segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Santa Hildegarda apresenta um diálogo entre Vício e Virtude

Cobardia: «Eu não corro riscos, com receio de ser exilada e privada de um protetor. Se me expusesse às ofensas dos outros, perderia o meu sustento e ficaria privada dos meus amigos. Honro os nobres e os ricos, mas não me preocupo com os santos e os pobres, porque eles não me podem dar nada. Quero estar em paz com toda a gente, para não correr o risco de morrer. 

Se lutasse, os outros ripostariam; se fizesse mal, os outros far-me-iam ainda pior. Por isso, fico calada: quer me façam bem ou mal, nada digo. Por vezes, é melhor mentir e enganar do que dizer a verdade; é melhor ganhar do que perder, e evitar os fortes do que lutar contra eles. Para que serve começar uma coisa que posso não concluir?»

Vitória [ou Coragem Cristã]: «Errante, atordoada pelo medo, foste para o exílio e enganaste os homens... Não tens ponta de honestidade. Eu empunho a espada das virtudes de Deus, com a qual corto as injustiças... Não quero uma existência a definhar no pó e nas vaidades deste mundo, mas quero chegar à fonte da vida... Combato a velha serpente e os seus despojos com o mistério da Escritura, para permanecer no verdadeiro Deus...».

A cobardia segue-se à dureza qual nódoa feia. O homem cobarde não quer opor-se aos vícios, mas atrai-os com a sua preguiça. Os insensatos, na sua insignificância, julgam-se honestos, quando na verdade amam a ociosidade, não pensam em fazer o bem, mas voltam-se para a calúnia, ligam-se cobardemente às insinuações e às calúnias, e desenvolvem-nas a ponto de deixar que elas ocupem completamente o seu coração. Eles trocam a confiança que deveriam ter na ajuda de Deus e dos homens pelo seu prazer.

Santa Hildegard de Bingen in 'O Livro das Obras Divinas', cap. 6


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