quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

WhatsApp: ajuda ou obstáculo na relação com Deus?

WhatsApp é um programa que utiliza a Internet principalmente para enviar mensagens instantâneas e fotografias. É usado especialmente em telemóveis.

Em meados de Novembro de 2014, a empresa desenvolveu um sistema que permite saber se o destinatário das mensagens enviadas leu ou não: se o remetente vê no telefone dois “certos” significa que o receptor leu a mensagem.

Já em 2013, um estudo da "Cyberpsychology: Journal of Psychosocial Research on Cyberspace" mostrava que o WhatsApp tinha sido motivo para a ruptura de 28 milhões de casais. As pessoas enviavam mensagens, mas também esperavam uma resposta imediata. Com a nova modalidade de comprovar a leitura das mensagens essa "expectativa de resposta" fica ainda mais acentuada.

Sabe-se que, como sugerido por alguns psicólogos (p.ex. Henry Echeburúa da Universidade do País Vasco) o WhatsApp pode gerar o mesmo vício de uma droga. Uma droga que apresenta sintomas externos, como a incapacidade de não só ver permanentemente o telefone durante o dia, mas também durante a noite; droga que incapacita para relacionar-se e olhar nos olhos do outro; droga que faz experimentar sensações como a impressão de que o telefone vibra sempre ou que cria a necessidade de estar sempre conectado, disponível e reagindo imediatamente aos estímulos que vêm "do outro lado" do telefone. De acordo com o estudo "A Comunicação dos estudantes por meio do WhatsApp”, um a cada três estudantes de 15 a 19 anos usa o WhatsApp em média durante seis horas por dia.

Em geral, as redes sociais e serviços de mensagens instantâneas como o WhatsApp criaram uma forma mentis nova nos modos e tempos de interacção humana. Sendo estes estímulos sincrónicos e intempestivos exigem, para muitos, uma forma de resposta nas mesmas categorias.

Que isso passe depois para o campo dos sentimentos é apenas um reflexo de que as experiências digitais supõem também reacções afectivas que suscitam rejeição ou reforçam laços humanos porque, em última análise, as tecnologias são o que são os seres humanos que as usam.

De acordo com dados do WhatsApp, até Agosto de 2014 esse serviço tinha 600 milhões de usuários. Em Abril do mesmo ano tinha superado os 500 milhões. Números como estes mostram claramente não só a penetração que esses serviços têm nos seres humanos, mas também que as relações humanas mudam nas suas formas. Sendo as relações humanas o ponto de partida (em quanto que são a nossa primeira experiência de alteridade, ou seja, de tratamento com outros) é compreensível que, consequentemente, condicionem para bem ou para o mal a nossa capacidade de relacionar-nos com Deus.

Consideremos um exemplo simples, mas profundo: a oração. Em termos claros supõe o diálogo entre duas pessoas: a própria pessoa e Deus. Nesse diálogo, na maioria das vezes, somos nós que formulamos uma petição e esperamos a resposta. A era das tecnologias é também a era da impaciência: espera-se respostas e soluções imediatas. Mas na vida da Fé esse não é normalmente o caminho pedagógico que Deus usa para nos ajudar de forma mais profunda. Não é verdade que existe o risco de não saber esperar também na vida de união com Deus, de nos cansarmos e alimentarmos uma espécie de apatia religiosa ante a falta de respostas imediatas?

"Se não te respondo é porque estou a fazer uma pausa”, era um dos cartazes da marca KitKat após a implementação do sistema de WhatsApp em Novembro de 2014. No fundo mostrava algo bastante real: o homem não está feito só para respostas imediatas a estímulos inesperados, mas também para refletir nas suas respostas. E isso leva-nos a pensar como as respostas que não contam com o apoio da reflexão, que tantas vezes está unida à pausa e ao silêncio, dificilmente dão os melhores resultados.

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 2012, Bento XVI escreveu um texto que parecia profeticamente antecipar os dois “certos” do WhatsApp e que coloca no centro essa virtude também esquecida na comunicação hodierna, o silêncio:

"O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos. Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada confrontação, às nossas palavras e ideias. 

Deste modo abre-se um espaço de escuta recíproca e torna-se possível uma relação humana mais plena. É no silêncio, por exemplo, que se identificam os momentos mais autênticos da comunicação entre aqueles que se amam: o gesto, a expressão do rosto, o corpo enquanto sinais que manifestam a pessoa. No silêncio, falam a alegria, as preocupações, o sofrimento, que encontram, precisamente nele, uma forma particularmente intensa de expressão. 

Por isso, do silêncio, deriva uma comunicação ainda mais exigente, que faz apelo à sensibilidade e àquela capacidade de escuta que frequentemente revela a medida e a natureza dos laços. Quando as mensagens e a informação são abundantes, torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório. 

Uma reflexão profunda ajuda-nos a descobrir a relação existente entre acontecimentos que, à primeira vista, pareciam não ter ligação entre si, a avaliar e analisar as mensagens; e isto faz com que se possam compartilhar opiniões ponderadas e pertinentes, gerando um conhecimento comum autêntico. Por isso é necessário criar um ambiente propício, quase uma espécie de «ecossistema» capaz de equilibrar silêncio, palavra, imagens e sons."

in Zenit


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