sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Visita surpresa do Papa Francisco a um lar de idosos em Roma



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Da conveniência de uma Liturgia Universal

Confesso ter certa dificuldade com uma coisa que, em tempos normais, não deveria ser capaz de angustiar católico algum: assistir à Santa Missa num lugar distinto do habitual. Se a Igreja é Católica — i.e., Universal — e se a Liturgia é o serviço público da Igreja (“público” aqui tem o sentido de “oficial”), seria de se esperar que esta catolicidade se reflectisse, também e talvez até principalmente, na maneira como a Igreja presta o Seu culto a Deus, independente do lugar em que se desse a celebração do Santo Sacrifício.

Eu entendo o argumento de que o Evangelho não é uma cultura pronta e acabada mas, ao contrário, uma força capaz de orientar para Cristo tudo aquilo que é verdadeiramente humano — e, portanto, tem em Si próprio a força de elevar qualquer cultura a Deus. Mas disso não me parece decorrer que o culto a Deus deva reproduzir as particularidades de cada povo, de cada grupo social, de cada costume local (ainda que legítimo). Ao contrário: penso que, no que diz respeito à Sagrada Liturgia, a catolicidade da Igreja deve se sobrepôr à legítima particularidade dos fiéis que do culto divino tomam parte em um momento histórico específico e num lugar determinado do globo terrestre. Há, penso, diversas razões para que isto deva ser dessa maneira, das quais as três a seguir não são as menos importantes.

Em primeiro lugar, por uma questão de, se é possível chamar assim, sacramentalidade. O sacramento é um sinal e isto significa que a Liturgia da Igreja é, ela toda, uma linguagem. Para além da graça eficaz que é inerente a todo Sacramento, há uma mensagem que a Liturgia precisa transmitir — e esta mensagem precisa falar à inteligência, à compreensão de cada fiel. Ora, esta mensagem é por definição extraordinária: a linguagem da qual ela se reveste, portanto, para ser proporcionada ao conteúdo que se presta a transmitir, precisa ser, ela também, extraordinária. Precisa de se afastar do quotidiano, das coisas do dia-a-dia, dos símbolos usados ordinariamente para tratar das coisas da vida: a Liturgia precisa, assim, de distanciar-se dos costumes e usos sociais legitimamente vigentes em cada sociedade. Isso é necessário para que o católico veja, na Liturgia, já ao primeiro vislumbre, algo diferente do comum dos dias: é a clássica distinção entre o sagrado e o profano, difícil de exprimir hoje em dia porque o segundo termo adquiriu um caráter pejorativo que não se pode ignorar. O que quero dizer é simplesmente o seguinte: nem tudo o que é humanamente legítimo é adequado à Sagrada Liturgia e nem tudo o que não cabe no Culto Divino é, por isso mesmo, pecaminoso ou indigno. Esta é uma compreensão que se precisa urgentemente de resgatar: munidos dela, os católicos seriam mais comedidos em introduzir nas suas celebrações estes elementos estranhos ao espírito da Liturgia e que tanto atrapalham a frutuosa participação dos fiéis.

Em segundo lugar, porque todo o legítimo processo de inculturação é mais passivo do que activo: isto significa que os homens mais têm a sua cultura purificada pela Igreja e moldada ao vigor do Evangelho do que constroem, eles próprios, o seu contributo pessoal ao Catolicismo, o seu tijolo personalizado a integrar as muralhas da Cidade Santa de Deus. O contacto transformador com o Evangelho não é um exercício imaginativo ou uma experiência inefável com um fantasma amorfo: se os primeiros cristãos se encontraram com um Cristo verdadeiramente humano, com um rosto próprio e uma voz particular, é com uma Igreja concreta que se prolonga na História este encontro salvífico — e esta Igreja tem a Sua própria face e a voz que indistintamente é d’Ela. Tem os Seus símbolos e a Sua linguagem, que A identificam e sem os quais não é possível haver verdadeiro encontro entre os filhos de Deus e a Esposa de Cristo. Se é verdade que há muitas características distintas que cabem no conceito de “homem”, é igualmente verdade que no Verbo de Deus encarnado se encontram características humanas específicas — uma dada cor de pele, um específico tom de voz, determinada cor de olhos e de cabelos etc. Ora, é claro que há incontáveis elementos humanos com os quais se poderia conceber uma instituição que anunciasse o Evangelho; mas a Igreja, que é o Corpo de Cristo, possui alguns elementos determinados e específicos que respondem pela Sua individualidade histórica e pela Sua natureza encarnada. E da mesma forma que todo o ser humano se encontra em Cristo Encarnado sem que Ele precise de ter ao mesmo tempo todas as distintas características físicas de cada indivíduo, toda a cultura humana se encontra na Igreja de Cristo sem que Ela precise de reproduzir em Si mesma todas as culturas — ou cultura nenhuma.

Em terceiro lugar, por fim, por uma questão de catolicidade. A unidade de rito faz com que todo o católico, em qualquer parte do mundo em que se encontre, possa vivenciar a Liturgia do modo a que está acostumado. Isto complementa admiravelmente o que se dizia acima: se por um lado o católico precisa de se sentir sempre um pouco estrangeiro ao adentrar na igreja da sua terra natal, por outro lado ele precisa de experimentar sempre um ar de familiaridade ao ingressar na igreja de uma terra estranha. O rito católico, justamente por ser universal, não é de lugar algum e é simultaneamente de todos: não existe nenhum fiel capaz de pretender que aquele rito reflicta exactamente os costumes particulares do seu povo ou do seu grupo, mas também ninguém pode dizer tratar-se de celebração alienígena que em tudo lhe é estranha. A Sagrada Liturgia é de todos exactamente por não ser de ninguém em particular; esta manifestação sensível de catolicidade fortalece a Igreja e contribui para que todo o fiel possa viver melhor a sua Fé. Fazer diferente disso não é enriquecer a cultura particular do fiel, mas ao contrário: é sepultar a cultura universal de todo o católico e, fechando-lhe o acesso ao fiel, privá-lo de uma dimensão de eclesialidade que não se pode satisfatoriamente substituir.

Eu pensava nestas coisas porque, em viagem, precisei recentemente de assistir à Santa Missa num lugar que eu não conhecia. Mas os meus temores não se concretizaram: Deus foi misericordioso comigo, e me presenteou com uma Missa impecável, celebrada por um sacerdote zeloso cujos olhos estavam o tempo inteiro voltados para Deus. Que o Altíssimo abençoe e recompense aquele padre, que me proporcionou uma bela Missa. Uma Missa sóbria, reverente, comedida, sem invencionices, que poderia ter sido celebrada em qualquer lugar do mundo, por qualquer sacerdote — e, justamente por isso, uma Missa tão católica.

Jorge Ferraz in Deus lo vult!
(adaptado para Português de Portugal)


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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Obras de Misericórdia Corporais

S. Mateus recolhe a narração do Juízo Final (Mt 25, 31-16): Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: «Quando, pois, vier o Filho do Homem, na Sua majestade, e todos os anjos com Ele, então Se sentará sobre o trono de Sua Majestade. Todas as nações serão congregadas diante d’Ele, e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à esquerda. 

Dirá então o Rei aos que estiverem à Sua direita: 'Vinde, benditos do Meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo; porque tive fome e Me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e Me recolhestes; nu, e Me vestistes; enfermo e Me visitastes; estava na prisão e fostes ver-Me'. 

Então, os justos Lhe responderão: 'Senhor, quando Te vimos faminto e te demos de comer; com sede e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino e Te recolhemos; nu e Te vestimos? Ou quando Te vimos doente ou na prisão e fomos visitar-Te?' 

O Rei, respondendo lhes dirá: “Em verdade vos digo que, todas as vezes que fizestes isto a um dos Meus irmãos mais pequenos a Mim o fizestes”. 

Em seguida dirá aos que estiverem à esquerda: “Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demónio e para os seus anjos; porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes, estava nu e não Me vestistes; enfermo e na prisão, e não Me visitastes”. 

Então eles também Lhe responderão: “Senhor, quando é que nós Te vimos faminto ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não Te assistimos?' 

E lhes responderá: “Em verdade vos digo: Todas as vezes que não fizestes a um destes mais pequeninos foi a Mim que não o fizestes”. E esses irão para o suplício eterno; e os justos para a vida eterna».

Breve explicação das Obras de Misericórdia Corporais:

1) Dar de comer a quem tem fome e 2) dar de beber a quem tem sede.
Estas duas primeiras complementam-se e referem-se à ajuda que devemos procurar em alimento e outros bens para os mais necessitados, para aqueles que não têm o indispensável para poder comer cada dia. Jesus, como recolhe o evangelho de São Lucas recomenda: «Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem que comer, faça o mesmo» (Lc 3, 11).

3) Vestir os nus. 
Esta obra de misericórdia é dirigida a satisfazer outra necessidade básica: o vestuário. Muitas vezes é-nos facilitada com as recolhas de roupa que se fazem nas Paróquias e outros centros. À hora de entregar a nossa roupa é bom pensar que podemos dar do que nos sobra ou já não nos serve, mas também podemos dar do que ainda é útil. 
A carta de Santiago anima- nos a sermos generosos: «Se um irmão ou uma irmã estão nus e carecem de sustento diário e algum de vós lhe diz: “Ide em paz, aquecei-vos ou fartai-vos", mas não lhes dais o necessário para o corpo, de que é que serve?» (St 2, 15-16).

4) Dar pousada aos peregrinos.
Na antiguidade dar pousada aos peregrinos era um assunto de vida ou de morte, pelo complicado e arriscado das travessias. Não é hoje o caso. Mas, ainda assim, poderá tocar-nos receber alguém na nossa casa, não por pura hospitalidade de amizade ou de família, mas por alguma verdadeira necessidade.

5) Visitar os enfermos
Trata-se de uma verdadeira atenção aos enfermos e idosos, tanto no aspecto físico, como em fazer-lhes um pouco de companhia. 
O melhor exemplo da Sagrada Escritura é o da Parábola do Bom Samaritano, que curou o ferido e, ao não poder continuar a tratá-lo directamente, confiou os cuidados de que necessitava a outro a quem ofereceu pagamento. (ver Lc. 10, 30-37).

6) Visitar os presos 
Consiste em visitar os presos e prestar-lhes não só ajuda material mas assistência espiritual que lhes sirva para melhorar como pessoas, para se emendarem, aprender a desenvolver um trabalho que lhes possa ser útil quando terminem de cumprir o tempo imposto pela justiça, etc...
Significa também resgatar os inocentes e sequestrados. Na antiguidade os cristãos pagavam para libertar escravos ou trocavam-se por prisioneiros inocentes.

7) Enterrar os mortos 
Cristo não tinha lugar para ser sepultado. Um amigo, José de Arimateia, cedeu-lhe o seu túmulo. Mas não só isso, teve a valentia de se apresentar diante de Pilatos e pedir-lhe o corpo de Jesus. Nicodemos também participou, ajudando a sepultá-lo (Jo 19, 38-42). 
Enterrar os mortos parece um mandato supérfluo, porque – de facto – todos são enterrados. Mas, por exemplo, em tempo de guerra, pode ser um mandato muito exigente. Porque é importante dar sepultura digna ao corpo humano? Porque o corpo humano foi alojamento do Espírito Santo. Somos “templos do Espírito Santo” (1 Cor 6, 19).



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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Será que a Ciência pode explicar tudo?



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Adopção por homossexuais, porque não - Razões empíricas

por Pe. João Paulo Pimentel (Parte 2)
A parte 1 pode ser lida aqui.

I. Razões empíricas


1. Riscos de instabilidade

Outro motivo que – sem ser o mais importante e decisivo – desaconselha este tipo de adoção é a falta de estabilidade nas uniões homossexuais. Não é que não possam dar-se exceções, mas estas são tão raras que o legislador – mesmo se não encontrasse outras razões para negar a adoção – deveria exigir uma estabilidade de vários anos antes de entregar uma criança à adoção por homossexuais. Quando um casal diz que se vai separar, os que o rodeiam sentem habitualmente pena e aconselham a uma reflexão séria antes de a separação ser consumada. No caso de pares homossexuais, haverá alguém próximo que lamente essa separação anunciada? Aliás, os próprios, quando se comprometem numa união mais pública e estável, quererão mesmo viver juntos para toda a vida?

Mas a falta de estabilidade nestes casos não decorre apenas da pouca durabilidade (a duração média do «vínculo» não costuma ser superior a três anos): é sabido que os conflitos e os comportamentos violentos entre pares homossexuais são duas a três vezes mais frequentes do que os ocorridos em casais heterossexuais; além disso, as mudanças de «companheiro» são muito frequentes, e a promiscuidade sexual é maior do que a que ocorre em casais heterossexuais. Tudo isto contribui para a instabilidade afetiva das crianças adotadas.

2. Risco de sérios transtornos

Alguns psiquiatras afirmam que os principais riscos que correm as crianças adotadas por homossexuais são, do ponto de vista médico, os seguintes:

Transtornos na identidade sexual;
Maior incidência de comportamentos homossexuais ao chegarem à adolescência (em concreto, estes sete vezes mais frequentes do que em crianças que vivem com os pais biológicos e em famílias com o pai e a mãe em casa);
Tendências significativamente maiores para a promiscuidade sexual, transtornos da conduta, a depressão, comportamentos agressivos, a ansiedade, a hiperatividade e as insónias.

Estes argumentos são rebatidos tanto em artigos quanto por aqueles que estimam ainda ter decorrido pouco tempo para se chegar a conclusões certas (dizem que «as amostras» são insuficientes para se chegar a conclusões nesta matéria). Sendo assim, talvez a formulação mais correta do argumento pudesse ser a seguinte: existe uma forte possibilidade e um aumento do risco de que as tais crianças desenvolvam problemas emocionais, confusões na identidade sexual e depressões; há uma dificuldade real de a criança se adaptar e crescer harmonicamente quando é educada por dois homens ou por duas mulheres, em vez de o ser por um homem e por uma mulher.

3. Outros riscos e dúvidas

Vale a pena levantar mais algumas questões, numa tentativa de convidar o leitor a refletir:

Quando um rapaz adotado por dois homens sentir atração por raparigas, estará à-vontade para o manifestar aos que dizem ser seus pais?
Quando as crianças nessas condições se derem conta de que a maioria das pessoas tem uma atração pelo outro sexo, como olharão para os que dizem ser seus pais?
Não será previsível que crianças nessas situações acabem por ser malvistas pelos seus colegas?
Que farão os pais que se veem confrontados com um convite do colega do filho que foi adotado por dois homens ou por duas mulheres (referimo-nos aos que desejam que os seus filhos saibam o que está bem e o que está mal)? Deixarão o filho ir a casa do colega adotado?

Para concluir, sugerimos que se veja um último testemunho (consultado online a 27 de dezembro de 2015): https://www.youtube.com/watch?v=CotB5fUzj38

Defendamos o bem das crianças!


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Se Deus aparecesse nas notícias

"Se Deus aparecesse nas notícias, que lugar restaria à liberdade humana, ao livre arbítrio e à Fé? Como poderíamos duvidar de uma evidência? Como faria o homem o caminho da confiança, de volta a uma relação entretanto traída? 

Não! A maior razão da Fé reside na salvaguarda da liberdade humana. Em reganhar uma confiança entretanto perdida pela Queda. É preciso viver a revolução permanente, contra o espírito da época, contra a heresia da moda. Só assim se obtém o perdão e o regresso a casa."

G. K. Chesterton




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Adopção por homossexuais, porque não - Razões essenciais

por Pe. João Paulo Pimentel (Parte 1)
A parte 2 pode ser lida aqui.

O primeiro problema decorrente da adoção de crianças por pares homossexuais deriva do facto de se ter chamado «casamento» a tais uniões. Como bem esclarecia um documento da Congregação para a Doutrina da Fé de 3 de junho de 2003, «não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família» (n.º 4). Aliás, a insistência, por parte de uma minoria (ainda que ruidosa e financeiramente poderosa), para viabilizar a adoção nestes moldes deve-se, em boa parte, à vontade de conquistar uma maior legitimidade social para as próprias uniões homossexuais. As crianças são um meio em vista de um objetivo ideológico. 

Quando a sociedade afirma que uma união homossexual pode ser um casamento está a evidenciar que, pelo caminho, perdeu valores fundamentais:

Perdeu a consciência da riqueza da diferenciação sexual;
Perdeu o significado profundo do corpo, que pode expressar um amor de doação precisamente porque há um outro que é diferente e complementar;
Perdeu o nexo entre a união conjugal e a procriação como se esta fosse um acidente da anterior que talvez uma vez na vida possa suceder;
Perdeu o significado da entrega do próprio «eu» no ato conjugal que é visto apenas como um disfrutar mutuamente um com o outro;
Perdeu a consciência da existência de uma união entre um homem e uma mulher que é para toda a vida e tem a chancela divina. 
De facto, perdeu a consciência de que há um plano de Deus para o amor humano entre um homem e uma mulher e de que esse plano é essencial para as felicidades terrena e eterna.

O casamento é, portanto, uma união indissolúvel de amor entre um homem e uma mulher; mas há países que, apesar de aplicarem a certas uniões homossexuais o nome de «casamento», não reconhecem aos pares homossexuais o «direito» de adotar. Nesses casos, que razões adicionais podem ser apresentadas para se evitar um novo mal? Apresentaremos um elenco de razões, sinteticamente expostas e distribuídas por dois grupos. No primeiro, exporemos as razões essenciais para ajudar a entender que tais adoções são sempre um mal. No segundo, apresentaremos razões que derivam sobretudo do que até agora se pôde observar nos países em que se legalizaram essas adoções. As consequências negativas permanecem válidas mesmo que, nalguns casos, não se tenham verificado; são, na verdade, riscos muito sérios que reforçam a rejeição das adoções por homossexuais.


I. Razões essenciais

1. O bem da criança é secundarizado

O segundo princípio da Declaração Universal dos Direitos da Criança estabelece que, quando se formulam leis relacionadas com a criança, a consideração fundamental a que se deve atender é ao interesse superior da mesma: «Tomar-se-á exclusivamente em conta o bem da própria criança». Permitir a adoção para «consolar» pares homossexuais é inverter a lógica da adoção. Em tais casos, as crianças são vistas como um meio para satisfazer esses pares, os quais chegam ao ponto de reclamar o «direito» a ter crianças. 

Há muitos casais heterossexuais dispostos a adotar crianças sem o conseguirem; não faltam homens e mulheres para adotar. A finalidade da adoção é proteger a criança desamparada, não a satisfação de adultos que não podem gerar. Além disso, a adoção deve imitar a natureza (adoptio imitat naturam), e a criança é naturalmente gerada por um homem e por uma mulher. 

A adoção por homossexuais acaba por consagrar o princípio de que as crianças são, no fundo, propriedade dos «pais» ou «mães» (de quem o Estado considere «pais» ou «mães»). Deste modo, não é garantido às crianças, na prática, o protagonismo das suas vidas. Todos deveríamos responder honestamente a perguntas como as que se seguem: que família será melhor para esta criança? No caso de eu morrer, a que tipo de pessoas gostaria que os meus filhos fossem confiados? 

2. Ausência de modelos próximos de ambos os sexos

A criança fica domesticamente privada, de modo deliberado, do enriquecedor contributo da diversidade masculina e feminina. Ela necessita de um pai e de uma mãe, nomeadamente para se identificar com a pessoa do seu sexo e para aprender acerca do respeito, do afeto e da complementaridade que a pessoa do outro sexo pode proporcionar. Várias pessoas educadas com dois pais ou com duas mães queixaram-se de que não aprenderam, na prática, como se lida com pessoas do outro sexo. A criança que vive num lar habitado por homossexuais não tem a experiência real, em casa, das diferenças entre o homem e a mulher. Pelo contrário: aprende erroneamente que são irrelevantes tanto as diferenças sexuais quanto a atração por pessoas do outro sexo.

3. Dificuldade acrescida para conhecer Deus

Para os que são crentes, vale a pena pensar nas razões teológicas que desaconselham este tipo de adoções. Para conhecer Deus – que tem «coração» de pai e de mãe –, é fundamental conhecer a fundo a riqueza da diversidade sexual. Sem essa experiência, dificulta-se muito um conhecimento mais verdadeiro de Deus. Que sentido fará para uma criança adotada por dois homens as palavras de Isaías: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria» (Is 49, 15)? 
Claro que esta lacuna também sucede, em parte, nas crianças que perderam o pai ou a mãe. No entanto, nestes casos, elas aprendem desde muito cedo que falta «algo» nas suas vidas: a experiência da paternidade ou da maternidade. Não lhes é dito que a paternidade ou a maternidade são supérfluas.

4. Mensagem de que o outro sexo é irrelevante

Quando admite a possibilidade da adoção por duas pessoas do mesmo sexo, o Estado está a afirmar implicitamente que o outro sexo não é relevante na formação das crianças. Como se sentirá uma mulher a quem é dito, pelas «leis» e por costumes práticos, que a sua condição de mãe é pouco relevante na formação das crianças? E como se sentirá um pai a quem é dito que a sua condição de pai é dispensável?
Este argumento é desenvolvido no seguinte testemunho (consultado online a 27 de dezembro de 2015): www.youtube.com/watch?v=V-g8NvHHmfM.

5. Grave escândalo moral

Do ponto de vista moral, o facto de as crianças serem habituadas desde cedo a conviverem com uma situação gravemente pecaminosa (um dos pecados que, nos catecismos antigos, de modo pedagógico, se incluía entre aqueles que «clamam aos Céus») levá-las-á a tomar por bom o que é mau. A indução desse erro moral é um escândalo no sentido próprio do termo. E Jesus é bem claro a este respeito: «Quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim, melhor lhe fora que lhe pendurassem ao pescoço a mó de um moinho e que o lançassem ao fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo!» (Mt 18, 6-7).

6. Constatação precoce da condição de ser adotado

É preferível não precipitar a informação que se dá a uma criança adotada sobre a sua situação, para se evitar que ela se sinta diferente das outras. Nos casos das crianças que forem adotadas por dois homens ou por duas mulheres, será impossível mantê-las na ignorância até à idade e até ao momento mais convenientes.

(conclui na parte 2)


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domingo, 10 de janeiro de 2016

Papa Francisco celebrou a Santa Missa na Capela Sistina

Papa Francisco celebrou a Santa Missa na Capela Sistina e baptizou 26 bebés, na sua maioria filhos de funcionários do Vaticano.


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Dona Práxedes ou a ideologia de género

Dona Práxedes é uma competentíssima telespectadora: está a par de todas as telenovelas e assiste, com religiosa devoção, à programação matinal de dois ou três canais nacionais. Convidada para participar num concurso televisivo, ganhou um automóvel fantástico, que lhe foi entregue pelo locutor de serviço e por um responsável da marca respectiva. Escusado será dizer que D. Práxedes é uma exímia condutora pois, em vinte anos de condução, só teve um acidente: uma ‘infracção’ de segundos, como costuma dizer.

No dia da entrega do carro, em directo, com honras de acompanhamento musical e aplausos da assistência, para o efeito devidamente industriada, D. Práxedes foi alertada, pelo representante da empresa automobilística, para as especificidades da viatura com que foi contemplada. Disse-lhe, entre outras coisas, que deveria apenas usar, como combustível, o gasóleo. Também lhe chamou a atenção para a necessidade da mudança de óleo, a realizar logo que o indicador respectivo, assinalado no painel de condução, desse sinal. Igualmente lhe recordou que a água do radiador deve ser periodicamente verificada.

Dada a sua esfusiante alegria e a azáfama do momento, D. Práxedes não deu muita atenção às indicações de carácter mecânico, até porque se distraíra a pensar colocar, no banco traseiro, duas almofadas de crochet que tinha em casa. Já ao volante do bólide e a caminho de casa, lembrou-se das infindáveis recomendações que lhe tinham sido feitas sobre o funcionamento da sua nova máquina. Como lhe pareceram, então, absurdas essas instruções. Como quem pensa em voz alta, disse a si mesma:

- Que conselhos mais disparatados! Afinal, não sou eu a dona do carro?! Não é verdade que me pertence?! E, sendo só meu, não o posso usar como muito bem me apetecer?! Com o meu carro faço o que quero e ninguém tem nada que ver com isso!

D. Práxedes era, como se vê, muito senhora do seu nariz, embora não soubesse muito bem para que lhe servia o seu tão empinado apêndice nasal.

A história não conta o que depois aconteceu mas, se D. Práxedes levou avante o seu plano libertário, contrariando as regras do fabricante do seu veículo, é certo e sabido que o terá danificado, talvez até de forma irreversível. Quer se queira, quer não, um motor tem exigências, cujo incumprimento acarreta graves consequências.

Com certeza que o dono pode fazer o que quiser com o carro que é seu mas, se deitar gasolina no depósito previsto para o gasóleo, não pressionar a embraiagem cada vez que meter uma nova mudança, não verificar os níveis do óleo e da água, etc., arrisca-se a ficar sem automóvel, sem direito a reparação, nem a indemnização.

Explique-se agora a parábola. D. Práxedes significa a ideologia de género; o veículo que lhe é dado é a natureza humana. O representante da marca é a Igreja, que actua em nome do fabricante, o Criador. As instruções para o recto uso da máquina são os mandamentos da lei de Deus e as restantes normas morais cristãs.

Pretender que o sexo, o casamento ou a família, não são realidades naturais mas meras convenções culturais e, por isso, cada qual é livre fazer o que quiser é tão absurdo como querer fazer a digestão através do aparelho respiratório, ver pelos ouvidos ou cheirar com os joelhos… O resultado só pode ser um: o motor gripa, o carro não anda e, possivelmente, fica sem arranjo possível. Mas a responsabilidade será toda do proprietário imprudente, nunca do fabricante divino, nem do seu representante eclesial…

Como disse Bento XVI e o Papa Francisco cita na encíclica Laudato si’, “o homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza” (22-9-2011). Deus perdoa sempre, os homens às vezes, a natureza, nunca. Ou, em linguagem técnica: a máquina tem sempre razão.

Pe. Gonçalo Portocarrero in Voz da Verdade


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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Visita guiada à Roma Antiga



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Serão todas as religiões verdadeiras?

O seu modo de argumentar parecia ter uma certa lógica. «Eu sou daqueles que pensam que todas as religiões são verdadeiras. Pondo de parte algumas degenerações fanáticas, todas levam o homem a fazer o bem, promovem sentimentos positivos e satisfazem a necessidade de transcendência que temos dentro de nós. No fundo, acaba por ser a mesma coisa escolher uma religião ou outra. Viva a liberdade! Quem sou eu para impor a minha religião aos outros?

«Que cada um escolha a sua própria religião. Que cada um escolha aquela que melhor se adapta ao seu modo de ser. Esta é a minha opinião e não acredito que esteja errada. Sobretudo, acho que é a única que pode ser considerada verdadeiramente tolerante. Quem acredita que a sua religião é a verdadeira acaba por ser um bocado fanático. E com pessoas fanáticas não é possível dialogar».

É verdade que todas as religiões, se o são de verdade, possuem algo de positivo. No entanto, isso não é a mesma coisa que afirmar que todas as religiões são verdadeiras. Não é sério dizer que podem ser verdadeiras ao mesmo tempo religiões que afirmam coisas diferentes e contraditórias. Assim como não é sério dizer que dois mais dois são aquilo que mais estiver de acordo com os sentimentos de cada um. A resposta é só uma. Não somos nós que a inventamos. A nós compete-nos somente descobri-la.

Se só existe um Deus, não pode haver mais do que uma verdade sobre Ele. E a descoberta do caminho para chegar a Deus é a mais importante da nossa vida. Dela depende a nossa eternidade. Viver de acordo com uma religião não é algo que esteja ao mesmo nível de escolher um produto num supermercado. Não tem a mesma importância que a selecção da cor de um automóvel que pretendemos comprar.

Uma pessoa não vive de acordo com uma religião porque isso lhe dê uma satisfação maior. Porque a faça sentir-se em harmonia com o universo. Nem porque lhe permita emitir suspiros mais ou menos celestiais. Uma pessoa vive de acordo com uma religião porque acredita que é o seu caminho para chegar a Deus. O seu caminho para que a sua vida tenha sentido. Para que a sua vida não termine no cemitério. Pelo contrário, para todos aqueles que se contentam com ficar por lá, não é necessária a procura de nenhuma religião. Nem é necessário ter a “dor de cabeça” de tentar encontrar a verdadeira.

Para os cristãos esse único caminho para chegar a Deus tem um nome: Jesus Cristo. Ele não é somente um homem especial. É Deus feito homem. Deus que se fez homem e morreu na Cruz para nos salvar. Não foram os cristãos que inventaram a Cruz por ela estar mais de acordo com os seus sentimentos. Foi Deus que escolheu esse modo concreto de nos salvar. Um modo que revela o seu infinito amor por nós e nos pede uma resposta.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria


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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O que são as Obras de Misericórdia?

"As obras de misericórdia são acções caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar, são obras de misericórdia espirituais, como também o são perdoar e sofrer com paciência. As obras de misericórdia corporais consistem especialmente em dar de comer a quem tem fome, albergar quem não tem tecto, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, sepultar os mortos. Entre estes gestos, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus." 
Catecismo da Igreja Católica, 2447

Quais são as obras de misericórdia?

Há catorze obras de misericórdia: sete corporais e sete espirituais.

Obras de misericórdia corporais:
1) Dar de comer a quem tem fome 
2) Dar de beber a quem tem sede
3) Vestir os nus
4) Dar pousada aos peregrinos
5) Visitar os enfermos
6) Visitar os presos
7) Enterrar os mortos

Obras de misericórdia espirituais:
1) Dar bons conselhos

2) Ensinar os ignorantes

3) Corrigir os que erram
4) Consolar os tristes
5) Perdoar as injúrias
6) Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo
7) Rezar a Deus por vivos e defuntos.


As obras de misericórdia corporais, na sua maioria, surgem de uma lista feita por Jesus Cristo na sua descrição do Juízo Final.

A lista das obras de misericórdia espirituais foi elaborada pela Igreja a partir de outros textos que se encontram ao longo da Bíblia e de atitudes e ensinamentos do próprio Cristo: o perdão, a correcção fraterna, o consolo, suportar o sofrimento, etc...

Qual é o efeito das obras de misericórdia em quem as pratica?

O exercício das obras de misericórdia comunica graças a quem as pratica. No evangelho de Lucas Jesus diz: “Dai, e dar-se-vos-á". Portanto, com as obras de misericórdia fazemos a Vontade de Deus, damos algo nosso aos outros e o Senhor promete-nos que nos dará também a nós o que necessitemos.

Por outro lado, uma maneira de ir apagando a pena que fica na alma pelos nossos pecados já perdoados é mediante boas obras. Boas obras são, obviamente, as Obras de Misericórdia. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5, 7), é uma das Bem-aventuranças.

Além disso as Obras de Misericórdia vão-nos ajudando a avançar no caminho para o Céu, porque nos vão tornando parecidos com Jesus, nosso modelo, que nos ensinou como deve ser a nossa atitude para com os outros. “Em Mateus, recolhem-se as seguintes palavras de Cristo: “Não façais tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde os ladrões minam e furtam; fazei antes tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração". Ao seguir este ensinamento do Senhor trocamos os bens temporais pelos eternos, que são os que valem verdadeiramente.



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Papa Francisco visitou a primeira representação do Presépio

O "Santuário do Presépio" encontra-se em Greccio (Itália)
e a imagem é da autoria de S. Francisco de Assis



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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Eu era ateu sem esperança na vida mas arrisquei: resolvi rezar

No meio da escuridão dos ataques de pânico, da depressão e da ansiedade, Deus trouxe-me a cura e a fé através da Igreja católica. Os cristãos de longa data têm dificuldades para imaginar como deve ser a cabeça de um ateu. E os ateus de longa data ficam igualmente perplexos pensando o quão ingénuo deve ser alguém que acredita em Jesus. Eu vivi os dois lados e contei a minha história em “The Journey Home” [A Viagem para Casa].

Uma prece desesperada

Eu tinha sido ateu durante a minha vida toda, mas guardava um segredo terrível: todos os dias era atormentado por um medo paralisante e uma ansiedade insofrível. Eu tinha medo de ser humilhado na frente dos outros. E esse mesmo medo manifestava-se de formas humilhantes, criando uma profecia auto-realizada que eu não conseguia impedir de acontecer.

Tive que enfrentar o mais tenebroso dos desesperos: a ausência da esperança. Passei a perceber por que há pessoas que se suicidam. Quando não se tem esperança e se vive num constante sofrimento, a pessoa quer que a sua vida acabe de uma vez. Eu queria. Mas ainda não estava pronto para desistir.

Um dia resolvi pegar na Bíblia e começar a ler. Eu fiz apenas uma oração: "Deus! Eu não acredito em Ti! Mas preciso de ajuda. Se existes mesmo, por favor, ajuda-me!".

Um rebento que nasce

Comecei a ler a bíblia, mas, verdade seja dita, aquilo não fazia muito sentido. Se eu fosse Deus, teria colocado algumas explicações adicionais e, talvez, um esboço mais detalhado, para que as pessoas interessadas pudessem ter uma visão geral mais clara...

Mesmo assim, alguma coisa estava a acontecer dentro de mim. Pouco a pouco, fui sentindo a fagulha de um início da fé. Eu não tinha fé nenhuma, mas comecei a pensar que talvez Deus pudesse existir. A minha ansiedade diminuiu um pouco. Eu nem teria percebido, se não fosse pelo facto de, ao longo dos quatro anos anteriores, a ansiedade ter aumentado de modo constante. Ela nunca tinha diminuído até então, nem sequer durante curtos períodos. Aquela mudança incentivou-me a continuar lendo e orando, sem me importar com o quanto a Bíblia me parecia ininteligível.

Eu procurava proteger a pequena fé que estava tentando brotar, porque eu precisava dela! Todas as minhas dúvidas ateístas queriam destruí-la. Mas o ateísmo já tinha tido a oportunidade dele. Agora era hora de tentar algo que me trouxesse esperança e verdade.

Abrem-se as comportas

Eu não sei como (só posso repetir o cliché que afirma que “foi Deus”), mas, depois de meses de leitura da Bíblia e de oração, a fé explodiu no meu coração e Deus entrou feito um furacão! Eu superei o ateísmo e voltei a minha fé para Cristo, arrependido dos meus pecados. Este é um mistério perpétuo: esta forma como Deus transforma uma pessoa, especialmente uma pessoa que não acreditava n'Ele.

Entrei para a Igreja baptista. Passava quatro horas na igreja todos os Domingo, participava dos estudos bíblicos, servia os pobres.

Senti o chamamento a ser baptizado e, certa manhã, subi ao altar dos chamados. Todos aplaudiram. Eu estava muito nervoso. Foi no segundo andar do auditório, com uma placa de vidro transparente na lateral do tanque de água. Toda a congregação de mil pessoas poderia ver-me quando eu submergisse. O pastor disse-me baixinho quando eu estava prestes a ser baptizado: "Só temos uma regra: dobre os joelhos quando eu o submergir e assim eu consigo levantá-lo de volta. Não dobre os joelhos e não sobe mais de volta".

Fui baptizado. A minha fé foi crescendo aos trancos e barrancos. Tornar-me cristão foi a coisa mais importante que aconteceu comigo. Obrigado, Jesus!

À procura de certezas

Mas eu logo percebi que havia alguma coisa errada. Jesus disse, em João 17, que nós, os seus seguidores, deveríamos ser uma unidade perfeita. Mas não éramos. Os cristãos estavam horrivelmente divididos, e em torno de questões muito importantes. Quem estava certo? Quem estava errado? Ou estávamos todos errados? Talvez Deus tivesse deixado a Igreja e todos os cristãos acreditarem numa série de erros e ninguém mais pudesse conhecer a verdade plena...

Se fosse este o caso, como é que poderíamos cumprir a directriz de Jesus de adorar a Deus em espírito e em verdade (João 4)? Por que Ele disse que o Espírito Santo levaria os apóstolos ao conhecimento de toda a verdade? Se Ele disse isto, só pode ter sido a sério. E Ele deve ter feito com que isto fosse possível.

Mas quem, então, estaria protegido por Deus contra o erro? Os baptistas não reivindicavam essa certeza, nem qualquer outro dos protestantes. Só os mórmons, os católicos e os ortodoxos orientais afirmavam com alguma credibilidade possuir a plenitude da verdade.

Comecei a estudar, pensar e orar. O meu pavor era a Igreja Católica. Eu temia-a como temia poucas coisas na vida. Ela tinha que estar errada em muitas questões: contracepção, Maria, o Papa, os santos, o purgatório...Como é que esse tipo de coisas poderia ser defendido por alguém?

Eu pretendia manter a minha firme rejeição ao catolicismo quando comecei a ler sobre esses temas. Para mim, bastaria apenas ver o quanto os argumentos católicos eram frágeis e fim.

Só que...os argumentos católicos não eram frágeis. Eram muito bons! E os contra-argumentos apresentados pelo catolicismo a quem o atacava também eram fortes. Como é que eu saberia que livros da Bíblia eram inspirados por Deus? Hmm, boa pergunta. Comecei a explorar o assunto. Dei um nó na minha mente ao tentar descobrir como o protestantismo poderia reconstituir com clareza o seu próprio caminho rumo à “Sola Scriptura”.

Eu lia cada vez mais. Algum protestante tinha que ter achado uma férrea linha de raciocínio sobre isso. Mas eu procurei, procurei e não encontrei nada que me convencesse. Li muitas teorias e explicações de como um protestante podia conhecer com certeza o cânon das Escrituras, mas, mesmo sendo um protestante que queria continuar a ser protestante, eu via a fraqueza dos argumentos que estava lendo.

A caminho da verdade

Havia poucas coisas que eu desejava menos do me tornar católico. Até a palavra "católico" me dava repulsa. Mas Deus tinha me trazido do ateísmo à fé e não iria me enganar justo agora. Eu pedi-Lhe, com toda a confiança, que, caso eu fosse fazer algo de errado, Ele gentilmente me matasse ou me mostrasse que aquilo estava errado. E Ele não fez nenhuma das duas coisas.

Tornei-me católico

Treze anos depois, eu continuo católico e nunca me arrependi. Não que a Igreja não tenha problemas, porque tem muitos, mas, pela graça de Deus, o que ensina é verdadeiro. A Igreja é o único refúgio seguro contra a confusão do mundo. Deus protege-a. E eu sou e serei eternamente grato a Deus pela Sua grande misericórdia para comigo.

Devin Rose in Aleteia


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sábado, 2 de janeiro de 2016

O Ano Internacional da Astronomia e o conhecimento de Galileu

2009 foi um ano de duas importantes comemorações. A nível mundial, por iniciativa da Organização das Nações Unidas, celebrou-se o Ano Internacional da Astronomia, aproveitando a ocasião dos quatrocentos anos sobre o início das célebres observações telescópicas realizadas por Galileu (1609); a uma escala nacional, assinalaram-se os 250 anos da expulsão da Companhia de Jesus dos territórios portugueses, em 1759. Talvez muitos dos que acompanharam estas iniciativas não se tenham dado conta da ironia subtil que a simultaneidade das duas comemorações representa para o nosso país: é que, se houve instituição a quem se ficou a dever a divulgação das ideias de Galileu em Portugal, foi a Companhia de Jesus.

Relembremos os factos essenciais. Nos últimos meses de 1609, Galileu Galilei (1564-1648) iniciou a observação sistemática dos céus com um telescópio. Pouco depois, em Março de 1610, publicava em Veneza o Sidereus Nuncius, o «Mensageiro das Estrelas», um primeiro relato dos factos extraordinários que observara. O livro foi um sucesso imediato e Galileu passou, de um dia para outro, de professor sem distinção na Universidade de Pádua para o mais importante cientista da Europa.

As observações telescópicas de Galileu são talvez o acontecimento mais dramático nesse denso complexo de factos a que se convencionou chamar a “revolução científica” do século XVII. Essencialmente, ele observou cinco novos factos: i) a aparência rugosa e acidentada da superfície lunar; ii) o muito maior número de estrelas, para lá das que são visíveis a olho nu; iii) os satélites de Júpiter; iv) a configuração peculiar de Saturno; v) as fases do planeta Vénus. Se bem que nenhuma destas observações sirva como prova do sistema heliocêntrico que Copérnico havia desenvolvido no De revolutionibus (1543), elas constituem golpes muito sérios nas ideias tradicionais da filosofia natural aristotélica e da astronomia ptolomaica. Galileu estava consciente de não possuir, em rigor, uma prova do sistema heliocêntrico, mas percebeu que estas novidades celestes poderiam ser usadas como armas na campanha que então iniciou em favor do sistema heliocêntrico. Por isso se pode dizer que o grande debate cosmológico que ocupará todo o século XVII até à síntese newtoniana, teve o seu verdadeiro começo com as observações telescópicas de Galileu.

Convém ter presentes as enormes dificuldades que o cientista italiano teve de transpor. Uma delas, por exemplo, era relativa ao próprio instrumento com que levara a cabo essas descobertas. Os telescópios do início do século XVII são instrumentos muitíssimo rudimentares, com parâmetros ópticos muito deficientes -- poderes de ampliação e resoluções medíocres -- gerando imagens afectadas por vários tipos de aberrações e distorções ópticas. Que Galileu tenha sido capaz de fazer descobertas tão notáveis com instrumentos tão deficientes é um dos maiores testemunhos do seu génio científico e da sua determinação de carácter, mas seria ingénuo não perceber que essas dificuldades foram obstáculos muito significativos para a aceitação dos novos fenómenos siderais.

O aparecimento do Sidereus Nuncius significou muito mais do que a revelação de novidades astronómicas e de um novo instrumento científico: Galileu alterou profundamente as regras de validação de novos factos científicos, transformou os códigos habituais de divulgação científica, fez um uso inovador das representações gráficas, questionou a tradicional separação entre filosofia natural e astronomia, redefiniu os próprios objectivos da astronomia. É impossível explicar aqui todas as consequências que estas alterações introduziram na prática científica, mas não oferece qualquer dúvida que há uma certa “modernidade” em ciência cujas raízes se podem relacionar com estes factos. E por isso, relembrar estes acontecimentos e o papel crucial desempenhado por Galileu, como se fez ao longo de 2009 com a realização do Ano Internacional da Astronomia, foi uma decisão mais do que justificada.

No ano passado relembrou-se também a expulsão da Companhia de Jesus dos territórios portugueses, pelo então Conde de Oeiras. Os estudos e conferências que se realizaram ao longo de 2009, reunindo os melhores especialistas portugueses e estrangeiros, tiveram o mérito de recordar novamente a extrema complexidade desses acontecimentos, uma complexidade que impossibilita qualquer explicação simples e monocausal, ao mesmo tempo que apresentaram os resultados das mais recentes abordagens historiográficas, em geral mais serenas, mais críticas e mais profundas do que as de tempos passados.

Do ponto de vista do desenvolvimento científico e cultural, a expulsão da Companhia de Jesus do nosso país foi um acontecimento de contornos dramáticos. As correntes historiográficas dominantes durante o século XIX e quase todo o século XX olharam para estes acontecimentos de forma pouco crítica, tomando como base das suas análises os textos da própria propaganda pombalina – que, muito naturalmente, apresentam essa expulsão como uma “modernização” do ensino e da cultura. Mas este não é hoje o juízo da maior parte dos historiadores, e, em especial, não é o dos historiadores de ciência. Na impossibilidade de se fazer aqui nem sequer a mais breve das análises, recordam-se apenas alguns números. 

Acerca da reforma do ensino secundário importa ter presente que em 1759, nas vésperas da expulsão, o número estimado de alunos em colégios jesuítas de Portugal andaria pelos 20.000. O desmantelamento da rede jesuíta de colégios correspondeu efectivamente a um colapso de proporções impressionantes pois o país só voltaria a registar o mesmo número de alunos do ensino secundário no princípio do século XX, isto é, 150 anos depois.1 Quanto ao ensino universitário, nas décadas que antecederam a reforma de Pombal, mais precisamente nos anos entre 1724 e 1772, o número médio de alunos na universidade de Coimbra foi de 2827 alunos por ano. No período posterior à Reforma, entre 1772 e 1820, este número contraiu-se para uma aterradora média anual de 451 alunos.2 Uma quebra vertiginosa à qual, para ser mais completo e rigoroso, se deveriam levar em conta os alunos universitários perdidos com o fecho da universidade de Évora.

Os efeitos desta contracção brutal no universo educativo do país (pré-universitário e universitário) sentir-se-iam durante muitas décadas, afectando drasticamente toda a vida cultural e as actividades científicas muito em particular. Além disso, o desaparecimento da rede internacional jesuíta e algumas medidas pombalinas, muito mais ideológicas do que sensatas, como o abandono do latim na redacção de textos científicos universitários, condenariam a ciência praticada no nosso país na segunda metade do séc. XVIII, e mesmo nas décadas seguintes, a uma dolorosa marginalidade europeia. Os matemáticos José Anastácio da Cunha e Daniel Augusto da Silva, por exemplo, escrevendo em português e não dispondo de canais para a divulgação para os seus importantes textos, acabaram por ter um impacto irrelevante na ciência europeia do seu tempo. 

Há também indicações fortes que levam a suspeitar que o património científico dos colégios jesuítas foi selectivamente destruído, para não permitir a mais pequena contradição ao axioma pombalino de que a Companhia de Jesus havia ignorado e sufocado o cultivo das ciências; pelo menos a habitual invocação do terramoto de 1755 para explicar o quase total desaparecimento desse património, não parece hoje em dia credível. Todos estes assuntos foram analisados em comunicações e publicações apresentadas no ano passado e sobre eles sabe-me muito mais agora do que há décadas atrás.

O que é ainda pouco conhecido fora dos círculos de especialistas em história da ciência é que a Companhia de Jesus foi a porta de entrada das novidades galileanas no nosso país, a tal ponto que, se não fossem os matemáticos jesuítas, essas notícias só se teriam conhecido muito mais tarde em Portugal. De facto, nas primeiras décadas do século XVII, isto é, durante o período mais crítico dos debates cosmológicos, uma instituição em Portugal, a chamada «Aula da Esfera» do colégio de Santo Antão em Lisboa, tinha uma ligação muito estreita com o grupo de matemáticos do Colégio Romano e estes, por sua vez, estavam no verdadeiro centro europeu desses debates. 

Embora os historiadores do passado tenham, na sua esmagadora maioria, passado ao lado desta peculiar conjuntura institucional, é hoje reconhecido que a «Aula da Esfera» foi uma instituição a todos os títulos singular na história científica portuguesa. Nesta «Aula» se ensinaram ciências matemáticas e astronómicas ininterruptamente durante cento e setenta anos, o que é possivelmente um caso único no nosso país. Foi a mais internacional instituição de ensino na nossa história e entre os seus mestres se contaram alguns dos nomes mais eminentes da ciência do tempo. Aí se ensinaram e se praticaram, muitas vezes com carácter verdadeiramente pioneiro entre nós, temas científicos tão variados como a matemática, a astronomia de observação e a astronomia teórica, a náutica, a cosmografia, a teoria do calendário, a cartografia, a hidráulica, a estática, a óptica geométrica, a fortificação, a construção de instrumentos, etc.3 E foi por aí que as novidades de Galileu e o telescópio fizeram a sua entrada em Portugal.

Através dos canais proporcionados pela Companhia de Jesus, as notícias acerca de Galileu e as novas observações telescópicas celestes chegaram seguramente a Lisboa muito cedo. Em 1612 essas notícias já haviam alcançado a Índia, de onde um missionário jesuíta escrevia para a Europa pedindo mais informações. Espantosamente, já em 1614, um missionário português em Pequim fora informado desses descobrimentos e, entusiasmado, redigira um resumo dessas novidades, em chinês. O texto em questão é o Tianwen lüe (Sumário de questões sobre o Céu), escrito pelo jesuíta português Manuel Dias júnior (1574-1659), e que tem a honra maior de ser o primeiro texto que deu a conhecer as descobertas telescópicas de Galileu na China. O texto causou grande impacto entre os literatos chineses e foi reeditado várias vezes.

Em 1614 veio de Roma, para leccionar matemática na «Aula da Esfera», o italiano Giovanni Paolo Lembo (ca. 1570-1618) que em Roma construíra os primeiros telescópios dos jesuítas e que conhecera pessoalmente Galileu no período em que este e os astrónomos do colégio romano trocavam informações acerca das suas respectivas observações. Recorde-se que em Maio de 1611 Galileu fora recebido apoteoticamente nesse colégio, naquilo que foi a primeira grande cerimónia de consagração na vida do cientista. O curso que Giovanni Paolo Lembo leu em Santo Antão nos anos 1615-1617 é um documento da maior importância na história da ciência em Portugal pois contém o registo das primeiras observações telescópicas feitas no nosso país e a indicação da construção dos primeiros telescópios entre nós. 

Lembo descreve as observações por ele feitas em Lisboa com um “longemira”, comentando detalhadamente as implicações cosmológicas desses novos factos. Em particular, detém-se na explicação das fases de Vénus, observação que, como explica, mostra que o tradicional sistema geocêntrico de Ptolomeu não pode continuar a ser aceite. Para além de conter descrições das primeiras observações telescópicas realizadas em Portugal, o curso de Lembo tem também importantes instruções para a construção de telescópios, sendo muito provável que a «Aula da Esfera» tenha sido a primeira instituição do mundo onde os alunos foram iniciados na construção de telescópios.

Nos anos seguintes foi na «Aula da Esfera» que se continuaram a fazer observações com telescópios e a discutir as suas profundas implicações. Todos os professores da «Aula da Esfera» colocaram a discussão das observações telescópicas de Galileu no centro das suas lições. Todos eles rejeitaram o sistema ptolomaico e, recusando a adesão ao sistema coperniciano, optaram pela solução intermédia do sistema de Tycho Brahe. Deveu-se também a um professor dessa Aula, o jesuíta Cristovão Borri, a publicação da Collecta astronomica, o primeiro impresso com explicações detalhadas acerca das novidades galileanas e do funcionamento do telescópio.

Por muito surpreendente que isso possa parecer aos menos conhecedores da história científica nacional, a comemoração dos quatrocentos anos das descobertas telescópicas de Galileu em Portugal é, antes de mais nada, a celebração da «Aula da Esfera» do colégio de Santo Antão, e a lembrança de um tempo em que, por via dos canais proporcionados pelos jesuítas, as mais recentes novidades científicas circulavam entre a Portugal, a Europa e o resto do Mundo com uma grande celeridade, enchendo de espanto tanto os astrónomos de Pádua e Lisboa, como os de Goa ou Pequim.


Henrique Leitão in Lumen Veritatis (Boletim da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa), ano XVI, n.º 1, Abril 2010 


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