segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Cavaleiros e Imperadores nas Matinas Papais

Em L'année liturgique, Dom Prosper Guéranger conta o que deve ter sido uma das mais sublimes cerimónias da Cristandade: As Matinas Papais. O cerimonial exige que um cavaleiro leia a quinta lição e que o próprio Sacro Imperador Romano leia a sétima, testemunhando toda a variedade orgânica existente na sociedade medieval.

O Divino Infante, que nascerá entre nós, é o Deus forte, o Príncipe da Paz, e foi posto o principado sobre o seu ombro (Isaías 9, 6), como cantaremos amanhã com a Igreja. Já vimos como o Deus dos exércitos honrou esse poder de Emanuel, conduzindo Nações poderosas a reconhecê-lo deitado no berço de Belém como o Senhor a quem deviam sua fidelidade.

O mesmo reconhecimento desse bebé como o Deus Poderoso é feito pela cerimónia a que nos referimos anteriormente. O Soberano Pontífice, o Vigário do nosso Emanuel, abençoa, em seu nome, uma Espada e um Capacete, que devem ser enviados a algum guerreiro Católico cujo braço vitorioso foi reconhecidamente meritório na república Cristã. 

Numa carta dirigida à Rainha Maria de Inglaterra e a Filipe, seu marido, o Vigário de Cristo explica esse ritual tão solene. A espada é enviada a algum Príncipe, que o Vigário de Cristo deseja honrar em nome de Jesus, que é Rei; pois o Anjo disse a Maria: O Senhor Deus lhe dará o Trono do seu antepassado, o Rei David (Lucas 1, 19). É só dele que vem o poder da espada (Romanos 13, 3:4); porque Deus disse a Ciro: Eu te cingi (Isaías 45, 5); e o salmista fala assim ao ungido de Deus: Cinge a tua espada ao teu lado, ó (rei) poderosíssimo, tua gala e teu ornato! (Salmo 44, 4).

E porque a Espada não deve ser usada excepto numa causa justa, e é por isso que a espada é abençoada nesta noite, na qual nasce para nós o divino Sol de Justiça. No Capacete, que é tanto o ornamento quanto a protecção da cabeça, está trabalhada em pérolas, a Pomba, que é o símbolo do Espírito Santo; isto para ensinar a quem usa o elmo que o uso da espada não deve vir da paixão ou da ambição, mas apenas sob a orientação do Espírito Divino e com o motivo de estender o Reino de Cristo na terra.

[... durante o segundo nocturno, depois dos salmos serem cantados], o Livro dos Sermões dos Santos Padres é aberto, e uma passagem é lida de um desses magníficos discursos de São Leão Magno, que enamorou o povo de Roma no século V.

Em Roma, se o cavaleiro a quem o capacete e a espada foram destinados (que foram abençoados antes das Matinas pelo Soberano Pontífice) está presente, ele mesmo deve ler a quinta Lição, porque fala da grande batalha entre Cristo e Satanás no glorioso mistério da Encarnação. Enquanto o Coro está cantando o responsório O magnum mysterium, o Cavaleiro é levado pelo Mestre das Cerimónias ao Papa. De pé diante do Santo Padre, ele retira a sua espada, três vezes toca com a ponta da espada no chão, três vezes a brande no ar marcialmente e depois limpa a lâmina sobre o braço esquerdo. Ele é então levado para o púlpito, tira o seu capacete e coloca o pluvial (Capa que se usa na Asperges) sobre a armadura e, finalmente, lê a Lição. 

Tais são as disposições do Cerimonial da Santa Igreja Romana, elaboradas num momento em que a força material estava inclinada a curvar-se à ideia moral, onde o cavaleiro com capa de ferro testemunha que deseja seguir Cristo, o vencedor de Satanás. Havia algo estranho ao expressar isso por uma cerimónia sagrada?

[… Depois da terceira nocturna] lemos sucessivamente o início dos vários textos do Santo Evangelho que serão lidos mais adiante, em cada uma das três Missas, pelas quais a Igreja honra o nascimento do Salvador. Para cada passagem dos Evangelhos são usadas homilias dos Doutores da Igreja.

O primeiro dos três textos, que é de São Lucas, é explicado por São Gregório Magno. Ele relata o édito do Imperador Augusto a exigir um censo a todo o Império Romano. Esta Sétima Lição, após o Cerimonial da Santa Igreja Romana, deve ser lida pelo próprio Imperador, se ele estiver em Roma, para honrar o poder Imperial, cujos decretos chamaram a Belém Maria e José, e assim procurando cumprir da vontade do Altíssimo, manifestadas pelos profetas. 

O Imperador é levado perante o Papa, da mesma forma que foi o cavaleiro que cantou a quinta lição; está vestido com o pluvial; Dois Cardeais-Diáconos cingem-lhe a espada e acompanham-no até o púlpito. Com a lição concluída, o Imperador apresenta-se novamente diante do Pontífice e beija o seu pé, como sendo o Vigário de Cristo, o qual acaba de anunciar. Esta cerimónia foi novamente observada em 1468 pelo imperador Frederico III, na presença do Papa Paulo II.

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