luís de Camões, o grande poeta português, incluísse uma elogiosa referência ao nosso homem, no canto IV do seu célebre poema épico Os Lusíadas, obra cimeira da literatura portuguesa do Renascimento. Também na vizinha Espanha vários autores dos séculos XVI e XVII (Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, entre outros) louvaram a nobreza e a heroicidade do já mítico Condestável.

Mas, pouco mais tarde, a desgraça abateu-se sobre o Condestável. Em 1387, morre a sua esposa, D.ª Leonor de Alvim, que residia no Porto com a filha dos dois. Depois, o ainda jovem Nuno negou-se a contrair novo casamento. A vida de piedade e penitência (que sempre tinha tido) acentua-se sobremaneira e o Condestável, herói de tantas batalhas, famoso guerreiro ao serviço do rei, vai, a pouco e pouco, adquirindo a reputação de homem piedoso e santo.

Há que situar, nestes anos, a sua intervenção decisiva para a construção (entre outros templos e conventos) do convento e da igreja dos carmelitas, em Lisboa, cumprindo assim uma promessa votiva feita a Nossa Senhora. Consta que teve contacto com a Ordem através de um antigo companheiro de armas que se tinha feito carmelita no convento de Moura, D. João Gonçalves, e do Frei Afonso de Alfama, Vigário da Ordem em Portugal, com quem parece que tinha grande confiança e amizade. Foi escolhido, para localização do dito convento, um dos lugares mais altos de Lisboa. As obras duraram mais de oito anos. Os carmelitas, vindos do convento de Moura, instalaram-se no celebérrimo “Carmo” de Lisboa no dia 15 de Agosto (mais uma vez) de 1397, onde permaneceram até 1755, data em que o templo foi praticamente destruído pelo terramoto de Lisboa.

Em 1415, Nuno viria ainda a ter tempo de participar numa nova campanha portuguesa, desta vez para além do estreito de Gibraltar, em Ceuta, comandando e contribuindo com a sua experiência militar na expedição portuguesa que se dirigia para o referido lugar do Norte de África. Nuno, com 55 anos, sentia-se já cansado. Pouco depois aconteceu a morte da sua filha, o que provavelmente acelerou a sua decisão de se afastar do mundo e de ter uma vida totalmente entregue à penitência, à piedade e à oração.
Deste modo, em Agosto de 1423, o Condestável, figura admirada e de grande prestígio, decide, diante do espanto geral, ingressar no Convento do Carmo, que ele mesmo tinha fundado, e levar uma vida de total penitência e austeridade, como irmão donato. 

No dia 15 de Agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora e data à que parece que a vida de Nuno estava intimamente ligada, vestiu o hábito Carmelita, tomando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Apesar das pressões de toda a ordem, recusou privilégios ou mitigações da austeridade conventual. Por intervenção de D. Duarte (filho de João I, o rei a quem Nuno fielmente tinha servido durante anos), convenceu-se, ao menos, que não fosse para um convento longínquo, como era seu desejo, para evitar visitas e homenagens que iam contra a sua vontade de total penitência e humildade. Também conseguiu o príncipe que Nuno renunciasse ao seu desejo de mendigar para o convento pelas ruas de Lisboa, como faziam os irmãos donatos.

Prova da sinceridade e da firmeza da sua vontade foi o facto de que sempre recusou ser chamado doutra maneira que não “Frei Nuno de Santa Maria”, recusando qualquer tipo de título de nobreza. Mais ainda, quando o príncipe D. Duarte quis que conservasse o título de Condestável, Nuno respondeu com humildade, mas com firmeza: o Condestável morreu e está enterrado num santuário…

Depois de oito anos de vida de penitência e de grande austeridade, Frei Nuno de Santa Maria morreu em Lisboa, em 1431. O seu funeral constituiu uma enorme manifestação de dor, quer por parte da nobreza e da família real (que tinham uma grande dívida de gratidão para com aquele nobre cavaleiro vencedor no campo da batalha), quer por parte dos carmelitas e de tantos devotos, que viram nele um modelo de penitência, de humildade e de desprezo das galas e honras deste mundo.

Cronologia da vida de Santo Condestável

1360: Nuno Álvares Pereira nasce em Castelo do Bonjardim, Santarém, (ou Flor da Rosa?) filho do prior da Ordem dos Hospitalários.
1361: É legitimado por D. Pedro I
1373: Entra na Corte de D. Fernando e torna-se escudeiro da rainha D. Leonor Teles. Em breve é armado cavaleiro.
1376: A 15 de Agosto casa com d. Leonor de Alvim, de quem vem a ter uma filha, D. Beatriz.
1383: Morre D. Fernando. D. Leonor Teles manda proclamar a filha e o genro, D. João de Castela, sucessores do trono de Portugal. Nuno Álvares Pereira distingue-se no partido patriótico que incita D. João, Mestre de Avis, a chefiar a revolta contra os castelhanos. É nomeado fronteiro entre Tejo e Guadiana.

1384: Vence os castelhanos na Batalha dos Atoleiros.
1385: D. João I de Portugal, entretanto aclamado rei, nomeia-o Condestável do reino. A 14 de Agosto vence na Batalha de Aljubarrota. Recebe numerosos títulos e domínios, entre os quais o Condado de Ourém e o Condado de Arraiolos.
1388: Começa a construção da capela de S. Jorge, em Aljubarrota.
1389: Começa a construção do Convento do Carmo, em Lisboa.
1393: Partilha com os companheiros de armas muitas das suas terras.
1397: Primeiros carmelitas vêm viver para o Convento do Carmo.
1401: Fim das hostilidades com Castela.

1414: Morre a filha, D. Beatriz. Pensa tornar-se carmelita.
1415: Participa na conquista de Ceuta.
1422: Reparte pelos netos os seus títulos e domínios.
1423: Professa no Convento do Carmo a 15 de Agosto. Toma o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Dedica-se a actos de piedade e de benemerência. Ainda em vida é chamado Santo Condestável pelo povo.
1 de Novembro de 1431: Morre em Lisboa.
1641: As cortes pedem ao Papa Urbano VIII a sua beatificação. o pedido é renovado várias vezes ao longo dos anos.
1918: O Papa Bento XV confirma o culto do Santo Condestável; a sua Festa celebra-se no dia 6 de Novembro.
2009: São Nuno é canonizado pelo Papa Bento XVI, em 26 de Abril e sua festa é a 6 de Novembro.

Carlos Jorge Dias Fernandes


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sexta-feira, 4 de julho de 2025

Santa Isabel, a Rainha Santa

Princesa da casa real aragonesa, Dona Isabel nasce em 1270. Casa por procuração com o rei D. Dinis na cidade de Barcelona, em Fevereiro de 1281, mas Coimbra só recebe o casal régio em Outubro do mesmo ano. De pronto se estabelece uma profunda empatia com aquela que viria a ser a sua futura padroeira.

Desde cedo, o carácter filantrópico e de pacificadora da rainha é posto em evidência. Destacam-se alguns dos seus actos miraculosos e as intervenções de mediadora na discórdia entre D. Dinis e o seu meio-irmão, o Infante D. Afonso. Nos anos de 1319 e 1324, intervém para pôr fim aos incidentes do marido com o filho D. Afonso. Mais tarde, ao ter conhecimento da desavença entre o futuro rei D. Afonso IV, e o seu neto, D. Afonso XI de Castela, desloca-se a Estremoz para a sua última tentativa de reconciliação. Adoecendo nessa localidade alentejana, acaba por falecer a 4 de Julho de 1336, sem ter conseguido levar a bom termo a sua missão pacificadora.

Este pequeno retábulo, considerado o primeiro ex-voto português, foi encomendado por um professor universitário, como forma de agradecer o auxílio da Rainha Santa na cura da paralisia de que padecia uma sua sobrinha, freira da comunidade monástica de Celas. Nele se representa Santa Isabel com as rosas e o milagre propriamente dito, bem como a sua acção de amparo aos mais desprotegidos. Em plano de fundo, descobre-se uma vista geral de Coimbra renascentista, com destaque para o Paço Real e o Mosteiro de Santa Clara.

A rainha é sepultada em Coimbra, no Convento de Santa Clara, conforme vontade expressa em testamento, repousando inicialmente num belíssimo túmulo de pedra esculpido no séc. XIV por Mestre Pero para, mais tarde, já no século XVII, ser trasladada para novo túmulo em prata, exposto na capela-mor do novo Mosteiro de Santa Clara.
Hoje, o monumento funerário encontra-se próximo do retábulo-mor da nova Igreja de Santa Clara de Coimbra, na companhia da venerada imagem da Rainha Santa, executada por Teixeira Lopes em 1896.Após a sua canonização ser oficializada pela Igreja de Roma, os restos mortais da Rainha Santa foram trasladados para uma nova morada final. O novo túmulo em prata foi mandado fazer em 1614 pelo Bispo-Conde de Coimbra, D. Afonso de Castelo Branco.

A sua figura de Rainha Santa ficou indissociavelmente ligada ao auxílio e fundação de mosteiros e à protecção dos mais desfavorecidos, sendo por isso querida em vida e venerada como santa, logo após a sua morte. Oficialmente, a consagração dá-se com a beatificação, a 15 de Abril de 1516, por Leão X, vindo a ser canonizada por Urbano VIII, em 25 de Maio de 1625.

Após a morte de D. Dinis, em 1325, e antes de fixar residência no paço anexo ao Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, a rainha efectuou uma peregrinação a Santiago de Compostela. Segundo a tradição, Dona Isabel oferece ao Apóstolo Santiago alfaias litúrgicas, jóias e paramentos religiosos, recebendo das mãos do arcebispo compostelano o bordão de peregrina, em forma de tau, que se encontra à guarda da Irmandade de Santa Clara.

Durante a abertura do túmulo da Rainha Santa, ocorrida em 1612, com o objectivo de proceder à recolha de provas para a sua canonização, repousava junto do seu corpo o báculo e o bordão de peregrina a Santiago de Compostela, oferecido em 1325 pelo arcebispo compostelano. A peça foi colocada, no século XVII, num receptáculo de prata, em forma de balaústre, encontrando-se à guarda da Irmandade da Rainha Santa Isabel.

Uma vez viúva, a rainha passa a envergar o hábito de clarissa sem tomar os votos, desfazendo-se dos seus adornos. De alguns mandou fazer ornamentos e alfaias religiosas, enviando-as a várias igrejas, enquanto às rainhas de Portugal, Castela e Aragão ofereceu diversas jóias.

O legado de Dona Isabel de Aragão constitui um pequeno tesouro no panorama da ourivesaria sacra medieval, embora integre uma peça de uso pessoal, o colar de ouro e pedras preciosas ( inv. 6037). De acordo com a lenda, as freiras clarissas emprestavam-no aos doentes para ajudar à cura, sendo usado, em particular, pelas parturientes.

O acervo compreende também um relicário de coral (inv. 6036) que combina a excelência das formas irregulares e naturais do coral com as várias técnicas de trabalhar a prata, associando também a douradura à utilização repetida dos esmaltes. Ostentando os símbolos heráldicos de Portugal e de Aragão, o relicário repousa sobre dois leões de vulto pleno. Esta peça tinha o seu culminar na desaparecida representação do Calvário, plasmado nas figuras de Cristo, da Virgem e de S. João. A eleição da forma tripartida surge como alusão ao Mistério da Santíssima Trindade.

Do denominado “tesouro” consta ainda uma rara escultura da Virgem com o Menino (inv. 6034), singular quer pelas dimensões, quer pelos ornamentos e gemas aplicadas. É uma escultura isenta, assente sobre três leões, que recorre mais uma vez à utilização do símbolo heráldico real no cinto, em esmalte, como forma de afirmação de poder.O acervo compreende também um relicário de coral (inv. 6036) que combina a excelência das formas irregulares e naturais do coral com as várias técnicas de trabalhar a prata, associando também a douradura à utilização repetida dos esmaltes. Ostentando os símbolos heráldicos de Portugal e de Aragão, o relicário repousa sobre dois leões de vulto pleno. Esta peça tinha o seu culminar na desaparecida representação do Calvário, plasmado nas figuras de Cristo, da Virgem e de S. João. A eleição da forma tripartida surge como alusão ao Mistério da Santíssima Trindade.

Pertencente também ao legado da Rainha Santa é a cruz de jaspe sanguíneo e prata ( inv. 6035). Desta cruz processional destaca-se o magnífico nó hexagonal, onde, mais uma vez, estão inscritas as armas da Rainha. A temática escolhida enquadra-se no catecismo Cristológico — de um lado o Calvário, do outro Cristo rodeado pelo Tetramorfo, representação simbólica dos quatro evangelistas. 

Provenientes do antigo Mosteiro de Santa Clara são igualmente duas cruzes de cristal de rocha ( inv. 6040 e 6075), a primeira destas filiada nas oficinas venezianas. Recorrendo a uma iconografia de influência bizantina, os temas escolhidos aludem, num dos lados, ao episódio da Dormição da Virgem e, no outro, ao Calvário. 

A outra cruz é, no talhe do cristal, muito semelhante a esta. Apresenta nas suas placas, em prata dourada, uma galeria de figuras bíblicas, contribuindo para exaltar o valor espiritual desta peça singular. Embora não possuam as armas de Aragão, pensamos que estas peças poderão filiar-se na acção mecenática da Rainha Santa Isabel, figura ímpar da história portuguesa.
in museumachadocastro.pt


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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

São Teotónio, o primeiro santo português

18 de Fevereiro é dia de São Teotónio, o santo que ajudou a fundar Portugal. São Teotónio nasceu em Valença, em 1082, tendo sido criado pelo seu tio-avô e Bispo de Coimbra, D. Crescónio. Formado em Teologia e Filosofia em Coimbra e Viseu, tornar-se-ia Prior da Sé desta cidade em 1112.

Peregrinou por duas vezes à Terra Santa. Quando regressou da primeira, foi-lhe oferecido o Bispado de Viseu, que recusou. Ao voltar da segunda, em 1131, fundou com outros dez homens de grande virtude o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, tornando-se o seu primeiro prior, revelando-se um membro eminente e muito admirado, nomeadamente por São Bernardo de Claraval.

Em 1153 o Papa Adriano IV quis fazer de São Teotónio Bispo de Coimbra, seguindo o legado do seu tio-avô, mas o santo recusou.

São Teotónio assumir-se-ia desde cedo como um fervoroso apoiante da independência portuguesa, inclusive como conselheiro de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. Tido como homem muito respeitado e de grande valor, terá sido ele a convencer o Rei a libertar milhares de moçárabes que tinham sido feitos cativos na sequência da guerra de Reconquista realizada pelas tropas portuguesas.

São Teotónio foi um importante participante no processo político-religioso que culminaria com o reconhecimento da independência de Portugal pelo Papa Alexandre III em 1179, com a bula “Manifestis Probatum”.

Falecido a 18 de Fevereiro de 1162, não chegaria a assistir a tal momento marcante da História portuguesa, tendo sido sepultado numa capela do Mosteiro de Santa Cruz, junto do túmulo de D. Afonso Henriques.

Em 1163, um ano após a sua morte, o Papa Alexandre III canonizou-o, fazendo de São Teotónio o primeiro santo português. O seu culto foi espalhado pelos agostinianos um pouco por todo o mundo, sendo até aos dias de hoje o santo padroeiro da cidade de Viseu e da respectiva diocese. É ainda padroeiro da sua terra natal, Valença.

No concelho de Odemira, uma extensa freguesia foi também baptizada com o nome do santo, que é também seu padroeiro. A Igreja Católica celebra-o no dia da sua morte, 18 de Fevereiro.

Miguel Louro in 'Nova Portugalidade'


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terça-feira, 1 de outubro de 2024

O Santo Padre Cruz

O famoso Padre Cruz morreu há 76 anos, no dia 1 de Outubro de 1948. O Padre Cruz foi um sacerdote que morreu com fama de santidade, sendo ainda em vida conhecido como "Santo Padre Cruz". Neste momento encontra-se a decorrer, lentamente, o seu processo de beatificação. Vale a pena recordar este episódio da vida deste santo sacerdote:

«Caminhava o santo Padre Cruz pela rua do Arsenal em Lisboa. Um marinheiro fixa-o atentamente, aproxima-se e pergunta: – O Senhor é o Padre Cruz?

– Sou, sim, meu irmão.

O marinheiro beija-lhe a mão e diz:

– Fui educado nas Mónicas e lá conheci Vossa Reverência. Até me lembro da oração que me ensinou: “Jesus, Maria e José, alumiai-nos, socorrei-nos e salvai-nos”. Um dia, o meu barco, batido pelas ondas, ia naufragar. Lembrei-me então da igreja das Mónicas, do Padre Cruz e da oraçãozinha que nos ensinou e comecei a rezá-la. Deus ouviu a minha humilde prece. O mar serenou e o barco, por graça de Deus, chegou ao porto, são e salvo.»

in Pagela do Apostolado da Oração (1994)


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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Beata Teresa de Portugal

Foi Princesa de Portugal, Rainha de Leão e monja cisterciense. Foi um exemplo de docilidade, humildade, oração e serviço aos outros.

Nasceu em Coimbra (Portugal) a 4 de Outubro de 1176. Era a filha primogénita do rei D. Sancho I de Portugal e da sua mulher Dulce de Aragão. As suas duas irmãs chamavam-se Sancha e Mafalda. Foi educada na corte do pai, tanto nas disciplinas cortesãs como nos valores cristãos, por uma preceptora que era freira terciária, cujos ensinamentos a marcaram profundamente.

Aos 15 anos, casa-se com o seu primo Afonso IX, rei de Leão, onde passa a residir. Com apenas 5 anos de casados já tinha 3 filhos: Sancha, Fernando e Dulce. No entanto, o Papa Celestino III, em 1196, declarou nulo o seu casamento, pois ambos eram netos dos reis de Portugal, Afonso e Mafalda, e, por isso, existia entre eles um grau de consanguinidade e o casamento não tinha validade canónica. Mas foi reconhecida a legitimidade dos 3 filhos e a de Fernando como herdeiro da coroa de Leão, o que foi interrompido com a sua morte prematura em 1214, aos 22 anos.

Teresa aceita submissa e obedientemente a decisão papal e regressa a Portugal, mas continua a possuir alguns territórios no Reino de Leão, entre os quais um palácio em El Bierzo e uma renda atribuída por Afonso IX. Leva consigo a pequena Dulce nos braços, enquanto os dois filhos mais velhos ficam com o pai em Leão.

Ao chegar a Portugal, descobre que em Lorvão, perto de Coimbra, onde possuía propriedades, havia um mosteiro beneditino em risco de ruína, com poucos monges que levavam uma vida muito relaxada. Teresa despediu então os monges, restaurou e ampliou o mosteiro e trouxe freiras da Ordem de Cister para ocuparem o lugar dos monges. Participa activamente em muitas das actividades do mosteiro e, embora as pressões do seu pai está decidida a não casar. No entanto, ainda não se quer comprometer com os votos religiosos para poder sair e gerir livremente os seus bens.

Quando morre a sua irmã Sancha, fundadora do mosteiro de Celas, vai de noite, em segredo, buscar o corpo da irmã, que estava exposto no coro da igreja, para o enterrar no Lorvão. A última das suas aparições públicas foi dois ou três anos mais tarde, quando a viúva do recém-falecido Afonso IX lhe pediu que a ajudasse a pacificar as disputas entre os seus respectivos filhos sobre a sucessão ao trono de Leão. Graças a Teresa, chegaram a um acordo e a paz foi restabelecida na família.

De regresso a Portugal, decide professar como freira cisterciense no mosteiro de Lorvão. Aí morre a 18 de Junho de 1250, com 74 anos. Foi sepultada junto ao túmulo onde estava sepultada a sua irmã Sancha. Ambas foram beatificadas por Clemente XI a 20 de maio de 1705. Antes da reforma do martirológio, a festa das duas irmãs era celebrada em conjunto.

É muito venerada tanto em Portugal como em Leão, onde se tornou muito amada pelos leoneses, pois tinha fama de prudência e inteligência política, apesar do pouco tempo de reinado.

Francisca Abad Martín in 'Religíon Digital'


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quinta-feira, 9 de maio de 2024

Quinta-Feira da Ascensão ou Dia da Espiga

Em Portugal, nesta Quinta-Feira da Ascensão, as pessoas iam para os campos em busca dos vários constituintes do Ramo da Espiga. Ramo que segundo reza a tradição será colocado atrás da porta principal de casa, local onde fica até ser substituído no ano seguinte. 

As Espigas devem ser sempre em número ímpar, e são a parte mais importante do ramo. Podem ser de trigo, centeio, aveia, ou qualquer outro cereal. Representam o pão, como a base do sustento da família, e a fecundidade. 

A Papoila, com a sua cor vibrante e quente, significa neste ramo o amor, e a vida. Sendo a parte mais garrida do ramo acaba por ser também aquele que mais se decai com o ano a passar, ao escurecer e secar. 

O Malmequer simboliza no ramo a riqueza e os bens terrenos. Isto pelo seu branco simbolizar a Prata, e ao mesmo tempo o amarelo simbolizar o Ouro. 

A Oliveira acaba por ter um duplo significado no Ramo da Espiga. Em parte significa a Paz, sendo que é um dos símbolos da Paz desde a antiguidade. Ao mesmo tempo é o símbolo da Luz, visto do seu óleo, azeite, se encherem as lâmpadas que alumiavam as casas. Sendo que esta Luz pode ser interpretada como o sentido divido da mesma, significando a sabedoria divina. 

O Alecrim, tal como a Oliveira é uma presença constante pelo mediterrâneo. Com o seu cheiro forte e duradouro, e sendo uma planta que resiste a quase tudo, simboliza no ramo a força e a resistência. Ao contrário da Papoila avançando no ano o seu cheiro vai-se aguentando, e a sua presença torna-se cada vez mais notada no ramo. 

A Videira é a representação do vinho, tão importante para a nossa cultura e tradição.

in Jornal de Mafra


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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Capela Real de São João Baptista, uma das capelas mais bonitas do Mundo

Igreja de São Roque (Lisboa)

Esta capela, foi encomendada por D. João V aos arquitectos romanos Luigi Vanvitelli e Nicola Salvi, em 1740, e construída entre 1742 e 1747. A 15 de Dezembro de 1744, era sagrada pelo Papa Bento XIV, em Roma, tendo sido, posteriormente, armada para o Sumo Pontífice nela celebrar Missa a 6 de Maio de 1747. 

Em Setembro desse mesmo ano, foi desmontada e transportada para Lisboa, em três naus, e assente posteriormente na Igreja de São Roque, no espaço da antiga capela do Espírito Santo. A Capela de S. João Baptista é uma obra de arte única no seu estilo, sem paralelo nem na própria Itália, pois engloba um conjunto de peças de culto de excepcional qualidade artística, nomeadamente as colecções de ourivesaria e paramentaria, que se encontram parcialmente em exposição no Museu de S. Roque. 

No seu revestimento, encontramos diversos tipos de mármores: lápis-lazúli, ágata, verde antigo, alabastro, mármore de Carrara, ametista, pórfido roxo, branco-negro de França, brecha antigo, diásporo, jalde e outros. Além do mármore foram utilizados o mosaico e o bronze dourado. 

O quadro central e os dois laterais, bem como o pavimento, são em mosaico, trabalho artístico de grande perfeição. O quadro central representa o "Baptismo de Cristo", e os laterais, o "Pentecostes" (do lado esquerdo) e a "Anunciação" (do lado direito). As pinturas modelo dos três quadros são da autoria de Agostino Massucci, e a execução dos mesmos, em mosaico, foi trabalho de Mattia Moretti. Enrico Enuo foi o autor do mosaico do pavimento. 

O arco exterior da capela é encimado pelas Armas Reais Portuguesas. As cancelas e as portas laterais, em bronze dourado, ostentam ao centro o monograma de D. João V. O assentamento da capela foi da responsabilidade de Francesco Feliziani e Paolo Riccoli, tendo sido executada a montagem final dos mosaicos "Baptismo de Cristo" e "Pentecostes", em Agosto de 1752, após a morte de D. João V, ocorrida em 31 de Julho de 1750. 

in museu-saoroque.com


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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

A Imaculada Conceição e a História de Portugal

As Nações sobrevivem à erosão do tempo e permanecem vivas na história dos povos se prosseguirem na fecundidade que lhes vem da sua espiritualidade e da sua cultura. A diluição espiritual e cultural de um povo significará inevitavelmente a perca da sua identidade e a sua fusão num hoje sem futuro.

A História de Portugal regista dois momentos altos na recuperação da sua independência: a Revolução 1383-1385 e a Restauração de 1640.

Na Revolução de 1383-1385 salienta-se o cerco de Lisboa, que durou cerca de cinco meses e terminou em princípios de Setembro de 1384, acentuando-se durante o assédio, o significado da vitória alcançada por D. Nuno Alvares Pereira em Atoleiros a 6 de Abril de 1384 e a eleição do Mestre de Aviz para Rei de Portugal, curiosamente a 6 de Abril de 1385. Em 15 de Agosto travou-se a Batalha de Aljubarrota, sob a chefia de D. Nuno Alvares Pereira, símbolo da vitória e da consolidação do processo revolucionário de 1383-1385.

No movimento da restauração destaca-se a coroação de D. João IV como Rei de Portugal, a 15 de Dezembro de 1640, no Terreiro do Paço em Lisboa.

A Solenidade da Imaculada Conceição liga estes dois acontecimentos decisivos na História da independência de Portugal e no contexto das Nações Europeias. Segundo secular tradição foi o condestável D. Nuno Alvares Pereira quem fundou a Igreja de Nossa Senhora do Castelo em Vila Viçosa e quem ofereceu a imagem da Virgem Padroeira, adquirida na Inglaterra. Este gesto do Contestável reconhece que a mística que levou Portugal à vitória veio da devoção de um povo a Nossa Senhora da Conceição.

Aliás, já desde o berço, já aquando da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, havia sido celebrado um pontifical de acção de graças, em Lisboa, em honra da Imaculada Conceição.

A espiritualidade que brotava da devoção a Nossa Senhora da Conceição foi novamente sublinhada no gesto que D. João IV assumiu ao coroar a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal nas cortes de 1646.

Esta espiritualidade "imaculista" foi igualmente assumida por todos os intelectuais, que na prestigiada Universidade de Coimbra defenderam o dogma da Imaculada Conceição sob a forma de um juramento solene.

De tal modo a Imaculada Conceição caracteriza a espiritualidade dos portugueses, que durante séculos o dia 8 de Dezembro foi celebrado como "Dia da Mãe" e João Paulo II incluiu no seu inesquecível roteiro da Visita Pastoral de 1982 dois Santuários que unem o Norte e o Sul de Portugal: Vila Viçosa no Alentejo e o Sameiro no Minho.

O dia 8 de Dezembro transcende o "Dia Santo" dos Católicos e engloba indubitavelmente a comemoração da Independência de Portugal, que o dia 1 de Dezembro retoma. O feriado do dia 8 de Dezembro é religioso, mas é também celebrativo da cultura, da tradição e da espiritualidade da alma e da identidade do povo português.

Não menos importante, e em âmbito religioso e litúrgico, o tema da Imaculada Conceição da Virgem Maria é já abundantemente abordado pelos Padres da Igreja. Será o Oriente cristão o primeiro a celebrá-la. Festividade que chega à Europa Ocidental e ao continente europeu pelas mãos das cruzadas Inglesas nos séc. XI e XII. Vivamente celebrada pelos franciscanos a partir de 1263, será o também franciscano Sixto IV, Papa, que a inscreverá no calendário litúrgico romano em 1477.

De facto, o debate e a celebração desta festividade em toda a Europa é acompanhada pela história do próprio Portugal. Coimbra, como já vimos, tem um importante papel em todo este processo.

Em 8 de Dezembro de 1854, viverá a Igreja o auge de toda esta riqueza teológica e celebrativa. Através da bula "Ineffabilis Deus", Pio IX, após consultar os bispos do mundo, definirá solenemente o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

Não estamos diante de uma simples festa cristã ou de capricho religioso. O dogma resulta de tudo quanto a Igreja viveu até aqui e vive hoje em toda a sua plenitude. Faz parte da identidade da Igreja. Isso mesmo o prova o texto proclamado por Pio IX que apoia a sua argumentação nos Padres e Doutores da Igreja e na sua forma de interpretar a Sagrada Escritura. Ele, de facto, reconhece que este dogma faz parte, depois de muitos séculos, do ensinamento ordinário da Igreja.

Portugal, segundo Nuno Alvares Pereira, ou melhor, São Nuno de Santa Maria, e D. João IV isso mesmo o demonstram, não só como resultado da sua própria fé mas como expressão de um povo deveras agradecido pela sua Independência e Liberdade.

A Conceição Imaculada da Virgem é um dogma de fé segundo o qual Maria é considerada a primeira redimida pela Páscoa de Cristo.

Pe. Francisco Couto,
Reitor do Santuário de Vila Viçosa, professor do Instituto Superior de Teologia de Évora
Pe. Senra Coelho, professor do Instituto Superior de Teologia de Évora, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. (O Pe. Senra Coelho é actualmente Arcebispo de Évora)


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quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Pão Por Deus: História de uma tradição bem Portuguesa

O Pão Por Deus é uma tradição bem Portuguesa, mas a sua origem evolução e história até hoje é algo fascinante. Por vezes no entanto pensamos que poderá estar ameaçado por um Halloween que até poderá ter raízes longínquas partilhadas.

A globalização tem cada vez implementado mais o Halloween entre os Portugueses. O fenómeno da televisão, e mais recentemente a Internet, trazem até nós esta festividade anglo-saxónica.

As Origens Pagãs

As oferendas aos mortos nestas alturas do ano são comuns em diversas culturas pagãs, incluindo as celtas que habitaram o que é hoje Portugal.

Tendo em conta que muitas teses apontam a origem do Halloween como festividades célticas é interessante ver as semelhanças e desenvolvimento de ambos.

Também sabemos que muitas festas pagãs foram aos poucos tomando roupagens Cristãs, e a pouco e pouco se fundiram.

A Origem do Pão Por Deus Cristão

Com o passar dos anos foi cada vez mais promovido pela Igreja Católica o culto dos mortos, e a tradição de reservar lugar à mesa, e também de deixar comida para os mesmos.

Começou também o costume de deixar o primeiro pão de uma fornada nesta altura à porta da casa tapado por um pano. Seria para honrar os mortos, mas a intenção era também quem de mais pobre por ali passasse tomasse a parte física para si.

Assim este pão para os fieis defuntos começou a ter a vertente de partilha com quem necessitava.

O Terremoto de 1755

Um dos dias mais negros da história de Portugal é o de 1 de Novembro de 1755. Neste Dia de Todos os Santos, Lisboa viria a sofrer a maior catástrofe da sua história, sendo muito do país também afectado por ela.

Aí os afectados por tal tormenta foram a quem algo salvou pedir Pão Por Deus, tentando ter algo para matar a fome, aos que sobreviveram à catástrofe,

Relatos contam que nos anos seguintes nesse mesmo dia se aumentou o costume do Pão Por Deus, em jeito de celebração e agradecimento a quem tinha sobrevivido. Talvez por isso esta tradição seja tradicionalmente mais forte na região da grande Lisboa.

A Evolução até aos dias de Hoje

Com o passar dos anos progressivamente passou a ser cada vez mais um peditório das crianças. No século XX, onde os registos são mais constantes e fiáveis, começamos a ver muito o Pão Por Deus como a festa das Crianças.

Neste dia as crianças de manhã cedo iam de porta em porta a pedir o Pão Por Deus. Recebendo tradicionalmente frutos secos, romãs, pão e bolos.

Nos anos mais recentes, e mesmo contando alguns ciclos de menor fulgor, começou a ver-se cada vez mais como um dia em que as crianças pedem de porta em porta doces, sendo que ainda se continua a ver alguns frutos secos.

O saco de pano do Pão Por Deus é muito comum em todos estes registos, e nos dias que correm continua a existir, sendo que com a Internet temos visto muitos pequenos negócios a vender até versões personalizadas dos mesmos.

O Doçura ou Travessura Português

Um dos pontos de enfoque da cultura popular americana, que nos chega pela televisão e Internet, é a doçura ou travessura. É, no entanto, engraçado ver que algo semelhante existe tradicionalmente registado em Portugal.

As rimas e cantigas são normalmente descritas quando as crianças batem à porta. E em alguns casos vemos que detêm estrofes de agradecimento a quem oferta doces, mas menos simpáticas para quem não o faz.

A cantiga inicial:

Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós,
Para dar aos finados
Que estão mortos e enterrados

À bela, bela cruz
Truz, Truz!

A senhora que está lá dentro
Sentada num banquinho
Faz favor de s’alevantar
Para vir dar um tostãozinho.

A resposta nas casas em que são ofertados doces:

Esta casa cheira a broa,
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho,
Aqui mora um santinho.

E a resposta para quem não os dá
Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho.
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto

Variações ao longo do país

Em muitas outras regiões do país o Pão Por Deus é celebrado. No entanto existe ao longo do território algumas variações do mesmo.

Na estremadura é conhecido muitas vezes como o “Bolinho”, e a tradição é dar bolos festivos especialmente confeccionados nesta época do ano.

Já nos Açores a tradição é dar estas caspiadas, que dizem lembrar a o topo de uma caveira humana, honrando assim também os mortos.

Desde a tradição celtica, passando por todas as tradições cristãs, o Pão Por Deus é neste momento uma festa do povo, e mais que tudo das crianças.

Com ou sem máscaras, com ou sem Halloween, o Pão Por Deus está para ficar, e penso até que tem voltado a crescer nos últimos anos. E é mais uma bela tradição de Portugal.

in ofportugal.com


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quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Padre "DJ" participará em evento satânico

O Padre Guilherme Peixoto, conhecido por ter actuado como "DJ" na JMJ Lisboa 2023, é uma das cabeças de cartaz do festival de Halloween: Monsterland. Os vídeos das edições passadas podem chocar os mais sensíveis. Foi com estas palavras que a organização do festival anunciou a presença do sacerdote:

«Monsterland 2023 tem o prazer de receber um artista inesperado, que conseguiu unir techno e religião. Porque o techno é uma religião🎧
Este Verão pôs um milhão e meio de jovens a dançar na Jornada Mundial da Juventude, no Parque Tejo, em Lisboa, que se tornou a maior discoteca ao ar livre do mundo.
O seu set tornou-se icónico e viral nas redes sociais, prova de que a música eletrónica é uma linguagem universal, capaz, como ninguém mais, de unir e não de dividir.»


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