Homilia do Padre Claude Barthe, Capelão da Peregrinação Summorum Pontificum, no passado Domingo de Cristo-Rei:
Como todos os anos, há já quinze anos, concluímos a nossa peregrinação nesta paróquia da Santissima Trinità dei Pellegrini, que nos acolhe de modo tão fraterno. Paróquia consagrada àquela liturgia régia que é a Missa tradicional, que exprime de modo excelente o carácter sacrificial da Missa, a adoração da Presença Real, o infinito mistério de Cristo que Se faz próximo e, em última análise, a Sua realeza universal.
É precisamente celebrando a realeza de Cristo que concluímos a nossa peregrinação neste último Domingo de Outubro, como Pio XI tinha pedido na encíclica Quas primas.
Toda a Sagrada Escritura fala desta realeza universal de Cristo, que deve aplicar-se de modo particular àquilo que rege a vida dos homens, isto é, às instituições da civitas. O Antigo Testamento anunciava-a: David, este rei fraco, cuja realeza era a da força de Deus; Salomão, o construtor do Templo e o organizador por excelência do culto que o povo hebreu devia prestar ao seu Deus; Josias, o piedoso legislador dos homens segundo a lei de Deus; e também o Salmo 2, que fala das nações e dos seus príncipes levantados contra Deus, o qual, todavia, os submete e os dá em herança ao seu Cristo.
Quanto ao Novo Testamento, mostra-nos os Magos, vindos em nome de todas as nações para reconhecer Jesus como seu rei, e os judeus, que, antes de O condenarem por Se ter proclamado rei, assim O aclamavam nos dias dos Ramos.
Cristo, rei das nações da terra: este foi o ideal da cristandade, segundo o qual ela viveu - muitas vezes muito mal, é verdade, e com muitos pecados - durante longos séculos. Com efeito, «da forma dada à sociedade, conforme ou não às leis divinas, depende e deriva o bem ou o mal das almas», dizia Pio XII. Este ideal fundava-se naquilo que sempre pareceu evidente aos homens, ou seja, que, do simples ponto de vista natural, os homens que vivem em sociedade devem obedecer à lei de Deus e exprimir a sua sujeição prestando-Lhe culto.
Porque a vida política, por mais estranha que possa parecer hoje esta afirmação, é em si mesma moral e religiosa.
A vida na polis, a vida política, é para o homem um elemento mais vital do que a água para os peixes. Deve proporcionar-lhe, se a sociedade está em ordem, «aquele bem que é o mais excelente entre todos os bens humanos», como o define Santo Tomás, isto é, o bem comum. Todo o papel das autoridades do Estado, cujo poder provém de Deus, como diz São Paulo aos Romanos, é o de o proporcionar aos cidadãos: devem fornecer-lhes os meios para viver, primeiramente material e culturalmente, mas também e sobretudo para viver bem, isto é, nem mais nem menos, para viver segundo a virtude. Por mais incrível que possa parecer hoje, este é o objectivo que as leis humanas devem prosseguir, deixando naturalmente amplo espaço à tolerância para com a fraqueza humana: devem encorajar o bem e punir o mal.
A autoridade pública, afirma São Pedro na sua primeira carta, foi instituída para punir os malfeitores e premiar as pessoas de bem. E São Paulo, na Carta aos Romanos, capítulo 13, sustenta analogamente que todo o magistrado, em nome de Deus, serve o bem e pune aqueles que praticam o mal. Aqueles que governam devem promover o bem-estar dos seus súbditos, organizando do melhor modo - segundo as circunstâncias e tendo em conta a fragilidade humana - uma vida social tão virtuosa quanto possível.
Por este motivo, a tarefa mais elevada dos governantes dignos de tal nome consiste em fazer com que os homens a eles sujeitos cumpram aquilo que hoje definiríamos como o mais importante dos «deveres cívicos»: prestar culto a Deus. A laicidade de princípio da sociedade - o «laicismo», para usar uma expressão de Pio XI - representa uma aberração relativamente à natureza do homem que, enquanto criatura de Deus e criatura social, é obrigado a prestar-Lhe homenagem. Desde o advento de Cristo e da difusão do Seu Evangelho, este culto social - cume da vida boa dos cidadãos - é o que é prestado pela Igreja. É por isso que, à medida que os povos se tornavam cristãos e as nações eram baptizadas, também as suas instituições se tornavam cristãs.
Elas deixaram de o ser e a civitas catholica já não existe. É por isso que compreendemos ainda melhor a oportunidade deste convite litúrgico anual, querido por Pio XI: «A peste da nossa época - dizia ele - é o laicismo, com os seus erros e as suas intenções criminosas.» Definia-o como uma «apostasia». Cristo é sempre rei, mas a sua realeza é ultrajada.
Aquilo que vivemos já não é a realeza gloriosa do Domingo de Ramos, mas sim a realeza da Sexta-Feira Santa, que permanecia, todavia, uma realeza. Os relatos da Paixão nos Evangelhos mostram como a Paixão de Jesus foi, paradoxalmente, uma verdadeira afirmação régia, ainda que invertida: a coroa de espinhos, o manto de púrpura, a cana como cetro pretendiam ridicularizar tal realeza, mas, ao mesmo tempo, reafirmavam-na. A inscrição na Cruz dizia: «Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus». A Cruz era como um trono elevado, do qual Ele atraía tudo a Si, como tinha anunciado.
Os soberanos decaídos são chamados «pretendentes ao trono». O único pretendente incontestável a reinar sobre toda a nação é Cristo Nosso Senhor. Nós, católicos, somos os verdadeiros defensores da realeza. E honramos aquelas hostes de mártires, em particular os Cristeros do México, mortos gritando: «Viva Cristo Rei!».
Intercedam eles por nós, para que não percamos a esperança! Interceda por nós o bom ladrão, o primeiro santo da Igreja, que exclamou: «Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu Reino!».
Interceda também, e sobretudo, a Virgem Maria, que partilhou tudo e que partilha tudo com o seu Filho! Na sua compaixão aos pés da Cruz, Ela tomou sobre Si o peso do escárnio suscitado pelo demónio - um demónio que continua a fomentá-lo cada vez mais - contra a realeza do seu Filho. Ele é o Rei universal de todas as nações; Ela é a Rainha benévola de cada uma delas. Possa Ela sustentar a nossa confissão da realeza do seu Filho!
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