domingo, 22 de março de 2026

Domingo da Paixão: quando a Igreja esconde a Glória

Neste Domingo, a Igreja entra num período singular do ano litúrgico: o Tempo da Paixão. A Igreja recolhe-se agora num silêncio mais profundo, porque a Cruz está próxima.

O que muda na Liturgia

As alterações litúrgicas deste dia são imediatamente visíveis...e audíveis. Na Santa Missa, o Salmo 42 (Judica me, Deus), que habitualmente dá início às orações ao pé do altar, é suprimido. Esta oração, que o sacerdote reza antes de subir ao altar, contém as palavras "faça-se justiça" - e a Igreja silencia-a precisamente quando Aquele que é a própria Justiça caminha para o tribunal dos homens.

O Gloria Patri, a doxologia que encerra o Intróito e o Salmo rezado durante o Lavabo, é igualmente omitido. A mesma supressão estende-se ao Ofício Divino: nas Matinas, na Prima, na Tertia, na Sexta, na Nona e nas Completas, o Gloria Patri desaparece dos responsórios. A glória de Deus, por assim dizer, esconde-se, tal como o próprio Cristo Se escondeu.

O Prefácio muda: abandona-se o Prefácio da Quaresma e adopta-se o Prefácio da Santa Cruz, que permanecerá até à Semana Santa. A Cruz torna-se o centro de tudo.

Cruzes e imagens veladas: quando os olhos são privados da beleza

Mas a mudança mais impressionante, e a que mais marca quem entra numa igreja neste dia, é o velamento dos crucifixos e das imagens dos santos.

Na véspera do Domingo da Paixão, todos os crucifixos, estátuas e imagens presentes na igreja são cobertos com véus de cor roxa, sem qualquer ornamento ou transparência. Apenas as imagens da Via Sacra e os vitrais ficam descobertos. Assim permanecerão os santos até à Vigília Pascal e os crucifixos, até à celebração solene da Paixão na Sexta-Feira Santa.

Esta prática, regulamentada pela Sagrada Congregação dos Ritos, tem raízes profundas. Já no século IX encontramos referências ao costume de estender um grande véu diante do presbitério durante toda a Quaresma, sinal visível de luto e penitência. Em algumas regiões de Espanha, do Sul de Itália e na Catedral de Friburgo, na Alemanha, existiu durante século o costume de ter um enorme véu suspenso diante do presbitério, relíquia da prática primitiva de ocultar o altar com cortinas durante os momentos mais solenes da Missa. Os véus eram originalmente brancos, o roxo veio depois, quando o costume se concentrou no Tempo da Paixão.

Em Roma, a prática de velar todos os crucifixos só se generalizou a partir de 1488. Na Alemanha, onde os véus eram negros em vez de roxos, este dia ficou conhecido como Schwarzer Sonntag — "Domingo Negro".

Porquê esconder Cristo?

A razão litúrgica está inscrita no próprio Evangelho do dia. No rito tradicional, o Domingo da Paixão tem como Evangelho a passagem de São João 8, 46-59, onde Jesus afirma aos judeus: "Antes que Abraão existisse, Eu Sou" (Ego sum): reivindicação claríssima da Sua divindade. A resposta é violenta: pegam em pedras para O apedrejar. E o texto termina assim: "Mas Jesus escondeu-Se e saiu do templo" (Jesus autem abscondit se, et exivit de templo).

Escondeu-Se. É este o gesto que a liturgia reproduz. Santo Agostinho ensina que, nesse momento, Cristo tornou-Se invisível aos Seus perseguidores por virtude da Sua natureza divina. Ele velou a Sua glória. A Igreja faz o mesmo: vela a imagem do Mestre e, por consequência, também as dos servos. Se a glória do Senhor se oculta, não convém que os santos apareçam.

Um pedagogo do coração

Há algo de profundamente humano neste rito. Quando entramos numa igreja e já não vemos os rostos familiares: a Virgem, o padroeiro, o crucifixo que nos acompanha desde a infância...sentimos uma ausência. Uma saudade. Não é acidental. É pedagógico. A Igreja quer que experimentemos, ainda que de forma limitada, o que significa estar separado de Deus. Quer que a Sexta-Feira Santa nos atinja com força; e que a noite da Vigília Pascal, quando os véus finalmente caem ao som do Gloria, seja verdadeiramente uma manhã de Ressurreição.

São as pequenas tradições que ensinam as grandes verdades. As crianças recordam estes gestos. Os que estão de fora ficam intrigados. A fé transmite-se assim: não apenas por palavras, mas por silêncios, por ausências, por véus que escondem para depois revelarem com mais esplendor.

Neste Domingo da Paixão, deixemo-nos habitar por essa saudade santa. A Cruz está próxima: e, com ela, a glória que nenhum véu poderá conter.


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