Parece incompreensível ou, pelo menos, estranho que nem nas traduções bíblicas actuais, nem nas palestras, nem nas pregações se refira à Paixão de Jesus Cristo como um episódio ou programa humorístico. De facto, as narrações dos Evangelhos são tão claras a esse respeito que ecoam enormes gargalhadas acompanhando os gracejos e pilhérias dos assistentes: se é o Messias que desça da cruz, quis salvar os outros, mas nem se salva a si mesmo, etc. As nossas traduções falam de zombarias e escarnecimentos porque são mais sofisticadas no vocabulário, mas o significado é o mesmo.
Num tempo de mentalidades nominalistas, decide-se que as coisas são o nome que lhes dermos (este macho é uma fêmea, eu sou Napoleão, o sacrilégio e a profanação são humor). Este delírio irracional é fruto de um conceito de liberdade insubmissa à razão que encontra o seu fundamento numa rebeldia da vontade contra a Ordem da Criação. Contrariamente ao que muitos pensam, a existência de Deus Criador não é uma verdade de Fé, pois a razão pode reconhecê-Lo pelas Suas obras.
No século IV (304), em Abitina (na actual Tunísia), foram torturados e mortos 49 cristãos, por terem recusado a proibição romana de celebrarem a Eucaristia, declarando que não podiam viver sem ela: “Sem o Senhor (Jesus Cristo presente na Eucaristia, na Comunhão), não podemos viver”. Ora, como é óbvio, ninguém dá a vida por uma gargalhada, por gracejos que, como sementes implantadas na memória e na imaginação, germinarão em crescendo apoucando e banalizando o Sagrado e as virtudes teologais.
O humor não é a realidade última e absoluta, que se possa endeusar e exigir que tudo e todos se lhe submetam e adorem. Se tem essa pretensão, então não passará de um ídolo, de um déspota totalitário.
Padre Nuno Serras Pereira

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