quinta-feira, 15 de junho de 2023

D. Athanasius Schneider: "A reforma sinodal do Papa Francisco está a minar a Igreja"

O Bispo Athanasius Schneider está a apelar ao Papa Francisco para que anule as novas normas que concedem direitos de voto iguais a bispos e leigos na Assembleia Geral Ordinária de Outubro de 2023 do Sínodo dos Bispos em Roma, afirmando que são uma "novidade radical" que "minam a constituição divina da Igreja, conformando-a mais com um modelo protestante ou mesmo secular".

As normas, emitidas a 26 de Abril pelo Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, o Cardeal maltês Mario Grech, e pelo seu Relator-Geral, o Cardeal luxemburguês Jean-Claude Hollerich, SJ, sublinham que deve ser dada uma prioridade especial às mulheres e aos jovens que, juntamente com outros membros não-bispos, constituirão vinte e cinco por cento dos votos.

De acordo com D. Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, no Cazaquistão, as alterações à composição da assembleia fazem com que o próximo sínodo se assemelhe a "um parlamento democrático ou igualitário em vez de uma hierarquia monárquica estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo".

Afirma ainda que "os processos e documentos sinodais, e o próximo Sínodo em Roma, adoptaram um método que é estranho ao espírito dos Apóstolos, dos Padres da Igreja e da genuína tradição da Igreja".

Nesta entrevista exclusiva, Monsenhor Schneider também esclarece a natureza de um Sínodo dos Bispos como previsto pelo Papa Paulo VI, discute o que ele acredita que Paulo VI diria à assembleia de Outubro de 2023, e apela aos Cardeais para agirem e não permanecerem passivos "enquanto a Igreja é prejudicada, e a salvação das almas é posta em risco".

Diane Montagna (DM): No dia 26 de Abril, a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos emitiu um comunicado de imprensa anunciando mudanças na composição da assembleia de Outubro de 2023 em Roma. Dez clérigos consagrados serão substituídos por cinco religiosos e cinco religiosas, enquanto os auditores (peritos) serão substituídos por setenta membros não-bispos escolhidos pelo Papa Francisco. Todos os participantes terão direito de voto. Excelência, o que pensa desta mudança?

Bispo Schneider (AS): Esta mudança representa uma novidade radical na história da Igreja Católica. Um sínodo de bispos é um instrumento através do qual a hierarquia exerce a sua função de ensino e de governo. Embora os leigos possam ser convidados a participar num sínodo para darem o seu parecer, as normas de votação de um sínodo sempre reflectiram a diferença essencial entre o sacerdócio hierárquico/ministerial e o sacerdócio comum. Conceder aos leigos o mesmo direito de voto que aos bispos mina a estrutura hierárquica da Igreja e assemelha-se mais às normas dos sínodos da comunidade anglicana e de outras comunidades protestantes, onde o clero e os leigos têm direitos de voto iguais.

DM: Ao fazer esta alteração, o Secretariado do Sínodo modificou a aplicação da Constituição Apostólica Episcopalis Communio, do Papa Francisco, de 2018. Tais normas podem ser alteradas através de um comunicado de imprensa?

AS: As normas essenciais relativas à estrutura e aos procedimentos do Sínodo dos Bispos, incluindo o direito de voto, devem ser devidamente promulgadas pelo Romano Pontífice ou por um órgão da Santa Sé que tenha recebido um mandato papal específico para o efeito. O facto de estas normas essenciais terem sido alteradas através de um comunicado de imprensa da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos cria uma percepção de arbitrariedade canónica.

DM: Na sua declaração, a Secretaria do Sínodo insistiu que esta decisão não muda a natureza episcopal da assembleia, mas antes a "confirma" ao "dar visibilidade à relação circular entre a função profética do Povo de Deus e a função de discernimento dos Pastores".

AS: Estas tentativas de salvamento não são convincentes. O próprio facto de os leigos votarem juntamente com os bispos em questões relativas à fé e à disciplina da Igreja é, por si só, revelador e transmite uma mensagem doutrinal altamente ambígua. Além disso, o facto de a votação na assembleia de Outubro de 2023 em Roma ser meramente consultiva não diminui a verdade de que o próximo sínodo se assemelha a um parlamento democrático ou igualitário, em vez de uma hierarquia monárquica estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo.

DM: Historicamente, que papel positivo têm desempenhado os leigos em tais assuntos?

AS: Na história da Igreja, houve casos em que os leigos foram consultados sobre questões de fé; no entanto, não foram convidados a votar formalmente com os bispos. Por exemplo, antes de proclamar o dogma da Imaculada Conceição na Ineffabilis Deus, Pio IX pediu a todo o episcopado que lhe dissesse "qual era a piedade e a devoção dos seus fiéis relativamente à Imaculada Conceição da Mãe de Deus".

Houve também momentos, como durante a crise ariana do século IV, em que a pureza da fé católica foi mantida pelos leigos e não pelos bispos. Foi uma época, disse São João Henrique Newman, em que "houve uma suspensão temporária das funções da Ecclesia docens".

Na sua famosa obra, 'On Consulting the Faithful in Matters of Doctrine', Newman escreveu: "Nesse tempo de imensa confusão, o dogma divino da divindade de Nosso Senhor foi proclamado, imposto, mantido e (humanamente falando) preservado, muito mais pela Ecclesia docta do que pela Ecclesia docens; que o corpo do episcopado foi infiel à sua comissão, enquanto o corpo dos leigos foi fiel ao seu baptismo. Num momento o Papa, noutros momentos as sés patriarcais, metropolitanas e outras grandes sés, noutros momentos os concílios gerais, disseram o que não deviam ter dito, ou fizeram o que obscureceu e comprometeu a verdade revelada; enquanto que, por outro lado, foi o povo cristão que, sob a Providência, foi a força eclesiástica de Atanásio, Hilário, Eusébio de Vercelli e outros grandes confessores solitários, que teriam falhado sem eles."

DM: Vê alguma semelhança entre a crise do século IV e os nossos dias?

AS: Sim. A confusão doutrinal generalizada no século IV tem uma semelhança impressionante com os nossos dias. O que S. João Henrique Newman disse sobre esse tempo pode muito bem ser aplicado à actual confusão doutrinal e disciplinar que está a ser criada pelos vários processos sinodais e documentos preparatórios emitidos pela Santa Sé durante o ano passado. O Cardeal Newman escreveu sobre a crise ariana: "O corpo de Bispos falhou na confissão da fé. Falaram de modo diverso, uns contra os outros; não houve nada, depois de Nicéia, de testemunho firme, invariável e consistente, durante quase sessenta anos. Havia Concílios não confiáveis, Bispos infiéis; havia fraqueza, medo das conseqüências, desorientação, ilusão, alucinação, sem fim, sem esperança, estendendo-se por quase todos os cantos da Igreja Católica. Os relativamente poucos que permaneceram fiéis foram desacreditados e levados para o exílio; os restantes ou eram enganadores ou foram enganados".

Os vários documentos emitidos durante o actual processo sinodal representam o tipo de confusão contra a qual o Doutor da Igreja do século IV, Santo Hilário de Poitiers, advertiu, dizendo: "É impossível, não é razoável, misturar o verdadeiro e o falso, confundir a luz e as trevas, e unir, seja qual for o género, a noite e o dia" (In Constantium, 1).

DM: O Sínodo dos Bispos foi instituído pelo Papa Paulo VI em 1965, para "assistir o Romano Pontífice com os seus conselhos na conservação e crescimento da fé e dos costumes e na observância e reforço da disciplina eclesiástica, e para considerar as questões relativas à actividade da Igreja no mundo" (cânone 342). O que é que acha que ele diria à assembleia de 2023?

AS: Durante a Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos em 1971, o Papa Paulo VI insistiu na correcta compreensão de um sínodo. Ao fazê-lo, sublinhou o papel orientador e decisivo da hierarquia, dizendo "A comunhão, da qual a Igreja é o resultado, é orgânica. Diferentes são as funções, diferentes são os órgãos do único corpo místico; e a função que melhor caracteriza esta complexa unidade é a hierárquica; é a apostólica, aquela que o próprio Jesus Cristo distinguiu da multidão, e que Ele confiou para a dirigir pastoralmente em seu nome, para a convocar, e depois para a instruir, santificar e assistir" (Audiência Geral de 6 de Outubro de 1971).

Seria muito benéfico que a seguinte admoestação do Papa Paulo VI fosse lida no início do próximo Sínodo em Roma: "Podemos supor que a hierarquia é livre de ensinar na esfera religiosa o que lhe apetece, ou o que pode agradar a certas correntes doutrinais, ou melhor, anti- doutrinais da opinião moderna? Não. Devemos recordar que o episcopado está investido de um dever primordial: o do testemunho, o da transmissão rigorosa e fiel da mensagem original de Cristo, isto é, do conjunto das verdades reveladas por Ele e confiadas aos Apóstolos, no que diz respeito à salvação. O cristianismo não pode mudar as suas doutrinas constitucionais. Os bispos são, mais do que quaisquer outros, aqueles que devem "guardar o depósito", como diz o Apóstolo [1 Tim. 6:20; 2 Tim. 1:14]. Também não devemos colocar a hipótese de mudanças, evoluções, transformações da Igreja em matéria de fé. O Credo permanece. A este respeito, a Igreja é tenazmente conservadora e, por isso, não envelhece" (Audiência Geral, 6 de Outubro de 1971).

DM: Como diagnosticaria a doença que aflige a Igreja e que nos conduziu a este ponto?

AS: O maior mal e a maior doença espiritual que contagiou a Igreja nos nossos dias é a "conformação com o espírito deste mundo" (Rm 12,2), que é basicamente o espírito do Modernismo. O Papa Paulo VI falou deste perigo já em 1964, dizendo "A própria Igreja está a ser engolida e abalada por esta onda de mudança, porque, por muito que os homens estejam comprometidos com a Igreja, são profundamente afectados pelo clima do mundo. Correm o risco de ficar confusos, desorientados e alarmados, e esta é uma situação que atinge as próprias raízes da Igreja. Leva muitas pessoas a adoptarem as ideias mais estranhas. Imaginam que a Igreja deve abdicar do seu próprio papel e adoptar um modo de existência inteiramente novo e sem precedentes. Podemos citar como exemplo o modernismo. Trata-se de um erro que continua a manifestar-se sob diversas formas, totalmente incompatível com uma verdadeira expressão religiosa. Trata-se, sem dúvida, de uma tentativa de filosofias e correntes seculares para viciar a verdadeira doutrina e disciplina da Igreja de Cristo" (Encíclica Ecclesiam suam, 26).

DM: E qual é o remédio?

AS: À luz da evidente infecção geral do corpo da Igreja de hoje com a heresia do Modernismo, ou seja, com a vontade de se conformar com o espírito incrédulo do mundo - com a sua revolta contra a criação de Deus, a Revelação e os Seus Mandamentos - o Sínodo de 2023 deve, mais do que nunca, alertar para esta infecção e propor remédios eficazes.

Em particular, deveria propor as verdades sempre válidas e as normas eficazes da tradição perene da Igreja. A este propósito, o Papa Paulo VI escreveu "É necessário um remédio eficaz para afastar todos estes perigos, que prevalecem em muitos sectores, e pensamos que tal remédio se encontra numa maior consciência de si por parte da Igreja. A Igreja deve ter uma ideia mais clara do que ela realmente é na mente de Jesus Cristo, tal como está registado e preservado na Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica e interpretado e explicado pela tradição da Igreja sob a inspiração e orientação do Espírito Santo" (Encíclica Ecclesiam Suam, 26).

DM: E, no entanto, parece que estão a adoptar uma abordagem diferente.

AS: Em vez disso, os processos e documentos sinodais, e o próximo Sínodo em Roma, adoptaram um método que é estranho ao espírito dos Apóstolos, dos Padres da Igreja e da genuína tradição da Igreja. Ao fazer dos dados psicológicos e sociológicos um critério para decidir questões de fé, moral e disciplina, a Secretaria do Sínodo ignorou Paulo VI, que disse: "As conclusões das investigações [sociológicas] não podem constituir, por si mesmas, um critério decisivo da verdade" (Exortação Apostólica Quinque Iam Anni, 8 de Dezembro de 1970).

O Papa Paulo VI advertiu contra a adopção de uma abordagem tão mundana, quando disse: "Constata-se uma tendência para reconstruir, a partir de dados psicológicos e sociológicos, um cristianismo desligado da Tradição ininterrupta que o liga à fé dos Apóstolos, e para exaltar uma vida cristã desprovida de elementos religiosos" (Exortação Apostólica Quinque Iam Anni, 8 de Dezembro de 1970).

O Papa Francisco e todos os membros do próximo Sínodo em Roma deveriam ouvir seriamente as seguintes advertências proféticas do Papa Paulo VI: "Não somos nós os juízes da palavra de Deus: é ela que nos julga e expõe a nossa conformidade com a moda mundana" (Exortação Apostólica Quinque Iam Anni, 8 de Dezembro de 1970).

DM: Qual seria a vossa recomendação aos Cardeais?

AS: A atribuição de direitos de voto iguais ao episcopado e ao laicado não tem precedentes e mina seriamente a constituição divina da Igreja, conformando-a mais a um modelo protestante ou mesmo secular. A ausência de objectivos claros para o sínodo, que trariam clareza num momento de grande confusão doutrinal, é também muito prejudicial para a Igreja. É, portanto, claro que o próximo sínodo é um veículo para acelerar a protestantização e a secularização da Igreja Católica. Os Cardeais não podem simplesmente permanecer em silêncio enquanto a Igreja é prejudicada e a salvação das almas é posta em risco. Têm a obrigação de apelar ao Papa, com clareza e toda a reverência, como fez o Apóstolo Paulo em relação a Pedro, quando este não andava "rectamente na verdade do Evangelho" (Gal 2, 14).

DM: Excelência, qual é a sua mensagem para o Papa Francisco?

AS: O assunto que temos diante de nós é urgente, e eu apelo fraternalmente ao Papa Francisco para que revogue as novas normas da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, que concedem direitos de voto iguais aos bispos e aos leigos. Apelo também fraternalmente ao Papa Francisco para que estabeleça objectivos claros para o Sínodo que permitam aos bispos professar corajosamente e sem ambiguidades perante toda a Igreja e o mundo, a singularidade de Cristo e a sua obra salvadora, a validade dos mandamentos de Deus e a ordem divinamente estabelecida da Igreja.

Juntamente com tal profissão, o Sínodo deve propor remédios concretos e eficazes contra os vírus e doenças espirituais que afectam severa e quase globalmente o corpo da Igreja hoje. Se as assembleias sinodais de 2023-2024 não o fizerem, a previsão do Cardeal Charles Journet concretizar-se-á: "Um dia os fiéis acordarão e dar-se-ão conta de que foram intoxicados pelo espírito do mundo".

Diane Montagna in Catholic Herald


blogger

1 comentário:

Anónimo disse...

Sempre oportunas as palavras deste "santo."
Só é pena que esteja a "clamar no deserto..."
Que, pelo menos, consiga fazer alguns reletir.