quarta-feira, 1 de abril de 2026

Quarta-Feira: dia de penitência em memória da traição de Judas

Poucos cristãos sabem que as Quartas-Feiras carregam, desde os primórdios da Igreja, uma marca penitencial profunda. A tradição associa este dia ao momento em que Judas Iscariotes conspirou com o Sinédrio para entregar Jesus, conforme narrado em Mateus 26,14-16: "Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse: Que me dareis se vo-Lo entregar?"

Esta ligação entre a quarta-feira e a traição é antiquíssima. Já a Didaqué, texto do final do século I considerado o mais antigo catecismo cristão, instruía: "Que os vossos jejuns não coincidam com os dos hipócritas. Eles jejuam na Segunda e na Quinta-Feira; vós, porém, jejuai na Quarta-feira e na Sexta-feira" (Didaqué 8,1). Os cristãos distinguiam-se assim dos jejuns judaicos, consagrando a Quarta-Feira à memória da traição e a sexta-feira à da Paixão.

São Pedro de Alexandria, patriarca e mártir (+311), explica o porquê: "Quarta-Feira porque neste dia se reuniu o conselho dos judeus para trair Nosso Senhor; e Sexta-Feira porque nesse dia Ele sofreu a morte pela nossa salvação."

Santo Epifânio de Salamina acrescenta que esta prática remonta aos próprios Apóstolos: "Está ordenado, pela lei dos Apóstolos, jejuar dois dias por semana."

Curiosamente, este jejum das Quartas-Feiras manteve-se obrigatório durante quase dez séculos na Igreja latina, sendo gradualmente atenuado e depois extinto, como obrigação, por volta do século X. Contudo, deixou vestígios duradouros: a Quarta-Feira de Cinzas abre a Quaresma, e as Têmporas incluem sempre uma Quarta-Feira. Na Irlanda, a proibição de carne às Quartas-Feiras perdurou até meados do século XVII.

Na tradição oriental, a prática nunca cessou. Até hoje, os cristãos orientais observam jejum de carne, lacticínios e azeite em todas as Quartas-Feiras do ano, em memória da traição de Judas.

A Quarta-Feira Santa, por sua vez, é chamada "Spy Wednesday" em inglês, o dia do espião, e marca liturgicamente o primeiro dia de luto da Igreja na Semana Santa: que convida ao silêncio, à penitência e à vigilância do coração.


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