Há poucos dias celebrou‑se o oitavo aniversário do acordo secreto provisório entre a Santa Sé e o Partido Comunista Chinês (PCC) relativo à Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC). Concebido pelo Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, em 2018, com a bênção do Papa Francisco, o acordo reconhece a autoridade suprema do PCC para nomear bispos e suprimir e/ou estabelecer dioceses na China — o Bispo de Roma limita‑se a aprovar. Segundo se diz, pouco após a eleição do Papa Francisco, o novo pontífice encarregou o desonrado predador sexual Cardeal Theodore McCarrick de visitar a China com a tarefa de retomar as negociações com o PCC — após o Papa Bento XVI ter deixado de as promover — sobre a nomeação de bispos na China comunista. McCarrick fez, pelo menos, oito viagens à China e prestou informações sobre as suas negociações com o PCC tanto ao Papa Francisco como ao Cardeal Parolin.
Criada em 1957 sob a autoridade de Mao Zedong e gerida pelo Departamento do Trabalho da Frente Unida do PCC, a intenção era alinhar o catolicismo com a ideologia comunista. No início de 1958, Pequim designou ilicitamente o primeiro grupo de bispos sem consultar a Santa Sé. Em Junho desse mesmo ano, o Papa Pio XII publicou a sua encíclica Ad Apostolorum Principis, na qual denunciou a “igreja paralela” chinesa, recusando reconhecer quaisquer consagrações episcopais feitas pela APCC sem prévia aprovação do Vaticano.
Os católicos que permaneceram fiéis a Roma foram forçados a agir na clandestinidade. A partir desse momento, os fiéis de Roma passaram a actuar secretamente. Uma figura notável dessa época foi o finado Bispo católico romano de Xangai e Administrador Apostólico de Suzhou e Nankin, o Cardeal Ignatius Kung Pin‑Mei. Até ao presente mantêm‑se como uma Igreja “subterrânea”, a qual o Vaticano deixou de apoiar por causa do acordo provisório. Muitos padres, freiras e leigos continuam a sofrer prisão, tortura e, em alguns casos, mesmo execução pela recusa em conformar‑se com a igreja institucional do PCC.
Quando o Papa Leão XIV se dirigiu ao público, no dia 25 de Maio do ano passado, poucas semanas depois da sua eleição papal, recordou o Dia de Oração pela Igreja na China durante a sua alocução do Regina Caeli. Esse dia coincidia com o momento, em 2007, em que o Papa Bento XVI escreveu uma carta aos católicos chineses, reconhecendo a sua “fidelidade a Cristo Senhor e à Igreja — uma fidelidade que [eles] têm manifestado por vezes ao preço de graves sofrimentos.” Esperava‑se que isto sinalizasse uma espécie de renascimento para os católicos “subterrâneos” que se recusam a alinhar‑se com a Igreja Patriótica controlada pelo PCC.
O contrário sucedeu, quando o Vaticano anunciou, a 10 de Setembro, que o Papa Leão XIV, a pedido do Presidente chinês Xi Jinping, havia suprimido as duas históricas dioceses de Xiwanzi e Xuanhua — ambas criadas em 1946 pelo Papa Pio XII. Substituiu‑as por uma nova diocese católica na província setentrional de Hebei, com o mesmo nome — Zhangjiakou — de uma que fora criada décadas antes por Pequim sem aprovação do Vaticano. Foi nomeado Padre Joseph Wang Zhengui como Bispo de Zhangjiakou a pedido do PCC, tendo recebido a consagração episcopal no mesmo dia em que a nova diocese foi anunciada.
Presentemente, dois bispos subterrâneos, Augustine Cui Tai e Thaddeus Ma Daqin, encontram‑se detidos e em prisão domiciliária, com as suas funções ministeriais cerceadas por bispos nomeados pelo governo. O Bispo James Su Zhimin, com 94 anos, não é visto desde 2003. O Bispo Xin Wenzhi, de 63 anos, permanece desaparecido forçosamente. Além disso, os Bispos Vincent Guo Xijin e Peter Shao Zhumin, que se recusaram a registar‑se na APCC, estão em prisão domiciliária há mais de um ano. Padres que recusam juntar‑se à Igreja Patriótica continuam a ser presos e torturados, e os libertados da detenção suportam assédio contínuo, incluindo a perda das contas bancárias, passaportes e cartões SIM, o que lhes retira os meios de subsistência.
É bastante presunçoso que a Santa Sé tenha imposto a excomunhão aos bispos da SSPX apenas pelo seu desejo de continuar a administrar os Sacramentos da Confirmação e das Ordens Sagradas — depois de terem sido negadas em várias ocasiões audiências com o Papa Leão XIV para exporem a sua situação — porém o sucessor de São Pedro conforma‑se com um déspota ateu que lidera uma igreja paralela apoiada pelo comunismo.
O comunismo é fundamentalmente malévolo. Para além da sua defesa de uma doutrina ateísta, os regimes comunistas foram responsáveis por alguns dos acontecimentos mais mortíferos da história moderna, com estimativas que sugerem que cerca de 100 milhões de pessoas perderam a vida sob governos comunistas durante o século XX. Além disso, o legado da ideologia caracteriza‑se por estagnação económica, repressão sistemática de liberdades essenciais, catástrofes ambientais e a hipocrisia de uma elite governante que subverte os próprios princípios de uma sociedade sem classes.
Estas falhas não são eventos isolados ou simples erros de implementação. São observáveis em todos os continentes onde o comunismo foi tentado — desde a antiga União Soviética, à China, a Cuba, à Coreia do Norte, os regimes comunistas não se limitam a restringir a liberdade, mas consideram a autonomia individual uma ameaça à sobrevivência do sistema e procuram activamente eliminá‑la.
As liberdades de expressão, imprensa, reunião, movimento, religião e até o pensamento pessoal foram todas sujeitas ao controlo do Estado comunista. A justificação mantém‑se inalterada: o bem colectivo sobrepõe‑se a quaisquer direitos individuais. Na prática, “o bem colectivo” é definido pelo que o partido no poder decide que signifique.
A erradicação da propriedade privada, por exemplo, é um dos princípios fundamentais da ideologia comunista em vez de um mero resultado eventual. Os regimes iniciaram a apreensão de bens quase imediatamente após as respectivas revoluções, abolindo o direito de possuir terra em áreas urbanas e apropriando‑se de edifícios que excediam certos valores modestos. Karl Marx descreveu explicitamente o comunismo como “a expressão positiva da propriedade privada anulada”, indicando que tal não era uma táctica temporária de guerra, mas antes o objectivo último da ideologia.
Contudo, o actual papado aparentemente mantém que alguns resultados benéficos e favoráveis poderão advir do referido acordo provisório. Esta posição contrasta fortemente com as acções do Papa Santo João Paulo II. Eleito em 1978, denunciou a duplicidade dos regimes do Pacto de Varsóvia confrontando‑os directamente. Com o apoio do Presidente dos EUA Ronald Reagan, o Papa polaco apoiou financeiramente organizações anticomunistas, mais notavelmente a Solidariedade, que não só derrubou o regime comunista na Polónia em 1989 como também desencadeou uma reacção em cadeia que conduziu ao colapso de outros governos comunistas, incluindo a U.R.S.S.
No século XX, os regimes comunistas infiltraram‑se eficazmente na Igreja para a destruir a partir de dentro. É difícil acreditar que a China comunista tenha mudado de coração e deixe de se envolver em acções semelhantes. Como disse o Arcebispo Emérito de Hong Kong, Cardeal Joseph Zen, no início do pacto secreto com a China: “Estão a entregar o rebanho à boca dos lobos. É uma traição incrível."
Fr. Mario Alexis Portella in 'Crisis Magazine'
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