Durante o recente Consistório, a reunião de Cardeais em Roma, o Cardeal Arthur Roche, Prefeito do Dicastério para o Culto Divino, distribuiu aos presentes uma folha de papel, frente e verso, contendo algumas reflexões sobre a liturgia. A liturgia figurara entre os quatro temas inicialmente propostos para discussão na reunião, mas os Cardeais decidiram concentrar‑se apenas em dois, deixando de fora a liturgia. O texto do Cardeal Roche foi, portanto, distribuído sem ser formalmente debatido.
Existiam versões em italiano e em inglês. Esta última foi claramente traduzida a partir da primeira, e não de modo impecável: a palavra italiana "sintonia", que significa “harmonia”, foi vertida por “syntony” (parágrafo 4). É surpreendente que um Cardeal inglês não tenha dado por esta calinada, e isto sugere que não foi ele próprio a redigir o documento.
O argumento do texto não é difícil de resumir. Em primeiro lugar, apresenta um argumento histórico segundo o qual a liturgia se desenvolveu frequentemente: “A história da liturgia … é a história da sua contínua ‘reforma’ num processo de desenvolvimento orgânico.”
Isto é ligado, em segundo lugar, à autoridade do Concílio Vaticano II, a pedido do qual a liturgia foi reformada.
Em terceiro lugar, o texto repete, com ilustrações da época do Papa Pio V, do Concílio Vaticano II, do Papa Bento e do Papa Francisco, a afirmação de que a unidade litúrgica é necessária para a unidade da Igreja.
Como contribuição para o debate desencadeado pela Carta Apostólica do Papa Francisco que restringe a Missa Tradicional, Traditionis custodes, isto representa um reforço da linha já assumida, e não uma tentativa de dialogar com os críticos.
O ponto central do argumento é o terceiro ponto acima: como o texto cita o Papa Francisco, “Por este motivo escrevi o Traditionis custodes, para que a Igreja possa elevar, na variedade de tantas línguas, uma e a mesma oração capaz de exprimir a sua unidade.” As palavras “uma e a mesma oração” são tiradas da Constituição Apostólica Missale Romanum (1969) do Papa Paulo VI.
Esta afirmação tem sido constantemente confrontada com a questão da legítima diversidade de ritos na Igreja. E os Ritos Orientais? E os diferentes ritos ocidentais reformados depois do Vaticano II, como os Ritos Ambrosiano, Cartuxo e Mozárabe? E as formas litúrgicas mais recentes, como o Uso do Ordinariato, o Rito Congolês e o novo uso aprovado, tão recentemente como 2024, para um grupo de indígenas numa única diocese no México?
No texto citado, o Papa Francisco dá a entender que a Missa Tradicional impede de algum modo essa possibilidade de elevar uma e a mesma oração em toda a Igreja. Ao pé da letra percebe‑se porque é que isto poderia ser assim. Mas, se há uma explicação para o facto de isto ser verdade neste rito e não em todos os outros, essa explicação não nos é fornecida neste texto.
Não é, de facto, surpreendente que a Igreja pós‑conciliar tenha tolerado uma variedade de ritos e usos religiosos, uma vez que o Concílio ensinou que estes não comprometem, na realidade, a unidade da Igreja. Ele exortou as Igrejas Orientais em comunhão com a Santa Sé a “regressarem às suas tradições ancestrais”: por outras palavras, deveriam pôr em marcha atrás o processo de “latinização” que tinha levado a uma convergência gradual dos seus ritos com os do Ocidente (Orientalium Ecclesiarum, 6). Quanto ao próprio Ocidente, a Sacrosanctum Concilium insiste em que “a Igreja não deseja impor uma rígida uniformidade” (37).
Se as palavras do Papa Paulo VI sobre “uma e a mesma oração” parecem estranhas neste contexto, é porque foram ao mesmo tempo mal traduzidas e retiradas do contexto. A tradução da Constituição Apostólica no sítio do Vaticano dá a expressão mais exacta “uma oração única” (una eademque cunctorum precatio). Dado que o latim fora defendido por alguns como garantia de unidade, o Papa Paulo está a sublinhar que, apesar das diferentes línguas a serem doravante usadas, a Missa continua a ser a Missa: é uma oração única que une a Igreja apesar da variedade litúrgica. Na realidade, ele está a dizer precisamente o contrário daquilo que lhe é atribuído na citação feita pelo Papa Francisco.
O truque utilizado para fazer funcionar este argumento tem paralelos com as outras etapas do raciocínio. É‑nos dito que a reforma do Vaticano II teve precedente na “reforma parcial” do Concílio de Trento, e mesmo em anteriores “reformas franco‑germânicas” e outros casos, mas em nenhum destes exemplos houve uma reescrita total dos textos litúrgicos. Em vez disso, nessas “reformas”, os textos encontrados num missal antigo eram privilegiados em relação às versões encontradas noutros missais, que se consideravam menos fidedignos.
De modo semelhante, o argumento segundo o qual a autoridade do Concílio Vaticano II garante os resultados dos reformadores litúrgicos ignora o facto de o Concílio não ter mandado todas as coisas que os reformadores fizeram: tal coisa teria sido, evidentemente, impraticável. Há também o incómodo facto de os reformadores terem na prática contrariado alguns dos princípios estabelecidos pelo Concílio na Sacrosanctum Concilium. O caso mais conhecido é o do parágrafo 36.1: “o uso da língua latina deve ser conservado nos ritos latinos”. O parágrafo 23 é, porém, ainda mais devastador: “não haja inovações, a não ser que o bem da Igreja o exija de modo genuíno e certo”. É uma das ironias da história que os Padres conciliares tenham acrescentado a palavra “certo”, certa (no texto original em latim), a uma versão anterior deste parágrafo, tentando travar um processo que rapidamente haveria de sair seriamente fora de controlo.
O texto do Cardeal Roche não procura responder às objecções levantadas pelos críticos de Traditionis custodes. Este texto não é uma tentativa de entrar num debate, mas, por assim dizer, de afastar o debate simplesmente insistindo numa narrativa histórica e teológica que sustentaria a supressão da Missa Tradicional. Sobre aqueles cardeais, provavelmente a grande maioria, que não sabem muito sobre a história da liturgia, isto poderá muito bem produzir o efeito desejado. Cumpre esperar que, antes de os cardeais oferecerem o seu parecer sobre este assunto ao Papa Leão, tenham a oportunidade de ouvir uma resposta completa.
Joseph Shaw, Presidente da Federação Internacional Una Voce
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