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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

503 anos da Excomunhão de Lutero

No dia 3 de Janeiro de 1521, Martinho Lutero foi excomungado pelo Papa Leão X. Aqui deixamos algumas afirmações heréticas de Lutero:

Sobre a Missa:

"Quando a Missa for revirada, acho que teremos revirado o Papado! Porque é sobre a Missa, como sobre uma rocha, que o Papado se apoia totalmente, com os seus mosteiros, bispados, colégios, altares, ministérios e doutrina...Tudo isto desabará quando desabar a sua Missa sacrílega e abominável."

(Père Barrielle, Avant de mourir, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne - 1983 - http://amdg.free.fr/lexorand.htm)

Sobre o Ofertório da Missa:

"Segue toda esta abominação à qual se submete tudo aquilo que precede. É o que denominamos de Ofertório, e tudo, nele, exprime a oblação."

(Henri Charlier, La messe ancienne et la nouvelle D.M.M., 1973, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne - 1983)

Sobre o Cânone da Missa:

"Este abominável cânone, que é uma colectânea de lacunas lodosas; ... fez-se da Missa um sacrifício; acrescentaram-se os ofertórios. A Missa não é um sacrifício ou a acção de um sacrificador. Olhemo-la como sacramento ou como testamento. Chamemo-la de bênção, eucaristia, ou mesa do Senhor, ou Ceia do Senhor ou Memória do Senhor."

(Luther, Sermon du 1er dimanche de l'Avent, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne - 1983)

Sobre a táctica a seguir para a implantação da sua nova Missa:

"Para chegar segura e felizmente ao objectivo, é preciso conservar algumas cerimónias da antiga Missa, para os fracos, que poderiam se escandalizar com mudanças demasiadamente bruscas."

(Père Barrielle, La messe catholique est-elle encore permise?, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983)

"O Padre pode, muito bem, actuar de tal modo que o homem do povo ignore sempre as mudanças que fizemos e possa assistir à Missa sem encontrar com o que se escandalizar."

(Jacques Maritain, Trois Réformateurs, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983)

Sobre o Sacerdócio:

"Que loucura querer monopilizá-lo para alguns." (Para ele o sacerdócio não era restrito aos padres, mas compartilhado por todos os fiéis)

(Léon Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983)

Sobre o seu comportamento:

"Eu estou de manhã à noite desocupado e bêbado. Perguntam-me por que razão bebo tanto, por que razão falo tão galhardamente e por que razão como tanto. É para pregar uma peça ao diabo que se pôs a atormentar-me. É bebendo, comendo, rindo, nessa situação, e cada vez mais, e até mesmo cometendo algum pecado, à guisa de desafio e desprezo por Satanás, procurando tirar os pensamentos sugeridos pelo diabo com o auxílio de outros pensamentos, como, por exemplo, pensando numa linda mulher, na avareza ou na embriaguês, caso contrário ficarei muito raivoso."

(Marie Carré, J'ai choisi l'unité - D.P.F., 1973, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983)

"Eu tive até três esposas ao mesmo tempo." (Dois meses após ter dito isto, Lutero 'casou-se' com uma quarta mulher, uma freira)

(Guy Le Rumeur, La révolte des hommes et l'heure de Marie 1981, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne 1983)

Sobre a Igreja:

"Se nós condenamos os ladrões à forca, os assaltantes ao cadafalso, os hereges à fogueira, por que não recorremos, com todas as nossas armas, contra esses doutores da perdição, esses Cardeais, esses Papas, toda essa sequela da Sodoma romana, que não pára de corromper a Igreja de Deus? Por que não lavamos as nossas mãos no seu sangue?"

(Hartmann Grisar, Martin Luther - La vie et son oeuvre - 2ª ed. - Ed. P . Lethielleuz - Paris -1931)


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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Reforma Católica vs Reforma Protestante

Não podemos combater a heresia criando novas heresias. Por exemplo, de muitos modos a heresia monofisita (i.e. "Cristo tem uma natureza") foi uma reacção exagerada à heresia nestoriana (i.e. "Cristo são duas pessoas"). A Igreja Católica sempre procurou indicar a verdade e não a mera destruição do erro. A refutação do erro passa demasiadas vezes para outro erro pior.

Do mesmo modo, Lutero e Calvino procuraram acabar com as confusões relacionadas com a graça e o mérito (i.e. o defeituoso nominalismo iniciado por William de Ockham) criando uma visão alternativa da graça e do mérito (que ironicamente abraçava o nominalismo de Ockham e reembalava-o). A solução de Lutero era de facto herética. Um pequeno arranjo é várias vezes defeituoso. A fita cola consegue "resolver" quase tudo - mas acaba por ceder a outros problemas.

Os passos da história da Igreja estão cheios de reformadores Católicos: Paulo, Atanásio, João Crisóstomo, Máximo, João Damasceno, Papa Gregório VII, Francisco, Domingos, Catarina de Sena, Inácio, Teresa de Ávila, etc. Cada um destes reformadores Católicos manteve a unidade da Igreja de Cristo, submetia-se à liderança da Igreja e trazia a sua renovação com paciência. Em muitos casos, cada um experimentou perseguição activa de outros cristãos e caíram mesmo sob suspeita de heresia. No entanto, a sua humildade e silêncio eventualmente reforçaram a sua causa como advogados da verdade evangélica da doutrina da Igreja.

São Francisco de Assis é talvez um dos melhores exemplos de paciência nisto das reformas. Quando S. Francisco foi a Roma procurar reconhecimento do Papa, o Papa dispensou-o impacientemente e disse-lhe para ir "deitar-se com os porcos."

Um bocado depois, Francisco regressou sujo com fezes de porco com cheiro até aos altos céus. Quando o Papa se opôs, Francisco respondeu, "Eu obedeci às suas palavras e fiz simplesmente como disse. Deitei-me com os porcos." De repente o Papa percebeu que este era um homem santo que estava disposto a obedecer mesmo na face de humilhação. O Papa ouviu a visão de Francisco para a reforma e o resto é história.

Quando foi rejeitado pelo Papa, São Francisco podia ter recorrido à Sagrada Escritura, mostrando que o seu modo de vida era pobre e humilde como o de Cristo. Ele até podia ter contrastado a sua "vida bíblica" contra a extravagância da corte Papal. Francisco até podia ter repreendido com razão os abades, bispos e cardeais por lhes faltar o testemunho evangélico. Em vez disso, Francisco seguiu o caminho de Cristo. Permitiu-se a si mesmo ser incompreendido e caluniado, sabendo que Deus traria ao de cima a sua justificação... e Deus traz sempre.

Comparem São Francisco com Martinho Lutero. Lutero não visitou Roma para confirmar a sua causa, nem respeitou as estruturas da Igreja. De facto, o Cardeal Cajetan encontrou-se em privado com Lutero e explicou-lhe como podia modificar a sua mensagem de modo a que o próprio Cardeal conseguisse tê-la aprovada pela Cúria Romana. Se Lutero tivesse sido mais calmo e caridoso, podia ter-se tornado "São" Martinho Lutero.

Infelizmente, Lutero foi inflexível e obstinado. Não ia tentar o compromisso. Se o Papa não concordava com ele, então iria rejeitar o papado. Ponto. Lutero não tolerava nenhuma autoridade que não o suportasse imediatamente e sem o questionar. Consequentemente, quando a bula papal chegou, Lutero queimou-a publicamente e começou a amaldiçoar o Papa como o Anticristo.

Reparem na diferença entre Francisco e Lutero. O primeiro moveu-se com mansidão e humildade. O último agiu independentemente e de modo rude. Consequentemente, a história do Protestantismo é marcada por divisões rudes e precipitadas - existem agora 36 mil denominações protestantes.

Como escreveu o Apóstolo Tiago: "a ira do homem não produz a justiça de Deus" (Tiago 1, 20). A História mostra que Deus não usa "grandes cérebros" para guiar a Sua Igreja para a justiça. Deus escolhe aqueles que são pequenos, mansos e humildes - deles é o Reino dos Céus. Eis onde jaz o mistério da Reforma Católica.

Taylor Marshall


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domingo, 7 de fevereiro de 2021

O que nos trouxe o Protestantismo?

Face à aparente corrupção e má gestão das autoridades eclesiais e do papado, a ideia aparentemente inspirada dos primeiros “reformadores” protestantes, era simplesmente de regressar às Escrituras para encontrar orientação. No Verão de 1519 Martinho Lutero, por exemplo, tinha chegado à conclusão que só nas escrituras é que se podia encontrar a única verdadeira e inquestionável fundação da fé e vivência cristãs. Sola scriptura.

Mas quais escrituras? Devin Rose começou a sua busca com a pressuposição de que a única autoridade infalível é a Bíblia protestante, composta de sessenta e seis livros. Mas poderia ter a certeza de que os restantes sete livros – Tobit, Judite, Sabedoria, Ben Sirá, Baruc, 1 e 2 Macabeus – da Bíblia católica não são fiáveis? Fossem quais fossem as escrituras aceites, nenhuma afirma que deve ser recebida como autoridade final. Na verdade os sessenta e seis livros incluídos na Bíblia Protestante foram inicialmente considerados “canónicos” com base na autoridade da Igreja Católica – uma fonte suspeita, aos olhos dos reformadores.

Mas mesmo partindo do princípio de que a Bíblia protestante é definitiva, qual dos reformadores devemos seguir? Tal como Devin Rose, Brad Gregory deparou-se com inúmeras discussões entre os principais reformadores, precisamente na altura em que procuravam lançar as fundações da restauração do Cristianismo:

«Lutero e Melanchthon discordaram de Zwingli e dos seus aliados sobre a natureza da presença de Cristo na Ceia do Senhor... Perante o testemunho de Zwingli: “Tenho por certo que Deus me ensina, porque o experimentei”, Lutero contrapõe: “Tenham atenção a Zwingly e evitem os seus livros como se fossem o veneno infernal de Satanás...”. Muitos cristãos anti-romanos discordaram suficientemente de Lutero, Zwingly, Bucer, João Calvino e todos os outros líderes luteranos ou da reforma protestante sobre verdade de Deus ao ponto de se recusarem a prestar culto ou estar em comunhão com eles.»

Mas é preciso interpretar correctamente a Bíblia. Gregory demonstra como os princípios tradicionais de interpretação foram descartados à medida que os vários reformadores, certos da sua inspiração, deixaram de se considerar obrigados a respeitar a tradição:

«Os reformadores rejeitaram as interpretações e afirmações patrísticas sobre a Escritura, tal como rejeitaram a exegese medieval, os decretos papais, o direito canónico, os decretos conciliares e as práticas eclesiais em tudo quanto contradizia as suas próprias interpretações da Bíblia... Discordaram sobre o significado e a prioridade dos textos bíblicos e da relação entre esses textos e as doutrinas sobre os sacramentos, culto, graça, Igreja e por aí fora. Discordaram sobre os princípios interpretativas que deviam orientar a compreensão das Escrituras, como por exemplo a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, ou a permissibilidade de práticas religiosas que não tinham sido explicitamente proibidas ou sancionadas na Bíblia.»

Sem surpresas, a disseminação de diferentes interpretações por denominações protestantes ao longo dos séculos tem perturbado muitos dos nossos contemporâneos que procuram a mais plena expressão da verdade cristã. Devin Rose comenta:

«O espectro protestante cobre agora uma grande variedade de crenças contraditórias: baptismo infantil contra baptismo de crentes, a presença, de alguma forma ou apenas simbólica, de Cristo na Eucaristia, a indissolubilidade do casamento ou a aceitação do divórcio, a condenação do aborto enquanto homicídio ou a permissibilidade do aborto, a ordenação de mulheres ou só de homens, a trindade enquanto Deus em três Pessoas ou enquanto um Deus com três propósitos. 

Há diferenças sobre a predestinação e o livre arbítrio, sobre se é possível perder-se a salvação, sobre a validade do “casamento” homossexual, e por aí fora... O casamento já foi, em tempos, considerado uma união indissolúvel por todos os cristãos mas, tal como a contracepção, a esterilização e o aborto, a maioria das comunidades protestantes já inverteu os seus ensinamentos sobre a impossibilidade do divórcio e recasamento, permitindo agora aos seus membros que se casem, desde que tenham obtido primeiro do seu anterior esposo um divórcio civil.»

Perante uma disparidade tal de interpretações vem-nos à mente 1 Coríntios 14,8: “E, se a trombeta só emitir sons confusos, quem é que se prepara para a guerra?” A World Christian Encyclopedia afirma que existem mais de 33 mil denominações cristãs. A escolha difícil, enfrentada muitas vezes por protestantes sérios, é entre a Igreja e “igrejas”.

De acordo com Devin Rose, a consequência última e inevitável de se basear a religião num livro, mesmo um livro sagrado e inspirado como a Bíblia, foi uma variedade de interpretações contraditórias, sem que exista qualquer critério fiável de escolha para o crente. Rose foi coerente com a sua própria proposição, “se o Protestantismo é verdade”, e encontrou... a Igreja.

Brad Gregory vai ainda mais longe, traçando a origem da hegemonia actual do secularismo às discórdias incessantes e intratáveis entre protestantes e entre católicos e protestantes. Sem outra solução para harmonizar a dissensão, a Holanda foi pioneira na condução do mundo Ocidental à “liberdade de religião”. Os juízes holandeses:

«Romperam com mais de um milénio de Cristianismo... ao transformar a fé “numa questão privada de preferência individual”. A liberdade de  religião protegeu a sociedade da religião e, por isso, secularizou a sociedade e a religião...»

No meio desta secularização, “os cristãos americanos estão divididos em relação a todas as questões polémicas políticas e morais, do divórcio ao aborto, ao sistema de saúde e à ecologia.”

Como lidamos, então, com as “Questões de Vida” tão prementes? Gregory explica que nos voltámos para as ciências empíricas e o cientismo materialista como fonte de verdade por defeito. Depositamos a nossa confiança em ciências como a física que, depois de oitenta anos, ainda não faz a menor ideia como conciliar a teoria quântica com a teoria da relatividade; ou ciências como a psicologia evolucionária, que nos apresenta uma longa lista de comportamentos contraditórios que alegadamente têm a sua origem na evolução biológica: o Ser Humano enquanto ferozmente competitivo ou naturalmente cooperativo; essencialmente monogâmico ou polígamo; genocida ou pacífico; que cuida dos pobres ou os ignora.

Não obstante aderimos, religiosamente, à ciência como juiz supremo. Deus nos valha.

Howard Kainz in The Catholic Thing via Actualidade Religiosa


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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

10 Razões pelas quais é tão difícil tornar-se Católico

É difícil tornar-se Católico? 

Eu já falei com mais ou menos entre 50 a 100 ministros protestantes que se tornaram Católicos ou que estão a pensar entrar em comunhão plena com a Igreja Católica. A maior parte são anglicanos ou presbiterianos. Poucos luteranos.

Com o passar dos anos, fui juntando as "dez grandes" coisas que ou causam dor ou levam uma pessoa a dizer "Não obrigado", à Igreja Católica.

#10 Submissão teológica
É difícil dizer serviam ("Servirei"). A teologia já não é "o que eu penso". Requer uma submissão da mente. Ao mesmo tempo, isto é uma libertação da mente. Ainda assim, é difícil dizer a si próprio: "Eu não percebo completamente o tesouro dos méritos, mas submeto a minha razão à razão da Igreja."

#9 Sacerdotes
Os sacerdotes Católicos não são como os ministros protestantes. Em termos relativos, eles são mais distantes que o clero protestante, embora por boas razões, algumas vezes. Um protestante tem a experiência de um ministro a sorrir sempre que o vê, que decora o seu nome e geralmente a muda o seu caminho para criar uma ligação pessoal. Isto raramente acontece no Catolicismo. Eu admito isto - magoa um bocado o meu orgulho. Eu gostava de ser cumprimentado e aclamado pelo pastor depois da Missa. É de humildade fazer parte das massas na Missa.

Os ministros protestantes normalmente têm congregações mais pequenas e mais competição entre si. Assim sendo, é muito mais provável que o ministro diga, "Hey, 'bora ao Starbucks esta semana para falar sobre a tua fé."

Claro, eu conheço dúzias de sacerdotes Católicos que de facto se dão a conhecer a um nível pessoal mas, em grande parte, os sacerdotes Católicos esticam-se menos. Consequentemente, o acesso pessoal é mais raro. E, para ser honesto, fico contente por saber que os meus sacerdotes estão a ouvir confissões e a ir para o hospital a toda a hora. Estão assim a usar muito melhor o seu tempo do que quando estão a beber um café caro comigo.

#8 Liturgia
Começo a pensar que não há nada tão controverso como a liturgia da Igreja Católica. Está no centro de tudo.

Eu gosto de liturgias bonitas e exactas. Os rapazes de altar a virar-se num instante e a fazer um ângulo recto de 90 graus à volta do altar. Latim. Canto gregoriano. Genuflexões sincronizadas. Sinais da cruz bem definidos. O corporal dobrado da maneira certa (para cima e não para baixo!). Devem ter adivinhado. Eu assisto vou à Missa Tradicional.

No entanto, não é assim em todo o lado. Há algumas liturgias fantásticas e algumas liturgias não tão fantásticas. Às vezes, potenciais convertidos vão a uma liturgia não tão fantástica, com muitas rúbricas quebradas e excentricidades. É difícil para muitos deles - especialmente se vêm de uma forma de protestantismo mais litúrgica. Não sei qual a melhor maneira de responder a este problema. Tudo o que sei é que é um problema.

#7 Lidar com o matrimónio, o divórcio, a homossexualidade, a contracepção e o aborto
Algumas pessoas têm casamentos irregulares, vivem estilos de vida homossexuais ou gozam dos confortos da contracepção. É doloroso permitir que o vosso divórcio e novo casamento seja examinado pelo tribunal do Bispo. É embaraçoso falar de um "estilo de vida". Não é fácil imaginar ter uma carrinha cheia de lugares no carro ou ter que repensar a vasectomia.

Nalguns casos as pessoas têm que voltar a pensar num aborto que ocorreu décadas atrás. Este tipo de coisas cortam fundo no coração e fazem-nos sofrer. Tudo isto é compreensível e penso que estas coisas deviam ser tratadas com cuidado e compaixão. Se são potenciais convertidos, rezem e procurem um bom padre com quem possam falar em confidência.

Digo também, por experiência pessoal, que a cura de uma boa confissão é cerca de 100 vezes mais poderosa que qualquer vergonha ou medos associados com problemas passados. Penso que outros concordariam.

#6 Desconfortos financeiros
Se são clérigos então estão a preparar-se para perder a vossa grande pensão, os grandes benefícios de saúde, os fundos descricionários e o vosso salário. Eu já passei por isso e é duro. É como se não tivessem sido treinados para fazer alguma coisa que seja comerciável. Duvido que alguma pessoa vos pague para escreverem sermões para eles ou para liderar um pequeno grupo de estudo da Bíblia. Isto sem dizer que a maior parte dos ministros passam por um grande corte nos pagamentos quando se tornam Católicos. O dinheiro para sustentar a família vai-se abaixo. Normalmente começam a ter mais crianças. E, além disso, começam a pagar a educação na paróquia - mais outro tiro no bolso.

#5 Confusão vocacional
Foi difícil, no início, admitir que o meu sacerdócio anglicano era inválido. Eu não era sacerdote há muito tempo, mas ouvia confissões, ungia os moribundos, etc. O que é que eu estava a fazer? O que estava Deus a fazer? Porque é que Deus me deixava actuar sacramentalmente em pessoas que estavam profundamente afligidas? Ainda não sei como "classificar" esses actos ministeriais.

Penso que outros futuros convertidos lutam com estas mesmas ideias. Mesmo se sendo leigos, pensam sobre as suas funções passadas como professores da escola dominical, mentores, líderes de estudo da bíblia, conselheiros, etc.

#4 Ser ridicularizado e considerado estranho por não-Católicos
A família e os amigos não percebem. Mesmo quando tentam perceber, nunca vão apreciar as frustrações, os estudos e a procura de coração que está por trás do tornar-se Católico. Alguns Anglicanos ainda me chamam "Padre", o que me faz sentir desconfortável. Outros escreveram coisas terríveis sobre mim. Nunca fui tão atacado por mais nada senão isto na minha vida.

A tensão normalmente aparece com os pais e irmãos. Até já ouvi falar de convertidos cujas heranças lhes foram cortadas por se terem tornado "Romanos".

#3 Ser ridicularizados e considerado estranhos por Católicos
Isto pode parecer estranho, mas alguns Católicos desconfiam dos que se convertem ao Catolicismo. Aparecem em duas formas. Tipo A é o Católico de berço que tem tudo organizado e suspeita que o convertido seja um cripto-protestante, sem prática nos modos próprios de ser Católico. Se o novo Católico reza de improviso, então diz "Nós não fazemos assim." Se o convertido cita a Escritura para dizer alguma coisa, eles também franzem os olhos sobre isto.

Alguns Católicos também pensam que ajuda ridicularizar o meu passado como não-Católico, como se isso de alguma forma me validasse como "um deles".  Alguns Católicos simplesmente gostam imenso de ouvir convertidos a dizer mal da sua antiga fé. Isto coloca o convertido numa posição estranha.

Tipo B é o Católico de berço que está menos comprometido com as coisas próprias da fé Católica. Eles vêem os convertidos cheios de zelo como uma ameaça. Estes convertidos preocupam-se demasiado com os dogmas e a verdade. E isto leva-nos ao obstáculo número dois...

#2 Catequese para adultos 
A catequese para adultos deve ter sido inventada para que cada conversão à Igreja Católica pareça, de algum modo, milagrosa. Isto porque a Catequese para adultos é normalmente dirigida ou organizada por alguém que é um Católico "tipo B" descrito em cima. Estas pessoas não parecem perceber o quão zelosos podem ser estes convertidos. Os catequistas salientam mais a parte dos "sentimentos" do Catolicismo e não a parte da "ortodoxia" do Catolicismo, para grande desgosto dos convertidos que já tiveram demasiados apelos protestantes aos seus sentimentos.

É impressionante quantas pessoas "desistem" na catequese para adultos. E também é impressionante quantos conseguem passar. Conheço muitas pessoas que tiveram experiências de catequeses para adultos maravilhosas, mas conheço muitas mais que tiveram que defender a fé Católica enquanto faziam a catequese.

Para assegurar que não magoo ninguém, saúdo e aplaudo todos os grandes catequistas de catequese para adultos que existem por aí. Sei que andam por aí e estamo-vos agradecidos! Continuem o bom trabalho.

#1 Orgulho
Não sei como dizer isto de uma forma espirituosa, mas o orgulho tem o primeiro lugar. Num certo ponto da vida, senti que era demasiado bom para todas aquelas pessoas que respeitavam o Menino Jesus de Praga. Tenho vergonha de o admitir, mas aí está. Porquê aderir a uma religião onde as pessoas pintam imagens de Nossa Senhora de Guadalupe nos capôs dos seus lowriders [carro típico americano]? (Eu cresci no Texas...) Um cavalheiro protestante uma vez disse-me que não podia ser Católico porque era "uma religião das massas". Eu perguntei-lhe o que é que ele queria dizer com isso e o termo "Mexicanos" estava implícito na sua resposta.

Estar contra a religião das massas e imigrantes é ser snob.

Simplesmente é mais giro ir a uma mega-igreja evangélica que tenha uma piscina, um campo de basket, apresentações powerpoint e uma fantástica "equipa de louvor". Às vezes gostava que as nossas homilias tivessem  boas referências culturais ou finais de cortar a respiração. No entanto, isto não é o mais comum na homilia de paróquias. 

Taylor Marshall


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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

50 ideias de Lutero contrárias à doutrina da Igreja

Há 499 anos, a 3 de Janeiro de 1521, o Papa Leão X excomungava Martinho Lutero, frade agostiniano. Aqui ficam 50 provas que Lutero foi herético, heterodoxo, cismático e defendeu ideias claramente contrárias à Igreja Católica:

1. Separação entre justificação e santificação.
2. Noção imputada, extrínseca e forense de justificação.
3. Fé fiduciária.
4. Julgamento particular contrário à infalibilidade da Igreja.
5. Rejeição de sete livros da Bíblia.
6. Negação do pecado venial.
7. Negação do mérito.
8. Afirmação de que o réprobo deveria ficar feliz por ter sido condenado e aceitar a vontade de Deus.
9. Afirmação de que Jesus ofereceu-se à condenação e possivelmente ao fogo do inferno.
10. Afirmação de nenhuma boa obra pode ser feita, excepto por um homem justificado.

11. Todos os homens baptizados são sacerdotes (=negação do sacramento da ordenação).
12. Todos os homens baptizados podem conceder a absolvição.
13. Os Bispos não possuem realmente esse múnus; Deus não o instituiu.
14. Os Papas não possuem esse múnus; Deus não o instituiu.
15. Os sacerdotes não têm qualquer caráter especial ou indelével.
16. As autoridades temporais gozam de poder sobre a Igreja, até mesmo sobre bispos e papas; a afirmação contrária é mera invenção presunçosa.
17. Os votos de celibato são um erro e deveriam ser abolidos.
18. Negação da infalibilidade do papa.
19. Crença de que sacerdotes e Papas injustos perdem a sua autoridade (contrário ao ensino de Santo Agostinho em disputa com os Donatistas).
20. As chaves do Reino não foram conferidas apenas a Pedro.

21. Cada pessoa pode julgar particularmente para determinar os artigos de fé.
22. Negação de que o papa tem o direito de convocar ou confirmar um Concílio.
23. Negação de que a Igreja tem o direito de exigir o celibato de certas vocações.
24. Não existe a vocação de monge; Deus não o instituiu.
25. Os dias festivos deveriam ser abolidos e todas as celebrações da Igreja deveriam se restringir aos domingos.
26. Os jejuns deveriam ser estritamente opcionais.
27. A canonização de santos é rigorosamente corrupta e não deve continuar.
28. A Confirmação não é um sacramento.
29. As indulgências deveriam ser abolidas.
30. As dispensas deveriam ser abolidas.

31. A Filosofia (Aristóteles principalmente) é repugnante, com influência negativa sobre o Cristianismo.
32. A transubstanciação é “uma ideia monstruosa”.
33. Cristo não instituiu sete sacramentos.
34. Negação da “maldita” crença de que a Missa é uma boa obra.
35. Negação da “maldita” crença de que a Missa é verdadeiro sacrifício.
36. Negação da noção sacramental de “ex opere operato”.
27. Negação de que a Penitência é um sacramento.
38. Afirmação de que a Igreja Católica “aboliu completamente” até mesmo a prática da penitência.
39. Afirmação de que a Igreja aboliu a fé como um aspecto da penitência.
40. Negação da sucessão apostólica.

41. Qualquer leigo poderia convocar um Concílio Geral (Ecuménico).
42. As obras penitenciais são inúteis.
43. Nada daquilo que os católicos crêem ser os sete sacramentos tem prova bíblica.
44. O Matrimónio não é um sacramento.
45. Nulidades [matrimoniais] são um conceito sem sentido e a Igreja não tem o direito de determinar ou afirmar nulidades.
46. Há uma questão em aberto: se o divórcio é permitido ou não.
47. Pessoas divorciadas podem voltar a casar-se.
48. Jesus permitiu o divórcio quando um dos cônjuges cometeu adultério.
49. O ofício diário do sacerdote é “vã repetição”.
50. A extrema-unção não é um sacramento (logo, só existem dois sacramentos: o Baptismo e a Eucaristia).

Dave Armstrong in Patheos


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domingo, 13 de outubro de 2019

"Estar por dentro da História é deixar de ser Protestante" - Cardeal Newman

O Cardeal John Henry Newman foi um teólogo notável que se converteu do Anglicanismo ao Catolicismo em 1845. Foi nomeado Cardeal pelo Papa Leão XIII em 1879. Foi beatificado pelo Papa Bento XVI no dia 19 de Setembro de 2010. Foi canonizado pelo Papa Francisco no dia 13 de Outubro de 2019.


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domingo, 22 de abril de 2018

Fim do “Catolicismo romano”?

Este artigo, assim mesmo intitulado pelo próprio Autor e do qual apresento abaixo a tradução em português, apareceu no blog Settimo Cielo, no dia 13 de Abril passado, sob um outro provocador título dado por Sandro Magister: La riforma di Bergoglio l'ha già scritta Martin Lutero / A reforma de Bergoglio já a escreveu Martinho Lutero [1].

O Autor é Roberto Pertici: tem sessenta e seis anos de idade e é actualmente professor de história contemporânea na Universidade de Bergamo [2]. Um académico exactamente da minha idade; o que, pela contemporaneidade da vida, me ajudou à melhor compreensão deste ensaio.

Este, é de facto notável e algo invulgar pela «agudeza e amplitude de horizonte da análise», como diz Magister, e pela lógica do raciocínio que conjuga os factos examinados, relevando a sua unitária coerência com um “projecto” ou “operação”.

Para quem partilhe de uma visão conservadora ou tradicional da Igreja, parece-me obviamente muito perturbador.... mas há que ter presente que a Fé católica e apostólica não se conjuga jamais com qualquer espécie de desespero!

As notas assinaladas entre […], são todas da minha autoria.

22 de Abril de 2018

João Duarte Bleck, médico e leigo Católico 
***
1. Neste momento do pontificado de Francisco, creio que se possa razoavelmente sustentar que este marca o ocaso dessa imponente realidade histórica definível como “catolicismo romano”.

Isto não significa, bem entendido, que a Igreja Católica esteja no fim, mas que está a chegar ao fim o modo como historicamente se estruturou e se apresentou a si mesma nos últimos séculos.

De facto, parece-me evidente que é este o projecto conscientemente seguido pelo “brain trust” que rodeia Francisco: um projecto que se pretende quer uma resposta extrema / radical à crise das relações entre a Igreja e o mundo moderno, quer como premissa para um renovado percurso ecuménico, comum às outras confissões cristãs, especialmente aquelas Protestantes.

2. Por “catolicismo romano” entendo aquela grande construção histórica, teológica e jurídica que se iniciou com a helenização (para o aspecto filosófico) e com a romanização (para o aspecto político-jurídico) do cristianismo primitivo e que se baseia sobre o primado dos sucessores de Pedro; tal como ela emerge da crise do mundo tardo-antigo e da sistematização teórica da idade gregoriana (“Dictatus Papae”) [3].

Nos séculos sucessivos, a Igreja, do mesmo modo, dotou-se de um Direito interno próprio, o Direito canónico, olhando para o Direito romano como modelo. E este elemento jurídico contribuiu para gradualmente plasmar uma complexa organização hierárquica, com precisas normas internas que regulam a vida, seja da “burocracia dos celibatários” (a expressão é de Carl Schmitt [1888-1985]) que a gere, seja dos leigos que dela fazem parte.

O outro momento decisivo da formação do “catolicismo romano” é, finalmente, a eclesiologia elaborada no Concílio de Trento [1545-1563], que reafirmou a centralidade da mediação eclesiástica em vista da salvação, em contraste com a tese luterana do “sacerdócio universal”, e que assim fixa o carácter hierárquico, unitário e centralizado da Igreja; o seu direito de controlar e, caso ocorra, condenar as posições que contrastem com a formulação ortodoxa das verdades de fé; o seu papel na administração dos sacramentos.

Esta eclesiologia foi selada no dogma da infalibilidade pontifícia proclamado no Concílio Vaticano I [1869-1870], colocado à prova oitenta anos depois, na afirmação dogmática da Assunção de Maria ao Céu (1950), a qual, juntamente com a precedente proclamação dogmática da sua Imaculada Conceição (1854), reafirma a centralidade do culto mariano.

Seria, todavia, redutor se nos limitássemos a quanto dissemos até agora. Porque existe, ou melhor existia, também um difuso “sentir católico”, assim constituído:

- uma atitude cultural que se baseia sobre um realismo, a propósito da natureza humana, por vezes desencantado, mas disposto a “tudo compreender” como premissa do “tudo perdoar”;
- uma espiritualidade não-ascética, compreensiva de certos aspectos materiais da vida e não disposta a desprezá-los;
- empenhado numa caridade quotidiana para com os humildes e os necessitados, sem precisar de os idealizar ou deles fazer quase um ídolo;
- disposto a representar-se também na própria sumptuosidade, portanto não surdo à razão de ser da beleza e das artes, enquanto testemunhos de uma Beleza suprema à qual o cristão deve tender;
- indagador subtil das moções mais recônditas do coração, da luta interior entre o bem e o mal, da dialéctica entre “tentação” e a resposta da consciência.

Poder-se-ia então dizer que naquilo a que chamo de “catolicismo romano” entrelaçam-se três aspectos, além, obviamente, do religioso: o estético, o jurídico e o político. Trata-se de uma visão racional do mundo que penetra numa instituição visível e compacta e que entra fatalmente em conflito com a ideia de representação que emergiu com a modernidade, baseada no individualismo e numa concepção do poder que, vinda de baixo, acaba por colocar em discussão o princípio da autoridade.

3. Este conflito foi considerado de diversos modos, muitas vezes opostos, por aqueles que o analisaram. Carl Schmitt olhava com admiração para a “resistência” do “catolicismo romano”, considerado como a última força com capacidade de conter as aniquiladoras forças da modernidade. Outros criticaram-no duramente: nesta luta, a Igreja católica teria desastrosamente enfatizado os seus traços jurídico-hierárquicos, autoritários, exteriores.

Para além destas opiniões opostas, certo é que nos últimos séculos o “catolicismo romano” foi constrangido a uma postura defensiva. A colocar progressivamente em discussão a sua presença social, esteve sobretudo o nascimento da sociedade industrial e o consequente processo de modernização, que inaugurou uma serie de mudanças antropológicas ainda agora em curso. Quase como se o “catolicismo romano” fosse “orgânico” (para dizê-lo numa expressão vétero-marxista) a uma sociedade agrária, hierárquica, estática, baseada na penúria e sobre o medo e não encontrasse relevância numa sociedade “afluente”, dinâmica, caracterizada pela mobilidade social.

Uma primeira resposta a esta situação de crise, foi dada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965), o qual, nas intenções do Papa João XXIII [papa de 1958 a 1963] que o tinha convocado [em Janeiro de 1959], devia proceder a um “aggiornamento pastorale”, olhar com novo optimismo para o mundo moderno, em suma baixar finalmente a guarda: não se tratava mais de prosseguir um duelo secular, mas de abrir um diálogo e operar um encontro.

O mundo era percorrido naqueles anos por mudanças extraordinárias e por um inédito desenvolvimento económico: provavelmente a mais sensacional, rápida e profunda revolução da condição humana de que há vestígios na história (Eric J. Hobsbawm [1917-2012]). O evento Concílio contribuiu para esta mudança, mas foi, por sua vez, tomado por ela: o ritmo dos “aggiornamenti” – também favorecido pela vertiginosa transformação ambiental/cultural e pela convicção geral cantada [em 1964] por Bob Dylan, de que “the times they are a-changin’” – foge da mão da hierarquia, ou, pelo menos daquela sua parte que desejava operar uma reforma e não uma revolução.

Assim, entre 1967 e 1968 assiste-se à “viragem” de Paulo VI [papa de 1963 a 1978] a qual se expressa na análise preocupada das turbulências de 68 e, depois da “revolução sexual”, na encíclica “Humanae vitae” de Julho de 1968. Tanto era o pessimismo a que chegava aquele grande Pontífice nos anos 70, que, conversando com o filósofo Jean Guitton [1901-1999], se interrogava e lhe perguntava, ecoando um passo inquietante do evangelho de Lucas: “[Mas] quando o Filho do Homem regressar, encontrará ainda a fé, sobre a terra?” [Lc 18,8]. E acrescentava: “O que me magoa, quando observo o mundo católico, é que no interior do catolicismo parece às vezes predominar um pensamento de tipo não-católico e pode acontecer que este pensamento de tipo não-católico se torne amanhã o mais forte no interior do catolicismo” [4].

4. Sabe-se qual foi a resposta dos sucessores de Paulo VI a esta situação: conjugar mudança e continuidade; realizar – sobre algumas questões – as correcções oportunas (memorável, deste ponto de vista, a condenação da “teologia da libertação”); procurar um diálogo com a modernidade que fosse ao mesmo tempo um desafio: sobre temas da vida, da racionalidade do homem, da liberdade religiosa.

Bento XVI [papa de 2005 a 2013] naquele que foi o verdadeiro texto programático do seu pontificado (o discurso à Cúria romana de 22 de Dezembro de 2005 [5]), reiterou então um princípio firme: que as grandes orientações do Vaticano II deviam ser lidas e interpretadas à luz da tradição precedente da Igreja, portanto também à luz da eclesiologia saída do Concílio de Trento e do Vaticano I. Até mesmo pela simples razão de que não se pode realizar uma negação formal da fé acreditada e vivida desde há gerações e gerações, sem introduzir um “vulnus” [6] irreparável na auto-representação e na percepção pública de uma instituição como a Igreja.

Sabe-se também como esta linha causou uma rejeição generalizada, não apenas “extra ecclesiam”, onde se manifestou através de uma agressão mediática e intelectual contra o Papa Bento absolutamente inédita, mas – com este modo nicodemitico [7] e de murmúrio congénito no mundo eclesial – também no corpo eclesiástico, o qual, substancialmente, deixou sozinho aquele Papa nos momentos mais críticos do seu pontificado. Daqui, creio, a sua renúncia de Fevereiro de 2013, a qual – para além de reconfortantes interpretações – aparece como um evento histórico, do qual as razões e as implicações de longo-prazo permanecem ainda todas por aprofundar.

5. Foi esta a situação herdada pelo Papa Francisco [papa desde 13 de Março de 2013]. Limito-me apenas a mencionar os aspectos biográficos e culturais que tornavam “ab initio” Jorge Mário Bergoglio em parte estranho àquilo que designei de “cattolicesimo romano”:

- o carácter periférico da sua formação, profundamente radicada no mundo latino-americano, que lhe dificulta encarnar a universalidade da Igreja ou, pelo menos, o impele para vivê-la de um modo novo, deixando de lado a civilização europeia e a norte-americana;
- a pertença a uma Ordem, como a Companhia de Jesus, que no último meio século realizou um dos mais clamorosos reposicionamento político-cultural de que se tem notícia na história recente, passando de uma posição “reaccionária” a uma “revolucionária” com variações, dando assim prova de um pragmatismo por muitos aspectos digno de reflexão;
- a estranheza ao elemento estético que é próprio do “cattolicesimo romano”, a sua ostensiva renúncia a toda a representação da dignidade do cargo (os aposentos no Palácio Apostólico, a mozeta vermelha [8] e o costumeiro aparato pontifício, os automóveis de representação, a residência [de Verão] de Castel Gandolfo) e aqueles a que chama “hábitos de príncipe Renascentista” (a começar pelo atraso e depois ausência num concerto de música clássica em sua honra, nos inícios do pontificado).

Prefiro tentar sublinhar o que me parece poder constituir o elemento unificante das múltiplas mudanças que o Papa Francisco está introduzindo na tradição católica.

Faço-o baseando-me num pequeno livro de um eminente homem de Igreja, que vem geralmente considerado como o teólogo de referência do actual pontificado, citado eloquentemente por Francisco logo no seu primeiro Angelus, de 17 de Março de 2013, quando disse: “Nestes dias, pude ler o livro de um Cardeal – o Cardeal Kasper, um teólogo estupendo, um bom teólogo – sobre a misericórdia. Aquele livro fez-me muito bem. (Não julgueis que estou a fazer publicidade dos livros dos meus Cardeais, porque não é isso…!) É que [o livro] me fez mesmo bem, muito bem...” [9].

O livro de Walter Kasper a que me refiro tem por título: “Martinho Lutero. Uma perspectiva ecuménica” [10] e é a versão reelaborada e ampliada de uma conferência feita pelo Cardeal no dia 18 de Janeiro de 2016, em Berlim. O capítulo sobre o qual quero chamar a atenção é o sexto: “Actualidade ecuménica de Martinho Lutero”.

Todo o capítulo é construído sobre uma argumentação binária, segundo a qual Lutero foi induzido a aprofundar a rotura com Roma principalmente devido à recusa do Papa e dos bispos de proceder a uma reforma. Foi apenas perante a surdez de Roma – escreve Kasper – que o reformador alemão “com base na sua compreensão do sacerdócio universal, se viu obrigado a contentar-se com uma organização [ou sistema] de emergência. Ele, porém, continuou a confiar no facto de que a verdade do Evangelho se imporia por si só e assim deixou a porta fundamental aberta para um possível futuro entendimento”.

Mas também da parte católica, nos inícios do século XVI, muitas portas permaneciam abertas; a situação era, por assim dizer, fluida. Escreve Kasper: “não havia uma eclesiologia católica harmonicamente estruturada, mas unicamente aproximações, que eram mais uma doutrina sobre a hierarquia do que uma verdadeira e própria eclesiologia. A elaboração sistemática da eclesiologia terá lugar somente na teologia da contra-Reforma como antítese à polémica da Reforma contra o papado. O papado torna-se assim, de uma maneira até então desconhecida, o sinal distintivo do catolicismo. As respectivas teses e antíteses confessionais condicionaram-se e bloquearam-se mutuamente”.

Portanto, hoje é preciso – se considerarmos o sentido global da argumentação de Kasper – proceder a uma “desconfessionalização” seja das Confissões reformadas, seja da Igreja Católica, não obstante esta jamais se tenha sentido uma “Confissão”, mas sim como a Igreja universal. É preciso regressar a qualquer coisa de semelhante à situação que precedeu o eclodir dos conflitos religiosos do século XVI.

Enquanto que no campo luterano esta “desconfessionalização” esteja, hoje, já amplamente cumprida (com a secularização forçosa daquelas sociedades, para as quais os problemas que estavam na base das controvérsias confessionais se tornaram irrelevantes para a esmagadora maioria dos cristãos “reformados”), no campo católico, ao invés, há ainda muito por realizar, precisamente por causa da supervivência [ou permanência] de aspectos e estruturas daquilo a que chamei o “catolicismo romano”. É, portanto, sobretudo ao mundo católico que é dirigido o convite à “desconfessionalização”. Kasper invoca-a como “uma redescoberta da catolicidade originária, não limitada por um ponto de vista confessional”.

Para tal finalidade, é assim necessário levar a bom termo, uma vez por todas, a superação da eclesiologia tridentina e a do Vaticano I. Segundo Kasper o Concílio Vaticano II abriu a estrada, mas a sua recepção foi controversa e nada linear. Daqui o papel do actual Pontífice: “o Papa Francisco inaugurou uma nova fase no referido processo de recepção. Ele sublinha a eclesiologia do povo de Deus, o povo de Deus em caminho, o sentido da fé do povo de Deus, a estrutura sinodal da Igreja, e para a compreensão da unidade coloca em jogo uma abordagem nova, interessante. Descreve a unidade ecuménica não mais com a imagem de círculos concêntricos ao redor do centro, mas com a imagem do poliedro, ou seja, de uma realidade com muitas faces, não um puzzle unificado do exterior, mas um todo e, tal como uma pedra preciosa, um todo que reflecte a luz que a atinge de modo maravilhosamente múltiplo. Referindo-se a Oscar Cullman [1902-1999] [11], o Papa Francisco retoma o conceito da diversidade reconciliada”.

6. Se relermos brevemente a esta luz as atitudes de Francisco que suscitaram mais celeuma, compreendemos melhor a sua lógica comum:

- o acentuar, desde o dia da eleição, da sua função de bispo de Roma, mais que de Pontífice da Igreja universal;
- a destruturação da figura canónica do Pontífice Romano (o celebérrimo “quem sou eu para julgar?”), a base da qual - no seu âmago - não se explica apenas por motivos da seu temperamento a que se aludiu primeiramente, mas por um motivo mais profundo, de carácter teológico;
- o enfraquecimento prático de alguns sacramentos, entre os mais característicos do “sentir católico” (a confissão auricular, o matrimónio indissolúvel, a eucaristia), realizado por razões pastorais de “misericórdia” e “acolhimento”;
- a exaltação da “parrésia” [12] dentro da Igreja, da confusão presumivelmente criativa, à qual se liga uma visão da Igreja quase como uma federação de Igrejas locais, dotadas de amplos poderes disciplinares, litúrgicos e até doutrinais.

Há quem se escandalize pelo facto de que na Polónia acabará por vigorar uma interpretação da [Exortação Apostólica] “Amoris Laetitia” diversa da que se fará na Alemanha ou na Argentina, relativamente à comunhão dos divorciados recasados. Mas Francisco podia responder que se trata de facetas diversas daquele poliedro que é a Igreja Católica, ao qual se poderia juntar, tarde ou cedo – porque não? – também as Igrejas reformadas pós-luteranas, num espírito justamente de “diversidade reconciliada”.

Por este caminho, é fácil de prever que os próximos passos serão uma nova concepção da catequese e da liturgia, num sentido ecuménico, também aqui com o caminho a percorrer pela parte católica muito mais exigente que o da parte protestante, considerando os diversos pontos de partida, bem como um enfraquecimento do sacramento da Ordem nos seus aspectos mais “católicos”, isto é, no celibato eclesiástico, com o que a hierarquia católica cessará também de ser a “burocracia dos celibatários”, da expressão de Carl Schmitt.

Compreende-se então melhor, a verdadeira e própria exaltação da figura e da obra de Lutero que se produziu nos vértices da Igreja Católica por ocasião do quinto centenário de 1517, até ao discutido selo comemorativo que lhe foi dedicado pelos correios do Vaticano, com ele e Melanchthon [1497-1560] aos pés de Jesus crucificado.

Pessoalmente não tenho dúvidas que Lutero seja um dos gigantes da “história universal”, como antes se gostava de dizer, mas «est modus in rebus» [13]: sobretudo as instituições devem ter uma espécie de moderação ao realizarem viragens desta dimensão, sob pena de cair no ridículo: o mesmo ridículo que o século vinte nos infligiu, quando os comunistas reabilitavam em uníssono e de volta ao poder os “heréticos” condenados e encarniçadamente combatidos até à véspera: a “contra-ordem, camaradas!” dos [famosos] cartoons de Giovannino Guareschi [1908-1968] [14].

7. Se, portanto, ontem o “catolicismo romano” era considerado como um corpo estranho da modernidade, estranheza que não lhe era perdoada, é natural que o seu ocaso [ou declínio] seja hoje saudado com alegria pelo “mundo moderno” nas suas instituições políticas, mediáticas e culturais e que o Pontífice actual seja visto como aquele que cura aquela ruptura entre os vértices eclesiásticos e o mundo da informação, das organizações e dos “think tank” internacionais, ruptura essa que – aberta em 1968 com a [Encíclica] “Humanae Vitae” – se aprofundou nos pontificados seguintes.

E é também natural que grupos e ambientes eclesiásticos que já nos anos sessenta auspiciavam a ultrapassagem da Igreja tridentina e que, nesta perspectiva, leram o Vaticano II, depois de terem vivido na sombra estes últimos quarenta anos, tenham hoje saído à luz do dia e se reencontrem, com os seus herdeiros leigos e eclesiásticos, entre os que constituem aquele “brain trust” que referi no início [cf. terceiro parágrafo do nº 1].

No entanto permanecem em aberto algumas questões que mereceriam ulteriores e não-fáceis reflexões.

A operação levada avante pelo Papa Francisco e pela sua “entourage” conhecerá um sucesso duradouro ou acabará por encontrar resistências, no interior da hierarquia e do que resta do povo católico, maiores do que aquelas, definitivamente marginais, que já emergiram no seio da hierarquia?

A que tipo de nova realidade “católica” na sociedade ocidental, dará vida a referida operação?

E em termos mais gerais: que consequências essa operação poderá ter sobre o património cultural global, político e religioso do mundo ocidental, o qual, embora tenha atingido um nível de secularização generalizado, repousa em parte sobre o “catolicismo romano”?

Mas é preferível que os historiadores não façam profecias e se contentem por compreenderem qualquer coisa, se conseguirem, dos processos em curso.
  
Notas do tradutor:

1. Pode ler-se em italiano, inglês, espanhol e francês, em:

2. Para saber quem é, pode ler-se, por exemplo:

3. Ver em:

4. Da última conversa que o referido filósofo francês teve com Paulo VI, dia 8 de Setembro de 1977. Cf. J. Guitton, Paolo VI segreto, 1977.

5. Pode ler-se em:

6. Vulnus: ferida, ofensa.

7. Nicodemitico, no original italiano: em referência a Nicodemos, o fariseu membro do Sinédrio que se aproximava de Jesus, pela noite. Cf.: Jo 3,1-21; Jo 7,50-52; e Jo 19,39.

8. «Capa curta e com pequeno capuz, aberta ou abotoada à frente, usada, durante o Inverno, nos ofícios de coro, sobre a sotaina ou, eventualmente sobre a sobrepeliz ou o roquete, por determinados clérigos (Papa, cardeais, bispos, abades, cónegos) como sinal de jurisdição» (Thesaurus, vocabulário de objectos do culto católico, edição da Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, 2004, entrada nº 860, p. 174).

9. A alocução do Papa Francisco neste Angelus, pode ler-se em:

10. Para saber mais sobre o desenvolvido deste tema pelo Cardeal Walter Kasper, pode ler-se, em português do Brasil, a seguinte transcrição, em:
ou, melhor ainda, o artigo subscrito pelo próprio Cardeal Kasper, sob o título Una prospettiva ecuménica. Sguardo su Lutero alla vigilia del quinto centenario della Riforma, publicado no L’Osservatore Romano, dia 18 de Maio de 2016, em:

11. Sobre este teólogo luterano, pode ler-se em:

12. Parrésia: liberdade oratória; afirmação corajosa; liberdade de linguagem, franqueza; confissão, espécie de confissão (Cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

13. Est modus in rebus: há um limite nas coisas. Frase com que Horácio aconselha a moderação em tudo.

14. O célebre criador da figura de Don Camillo; ver em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Giovannino_Guareschi


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