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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Um Padre desabafa: "Querem-nos casar à força!"

Querem-nos casar à força! Graças a Deus, a hipótese que estava em cima da mesa seria a de aceitar homens casados para a Ordenação e não o que muitos pensam (e até, sei lá porquê, queriam!) de permitir que os Padres se casem.

Também eu desejei casar e ter filhos. Mas Deus concedeu-me este dom que é o celibato. Insisto: é um DOM. O celibato não é fruto de um esforço inumano, desumano ou super-humano. É um dom de Deus a acolher, a cuidar e a rezar!

A Igreja (especialmente a latina) ao longo dos tempos tem percebido que este dom é de grande ajuda para que os seus Padres sejam mais claramente sinal da realidade do Céu, para a qual todos somos chamados a caminhar. Mas se se perde o horizonte, perde-se a razão. Se o Padre deixa de ser sinal da vida futura e é apenas uma profissão como qualquer outra neste mundo, então porque não podem ser casados? A pergunta é claramente pertinente.

Com a contínua perda do conceito sagrado de vocação (de modo especial da vocação sacerdotal), perdeu-se a noção do plano de Deus. Hoje tudo se escolhe segundo critérios que, por vezes, de divinos nada têm.

Vivemos um tempo de crise familiar (acima de tudo conjugal), porque se deixou de ver a vida como vocação, o Matrimónio como vocação (e também o Sacerdócio). Vocação entendida como um chamamento de Deus a uma vida de amor que é o seu próprio Amor (Caridade) a caminho do Céu e da plena comunhão na Caridade.

Ao perder-se isto, perde-se noção de toda a vida cristã e, então, já nada nos distingue do resto do mundo. Ao esquecer-se a Caridade (que é o maior fruto do Espírito Santo, e, por isso, sinal de uma vida espiritual incarnada), resta apenas a moralidade, ou, pior, o moralismo.

Com a crise familiar em que estamos e com a crise de espiritualidade que vivemos, será um risco enorme para as pessoas envolvidas (marido, mulher e filhos) e para a Igreja (latina e ocidental) permitir a ordenação a homens casados.

Na experiência recente de conferir o diaconado permanente a homens casados, têm-se assistido a problemas familiares, que seria bom serem bem avaliados antes de se dar esse passo. Infelizmente, não estou a falar de cor!

À imitação de S. Paulo, permiti que fale como um louco ao terminar este texto. Olhando para a realidade da Igreja como está, se eu amasse verdadeiramente a minha hipotética mulher e os meus hipotéticos filhos, nunca pediria o sacerdócio. Coitados deles! O povo de Deus sabe ser cruel. Como seria eu capaz de ouvir falar mal ou ver tratar mal aqueles que amasse assim? Eu nunca seria capaz de deixar que a minha hipotética mulher e os meus hipotéticos filhos fossem sujeitos aos impropérios, calúnias, maledicências a que eu estou sujeito!

Querem-nos casar à força! Mas eu, querendo ser Padre, por força do amor, nunca casaria!

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Perseguições

Nos últimos dias temos sido (menos do que devíamos e mal) informados sobre as perseguições atrozes aos cristãos e a outras minorias religiosas do Iraque.

Há muito tempo que este assunto me tem andado a fermentar cá dentro.

É muito fácil indignar-me com a injustiça e barbárie que está a acontecer lá longe. Mas, a mim (nós), em que, de facto, me (nos) afecta?

Estamos muito bem aqui a banhos, envolvidos em questiúnculas sobre o caso do BES, sobre o tempo que não propicia a praia, sobre o como aproveitar o tempo de recreio, sobre várias outras coisas, mais ou menos importantes, mais ou menos justas, entre as quais a guerra na Faixa de Gaza, em que cada um tem a sua opinião e o seu juízo.

Mas será que a perseguição dos cristãos no Iraque (e já agora, na China, no Egipto, no Sudão, em tantos outros lugares do globo) não desperta nada em nós, além da indignação?

Aqueles estão em risco de perder a vida por serem de Cristo. E nós?

Sentimo-nos provocados na nossa dormência? Damos graças a Deus por podermos viver em relativa paz e podermos ir à Igreja sem levarmos um tiro, ou de usar um crucifixo ao peito sem que nos agridam? Aproveitamos mais o nosso tempo para nos unirmos mais a Nosso Senhor? Estando de férias, aproveitamos o tempo livre que temos para poder ir à Missa, visitar o Santíssimo, rezar um pouco mais, fazer uma melhor leitura espiritual, visitar quem mais precisa de consolo?

A fé daqueles que são perseguidos provoca a minha?

Todos estamos indignados com o que se está a passar. Mas será que isso tem consequências práticas na nossa vida?

Àqueles, ser de Cristo pode custar-lhes a vida. E a nós? Sair mais cedo da praia para ir à Missa pode ser, no máximo, fonte de chacota dos amigos (que amigos?!?). Discutimos coisas inúteis sobre o assunto, que nada irão fazer para o resolver. E que tal convidar os que estão a discutir para rezar. Haverá medo de sermos chamados de fundamentalistas?

Queixamo-nos que o Ocidente vê o que se está a passar e fica calado. Mas, fazemos ouvir a nossa voz?

Como Padre, procuro não deixar passar uma oportunidade para espicaçar os que me ouvem, mas, mesmo assim, também eu talvez devesse fazer mais.

Mas mais do que tudo, não quero deixar passar esta “oportunidade” atroz sem me sentir provocado!

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre


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terça-feira, 22 de julho de 2014

Conforma a tua vida com o mistério da Cruz do Senhor

A reboque da reforma litúrgica realizada após o Concílio Vaticano II muitos foram os abusos que se fizeram e continuam a ser feitos. Um desses abusos, que o Papa Bento XVI, com o seu exemplo, tentou travar, foi o da “remoção dos Crucifixos das igrejas”. Desculpem o exagero! De facto, o crucifixo está lá, mas, normalmente, de esguelha, posto para um lado para não atrapalhar a visão.
            
Não deixa de ser curioso, pois uma das reformas realizadas a seguir ao Concílio foi a do Pontifical Romano, que introduz na Ordenação dos Presbíteros a seguinte “admoestação” quando se entrega o cálice e a patena ao recém-ordenado: «Recebe a oferenda do povo santo para a apresentares a Deus. Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da Cruz do Senhor».
            
Pode ser fragilidade minha, mas preciso mesmo de ter um Crucifixo voltado para mim quando celebro a Santa Missa. Centrando-me nele distraio-me muito menos ao celebrá-la. Centrando-me nele nesses momentos, ajuda-me a lembrar a Quem e a que momento da sua vida tenho de conformar a minha.
            
Se centrar toda a minha vida na Cruz de Cristo, se me puser no seu lugar, então, sim, “percebo” a Ressurreição. Mas não há Ressurreição sem Cruz!
            
Cada vez mais me fazem sentido as frases de S. Paulo: «Toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6, 14); «Nós pregamos Cristo crucificado» (1 Cor 1, 23); e também «Com Cristo estou crucificado» (Gal 2, 20).
            
Para o Padre, conformar toda a sua vida com o mistério da Cruz do Senhor é estar na cruz como Ele.
            
Se estivermos na cruz como Cristo, então iremos ter connosco a Igreja (que Maria Santíssima representa), os verdadeiros amigos (S. João) e os que querem amar verdadeiramente a Cristo (S. Maria Madalena). Mas também teremos alguns que, pertencendo ao mesmo povo que nós, o Povo de Deus, tal como a Cristo, nos irá gozar insultar, odiar.
            
Se o Padre não é o primeiro a subir à Cruz (como tão bem se representa na Forma Extraordinária do Rito Romano), como irá o Povo de Deus querer imitar a Cristo nas tribulações desta vida? Se o Padre não é o primeiro a abraçar a Cruz, como pode ajudar o Povo de Deus a fazê-lo?
            
Quantas não são as vezes em que apetece desviar os olhos da Cruz, as que não apetece abraçá-la, as que não apetece estar nela!
            
Deus me (nos) dê a graça de só descer dela morto e ressuscitado!
             
Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.
             
Um Padre


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sábado, 12 de julho de 2014

Os Conservadores

Desde que entrei para o seminário, era frequente ouvir críticas aos conservadores. Estes eram uns tipos que andavam por aí vestidos de cabeção (ou pior ainda, de batina), que afastavam o povo de Deus com as suas exigências moralistas e imposições autoritárias, que se mantinham agarrados a tradições que já não faziam sentido, como dar (ou receber) a Comunhão na boca, ter adorações ao Santíssimo, confessar “a torto e a direito”, etc.. Eram pessoas execráveis, que só faziam mal à Igreja, que não aceitavam o Concílio (e o seus “espírito”), que não sabiam ler os sinais dos tempos, intolerantes, ressabiados, azedos, etc.

Não era esta a experiência que eu tinha feito até então. Conforme ia conhecendo mais a fundo esta aversão dos que se diziam “conciliares”, mais ia percebendo que a questão era (e é) totalmente ideológica. Como é meu costume, lá me ia interrogando o porquê desta polémica, que não me fazia sentido, mais ainda quando passei eu a ser incluído neste grupo repulsivo.

Tentei, ao longo dos anos, mostrar o lado positivo do conservador, que, para mim é muito diferente do “tradicionalista”, dizendo que o conservador é aquele que muda o que tem de ser mudado, mantendo o que acha que deve ser mantido.

Quando o Papa Bento XVI disse que a interpretação do Concílio Vaticano II deveria ser feita na continuidade da história da Igreja, senti-me confirmado. Já agora, lembro que o Papa Francisco repetiu e confirmou o que dissera o seu predecessor.

Ao longo destes vários anos tenho-me confrontado com a impossibilidade de conseguir dar um valor positivo ao conceito de Conservador. Por isso, “se não podes vencê-los, junta-te a eles”. Pego por isso nas razões teológicas, pastorais, intelectuais e “conciliares” com que se costuma definir os conservadores: são aqueles que são incapazes de ler os sinais dos tempos e que, por isso, não evoluem.

Ao ver o que se tem passado nos anos recentes da história da Igreja, iluminado pelo magistério de todos (e friso o “todos”) os Papas “pós-conciliares”, uns com mais clareza, outros, não tanto, só posso chegar a uma conclusão: eu é que não sou conservador!

Deste modo, considero como conservadores aqueles que ficaram estagnados nos anos 60! São conservadores aqueles que ficaram presos a uma interpretação do Concílio datada e incapazes de sair do seu preconceito. São conservadores aqueles que teimam em não ler as notas de rodapé dos textos do Concílio Vaticano II que se referem aos do Concílio de Trento. São conservadores aqueles que teimosamente opõem Trento a Vaticano II.

Conservadores são aqueles que, em tempos, tomaram o “chavão” da reforma protestante “Ecclesia semper reformanda” pretendendo, com o Concílio e a sua interpretação peculiar, torná-lo católico, mas que só não se aplica aos mesmos desde os anos 60/70. Graças a Deus não sou conservador!

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.


Um Padre


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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Quando a Igreja cede ao mundo

Há um pormenor no Evangelho segundo S. Mateus (16, 13-19) que é lido na Festa de S. Pedro e S. Paulo, que muito poucas vezes tenho visto (ou ouvido) ser explorado. Provavelmente devido ao seu aspecto pouco simpático em relação ao que o mundo diz.

Nosso Senhor pergunta aos Apóstolos o que dizem os outros sobre Ele, e os Apóstolos repetem o que diz o “mundo”: disparates!

E quando pergunta aos Apóstolos o que dizem eles d’Ele, é Pedro quem toma a iniciativa, mas, como diz Nosso Senhor, movido pela ciência divina e não humana, e dá a resposta correcta, mesmo sem a perceber, porque, logo a seguir, seguindo os critérios humanos, Pedro “desdiz” a sua confissão ao querer “mundanizá-la”. Este é um risco constante para a Igreja!

Sempre que na Igreja se utiliza a linguagem do mundo para se dialogar com ele, ou falar no seu interior de uma forma “mais compreensível”, o resultado é disparate. É certo que Nosso Senhor utiliza as armas do inimigo para o vencer.

Mas nós, na nossa humana fraqueza, sempre que tentamos “jogar” com as armas do “inimigo” para nos defendemos, o convertermos, dialogar com eles, acabamos sempre por cair na esparrela e saímos perdedores. E não só nós, mas também aqueles que temos diante de nós.

Precisamos perceber a linguagem do mundo, precisamos perceber os problemas do mundo, precisamos perceber as inquietações do mundo, mas nunca para respondermos com a mesma moeda ou linguagem. Sempre que não nos deixamos inspirar, mesmo sem perceber a totalidade do mistério, pela Graça, a nossa resposta será sempre vazia.

Não podemos cair na tentação de reduzir a nossa linguagem sobre a Igreja, sobre o mundo, sobre o homem, a uma linguagem mundana, pois assim iremos sempre defraudar os que temos diante de nós. Podemos correr o risco de não sermos percebidos, mas não podemos correr o risco de faltarmos à verdade em detrimento da compreensão e de um pretenso sucesso.

Quando a Igreja cede ao mundo na sua linguagem, nos seus gestos, na sua verdadeira identidade, não é apenas a Igreja que perde, é o mundo!

Com este episódio do Santo Evangelho e o que se lhe segue (Mt, 16, 21-23), somos alertados para que, sempre que nos deixamos influenciar pela mentalidade ou linguagem do mundo, podemos facilmente tornarmo-nos instrumentos do inimigo.

Não basta professar a nossa fé em Nosso Senhor Cristo e mantermos os nossos critérios mundanos, ou, pior ainda, reduzir Cristo a categorias mundanas. Sempre que o fizermos, numa pretensa ideia de melhor diálogo com o mundo, estamos a “abjurar” a nossa fé e a defraudar o mundo, a Igreja, a Deus.

Quando a Igreja cede ao mundo, o mundo invade a Igreja e esta deixa de poder exercer a sua missão tal como devia. Quando a Igreja cede ao mundo, perde o mundo, não o ganha. Quando a Igreja cede ao mundo, é conquistada por ele, em vez de o conquistar para Cristo!


Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.



Um Padre


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quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Crise da Adolescência

A adolescência é uma fase da vida humana tremenda. Nela existe uma indefinição e uma crise de identidade fortíssima: já não se é criança, mas ainda não se é adulto; despertam-se sentimentos e emoções que já se assemelham, em algumas coisas às dos adultos, mas ainda não se deixaram por completo certos comportamentos infantis.

Na adolescência fazem-se grandes descobertas: descobre-se uma afectividade diferente perante o outro; o mundo ganha uma nova e maior dimensão; as relações mudam; desperta uma capacidade própria de pensar; encontra-se um mundo novo.

Nesta idade põe-se em causa a autoridade dos mais velhos, pensa-se que estes já estão ultrapassados, que o mundo que agora se descobre é diferente do que o dos que nos precederam.

Nesses anos de crescimento, tudo é posto em causa, tudo tem de fazer sentido segundo uma nova mentalidade e que se encaixe na perfeição com as novas emoções e sentimentos.

Sabemos todos (uns melhor, outros menos bem) o sentimento de desajustamento que este processo de crescimento causa.

É um tempo crítico que molda a nossa personalidade. Ou se encontra o equilíbrio e, com a novidade, se continua o que foi transmitido pelas gerações mais velhas, ou se rompe completamente com a história e se fica sempre numa constante busca de se ser diferente.

No primeiro caso, vê-se que a crise acabou e que se formou um adulto equilibrado. No segundo, a adolescência continua e ainda não se chegou a uma verdadeira adultês, mantendo, normalmente uma rebeldia e uma soberba relativamente às gerações passadas.

Graças a Deus, conheço imensos adultos que ultrapassaram a crise da adolescência e são pessoas equilibradas (não sem algumas mazelas!), mas cada vez mais conheço “adultos” que ainda estão a viver a crise da adolescência.

Pior ainda, vejo que estes últimos começam a dominar no meio do mundo e, por isso, também no seio da Igreja.

Vivemos tempos conturbados, em que a novidade, só porque é novidade, é que interessa e é boa. Vivemos tempos em que, no mundo e na Igreja, o que é “velho” é caduco, desajustado e inútil. O Santo Padre tem falado muitas vezes do risco de se considerar os mais velhos como descartáveis.

O problema não é pensar-se isso apenas em relação às pessoas mais velhas, é pensar-se isso de dois mil anos de história, de santos e de vidas de santos, de coisas grandes que se fizeram e se escreveram e enviar tudo isso para a “reciclagem”, não para que ganhem uma nova actualidade, mas para que desapareçam e surjam coisas totalmente novas e distintas.

Quer-se uma nova Igreja, uma nova Teologia, uma nova Liturgia. Será que é preciso romper em definitivo com o que nos chegou como fruto de tantos séculos de santidade? Que se segue? Uma nova Escritura e um novo Cristo?

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre


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domingo, 18 de maio de 2014

Incomodai os pastores, importunai os pastores

Estas foram as palavras que mais ficaram no ouvido de alguns, depois de o Santo Padre as ter dito no Domingo passado. Mas o Santo Padre disse-o com uma finalidade: «incomodai os pastores, importunai os pastores, todos nós pastores, a fim de que possamos dar-vos o leite da graça, da doutrina e da guia».

Mas para que vos possamos dar «o leita da graça, da doutrina e da guia», precisamos nós de estar unidos à fonte, e a fonte é Cristo, que “jorra do altar”. É extremamente importante para a Igreja e para o mundo, que nos importunem para pedir a Confissão ou direcção espiritual. Mas para que possamos «dar-vos o leite da graça, da doutrina e da guia», precisamos de momentos concretos e precisos para nos centrarmos no essencial.

Quantas vezes temos as sacristias “invadidas” quando chegamos para nos prepararmos para a Santa Missa e logo a seguir a ela! Quantas vezes estamos a rezar o Breviário na Igreja, diante do Santíssimo e nos vêm interromper!

Se a preparação para a Santa Missa e a acção de graças têm orações “pro opportunitate”, ou seja, facultativas, o Breviário é obrigação. Precisamos que nos deixem rezar diante de Nosso Senhor para melhor O poder dar a quem no-Lo pede!

Do Missal de 1962 para o de Paulo VI (que foram reduzidas e remetidas para apêndice e que, na versão portuguesa, vá-se lá saber como e porquê, nem sequer constam), as orações de preparação para a Santa Missa e em acção de graças depois dela são um manancial de graça, que nos ajuda a centrar no essencial. 

A sacristia, especialmente antes e depois da Santa Missa, deveria ser um lugar de silêncio e oração para que o Padre se possa centrar em Cristo, para melhor O poder dar aos outros. Será que tudo é assim tão urgente, que não se possam esperar cinco ou dez minutos para que o Padre “desça” do altar ao mundo?

Pedir a Confissão imediatamente antes da Missa parece-me ser uma boa razão. Mas não se poderia lá estar um pouco antes ou pedir para que o Padre esteja um pouco antes? Mas depois da Santa Missa, mesmo este pedido não pode esperar um pouco?

E quando o Padre está diante de Nosso Senhor a rezar, não podemos aproveitar a oportunidade para rezar com ele e por ele? Se quando vamos ter com um Padre é para lhe pedir Cristo, porque havemos de abruptamente interromper esse momento, que tão necessário é para ele e para toda a Igreja.

Incomodem-nos, importunem-nos, também rezando connosco e por nós. Isto é também uma provocação para nós. Incomodem-nos, importunem-nos, pedindo-nos Cristo, mas de modo a que não nos afastemos de Cristo.

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre



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segunda-feira, 12 de maio de 2014

A propósito do Domingo do Bom Pastor

[Nota introdutória: O blog Senza passará a publicar textos escritos por um Sacerdote que permanecerá no anonimato, para que as suas palavras sejam escutadas sem qualquer tipo de protagonismo, e que assinará simplesmente como "Um Padre"]

Há um tipo de conversa que, por norma, costuma incomodar-me bastante: conversas sobre Padres e Bispos.

Por mais que procure evitá-la, lá acaba por acontecer de vez em quando. Infelizmente, a maior parte das vezes é para ouvir queixas e algumas, elogios. Mesmo quando parece haver razões para que essas conversas surjam, costumam, no entanto, incomodar-me.

Isto acontece porque, na maioria dos casos, estas conversas versam sobre questões secundárias e não sobre o essencial. E o essencial é Cristo!

Nós, Padres, existimos para dar Cristo, levar Cristo aos homens e os homens a Cristo. Existimos para, na nossa imperfeição, sermos sinal de Cristo. O espantoso é que Cristo Se sujeite a isto! Não há Padre mais santo sem defeitos humanos. E se somos pouco santos, mais se manifestam os nossos defeitos.

Ora, a questão está no modo como nós queremos olhar para os nossos Padres e Bispos (e, já agora, para o nosso Papa). Olhamos com olhos de fé e queremos ver neles um sinal concreto e palpável de Cristo? Ou olhamos com os nossos critérios e gostos próprios e prendemo-nos naquilo que nos agrada, e, mais ainda, no que não nos agrada?

Muito haveria para falar sobre isto, mas, assim, nunca mais acabava. Como resolver isto? Leão XIII deu-nos a resposta: rezando por eles. Se gastássemos tanto tempo a rezar pelos Padres quanto o que gastámos a falar sobre eles (melhor seria em vez de falar), provavelmente teríamos muitos mais Padres santos.

As Orações Leoninas, no fim da Santa Missa, não foram proibidas. Se hoje já não se rezam de forma pública, nada nos impede, a não ser a preguiça e a inércia, de o fazermos de forma privada! Rezemo-las não por um mero gosto pela tradição, mas porque são mesmo necessárias para a santificação do Clero.

Rezemos pelos nossos Padres (não esquecendo os nossos Bispos e Papa). Nós precisamos! O Diabo odeia-nos!

Já agora, acrescento esta belíssima oração de um grande Padre pelos Padres.

ORAÇÃO PELOS SACERDOTES (Cón. Formigão)

Meu Deus, peço-Vos pelos vossos Padres, por todos os vossos Padres. 
Peço-Vos para eles a santidade. 
Peço-Vos que eles amem profundamente o seu sacrifício e que o vivam com amor. 
Peço-Vos para eles a obediência, o espírito de desprendimento, uma inalterável e límpida castidade, e também a abnegação, a humildade, a doçura, o zelo, a dedicação. 
Peço-Vos que nenhuma alma se aproxime deles sem que fique a amar-Vos mais. 
Peço-Vos, meu Deus, que o vosso Reinado se dilate e se fortifique por meio deles, sobre a terra. 
Prometo-Vos, ó Jesus, imolar-me convosco de todo o meu coração. Amen.

Dominus nos benedicat, et ab omni malo defendat, et ad vitam perducat aeternam. Amen.

Um Padre
Papa Francisco ordena 11 novos Sacerdotes na Basílica de S.Pedro (11-V-2014)


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