quarta-feira, 31 de março de 2021

Quarta-Feira Santa: Judas Iscariotes trai Nosso Senhor

Vem cá, demónio, outra vez. Tu sábio? Tu astuto? Tu tentador? Vai-te daí, que não sabes tentar. Se tu querias que Cristo se ajoelhasse diante de ti, e souberas negociar, tu o renderas.

Vais-lhe oferecer a Cristo mundos? Oh! que ignorância! Se quando lhe davas um mundo, lhe tiraras uma alma, logo o tinhas de joelhos a teus pés. Assim aconteceu. Quando Judas estava na Ceia, já o diabo estava em Judas: Cum jam diabolus misisset in cor ut traderet eum Judas. – Vendo Cristo que o demónio lhe levava aquela alma, põe-se de joelhos aos pés de Judas, para lhos lavar, e para o converter. Senhor meu, reparai no que fazeis: não vedes que o demónio está assentado no coração de Judas? 

Não vedes que em Judas está revestido o demónio, e vós mesmo o dissestes: Unus ex vobis diabolus est? – Pois, será bem que Cristo esteja ajoelhado aos pés do demónio? Cristo ajoelhado aos pés de Judas, assombro é, pasmo é; mas Cristo ajoelhado, Cristo de joelhos diante do diabo? Sim. Quando lhe oferecia o mundo, não o pôde conseguir; tanto que lhe quis levar uma alma, logo o teve a seus pés. Para que acabemos de entender os homens cegos, que vale mais a alma de cada um de nós que todo um mundo.

As coisas estimam-se e avaliam-se pelo que custam. Que lhe custou a Cristo uma alma, e que lhe custou o mundo? O mundo custou-lhe uma palavra: Ipse dixit, et facta sunt - uma alma custou-lhe a vida, e o sangue todo. Pois, se o mundo custa uma só palavra de Deus, e a alma custa todo o sangue de Deus, julgai se vale mais uma alma que todo o mundo. Assim o julga Cristo, e assim o não pode deixar de confessar o mesmo demónio. E só nós somos tão baixos estimadores das nossas almas, que lhas vendemos pelo preço que vós sabeis. 

Pe. António Vieira in Sermão do Primeiro Domingo da Quaresma (1653)


blogger

Notas sobre o Ofício de Trevas, rezado nos últimos 3 dias da Semana Santa



blogger

terça-feira, 30 de março de 2021

O que é o Ofício de Trevas?


I - O nome

O Ofício de Trevas ou as Trevas (Matutina Tenebrarum) é o Ofício das Matinas e Laudes dos três últimos dias da Semana Santa. O nome deriva:

a) Das trevas naturais de meia-noite ou ao anoitecer, horas estas destinadas à recitação do ofício.
b) Da prisão de Jesus durante a noite. O Salvador nos diz que esta hora era a do poder das trevas: hæc est hora vestra et potestas tenebrarum (Lc 22, 53).
c) Das trevas litúrgicas, pois que durante o ofício se apagam as luzes da igreja e se vão apagando todas as velas.
d) Das trevas simbólicas da paixão. Quando Jesus morreu, trevas cobriram a Terra. Este ofício, lembrando as trevas do Calvário,  representa o luto comovedor da Esposa de Cristo, da Igreja. Por isso faltam o invitatório solene, os hinos, o Gloria Patri; o acompanhamento musical, o Te Deum. Todas as antífonas, os salmos, as lições tratam do divino Sofredor.

As três primeiras lições são tiradas das lamentações de Jeremias e formulam na boca da Igreja a dor íntima sobre os ultrajes feitos ao Filho de Deus e sobre a impenitência histórica de Jerusalém, figura da impenitência da alma. Historicamente o ofício divino destes três dias conservou a sua forma antiga.

II - A cerimónia e o seu significado
 1. Preparativos

Do altar retiram-se as toalhas, a cruz e os castiçais. No lado da epístola, põe-se o candelabro triangular (tenebrário, galo das trevas) com “15 velas de cera amarela”, as velas do altar devem ser “exeadem cera”. No meio do coro coloca-se uma estante nua para o livro das lamentações.

2. Descritivo Geral do Rito

a) Acende-se as velas do tenebrário. Revestidos de sobrepeliz, os membros do clero entram em procissão.

b) Todas as Antífonas e os Salmos são entoados por dois chantres: todas as vezes estes devem dirigir-se ao meio do coro, fazer reverência ao altar, e entoarão a Antífona. Em seguida convidarão com uma vénia o lado do Evangelho a continuar a salmodia. Depois de fazer a reverência ao altar e saudarem-se mutuamente, retornam aos seus lugares. No fim de cada salmo, um acólito (sacristão) dirige-se ao santuário e apaga uma vela do tenebrário começando pela inferior do lado do evangelho; depois do segundo, apaga a vela inferior do lado da epístola; ao terceiro salmo apaga a segunda vela do lado do evangelho, etc.

Depois da entoação da primeira antífona e do salmo, todos se sentam. Permanece-se assim durante os três noturnos, levantando-se apenas para a recitação do Pater noster que precede as lições de cada noturno.

c) Alguns versos antes do fim do terceiro salmo, o cerimoniário do coro (coloca a estante no lugar, e) chama o chantre que cantará a primeira lamentação. Ele acompanha-o à estante, e permanece ao seu lado durante o canto da lição; em seguida ele acompanha-o ao seu lugar. O cerimoniário do coro fará assim para as nove lições (retirando a estante depois de ter acompanhado o último chantre ao seu lugar). O tom que se deve cantar as lições do segundo e terceiro noturno é o da profecia.

d) Depois do nono responsório, permanece-se sentado para o canto das Laudes. Ao começar o Benedictus, todos se levantam e se benzem, porque são palavras do Santo Evangelho. Ao verso “Ut sine timore” apagam-se todas as luzes da igreja; assim, só a vela que está no vértice do tenebrário permanece acesa. O clero senta-se enquanto se repete a Antífona do Benedictus, depois ajoelham-se para o canto do Christus factus est, que é entoado pelo mais digno do coro. Enquanto se repete a Antífona, o acólito pega a vela que permanece acesa, e coloca-se no lado da Epístola, tendo a vela apoiada na borda do altar. À entoação do Christus, esconde a vela atrás do altar, sem a apagar. A conclusão da oração que segue o Christus faz-se em voz baixa. O cerimoniário do coro bate a mão sobre o banco ou sobre o seu livro, e o coro faz barulho da mesma maneira, até o momento em que o acólito que tem a vela escondida a faz aparecer. Então o barulho cessa. O acólito recoloca a vela no tenebrário, e apaga-a. Em seguida o clero se levanta, e se retira em procissão.

3. Explicação mística

Essa cerimónia tão simples é muito rica em significação. Estamos nos dias em que a glória do Filho de Deus se eclipsou sob as ignomínias da Paixão. Ele, que era a luz do mundo, torna-se um verme e não um homem, causa de escândalo para os seus discípulos. Todos fogem d’Ele; o próprio Pedro o nega. Este abandono, esta defecção quase geral, é figurada pela sucessiva extinção das velas do candelabro triangular, e mesmo das do altar.

No entanto, esta luz desprezada de Cristo, não está extinta, embora as sombras a tenham coberto. O acólito coloca a vela misteriosa sobre o altar, o que simboliza Cristo que sofre e morre sobre o Calvário; de seguida, esconde a vela atrás do altar, simbolizando assim a sepultura de Nosso Senhor, cuja vida foi apagada pela morte durante três dias. Neste momento então, faz-se escutar um confuso barulho no santuário, que é deixado na escuridão pela ausência da última vela. Este barulho, unido às trevas, simboliza a perturbação dos inimigos e as convulsões da natureza: no momento em que o Salvador expirou sobre a cruz, a Terra tremeu, as rochas se fenderam e os sepulcros foram abertos. Porém, de repente, a vela reaparece, sem ter perdido nada da sua luz; o barulho cessa, e todos rendem homenagem ao Vencedor da morte.

A razão histórica do rito de apagar pouco a pouco as velas do tenebrário provavelmente é a imitação do modo antigo de contar. Apaga-se uma vela depois de cada salmo, para constar quantos foram recitados.

4. As leituras

a) Primeiro Nocturno: Estas são tiradas, em cada um dos três dias, do livro das Lamentações de Jeremias. Aí vemos o desolante espectáculo da Cidade Santa destruída por causa do castigo da sua idolatria. No entanto, este desastre, nada mais é do que a figura de um outro muito pior. Jerusalém, tomada pelos Assírios, ainda conserva o seu nome, e o profeta diz que o cativeiro durará setenta anos.

b) Mas, na sua segunda ruína, a cidade infiel perderá até mesmo seu nome. Reconstruída mais tarde pelos romanos, ela foi chamada de Ælia Capitolina. Foi só depois da paz da Igreja que ela voltou a ser chamada Jerusalém. Além disso, nem a piedade de Santa Helena e de Constantino, nem os esforços dos Cruzados, conseguiram manter a liberdade de Jerusalém, de modo que a sua sorte é ser escrava, e escrava dos infiéis, até o fim dos tempos.

c) Foi nestes dias que Jerusalém atraiu a si tão terrível maldição. E é para fazer-nos conhecer a grandeza de seu crime, que a Igreja nos faz ouvir os prantos do profeta. Esta elegia é cantada num tom cheio de melancolia, que talvez remonta à antiguidade judaica.

d) Segundo Noturno: Durante estes três dias, a Igreja lerá alguns trechos das Enarrationes super Psalmos de S. Agostinho, sobre salmos proféticos da Paixão de Jesus.

e)  Terceiro Noturno: Nos três dias a Igreja nos fará ler trechos das epístolas de S. Paulo:

Na Quinta-Feira Santa é a epístola aos Coríntios: depois de ter chamado a atenção dos fiéis de Corinto em razão dos abusos que se haviam introduzido nas suas assembleias, S. Paulo conta a instituição da Eucaristia, que teve lugar no dia de hoje. E, depois de mostrar quais as disposições que deve ter a alma para aproximar-se da mesa sagrada, mostra o crime que comete quem comunga indignamente.
Na Sexta-Feira Santa lê-se a epístola aos Hebreus: S. Paulo nos mostra que o Filho de Deus tornou-se Pontífice e intercessor pelos homens diante do Seu Pai, por meio da efusão do Seu Sangue, pelo qual Ele lava nossos pecados e nos abre as portas do Céu.
No Sábado Santo, a Igreja continua a ler, na epístola aos Hebreus, a doutrina de S. Paulo sobre a virtude do Sangue divino. O Apóstolo explica que o testamento de Cristo em nosso favor, só pôde consumar-se por meio da Sua morte.

in formaextraordinaria.blogspot.pt



blogger

Stat crux dum volvitur Orbis




blogger

segunda-feira, 29 de março de 2021

Cardeal Sarah pede ao Papa Francisco para alterar a proibição das Missas privadas em São Pedro

«Por todas as razões aqui expostas e por outras, juntamente com um número ilimitado de baptizados (muitos dos quais não querem ou não podem exprimir o seu pensamento), peço humildemente ao Santo Padre que ordene a retirada das recentes normas emanadas do Secretariado de Estado, que carecem de justiça e de amor, não correspondem à verdade nem à lei, e não facilitam, antes põem em perigo o decoro da celebração, a devota participação na Missa e a liberdade dos Filhos de Deus.”

Com essas palavras, o Cardeal Sarah termina o seu texto sobre as novas normas que regem a celebração das Missas na Basílica de São Pedro, em Roma. O Cardeal concorda com as objeções levantadas pelos cardeais Burke, Müller e Brandüller em relação à mesma questão.

O purpurado recorda que “a celebração individual do sacerdote continua a ser obra de Cristo e da Igreja. O Magistério não só não o proíbe, mas também o aprova, e recomenda que os sacerdotes celebrem a Santa Missa todos os dias, porque uma grande quantidade de graças flui de cada Missa para o Mundo inteiro.

O Cardeal Sarah alerta que é “um facto singular obrigar os padres a concelebrar. Os padres podem concelebrar se quiserem, mas será que a concelebração pode ser imposta? As pessoas vão dizer: se não quer concelebrar, vá para outro lugar! Mas é este o espírito acolhedor da Igreja que queremos encarnar?"

E acrescenta:

"Muitos padres vêm a Roma em peregrinação! É muito normal que eles, mesmo que não tenham um grupo de fiéis que os acompanhe, alimentem o desejo saudável e belo de poder celebrar a Missa em São Pedro, talvez no altar dedicado a um santo pelo qual têm especial devoção. Há quantos séculos a Basílica acolhe esses padres? E por que razão já não os quer receber se eles não aceitam a imposição da concelebração?"

O purpurado pergunta também: "O que farão os sacerdotes que chegam a Roma e não sabem [falar] italiano? Como conseguirão concelebrar em São Pedro, onde as concelebrações acontecem apenas em italiano?"

O Prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos aponta para a questão da Missa Tridentina:

«... com base nas novas normas, o que deve fazer um sacerdote que deseja legitimamente continuar a celebrar a Missa individualmente? Ele não teria escolha a não ser celebrá-la na forma extraordinária, uma vez que está impedido de celebrá-la individualmente na forma ordinária.

E também aponta que as disposições do Papa Bento XVI estão a ser violadas:

«A decisão quanto à forma extraordinária do Rito Romano também é singular, está especificado que tais celebrações serão realizadas apenas por padres "autorizados". Essa indicação, além de não respeitar as normas contidas no Motu Proprio 'Summorum Pontificum' de Bento XVI, também é ambígua: quem deve dar a autorização a esses padres?



blogger

Mais interessa a virtude do que a reputação

As pessoas que são frágeis e sensíveis em relação à sua reputação assemelham-se às que, ao mais leve sinal de incómodo, tomam medicamentos, pois pensam que assim mantêm a sua saúde, enquanto, na prática, a deterioram. Aquelas que querendo manter tão delicadamente a sua reputação a perdem inteiramente, porque, com esta sensibilidade, se tornam bizarras, obstinadas, insuportáveis e provocam a malícia dos maledicentes.

A reputação é simplesmente como uma insígnia que dá a conhecer onde está alojada a virtude. Portanto, a virtude deve ser preferida em tudo e em toda parte. Se as pessoas dizem que és um hipócrita porque te submetes à devoção; se és tido como homem de pouca fibra porque perdoaste a injúria, não faças caso de tudo isto. 

Porque esses julgamentos são feitos por pessoas néscias e estúpidas na tentativa que a pessoa perca a sua reputação, mas nem por isso deve abandonar a virtude nem afastar-se do seu caminho, tanto mais que se deve preferir o fruto às folhas, isto é, o bem interior e espiritual a todos os bens exteriores. É preciso ser zeloso, mas não idólatra de nossa reputação; e como não se deve ofender os olhos dos bons, também não se deve querer contentar o dos malignos.

São Francisco de Sales in 'Introduction à la vie dévote' (III, cap. VII, I, 120-121)


blogger

domingo, 28 de março de 2021

Procissão de Domingo de Ramos em Londres (1942)



blogger

Domingo de Ramos: Começa a semana mais importante para os Cristãos

O Domingo II da Paixão, mais conhecido por Domingo de Ramos, abre a Semana Santa e marca o início da etapa final da Quaresma. Neste dia, a Igreja celebra a entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, cheio de glória e de humildade, pronto para cumprir o seu Mistério Pascal.

Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: "Ide à aldeia que aí está diante de vós e logo achareis presa uma jumenta e com ela um jumentinho. Desprendei-a e trazei-los. E, se alguém vos disser alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles". – Isto aconteceu para que se cumprisse a Profecia de Zacarias: "Dizei à filha de Sião: 'Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga.'" (Zc 9,9).

Indo os discípulos e tendo feito como Jesus lhes ordenara, trouxeram a jumenta e o jumentinho, e puseram em cima deles as suas vestes, e sobre elas Jesus montou. E o povo, tanto os que o precediam quanto os que o seguiam, o acolheram como Rei, agitando ramos de palmeira e clamando: "Hosana ao filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!". Com isso toda a cidade de Jerusalém se agitou, e perguntavam: "Quem é este?" E as multidões clamavam: "Este é o Profeta Jesus, de Nazaré da Galileia” (Mt 21,1-11).

A Procissão de Ramos

Vem de fora e tem como ponto de partida um lugar de reunião dos fiéis, fora da igreja. A proclamação do Evangelho conta a entrada de Jesus em Jerusalém, e assim se inicia a procissão até o interior do templo.

Nessa procissão, a Igreja não comemora apenas o santo evento do passado e celebra com louvor e acção de graças a realidade presente, mas também antecipa o seu glorioso cumprimento no fim dos tempos. Os ramos não devem ser postos no lixo depois da procissão, mas levados para casa e lá guardados com respeito, ou então queimados.

A cinzas, que são usadas na Quarta-Feira de Cinzas, são feitas com os ramos bentos deste dia, obedecendo a um costume que vem do século XII.


in 'O Fiel Católico'


blogger

sábado, 27 de março de 2021

Notas sobre o Domingo de Ramos na Liturgia pre-1955



blogger

O que é a Correcção Fraterna?

CORREÇÃO FRATERNA é a admoestação feita ao próximo, privadamente e procedendo da caridade fraterna, para emenda de delito. Pode ser coativa, e pertence ao Superior e ostensiva, e pertence a todos. Ambas são de preceito, mas a segunda só quando o delinquente pode ser corrigido sem incômodo, com
esperança de emenda, e não havendo Superior. 

O Superior deve ser corrigido pelos súditos, mas secretamente, com mansidão e reverência, a não ser que, por causa do perigo da fé, deva ser feita em público. A correção deve ser feita: 

1) em segredo, ao delinquente; 
2) particularmente ao Superior, em segredo; 
3) perante testemunhas; 
4) publicamente. 

Mas esta ordem deve ser guardada somente quanto aos pecados ocultos. O que deixa de fazer a correção fraterna, por não esperar emenda ou por pensar que resulta pior, não peca. O Apóstolo São Paulo ensina como deve ser feita o correção: «Não repreendas com aspereza ao velho, mas admoesta-o como a pai; aos jovens como a irmãos; às velhas como a mães; às jovens como a irmãs, com toda a pureza. Aos pecadores repreende-os diante de todos, para que também os outros tenham medo» (Ep. I Timót. V, 1, 2, 20).

Quem corrige ou castiga deve fazê-lo com caridade, embora algumas vezes com severidade, e não para satisfazer a um movimento de ira, ou de vingança, ou de simples mau humor. Devemos aceitar a correção assim como o castigo com humildade, esperando que de algum proveito nos servirá.

Padre José Lourenço in 'Dicionário da Doutrina Católica'


blogger

sexta-feira, 26 de março de 2021

Jesus tem muitos companheiros de mesa mas poucos de abstinência

Jesus tem muitos que amam o Seu reino, mas poucos que gostem de carregar a Sua cruz. Tem muitos que desejam consolação, mas poucos tribulação. Encontra bastantes companheiros de mesa, mas poucos de abstinência. Todos desejam alegrar-se com Ele, mas poucos querem suportar por Ele alguma coisa. Muitos seguem Jesus até à fracção do pão, mas poucos até ao beber do cálice da Paixão. 

Muitos veneram os seus milagres, mas poucos seguem a ignomínia da Cruz. Muitos amam a Jesus, enquanto as adversidades não os tocam. Muitos O louvam e bendizem enquanto dele recebem quaisquer consolações, mas se Jesus Se esconder e os abandonar um pouco, caem nos queixumes ou em grande abatimento. 

Aqueles, porém, que amam Jesus por Jesus, e não por si próprios, bendizem-No em toda a tribulação e angústia, tal como na maior consolação. E, ainda que Ele nunca lhes quisesse dar consolação, louvá-Lo-iam sempre e sempre Lhe quereriam dar graças. Oh, quanto pode o puro amor a Jesus, não misturado a nenhuma comodidade pessoal ou amor próprio! 

in Imitação de Cristo, Livro II, cap. 11


blogger

As 7 Dores de Nossa Senhora e a Quaresma

Esta Sexta-Feira antes da Semana Santa é tradicionalmente dedicada a Nossa Senhora das Dores, que, nos acontecimentos que se aproximam, viu cumprida a profecia de Simeão quando disse que uma espada trespassaria o seu coração. Esta meditação nas 7 dores de Nossa Senhora é muito útil para rezar diariamente, especialmente nestes dias até à Páscoa.

Primeira Dor
Pela dor que sofrestes ao ouvir a profecia de Simeão, de que uma espada trespassaria o vosso Coração, Mãe de Deus, ouvi a nossa prece.
Ave Maria...

Segunda Dor
Pela dor que sofrestes quando fugistes para o Egipto, apertando ao peito virginal o Menino Jesus, para salvar das fúrias do ímpio Herodes, Virgem Imaculada, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Terceira Dor
Pela dor que sofrestes quando da perda do Menino Jesus por três dias, Santíssima Senhora, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Quarta Dor
Pela dor que sofrestes quando viste o querido Jesus com a Cruz ao ombro, a caminho do calvário, virgem Mãe das Dores, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Quinta Dor
Pela dor que sofrestes quando assististes à morte de Jesus, crucificado entre dois ladrões, Mãe da Divina graça, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Sexta Dor
Pela dor que sofrestes quando recebestes nos vossos braços o corpo inanimado de Jesus, descido da Cruz, Mãe dos Pecadores, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

Sétima Dor
Pela dor que sofrestes quando o Corpo de Jesus foi depositado no sepulcro, ficando vós, na mais triste solidão, Senhora de todos os povos, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...


blogger

quinta-feira, 25 de março de 2021

O que é o 'Angelus' e como rezar?

Angelus (1857-1859) de Jean-François Millet, Musée d’Orsay

Angelus é uma oração em honra da Encarnação de Deus, no dia da Anunciação. Tradicionalmente é rezada três vezes durante o dia: de manhã, ao meio dia e ao entardecer. A oração é constituída de três textos que descrevem o mistério da Encarnação, respondidos com uma Avé Maria e uma oração final. A invocação "Angelus Domini nuntiavit Mariæ", foi retirada do Hino a Nossa Senhora: "Alma Redemptoris".

Não se sabe ao certo a origem do Angelus, mas no séc. XIV já era comum em toda a Europa rezar, ao anoitecer, em louvor da Virgem Maria. Nessa época, os versículos não eram os actuais. Eram assim (só encontrei em latim e inglês):

Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum (Hail Mary, full of grace, the Lord is with thee)
Dulcis instar mellis campana vocor Gabrielis (I am sweet as honey, and am called Gabriel's bell)
Ecce Gabrielis sonat hæc campana fidelis (Behold this bell of faithful Gabriel sounds)
Missi de coelis nomen habeo Gabrielis (I bear the name of Gabriel sent from heaven)
Missus vero pie Gabriel fert læta Mariæ (Gabriel the messenger bears joyous tidings to holy Mary)
O Rex Gloriæ Veni Cum Pace (O King of Glory, Come with Peace)

O som dos sinos associado ao Angelus vem de São Boaventura, que determinou à Ordem dos Frades Menores, em 1269, que se tocassem os sinos no lusco-fusco, enquanto se rezava a Avé Maria. 

A prática de rezar também ao meio-dia, por sua vez, é posterior (séc. XV) e foi estimulada por Louis XI (1475), como uma oração pela paz, na medida em que a cristandade se encontrava ameaçada pelo domínio dos turcos. 

Em 1318, o Papa João XXII oficializou o Angelus ao conceder indulgências para quem a praticasse. Em 1724, o Papa Bento XIII, determinou cem dias de indulgência para cada oração do Angelus, com uma plenária uma vez por mês. Era necessário que o Angelus fosse dito de joelhos, (excepto aos Domingos e aos Sábados, quando se devia permanecer de pé) ao som do sino. Essas circunstâncias foram modificadas pelo Papa Leão XIII em 1884. 

Actualmente, é necessário apenas que a oração seja feita nas horas apropriadas, de manhã, ao meio-dia e à noite. A indulgência é concedida mesmo para aqueles que não sabem recitá-la, bastando para isso que digam 5 Avé-Marias em seu lugar.

V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria
R. E Ela concebeu pelo Espírito Santo
Avé Maria...

V. Eis a escrava do Senhor.
R. Faça-se em mim, segundo a Vossa palavra.
Avé Maria...

V. E o Verbo Divino encarnou.
R. E habitou entre nós.
Avé Maria...

V. Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo

Oremos:
Infundi, Senhor, a vossa graça, em nossas almas, para que nós, que, pela anunciação do Anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela Sua paixão e morte na cruz, sejamos conduzidos à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo Senhor nosso. Ámen.


blogger

In Annuntiatione Beate Mariæ Virgine

Hoje a Igreja comemora o dia da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora. Esse episódio marcante para toda a Humanidade é descrito numa das mais bonitas passagens da Sagrada Escritura:

Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo

Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim

Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?»

O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus

Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

São Lucas 1, 26-38


blogger

quarta-feira, 24 de março de 2021

Qual é a utilidade de ter gente fechada em celas a rezar?

A Ordem dos Cartuxos, fundada por São Bruno, tem como base uma vida de solidão, silêncio e oração. É assim que nos próprios Estatutos a Ordem define a sua missão no Mundo:

Quanta utilidade e gozo divino trazem consigo a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama, só o sabe quem o experimentou. Mas esta melhor parte não a elegemos unicamente para nosso próprio proveito. Ao abraçar a vida oculta não abandonamos à família humana, senão que, consagrando-nos exclusivamente a Deus cumprimos uma missão na Igreja onde o visível está ordenado ao invisível, a acção à contemplação.

Se realmente estamos unidos a Deus, não nos encerramos em nós mesmos, pelo contrário, a nossa mente abre-se e o nosso coração dilata-se; de tal forma que possa abarcar o universo inteiro e o mistério salvador de Cristo. Separados de todos unimo-nos a todos para, em nome de todos, permanecer na presença do Deus vivo. Esta forma de vida que, quanto o permite a condição humana, orienta-se a Deus de forma directa e contínua, põe-nos num contacto peculiar com a bem-aventurada Virgem Maria, à que costumamos chamar Mãe singular dos Cartuxos.

Tendendo pela nossa Profissão unicamente para Aquele que é, damos testemunho perante um mundo demasiado implicado nas coisas terrenas, de que fora d'Ele não há Deus. A nossa vida manifesta que os bens celestiais estão presentes já neste mundo, preanuncia a ressurreição e antecipa de algum modo a renovação do mundo.

Por fim, pela penitência tomamos parte na obra redentora de Cristo, que sobretudo com a oração ao Pai e a Sua imolação salvou o género humano cativo e oprimido pelo pecado. Assim, procurando associar-nos a este aspecto mais profundo da Redenção de Cristo, apesar de nos abstermos da actividade exterior, exercemos o apostolado de maneira eminente.

Por isso, entregando-nos à quietude da cela e o trabalhando oferecemos a Deus um culto incessante em Seu louvor, para o qual foi especialmente instituída a Ordem eremítica da Cartuxa, a fim de que, santificados na verdade, sejamos os verdadeiros adoradores que o Pai pretende.

in Estatutos da Ordem dos Cartuxos, 34


blogger

Dia de São Gabriel Arcanjo

Este dia antes do dia da Anunciação é tradicionalmente dedicado ao Arcanjo que cumpriu essa importante tarefa: São Gabriel. Gabriel significa 'Deus é forte'. Esse Arcanjo anuncia o nascimento de João Baptista, ao seu pai Zacarias, e de Jesus, a Nossa Senhora e, depois, a São José.

É ele que, pela primeira vez, profere as palavras que todas as gerações hão-de repetir para saudar e louvar Nossa Senhora: "Avé, cheia de graça. O Senhor é convosco".


blogger

terça-feira, 23 de março de 2021

Confissão: faça chuva ou faça sol




blogger

Basílica de São Pedro: cada vez mais um museu

Há poucos dias, para surpresa de muitos, foi publicada uma directiva (não se sabe emanada por quem) afixada na porta da sacristia da Basílica de São Pedro: estavam proibidas as Missas individuais e apenas aceites as concelebrações, em dois altares da Basílica.

Em São Pedro, das 7 às 9 da manhã, os 45 altares e 11 capelas, eram usados por sacerdotes para celebrar as suas Missas privadas, às quais, muitas vezes, se juntavam fiéis que ali estavam a visitar a Basílica ou que lá iam de propósito. Agora, todos se têm de concentrar em dois altares. 

O número de Missas rezadas na Basílica Vaticana desceu vertiginosamente. Quem já a visitou nestas manhãs estranha a falta de sacerdotes nos altares e diz que aquele espaço é, agora, muito menos uma igreja e mais um museu, que serve quase exclusivamente para visitas turísticas.

Muitos dos sacerdotes que lá iam eram os oficiais dos Dicastérios Romanos, que á celebravam a "sua" Missa antes de começarem a trabalhar nos escritórios da Cúria. Essa Missa era um dos poucos trabalhos verdadeiramente sacerdotais que tinham no seu dia-a-dia. Com esta proibição, serão cada vez mais trabalhadores de escritório e menos sacerdotes.


blogger

segunda-feira, 22 de março de 2021

A Natureza não é nossa Mãe, é nossa Irmã

O darwinismo pode ser usado para dar suporte a duas moralidades insensatas, mas nunca poderá ser usado para dar suporte a uma única moralidade sã. O parentesco e a competição entre todas as criaturas vivas podem ser usados com motivo para sermos insanamente cruéis ou insanamente sentimentais, mas não para um amor sadio pelos animais. 

Na base evolucionista podemos ser desumanos ou absurdamente humanos, mas não podemos ser humanos. O facto de nós e o tigre sermos um só pode ser uma razão para sermos compassivos para com o tigre. Ou pode ser uma razão para sermos tão cruéis como o tigre. Podemos ensinar um tigre a imitar-nos, mas não podemos, com muito mais rapidez, imitar o tigre. No entanto, em nenhum dos casos a evolução nos dirá como tratar um tigre racionalmente, isto é, admirar-lhe as listas e evitar-lhes as garras.

Se desejamos tratar um tigre racionalmente, teremos de voltar ao jardim do Éden. Continua a vir-me à mente uma lembrança obstinada: apenas o sobrenatural tem uma visão sã da Natureza. A essência de todo o panteísmo, do evolucionismo e da moderna religião cósmica está, realmente, nesta afirmação: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente, se olharmos a Natureza como mãe, descobriremos que ela é uma madrasta. A questão principal do Cristianismo era esta: a Natureza não é nossa mãe; a Natureza é nossa irmã. 

Podemos orgulhar-nos da sua beleza, pois temos o mesmo pai; mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós; temos de admirá-la, mas não imitá-la. Isto dá ao prazer tipicamente cristão, na Terra, um estranho toque de leveza que quase chega à frivolidade. A Natureza foi uma mãe severa para os adoradores de Isis e Cibele; a Natureza foi uma mãe severa para Wordsworth ou para Emerson. 

Mas a Natureza não é severa para S. Francisco de Assis ou para George Herbert. Para S. Francisco de Assis, a Natureza é uma irmã, uma irmã mais nova: pequena e que gosta de dançar, de quem rimos e a quem também amamos.

G.K. Chesterton in Ortodoxia


blogger

Oração para a Quaresma

 
Senhor,
nesta Quaresma,
tempo de mergulhar no meu interior,
de revisão e de conversão,
ensina-me a descer sempre mais
até onde Tu te encontras: o meu coração.

Como “descer” até aí?
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar,
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer,
pelos Sacramentos,
especialmente a Confissão e a Santa Missa.

Também pela aceitação das contrariedades,
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida…
com os olhos postos em Ti.

Senhor, Tu que estás no meu íntimo,
ajuda-me nesta Quaresma,
a fazer uma viagem ao meu interior,
para aí me encontrar conTigo!


Beato Francisco Palau, carmelita


blogger

domingo, 21 de março de 2021

Dia Mundial da Síndrome de Down



blogger

Imagens e Crucifixos cobertos no Domingo da Paixão?

Por que razão se tapam as imagens a partir do Domingo da Paixão (quinto Domingo da Quaresma)? 

Tradicionalmente, as duas semanas do tempo "da Paixão" começam no quinto Domingo da Quaresma. A primeira semana é a Semana da Paixão e a segunda semana é a Semana Santa.

A leitura tradicional do Evangelho para este Domingo foca-se no ódio crescente das autoridades judaicas contra Cristo. Acusam-nO de ser um samaritano, de fazer feitiços, de blasfémia e de estar possuído por Satanás. Não pensam em Cristo como "um bom mestre". Julgam que é um agente demoníaco.

A antiga leitura do Evangelho no Primeiro Domingo da Paixão (o quinto Domingo da Quaresma) do capítulo oitavo do Evangelho de S. João acaba com estas palavras “Então pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou". (Jo 8, 59)

De acordo com Santo Agostinho, neste momento quando "Jesus se ocultou", Cristo ficou de facto invisível devido à Sua natureza divina. Santo Agostinho escreve:
"Ele não se esconde a Si mesmo num canto do templo, como se tivesse medo, ou a correr para uma casa, ou desviando-se para trás de uma parede ou coluna: mas pelo Seu Poder Divino, fazendo-se a Si mesmo invisível, passa pelo meio deles."
Para ajudar a exprimir este mistério, as estátuas e imagens Católicas são tapadas com véus roxos desde as Vésperas do fim de tarde antes do Domingo da Paixão. Jesus "esconde-Se a Si mesmo".

As estátuas permanecem cobertas até ao Glória de Sábado Santo. Este é o momento em que acaba o jejum da Quaresma e começa a glória da Páscoa. Este desvelar revela Cristo que se revelou a si mesmo como ressuscitado e vitorioso.

Também é um costume piedoso para os leigos Católicos cobrirem com véus roxos as imagens e estátuas de casa durante a época da Paixão.

A nossa Fé Católica é tão rica! Assegurem-se que ensinam aos vossos filhos e netos estas tradições antigas e bonitas!

Taylor Marshall


blogger

sábado, 20 de março de 2021

Amar a Cristo é amar a Cruz



blogger

São Martinho de Dume (Braga)

Sabemos pelo próprio testemunho de Martinho (Epitáfio), confirmado por Venâncio Fortunato (Carminum libri, 5, 2) e Gregório de Tours (Historia Francorum, 5, 37), que era oriundo da Panónia (actual Hungria), ou descendente de panónios. Presume-se que seria de origem romana. Feitas as contas a partir de outras datas prováveis, chega-se à conclusão que o ano do seu nascimento se situa próximo de 520.

Como aconteceu com muitas outras personagens do seu tempo, foi seduzido pela necessidade interior de se familiarizar com os Lugares Santos, como afirmam Gregório de Tours (Historia Francorum, 5, 37) e Isidoro de Sevilha (De viris illustribus, 35, 45). A estadia no Oriente enriqueceu-o pela oportunidade de contacto com personagens cultas que demandavam estas paragens e pelo conhecimento da vida monástica ao estilo dos Padres do Deserto, muito desenvolvida. 

Foi também ocasião para crescer no conhecimento das Escrituras e, provavelmente, da língua grega e da cultura oriental, como testemunham os mesmos Venâncio Fortunato, Gregório de Tours e ainda Isidoro de Sevilha (Historia de Regibus Gothorum, Wandalorum et Suevorum, 91).

S. Martinho de Dume veio por mar e desembarcou num porto da Galécia, ao tempo que as relíquias do seu homónimo S. Martinho, ou em época próxima. São várias as conjecturas para a localização deste porto, mas nenhuma dispõe de suporte suficiente para se impor.

A data deste acontecimento, que marcará um rumo novo na vida das populações da Galécia, deve situar-se próxima do ano 550. Tudo leva a crer que Martinho já era monge e presbítero. O metropolita de Braga era então Lucrécio.

Entretanto, o rei Carrarico, em cumprimento da promessa que tinha feito para alcançar a cura do seu filho, construiu em Dume, nos arredores de Braga, uma igreja em honra de S. Martinho de Tours e abandonou o arianismo.

Martinho, por sua vez, contando com o patrocínio do rei, edificou junto à igreja um mosteiro, de que foi o primeiro abade. Este mosteiro acabará por se converter num importante centro de formação e difusão de vida cristã e de cultura.

Por razões expressas que se desconhecem, mas que se prendem certamente com a sua invulgar estatura de homem culto e cristão convicto, com a sua proximidade à corte e com o determinante papel desempenhado na conversão dos suevos, foi criada para ele a diocese de Dume, mantendo a sua condição de abade. De acordo com o Breviário de Soeiro (Lectio IX), a sagração episcopal de Martinho teve lugar a 5 de Abril de 556. A sagração da igreja de Dume como sé celebrou-se no ano 558. Como bispo de Dume participou no I Concílio de Braga (561).

A diocese de Dume restringia-se ao seu mosteiro, suas terras, seus servos e famílias, numa extensão territorial igual ou ligeiramente superior aos actuais limites da paróquia do mesmo nome. Este tipo de diocese foi, até então, um facto inédito no Ocidente. Manteve-se até 866, altura em que o seu bispo, Sabarico, se retirou para Mondoñedo, devido às graves dificuldades criadas pelas invasões árabes. Durante este tempo os seus bispos ora eram somente abades e bispos de Dume, ora acumulavam com a Igreja de Braga. 

Quando em 1070 se procedeu à restauração da diocese de Braga, foi ordenado que nela se incorporasse a diocese de Dume. O então bispo de Mondoñedo protelou o cumprimento desta determinação, que só veio a cumprir-se em tempos do arcebispo de Braga S. Geraldo (1101).

Antes do ano 569, morreu o bispo e metropolita de Braga, Lucrécio. Sucedeu-lhe Martinho, sem deixar de ser bispo de Dume e abade do seu mosteiro.

No ano 572 presidiu ao II Concílio de Braga. Na introdução à Actas do Concílio, pode ler-se a interpelação de Martinho aos outros bispos para que se examinem questões de disciplina que possam existir "por ignorância ou por negligência", já que "pela graça de Cristo, nesta Província, nada é duvidoso acerca da unidade e da rectidão da fé". Com a sua cooperação, era já longo o caminho percorrido na consolidação da fé desde a sua chegada à Galécia.

Como metropolita, promoveu a reorganização paroquial, criou novos bispados e dividiu a metrópole bracarense em dois concílios ou sínodos, Lugo e Braga, continuando esta a ser a cabeça. Braga, sede da corte do Reino Suevo, ficou com as dioceses a Sul e a Norte do rio Douro. Há quem vislumbre neste seccionamento uma contribuição para a futura separação entre o Norte e o Sul da Galécia e, mais tarde, o nascimento de Portugal.

De acordo com a informação de Isidoro de Sevilha (De viris illustribus, 35, 45-46), Martinho fundou outros mosteiros. As tentativas para a sua identificação variam, em número e lugar, de autor para autor, sem ser possível chegar a conclusões seguras.

Segundo o Breviário de Soeiro, Martinho, o último dos escritores do Reino Suevo, morreu a 20 de Março de 579.

Foi sepultado na igreja do mosteiro de Dume. Aí se mantiveram o s seus restos mortais até meados do século IX, altura em que, pelo risco que corriam por causa da presença árabe, foram trasladados para Mondoñedo. Sabe-se que no século XV estavam de novo em Dume, na capela-mor da igreja. Em 1545 o arcebispo de Braga, D. Manuel de Sousa, tentou trasladar as relíquias para a catedral. Ante a enérgica oposição do povo de Dume, optou por, temporariamente, escondê-las aí, debaixo do altar-mor. 

Com a sua morte perdeu-se-lhes o rasto, até que, em 1591, são de novo descobertas pelo arcebispo D. Fr. Agostinho de Jesus que decide, uma vez mais, levá-las para Braga. Enquanto se faziam as obras necessárias para as receber, foram trasladadas para a igreja do mosteiro de S. Frutuoso. Finalmente, a 22 de Outubro de 1606, foram levadas para a sé, onde, depois de várias mudanças, podem ser veneradas na Capela das Relíquias. O túmulo que guardava os seus restos mortais, em Dume, encontra-se no Museu D. Diogo de Sousa (Braga).

O X Concílio de Toledo (656), em sintonia com o que era o sentir popular, já desde os contemporâneos de Martinho, tratou-o como santo. Depois, até à restauração da diocese de Braga, em 1070, perdeu-se o rasto do que terá sido o culto a S. Martinho. Parece claro, contudo, que se lhe sobrepôs o culto do seu homónimo S. Martinho de Tours. A partir de finais do século XI o seu nome começa a aparecer, ininterruptamente, nos calendários e livros litúrgicos bracarenses. No breviário bracarense do século XIV, que está na origem do Breviário de Soeiro (séc. XV), S. Martinho aparece como padroeiro da Igreja de Braga. Este título acabará, entretanto, por se perder. Foi retomado oficialmente em 1984. A sua festa litúrgica foi fixada em 22 de Outubro, na diocese de Braga, e em 5 de Dezembro, para Portugal, juntamente com S. Frutuoso e S. Geraldo.

O breviário bracarense de 1588 dá-lhe o título de doutor, que se manteve até tempos recentes. Honra justificada, se considerarmos que, como escreve Madoz, estamos diante de "uma das figuras mais destacadas e eficientes que o olhar do historiador descobre na Igreja ocidental do século VI". A ele se deve o renascimento literário e científico da Galécia do seu tempo. Como sintetiza Aires Nascimento, Martinho de Dume "não só introduziu um modelo de vida cenobítica como, promovendo a conversão do povo suevo, conseguiu ambiente de paz suficiente para reorganizar a sua Igreja, doutriná-la e transmitir aos seus clérigos normas de vida exemplares; preocupou-se em dotar a sua Igreja com textos fundamentais, nomeadamente com os textos conciliares da Igreja Oriental, mas cuidou sobretudo de uma pastoral directa, atenta às situações, interveniente e benevolente". 

Trata-se, enfim, de uma personagem quem antes e depois da sua chegada à Galécia, soube enriquecer-se num mundo de relações que conferem á sua figura e à sua acção sócio-religiosa uma surpreendente dimensão cosmopolita.

D. Pio Alves de Sousa, Bispo auxiliar do Porto, in 'Patrologia Galaico-Lusitana'


blogger