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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Obi-Wan Kenobi e o Aborto

Em 1914, Agnes Cuff, uma mulher instável e errática, com poucas perspectivas e pouco dinheiro, ficou grávida. O pai não se quis envolver. Ela estava sozinha, envergonhada, pobre e à espera de bebé. Nos dias de hoje ela seria encorajada a ir a uma clínica abortiva e terminar a gravidez indesejada. Em vez disso nasceu um rapaz.

O actor inglês Alec Guiness, famoso pelo seu papel de Obi-Wan Kenobi em Star Wars foi o único filho de Anges Cuff. No seu certificado de nascimento o seu nome é "Alec Guiness" mas são apenas os primeiros nomes. O espaço para o apelido está em branco, assim como o espaço para o nome do pai.

Nunca se confirmou quem foi o pai de Guiness. Alguns especularam que ele seria membro de uma família Guiness Anglo-Irlandesa. O próprio Alec Guiness pensou que o seu pai teria sido um banqueiro chamado Andrew Geddes.

Alec Guiness converteu-se à fé Católica em 1956 e foi um Católico fiel até ao fim da sua vida. A sua bela história de conversão é contada na autobiografia Blessings in Disguise. Ele fazia de Father Brown - o famoso personagem criado por G.K. Chesterton - e estava a filmar em França. No caminho de casa para o local das filmagens, já vestido de sacerdote, um jovem rapaz correu até ele e agarrou-lhe a mão, conversando animadamente cheio de alegria e despedindo-se com uma querida frase "Au revoir, mon père!". Tocado por esta exibição de confiança infantil, e estupefacto por uma resposta à oração, Alec Guiness encontrou a sua casa em Roma.

Se o aborto fosse fácil e legal em Inglaterra em 1914, o mundo nunca teria experimentado a arte graciosa, esperta e subtil e a testemunha quieta e calma de Alec Guiness... e o Star Wars teria sido um enorme vazio.

Tendo em conta que meio milhão de pessoas jovens se juntaram em Washington DC para a Marcha pela Vida deste ano, devíamos lembrar a grande perda que são para a nossa nação e para o mundo todos os homicídios dos não-nascidos.

Nunca saberemos que outros grandes talentos teriam vivido. Que outros Alec Guinesses haveria? Que avanços na ciência, medicina, tecnologia, negócios, nas artes e desporto teriam havido?

A Marcha pela Vida foi um acontecimento de alegria que celebra a vida, mas também há um aspecto melancólico na Marcha. Pode ser uma Marcha pela Vida, mas também foi uma Marcha de mágoa.

Fr. Dwight Longenecker in patheos.com


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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Santa Sé promove a Netflix e "Os dois Papas"

Nos últimos dias os fiéis católicos foram surpreendidos com um cartaz inesperado na Via della Conciliazione, a rua que vai até à Basílica de São Pedro, no Vaticano. Trata-se de um cartaz que faz publicidade a uma produção recente da Netflix: Os dois Papas.

Este filme diz basear-se em factos verídicos e, como seria de esperar, fala do Papa Bento XVI e do Papa Francisco. Mas ao abrigo desses supostos relatos verídicos defende teses completamente absurdas, por exemplo: 

No Conclave depois da morte do Papa João Paulo II vê-se o Cardeal Ratzinger a percorrer os Cardeais mendigando os votos para ser eleito Papa, quando sabemos que ele queria tudo menos ser escolhido. Além disso, no enredo, o Papa Bento cobriu os graves pecados e crimes do fundador dos Legionários de Cristo, Padre Marcial Maciel, quando se sabe que o Papa foi das pessoas mais desconfiadas em relação a essa pessoa e que mais alertou o Papa João Paulo II para a gravidade e credibilidade das acusações contra esse sacerdote.

Além destas deformações da história, o filme apresenta outras cenas perfeitamente lamentáveis que não vale a pena aqui descrever. 

O prédio onde se encontra o cartaz pertence à Propaganda Fidei, um dicastério da Cúria Romana que se dedica à evangelização dos povos. As perguntas que surgem são:

- Será que não lhes pareceu falta de bom-senso ter um cartaz gigante ao lado da Basílica de São Pedro a publicitar um filme chamado: Dois Papa?
- A Igreja pode recomendar que este filme seja visto pelos fiéis, ou seja por quem for, sabendo dos graves erros que contém?
- O dinheiro suplantou a moral na Igreja Católica?

Para mais, o filme foi produzido pela Netflix, que recentemente produziu um filme blasfemo e extremamente ofensivo para Nosso Senhor, que morreu na Cruz para salvar toda a Humanidade, incluindo quem trabalha na Netflix e na "Porta dos Fundos". A petição para que esse filme seja retirado pode ser assinado aqui: Especial de Natal porta dos fundos

Milhares de católicos já boicotaram a Netflix e fazem campanha abertamente contra essa empresa. E o que faz a Santa Sé no meio disto tudo? Promove a Netflix num edifício extra-territorial, às portas do Vaticano. Tenham a santa paciência!

João Silveira


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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Um Papa em Veneza

O actor John Malkovich percorre as ruas de Veneza vestido de Papa, durante as gravações da nova série "The New Pope".


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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Trailer do novo filme com Jim Caviezel: Paulo, Apóstolo de Cristo

No próximo dia 28 de Março estreia um novo filme que promete ser um sucesso de bilheteiras: Paulo, Apóstolo de Cristo. O papel de São Lucas vai ser interpretado por Jim Caviezel que fez de Jesus Cristo na Paixão de Cristo, de Mel Gibson.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Alguém reparou nestes pormenores do filme 'Silêncio'?

Apresento aqui alguns pequenos e grandes pormenores que me chamaram a atenção no último filme de Martin Scorsese: Silêncio. O filme baseia-se no romance ‘Chinmoku’, do autor japonês Shusaku Endō, por isso nem todos os méritos ou deméritos podem ser associados a Scorsese. Seja como for, para simplificar as coisas, vou escrever como se todas as ideias tivessem sido suas.

Tema

É um filme bastante ‘pesado’, durante o qual somos confrontados com um dilema moral que nos deixa exaustos. É bom pôr-se problemas morais. É bom pensar entre o que é certo e o que é errado porque todos os dias somos obrigados a tomar decisões e muitas vezes deparamo-nos com a indecisão entre fazer o bem, que normalmente custa mais, ou o mal, que normalmente é o caminho mais fácil…pelo menos assim parece.

Qualidade técnica


A qualidade técnica é excelente. Estamos (mal) habituados a que muitos dos filmes que retratam estes assuntos relacionados com o cristianismo sejam produções low-budget, com má imagem, mau som e até maus actores. Felizmente não é o caso.

Martírio


O filme começa com uma cena bastante dura sobre o martírio dos cristãos no Japão. Este relato é histórico e muito próximo do que realmente aconteceu durante a perseguição aos cristão. Um bom exemplo é o testemunho de São Paulo Miki e seus companheiros. Ver aqui e aqui.

Fé dos pequeninos

Os sacerdotes, enquanto representantes da Igreja, dispensadores dos sacramentos e responsáveis pela pregação foram os primeiros a ser perseguidos pelas autoridades japonesas. O povo deu por si a ter de esconder a sua fé e, além disso, sem sacerdotes que os ouvissem em confissão e celebrassem a Santa Missa. Quando aqueles dois jovens jesuítas chegam àquela população a alegria daquela gente é contagiante…e comovente. Passaram muito tempo apenas com o sacramento do baptismo, que em caso de necessidade pode ser administrado por um leigo, mas os outros sacramentos não.

É uma verdadeira bofetada de luva branca a cena em que os dois sacerdotes começam avidamente a comer e, passados uns segundos, ouvem-se os aldeões, de mãos postas, a pedir a bênção dos alimentos. Ainda para mais em latim, exactamente como se fazia na Europa de onde eles tinham acabado de chegar. Provenientes da Europa cristã, e ainda para mais sendo sacerdotes, deveriam ser estes os primeiros a rezar, ensinando o povo. Mas a resistência à perseguição e a confiança em Deus tinha tornado a fé daquelas pessoas o aspecto mais importante da sua existência, de tal modo que viviam na Terra mas com os olhos postos no Paraíso. 

Um bom exemplo disto é a morte do último dos 3 fiéis crucificados, que usa as poucas forças que lhe restam para cantar o 'Tantum ergo', um hino eucarístico em latim, escrito por S. Tomás de Aquino, que é usado durante a Adoração ao Santíssimo Sacramento desde o séc. XIII. 

Santa Missa

Um dos momentos mais fortes do filme é o princípio da Missa. Podemos apenas imaginar o quanto aquelas pessoas tinham ansiado pela Missa; depois de todos aqueles anos sem o Santo Sacrifício do Altar, e sem poderem comungar o Corpo de Cristo. Desta vez a lição é para todos nós que temos a Missa a qualquer hora que nos seja mais cómoda e não pomos lá os pés. Outras vezes pomos os pés mas não o coração.

A Missa foi celebrada no Rito Antigo, correspondente ao rito romano desde os primeiros séculos da era cristã até ao Missa do Papa Paulo VI, em 1970. Neste momento existem esses dois modos de celebrar, sendo que o Rito Antigo é por vezes chamado de Forma Extraordinária ou (erradamente) Missa Tridentina. Os missionários, muitos deles portugueses, levaram para o Mundo Novo o seu próprio rito, que era o romano. É interessante que hoje em dia, nas poucas igrejas em Portugal onde existe o Rito Antigo, a Missa seja igualzinha, sem tirar nem pôr, àquela Missa que se passou há 400 anos, do outro lado do mundo. 

No início da Missa o povo está todo de joelhos. Um padre celebra e outro serve (antes de 1970 não existia a concelebração). A Missa, que é em latim (antes de 1970 não existia a Missa em vernáculo), começa com o salmo 42, no qual o sacerdote pede ajuda a Deus pelo enorme acto que está para cumprir. O ajudante à Missa, que neste caso era o outro sacerdote, responde também com o mesmo salmo. Essa intercalação está muito bem conseguida no filme. Scorsese fez bem o trabalho de casa, neste caso.

Confissão

Quando chegam até àquelas pessoas sedentas de Cristo, os dois padres passam noites inteiras a confessar. A emoção dos penitentes é uma boa imagem da necessidade e da beleza deste sacramento, ao qual chegamos culpados e saímos inocentes, graças à morte de Jesus na Cruz. Mas o maior protagonista da confissão chama-se Kichijiro e mostra-se perito em apostatar. 

Por um lado a personagem está bem conseguida porque a maior parte de nós também é assim: confessa-se sempre dos mesmos pecados. E isto não quer dizer que não estejamos arrependidos quando nos confessamos, caso não estivéssemos a confissão seria inválida, mas sim que somos fracos e se calhar pomo-nos a jeito para cair outra vez nos mesmos erros. E este é o ponto, pelo qual aqui a confissão é apresentada como uma caricatura. Kichijiro poderia muito bem estar arrependido do pecado gravíssimo que fazia (recorrentemente), mas não estava disposto a fazer propósito de emenda, que inclui sempre evitar ocasiões de pecado. Ele continuava a viver num ambiente em que sabia que ia ser confrontado frequentemente com a escolha entre a vida e o negar a fé. Se realmente ele quisesse deixar de apostatar, e conhecendo a sua fraqueza, teria de sair dali. O seu confessor deveria ter-lhe dito isto, e talvez até imposto como condição para a absolvição daquele pecado muito grave.

Judas e Jesus: Horto das Oliveiras

Naquela época de perseguição, a denúncia de um sacerdote rendia 300 moedas de prata. Isto remete imediatamente para a traição de Judas, que denunciou Jesus por 30 moedas de prata. E esse paralelismo torna-se real. O Padre Rodrigues faz o papel de Jesus, como ele próprio se via, e Kichijiro (quem mais?) o papel de Judas. A cena passa-se à beira de um rio, que o sacerdote usa para matar a sede, enquanto tem mais uma das suas alucinações, vendo o rosto de Jesus Cristo na água em vez do seu. Tal como aconteceu no Horto das Oliveiras, os soldados aparecem de surpresa e rodeiam o Padre. O Judas da ocasião, Kichijiro, recebe ali o preço pela sua traição: as 300 moedas de prata; que caem no chão à semelhança de como Mel Gibson, na ‘Paixão de Cristo’, retratou o momento em que o traidor recebeu o seu prémio. 

Exército de dois

Voltando atrás para contextualizar. Os dois jovens jesuítas tinham pedido ao seu superior que os deixasse ir até ao Japão de modo a poderem resgatar o Padre Ferreira, que alguns diziam ter renunciado ao cristianismo. O jesuíta mais velho percebe que a missão seria bastante perigosa e, ao princípio, está reticente mas, perante a insistência dos jovens, envia-os…como um exército de dois. Os dois últimos padres a irem para o Japão. Uma última tentativa de manter aquele território longínquo ainda como terreno de missão.

E foram realmente um exército de dois. Enquanto andavam juntos ambos ajudavam-se mutuamente. Um compensava as falhas e imprecisões do outro. Ajudavam-se nos momentos de menos confiança em Deus e, assim, iam levando avante a sua missão. Mas tudo mudou quando se separaram.

Padre Garupe

Aparentemente era o elo mais fraco. Quando já estavam no Japão, a ajudar as comunidades cristãs, mostrou-se bastante ansioso pelo tempo que demoravam a encontrar o Padre Ferreira. A ponto de pedir desculpa ao seu companheiro de missão, Padre Rodrigues, por isso. Este diz-lhe que ele é um mau jesuíta, pela falta de paciência que mostra. Apesar dessa sua falta de virtude, o Padre Garupe teve a humildade de pedir desculpa, algo que o Padre Rodrigues nunca faz. Quando se separam, o Padre Garupe mostra de que massa é feito e acaba por morrer mártir, enquanto tenta salvar a vida de outros cristãos. Mais uma vez, ao contrário do Padre Rodrigues. 

Padre Rodrigues

No tal exército de dois assume o papel de líder. Parece o modelo de jesuíta perfeito, a comparar com o impaciente Padre Garupe. No entanto, quando os dois se separaram vai mudar completamente de atitude. Não aparece mais a celebrar a Missa. Não ouve confissões, tirando as do inevitável Kichijiro. Praticamente não reza. Revela sempre um semblante pesado. Começa a ter alucinações.

Este modus vivendi vai acompanhá-lo também depois de ser feito prisioneiro. Embora se mostre bastante tranquilo e dono de si à frente dos seus captores, quando está na sua cela passa por longas agonias e períodos de desespero. 

O Padre Rodrigues é inteligente e remete ao silêncio os seus adversários em todas as discussões. Ele não perde uma. E nem se pode dizer que os seus argumentos fossem arrogantes, são bastante lógicos, simples e muito verdadeiros. Apesar disso, no modo como encara a sua situação como se fosse o próprio Cristo, e é essa ousadia que lhe vai sair cara. Num comentário depois duma conversa com o Padre, o intérprete desabafa, com toda a tranquilidade, que os arrogantes são os primeiros a apostatar. 

De Jesus a Pedro: o galo cantou

Chegamos à parte mais dura da narrativa. Finalmente o Padre Rodrigues encontra o desaparecido Padre Ferreira, seu antigo professor. Este demonstra pouco à vontade na conversa, quase como se estivesse ali obrigado ou como se lhe pesasse a consciência pela negação constante da fé que tinha sido a sua vida nos últimos anos. Perante as acusações do jovem jesuíta, Ferreira defende-se fazendo uma apologia do Japão como uma terra onde o cristianismo jamais poderia vingar; e que quando se falava aos cristãos japoneses do Filho de Deus eles apenas imaginavam o sol, porque a sua cultura não conseguia ir além do natural, o sobrenatural era impensável. 

O Padre Ferreira faz nesse momento o papel do demónio quando tenta Jesus, tanto no deserto como durante a Paixão. É a tentação que apresenta a decisão mais fácil, com todas as suas vantagens, em contraste com a decisão mais difícil, com todas as suas desvantagens. Os argumentos que apresenta são obviamente falsos. Eram desmentidos pela fé enorme que o Padre Rodrigues tinha visto naquele povo. Mas só o facto de aquela conversa existir é suficiente para lhe deixar uma dúvida, ainda que pequena, sobre se o que lhe é dito não será, afinal, a verdade. Este é o perigo de dialogar com a tentação, especialmente quando vem de um inimigo mais sagaz do que nós. Numa situação destas não se deve alimentar a tentação ou tentar ser razoável com ela, deve-se cortar prontamente com aqueles pensamentos ou com aquela conversa.

O intérprete diz ao Padre Rodrigues: “O Inquisidor diz que hoje à noite vais apostatar.” Parece estranho que o prisioneiro tenha ouvido esta profecia e não se tenha preparado convenientemente para o que estava para vir. E de facto apostatou. E mal o fez o galo cantou…3 vezes. É inevitável que não sejamos transportados imediatamente para a traição de Pedro, que negou Jesus 3 vezes depois da prisão do seu Mestre. Também Pedro se tinha julgado forte, incapaz de negar Jesus, tinha-o garantido a Ele mesmo à frente de todos os outros apóstolos. Finalmente cai a a máscara: o Padre Rodrigues não era Jesus, era Pedro. Tinha-se em boa conta mas na hora da verdade foi cobarde.

Apostasia

Este foi o tema mais discutido em relação a esta história. Será que podemos dizer que tudo se resume a defender a apostasia? Creio que não, seria uma análise demasiado simplista. Será que se pode dizer que não existe uma relativização da apostasia? Também creio que não, a apostasia é apresentada como o mal menor que deve ser escolhido quando se trata de evitar o sofrimento, tanto próprio como alheio.

Esta parte da história mostra falta de visão sobrenatural. É verdade que os sofrimentos infligidos pelos agressores são horrorosos. Mas também é verdade que para quem crê em Deus o sofrimento não tem a última palavra. O símbolo máximo do cristianismo é Deus feito homem morto numa cruz, para nos salvar. O sofrimento aceite voluntariamente e unido à cruz de Jesus pode ser redentor, e é um instrumento (nunca um fim) através do qual se pode amar mais a Deus e os outros. Faltou ali a perspectiva da vida eterna, da felicidade infinita que não acaba, que em teoria todos queremos mas na prática nem sempre. Os cristãos do início do filme falavam do Paraíso, como meta da sua vida. Mas na apostasia do Padre Rodrigues essa ideia já não se encontra presente, tudo o que conta é acabar com aquele sofrimento aqui e agora. 

A palavra 'Martírio' vem do grego, e quer dizer ‘testemunho’. Os mártires sempre foram um testemunho para os outros cristãos, um incentivo para serem santos. Daí que as suas relíquias tenham sido veneradas desde o início do cristianismo. Isso vê-se no filme, quando os corpos daqueles cristãos mártires são queimados e as cinzas deitadas ao mar, de modo a impedir que sejam venerados. Os padres que desistiram da sua fé deram um contra-testemunho. A apostasia naquele caso é um anti-martírio. Se um sacerdote, face visível da Igreja, não está disposto a morrer por Cristo porque é que eu estaria? Por isso mesmo os japoneses querem que os padres neguem a fé publicamente, para servirem de exemplo ao povo e cortarem o cristianismo pela raiz.

O Padre Ferreira e o Padre Rodrigues não se limitaram a apostatar num momento de fraqueza, o que poderia ser mais ou menos compreensível, embora continuasse a ser errado. Eles foram apóstatas o resto da vida, com recorrentes actos de apostasia (exigidos pelas autoridades). E enquanto isso serviam de censores aos artefactos encontrados nas casas das pessoas e que se desconfiava poderem ter alguma simbologia cristã oculta. Aqueles dois homens negaram a fé publicamente, viveram até à morte essa negação e colaboraram activamente com um governo iníquo, que perseguia e executava cristãos. 

É verdade que até ao último suspiro de vida a pessoa se pode arrepender mas não é possível ser um apóstata publicamente e um cristão devoto privadamente. A vida cristã tem de ser una, não é compatível com dualismos esquizofrénicos. O cristão foi chamado pelo próprio Cristo a ser sal da Terra e luz do Mundo (Mt 5, 13-14). Se o sal não salgar vai para o lixo. A luz não pode não iluminar. É verdade que não somos obrigados a parar as pessoas na rua para anunciar a nossa Fé, embora alguns possam ter esse "carisma". É verdade que em tempos de perseguição podemos até não manifestar publicamente sinais exteriores de fé cristã. Mas nunca podemos negar a Deus publicamente e continuar a viver como se nada fosse. A apostasia é um pecado muito grave (contra o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas), que quando cometido publicamente exige também a reparação pública, caso a pessoa se arrependa e queria pedir perdão a Deus.

Japoneses: os maus

Durante o filme dificilmente pensamos nas autoridades japonesas, e respectivos soldados, como maus da fita. Estamos demasiado ocupados a tentar perceber se é lícito apostatar ou não, e nem reparamos nas atrocidades indescritíveis que essa gente infligiu a pessoas inocentes, simplesmente por acreditarem num Deus que morreu numa cruz para os salvar. O mais irónico é que aquela perseguição implacável ao cristianismo partiu de quem promovia abertamente o budismo. Todos eles eram budistas "praticantes". 

No mundo Ocidental, desejoso de esoterismo, o budismo é apresentado como um "caminho espiritual” atractivo porque se pode fazer muitas coisas que no catolicismo não são permitidas (especialmente no que concerne ao 6º e 9º mandamentos), e também porque implica a prática da meditação, que traz muita “paz”. Toda a violência que se vê neste filme ajuda a perceber que o budismo não é assim tão pacifista como muitos tentam fazer passar. Mostra também que, ao longo da História, os cristãos foram, e ainda são, brutalmente perseguidos por causa da sua Fé.

Ad maiorem Dei gloriam

João Silveira


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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Silêncio: Fidelidade ou apostasia?

(Atenção: este texto contém spoilers que contam o fim do filme.)

Estreou o Silêncio de Martin Scorsese. O filme tem gerado muita polémica. Muitos têm interpretado a apostasia do Pe. Rodrigues, protagonista, como um acto bom. Outros, escandalizados com esta interpretação, rejeitam o filme por completo.

Mas o filme é muito maior do que o problema da apostasia. Um dos melhores realizadores de cinema, um extraordinário elenco japonês e cenários incríveis das ilhas japonesas fazem-nos viver cada cena do filme. Um martírio filmado assim não deixa ninguém indiferente. E no filme há vários, lembrando as dezenas de milhares de cristãos que foram martirizados no Japão nesta altura.

Uma das ideias favoráveis à apostasia é a de que o Japão é um pântano onde nada ganha raízes. O Pe. Cristóvão Ferreira, o primeiro jesuíta a negar a fé sob tortura, diz que os japoneses convertidos nunca tinham compreendido o Cristianismo a sério. Segundo Ferreira, o culto Cristão dos japoneses não era senão o culto budista ao "deus Sol". Num país assim, não seria mau negar a fé em público e viver as práticas do Japão e do budismo, ajudando os locais de outras maneiras. Mas o filme mostra ao mesmo tempo como esta ideia é falsa. Nenhum japonês seria capaz de passar por torturas tão duras e no fim morrer por um "deus Sol". No início, três mártires japoneses morrem crucificados à beira mar, torturados à fome e afogados pelo encher da maré. Mas estes humildes japoneses morrem por um verdadeiro amor a Deus e pela Sua Mãe, Maria Santíssima. Mais ainda, morrem a cantar o Tantum ergo, um famoso hino eucarístico da tradição da Igreja, esquecido pela maior parte dos Cristãos do século XXI, mas não por aqueles japoneses que deram a vida pela Fé.   

Até ao momento da apostasia, na última parte do filme, os padres jesuítas estão sempre em contacto com estes Cristãos clandestinos do Japão. Primeiro vivem com eles em liberdade e depois nas prisões japonesas. O filme mostra como os Cristãos alimentavam a Fé através de pequenas coisas diárias, sempre iguais. Por exemplo, os Cristãos não só abençoavam sempre as refeições, como o faziam sempre com a mesma oração em latim. A fidelidade com que os japoneses rezavam dava-lhes Paz, mesmo já na prisão. Esta Paz contrastava com a agitação do Pe. Rodrigues, que quase se zanga por ver os Cristãos japoneses tão calmos. A agitação do Pe. Rodrigues leva-o a abandonar essas orações regulares que os outros faziam, e por mais do que uma vez Scorsese mostra-o a esquecer-se de abençoar a refeição antes de comer.
A fé do Pe. Rodrigues torna-se sentimental, baseada em "sinais" como ver o rosto de Cristo na água, que não dão fundamento à Fé. No fim, desesperado por ver tantos Cristãos a serem massacrados, julga ouvir a voz de Jesus a dizer-lhe para apostatar. O filme mostra muito bem o processo que leva um Cristão a negar a Cristo. Não é com leviandade que um sacerdote nega a Cristo. A apostasia é o culminar de um processo longo, que já tinha começado muito antes. O fim do filme é perturbador não só pela apostasia do Pe. Rodrigues, mas porque esta não é diferente do que se passa hoje no Ocidente. Todos conhecemos pessoas que não são Católicas, mas que em tempos o foram. Este processo, que começou com uma transformação interior da Fé, culmina com a própria pessoa a achar que está a fazer bem ao negar a Cristo, tal como acontece com o Pe. Rodrigues.

Silêncio é um filme que não acaba bem. O Pe. Rodrigues fracassa, nega a Fé e vive várias décadas no Japão budista. Estes budistas, surpreendentemente diferentes dos pacifistas que o mundo apresenta, massacraram milhares de Cristãos conterrâneos no século XVII. Obrigaram o Pe. Rodrigues a viver com uma mulher, a escrever livros contra a Igreja, a identificar Cristãos clandestinos e a negar a Fé regularmente. Ainda assim, quando tudo parecia perdido, Deus teve a última palavra. E a Igreja Católica não só ganhou raízes no Japão como sobreviveu até aos dias de hoje.

Nuno CB


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

3 ideias a não perder em Star Wars Rogue One

O novo Star Wars já estreou. Vale muito a pena verem o filme com amigos. Vão-se divertir imenso, mas também porque há ideias boas para retirar do filme. 

(Atenção: no fim há spoilers que contam o fim do filme)

1. Divina Providência

Chirrut, um dos personagens mais importantes, é um guardião das minas de cristais de sabres de luz. Apesar de não ser Jedi, Chirrut tem uma relação muito próxima com a Força que lhe dá grande agilidade em combate e uma enorme segurança. Chirrut é cego mas, pela confiança que tem na Força, consegue ver muito mais do que qualquer outro personagem.

Isto lembra a confiança dos Cristãos na Divina Providência. Os Cristãos sabem que Deus sustenta continuamente o Universo e que os protege mesmo nas piores adversidades. Por isso é que, mesmo numa situação difícil, é possível viver em paz, sabendo que Deus está a ver. Os Cristãos que vivem assim, como foi o caso dos Santos, vêem muito mais longe do que os outros, pois vêem o mundo com um olhar sobrenatural. 

É verdade que há momentos de muita dor e que não passam, ao ponto de quem sofre pensar que Deus não existe. Mas confiar em Deus não é fácil, apesar de simples. Na verdade, no filme, Chirrut também sabe que confiar na Força não é fácil, por isso é que ele está constantemente a repetir para si que confia na Força (“I am one with the Force, the Force is with me.”) Ele repete isto não para se unir mais à Força mas para confiar mais, para se convencer a si mesmo disso. Os Cristãos também usam há séculos truques não para que Deus os proteja, mas para se lembrarem da presença de Deus. Os Santos repetiam continuamente jaculatórias (como “Jesus, eu confio em Vós”) para confiarem mais em Deus. Como mostra a história de Chirrut neste Star Wars, a repetição vocal e contínua de uma pequena oração é útil para a vida espiritual e tem grandes efeitos na vida real.

2. Coisas pequenas

Este novo Star Wars, ao contrário dos outros, não pertence a uma trilogia. É um filme sobre uma história secundária que conta como a Aliança Rebelde roubou os planos da Estrela da Morte, essenciais para o episódio IV. Sem esta história, nunca o Luke Skywalker, a Princesa Leia e o Han Solo se teriam tornado amigos e mudado a história do universo (e do cinema). Este filme dá voz a membros da Aliança Rebelde que nem sequer sabíamos que existiam. Estas pessoas tinham vidas valiosas que ganharam forma através de decisões complicadas que tiveram de tomar ao longo do filme. 

Todas os grandes sucessos têm sempre coisas aparentemente pequenas, mas muito valiosas, por trás. Uma grande construção torna o arquitecto famoso, mas por trás há imensas pessoas envolvidas: engenheiros, construtores, empresas de materiais, os professores que ensinaram todas estas pessoas, ... Isto é especialmente verdade na vida Cristã. Quando Jesus diz em Lc 16, 10 que “quem é fiel no pouco, também é fiel no muito”, está a demonstrar a importância das coisas pequenas para uma vida grande. O caminho de santidade ensinado por Santa Teresinha é inteiramente feito de coisas pequenas. E São Josemaria ensinou que quem não souber viver os pequenos sacrifícios do dia-a-dia, nunca conseguirá ser verdadeiramente Santo e vencer os grandes obstáculos que a vida lhe porá à frente. Como Cristãos gostamos de ver o louvor das coisas pequenas precisamente porque isso nos mostra que mesmo as coisas que parecem mais pequenas têm um fruto muito grande. E este novo Star Wars mostra isso. 

3. Esperança

O filme acaba de uma forma totalmente inesperada. Todos os heróis do filme morrem, mas nenhuma das suas mortes foi em vão. No filme, cada personagem morre imediatamente depois de completar a sua missão. Mas o interessante é que nenhum deles sabe se o que fez foi bem sucedido ou não. Todos os Rebeldes que foram roubar os planos da Estrela da Morte morrem sem nunca saber se a Aliança Rebelde recebeu os planos. Pior ainda, o que eles viam era que tudo parecia falhar. Mas, ainda assim, eles fizeram o que tinham a fazer. Porquê? Porque estavam alimentados pela esperança de que iam conseguir.

A Igreja Católica ensina que a Esperança é a virtude pela qual temos a certeza da Ressurreição. Tal como disse Nossa Senhora em Fátima, no fim, “o meu Imaculado Coração Triunfará.” Todas as acções dos Cristãos devem ser animadas pela certeza de que, se forem fiéis, no fim da vida vão para o Céu. Vemos isso na ousadia dos Santos que fizeram coisas impensáveis aos olhos do mundo e que mesmo assim sucederam. Um Cristão fiel é um verdadeiro rebelde contra as modas do mundo. Como diz Jyn Erso, a personagem principal do filme, “we have hope. Rebellions are built on hope.” E o filme a seguir a este chama-se “Uma Nova Esperança.” Também pelos mártires e pelos santos, vê-se que a esperança de um Cristão, dá esperança a muitos outros por gerações fora.

Nuno CB

English Version (via Google Translator):

The new Star Wars: Rogue One is already out. You should watch the movie with friends. Not only you will have lots of fun, but there are also great ideas to take from the film.

(Warning: there are some spoilers in the end)

1. Divine Providence

Chirrut, one of the most important characters, is a guardian of the mines of lightsaber crystals. Although not a Jedi, Chirrut has a close relationship with the Force that gives him a great agility in combat and an enormous sense of security. Chirrut is blind but, due to his trust in the Force, he can see more than any other character.

This reminds us of the trust that Christians have in Divine Providence. Christians know that God continually sustains the Universe and protects them, even before the worst adversities. That is why, even in a difficult situation, it is possible to live in peace, knowing that God is watching. The Christians who live like this, as the Saints did, see beyond what others see, for they see the world with a supernatural look.

It is true that there are times of much pain that take long to go away. They so hard to the point of thinking that God does not even exist. But trusting in God is not easy, although it is simple. In fact, in the film, Chirrut also knows that relying on the Force is not easy, that is why he is constantly repeating to himself that he trusts the Force. "I am one with the Force, the Force is with me," he says. He repeats this not to join the Force more but to trust more, to convince himself of it. Christians have also used these tricks for centuries, not for God to protect them, but to remember the presence of God. The Saints continually repeated their aspirations (like "Jesus, I trust in You") to trust God more. As Chirrut's story in this Star Wars episode shows, the vocal and continuous repetition of a little prayer is useful for the spiritual life and has great effects in real life.

2. Small things

This new Star Wars, unlike the others, does not belong to a trilogy. It is a film about a secondary story that tells how the Rebel Alliance stole the Death Star plans, leading up to Episode IV. Without this story, Luke Skywalker, Princess Leia and Han Solo would never have become friends and changed the history of the universe (and of cinema). This film gives voice to members of the Rebel Alliance that we did not even know existed. These people had valuable lives that took shape through the complicated decisions they had to make throughout the film.

All great successes always have seemingly small things behind, that are at the same time very valuable. A great building makes the architect famous, but behind  it there are many people involved: engineers, builders, material companies, teachers who taught all these people, ... This is especially true in the Christian life. When Jesus says in Luke 16:10 that "he who is faithful in the least is also faithful in much," he is demonstrating the importance of small things to a great life. The path of holiness taught by St. Theresa is entirely made up of small things. And Saint Josemaría taught that anyone who does not know how to live the small sacrifices of everyday life will never be truly holy and overcome the great obstacles that life will put before him. As Christians, we like to see the praise of small things precisely because it shows us that even things that look smaller have a large fruit. And this new Star Wars shows it.

3. Hope

The film ends in a completely unexpected way. All the heroes in the movie die, but none of these deaths were in vain. In the movie, each character dies immediately after completing his or her mission. But the interesting thing is that none of them knew if what they did was successful or not. All the Rebels who were stealing the Death Star's plans die without ever knowing whether the Rebel Alliance received the plans. Even worse, what they saw made it seem that everything was failing. And yet, they did what they had to do. Why? Because they were moved by the hope that they would succeed.


The Catholic Church teaches that Hope is the virtue by which we are assured of the Resurrection. As Our Lady at Fatima said: in the end, "my Immaculate Heart will triumph." All the actions of Christians should be moved by the certainty that, if they are faithful, they will go to Heaven at the end of their lives. We see that in the audacity of the Saints, who did unthinkable things in the eyes of the world and yet succeeded. A faithful Christian is a true rebel against the trends of this world. As Jyn Erso, the lead character in the film, says, "we have hope. Rebellions are built on hope." And so the film following this is "A New Hope. From the martyrs and saints, we see that the hope of one Christian gives hope to many others, for generations to come.


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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A melhor arma contra a Igreja: Três filmes no cinema a perder

Nestes tempos o mundo está a viver uma decadência moral como provavelmente nunca viveu. Especialmente no que diz respeito à moralidade sexual. Como é possível que neste momento, na ONU, queiram redefinir o conceito de família para algo "mais amplo"? Ou que o CEO da Mozilla (Firefox) tivesse que se demitir por ser a favor da família? Ou achar que a adopção de crianças por homossexuais é bom, dando-lhe total prioridade, como fez o governo português?

O Evangelho de Segunda-feira contava a história de um "homem possesso de um espírito imundo". Este homem não queria ser preso pelas cadeias e correntes que ia destruindo. É uma imagem das pessoas que também reagem ferozmente ao jugo que a Igreja supostamente impõe sobre a sua vida. Confirmamos isto pensando no nome do demónio que o possuía, Legião. Tal como hoje, é uma legião inteira que está contra a Fé e a Moral da Igreja Católica. E, quando Jesus curou este homem, o Evangelho diz que aqueles que o viram "ficaram cheios de medo" e começaram expulsar Jesus do seu território.

Felizmente, neste nosso mundo, não são poucos os que tentam lutar por uma vida limpa e ser Santos. Por todo o mundo há pessoas, neste momento, a lutar para chegar ao Céu e levar outros consigo. E o mundo sabe isso e tem medo. E quer expulsar os Cristãos e acabar com os limites que supostamente lhe impõe. E para isso usa o melhor que tem. Desde os boards executivos das maiores empresas, a muitos governos do Ocidente e a muitas instituições não governamentais.

Mas estas semanas o que podemos ver é uma das melhores armas que o mundo tem a ser disparada contra a Fé da Igreja: Hollywood. Estão neste momento no cinema três filmes que, infelizmente, irão afastar muitas pessoas da Igreja e de Deus: The Danish Girl, Carol e Spotlight.

Estes filmes, curiosamente estão todos relacionados com a perversão sexual dominante no mundo. O primeiro é sobre a vida de uma transsexual, o segundo sobre duas lésbicas e o terceiro sobre os jornalistas que descobriram os casos de pedofilia por sacerdotes católicos nos Estados Unidos.

Todos estes filmes estão nomeados para os Óscares. Dois deles têm seis nomeações cada um. Só o Spotlight foi nomeado para os óscares de melhor filme, melhor argumento, melhor realizador, melhor actriz secundária, melhor actor secundário e melhor edição. Não há dúvida que deve ser um dos melhores filmes que Hollywood já produziu. Não é por acaso.

Mas isto não nos deve assustar. Há séculos o Império Romano fez o mesmo aos Cristãos e nada conseguiu. E ontem, festa da Apresentação de Jesus no Templo, vemos que tudo estava previsto. Como disse Simeão a Nossa Senhora: "Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição".

Nuno CB


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Star Wars é Cristão? A Força pode estar connosco?

E
stou muito entusiasmado. O Star Wars Episódio VII está aí. Estou mesmo contente, mas sei que nem todos partilham as minhas expectativas geeks. Algumas pessoas têm sérias dúvidas teológicas em relação ao Star Wars. Hoje vamos tentar salvar o Star Wars usando um bocado de Tomás de Aquino...

Os Cristãos (tanto protestantes como Católicos)  têm mostrado durante décadas a sua preocupação de que a visão do mundo do Star Wars não encaixa com a visão Cristã. Gostava de olhar para esta preocupação e depois tentar salvar o Star Wars para todos vocês, Cristãos e fãs do Star Wars.

O erro que muitas pessoas fazem quando criticam o Star Wars tem esta lógica: 
  1. Os Cristãos têm Deus
  2. Star Wars tem a Força
  3. Mas a Força não tem nenhum paralelo na doutrina bíblica de Deus.
  4. Portanto, o Star Wars ensina uma falsa visão do mundo, uma teologia falsa, e tem que ser rejeitado como mau.
Vejamos isto com mais detalhe.

Que a Força esteja convosco: o que raio é esta Força?

Vamos começar com o que a Força não é.
  1. A Força não é um Deus pessoal a quem se reza.
  2. A Força não é infinitamente boa ou "omnibenevolente". Há um 'lado negro' da Força.
  3. A Força não é só para os bons. Os maus também a usam e aparentemente usam-na de uma forma mais poderosa que os bons.
Parece que, na verdade, a Força é uma fonte de energia impessoal. E pode-se ver rapidamente que isto não encaixa bem com uma interpretação judaico-cristã do mundo... ou será que encaixa?

Fãs cristãos do Star Wars: Não tenham medo!

Olhemos outra vez para o argumento anti-Star Wars:
  1. Os Cristãos têm Deus
  2. Star Wars tem a Força
  3. Mas a Força não se encaixa na doutrina bíblica de Deus.
  4. Portanto, o Star Wars ensina uma visão falsa do mundo e uma teologia errada, logo tem que ser rejeitado como mau!
Vamos virar isto ao contrário. Digamos que a Força passa a ser algo diferente de Deus. Talvez a Força não seja sequer uma entidade espiritual ou um ser divino. O que precisamos é de encontrar na Força uma analogia para a nossa visão Cristã do mundo.
Pausa: Eu sei que nem sequer precisamos de fazer isto. É uma saga cinematográfica de ficção que é divertida e lendária. Mas para acalmar os que querem uma justificação filosófica, aqui vai.
Há uma coisa no nosso universo que encaixa perfeitamente com a Força. Vou seguir directamente o raciocínio de S. Tomás de Aquino, por isso sigam-me.
De acordo com Tomás de Aquino (e a tradição Católica), os humanos e os seres espirituais preternaturais (os anjos e demónios) têm um poder que se estende bem mais além das faculdades de todas as outras espécies e coisas naturais. Esta faculdade especial, partilhada pelos anjos, demónios, homens bons e homens maus chama-se intelligentia. Esta palavra vem de duas palavras latinas:
inter + legere
inter significa "entre" (como internacional) e legere significa "escolher, agarrar ou ler".

A inteligência é, então, a capacidade de escolher ou discernir entre duas coisas.

Isto é um poder (ou talvez possa ser uma força) que nos foi dado a nós por Deus omnipotente. O vosso cão, gato, peixe e planta não a têm. Mas nós temos. Os vossos anjos da guarda também têm.
Visto que temos inteligência ou razão, conseguimos manipular o nosso ambiente, manipular a natureza, manipular os objectos à nossa volta e manipular outras pessoas. A nossa influência sobre a criação através do reinado da razão pode ser mesmo boa, mas também pode ter um lado negro...

As Paixões e a Força da inteligência

De acordo com Tomás de Aquino, há onze paixões. As emoções como o medo, a alegria e a ira. Devido ao pecado original, estas paixões podem interferir com a nossa inteligência racional. Comemos demasiados gelados, gritamos a outros condutores e choramos por coisas ridículas. As paixões alteram e contrariam a força da nossa inteligência, de tal modo que fazemos coisas negras.

O lado negro da Força

Percebemos que o mito da Força no Star Wars não é Deus ou o Espírito Santo, mas é antes a experiência partilhada da razão humana e angélica. É por isso que as personagens más tentam converter os personagens bons para o lado negro desta força, levando-os para uma ira, fúria, inveja ou luxúria descontroladas. Vemos que os Sith Lords até conseguiram conquistar o Império inteiro manipulando outros através desta força da razão. Foi o que aconteceu ao Império no Star Wars. E tem acontecido em todas as sociedades humanas. A única forma de termos o "Império Contra-Atacar" é dominar as paixões através da razão através de raciocínios certos e pensamentos prudentes. Por isso, ser treinados na força é simplesmente usar o intelecto para habituar a virtude dentro de nós mesmos e na sociedade.
O lado negro da força é como o lado negro da razão humana. A razão é boa, mas pode ser distorcida e abusada para o mal - sempre através da corrupção das paixões/emoções.

Reavaliando a Força como uma analogia Cristã no Star Wars

Alguém podia dizer, "Sim, mas o Yoda consegue mover rochas com a Força e o Luke consegue fazer o pino com a cabeça através da Força. O que é que isso tem a ver com a inteligência racional?"
Eu responto, "Certos vós estais. Siiiiim."
Mas há mais que se lhe diga. Nós humanos usámos as nossas mentes para atingir todo o tipo de coisas impossíveis como voar em aviões, andar na Lua, dividir átomos e explorar o fundo dos oceanos.
As guerras, milagres científicos, curas - tudo isto é obtido através da força da recta razão.
A lição é que é a inteligência bem usada que faz grandes coisas. No Star Wars, vemos que a Força é o poder usado com rectidão para tornar uma sociedade civilizada numa sociedade civilizada. Platão, Aristóteles, Cícero e Aquino de certeza que iam aplaudir a visão que o George Lucas deu da "Força" como o único poder para ordenar a sociedade - porque todos estes filósofos perceberam que era a verdadeira razão que dava aos humanos a lei, a ordem e a civilização. Mesmo a lei natural requer a razão para se perceber.
Star Wars na verdade é uma visão política bastante certa de como a inteligência humana pode ser contrariada para chegar a uma sociedade maléfica. Os políticos maus estão sempre a quebrar a força da sua inteligência. Quando os homens recorrem ao "lado negro" temos coisas terríveis a acontecer, como isto:
Portanto, da próxima vez que alguém, depois da Missa, disser "Sim, eu gostava imenso do Star Wars, mas não deixo os meus filhos verem-no. É tão contrário à Bíblia," revejam os vossos conhecimentos filosóficos e mãos à obra. Lembrem-se: a Força não é igual a Deus. A força equipara-se à razão humana.
E lembrem-se, da próxima vez que se enfurecerem como um macaco e começarem a viver de acordo com as vossas paixões, estão a tornar-se cada vez mais como o Darth Vader. Não façam isso! Podem não ter uma conversão no leito da morte onde alguém vos vai tirar o capacete e dar uma última hipótese.
Taylor Marshall


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