domingo, 16 de abril de 2017

Vigília Pascal: Cristo ressuscitou verdadeiramente alleluia!

Não choreis por mim, Mãe, enquanto me vedes no sepúlcro, Vosso Filho que virginalmente concebestes; porque eu me levantarei e serei glorificado, e como Deus, exaltarei incessantemente na glória aqueles que Vos glorificam na fé e na caridade.
Nona Ode do Orthros de Sábado Santo no Rito Bizantino

Inauguradas na noite da Páscoa, as festas da Ressurreição prolongar-se-ão por quarenta dias. Serão completadas pelas festas da Ascensão e de Pentecostes, coroamento dos mistérios de Cristo e irradiação de sua Vida sobre a nossa pela vinda do Espírito Santo.

O Tempo Pascal é o tempo da vida nova. Em primeiro lugar a do Salvador, que vive para sempre sem já pertencer a este mundo, da qual participaremos um dia no céu; em seguida a nossa. Não só sabemos pertencer a Cristo como que por Ele fomos arrancados das trevas, lhe pertencemos como conquista, e partilharemos da sua luz.

No esplendor radioso da Páscoa, Jesus, luz do mundo, ressuscita glorioso, descobrindo o estandarte da cruz e apresentando ao nosso amor reconhecido os troféus das suas chagas redemptoras: eis a morte vencida, as portas do inferno arrasadas e a serpente subjugada.

No coração da noite, na hora em que o Salvador venceu a morte, manifesta-se a a alegria dos fiéis. Toda a liturgia pascal celebrada na Vigília da Páscoa é catequética sobre a vida do cristão.

A Igreja convida-nos então a celebrar o Ofício da noite pascal que consiste de duas partes:
A mensagem da Páscoa, composta pela bênção do fogo novo, do Círio Pascal, entrada na igreja e anúncio da Páscoa;
A regeneração baptismal, composta pelas leituras bíblicas de iniciação cristã, pelas ladaínhas e pela renovação das promessas do baptismo.

Este Ofício prepara-nos para a Missa da noite pascal, pela qual se oferece a Deus o sacrifício do Calvário, em que o Cordeiro Pascal, imolado pela salvação do mundo, nos adquiriu a redenção.

Apresentamos aqui a celebração do Ofício e da Missa segundo o rito tradicional, reformado por Pio XII, durante a Semana Santa em Sevilha:

Benze-se o fogo novo pedindo a Deus que pelas festas pascais nos abrase em celestiais desejos para que possamos chegar com alma pura às festas da luz sempiterna.
De seguida, com brasas do próprio fogo que abençoou, o sacerdote incensa o fogo acabado de benzer, significando assim que este fogo é oblação a Deus.
O sacerdote traça no Círio: Alpha e Ωmega - Cristo, ontem e hoje, é princípio e fim, dele são os tempos e os séculos. Traça também 2017, o ano da graça em que vivemos.
Colocando cinco grãos de incenso diz: "Pelas suas santas chagas, gloriosas, nos guarde e conserve Cristo Senhor. Amen."
Acendendo o Círio diz: "Que a luz de Cristo ressuscitado gloriosamente nos dissipe as trevas do coração e do espírito."
De seguida, benze o Círio pedindo que o sacrifício nesta noite oferecido resplandeça com o misterioso brilho da luz de Deus e que a maldade e astúcias do demónio sejam expulsas para dar lugar ao poder da majestade divina.
Então um diácono carrega o Círio entrando pela igreja até ao presbitério e eleva-o três vezes cantando: "Lumen Christi" (Eis a luz de Cristo) - ao que os fiéis respondem: "Deo gratias" (Graças a Deus).
Coloca o Círio num candelabro especial no meio do presbitério e canta o Precónio Pascal, o anúncio da Páscoa: um canto de louvor que se entoa diante do Círio Pascal. Liturgicamente, esta vela representa o sacrifício de Cristo, portanto é o agradecimento pelo sacrífico que não é apenas uma morte, mas um sacrifício vivificante, pois produz a vida.
«Exulte de alegria a multidão dos Anjos,
exultem as assembleias celestes, 
ressoem hinos de glória, 
para anunciar o triunfo de tão grande Rei.

Rejubile também a terra,
inundada por tão grande claridade, 
porque a luz de Cristo, o Rei eterno, 
dissipa as trevas de todo o mundo.»

Então, um leitor canta a primeira leitura, que narra a criação do mundo segundo o Livro do Génesis, iniciando assim a segunda parte do Ofício.
Neste momento cantam-se quatro leituras acerca da história da salvação (criação da qual Cristo é chefe; avanço da Igreja da qual Cristo é guia; crescimento dos santos na Igreja; lembrança dos graves deveres daqules que pertencem à Igreja). Após cada leitura uma oração é rezada pelo sacerdote. Na segunda, terceira e quarta leitura um cântico responde à leitura.
Continua a regeneração baptismal com o canto da Ladaínha de Todos os Santos, sempre encabeçada pela Santíssima Virgem, interrompida a seguir às invocações dos santos.
De seguida o sacerdote (de paramentos brancos) incensa de novo o Círio Pascal, desta feita já luz do Ressuscitado no centro da Igreja que até então sofria junto do sepúlcro.
Renovam-se as promessas baptismais, termina-se a ladaínha e imediatamente dá-se início à Santa Missa.
A Missa começa com o entoar do tríplice Kyrie à Trindade e com a incensação do altar onde será oferecido o sacrifício.
O sacerdote que oferecerá o sacrifício é logo de seguida incensado.
Ao canto do Gloria in excelsis Deo retoma-se o toque dos sinos, que ao mesmo cântico na Quinta-feira Santa tinha cessado. Manifestação de alegria pela glória de Deus, este cântico é central na noite da Ressurreição.
O padre reza em seguida a Oração Colecta, pedindo ao Deus que ilumina esta noite sagrada com a gloriosa Ressurreição do Senhor, que conserve nos filhos de Sua família o espírito de adopção que lhes deu.
Então o sub-diácono canta a Epístola, de S. Paulo que exorta àqueles que com Cristo ressuscitaram (pelo Baptismo) que busquem às coisas do alto.
Após o renovado canto do Alleluia, o diácono procede cantando o Evangelho que nos relata o anúncio da Ressurreição de Cristo, pelo Anjo às santas mulheres.
Após breve homilia, a Missa própriamente dita começa com o Ofertório no qual se oferece a Deus aquilo que se tornará o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nela, Cristo é sacerdote, vítima e altar, compondo totalmente o sacrifício oferecido.
Após a incensação das oblatas, da cruz, do altar e do sacerdote, o diácono incensa o clero que assiste em coro.
Então o sacerdote reza a Secreta, oração pela qual pede ao Senhor que acolha as preces do Seu povo com a oferenda daquele sacrifício e que o que teve começo naqueles mistérios pascais se torne remédio para a eternidade.
Durante o Sanctus os três ministros juntam-se no altar.
"Ó verdadeiro Corpo do Senhor, nascido para nós da Virgem Mãe!"
Operou-se o grande mistério da fé. Pela consagração Cristo ofereceu-Se ao Pai como vítima de redenção novamente. Renovando o sacrifício de Cristo, a Igreja, toda possuída pela alegria intensa e grave de semelhante presente que recebeu, medita na inexprimível riqueza do mistério de salvação e de glória que Cristo lhe confiou.
O sacerdote canta o Pater Noster dirigindo-se ao Pai com o desejo do advento do Seu Reino e do cumprimento da Sua vontade.
A patena, representativa do povo de Israel que não reconheceu o Senhor, escondida até então sob o véu pelo sub-diácono, é descoberta e benzida pelo sacerdote para que esteja presente na Morte e Ressurreição do Senhor.
Então o padre prepara-se para receber a sacrosanta hóstia, recitando algumas orações: "Que retribuirei eu ao Senhor por todos os seus benefícios? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor."
Após a comunhão do padre, os ministros recitam a confissão, recebendo a absolvição dos pecados veniais ficando assim preparados para comungar.
"Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi." - repetindo as palavras do Baptista, o sacerdote mostra aos fiéis o Corpo do Senhor.
"O Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma para a vida eterna. Amen." - é infinito o alcance deste voto. Nada há de maior importância que a Sagrada Comunhão pela qual o mesmo Cristo vem até nós.
Na Missa da Noite da Páscoa a antífona da comunhão é substituida pelas Laudes do Domingo da Ressurreição, que constam do Salmo 150, de louvor a Deus, e do cântico Benedictus.
Enquanto as Laudes são cantadas, o sacerdote incensa a cruz e o altar.
Após a oração pós-comunhão retirada das Laudes, em que se pede ao Senhor que nos penetre o seu Espírito de caridade e que os Seus fiéis que saciou com os sacramentos pascais sejam um só corpo unido nesta mesma caridade, o diácono anuncia o fim da Missa cantando o Ite Missa est, Alleluia alleluia.
Todos os fiéis recebem então a bênção e assim termina a Missa, ficando a igreja adornada em todo o seu esplendor.
Conheça a associação Una Voce Sevilla, organizadora deste Tríduo.

O blogue Senza deseja a todos os seus leitores uma Feliz Páscoa!
Pascha nostrum immolatus est Christs, Alleluia alleluia!

Reportagem Senza Pagare


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sábado, 15 de abril de 2017

Ofício Liturgico Solene da Paixão e Morte do Senhor

Tenebræ factæ sunt,
dum crucifixissent Iesum iudæi:
et circa horam nonam exclamavit Iesus voce magna:
"Deus meus, ut quid me dereliquisti?"

A Sexta-feira Santa é o dia do maior luto. Cristo morre. O império da morte sobre todas as nossas vidas estende-se ao próprio Filho de Deus feito homem.

Esta morte que Jesus partilhou connosco e que para Ele foi tão atroz entrava nos planos de Deus sobre a salvação do mundo. Desde então a cruz de Cristo torna-se a glória dos cristãos. Ontem cantavamos: "Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo"; e hoje a Igreja repete, apresentando esta mesma cruz à nossa adoração: "Eis o madeiro da cruz do qual esteve suspenso o Salvador do mundo." E assim, embora permanecendo dia de luto, a Sexta-feira Santa é também o dia que restituiu a esperança aos homens, o dia que conduz às alegrias da ressurreição.

Estes veneráveis ritos que a Igreja hoje celebra são a redenção do mundo, são a prece e a acção de graças dos resgatados que, em comum, tomam consciência diante de Deus de tudo o que o mistério da cruz representa.

O Ofício compõe-se de quatro partes. A primeira, uma catequese que comporta duas leituras retiradas do Antigo Testamento e o canto da Paixão segundo S. João. A segunda, uma sequência de orações solenes pela salvação de todos os homens. A terçeira, a adoração da cruz, troféu da nossa redenção. A quarta, um rito de comunhão.

Apresentamos a celebração dos Ofícios segundo o rito tradicional, reformado por Pio XII, durante a Semana Santa em Sevilha:
A procissão entra em silêncio na igreja, lembrando a solenidade do dia e o seu carácter penitencial.
O celebrante e os ministros (diácono e sub-diácono) procedem até ao altar, precedidos pelos servos e pelos sacerdotes em coro, e prostram-se diante do altar enquanto a congregação se ajoelha e inclina profundamente.
De pé, diante do altar, permanecendo os outros de joelhos, o sacerdote recita uma oração introdutória ao Ofício, retirada dos Sacramentários Gelasianos, usada em alguns usos desde o séc. XVI.
De seguida, um leitor instituido canta a 1ª leitura, retirada do Livro de Oseias.
Segue-se o canto do responsório retirado do Livro de Habacuc.

Depois o sacerdote, na sede, reza uma oração impetratória que comparando Judas e o bom ladrão pede a recompensa do segundo.

Então, o sub-diácono canta a 2ª leitura, retirada do Livro do Êxodo.
Depois o coro canta um responsório composto por trechos do Salmo 139.
Para terminar a primeira parte do Ofício, três diáconos cantam solenemente a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. João. Em voz grave canta-se a voz de Jesus.
À morte de Jesus todos se ajoelham e fazem silêncio.
Após o canto da Paixão o sacerdote prega um pequeno sermão apenas lembrando a importância e significado do dia.
Na segunda parte do Ofício, após o sacerdote vestir a capa de asperges e, os ministros a dalmática e túnica negras, sobe ao altar, beija-o, e recita-se várias orações: pela Santa Igreja; pelo Papa; por todas as ordens do Clero e por todas as categorias de fiéis; pelos governantes; pelos catecúmenos; pelas necessidades dos fiéis; pela unidade da Igreja; pela conversão dos judeus; pela conversão dos pagãos.

Todas são precedidas de um canto em tom de prefácio, demonstrando assim a sua solenidade, e em todas se ajoelha após o Oremus à ordem do diácono.

A terceira parte do Ofício consiste da Adoração da Cruz: esta cerimónia vem-nos de Jerusalém, onde, desde o século IV, era apresentada à veneração dos fiéis, na Sexta-feira Santa, a Vera Cruz em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado. Todos vinham prostar-se diante dela e beijavam-na respeitosamente.
A cruz é descoberta a três tempos, cantando o sacerdote, em tom cada vez mais elevado: "Ecce lignum Crucis"; ao que os fiéis respondem: "in quo salus mundi pependit. Venite, adoremus." E de seguida todos se prostram por alguns instantes em silenciosa oração.
Após essa tríplice elevação da cruz, um acólito conserva-a elevada diante do altar. O sacerdote descalça-se e aproxima-se fazendo três genuflexões, beijando de seguida os pés do crucifixo, sendo seguido pelos ministros, clero, servos e fiéis. Ladeiam a cruz duas velas acesas. Os fiéis apenas fazem uma genuflexão e a cruz é dada a beijar fora do presbitério.
Enquanto dura a adoração da cruz, vai-se cantando os impropérios do Crucificado que são um convite à conversão a Deus pela lembrança dos benefícios passados, introduzidos por: "Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo contristavi te?" - "Povo meu, que te fiz eu? Em que te contristei?"
Por fim, o Ofício termina após a comunhão - quarta parte - em que a cruz é colocada no centro do altar entre duas velas acesas. Os ministros revestem-se de paramentos roxos. O diácono vai buscar a Santa Reserva que se encontra no Monumento e condu-la precedido de dois acólitos com velas acesas. Enquanto isso cantam-se três antífonas (Adoramus te; Per lignum; Salvator mundi, salva nos) em honra à cruz e ao Salvador do mundo. O diácono e os acólitos colocam o Santíssimo Sacramento e as velas no altar e de seguida o sacerdote reza o Pater Noster acompanhado por todos os presentes, como preparação para a comunhão.
De seguida o sacerdote comunga e os ministros recitam o Confiteor preparando-se para a Sagrada Comunhão. Todos recebem a Comunhão na forma de costume. Enquanto a Comunhão é distribuida canta-se o Salmo 21 (Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?).
Para terminar o sacerdote reza três orações de petição e acção de graças e os ministros abandonam o santuário em silêncio.
Segue-se a desnudação dos altares também em silêncio.
Os Ofícios do Tríduo Pascal no rito tradicional são organizados pela associação Una Voce Sevilla, com a ajuda de jovens sacerdotes americanos, estudantes em Roma.

Reportagem Senza Pagare


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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Jesus é flagelado e preso a uma coluna

1. “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou flagelá-lo” (Jo 19,1). Ó juiz injusto, tu o declaraste inocente e em seguida o condenas a um castigo tão cruel como vergonhoso? Contempla, minha alma, como, depois dessa ordem iníqua, os carrascos se apoderam do Cordeiro divino, conduzem-no ao pretório e o amarram com cordas a uma coluna. Ó cordas bem-aventuradas, vós que prendestes àquela coluna as mãos de meu doce Redentor, prendei também a seu coração divino o meu miserável coração, para que de hoje em diante eu não busque e não queira outra coisa senão o que ele quer.

2. Eis que já tomam nas mãos os azorragues e, dado o sinal, começam a rasgar aquelas carnes sacrossantas de alto a baixo: primeiramente mostram-se lívidas e depois esguicham sangue de todos os pontos. Os azorragues e as mãos dos carrascos já estão tintos de sangue e a própria terra está toda banhada. 

Ó Deus, pela violência dos golpes, voam pelos ares não só o sangue, mas até pedaços de carne de Jesus Cristo. Seu corpo divino já está todo dilacerado,  mas aqueles bárbaros continuam a acrescentar feridas e feridas, dores a dores. Entretanto, que faz Jesus? Ele não fala, não se lamenta, mas sofre pacientemente aquele horrível tormento para aplicar a justiça divina irada contra nós. “Como um cordeiro sem voz diante do que o tosquia, assim não abriu ele sua boca” (At 8,32). 

Corre, minha alma, e lava-te nesse sangue divino. Meu amado Senhor, eu vos vejo todo dilacerado por mim; não posso, pois, duvidar mais de que vós me amais e me amais muito. Cada chaga vossa é uma prova evidente de vosso amor, que com muita razão pede o meu amor.Vós me dais o vosso sangue sem reserva, ó meu Jesus; é justo que eu também vos dê o meu coração sem reserva. Recebei-o, pois, e fazei que eu vos seja sempre fiel.

3. Ó Deus, se Jesus Cristo não tivesse sofrido senão um só golpe por meu amor, já deveria abrasar-me de amor por ele, pensando: Um Deus quis ser ferido por mim! Ele, porém, não se contentou com um só golpe, mas, para pagar por meus pecados, quis me lhe fossem dilacerados todos os membros, como já predissera Isaías: “Foi quebrantado por causa de nossos crimes” (Is 53,5), e tornar-se semelhante a um leproso coberto de chagas dos pés até à cabeça: “E nós o julgamos um leproso”(Is 53,4). 

Minha alma, enquanto Jesus era flagelado pensava em ti e oferecia a Deus seus acerbos martírios para livrar-te dos flagelos eternos do inferno. Ó Deus de amor, como pude eu viver tantos anos sem vos amar! Ó chagas de Jesus, feri-me de amor para com Deus que tanto me amou. Ó Maria, Mãe da graça, alcançai-me este amor! 

Santo Afonso Maria de Ligório


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domingo, 9 de abril de 2017

As duas irmãs que ralhavam com Deus

Amanhã (segunda-feira depois do Domingo de Ramos), vai ler-se em todas as Missas da Igreja católica um episódio passado com uma família que ralhava com Deus. Poucas pessoas se podem gabar de um currículo tão escandaloso, realmente insólito. Nem sequer os discípulos se atreviam a ralhar com Jesus.

No máximo, Pedro tentou ser simpático animando Jesus, privadamente: «Deus não permita, Senhor, que isso aconteça!», por Jesus lhes anunciar que ia ser morto em breve. Graças a essa intervenção bem-intencionada, Pedro recebeu uma descompostura monumental, que deixou todos os discípulos aterrados.

O outro caso-limite tinha acontecido muitos anos antes, quando Jesus era ainda muito novo e esteve vários dias perdido. Nossa Senhora e S. José O encontram-No finalmente no Templo, com os doutores, e Maria queixa-se: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». O susto tinha sido tão grande...

De resto, as pessoas que protestaram contra Jesus foram os seus opositores. Coitados!

Entre os fiéis, apenas duas mulheres se atreveram a ralhar com o Mestre. Eram irmãs, chamavam-se Marta e Maria, naturais de Betânia, a poucos quilómetros de Jerusalém, onde viviam com o seu irmão Lázaro. Naquela família, de enorme generosidade, habituada a ter a casa invadida de amigos, ficavam Jesus e os discípulos quando estavam em Jerusalém.

Segundo os Evangelhos, a primeira a ralhar com Jesus foi Marta: «Então, não Te importas que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que me venha ajudar!». Às duas irmãs, Jesus admitia tudo!

Noutra ocasião, quando Lázaro estava muito doente, mandaram-No chamar, mas o Mestre demorou alguns dias. Finalmente, quando chegou, Marta disparou imediatamente: «Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!»; daí a instantes vai chamar a irmã e a primeira coisa que ela faz é queixar-se do atraso: «Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!». Chora Jesus com as duas irmãs e comenta o povo «vede como Ele era amigo de [Lázaro]». Efectivamente, Jesus tinha uma amizade especialíssima com os três irmãos.

Amanhã, segunda-feira, nas Missas que se vão celebrar em todo o mundo, vai ler-se outro relato muito especial. Jesus tinha ressuscitado Lázaro há poucos dias, e os três organizaram um jantar para agradecer e tomar posição publicamente. É que, depois de Jesus ressuscitar Lázaro perante uma multidão numerosa – vários dias depois da morte, quando o corpo já cheirava mal –, os líderes judaicos decidiram matar Jesus. O banquete foi de tal ordem que, no fim, as autoridades judaicas decidiram matar também Lázaro. Não se sabe se os três irmãos tiveram medo, mas sabe-se que organizaram um jantar em grande e convidaram uma multidão a festejar com eles. 

A certa altura, Maria foi buscar um frasco enorme de perfume, de nardo puro, e entornou-o todo aos pés de Jesus. O perfume era caríssimo. E toda a casa se encheu com o perfume daquele bálsamo. A seguir, enxugou com os cabelos os pés de Jesus. Aquilo já não era uma festa, era uma adoração, a entrega mais plena, à frente de todos.

Levantou-se Judas Iscariotes para ralhar com aquela mulher: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?!».

Jesus, que deixava Marta e Maria protestarem quando quisessem, não admitiu o comentário de Judas e contou em público o que provavelmente só Ele e os três irmãos sabiam: «...ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura». 

Maria não tinha sabido esperar, para prestar a Jesus aquela homenagem? Pelo contrário! Jesus explicou que vinha mesmo na altura certa: «Pobres, sempre os tereis convosco, mas a Mim, nem sempre Me tereis». Naquele momento, nem todos perceberam.

É o que se vai celebrar, dia a dia, ao longo desta semana: a condenação e a morte de Jesus. Que ressuscitou ao terceiro dia, sem dar tempo para O ungirem.

José Maria C.S. André in Correio dos Açores, 9-IV-2017


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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Cardeal Sarah: desde o Concílio uma grave crise atingiu a Igreja

A liturgia da Igreja foi afectada por uma “grave e profunda crise” desde o Concílio Vaticano II, disse o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
“É preciso reconhecer que a grave e profunda crise que atingiu a liturgia e a própria Igreja desde o Concílio se deve ao facto de que o seu centro já não é Deus e a adoração a Ele prestada, mas sim os homens e a sua suposta capacidade de “fazer” algo para se manter ocupado durante as celebrações eucarísticas.”
O Cardeal fez estas declarações num recente colóquio na Alemanha para comemorar o 10° aniversário do motu próprio do Papa Emérito Bento XVI, Summorum Pontificum, que permitiu um maior uso da Missa tradicional.
O Cardeal Sarah disse que não pensava que a extensão deste problema fosse reconhecida na Igreja:
“Ainda hoje, um número significativo de líderes da Igreja subestimam a grave crise que atravessa a Igreja: o relativismo no ensino doutrinário, moral e disciplinar, graves abusos, a dessacralização e banalização da Sagrada Liturgia e uma visão meramente social e horizontal da Missão da Igreja.”
Sua Eminência também pontuou como problema a falta de fé nos ensinamentos da Igreja sobre a Eucaristia, tanto por parte do clero como dos leigos.
“A grave crise da fé, não só a nível dos fiéis cristãos, mas também e sobretudo entre muitos sacerdotes e bispos, tornou-nos incapazes de compreender a liturgia eucarística como um sacrifício, como o acto da entrega de uma vez por todas de Cristo pela humanidade no sacrifício da cruz de maneira cruenta, por toda a Igreja, e através de diferentes épocas, lugares, povos e nações”.
Está disponível na íntegra e em inglês a conferência dada por Sua Eminência no site Catholic World Report.
O Cardeal Sarah serve como prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos desde 2014, quando foi nomeado para esse cargo pelo Papa Francisco. Nascido na Guiné, ele é um dos bispos africanos mais importantes na Igreja.
Adaptado de ChurchPop


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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Santa Sé permite Missa Antiga dedicada ao Imaculado Coração de Maria a 13 de Maio

Mais uma boa notícia vinda de Roma: a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei publicou hoje um decreto com o qual se permite que, no próximo dia 13 de Maio, os sacerdotes que celebram o Rito Romano Antigo (vulgo Missa Tridentina) celebrem uma Missa votiva de II classe. Deverão, para esse propósito, usar os textos e as orações da Missa votiva do Imaculado Coração de Maria, que, no calendário antigo, se celebra no dia 22 de Agosto.

No texto, escrito em latim, justifica-se esta concessão pela comemoração dos 100 anos das aparições de Nossa Senhora de Fátima.


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De budista a tomista

Paul Williams, catedrático de filosofia budista e professor de religiões da Índia na Universidade de Bristol, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades académicas sobre budismo no Reino Unido. Também era um budista convencido, intelectual e praticante. Porém em 1999 surpreendeu os seus alunos, companheiros e familiares quando anunciou que se convertia ao cristianismo, mais ainda ao catolicismo mais ortodoxo. Em 2002 publicou um livro com o seu testemunho de conversão e as suas reflexões.

Na revista budista inglesa Dharmalife não escondiam sua perplexidade: "Williams é um dos principais estudiosos britânicos do budismo e um budista praticante de muitos anos. O seu livro 'O Budismo Mahayana' é uma jóia de claridade e visão. Que surpreendente foi saber há dois anos que tinha decidido ser católico. [...] Catolicismo! Tinha tendência a acreditar que enquanto o budismo é uma opção vital e espiritual para as pessoas modernas, o catolicismo pertence a um passado problemático. A minha visão do catolicismo é influenciada pelos testemunhos de amigos ex-católicos, sobre os efeitos debilitadores da culpa, a sua busca de bases emocionais saudáveis para suas vidas... Como poderia uma pessoa inteligente e bem informada tomar tal opção?", pergunta-se o crítico da revista. Williams explicou tudo no seu livro "Unexpected Way", e em algumas entrevistas e testemunhos escritos.

Juventude anglicana tíbia

Paul Williams nasceu em 1950. A família da sua mãe não era religiosa, mas depois da sua conversão descobriu que teve uma bisavó católica. A família do seu pai era tipicamente anglicana. Sendo muito jovem, Paul juntou-se ao coro da paróquia anglicana, porque gostava de cantar. Foi crismado na sua adolescência pelo bispo anglicano de Dover, e com 18 anos recorda que ia comungar algumas vezes. Mas não tinha uma relação próxima com Cristo nem recebeu formação.

O seu irmão trouxe da biblioteca um livro sobre yoga, e com ele Williams afeiçoou-se à cultura oriental nos muito alternativos anos 60. "Estive implicado no estilo de vida e nas coisas que os adolescentes fazem. Ao aproximarem-se os exames públicos deixei o coro, deixei de servir na igreja, perdi o contacto com ela, deixei o cabelo comprido e vestia-me de maneira diferente".

Meditação e budismo

A estudar na Universidade de Sussex, especializou-se em filosofia indiana e depois em budismo. "Durante algum tempo fiz a Meditação Trascendental de Maharishi Mahesh Yogui, porém deixei-a porque não gostava da sua superficialidade e parecia-me que distorcia a tradição indiana", escreveu no seu livro.

Em 1973 já tinha tudo claro: tinha estudado tanto o budismo que via o mundo com categorias budistas. Refugiou-se formalmente como budista na tradição tibetana Dgelugspa, a do Dalai Lama. Sendo professor na Universidade de Bristol criou o seu próprio círculo de budistas.

Praticava a meditação, dava palestras em encontros budistas, aparecia em debates televisivos como budista tibetano e participou de debates públicos com o católico dissidente Hans Küng e o catalão orientalista Raimon Panikkar.

O que atraía no budismo

"Interessava-me a filosofia, mas também a meditação e o exótico Oriente. Muitos de nós consideravamos o budismo interessante, porque parecia muito mais racional do que as alternativas, e às vezes muito mais exótico. Os budistas não crêem em Deus, ou melhor, não parecia ter razões para crer em Deus e a existência do mal era para nós um argumento positivo no seu contrário. Nós que havíamos crescido como cristãos estávamos fartos de defender Deus num mundo hostil, cheio de detratores. No budismo existe  um sistema de moralidade, espiritualidade e filosofia imensamente sofisticado, que não necessita de Deus para nada", explica Williams.

Anos depois, ao converter-se ao catolicismo, o filósofo escreveu: "Se repararmos como são os budistas do Ocidente, o chamado Budismo Ocidental, o que encontramos com regularidade é uma forma de cristianismo na qual tiraram as partes que os cristãos 'pós-cristãos' encontram mais dificuldades em aceitar".

Williams conheceu um líder chamado Sthaira Sangharakshita que propunha aos budistas de passado cristão praticar a "blasfémia terapêutica", para conseguirem desapegar-se do seu fundo cristão, insultando coisas consideradas santas em sua cultura. Para Williams esta ideia parecia uma barbaridade.

O problema da reencarnação

O budismo no Ocidente apresenta-se sobretudo como uma técnica para viver experiências positivas: paz, harmonia, relaxamento... Mas à medida que Williams via o passar dos anos, como filósofo não podia evitar fazer-se perguntas, e entre elas: o que passa depois da morte? Há budistas que preferem não pensar no tema, e consideram que é "Mara", uma "ilusão", uma distracção, um tema no qual não vale a pena pensar, mas pode um filósofo deixar de perguntar-se?

"Os budistas crêem no renascimento, ou melhor, na reencarnação, como é chamada. Não há um início na série de vidas renascidas: todos temos renascido infinitas vezes, não há princípio nem se necessita de um Deus que o inicie", explica.

Williams recorda que na época dos primeiros cristãos as crenças a favor da reencarnação estavam muito difundidas na Grécia e Roma, mas o cristianismo nunca as aceitou. "E por boas razões: se a reencarnação é verdade, nós não temos nenhuma esperança".

O que há de mim numa barata?

Imaginemos que vamos ser executados sem dor amanhã pela manhã, mas sabemos com toda segurança que depois reencarnaremos como uma barata. "Acostumar-te-ás, não há problema, ser barata não é como o nada ou o grande vazio, é uma vida, continuarás vivo... Mas por que nada disso nos consola?", argumenta Williams.

Mais específico ainda: "Não peço que imagineis que despertais dentro do corpo de uma barata, como na Metamorfose de Kafka. Serias uma barata, e quem sabe quais são os sonhos ou imaginações de uma barata?"

"O terror de ser executado na aurora e renascer como barata é que, simplesmente, isso seria o meu fim. Não posso imaginar como é renascer como barata porque não há nada que imaginar! Simplesmente, não teria nada de mim aí. Se a reencarnação é verdade, nem eu nem meus seres queridos sobreviveríamos à morte. O eu, a pessoa real que sou, a minha história, acaba. Quem sabe haja outro ser vivo com algum tipo de conexão causal com a vida que eu fui, alguém influenciado por meu karma, mas eu já não estou".

"No nível quotidiano, os budistas tendem a obscurecer este facto -que eu desapareço do tudo com a morte- quando falam de ´meu renascer´ ou de ´preocupar-se com as vidas futuras´, mas na realidade qualquer renascer -como uma barata sul-americana- não seria ´eu mesmo´, e por tanto cabe perguntar-se por que hei de preocupar-me com as minhas reencarnações futuras".

Iluminação, sim... mas quem a consegue?

Para escapar do ciclo das reencarnações, o budismo ensina que é possível alcançar a iluminação, o nirvana, uma absoluta perfeição e desapego nesta vida. Quando alguém tem 20 anos pode pensar que com muito esforço o conseguirá. Mas Williams, com mais de 20 anos de intensa prática budista e meditativa o tinha claro: "É evidente que não vou conseguir a iluminação nesta vida. Todos os budistas tenderão a dizer isso de todo o mundo. A iluminação é uma conquista extremadamente rara e suprema, para heróis espirituais, não para nós, não para gente como eu. Assim eu, e os meus amigos e familiares, não temos esperança".

Karma: pagar pelas outras vidas tuas... que não eras tu

Williams explica rapidamente a teoria do karma: alguns males e alguns bens que experimentas, são consequência do que fizeste em uma vida passada. "Mas como se pode dizer que um ditador cruel que foste noutra vida eras tu? A ideia que um um bebé fica doente por algo que fez outra pessoa, não nos consegue convencer. Não se pode dizer que o que alguém fez noutra vida, seja a resposta mais aceitável para o problema do mal. O bebé não foi quem fez os actos malvados, como também eu não sou uma barata depois de minha execução".

O cristianismo oferece esperança

"O budismo não tinha esperança. Os cristãos sim têm esperança, por isso quis ser cristão. Voltei a examinar as coisas que tinha rejeitado em minha juventude. Dei-me conta que é racional crer em Deus, mais racional do que crer, como os budistas, que não há Deus".

Examinou a chave da proposta cristã: que Jesus tinha ressuscitado. "Assombrou-me descobrir que a ressurreição literal de Cristo dentre os mortos depois de sua crucifixão é a explicação mais racional do sucedido. Isso fazia do cristianismo a opção mais racional das religiões teístas, e como cristão considerei que devia dar prioridade à Igreja Católica."

"O cristianismo é a religião do valor infinito de cada pessoa. Cada pessoa é uma criação individual de Deus, e como tal Deus ama-a e valoriza-a infinitamente. Nisto se baseia toda a moral cristã, desde o valor da família ao altruísmo e o sacrifício dos santos. Por sermos infinitamente valiosos, é que Jesus morreu por nós, para salvar a cada um. E somos as pessoas que somos, com nossas histórias, amigos e parentes. Nossa fé é que em Deus nossas mortes terão significado para cada um de nós, de formas que excedem a nossa imaginação mas que inclusive agora já suscitam a nossa esperança e alimentam nossas vidas".

Hoje Paul Williams é um laico dominicano e um grande admirador de São Tomás de Aquino. Lamenta que às vezes, em encontros ecuménicos ou análises de religião comparada, se faça o contraste entre os místicos cristãos de linguagem simples (como São João da Cruz) com teóricos budistas muito elaborados, com um discurso muito intelectualizado que fazem parecer o místico cristão uma versão simples de uma filosofia complexa. Williams considera que esses autores budistas devem comparar-se com autores sistemáticos como São Tomás. 

in Religion en Libertad


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