segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Defesa da propriedade por G.K. Chesterton

Estou perfeitamente consciente de que na nossa época a palavra 'propriedade' foi pervertida pela corrupção dos grandes capitalistas. Pelo que as pessoas dizem, poder-se-ia pensar que os Rothchilds e os Rockfellers são partidários da propriedade. Mas é óbvio que eles são seus inimigos, porque são inimigos dos seus limites. Não desejam a sua própria terra, mas a dos outros. (...) 

O homem que leva consigo a verdadeira poesia da posse deseja ver um muro no encontro do seu jardim com o do sr. Smith, uma cerca no encontro da sua fazenda com a do sr. Brown. Não consegue ver a forma da sua própria terra sem ver os limites da do vizinho. 

O duque de Sutherland possuir todas as chácaras (quintas) numa única propriedade rural é a negação da propriedade, assim como seria a negação do casamento se ele tivesse todas as nossas esposas num único harém.

G. K. Chesterton in 'O que há de errado com o mundo'


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Asperge me

Domine, hysopo et mundabor:
lavabis me, et super nivem dealbábor


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Uma confissão com o Padre Pio

Depoimento da conversão de Frederick Abresh
Em Novembro de 1928, quando fui ver o Padre Pio pela primeira vez, poucos anos tinham passado desde que eu me convertera do protestantismo para o catolicismo, algo que apenas tinha feito por mera conveniência social. Eu não tinha fé; pelo menos agora entendo que apenas tinha a ilusão de tê-la. Tendo sido criado numa família muito anti-católica e imbuído de preconceitos contra os dogmas - até o ponto de que uma ligeira instrução não era suficiente para apagá-los - eu estava sempre ansioso por coisas secretas e misteriosas.

Encontrei um amigo que me introduziu nos mistérios do espiritismo. Muito rapidamente, no entanto, cansei-me dessas mensagens pouco conclusivas que vinham do além-túmulo; entrei pesadamente no campo do ocultismo e das magias de todos os tipos. Foi então que eu conheci um homem que me disse, em ares de mistério, que ele detinha a verdade única: a 'teosofia'. Rapidamente tornei-me seu discípulo, e nas nossas mesas, fomos acumulando livros com os títulos mais atraentes e tentadores. Com muita presunção, ele utilizava palavras como reencarnação, logos, Brahma, Maja, esperando ansiosamente alguma nova e grande realidade que supostamente deveria acontecer.

Não sei porquê - ainda acho que era para agradar à minha esposa - mas de vez em quando ainda me acercava dos santos sacramentos. Este era o estado da minha alma, quando, pela primeira vez, ouvi falar do padre capuchinho que descreviam como um crucifixo vivo, fazendo milagres contínuos. Cheio de curiosidade, decidi ir vê-lo com os meus próprios olhos. Ajoelhei-me no confessionário e disse ao Padre Pio que considerava a confissão uma boa instituição social e educacional, mas que não acreditava de modo algum na divindade do sacramento. O padre, com expressão de viva dor, respondeu-me: 'Heresia! Então, todas as suas comunhões foram sacrílegas...tem de fazer uma confissão geral. Examinar a sua consciência e lembrar quando foi a última vez que fez uma boa confissão. Jesus tem sido mais misericordioso consigo do que com Judas'.

Olhando, então, por cima da minha cabeça, com um olhar severo, disse em alta voz: 'Louvados sejam Jesus e Maria!' E dirigiu-se à igreja para ouvir as confissões de algumas mulheres, enquanto eu fiquei na sacristia, profundamente comovido e impressionado. A minha cabeça girava e eu não me conseguia concentrar, pois martelavam-me nos ouvidos as suas palavras: 'Lembre-se de quando foi a última vez que fez uma boa confissão!' Com dificuldade, consegui chegar à seguinte decisão: vou dizer ao Padre Pio que eu era protestante e que, depois da abjuração, fui rebaptizado condicionalmente e que todos os meus pecados de minha vida passada haviam sido apagados pelo santo baptismo mas, para a minha inteira tranquilidade, eu gostaria de começar a confissão desde a minha infância.

Quando o padre retornou ao confessionário, repetiu-me a mesma pergunta: 'Então, quando foi a última vez que fez uma boa confissão?' '. Eu respondi: 'Padre, eu ... e ele então interrompeu-me, dizendo: 'a última vez que fez uma boa confissão foi quando regressou da sua lua de mel, vamos deixar tudo o mais de lado e começar a partir daí'. Fiquei sem palavras, tomado de estupor, e percebi que havia tocado o sobrenatural. 

O padre, entretanto, não me deu tempo para reflectir. Revelando o seu conhecimento do meu passado, na forma de um questionário, enumerou todas as minhas culpas com absoluta precisão e clareza. Depois me fez conhecer todos os meus pecados mortais com palavras impressionantes, que me levaram a compreender a gravidade dos meus pecados, acrescentando com um tom de voz inesquecível: 'cantava um hino a Satanás, enquanto Jesus, de braços abertos, ardia de amor à sua espera'. Então deu-me a penitência e absolveu-me.

Katharina Tangari in 'Stories of Padre Pio'


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sábado, 29 de agosto de 2020

Sanctus da Missa 'De Angelis'

Sanctus da Missa 'De Angelis' from Senza Pagare on Vimeo.



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Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro

Os bem-aventurados apóstolos foram os primeiros a ver Cristo suspenso na cruz; choraram a sua morte, ficaram atemorizados face ao prodígio da sua ressurreição mas, logo a seguir, transportados de amor por esta manifestação do seu poder, não hesitaram em derramar o seu sangue para atestar a verdade do que tinham visto. 

Pensai, irmãos no que era pedido a esses homens: ir por todo o mundo pregar que um morto tinha ressuscitado e subido ao céu; e sofrer, devido à pregação dessa verdade, tudo o que aprouvesse a um mundo insensato: privações, exílio, cadeias, tormentos, carrascos, feras ferozes, a cruz e morte. Teriam sofrido tudo isso por um desconhecido?

Teria Pedro morrido para sua própria glória? Teria pregado em proveito próprio? Ele morria e Outro, que não ele, era glorificado por essa morte; ele foi morto e Outro foi adorado. Só a chama ardente da caridade, unida à convicção da verdade, pode explicar semelhante audácia! Eles pregavam o que tinham visto. 

Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro. Ou deveriam eles negar o que tinham visto? Mas não negaram, antes pregaram esse Morto que sabiam estar perfeitamente vivo. Eles sabiam por que vida desprezavam a vida presente, sabiam por que felicidade suportavam provas passageiras, por que recompensa espezinhavam todos esses sofrimentos. A sua fé pesava mais na balança que o mundo inteiro.

Santo Agostinho in Sermão 311, 2


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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Colher o que Semeámos

Estudos recentes revelam que os níveis de esperma de homens no ocidente desceram 60% desde 1971, evocando a grande distopia de P.D. James “Os Filhos dos Homens”, com a sua visão de uma sociedade que já não se consegue reproduzir. Baseado no Reino Unido, em 2021, esta ficção assustadora descreve uma mundo de infertilidade em massa entre os homens, um mundo em que não nascem crianças há 25 anos. No livro, o último bebé que nasceu é agora um adulto e a população está a envelhecer. Tal como na realidade actual, os cientistas no livro de James ainda não conseguiram descobrir uma cura, ou sequer uma causa, para a infertilidade. 

No artigo em que publicam as suas descobertas, na revista Human Reproduction Update, os investigadores – de Israel, Estados Unidos, Dinamarca, Brasil e Espanha – concluem que o total de contagem de esperma caiu 59.3% entre 1971 e 2011 na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia. 

Alguns cientistas afirmam que a “vida moderna” causou sérios danos à saúde dos homens. Pesticidas, poluição, dieta, stresse, tabaco e obesidade… todos têm sido associados ao problema, com algum grau de plausibilidade. Mas há menos homens a fumar do que nunca e os controlos de poluição e de pesticidas que os governos têm implementado ao longo dos últimos 40 anos diminuíram vários destes riscos. 

Durante a Revolução Industrial, no século XIX, os homens incorriam em riscos de saúde muito maiores ao trabalhar em fábricas numa altura em que não havia sequer regulamentos sobre a qualidade do ar. Havia menos problemas de fertilidade nessa altura, as famílias eram numerosas e ninguém se preocupava com a contagem de esperma. 

A obesidade pode ser um factor, mas os investigadores ainda não conseguiram estabelecer uma ligação. Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Loma Linda fez um estudo ao longo de quatro anos com uma população de Adventistas do Sétimo Dia, que são rigorosamente vegetarianos. Os resultados revelaram que os vegetarianos têm uma média de contagem e de mobilidade de esperma significativamente mais baixas que carnívoros, mas o veganismo é um estilo de vida minoritário ainda, especialmente entre homens, e por isso não pode ser a principal causa do fenómeno. 


As causas para este declínio de fertilidade continuam por apurar. Mas para se compreender as consequências de uma sociedade estéril, a história de P.D. James descreve um mundo sombrio em que emerge um Governo totalitário para manter a ordem – e fornecer “conforto” aos residentes. É um mundo em que os animais de estimação se substituem às crianças e a religião parece ter perdido o seu sentido. Porém, na tentativa fraca de manter os rituais cristãos as igrejas anglicanas levam a cabo cerimónias de baptismo elaboradas para os gatinhos de estimação da população, repletas de vestidos brancos e boinas. 

Na sociedade estéril de P.D. James, o sexo entre os jovens tornou-se “o menos importante dos prazeres sensoriais do homem”. E embora os homens e as mulheres ainda se casem, é frequentemente com pessoas do mesmo sexo. O desejo sexual diminuiu a par da fertilidade masculina, não obstante os esforços do Governo para estimular o desejo através de lojas de pornografia patrocinadas pelo Estado. 

De certa forma o romance de James descreve uma sociedade que conseguiu precisamente aquilo que queria: prazer sexual sem risco de gravidez. Mas a ironia é que não havendo possibilidade de procriação, o sexo perde o seu sentido. É um facto que enfrentamos cada vez mais hoje enquanto debatemos se o Estado deve obrigar todos os contribuintes, incluindo aqueles que têm objecções religiosas, a pagar pelos “direitos reprodutivos” de todas as mulheres, numa altura em que há cada vez mais preocupações com a infertilidade masculina. 

Há muito que os antropólogos e os sociólogos sabem que a questão da fertilidade humana numa dada população tem de ser vista de uma perspectiva cultural. A cultura é a forma de vida, ou a concepção de vida que caracteriza cada sociedade humana. Inclui os valores partilhados, normas e comportamentos de uma dada sociedade. 

Para compreender as taxas de fertilidade e a diminuição da população, devem-se identificar e modificar as influências culturais. A cultura é importante para se compreender as taxas de fertilidade e para modificar a actividade sexual, criando uma relação entre o sexo e a reprodução e o sistema de valores de uma cultura. Quando, numa determinada sociedade, a chegada de uma criança é desvalorizada, o acto sexual que produz a criança também se desvaloriza. Note-se que os níveis de fertilidade masculina estão em queda no Ocidente e não em África, onde as crianças continuam a ser altamente valorizadas e acolhidas em amor. 

Esta perspectiva sociológica ou cultural estava claramente expressada na Humanae Vitae: Sobre a Regulação da Natalidade, emitida pelo Papa Paulo VI no dia 25 de Julho de 1968, onde se lê: 

“O problema da natalidade, como de resto qualquer outro problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais – sejam elas de ordem biológica, psicológica, demográfica ou sociológica – à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna.” 

Talvez seja chegada a hora de considerar a sociologia em torno da cultura de “direitos reprodutivos” que criámos – a cultura de contracepção que o Ocidente abraçou. Temos de nos questionar sobre o eventual custo psíquico de uma cultura em que a contracepção e o aborto são de tal forma importantes que o ObamaCare procurou obrigar todos os empregadores – incluindo instituições religiosas – a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluíam cobertura para medicamentos contraceptivos e abortivos abortivos para todos. 

É importante realçar que estes declínios de fertilidade começaram a registar-se em 1971 com o surgimento da pílula contraceptiva e liberalização do aborto a pedido através de Roe v. Wade. Será que, tal como na distopia de James, há um preço psíquico a pagar quando começamos a partir do princípio que podemos controlar todos os aspectos das nossas vidas? Será possível que tenhamos sobrecontrolado a nossa própria fertilidade? 

Anne Hendershott in thecatholicthing.org (traduzido por 'Actualidade Religiosa')

Anne Hendershott é professora de Sociologia e directora do Centro Veritas para Ética na Vida Pública, da Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio. É autora do livro The Politics of Deviance


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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Se Deus aparecesse nos noticiários...

Se Deus aparecesse nos noticiários que lugar restaria à liberdade humana, ao livre arbítrio e à Fé? Como poderíamos duvidar de uma evidência?

Como faria o homem o caminho da confiança, de volta a uma relação entretanto traída? Não! A maior razão da Fé reside na salvaguarda da liberdade humana; em reganhar uma confiança entretanto perdida pela Queda. 

É preciso viver a revolução permanente, contra o espírito da época, contra a heresia da moda. Só assim se obtém o perdão e o regresso a casa. 

G.K. Chesterton


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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Falar com Deus

Se o facto de contares aos homens os teus infortúnios pessoais e descreveres as provações por que passaste traz algum alívio à tua desventura, como se através das palavras se exalasse uma brisa refrescante, com muito mais razão se falares ao Senhor dos sofrimentos da tua alma encontrarás consolo e conforto em abundância! 

De facto, muitas vezes os homens dificilmente suportam aqueles que vêm lamentar-se e chorar para o pé de si: afastam-se e repelem-nos. Mas Deus não age assim; pelo contrário, Ele faz com que te aproximes e abraça-te; e mesmo que passes o dia inteiro a narrar os teus infortúnios, ficará ainda mais disposto a amar-te e a acolher favoravelmente as tuas súplicas. 

São João Crisóstomo



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Cardeal Sarah celebrará Missa Pontifical na Basílica de São Pedro durante a Peregrinação Summorum Pontificum

Entrevista com o Padre Claude Barthe, capelão da Peregrinação
 
Todos os anos, desde 2012, é realizada, em Roma, uma peregrinação em acção de graças pelo motu proprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI. Vai acontecer este ano? O Capelão deste encontro, padre Claude Barthe, anuncia que não só se realizará a peregrinação, mas também que no dia 24 de Outubro o Cardeal Sarah celebrará a principal Missa na Basílica de São Pedro.
 
Summorum Pontificum News :  Então, este ano acontecerá a peregrinação Summorum Pontificum em Roma?
 
Padre Claude Barthe :  Sim, como todos os anos desde 2012! É verdade que este ano é especial: devido à chamada "crise sanitária", reina uma atmosfera um tanto surreal que afecta todas as actividades religiosas e especialmente as peregrinações. Estive em Lourdes há alguns dias, onde encontrei apenas alguns poucos fiéis. Porém, após um exame cuidadoso, o Coetus Internationalis, que organiza a Peregrinação, decidiu, considerando o que esta iniciativa católica representa, mantê-la, tendo em conta as restrições que nos são impostas.
 
Summorum Pontificum News :  Qual será o programa?
 
Padre Claude Barthe : A própria peregrinação reduzir-se-á ao acontecimento mais importante: a Missa Pontifical na Basílica de São Pedro, no altar da Cátedra, no sábado, 24 de Outubro. Com, no dia seguinte, a Missa do Domingo de Cristo Rei.
No sábado, 24 de Outubro, os peregrinos, clérigos e fiéis reunir-se-ão em frente à entrada da Basílica às 11h30, onde o Cardeal Burke os receberá e entrará com eles na Basílica de São Pedro. Às 12h00, o Cardeal Robert Sarah celebrará a Missa Pontifical de São Rafael Arcanjo.
 
Summorum Pontificum News :  Quais peregrinos?
 
Padre Claude Barthe : As autoridades vaticanas pedem, actualmente, que os fiéis presentes nas cerimónias da Basílica de São Pedro não ultrapassem os 150. É pouquíssimo. Mas é possível que essas medidas sejam amenizadas antes do final de Outubro.
 
Em qualquer caso, excepcionalmente, pedimos aos que desejam assistir a esta Missa que se inscrevam aqui: https://bit.ly/3hCY4K4. Guardaremos os lugares assim que forem "clicados" e confirmá-los-emos. Quando um determinado número for atingido, avisaremos os que ultrapassarem esse número que serão colocados em lista de espera e mantê-los-emos informados sobre as informações que recebermos das autoridades da Basílica.
 
Summorum Pontificum News :  E no domingo, 25 de Outubro?
 
Padre Claude Barthe : Segundo a tradição, a nossa peregrinação terminará na festa de Cristo Rei. A Missa Pontifical será celebrada às 11 horas, domingo, 25 de Outubro, pelo Cardeal Raymond Leo Burke, na paróquia Trinità dei Pellegrini que, segundo a sua vocação, funciona como uma espécie de quartel general, onde os sacerdotes que participam da peregrinação celebram as suas Missas privadas.
 
Summorum Pontificum News :  Além disso, a associação Oremus / Paix Liturgique anunciou um encontro. Sempre terá lugar?
 
Padre Claude Barthe : Com certeza. Os organizadores farão um anúncio sobre isso em breve, mas posso dizer que este Encontro será realizado na sexta-feira, 23 de outubro, na aula magna do Augustinianum, próximo da Praça de São Pedro, entre as 10h00 e as 16h00. Este ano receberá intervenções de uma série de oradores, incluindo o Cardeal Raymond Leo Burke, e também Joseph Shaw, Presidente da Latin Mass Society, Jean de Tauriers, Presidente da ND de Chrétienté, Padre Antony Ike, seminarista nigeriano especializado em África Católica e Trinidad Dufourq que testemunhará a vitalidade e o desenvolvimento da Missa tradicional na Argentina. Os organizadores solicitam que as pessoas se inscrevam no Encontro aqui: https://bit.ly/3in6sOl.
 
O Encontro encerrar-se-á no mesmo dia, às 17h, na Basílica de Santa Maria ad Martyres do Panteão, com o canto das Vésperas Pontificais, presidido por Mons. Gianfranco Girotti, Bispo titular de Meta e Regente Emérito da Penitenciária Apostólica. Novamente, será necessária inscrição para as vésperas no Panteão: https://bit.ly/2XpGhhM.
 
Summorum Pontificum News : Podemos dizer que esta Peregrinação 2020 será uma questão de princípio?
 
Padre Claude Barthe : Vai ser muito mais do que isso! Julgamos que este ano será muito especial. Por exemplo, muitos dos nossos amigos na América não se poderão juntar a nós. Mas os presentes representarão todos os peregrinos intencionais do mundo que nos acompanharão com as suas orações. Os peregrinos in re representarão a multidão de peregrinos in voto! Também este ano levaremos ao Túmulo do Apóstolo o pedido para que a Igreja se salve e pela difusão da antiga liturgia romana que contribuirá poderosamente para que isso aconteça com a irradiação da mais pura lex orandi.



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sábado, 22 de agosto de 2020

Beato Contardo Ferrini, modelo de professor e intelectual católico


Filho de Ricardo Ferrini e de Luísa Buccellati, um casal muito católico, Contardo era um jovem de memória prodigiosa. Estudioso, chamavam-lhe o Aristóteles. Aprendia tudo o que lhe ensinavam com a maior facilidade. Um dia, apareceu pela Ambrosiana, a pedir ao prefeito da biblioteca que lhe ensinasse o hebreu. Estudou o hebreu, e depois o siríaco, o sânscrito e o copta.

Em Pavia, em 1876, com 17 anos, começou o curso de Direito. Ali, o abade Buccellati, seu tio, ministrava o direito penal. Dos colegas debochados, dos ditos obscenos, dos risos que as ordinarices provocavam, o jovem Ferrini fugia, atormentado. Trazia o cilício sempre bem apertado e procurava o confessionário todos os dias.

Em 1881, fez um voto de castidade. Um dia, um colega apontou-lhe duas jovens irmãs, bastante bonitas, de boa família, e, pois, óptimos partidos. Qual delas escolheria Contardo? O jovem respondeu:

– Eu sou pela terceira, ainda por nascer.

Em Junho de 1880 defendeu, brilhantemente, em Pavia, a sua tese – uma dissertação latina que girava em torno da importância de Homero e de Hesíodo para a história do direito penal – tese que lhe valeu uma bolsa de viagem. (...)

Do professorado, Contardo fez o seu sacerdócio. Foi mestre sempre compenetrado, sério, grande estudioso, que não procurou matérias que levam ao sucesso fácil, mas o direito penal romano e o direito bizantino. Nesta última disciplina, foi quase que um iniciador na Itália. (...)

Assistindo à Missa todos os dias, diante do tabernáculo, Contardo, a orar, chegava ao êxtase.

Aos Domingos, se o procuravam em casa, o porteiro avisava:

– Não é fácil, em dias de festa, achar o professor em casa. Não! Está sempre na igreja, onde tem tanta coisa para fazer!

Terciário franciscano, desde 1886, Ferrini era doce, humilde, paciente, sempre procurando a perfeição.

'Eu procurarei, escreveu duma feita, ser modelo de mansidão, de doçura, de caridade e de humildade. Repararei cada falta por uma redobrada atenção, para evitá-las, e procurarei, todos os dias, ocasião de praticar as virtudes'.

Depois:

'Durante o dia, farei uma visita a Jesus no Santo Sacramento, lembrando-me do seu amor, da sua ternura e da sua doçura inefáveis: a Ele irei em espírito de afectuosa confiança e de humildade. Permanecerei unido a Ele todo o dia com frequentes aspirações e uma grande pureza de intenção. A caridade espiritual para com os outros será meu primeiro cuidado; hei de ser humilde e afável. Falando de Deus aos outros, rogarei a Ele que termine a minha obra com a sua acção inefável'.

De real espírito de pobreza, Ferrini era verdadeiramente indiferente pelo dinheiro. Professor em Pavia, hospedara-se na casa da irmã. Metódico, levantava-se às cinco horas e meia, invariavelmente. Ao final das aulas, depois de atender às perguntas dos alunos, sempre a rodeá-lo, tornava a pé para casa.

Contardo Ferrini faleceu aos 43 anos, em 1902. Foi o tipo do homem que mostrou, e de modo cabal, que a ciência e a religião não são incompatíveis. Beatificado em 1947.

Pe. René François Rohrbacher in 'Vidas dos Santos' (Volume XVIII) - Editora das Américas (São Paulo), 1961, pp. 292-294


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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Perdoar aos nossos devedores


"Tu, Senhor, voltas com alegria e amor a levantar o que Te ofende, e eu não torno a reabilitar e a honrar quem me irrita."

São João da Cruz


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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Há 106 anos morria um Santo Padre

Há 106 atrás, no dia 20 de Agosto de 1914, os grandes sinos da Basílica de São Pedro tocavam "Pro Pontífice Agonizante", anunciando ao Mundo a morte de um Papa Santo, o gloriosíssimo Pio X, que durante 11 anos havia governado a Igreja com bondade e muita sabedoria.

Padre Pio referiu-se a ele como: “O homem mais puro a pisar o Vaticano após São Pedro”.


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Eugenio Pacelli, futuro Papa Pio XII, no dia em que celebrou a sua primeira Missa (Abril 1899)




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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Quem não vive como pensa acaba por pensar como vive

"Quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive."

Este belo adágio, que contém um perspicaz trocadilho, é muito verdadeiro.

Quantas pessoas - apesar de terem perfeita noção do certo e errado, do bem e do mal - por fraqueza ou desleixo, começam a viver alguma coisa que sabem estar errada. No princípio ficam com problemas de consciência, mas o "amor" por aquela realidade fala mais alto e, mais tarde ou mais cedo, aquilo que sempre foi errado já não é...o mau passou a ser bom.

Temos que lutar para conseguirmos ser coerentes entre o que pensamos e o que fazemos. E que isto esteja por sua vez de acordo com o bem, porque ser coerente no mal não ajuda ninguém.


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Miss Pensilvânia e candidata a Miss EUA: "Fui concebida por violação"

Valerie Gatto, Miss Pensilvânia e candidata ao concurso de beleza Miss Estados Unidos  da América 2014, revelou que foi concebida num estupro. No entanto, isso não tem prejudicado o seu caminho para o sucesso, pelo contrário, pretende ser uma fonte de inspiração para as pessoas saberem que "não podem deixar as circunstâncias definirem as suas vidas".

Entrevistada pela Today.com, Valerie, que ficou entre as 20 primeiras colocadas no concurso de beleza, afirmou: "Eu acredito que Deus me colocou aqui por um motivo: para inspirar as pessoas, para encorajá-las, dar-lhes esperança de que tudo é possível e não podes deixar que as circunstâncias definam a tua vida. Ser filha de um estupro, não saber quem é o meu pai, não saber se ele alguma vez será encontrado, a maioria das pessoas pensam que é uma situação muito negativa", disse ela.

No entanto, Valerie disse: "Eu cresci com a minha mãe e os meus avós. Eles nunca viram isso como algo negativo. Eu tenho uma família amorosa, que me apoia e me disse que eu poderia ser presidente dos Estados Unidos".

A jovem, que também é consultora de marketing, lembrou que quando era mais jovem e perguntou à sua mãe como ela foi concebida, a mãe lhe disse que "algo de mau me aconteceu. Um homem muito mau feriu-me, mas Deus deu-me um presente, tu".

"Infelizmente, temos que estar alerta para estes crimes", disse Valerie Gatto, que se tem esforçado para compartilhar a sua experiência com diversos grupos de pessoas para ajudar na prevenção contra casos de estupro.

"Espero mostrar a outras como ser pró-activa, o que fazer, estar presente, estar atenta à sua volta,... Eu estou a educar as mulheres sobre um assunto que é muito grave, mas é tão maravilhoso ver as suas respostas. Elas dizem que lhes muda a vida".

Valerie disse que não compartilhou a sua história "por publicidade", e sim que, "estou realmente fazendo isso para mudar o mundo e fazer a diferença."

Numa entrevista anterior, no final de 2013, quando foi recém-coroada Miss Pensilvânia, Valerie lembrou que a sua mãe "sempre me disse que eu era a sua luz", e observou que "a partir do momento da concepção tenho sido essa luz, em meio à escuridão".


in aciprensa


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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Ser um pobre de Deus

Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Deus não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimónios. Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: «Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos» (1Tim 6,17). 

Aqueles que não são orgulhosos são pobres diante de Deus, que inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85,1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro nem na prata, nem nas coisas de que gozam durante algum tempo. 

Basta que as riquezas não os levem à perdição e que, se elas nada podem para os salvar, ao menos não lhes sirvam de obstáculo. Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, é um pobre de Deus; e Deus inclina-Se para ele, porque conhece os tormentos do seu coração.

Santo Agostinho in 'Discursos sobre os salmos' (85,3; CCL 39, 1178) 


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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

14 de Agosto de 1385: um Santo combate em Aljubarrota

Nun’ Álvares Pereira orando antes da batalha
Painel de azulejos de Jorge Colaço (1933), Centro Cultural Rodrigues de Faria. freguesia de Forjães, Esposende.
14 de Agosto de 1385. A Batalha de Aljubarrota é a batalha mais famosa e uma das mais importantes de toda a história de Portugal. 

O Reino de Portugal garantiu a sua independência derrotando o reino de Castela, actual Espanha, apesar de ter muito menos soldados. Castela resolveu atacar precipitadamente por volta das 18 horas, temendo o ataque nocturno, e ao pôr-do-sol a batalha já estava vencida pelos portugueses. A memória desta batalha serviu para acender o fogo em muitos corações portugueses pelos séculos que se seguiram.

Forjou grande parte da nacionalidade lusitana e deu início a uma dinastia que muita glória e honra trouxe a Portugal.

Quem venceu esta batalha contra Castela, actual Espanha, na frente do exército português, foi um dos homens mais poderosos que já viveram em Portugal. E foi também um dos portugueses mais humildes em toda a nossa história: S. Nuno de Santa Maria, o Santo Condestável.

É ele a prova de que é possível ser guerreiro e Santo ao mesmo tempo, e grande devoto de Nossa Senhora em todo o tempo. Não é por acaso que a vitória em Aljubarrota aconteceu na Vigília da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu.

Na homilia da canonização de S. Nuno, o Papa Bento XVI deixou bem claro que não foram apenas os anos finais da sua vida, que passou no Convento do Carmo em Lisboa enquanto monge carmelita, que contribuíram para a sua santidade. Também os anos em que foi o chefe máximo das forças portuguesas tiveram méritos.

Jaime Nogueira Pinto, no seu livro sobre S. Nuno, descreve bem o momento em que o Santo convenceu o rei, D. João I, a agir rapidamente para enfrentar o exército de Castela em Aljubarrota:


“Nun’Álvares não quebrava. Era audácia e ímpeto mas sobretudo uma grande liberdade de falar a todos, mesmo ao mais poderoso, ao rei. (…) Era um falar e agir firme, mas também sereno, sem crispação, perante os poderosos deste mundo. E leve e alegre, com aquela segurança dos que eram ou se sabiam mensageiros de um Senhor justo e todo-poderoso.” (Jaime Nogueira Pinto - 'Nuno Álvares Pereira', Esfera dos Livros)
Bandeira usada por S. Nuno nas batalhas


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terça-feira, 11 de agosto de 2020

Quem é o sacerdote? - Santo Cura d'Ars

Quem é o sacerdote? Um homem que ocupa o lugar de Deus, um homem que é revestido de todos os poderes de Deus. "Ide. - diz Nosso Senhor ao sacerdote - Assim como Meu Pai me enviou, assim Eu vos envio... Todo poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide, pois, instruí todas as nações... Quem vos escuta a Mim escuta; quem vos despreza a Mim despreza". 

Quando o padre perdoa os pecados, não diz: "Deus vos perdoe". Diz: "Eu vos absolvo". Na Consagração, ele não diz: "Isto é o Corpo de Nosso Senhor". Diz: "Isto é o Meu Corpo".

S. Bernardo diz-nos que tudo veio por Maria, pode-se dizer também que tudo nos veio pelo sacerdote: sim, todas as venturas, todas as graças, todos os dons celestes.

Se não tivéssemos o sacramento da Ordem, não teríamos Nosso Senhor. Quem foi que o pôs aí nesse tabernáculo? Foi o Padre. Quem foi que recebeu vossa alma à sua entrada na vida? O Padre. Quem a alimenta para lhe dar a força de fazer a sua peregrinação? O Padre. Quem a prepara para comparecer perante Deus, lavando essa alma pela primeira vez no sangue de Jesus Cristo? O Padre, sempre o Padre. E se essa alma vier a morrer, quem a ressuscitará? Quem lhe restituirá a calma e a paz? Ainda o Padre. Não vos podeis lembrar de um só benefício de Deus sem encontrardes, ao lado dessa lembrança, a imagem do Padre.

Ide-vos confessar à Santíssima Virgem ou a um anjo: eles vos absolverão? Não. Dar-vos-ão o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor? Não. A Santíssima Virgem não pode fazer descer Seu Divino Filho à hóstia. Tivésseis aí duzentos anjos, e eles não poderiam absolver-vos. Um padre, por mais simples que seja, pode-o; pode dizer-vos: "Ide em paz, eu vos perdoo". Oh! Como o padre é alguma coisa de grande!

O padre só será bem compreendido no Céu... Se o compreendêssemos na terra, morreríamos não de pavor, mas de amor...

Os outros benefícios de Deus de nada nos serviriam sem o padre. De que serviria uma casa cheia de ouro, se não tivésseis ninguém para vos abrir a porta? O padre tem a chave dos tesouros celestes; é ele quem abre a porta; ele é o economista de Deus, o administrador dos seus bens. Se não fosse o padre, a Morte e a Paixão de Nosso Senhor de nada serviriam. Vede os povos selvagens: de que lhes serviu que Nosso Senhor morresse? Ai! Eles não poderão ter parte no benefício da redenção enquanto não tiverem padres para lhes fazerem a aplicação do Seu Sangue. O padre não é padre para si: não dá a si a absolvição, não administra a si os sacramentos. Ele não é para si, é para vós.

Depois de Deus, o sacerdote é tudo!... Deixai uma paróquia vinte anos sem padre, adorarão ali os animais. (...) Quando se quer destruir a religião, começa-se por atacar o padre, porque onde quer que não haja mais padre, não há mais sacrifício, e onde não há mais sacrifício, não há mais religião. (...)

Vede o poder do padre! A língua do padre, de um pedaço de pão faz um Deus! É mais do que criar o mundo. Alguém dizia: "Santa Filomena obedece então ao Cura d'Ars?" Certo, ela bem pode obedecer-lhe, já que Deus lhe obedece.

Se eu encontrasse um padre e um anjo, cumprimentaria o padre antes de cortejar o anjo. Este é o amigo de Deus, mas o padre faz as vezes de Deus... Santa Teresa beijava o lugar por onde um padre havia passado... (...)

O sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo.


São João Maria Vianney in 'Catecismo sobre o sacerdote - Espírito do Cura d'Ars' (Abbé A. Monnin)


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domingo, 9 de agosto de 2020

Missa Pontifical em Nagasaki (1949)

Nagasaki, 1949. Fotografias da Missa Pontifical no meio das ruínas da Catedral de Santa Maria de Urakami, no 400º aniversário da chegada de São Francisco Xavier ao Japão e Missa de Requiem pelas vítimas do bombardeio de Nagasaki. A Missa foi celebrada pelo Arcebispo de Nagasaki, Mons. Paulo Aijirō Yamaguchi.









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Malditos respeitos humanos - Cura d'Ars

Beatus qui non fuerit scandalizatus in me (S. Mat, XI. 6)

Nada mais glorioso e honroso para um cristão, que levar o nome sublime de filho de Deus, de irmão de Jesus Cristo. Mas, ao mesmo tempo, nada mais infame que envergonhar-se de ostentá-lo cada vez que se apresente ocasião para isso. Não, não vos maravilheis ao ver homens hipócritas, que fingem o quanto podem um exterior de piedade para atrair a estima e os aplausos dos demais, enquanto que seu pobre coração se acha devorado pelos mais infames pecados. Querem, estes cegos, gozar das honras inseparáveis da virtude, sem ter o incómodo de praticá-las. 

Mas, maravilhemo-nos ainda menos ao ver a outros, bons cristãos, ocultarem, enquanto podem as suas boas obras aos olhos do mundo, temerosos de que a vanglória se insinue em seus corações e de que os vãos aplausos dos homens lhes façam perder o mérito e a recompensa delas. Mas, onde encontrar, meus irmãos, covardia mais criminosa e abominação mais detestável que a nossa, que, professando crer em Jesus Cristo, estando obrigados pelos mais sagrados juramentos a seguir as suas pisadas, a defender os seus interesses e a sua glória, ainda que à custa de nossa própria vida, somos tão vis, que, na primeira ocasião, violamos as promessas que lhe fizemos nas sagradas fontes batismais? Ah! , infelizes! Que fazemos? Quem é Aquele a quem renegamos? 

Ai! Abandonamos o nosso Deus, o nosso Salvador, para nos tornamos escravos do demónio, que nos engana e não busca outra coisa senão a nossa ruína e nossa eterna infelicidade. Oh, malditos respeitos humanos, que arrastam as almas ao inferno. Para melhor fazê-los ver a sua baixeza, mostrar-vos-ei: 1º. O quanto ofende a Deus o respeito humano, ou seja, a vergonha de fazer o bem; 2º. Quão débil e mesquinho de espírito, revela ser aquele que o comete.

I – Não nos ocupemos, meus irmãos, daquela primeira classe de ímpios que empregam o seu tempo, a sua ciência e a sua miserável vida em destruir, se pudessem, a nossa santa religião. Estes desgraçados parecem não viver senão para tornar insignificantes os sofrimentos e os méritos da morte e paixão de Jesus Cristo. Têm empregado uns a sua força, outros a sua ciência, para quebrar a pedra sobre a qual Jesus Cristo edificou a Sua Igreja, que é a nossa santa religião, a qual subsistirá a despeito de todos os seus esforços.

Com efeito, meus irmãos, no que resultou toda a fúria dos perseguidores da Igreja, dos Neros, dos Maximinianos, dos Dioclecianos, de tantos outros que julgaram faze-la desaparecer da terra com a força das suas armas? Sucedeu exactamente o contrário: O sangue de tantos mártires, como disse Tertuliano, apenas serviu para fazer florescer ainda mais a religião; aquele sangue era uma semente de cristãos, que produzia a cem por um. Desgraçados! 

O que vos fez esta santa e nobre religião para que assim a persigais, quando apenas ela pode fazer o homem feliz aqui na terra? Ai! Como choram e gemem agora nos infernos, onde conhecem claramente que esta religião, contra a qual se desenfrearam, poderia ter-lhes levado ao Paraíso! Mas, vãos e inúteis lamentos!

Olhai igualmente a esses outros ímpios que fizeram o quanto esteve nas suas mãos para destruir nossa santa religião com os seus escritos, um Voltaire, um Rousseau, um Diderot, um D’Alembert, um Volney e tantos outros que passaram a vida vomitando com os seus escritos quanto podia inspirar-lhes o demónio. Ai! Muito mal fizeram, é verdade; muitas almas perderam, arrastando-as consigo ao inferno; mas não puderam destruir a religião como pensavam. Longe de quebrar a pedra sobre a qual Jesus Cristo edificou a sua Igreja, que há de durar até o fim do mundo, chocaram contra ela. Onde estão agora estes desventurados ímpios? Ai! No inferno onde choram a sua desgraça e a de todos aqueles, que consigo arrastaram.

Nada digamos tampouco, irmãos, de outra classe de ímpios que, sem se manifestarem abertamente inimigos da religião, da qual conservam, todavia algumas práticas externas, se permitem, não obstante, certos gracejos, sobre a virtude ou piedade daqueles a quem não se sentem com ânimo de imitar. Diz-me, amigo, que te tem feito esta religião que herdastes dos teus antepassados, que eles tão fielmente praticaram diante dos seus olhos, da qual tantas vezes lhe disseram que somente ela pode fazer a felicidade do homem na terra, e que, ao abandoná-la, não podíamos senão sermos infelizes? E aonde pensas que te conduziram amigo, os teus comentários ímpios? Ai! Pobre amigo! Ao inferno, para chorares a tua cegueira.

Tampouco nada diremos desses cristãos que só o são de nome; que praticam os seus deveres de cristãos de um modo tão miserável, que há de morrer-se de compaixão (por eles). Vereis que fazem as suas orações com fastio, dissipados, sem respeito. Vê-los-eis na Igreja sem devoção; para eles, a santa Missa começa sempre tão prontamente e acaba demasiado tarde; o sacerdote nem (bem) desceu do altar, e eles já estão na rua. Da frequência dos Sacramentos nem falemos; se alguma vez se aproximam deles para recebê-los, o seu ar de indiferença vai apregoando que absolutamente não sabem o que fazem. Tudo o que diz respeito ao serviço de Deus praticam-no com um tédio espantoso. Bom Deus! Quantas almas perdidas por toda a eternidade! Deus meu! Quão pequeno há de ser o número dos que entram no reino dos céus, quando tão poucos fazem o que devem por merecê-lo!

Mas onde estão – me direis – os que se fazem culpáveis de respeitos humanos? Atentai-me um instante, meus filhos, e já saberão. Prontamente vos direi com São Bernardo que por qualquer ângulo que se olhe o respeito humano, que é a vergonha de cumprir os deveres da religião por causa do mundo, em tudo revela ele, menosprezo de Deus, das suas graças e cegueira da alma. 

Digo, em primeiro lugar, meus filhos, que a vergonha de praticar o bem, por medo do desprezo e dos escárnios de alguns ímpios miseráveis ou de alguns ignorantes, é um assombroso menosprezo que fazemos da presença de Deus, ante a qual, estamos sempre e que no mesmo instante poderia lançar-nos no inferno. E por que motivo, meus filhos, esses maus cristãos zombam de vós e ridicularizam a vossa devoção? Ah! Meus filhos! Eu vos direi a verdadeira causa: é que, não tendo virtude para fazer o que vós fazeis, lhes têm aversão, porque com a vossa conduta, despertais remorsos nas suas consciências; mas estais bem seguros de que os seus corações, longe de vos desprezar, vos têm em grande estima. Se eles têm necessidade de um bom conselho ou de alcançar de Deus alguma graça, não creiais que procuram os que se portam como eles, mas sim àqueles mesmos de quem zombaram, pelo menos com palavras. 

Envergonhas-te, amigo, de servir a Deus, por temor de ver-te desprezado? Olha Àquele que morreu nesta cruz; pergunta-lhe se se envergonhou de ser desprezado, e de morrer da maneira mais humilhante naquele infame patíbulo. Ah! Que ingratos somos para com Deus, que parece achar sua glória em fazer publicar de século em século que nos têm escolhido por filhos seus! Oh! Deus meu! Que cego e desprezível é o homem que teme um miserável “que dirão?”, e não teme ofender a um Deus tão bom! Digo, além disso, que o respeito humano nos faz desprezar todas as graças que o Senhor nos mereceu com sua paixão e morte. Sim, filhos meus, pelo respeito humano inutilizamos todas as graças que Deus tem destinado para salvar-nos. Oh! Maldito respeito humano, que às almas arrasta ao inferno!

Em segundo lugar, digo que o respeito humano encerra a cegueira mais deplorável. Ai! Não detemos a atenção no que perdemos. Ah! Filhos meus! Que desgraça para nós! Perdemos a Deus, ao qual nenhuma coisa poderá jamais substituir. Perdemos o Céu, com todos os seus bens e delícias. Mas há ainda outra desgraça, é que tomamos o demónio por pai e ao inferno com todos os seus tormentos por nossa herança e recompensa. Trocamos as nossas doçuras e gozos eternos em penas e lágrimas. Ai! Amigo, em que pensas? Como terás que arrepender-se por toda a eternidade! Oh! Meu Deus! Podemos pensar nisso e ainda assim vivermos escravos do mundo?

É verdade – me direis – que quem por temor ao mundo não cumpre os seus deveres de religião é bem desgraçado, posto que nos diz o Senhor que a quem se envergonhar de servi-Lo diante dos homens, Ele envergonhar-se-á de reconhecê-lo diante do seu Pai no dia do juízo ( cf. S. Mat; X,33). Deus meu! Temer ao mundo; e por quê? Sabendo como sabemos que é absolutamente necessário ser desprezado pelo mundo para agradar a Deus. Se temias ao mundo, não devias haver-te feito cristão. Sabias bem que nas sagradas águas do baptismo fazias juramento na presença do próprio Jesus Cristo; que renunciavas ao mundo e ao demónio; que te obrigavas a seguir a Jesus Cristo levando a sua cruz, coberto de opróbrios e desprezos. Temes ao mundo? Pois bem, renuncia ao teu baptismo, e entrega-te a esse mundo, ao qual temes tanto desagradar.

Mas quando é – me direis – que agimos nós por respeito humano? Escuta bem, meu amigo. É um dia em que, estando na feira, ou em uma casa onde se come carne em dia proibido, se te convidam a comê-la também, e tu contentando-te em baixar os olhos e ruborizar-te em vez de dizer que és cristão e que tua religião te proíbe, a come com os demais, dizendo: Se não faço como eles, debocharão de mim – Debocharão de ti amigo? Ah! Tens razão; e é uma verdadeira lástima! – Oh! É que faria, ainda muito mais mal, sendo a causa de todos os disparates que diriam contra a religião, que o que faço comendo carne – como assim? – farias ainda mais mal? Parece-te bem que os mártires, por temor das blasfémias e juramentos dos seus perseguidores, houvesse todos, renunciado a sua religião? Se outros agem mal, tanto pior para eles. Ah! Diga-se melhor, não é bastante que outros desgraçados crucifiquem a Jesus com sua má conduta, para que tu também te juntes a eles para fazer sofrer ainda mais a Jesus Cristo? Temes que zombem de ti? Ah! Infeliz! Olha a Jesus Cristo na cruz, e verás quanto por ti (Ele) tem feito.

De modo que, não sabes tu quando negas a Jesus Cristo? É um dia em que, estando em companhia de duas ou três pessoas, parece que caíram as suas mãos, ou que não sabes fazer o sinal da cruz, e olhas se tem os olhos fixos em ti, e te contentas em dizer a sua bênção e acção de graças na mesa mentalmente, ou te retiras a um canto para dizê-las. É quando, ao passar diante de uma cruz, te fazes de distraído, ou dizes que não foi por nós que Deus morreu nela.

Não sabes tu quando tens respeitos humanos? É um dia em que, achando-te em um lugar* onde se dizem obscenidades contra a santa virtude da pureza ou contra a religião, não tens coragem para repreender aos que assim falam, antes ]ao contrário, por temor de suas gozações, tu sorris. – É que não há – dizes – outro remédio, se não quero ser objeto de contínua zombaria. – Temes que zombem de ti? Por este mesmo temor negou São Pedro ao divino Mestre; mas o temor não lhe livrou de cometer um grande pecado, que chorou em seguida toda a sua vida.

Não sabes tu quando tens respeito humano? É quando o Senhor te inspira o pensamento de ir confessar-te, e sentes que tens necessidade disso, mas pensas que zombariam de ti chamando – o de devoto. É quando te vem o pensamento de assistir a santa Missa durante a semana, e nada te impede de ir; mas dizes a ti mesmo que zombariam de ti e que diriam: Isto é bom para quem nada tem a fazer, para os que vivem de renda.

Quantas vezes este maldito respeito humano te tem impedido de assistir ao catecismo e à oração da tarde! Quanta vez, estando em tua casa, ocupado em algumas orações e leituras, tens te escondido por vergonha ao ver que alguém chegava! Quantas vezes, estes respeitos humanos te tem feito quebrar a lei do jejum ou da abstinência por não atrever-te a dizer que jejuavas ou comias de vigília! Quantas vezes deixas, de dizer o Angelus diante das pessoas, ou te tens contentado em dizê-lo para ti, ou tens saído do local donde estavas com outros para dizê-lo fora!

Quanta vez tem omitido as orações da manhã ou da noite por achar-se com outros que não as fazem; e tudo isto por temor de que zombassem de ti! Anda pobre escravo do mundo, aguarda o inferno donde serás precipitado; não te faltará ali tempo para lamentar a falta do bem que o mundo te tem impedido de praticar.

Oh, bom Deus! Que triste vida leva o que quer agradar ao mundo e a Deus! Não, amigo, te enganas. Além de que viverás sempre infeliz, não hás de conseguir agradar a Deus e ao mundo; é coisa tão impossível quanto por fim a eternidade. Ouve um conselho que eu vou te dar, e serás menos desgraçado: entrega-te inteiramente a Deus ou ao mundo; não busques nem sigas mais que a um amo; mas uma vez escolhido, não lhe deixes já. 

Acaso não te recordas do que te disse Jesus Cristo no Evangelho: Não podes servir a Deus e ao mundo, ou seja, não podes seguir ao mundo com seus prazeres e a Jesus Cristo com a sua cruz. Não é que te faltem planos para ser, ora de Deus, ora do mundo. Digamo-lo com mais clareza: é lastimável que tua consciência, que teu coração te permita frequentar pela manhã a sagrada mesa e o baile à tarde; passar uma parte do dia na igreja e outra parte na taberna ou no jogo, falar um pouco do bom Deus e outro tanto de obscenidades ou de calúnias contra teu próximo; fazer hoje um favor ao teu vizinho e amanhã uma ofensa; numa palavra ser bom e portar-se bem e falar de Deus em companhia dos bons, e obrar o mal em companhia dos malvados.

Ai! Meus filhos! A companhia dos perversos leva-nos a agir mal. Quantos pecados não evitaríamos se tivéssemos a felicidade de apartar-nos de pessoas sem religião! Refere Santo Agostinho que muitas vezes, achando-se entre pessoas perversas, sentia vergonha de não iguala-las na maldade, e, para não ser tido por menos, ainda se gloriava do mal que não havia cometido.

Pobre cego! Quão digno és de lástima! Que triste vida!... Ah! Maldito respeito humano! Quantas almas arrastas ao inferno! De quantos crimes és a causa! Ah! Quão culpável é o desprezo das graças que Deus nos quer conceder para salvar-nos Ai! Quantos e quantos tem começado o caminho da sua reprovação pelo respeito humano, porque, à medida que iam desprezando as graças que Deus lhes concedia, a fé ia se amortecendo em suas almas; e pouco a pouco iam sentindo menos a gravidade do pecado, a perda do céu, as ofensas, que pecando faziam a Deus. Assim acabaram por cair em uma completa paralisia, ou seja, por não dar-se conta do infeliz estado da sua alma; dormiram no pecado e a maior parte morreu nele.

No Sagrado Evangelho lemos que Jesus Cristo nas suas missões cumulava de toda a sorte de graças os lugares por onde passava. Uma vez era um cego, a quem devolvia a vista; um surdo a quem devolvia a audição, um leproso a quem curava de sua lepra, mais além um defunto, a quem restituía a vida. Contudo, vemos que eram muito poucos os que anunciavam os benefícios que acabavam de receber. E por que isto meus filhos? É que temiam os judeus, por que não se podia ser amigo dos judeus e de Jesus. 

E assim, quando se achavam com os judeus,pareciam aprová-los com o seu silêncio. Eis aqui precisamente o que nós fazemos: quando nos achamos a sós, ao reflectirmos sobre todos os benefícios que temos recebido do Senhor não podemos senão testificar-lhe nosso reconhecimento por havermos nascidos cristãos, por havermos sido confirmados; mas quando estamos com os libertinos, parece que compartilhamos dos seus sentimentos, aplaudindo com nossos sorrisos ou nosso silêncio suas impiedade. Oh, que indigna preferência, exclama São Máximo! Ah! Maldito respeito humano, que arrastas almas ao inferno! Que tormento não passará, meus filhos, uma pessoa que assim quer viver e agradar a dois contrários! 

Temos disso um eloquente exemplo no Evangelho. Lemos ali que o rei Herodes se havia enredado em um amor criminoso com Herodíades. Tinha esta infame cortesã uma filha que dançou diante dele com tanta graça que lhe prometeu o rei quanto ela lhe pedisse, ainda que fosse a metade de seu reino. Absteve-se bem a infeliz de pedi-lo, porque não era bastante; foi-se a encontrar com a sua mãe para tomar conselho sobre o que devia pedir ao rei, e a mãe mais infame que sua filha, apresentando-lhe uma bandeja, lhe disse: “Vá e pede que ponha neste prato a cabeça de João Baptista, para trazê-la.”. Fez isso para vingar-se, por haver-lhe João Baptista jogado na sua cara a sua má vida. Ficou o rei surpreendido de espanto ante este pedido; pois por um lado apreciava a São João Batista, e lhe pesava a morte de um homem tão digno de viver. Que iria fazer? Que partido iria tomar? Ah! Maldito respeito humano, o decidirás? Herodes não quisera decretar a morte de João Batista; mas por outro lado, teme que zombem dele, porque, sendo rei, não manteve sua palavra. Vê, diz por fim o infeliz a um dos verdugos, vai e corta a cabeça de João Batista; prefiro deixar que grite minha consciência, a que zombem de mim. Mas que horror! Ao aparecer a cabeça na sala, os olhos e a boca, ainda que fechados, pareciam reprovar-lhe seu crime e ameaçar-lhe com os mais terríveis castigos. Ante sua vista, Herodes empalidece e se estremece. Ai! Que o que se deixa guiar pelo respeito humano é bem digno de lástima.

È verdade, que os respeitos humanos não nos impede de fazer algumas boas obras. Mas quantas vezes, nas mesmas boas obras, nos fazem perder os méritos, que não faríamos se não esperássemos ser por elas louvados e estimados pelo mundo! Quantos não vêm à igreja, senão por respeitos humanos, pensando que, desde o momento em que uma pessoa não pratica a religião, pelo menos exteriormente, não se tem confiança nela, pois como se costuma dizer: Onde não há religião, tampouco há consciência! 

Quantas mães que parecem ter muito cuidado com seus filhos, o fazem somente para serem estimadas aos olhos do mundo! Quantos que se reconciliam com os seus inimigos apenas para não perder a estima das pessoas! Quantos que não seriam tão correctos, se não soubessem que sem isso perderiam o louvor mundano! Quantos que são mais reservados na igreja por causa do mundo! Oh! Maldito respeito humano, que com as suas boas obras feitas em vão, ao invés de conduzir muitos cristãos ao céu, nada fazem senão empurra-los ao inferno!

Mas - me direis – é que é muito difícil que o mundo se intrometa em tudo que alguém faz. (...) Não temos de esperar nossa recompensa do mundo, mas sim, somente de Deus. Se me louvam, sei bem que não mereço, porque sou pecador; se me desprezam, nada há de extraordinário nisso, tratando-se de um pecador como eu, que tantas vezes tem desprezado com os seus pecados ao senhor; muito mais mereceria. 

Por outro lado, não nos tem dito Jesus Cristo: Bem aventurados os que são desprezados e perseguidos? E quem são os que os desprezam? Ai! São alguns pecadores infelizes, que, não tendo o valor de fazer o que vós fazeis, para dissimular sua vergonha queriam que obrásseis como eles; algum pobre cego que, bem longe de desprezá-los, deveria passar a vida chorando sua infelicidade. Suas zombarias demonstram o quão são dignos de lástima e de compaixão. São como uma pessoa que tem perdido o juízo, que corre pelos bosques, se arrasta pela terra ou se atira aos precipícios, gritando aos demais que façam o mesmo; grite o quanto quiser, deixai-o fazer, e compadecei-vos, porque não conhece a sua desgraça. 

Da mesma forma meus filhos, deixemos a esses pobres infelizes que gritem e zombem dos bons cristãos; deixemos a esses insensatos em sua demência; deixemos a esses cegos em suas trevas; escutemos os gritos e gemidos dos réprobos; mas nada temamos, sigamos nosso caminho; fazem mal a si mesmos e não a nós; tenhamos compaixão, e não nos separemos de nossa linha de conduta.

Sabeis por que zombam de vós? Porque vêem que tens medo e que pela menor coisa se envergonham. Não é de vossa piedade que eles zombam, mas sim de vossa inconstância, e de vossa frouxidão em seguir a vosso capitão. Tomai o exemplo dos mundanos; olhai com que audácia eles seguem aos seus. Não vês como se orgulham de serem libertinos, bebedores, astutos, vingativos? Olhai a um impuro; envergonha-se por acaso de vomitar suas obscenidades diante das pessoas? E por que isto, meus filhos? Porque os mundanos se vêem constrangidos a seguir seu amo, que é o mundo; não pensam nem se ocupam mais do que em agradar-lhe; por mais sofrimentos que lhes custem, nada é capaz de detê-los. Vede aqui, meus filhos, o que faríeis também vós se quisesse imitá-los. Não temerias ao mundo nem ao demónio; não buscarias nem quererias mais que o que possa agradar ao vosso Senhor, que é o próprio Deus. Há de se convir, que os mundanos, são muito mais constantes em todos os sacrifícios que fazem para agradar ao seu amo, que é o mundo, que nós em fazer o que devemos para agradar a nosso Senhor, que é Deus.

II – Mas agora comecemos de outra maneira. Diga-me amigo, porque zombas dos que fazem profissão de piedade, ou, para que o entendas melhor, dos que gastam mais tempo que tu na oração, dos que frequenta mais constantemente do que tu os Sacramentos, dos que fogem dos aplausos do mundo? Uma de três, meus filhos: ou é que considerais estas pessoas como hipócritas, ou que zombas da piedade em si, ou é, enfim, que lhe causa nojo ver que eles valem mais que vós.

Iº. Para chamá-los de hipócritas seria preciso que houvésseis lido o seu coração, e estivésseis plenamente convencidos de que toda a sua devoção é falsa. Pois bem, meus filhos, não parece natural, quando vemos uma pessoa fazer alguma boa obra, pensar que o seu coração é bom e sincero? Sendo assim, vede quão ridículos resultam vossa linguagem e vossos juízos. Vês em vosso próximo um exterior bom, e dizeis ou pensais que seu exterior nada vale. Se lhe mostram um fruto bom; indubitavelmente pensais que a árvore de onde ele veio é de boa qualidade; e formais dele, um bom juízo. Por outro lado, tratando-se de julgar as pessoas de bem, dizeis o contrário: o fruto é bom, mas a árvore que o deu, não vale nada. Não, meus filhos, não, não sois tão cegos nem tão insensatos para disparatar desta maneira.

2º. Digo, em segundo lugar, que zombais da piedade em si, mas me engano; não zombais de tal pessoa porque as suas orações são longas, frequentes ou feitas com reverência. Não, não é isto, porque também vós orais (pelo menos, se não o fazeis faltais a um de vossos primeiros deveres). É acaso porque ela frequenta os Sacramentos? Mas tampouco vós haveis passado o tempo da vossa vista sem aproximar-vos dos santos Sacramentos; se os tem visto no tribunal da penitência, se os tem visto aproximar-se à sagrada mesa. Não desprezais, pois, a tal pessoa porque cumpre melhor que vós seus deveres de religião, estando perfeitamente convencidos do perigo em que estamos de nos perdermos, e, por conseguinte, da necessidade que temos de recorrer constantemente à oração e aos Sacramentos para perseverar na graça do Senhor, e sabendo que depois deste mundo nenhum recurso resta: bem ou mal, forçoso será permanecer na sorte que, ao sair dele, nos espera por toda a eternidade.

3ª. Não, meus filhos, nada disto é o que nos enoja na pessoa de nosso próximo. É que, não tendo, a coragem de imitá-lo, não queremos sofrer a vergonha de nossa frouxidão; antes queremos arrastar-nos a seguir nossas desordens e nossa vida indiferente. Quantas vezes nos permitimos dizer: para que servem tanta dissimulação, estar tanto (tempo) na igreja, madrugar tanto para ir à ela, e outras coisas do tipo? Ah! Meus filhos! È que a vida das pessoas seriamente piedosas é a condenação de nossa vida frouxa e indiferente. 

Bem fácil é compreender que sua humildade e o desprezo que elas têm de si mesmas condena nossas vidas orgulhosas, que nada sabe sofrer, que queria a estima e o louvor de todos. Não há dúvida de que sua doçura e sua bondade para com todos, condena* nossas impetuosidades e nossa cólera; é coisa certa que sua modéstia, sua circunspecção em toda a sua conduta condena a nossa vida mundana e cheia de escândalos. Não é realmente só isso o que nos molesta na pessoa de nossos próximos? Não é isto o que nos enfada quando ouvimos falar bem dos demais e anunciar suas boas obras? Sim, não há dúvida de que sua devoção, seu respeito à Igreja nos condena, e contrasta com nossa salvação. 

Da mesma maneira que nos sentimos naturalmente inclinados a escusar, nos demais os defeitos que há em nós mesmos, somos propensos a desaprovar neles as virtudes que não temos a coragem de praticar. Assim estamos vivendo todos os dias. Um libertino se alegra de achar outro libertino que lhe aplauda em suas desordens; longe de desaconselhá-lo, lhe alenta a prosseguir nelas. Um vingativo se compraz na companhia de outro vingativo, para que se aconselhem mutuamente, a fim de achar o meio de vingar-se de seus inimigos. 

Mas ponha uma pessoa regrada em companhia de um libertino, uma pessoa sempre disposta a perdoar com outra vingativa; vereis como em seguida os malvados se desenfreiam contra os bons e se lhes caem em cima. E porque isto, meus filhos, senão porque, não tendo a virtude de obrar como eles, queriam poder arrastá-los para o seu lado, a fim de que a vida santa que estes levam não seja uma contínua censura às usas próprias vidas? Mas, se quereis compreender a cegueira, dos que zombam das pessoas que cumprem melhor do que eles seus deveres cristãos, escuta-me um momento.

Que pensarias de um pobre que tivesse inveja de um rico, se ele não fosse rico senão porque não quer sê-lo? Não lhe dirias: amigo, por que hás de dizer mal desta pessoa por causa da sua riqueza? De ti somente depende ser tão rico como ela, e ainda mais se quiseres, pois, de igual maneira, meus filhos, por que nos permitimos vituperar aos que levam uma vida mais regrada do que a nossa? Somente de nós depende ser como eles e ainda melhores. O (facto de) que os outros praticam a religião com mais fidelidade que nós, não nos impede de sermos tão honestos e perfeitos como eles, e mais, todavia, se quisermos sê-lo.

Digo, em terceiro lugar, que as pessoas sem religião que desprezam a quem faz profissão dela...; mas engano-me: não é que os desprezem, apenas aparentam, pois em seus corações os têm em grande estima. Quereis uma prova disso? A quem recorrerá uma pessoa, ainda que não tenha piedade, para achar algum consolo em suas penas, algum alívio em sua tristeza e dores? Crê que irá buscá-lo em outra pessoa como ela? Não, meus amigos, não. Conhece muito bem que uma pessoa sem religião não pode consolar-lhe e dar-lhe bons conselhos. Irá aos mesmos de quem antes zombava. Fartamente convencido está de que somente uma pessoa prudente, honesta e temerosa de Deus pode consolá-lo e dar-lhe algum alívio em suas penas. 

Quantas vezes, de facto, filhos meus, achando-nos agoniados pela tristeza ou por qualquer outra miséria, temos acudido a alguma pessoa prudente, e boa e, ao cabo de um quarto de hora de conversação, nos temos sentido totalmente mudados e nos retiramos dizendo: Que ditosos são os que amam a Deus e também os que vivem ao seu lado. Eis que eu me entristecia, não fazia mais que chorar, me desesperava; e, com uns momentos na companhia desta pessoa, me tenho sentido totalmente consolado. Bem certo é quanto ela me tem dito: que o Senhor não tem permitido isto senão para o meu bem, e que todos os santos e santas haviam passado penas maiores, e que mais vale sofrer neste mundo que no outro. E assim acabamos por dizer: quando se me apresentar outra pena, não demorarei em acudir-me a ele de novo me busca de consolação. Oh, santa e formosa religião! Quão felizes são os que te praticam sem reservas, e quão grandes e preciosos são os conselhos e doçuras que nos proporcionas...!

Já vês, pois, meus filhos, que zombais de quem não merecem. Que deveis pelo contrário, estar infinitamente agradecidos a Deus por ter entre vós algumas almas boas que sabem aplacar a cólera do Senhor, sem o qual pronto seríamos esmagados por sua justiça. Se o pensais bem, uma pessoa que faz bem suas orações, que não busca senão agradar a Deus, que se compraz em servir ao próximo, que sabe desprender-se até mesmo do necessário para ajudar-lhe, que perdoa de bom grado aos que lhes fazem alguma injúria, não podes dizer, que se porte mal, antes ao contrário. Tal pessoa não é senão mui digna de ser louvada e estimada por toda a gente. 

Sem dúvida, a esta pessoa é a quem criticais; mas, não é verdade que ao fazê-lo, não pensais no que dizes? Ah! É certo, os diz vossa consciência; ela é mais feliz que nós. Ouve amigo meu, escuta-me, e eu te direi o que deves fazer: bem longe de vituperar desta classe de pessoas e zombar-te delas, hás de fazer todos os esforços possíveis por imitar-las, unir-te todas as manhãs às suas orações e a todos os actos de piedade que elas façam durante o dia. Mas direis para fazer o que elas fazem é necessário violentar-se e sacrificar-se demasiadamente. Custa muito trabalho! ... Não tanto como quereis vós supor, meus filhos. Tanto custa fazer bem as orações da manhã e da noite? Tão difícil é escutar a palavra de Deus com respeito, pedindo ao Senhor a graça de aproveitá-la? Tanto se necessita para não se sair da Igreja durante as instruções? Para abster-se de trabalhar aos domingos? Para não comer carne nos dias proibidos e desprezar aos mundanos empenhados em perder-se?

Se é que temeis que os chegue a faltar à coragem dirigi vossos olhos à Cruz donde morreu Jesus Cristo e vereis como não os faltará alento. Olhai as multidões de mártires, que sofreram dores que vós não podeis compreender, por temor de perderem as suas almas. Os parece que se arrependem agora de haverem desprezados o mundo e o que dirão?

Concluamos meus filhos, dizendo: Quão poucas são as pessoas que verdadeiramente servem a Deus! Uns ocupam-se de destruir a religião, se fosse possível, com a força das suas armas, como os reis e imperadores pagãos; outros com os seus escritos ímpios quiseram desonrá-la e destruí-la se pudessem; outros zombam dela nos que a praticam; outros, enfim, sentem desejo de praticá-la, mas têm medo de fazê-lo diante do mundo. 

Ai! Meus filhos! Quão pequeno é o número dos que andam pelo caminho do céu, pois só contam nele os que, continua e valorosamente combatem ao demónio e as suas sugestões, e desprezam ao mundo com todos os seus enganos! Posto que, esperamos nossa recompensa e nossa felicidade somente de Deus, por que, meus filhos, amar ao mundo, havendo prometido com juramento aborrecê-lo e despreza-lo para não seguir a não ser Jesus Cristo, levando nossa cruz todos os dias de nossa vida? Feliz, filhos meus, aquele que não busca senão a Deus e despreza todo o resto. Esta é a felicidade...

Extraído do livro 'Sermões escolhidos do Santo Cura d'Ars' (Vol. I)


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