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segunda-feira, 9 de março de 2026

O Inferno visto por Santa Francisca Romana

Deus consolou Santa Francisca Romana com revelações e comunicações místicas sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima. Tornou-se célebre pelos seus milagres e dons de cura. Restituiu a vista aos cegos, a palavra aos mudos, a saúde aos doentes, e libertou muitos possessos do demónio.

Santa Francisca teve o pressentimento da sua morte e preveniu os seus amigos. Pedia a Deus que a levasse desta vida, pois não queria ver as novas crises que já começavam a assaltar a Santa Igreja. Caiu enferma, vindo a falecer em 1440.

Na vida dessa mística italiana, as visões ocupam um lugar saliente. A propósito do que a Santa viu sobre o inferno, o célebre escritor católico francês Ernest Hello apresenta um apanhado sucinto e sugestivo na sua obra “Physionomie des Saints”, o qual exporemos abaixo.

Inúmeros suplícios, tão variados quanto os crimes, foram mostrados à Santa em detalhes. Por exemplo, viu ela o ouro e a prata serem derretidos e derramados na boca dos avarentos. A hierarquia dos demónios, as suas funções, os seus tormentos, os diversos crimes aos quais presidem, foram-lhe apresentados. Viu Lúcifer, chefe e general dos orgulhosos, rei de todos os demónios e proscritos, rei muito mais infeliz do que os próprios súbditos.

O inferno é dividido em três partes: o superior, o do meio e o inferior. Lúcifer encontra-se no fundo do inferno inferior. A Lúcifer, chefe universal, subordinam-se três outros demónios, os quais exercem império sobre os demais:

1) Asmodeu, que preside os pecados da carne, e era antes da queda um Querubim;

2) Mamon, que preside os pecados da avareza, era um Trono. O dinheiro fornece ele sozinho.

3) Belzebu preside aos pecados de idolatria. Tudo que tem algo a ver com magia, espiritismo, é inspirado por Belzebu. Ele é, de um modo especial, o príncipe das trevas, e mediante as trevas ele é atormentado e atormenta as suas vítimas.

Uma parte dos demónios permanece no inferno, a outra no ar, e uma terceira atcua entre os homens, procurando desviá-los do caminho certo. Os que ficam no inferno dão ordens e enviam os seus embaixadores; os que residem no ar agem fisicamente sobre as mudanças atmosféricas e telúricas, lançando por toda parte as suas más influências, empestando o ar, física e moralmente. O seu objectivo é debilitar a alma. Quando os demónios encarregados da Terra vêem uma alma enfraquecida pelos demónios do ar, eles atacam-na no seu ponto fraco, para vencê-la mais facilmente. É o momento em que a alma não confia na Providência. Essa falta de confiança, inspirada pelos demónios do ar, prepara a alma para a queda solicitada pelos demónios da Terra.

Assim, enfraquecidos pela desconfiança, os demónios inspiram na alma o orgulho, em que ela cai tanto mais facilmente quanto mais fraca se encontra. Quando o orgulho aumentou a sua fraqueza, vêm os demónios da carne que atacam o seu espírito.

Quando os demónios da carne aumentam mais ainda a fraqueza da alma, vêm os demónios que insuflam os crimes do dinheiro. E quando estes diminuíram ainda mais os recursos de sua resistência, chegam os demónios da idolatria, os quais completam e concluem o que os outros começaram. Todos se articulam para o mal, sendo esta a lei da queda: todo o pecado cometido, e do qual a alma não se arrependeu, prepara-a para outro pecado. Assim, a idolatria, a magia, o espiritismo esperam no fundo do abismo aqueles que foram escorregando de precipício em precipício. Todas as coisas da hierarquia celeste são parodiadas na hierarquia infernal. Nenhum demónio pode tentar uma alma sem a permissão de Lúcifer.

Os demónios que estão no inferno sofrem a pena do fogo. Os que estão no ar ou na terra não sofrem actualmente tais penas, mas padecem outros suplícios terríveis, e particularmente a visão do bem que praticam os santos. O homem que faz o bem inflige aos demónios um tormento indescritível. Quando Santa Francisca era tentada, sabia, pela natureza e violência da tentação, de que altura tinha caído o anjo tentador e a que hierarquia pertencera.

Quando uma alma cai no inferno, o seu demónio tentador é felicitado pelos demais. Mas quando a alma se salva, o demónio tentador recebe insultos dos outros, que o levam para Lúcifer e este lhe inflige um castigo a mais, além das torturas que já padece. Este demónio entra às vezes no corpo de animais ou homens. Ele finge ser a alma de um morto. Quando um demónio consegue perder certa alma, após a condenação desta transforma-se em tentador de outro homem, mas torna-se mais hábil do que foi a primeira vez. Aproveita-se da experiência que a vitória lhe deu, tornando-se mais forte para perder o homem.

Santa Francisca observava um demónio em cima de alguém que estivesse em estado de pecado mortal. Confessado o pecado, via ela o mesmo demónio ao lado da pessoa. Após uma excelente confissão, o anjo mau ficava enfraquecido e a tentação já não tinha a mesma energia.

Ao ser pronunciado santamente o nome de Jesus, Santa Francisca via os demónios do ar, da terra e do inferno inclinarem-se com sofrimentos espantosos, tanto maiores quanto mais santamente o nome de Jesus fora pronunciado. Se o nome de Deus é pronunciado em meio a blasfémias, os demónios ainda assim são obrigados a inclinar-se, mas um certo prazer é misturado com a dor causada pela homenagem que são obrigados a render.

Se o nome de Deus é blasfemado por um homem, os anjos do Céu inclinam-se também, testemunhando um respeito imenso. Assim, os lábios humanos, que se movem tão facilmente e pronunciam tão levianamente o nome terrível, produzem em todos os mundos efeitos extraordinários e ecos, dos quais o homem não é capaz de compreender nem a intensidade nem a grandeza.

in oracoesemilagresmedievais.blogspot.com


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domingo, 31 de agosto de 2025

Nossa Senhora de Fátima pediu para que se rezasse e fizesse sacrifícios pelos pecadores

"Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas." 
Nossa Senhora em Fátima, 19 de Agosto de 1917


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domingo, 13 de julho de 2025

Inferno, oração e conversão: a mensagem politicamente incorreta, mas evangélica, de Fátima

As Aparições têm semelhanças entre si. Há sempre, no centro de cada uma, um apelo à oração e à penitência, mas, ao mesmo tempo, cada qual é diferente da outra pelo destaque que é dado a um aspecto particular da fé.
 
A aura em torno de Lourdes é calma. Foi notado, inclusive, que em nenhuma outra ocasião Maria sorriu tanto, chegando mesmo a rir muito em três ocasiões. Bernadette disse: “Ria como uma criança.” Não sabia, aquela pequena santa, que precisamente por isso, os seus austeros inquisidores suspeitariam ainda mais das aparições: “Nossa Senhora a rir?! Por favor, um pouco mais de respeito com a Rainha do Céu!” Mas, no final, tiveram que admitir: foi assim mesmo que aconteceu.
 
Claro, não nos esqueçamos, foi naquela gruta que Ela disse que era a Imaculada Conceição, e assumiu uma aparência séria, repetindo os apelos à penitência e à oração, para eles mesmos e para os pecadores. Mas há um ar de serenidade, sem ameaças de punição, que é talvez um dos aspectos que atraem multidões aos Pirineus.
 
Misericórdia e justiça
 
A atmosfera de Fátima, ao contrário, parece especialmente escatológica, apocalíptica. Embora tenha um final que conforta e acalma. É evidente que o principal motivo da aparição portuguesa é chamar a atenção dos homens para a enorme seriedade da vida terrena, que nada mais é que uma breve preparação para a verdadeira vida, uma eternidade que pode ser de alegria, mas também de tragédia. É um chamado à misericórdia e, ao mesmo tempo, à justiça de Deus.
 
A insistência unilateral, dos nossos dias, apenas na misericórdia, faz nos esquecer do et-et que caracteriza o catolicismo, e que se vê no Deus que é Pai amoroso e nos espera de braços abertos, mas, também, no Juiz que sopesará, na sua infalível balança, o bem e o mal que tenhamos feito. Sim, aguarda-nos um paraíso, mas que precisamos alcançar, dispendendo da melhor maneira os pequenos ou grandes talentos que nos foram confiados.

Nossa Senhora de Fátima

O Deus católico não é certamente o sádico do calvinismo que, por sua vontade insondável, divide a humanidade em duas: aqueles que nascem predestinados ao céu, e aqueles que são esperados à eternidade no inferno. É assim, afirma Calvino, que Ele manifesta a glória do seu poder. Não, o Deus católico não tem nada a ver com semelhantes deformações. Mas também não é, de forma alguma, o bonacheirão permissivista, o tio tolerante que tudo aceita e que a todos igualmente acolhe, o Deus de que se fala sobretudo na frouxidão dos teólogos jesuítas (que foram condenados pela Igreja) e contra quem Blaise Pascal lançou as suas indignadas Cartas Provinciais.
 
Ainda que soe desagradável aos ouvidos de certo “bonismo” actual, tão traiçoeiro para a vida espiritual, Cristo propõe à nossa liberdade uma escolha definitiva para toda a eternidade: salvação ou condenação. Portanto, podemos esperar até mesmo o inferno, que havíamos removido de nossas mentes, mas ao preço de remover também as claras e repetidas advertências do Evangelho.
 
É nele que está inserido o emocionante convite de Jesus: “Vinde a mim vós todos que estais cansados ​​e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Além de muitas outras palavras e mostras de sua ternura. No entanto, goste-se ou não, nos Evangelhos, há também outro lado. Há um Deus que é infinitamente bom, mas, na mesma medida, infinitamente justo. Por isso, aos Seus olhos, uma pessoa vil e impenitente não é equivalente a um crente, que se esforçou para levar a sério o Evangelho, mesmo com as limitações e fraquezas de qualquer ser humano.
 
O inferno não é uma invenção
 
Naquele texto fundamental do ensinamento da Igreja, o Catecismo, os autores alertam: “As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja sobre o inferno são um apelo à responsabilidade, com a qual o homem deve usar a própria liberdade, tendo em conta o seu destino eterno. Constitui-se, ao mesmo tempo, um apelo urgente à conversão”. São justamente esses apelos à responsabilidade e à conversão, que são o foco da mensagem de Fátima, tornando-a ainda mais urgente e atual, certamente mais do que quando Maria apareceu na Cova da Iria.
 
Há décadas que estão desaparecendo da pregação católica os Novíssimos, como são chamados pela teologia, a morte, o juízo, o inferno e o paraíso. Uma reticência clerical que retirou, mais do que isso, renegou o velho e benfazejo ditado que salvou tantas gerações de crentes: o princípio da sabedoria é o temor de Deus.
 
Na história dos santos, essa consciência de uma possível queda eterna, serviu de estímulo constante para a prática intensa das virtudes. Sabiam que a existência do inferno não é um sinal de crueldade divina, mas do seu respeito radical: o respeito do Criador para com a liberdade dada às suas criaturas, a ponto de lhes permitir escolher a separação definitiva.
 
Tanto na teologia quanto na pastoral de hoje, o necessário anúncio da misericórdia não está unido ao também importante anúncio da justiça. Mas se em Deus convivem, em dimensões infinitas, todas as virtudes, poderia estar faltando Nele a virtude da justiça, que a Igreja — inspirada pelo Espírito Santo, e também seguindo o senso comum — coloca entre as virtudes cardeais? (Nota do tradutor - as quatro virtudes cardeais são: prudência, temperança, fortaleza e justiça).
 
Não faltam teólogos respeitados e conhecidos, que gostariam de amputar uma parte essencial da Escritura, removendo aquilo que aborrece os que creem num Deus apenas bondoso e generoso. Dizem eles: “O inferno não existe. Mas, se existe, está vazio”.
 
Pena que essa não é a opinião da Virgem Maria… É verdade que a Igreja sempre afirmou a salvação certa de alguns de seus filhos, proclamando-os beatos e santos. E a própria Igreja nunca quis proclamar a condenação de quem quer que fosse, deixando nas mãos de Deus o juízo final. No entanto, aqueles que dizem que o inferno, se existir, estaria vazio, mereceriam a réplica: “Vazio? Mas isso não exclui a terrível possibilidade de que sejamos eu ou você a o inaugurar”.
 
Alguém sugeriu que a condenação fosse apenas temporária, não eterna, mas isso se choca com as palavras claras de Cristo, que fala várias vezes de um castigo sem fim. Por isso, nos vários Concílios, não foi difícil rejeitar semelhante possibilidade, uma vez que não há qualquer base nas Escrituras.

“Rezem, rezem muito”
 
Em 1941, na famosa carta ao seu bispo, Irmã Lúcia narrou assim a aparição de 13 de julho de 1917, a mais importante:

“O segredo confiado pela Virgem consiste em três partes distintas, duas das quais estou prestes a revelar. A primeira parte é a visão do inferno. Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes, negras e cor de bronze, com forma humana, flutuavam nesse fogaréu, e eram levadas pelas chamas que delas mesmas saíam junto com nuvens de fumaça, e caíam de todos os lados, como faíscas de um enorme incêndio, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que nos causou horror e nos fez tremer de medo…”.
 
Jacinta, que morreu três anos depois, ainda uma criança de 10 anos e chocada com o que viu naqueles poucos momentos, vai dizer em seu leito de morte: “Se eu pudesse mostrar o inferno aos pecadores…, faria qualquer coisa para que o evitassem, mudando de vida”. Visões semelhantes do inferno não são fatos isolados na história da Igreja. Essa realidade terrível foi experienciada por muitos santos e santas. E a sua credibilidade, tanto psicológica quanto mental, foi avaliada com rigor nos processos canônicos. Para limitar-nos às mais famosas e veneradas santas: Santa Teresa de Ávila, Santa Veronica Giuliani e Santa Faustina Kowalska, além de outras. E, entre os santos, não podemos nos esquecer de São Pio de Pietrelcina, o estigmatizado, que viveu o sobrenatural como se fosse a condição mais natural, a ponto de se admirar que os outros não viam o que ele via.

Em Fátima, o papel central da mensagem é a reiteração do perigo de se perder, além do fato de que Nossa Senhora ensina aos videntes uma oração que deveria ser repetida no rosário depois de cada dez Ave-Marias. Oração que teve uma extraordinária acolhida no mundo católico, tanto que é recitada em qualquer lugar em que se reze o terço, e diz: “Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para e céu, e socorrei principalmente as que mais precisarem da vossa misericórdia.” Palavras, como se vê, todas centradas nos Novíssimos, e ditadas para as crianças pela própria Virgem Maria.
 
O que um cristão deve implorar, de modo especial, é a salvação contra o “fogo do inferno”, além de pedir à misericórdia divina uma espécie de redução de pena para aqueles que sofrem no purgatório. Disse a Mãe de Deus, “com o semblante muito doloroso”, como descreveu Irmã Lúcia: “Rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores. Na verdade, muitas almas vão para o inferno porque não há quem reze e faça sacrifícios por elas”.

Sob o manto

Mas voltemo-nos para as últimas linhas do testemunho de Lúcia, após a visão do terrível destino dos pecadores impenitentes: “Elevamos nossos olhos à Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza: ‘Vocês viram o inferno, onde caem as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer instituir no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu digo, muitas almas serão salvas”.

A verdade obriga-nos a recordar que correm sério risco os homens insensíveis à seriedade do Evangelho. Mas a misericórdia do Céu está pronta para propor um remédio: refugiar-se debaixo do manto de Maria, confiando no seu Coração Imaculado, aberto a quem pede a sua materna intercessão.  O crescente peso do pecado é grave mas são-nos mostrados os remédios e, acima de tudo, a aparição tem um final feliz, com as palavras famosas e que são justificadamente uma fonte de esperança para os crentes. Na verdade, depois de profetizar as muitas tribulações do futuro, Maria anuncia, em nome do Filho: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. 

Portanto, a salvação pessoal é possível — e é bancada pelo próprio Céu — mesmo com o aumento da iniquidade. Que possamos esperar a conversão do mundo, em um futuro impreciso e conhecido apenas por Deus, confiando no coração da Mãe de Cristo, poderosa advogada da causa da humanidade.
Para que servem as aparições? 

Fátima é a melhor resposta, para um mundo que cada vez mais se esquecia, e hoje se esquece mais ainda, do verdadeiro significado da vida na Terra e sua continuação na eternidade. Fátima é uma mensagem “dura” e, na linguagem de hoje, diríamos “politicamente incorreta”, por isso mesmo evangélica, na sua revelação da verdade e em sua rejeição à hipocrisia, aos eufemismos e às reduções. 

Mas, como sempre naquilo que é verdadeiramente católico, onde todos os opostos coexistem numa síntese vital, a ‘dureza’ vive com a ternura, a justiça com a misericórdia, a ameaça com a esperança. Assim, o aviso que chegou até nós a partir de Portugal, é, ao mesmo tempo, inquietante e reconfortante.

Vittorio Messori in La Nuova Bussola Quotidiana


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sexta-feira, 8 de março de 2024

A separação dos escolhidos dos réprobos no Juízo Final

Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum — “Sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos.” (Mat 13, 49)

Sumário. Quando todos os homens estiverem reunidos no vale de Josafá, virão os anjos separar os réprobos dos escolhidos. Estes ficarão à direita e aqueles serão, para sua confusão, impelidos para a esquerda. Oh, que triste separação! Meu irmão, de que lado nos acharemos nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os condenados? Se quisermos estar à direita, deixemos o caminho que conduz à esquerda.

Assim que os homens tiverem ressuscitado, ser-lhes-á intimado que se dirijam todos ao vale de Josafá, para serem julgados. Quando todos estiverem ali reunidos, virão os anjos e separarão os réprobos dos escolhidos: Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum. Os justos ficarão à direita, e os condenados serão impelidos para a esquerda. — Que mágoa não sentiria quem fosse banido da sociedade ou da Igreja! Mas que dor muito maior não sentirá, quando se vir expulso da companhia dos Santos! Unus assumetur, et alter relinquetur (1) — “Um será tomado, e outro será desprezado”. Diz São Crisóstomo que, se os réprobos não tivessem outra pena a sofrer, esta confusão já seria para eles um suplício infernal.

Actualmente no mundo são julgados felizes os príncipes e os ricos; e são desprezados os santos que vivem na pobreza e humildade. Ó cristãos fiéis, vós que amais a Deus, não vos aflijais porque neste mundo viveis desprezados e em tribulações: Tristitia vestra vertetur in gaudium (2) “A vossa tristeza se há de converter em alegria”. Então se dirá que vós sois os verdadeiros felizes, e tereis a honra de ser proclamados os cortesãos da corte de Jesus Cristo.

Que brilhante figura não fará então um São Pedro de Alcântara, que foi vilipendiado como apóstata! Um São João de Deus, que foi tratado como insensato! Um São Pedro Celestino, que morreu numa prisão depois de ter abdicado o papado! Que honra receberão então tantos mártires, cruciados aqui pelos algozes! Tunc laus erit unicuique a Deo (3) — “Então cada um terá de Deus o louvor”. Que horrível figura, pelo contrário, não fará um Herodes, um Pilatos, um Nero, e tantos outros grandes da terra, agora condenados! — Ó partidários do mundo, espero-vos no vale de Josafá. Aí mudareis sem dúvida de sentimentos; aí deplorareis a vossa loucura. Infelizes! Por uma curta aparição no teatro deste mundo, tendes de fazer depois o papel de condenados na tragédia do juízo final.

Os escolhidos serão colocados à direita, ou antes, segundo o que diz o Apóstolo, para sua maior glória, serão elevados aos ares sobre as nuvens, para irem com os anjos ao encontro de Jesus Cristo, que deve vir do céu: Rapiemur cum illis in nubibus, obviam Christo in aera (4) — “Seremos arrebatados com eles nas nuvens ao encontro de Cristo”. E os condenados, como um rebanho de cabritos destinados ao matadouro, serão impelidos para a esquerda, esperando pelo Juiz, que virá pronunciar publicamente a condenação de todos os seus inimigos. — Meu irmão, de que lado nos acharemos nós nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os réprobos?

Ó meu amado Redentor, ó Cordeiro de Deus, que viestes ao mundo, não para castigar, mas para perdoar os pecados: ah! Perdoai-me sem demora, antes que chegue o dia em que deveis ser meu Juiz. Se eu então viesse a perder-me, à vossa vista, ó doce Cordeiro, que me tendes aturado com tanta paciência, a vossa vista seria o inferno do meu inferno. Ah! Perdoai-me, repito, sem demora. Com o socorro da vossa mão misericordiosa, fazei-me sair do precipício onde me fizeram cair os meus pecados. Arrependo-me, ó soberano Bem, de Vos ter ofendido tantas vezes. Amo-Vos, ó meu Juiz, que tanto me haveis amado.

Suplico-Vos pelos méritos da vossa morte, que me deis uma graça tão eficaz, que me torne de pecador em santo. Prometestes atender a quem Vos roga: Clama ad me et exaudiam te (5) — “Clama por mim e Eu te atenderei”. Não Vos peço bens terrenos; peço-Vos a vossa graça, o vosso amor e nada mais. Atendei-me, ó meu Jesus, pelo amor que me dedicastes morrendo por mim na cruz. Meu amado Juiz, sou um culpado, mas um culpado que Vos ama mais que a si próprio. Tende piedade de mim! — Maria, minha Mãe, vinde depressa em meu auxílio, agora que me podeis ainda socorrer. Não me abandonastes quando vivia esquecendo-me de vós e de Deus. Socorrei-me, já que estou resolvido a servir-vos sempre e a nunca mais ofender a meu Senhor. Ó Maria, vós sois a minha esperança. (II 114) 

Santo Afonso in Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano (Tomo I)

1. Mat 24, 40
2. Jo 16, 20
3. 1Cor 4, 5
4. 1Tes 4, 17
5. Jer 33, 3


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O destino dos mornos, segundo Dante

Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, lutas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:

- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?

- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não procuraram fazer o mal. - respondeu o Mestre. - Misturam-se com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o Céu como o inferno os rejeitam.

- Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que se lamentem tanto?

- Em poucas palavras: Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça ignoram-nos. Deixa-os. Olha, e passa.

E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todas nuas, expostas a picadas de enxames de vespas que as feriam em todo o corpo. O sangue escorria, junto com as lágrimas até os pés, onde vermes doentes ainda os roíam.

Dante Alighieri in Divina Comédia, Canto III


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terça-feira, 29 de novembro de 2022

Um jesuíta mostra como caem as almas no inferno

Este episódio passou-se em Giuliano (Itália), durante um sermão do Beato Antonio Baldinucci SJ († 1717), pregador de missões, no dia 12 de Abril de 1706. A pregação ocorria sob um grande olmo, e sem vento, de acordo com vários relatos de testemunhas oculares, entre eles um testemunho emitido com juramento perante 4 canonistas, quando o Beato disse: 

"Meu povo, sabeis como caem as almas no inferno? Como as folhas caem desta árvore! " 

Imediatamente começaram a cair folhas daquela árvore como se nevasse e a árvore ficou sem folhas, enquanto as outras árvores continuavam com todas as folhas.

As pessoas começaram a chorar e pedir perdão a Deus, durante meia-hora. 

in ‘Sperare per tutti?’ (Hauke Manfred) 


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quinta-feira, 17 de junho de 2021

A Condenação ao Inferno

CONDENAÇÃO DO PECADOR é a sentença dada por Jesus Cristo aos que morrem em pecado mortal, mandando-os para o inferno. 

Da condenação por causa do pecado ninguém se livra senão pelos merecimentos de Jesus Cristo, e só por um de quatro modos: ou pelo Baptismo, ou pelo Sacramento da Confissão, ou pelo martírio, ou pelo amor de caridade, mas nestes dois últimos casos com o desejo ao menos implícito do Sacramento da Confissão. A pena dos condenados no inferno não acaba, e as penas variam, sendo umas mais aflitivas do que outras. 

O bem que fizeram neste mundo aproveita-lhes, mitigando as penas. Assim como pecaram de vários modos, assim sofrerão de vários modos.

Padre José Lourenço in Dicionário da Doutrina Católica


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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A Misericórdia e a condenação eterna

Não é propriamente uma originalidade dos dias que correm a invocação da Misericórdia infinita de Deus para desculpabilizar a gravidade do pecado mortal e as suas consequências no destino eterno da pessoa humana. Já Orígenes, de resto um excelente teólogo, admitia uma restauração final em que os condenados ao Inferno e o próprio diabo seriam resgatados e salvos. Em meados do século vinte Giovanni Pappini, no seu livro O Diabo, caiu no mesmo engodo. A Igreja sempre condenou essa teoria, porque não concorde com a Sagrada Escritura nem com a Tradição, reafirmando a eternidade da condenação ao Inferno. A existência deste e a sua eternidade são aliás um Dogma de Fé, isto é, uma verdade Revelada por Deus.

Um outro grande e cultíssimo teólogo contemporâneo, em dois dos seus últimos livros, não advogando embora a apocatástases (restauração final dos condenados, do diabo e demais demónios) defende que o cristão não só pode como deve esperar que todos os homens se possam salvar. Esperar, não significa ter a certeza. Para ele significa que cada um deve viver com tal radicalidade, generosidade e empenho a sua Fé de modo a que “completando na sua carne o que falta à paixão de Cristo” carregue com os pecados dos outros passando, de algum modo, a Graça que lhe é dada para eles, de modo a que se possam converter. 

Chega a interpretar o sofrimento dos místicos, as suas noites escuras, e o sofrimento dos inocentes como uma participação na Paixão de Cristo capaz de transformar a liberdade inquinada ou ímpia dos outros em liberdade de tender para Deus. Afinal, como diz a Escritura “ Deus quer que todos os homens se salvem”. Adverte, no entanto, que cada um deve, como exorta S. Paulo, “trabalhar com temor e tremor” na sua própria salvação, não a dando, de modo nenhum, como adquirida. O inferno não terá sido criado directamente por Deus mas produzido pela liberdade da criatura (angélica) que ao rebelar-se definitivamente contra Ele, se fechou ao Seu amor ou ao Amor que Ele é: “Ide para o fogo eterno destinado ao demónio e aos seus anjos” (Mateus 25, 41). 

Uma vez que não existirá nenhum pronunciamento solene explícito do Magistério da Igreja declarando, segundo este teólogo, a existência de qualquer ser humano no Inferno podemos e devemos esperar, segundo ele, que todos se possam salvar. A verdade, porém, é que também não há nenhuma declaração do Magistério da Igreja afirmando que o Inferno está vazio de pessoas humanas.

A vulgarização desta hipótese ou especulação teológica acabou por gerar naqueles poucos que ainda aderiam à verdade Revelada da existência do Inferno a convicção de que ninguém lá estaria nem se poderia condenar. Daí se passou à desculpabilização sistemática de toda e qualquer pessoa, por maiores que fossem as enormidades que ela cometesse.

Grandes teólogos reagiram, entre eles o eminente (Cardeal) Avery Dulles, a muitas das afirmações deste autor. Reconhecendo embora os seus méritos, e muita da doutrina exposta, contestam a necessidade de um pronunciamento solene e explícito do Magistério sobre o assunto e mostram como asserções da Sagrada Escritura, da Tradição e de documentos do Magistério seriam incompreensíveis sem a admissão da eterna perdição efectiva, não só de pessoas angélicas (demónios) mas também de pessoas humanas.

É verdade, como dizia o então Cardeal Ratzinger, que a Fé nos foi dada não para que nos salvemos e os outros se percam, mas para que através da nossa Fé os outros também se possam salvar. No entanto, também não é menos verdade, como dizia numa outra obra, que Deus criou-nos livres e leva a nossa liberdade a sério.

Estou em crer que a Misericórdia de Deus não deve ser invocada em vão, nem para aquietar as consciências dos que procederam mal infundindo-lhes uma falsa esperança de que se podem salvar permanecendo, embora, nos seus pecados porque afinal a última palavra caberá à Misericórdia Divina, que tudo ignorará. Não! A Misericórdia, como nos ensina a parábola do filho pródigo, deve ser invocada para chamar as pessoas ao arrependimento e há conversão, enquanto é tempo, e o tempo é breve. “Morte certa. Hora incerta. Juízo particular. Inferno ou Céu para sempre”. Afinal é isso mesmo que nos diz a Carta de S. Tiago: “Haverá Juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia” (2, 13).

Evidentemente que não usa de misericórdia, ou seja, não é misericordioso, todo aquele que pratica, é cúmplice, coopera formalmente ou é indiferente em relação aquelas monstruosidades legisladas e promulgadas a que me referi no texto de ontem.

Que ninguém duvide: cada um será julgado segundo as suas obras. (Obras praticadas pelo amor, gerado pela Fé que nos foi dada, sem mérito algum da nossa parte. A graça precede sempre, acompanha e guia a vontade.) Por isso podemos ler no Evangelho as palavras severas de Jesus, na parábola do Juízo final, “retirai-vos de Mim, malditos! … para o fogo eterno … ” (Mateus, 25, 41).

E S. Paulo adianta: “ … (C)om a tua dureza e o teu coração impenitente, estás a acumular ira sobre ti, para o dia da cólera e do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um conforme as suas obras: para aqueles que, ao perseverarem na prática do bem, procuram a glória, a honra e a incorruptibilidade, será a vida eterna; para aqueles que, por rebeldia, são indóceis à verdade e dóceis à injustiça, será ira e indignação. Tribulação e angústia para todo o ser humano que pratica o mal … Glória, honra e paz para todo aquele que pratica o bem …” (Romanos 2, 5-10).

Padre Nuno Serras Pereira



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domingo, 28 de julho de 2019

Os 6 efeitos do pecado mortal na alma

Um pecado mortal é um acto contra qualquer dos 10 mandamentos, em matéria grave, com pleno conhecimento ou advertência (sabendo o que se está a fazer) e com consentimento da vontade (é a própria pessoa que quer, ninguém a obriga). Um pecado mortal bastante comum é faltar à Missa ao Domingo, sem justa causa para não ir e sabendo que a Igreja prescreve que se vá. Este pecado produz 6 efeitos gravíssimo na alma do pecador:

1. Perda da graça santificante, das virtudes infusas e dons do Espírito Santo; priva a alma da amizade com Deus;

2. Perda de presença amorosa da Santíssima Trindade na alma;

3. Perda dos méritos adquiridos durante toda a vida, tornando-a incapaz de adquirir novos méritos enquanto não se arrepender e se confessar a um sacerdote;

4. Feiíssima mancha na alma - macula animae - que a deixa tenebrosa e horrível à visão de Deus;

5. Torna a alma escrava de Satanás, aumento das más inclinações e remorsos de consciência;

6. Fá-la merecer o Inferno, e também os castigos desta vida.

O pecado mortal é o Inferno em potência. É um verdadeiro suicídio da alma e da vida de Deus em nós.


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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Os frades e os "bon vivants" em Paris

Dois frades descalços, às seis da manhã, em pleno Inverno e nevando copiosamente, saíam de uma igreja de Paris. Tinham estado a noite inteira em adoração ao Santíssimo Sacramento. Descalços, em pleno Inverno, nevava... 

E eis que, naquele mesmo momento, de um cabaret situado na rua da frente, saíam dois jovens pervertidos, que tinham passado ali uma noite de crápula e luxúria. Saíam meio mortos de sono, vestidos com os seus magníficos casacos, e ao cruzar-se com os dois frades descalços que saíam da igreja, um dos jovens disse a um dos frades, em tom irónico: "Irmãozinho, que grande choque vais ter se não houver Céu". E o frade, que tinha grande agilidade mental, respondeu-lhe de imediato: "E tu que grande choque vais ter se houver Inferno".

Padre Antonio Royo Marín in 'El Misterio del Más Allá'


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terça-feira, 24 de julho de 2018

A inquietante descrição do Inferno feita por Santa Faustina

Hoje, conduzida por um anjo, fui levada às profundezas do inferno, um lugar de grande castigo; e como é grande a sua extensão! Tipos de tormentos que vi:

O primeiro tormento que constitui o inferno é a perda de Deus; o segundo, o contínuo remorso da consciência; o terceiro, o de que esse destino nunca mudará; o quarto tormento é o fogo que atravessa a alma, mas não a destrói; é um tormento terrível, é um fogo puramente espiritual, aceso pela ira de Deus; o quinto é a contínua escuridão, o terrível cheiro sufocante e, embora haja escuridão, os demónios e as almas condenadas vêem-se mutuamente e vêem todo o mal dos outros e o deles mesmos. O sexto é a continua companhia do demónio; o sétimo tormento, o terrível desespero, ódio a Deus, maldições, blasfémias.

São tormentos que todos os condenados sofrem juntos. Mas não é o fim dos tormentos. Existem tormentos especiais para as almas, os tormentos dos sentidos. Cada alma é atormentada com o que pecou, de maneira horrível e indescritível. Existem terríveis prisões subterrâneas, abismos de castigo, onde um tormento se distingue do outro. Eu teria morrido vendo esses terríveis tormentos se não me sustentasse a omnipotência de Deus.

Que o pecador saiba que será atormentado com o sentido com que pecou, por toda a eternidade. Escrevo por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há inferno ou que ninguém esteve lá e não sabe como é.

Eu, irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos para falar às almas e testemunhar que o inferno existe. Sobre isso não posso falar agora, tenho ordem de Deus para deixar isso por escrito. Os demónios tinham grande ódio contra mim, mas, por ordem de Deus, tinham que me obedecer. 

O que eu escrevi dá apenas uma pálida imagem das coisas que vi. Percebi, no entanto, uma coisa: o maior número das almas que lá estão é justamente daqueles que não acreditavam que o inferno existisse. Quando voltei a mim, não me podia refazer do terror de ver como as almas sofrem ali terrivelmente e, por isso, rezo com mais fervor ainda pela conversão dos pecadores; incessantemente, peço a misericórdia de Deus para eles. 

Ó meu Jesus, prefiro agonizar até o fim do mundo nos maiores suplícios a ter que Vos ofender com o menor pecado que seja! 

in Diário de Santa Faustina, 741


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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Se Deus é amor por que razão criou o Inferno?

Basicamente, as objecções dos que não crêem são duas:

a) é totalmente desproporcional impôr uma punição infinita por uma ofensa finita;

b) um Deus amoroso não poderia torturar eternamente um filho Seu no Inferno.

Parece-me que a apologética tradicional tem-se esmerado por mostrar: 

a) que uma ofensa à majestade infinita de Deus não é “finita” e sim infinita, uma vez que a gravidade da ofensa mede-se, também, pela dignidade do ofendido (e assim, v.g., um murro que eu desferisse contra três homens diferentes seria gradualmente mais grave conforme o esmurrado fosse um jovem colega de trabalho, um idoso ou o meu pai), e a justiça exige alguma proporção entre crime e castigo. 

b) Deus é amor mas é também, em igual – e infinita – medida, justiça, e é precisamente o amor d’Ele que permite aos Seus filhos optarem por negá-Lo; de modo que, rigorosamente falando, é possível dizer, em alternativa a “Deus condena as almas ao tormento eterno”, que “as almas rejeitam a Deus e se condenam, portanto, à separação definitiva d’Ele”.

Mas fica a parecer que essas coisas não se compreendem perfeitamente quando não se tem uma noção clara dos seus fundamentos: dito de outra maneira, as perguntas acima estão mal-formuladas. O que importa, na verdade, não é que Deus tenha criado o Inferno, e sim que Ele tenha feito homens livres e, portanto, capazes quer de mérito, quer de culpa. Quando se entende isso com todas as suas necessárias consequências, todo o resto do quebra-cabeça resolve-se sem grandes dificuldades intelectuais.

O que é ser «livre»? É poder ser responsabilizado pelas suas escolhas e, por conseguinte, ser por elas premiado ou castigado. É evidente que a liberdade humana não é “absoluta” porque o seu conhecimento é limitado e a sua vontade é fraca; isso não está em discussão. Mas existe alguma liberdade no homem e, portanto, em alguma medida ele é capaz de mérito ou demérito, de prémio ou de castigo.

«Mérito» e «culpa» estão aqui empregados no sentido mais directo de um prémio devido por uma acção moralmente virtuosa e uma punição imposta em consequência de uma atitude moralmente condenável. As duas coisas estão em estreita relação de mútua dependência: uma vez que ambas dependem daquela liberdade fundamental de optar pelo bem ou pelo mal. Não é possível haver mérito se não existir possibilidade de culpa (uma vez que a virtude de uma escolha reside precisamente na rejeição à possibilidade de se fazer a escolha oposta – caso contrário, não haveria liberdade verdadeira) e não é possível existir culpa se não houver possibilidade de mérito (vice-versa). Ambas emanam, directa e imediatamente, da liberdade humana: só há mérito/culpa porque há liberdade e, se há liberdade, há também e necessariamente mérito e culpa.

Portanto, a raiz do prémio e da punição está na liberdade humana, é-lhe inerente e, aliás, faz parte da sua própria definição: ser livre é ser responsável por seus actos, e ser responsável pelos seus actos é ser capaz de receber, por eles, retribuições positivas ou negativas. Se qualquer um desses três termos – liberdade, mérito e culpa – deixasse de existir, os outros dois cessariam de haver no mesmo exacto instante. Ou os três existem, ou não existe nenhum. Por definição. Não dá para ser de outro modo.

Ora, qual é a característica central da Criação de Deus no que concerne ao ser humano? É que Ele nos fez à Sua imagem e semelhança, i.e., fez-nos dotados de inteligência e de vontade, de livre-arbítrio, fez-nos capazes de mérito e culpa. E a liberdade é um bem: por isso que Deus criou-a. E é um dom precioso, preciosíssimo: por isso é que foi por amor a nós que Ele no-lo concedeu. E o livre-arbítrio foi-nos concedido para que optássemos por Deus. Se há homens que optam livremente por rejeitá-Lo, aí já é uma coisa cuja possibilidade – pela própria natureza da liberdade humana – não pode ser afastada.

E quanto ao Inferno ser eterno? Ora, só há duas opções: ou a capacidade humana de ganhar méritos e acumular culpas – de ser premiado e castigado – cessa em algum momento, ou ela não cessa jamais, et tertium non datur. Se ela cessa em algum momento (v.g. com a morte – é a posição católica), então as pessoas que estão no Paraíso nele não podem mais pecar para o perder e, pela mesma razão, as que estão no Inferno não podem se arrepender para de lá sair. E, se ela não cessa em momento algum, então não deixará jamais de haver culpas a serem expiadas, posto que sempre haverá novos pecados em almas eternamente capazes de pecar. Em qualquer dos dois casos, portanto, o Inferno precisa de ser eterno. A diferença é apenas se algumas pessoas ficarão lá de uma vez por todas ou se todas as pessoas ficarão eternamente entrando e saindo de lá. Olhadas as coisas por esse ângulo, não parece que a segunda hipótese seja melhor do que a primeira, não é verdade?

Algumas vezes já me perguntam porque é que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim do Éden, onde Adão poderia facilmente alcançar-lhe os frutos. Ora, os pais terrestres mantêm as facas de cozinha e os produtos químicos fora do alcance das suas crianças: por que motivo Deus, Pai Perfeitíssimo, fez exactamente o contrário disso com Adão e Eva? A resposta é que Adão e Eva não eram crianças sem uso da razão, e sim seres humanos inteligentíssimos e extremamente aptos, adultos capazes de auto-determinação. Eles não comeram do fruto proibido como uma criança que se magoa sem querer com uma tomada, mas exactamente ao contrário: o Pecado Original foi cometido livre e deliberadamente, com plena consciência e manifesta vontade. É exactamente por isso que é pecado.

E porque é que, ainda, Deus permitiu que os nossos Primeiros Pais tivessem a possibilidade de cometer uma coisa tão horrenda como o Pecado? Por tudo o que já se disse até aqui, a resposta é imediata: porque Deus amava-os e, amando-os, queria premiá-los com a participação na Sua Eterna Bem-Aventurança a título de mérito, e para que os homens merecessem (na medida contingente da sua natureza de criatura) a Vida Eterna era necessário que eles pudessem, ao mesmo tempo, rejeitar a oferta de Deus. Liberdade, mérito e culpa existem sempre e necessariamente os três juntos, lembremo-nos. Eis aqui, pois, nascidos ao mesmo tempo, de um mesmo gesto de liberalidade divina, o livre-arbítrio, o Céu e o Inferno.

Num dos primeiros cantos (o terceiro, se a memória não me falha) da Comédia de Dante, o poeta coloca no frontispício da porta que conduz às profundezas do Hades uma inscrição que diz ter sido o Amor Supremo quem criou o Inferno. E foi exactamente isso o que aconteceu: foi por Amor que Deus criou os homens livres, e é da liberdade humana que decorre a possibilidade de amar a Deus ou de O rejeitar, de ir ao Céu ou ao Inferno. O verso do poeta é perfeito, e não significa que um sadismo divino criou, para próprio capricho, arbitrariamente, um lugar para torturar os homens: não, nada disso. Significa, isso sim!, que o Amor queria premiar os homens com a Vida Eterna – e, para que tal fosse possível, por uma necessidade imperiosa daquilo mesmo que essas palavras significam, era necessária esta porta pela qual se pode chegar à morada das dores.

Uma vez que se entenda isso, aquelas objecções iniciais deixam de fazer sentido; e, em contrapartida, sem que se compreenda a história completa, nenhuma explicação parcial da justiça do Inferno é capaz de convencer.

Jorge Ferraz in Deus lo vult


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domingo, 22 de outubro de 2017

Os inimigos de Deus e da Igreja perecerão

"Os homens que definem e criam estratégias para matar Deus, destruir a doutrina e o ensinamento da Igreja ao longo dos séculos, serão eles mesmos engolidos, transportados pela sua própria vitória terrestre para a Geena eterna." 

Cardeal Robert Sarah in 'Deus ou nada'


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