sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Santa Sé diz que fiéis devem voltar à Missa e podem comungar na boca

O Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, enviou uma carta aos Presidentes da Conferências do Mundo inteiro sobre a questão dos sacramentos, especialmente da Santa Missa, nas condições

O documento, aprovado pelo Papa Francisco, apela veementemente aos fiéis que voltem às igrejas para assistir à Missa dominical, que não pode ser substituída por assistir à Missa através da internet.

Diz ainda que nenhuma limitação higiénica pode justificar "experiências rituais improvisadas" e que as rubricas previstas nos respectivos Ritos devem ser seguidas.

Nesse sentido, continua o texto, têm "os fiéis o direito de receber o Corpo de Cristo e adorar o Senhor presente na Eucaristia nas formas previstas, sem limitações que até mesmo possam ir além do previsto pelas normas higiénicas emanadas pelas autoridades públicas ou pelos Bispos."

Quer isto dizer que nenhuma autoridade de saúde ou autoridade eclesiástica (incluindo o Bispo diocesano e muito menos a Conferência Episcopal) pode proibir que um fiel receba a Sagrada Comunhão na boca. Um fiel não pode ser obrigado a receber a Comunhão na mão, ponto final. 

João Silveira


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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A devoção de beijar as mãos dos sacerdotes

Sabemos que São Francisco de Assis não quis fazer-se sacerdote, porque se julgava muito indigno de tão excelsa vocação. Ele venerava os sacerdotes com tal devoção, que os considerava os seus "Senhores", pois neles via somente "o Filho de Deus", e o seu amor à Eucaristia fundia-se com o amor ao sacerdote, o qual consagra e administra o Corpo e o Sangue de Jesus. De modo particular ele venerava as mãos do sacerdote, e beijava-as sempre de joelhos com grande devoção; e beijava-lhes também os pés, e até os próprios rastos deixados por um sacerdote, que tivesse por ali passado. 

São João Bosco exorta a todos com estas palavras: "Eu recomendo-vos um grande respeito para com os sacerdotes, descobri a vossa cabeça em sinal de reverência, quando falardes com eles, ou quando passais por eles no caminho, e beijai-lhes obsequiosamente a mão. Tomai cuidado para não os desprezardes, com factos ou por palavras. Quem não respeita os Ministros Sagrados, deve temer um grande castigo do Senhor". 

A veneração pelas mãos consagradas do sacerdote, beijadas com reverência pelos fiéis, sempre existiu na Igreja. Baste-nos pensar que, durante as perseguições dos primeiros séculos, um dos maiores ultrajes contra os bispos e sacerdotes consistia em amputar-lhes as mãos, para que assim não pudessem mais nem consagrar, nem abençoar. Por isso, os cristãos recolhiam aquelas mãos amputadas e, mergulhadas em aromas as conservavam como relíquias. 

Além disso, o beijo das mãos do sacerdote é uma expressão delicada de fé e de amor a Jesus, que o sacerdote personifica. Quanto mais fé e amor se tem, tanto mais nos sentimos impelidos a prostar-nos diante do sacerdote e a beijar aquelas mãos "santas e veneráveis" (Cânon Romano) entre as quais Jesus se torna amorosamente presente entre nós cada dia. "Ó veneranda dignidade do sacerdote - exclama Santo Agostinho - em cujas mãos o Filho de Deus se encarna como no seio da Virgem!" E o Cura d'Ars dizia: "Dá-se um grande valor aos objetos que foram colocados, em Loreto, na tigela da Virgem Santa e do Menino Jesus. 

Mas os dedos do sacerdote, que tocaram na Carne adorável de Jesus Cristo e penetraram no cálice, onde esteve o seu Sangue, e na âmbula, onde esteve o seu Corpo, acaso não são muito mais preciosos?" Talvez nem tenhamos ainda pensado nisso. Mas é assim. E os exemplos dos Santos confirmam-no.

Pe. Stefano M. Manelli, FI in "Jesus, Nosso Amor Eucarístico"


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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Confissar-se no confessionário: um direito dos fiéis

Desvantagens da confissão "Cara a Cara"

1) A maior e mais óbvia é a falta de anonimato. A confissão dos pecados, desde o início da Idade Média, tem sido sempre anónimo (nos tempos patrísticos era pública, diante da congregação, algo que eu penso que ninguém esteja ansioso em voltar). Saber que agora o sacerdote é capaz de ligar uma cara aos pecados que está a confessar torna mais difícil trazer tudo para fora.


2) Cria uma atmosfera de sala de encontros ou de escritório de psiquiatra. O formato cara a cara promove a discussão; afinal de contas, em sociedade, estamos sempre cara a cara quando discutimos coisas. Assim sendo, do hábito, tendemos mais a querer "discutir" os nossos pecados em vez de os confessar. Atrás da grade é mais fácil dizer, "Perdoe-me Padre, porque pequei. Passaram seis semanas desde a minha última confissão. Confesso que fiz..." É esquisito repetir esta fórmula quando está sentado cara a cara diante do sacerdote. Ao contrário disto, a confissão tende a soar como "Oh Padre. Estou a ter com cada problema com a minha filha! Deixe-me contar-lhe..." Este é um dos maiores problemas da confissão cara a cara; em vez da confissão dos pecados torna-se numa discussão dos problemas.

3) Na sequência da tendência de cima, da confissão se transformar numa discussão, a consequência é que a confissão demora muito mais tempo; demora muito mais a discutir as coisas com um sacerdote cara a cara do que simplesmente fazer uma confissão atrás da grade. Confissões cara a cara normalmente demoram 20 minutos cada. A média de confissões ao S. Padre Pio era menos de dois minutos.

4) Falha em dar alguma sensação do facto de que o pecado o põe fora da graça de Deus; i.e, o sacramento cara a cara tem muito pouco valor simbólico. Dá é a sensação de uma conversa junto à lareia.

Benefícios de "Atrás da Grade"

1) É mais fácil lembrar os pecados devido à ausência de ter um sacerdote a olhar para si enquanto tenta fazê-lo, tornando assim a confissão mais completa e, assim, mais frutuosa.

2) Preserva o anonimato, outra vez tornando mais fácil lembrar e confirmar os pecados. O anonimato também simboliza, de alguma forma, a natureza gratuita da graça de Deus, que dá sem distinção de pessoas. O facto de o sacerdote não o ver é de simboliza de alguma forma o facto de que para Deus todos os homens são iguais e que Ele julga pelo coração.

3) Torna as confissões mais curtas; é mais difícil entrar numa "discussão" atrás da grade.


4) Valor simbólico: colocar-se a si mesmo atrás da grade com o sacerdote, a agir in persona Christi, lembra-nos que o pecado de facto põe uma barreira entre nós e Deus.


5) Maior humildade: quando estamos visíveis para outra pessoa, especialmente um sacerdote, vamos tentar parecer bem no nosso comportamento e expressões faciais. Atrás da grade (especialmente se houver um genuflectório), estamos mais propícios a esquecer a nossa imagem e a verdadeiramente nos humilharmos. Esta é a disposição própria do sacramento e assim torna-a mais frutuosa.


De certeza que há muitas outras razões, e isto é sem ter em conta as palavras e rúbricas concretas do próprio rito! Desta forma conseguimos ver que a confissão atrás das grades ajuda a infundir maior humildade, torna mais fácil ao penitente lembrar os seus pecados, preserva o anonimato, mantém o tempo da confissão mais curto (tornando-a mais prática) e, se as disposições próprias estiverem todas lá, facilita maior recepção de graça ex opere operantis ao penitente. Não é uma questão de mero gosto. Se um sacerdote levasse a sério a sua obrigação de tornar a máxima quantidade de graça disponível para o seu rebanho, parece que ele devia recomendar fervorosamente a confissão atrás da grade.


in unamsanctamcatholicam


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Dois portugueses ordenados sub-diáconos do Instituto Cristo Rei

O Cardeal Raymond Leo Burke ordenou 16 sub-diáconos, para o Instituto Cristo Rei e Sumo Sacerdote na igreja de São Miguel e São Caetano, em Florença. Esteve também presente D. Athanasius Schneider, que tinha acabado de pregar um retiro para os seminaristas. Dois dos recém-ordenados são portugueses. Rezemos por todos eles, especialmente pelo João e pelo Pedro.



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domingo, 13 de setembro de 2020

Oh! Fátima!

Mais um facto, entre tantos, a sublinhar o encanto de Fátima. Em Budapeste, numa viagem que ali realizou, um grupo de portugueses, em princípios de Setembro de 1989, quando já se adivinhava o desmoronar do muro que separou duas conceções de vida, mas ainda sob o férreo controlo da foice e do martelo, encontrou, junto da Catedral de Santo Estêvão, um sacerdote perfeitamente identificado como tal. 

Foi o único padre encontrado, com traje eclesiástico, em toda a cidade, naqueles dias, o que faz pensar na sua coragem. Vários sacerdotes do grupo viajavam também perfeitamente identificados. Tentaram falar com ele em diversos idiomas — português, francês, espanhol e italiano — mas foi tudo inútil. Tiveram então alguns sacerdotes portugueses a luminosa ideia de se exprimirem em latim: «Sumus lusitani!» (Somos portugueses!). 

Quando recebeu esta resposta, o rosto deste homem de Deus, até então velado por um certo ar de desconfiança, iluminou-se com um sorriso, tomou uma expressão que jamais se poderá esquecer e, de mãos postas, olhando para o céu, exclamou com enlevo: «Oh! Fátima!»

in 'Pastorinhos de Fátima' (M. Fernando Silva)


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sábado, 12 de setembro de 2020

Como viver desde já a vida eterna

Esta vida eterna começada[1] constitui todo um organismo espiritual, que deve desenvolver-se até à nossa entrada no céu. A graça santificante, recebida na essência da alma, é o princípio radical deste organismo imperecível, que deveria durar para sempre, se o pecado mortal, que é uma desordem radical, não viesse por vezes destruí-la. (Cfr. ST, I-II, Q109, A3 e A4) 

Da graça santificante, semente da glória, derivam as virtudes infusas, primeiramente as virtudes teologais, a maior das quais, a caridade, deve, como a graça santificante, durar para sempre. "A caridade nunca passará, - diz S. Paulo -, (...) agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade, mas a maior das três é a caridade" (I Cor 13, 8-13). Ela durará para sempre, eternamente, quando a fé tiver desaparecido para dar lugar à visão e quando à esperança suceder a possessão inadmissível de Deus claramente conhecido.

O organismo espiritual completa-se pelas virtudes morais infusas que se referem aos meios, enquanto as virtudes teologais se voltam para o fim último. São estas outras tantas funções admiravelmente subordinadas, infinitamente superiores àquelas do nosso organismo corporal. Elas chamam-se: prudência cristã, justiça, fortaleza, temperança, humildade, mansidão, paciência, magnanimidade, etc.

Finalmente, para remediar a imperfeição destas virtudes, que sob a direcção da fé obscura e da prudência conservam ainda um modo demasiado humano de agir, há os sete dons do Espírito Santo, que habita em nós. São como velas de um barco e dispõem-nos a receber dócil e prontamente o sopro do alto, as inspirações especiais de Deus, que nos permitem agir de uma maneira já não humana, mas divina, com o entusiasmo necessário para percorrer o caminho de Deus e não recuar diante dos obstáculos.

Todas estas virtudes infusas e estes dons crescem com a graça santificante e a caridade, diz S. Tomás (ST, I-II, Q66, A2), assim como os cinco dedos da mão se desenvolvem conjuntamente, como todos os órgãos do nosso corpo aumentam ao mesmo tempo. Assim sendo, não é possível conceber que uma alma tenha alta caridade sem ter o dom da sabedoria em grau proporcional, quer sob forma nitidamente contemplativa, quer sob uma forma prática mais directamente ordenada para a acção. A sabedoria de um S. Vicente de Paulo não é absolutamente semelhante à de um S. Agostinho, mas ambas são infusas.

Adaptado de: Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, OP, in As Três Vias e as Três Conversões, Cap. I

Notas:

1. O autor explica mais atrás que a "vida eterna começada" consiste na crença em Deus com fé viva, unida à caridade, ao amor a Deus e ao próximo. Numa vida sobrenatural idêntica, em germe, à vida eterna: "A graça não é senão um certo começo da glória em nós." (ST, II-II, Q24, A3; I-II, Q69, A2; De Veritate 14, A2)

Explica que esta é necessária para o progresso espiritual: "Gratia est semem gloriae." A diferença para a vida sobrenatural do céu é uma só: aqui na terra conhecemos a Deus (sobrenatural e infalivelmente) pela obscuridade da fé e não na clareza da visão. Esta vida é dada pelo baptismo e nutrida pela Eucaristia e é superior a qualquer milagre, é supra-humana e até supra-angélica.

Dizia Bossuet: "A vida eterna começada consiste em conhecer a Deus pela fé (unida à caridade), e a vida eterna consumada consiste em ver a Deus face a face desveladamente. Jesus Cristo nos dá uma e outra, porque no-la mereceu e porque Ele é o seu princípio em todos os membros que anima." (Méditations sur L'Évangile, IIa P, 37º dia, em João 17, 3)

Tal como diz a liturgia no prefácio da Missa Pro Defunctis: "para os vossos fiéis, Senhor, a vida não é tirada mas mudada e transfigurada".


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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Nada nos vale sem a humildade

A providência de Deus, que dá a cada um o que mais lhe convém, tudo dispôs para nos conduzir à humildade. De facto, se te orgulhas com as graças da providência, esta abandona-te e voltas a cair. 
Recorda, pois, que não é por ti, nem pela tua virtude, que resistes às más tendências, mas que que é a graça que te sustenta, para que não temas. 

Geme, chora, recorda os teus pecados no tempo da prova, a fim de seres libertado do orgulho e de adquirires a humildade. Mas não desesperes. Pede humildemente a Deus que te perdoe os teus pecados. 

A humildade, também nas obras, apaga muitos pecados. Pelo contrário, sem ela, as obras de nada servem, chegando mesmo a atrair males sobre nós. Obtém pois, pela humildade, o perdão das tuas injustiças. A humildade está para a virtude como o sal para os alimentos; a humildade destrói a força dos muitos pecados. 

Se a possuirmos, fará de nós filhos de Deus, conduzindo-nos a Deus mesmo sem o socorro das boas obras. É por isso que, sem ela, todas as obras são vãs, como vãs são todas as virtudes e todas as dores.

Isaac, o Sírio (século VII) in 'Discursos ascéticos' (I série, n.º 49)


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terça-feira, 8 de setembro de 2020

Salve Regina Solene

Salve Regina em tom solene cantada por seminaristas da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro. Nesta versão, os cantores usam uma técnica chamada organum. É uma técnica dos primórdios da polifonia, que consiste em suster uma nota-pedal. Metade do coro canta a melodia e a outra metade canta o texto numa nota-pedal que sofre apenas 2 ou 3 alterações ao longo da peça.

Mais um tesouro da tradição bimilenar da Igreja Católica.


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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

A teologia de Karl Rahner e a eutanásia da Doutrina Social da Igreja

O Padre Karl Rahner SJ foi um dos teólogos mais influentes dos últimos 50 anos na Igreja, mas a sua teologia apresenta graves problemas. Alguns deles são apresentados no texto que se segue.

O Arcebispo Giampaolo Crepaldi escreve no seu livro “La Dottrina sociale della Chiesa. Una verifica a dieci anni dal Compendio (2004-2014)” [“A Doutrina social da Igreja. Uma verificação dez anos depois do Compêndio (2004-2014)”] (Cantagalli, Siena, 2014):

«Na minha opinião, o pensamento mais influente na crítica da Doutrina Social da Igreja é o de Karl Rahner. Se examinarmos detalhadamente, muitos dos teólogos que criticaram e desenvolveram vias alternativas à Doutrina Social foram seus alunos. Rahner reflecte na esteira do pensamento de Heidegger, ou seja, fora do contexto de uma filosofia cristã e fora também do contexto definido na “Fides et Ratio” de São João Paulo II. Esta encíclica menciona alguns nomes, por exemplo, de filósofos cristãos, mas Heidegger não figura entre eles. Rahner concebe Deus como um "transcendental existencial". Isto significa principalmente duas coisas: que todos os homens são Deus, pois Ele é a sua dimensão apriorística, o horizonte não cognoscível e não classificável da sua subjectividade e da sua liberdade, na prática, da sua condição de pessoas; que a Deus se acede sempre no âmbito da nossa consciência. Deus não é conhecido, mas conscientemente e existencialmente experimentado como horizonte de todo o significado.

Esta posição historiciza a fé, que não é um conhecimento mas uma experiência existencial de um horizonte que não se pode transcender. Nisto consiste, para Rahner, a transcendência. Não existem já ateus e crentes, porque todos estão abrangidos por este horizonte e se acompanham reciprocamente na interpretação da vida. Uma pessoa passa de um cristianismo anónimo para um não anónimo, ou seja, temático e consciente, sem por isso deixar de partilhar o mesmo horizonte. O bem e o mal não são claros, dado que, tendo lugar toda a existência dentro do horizonte transcendental de Deus, existem vários níveis de bem que importará fazer aumentar, mas nunca condenar. O homem nunca pode saber com segurança quando está em situação de pecado. A Igreja não está diante do mundo, mesmo se está no mundo, mas faz-se mundo, porque partilha com o mundo o horizonte existencial comum.

Neste contexto, que aqui procurei sintetizar em poucas palavras com o risco de ser incompleto, é muito difícil fazer entrar a Doutrina Social da Igreja, a menos que se desmantele o seu carácter de corpus doutrinal, eliminando-se o seu valor missionário e salvífico, e se passe a entendê-la como uma prática de recepção, escuta e caminho em conjunto, mas sem a luz da verdade que vem de fora deste mundo, do transcendente. O transcendente, para Rahner, consiste precisamente na dimensão transcendental existencial que, sendo a condição de todos os significados, não pode ser, por sua vez, tematizada. É transcendente neste sentido.»

Destas afirmações resulta a incompatibilidade da teologia rahneriana com a Doutrina Social da Igreja e, por conseguinte, percebe-se porque todas as correntes de pensamento que se baseiam em Rahner têm combatido, aberta ou ocultamente, a Doutrina Social da Igreja, também no longo período - na verdade, especialmente nesse período - onde ela foi relançada pela vontade dos Papas. Trata-se de uma oposição surda e obstinada que tem produzido uma série de danos e que hoje parece ter vencido. Pude confirmar esta tese do Observatório no meu último livro, La nuova Chiesa di Karl Rahner. Il teologo che ha insegnato ad arrendersi al mondo" ["A nova Igreja de Karl Rahner. O teólogo que ensinou a render-se ao mundo”](Fede & Cultura, Verona, 2017). À luz do que está escrito neste livro, pode ser útil recordar aqui os aspectos fundamentais em que a teologia dirigida por Rahner configura uma tentativa de eutanásia da Doutrina Social da Igreja. Esperamos assim estimular um debate que acolheremos com prazer na nossa página.

A Igreja no mundo

Para que a Doutrina Social da Igreja exista, é necessário que a Igreja não se confunda com o mundo. A Doutrina Social da Igreja constitui de facto o anúncio de Cristo na realidade temporal. Ora se a Igreja está imersa, sem distinção, nas realidades temporais, a missão da Doutrina Social da Igreja, e a Doutrina Social da Igreja como missão da Igreja, ficam concluídas. É precisamente o que Rahner afirma: que a Igreja deve deixar de tentar “manipular o mundo”. A Igreja deve ser entendida como uma parte do mundo, sem pretensões de superioridade doutrinal e de verdade.

Deus revela-se no mundo

Isto é assim porque Deus não se revela prioritariamente na Igreja, mas no mundo, dado que Ele se revela indirectamente nos eventos da existência enquanto horizonte primordial e apriorístico que os torna possíveis. A revelação de Deus não é nem cósmica, nem metafísica, é totalmente histórica. Deus revela-se indirectamente nos factos históricos. Daqui resulta que a doutrina - e, portanto, também a Doutrina Social da Igreja - não é o elemento primordial. Antes de tudo há a vida, a prática ... e só depois a doutrina. É por isso que a Doutrina Social da Igreja tem sido acusada de ser ideológica e abstracta.

Deus é imanente na história

De acordo com Rahner, é necessário repensar a transcendência de Deus. Ela não tem carácter metafísico, mas existencial. Deus é transcendente na medida em que não é uma coisa entre as coisas, mas é o horizonte que torna possível a nossa visão interessada, participativa e livre das coisas. Transcendente, para Rahner, significa “a priori”. Neste sentido, Deus não nos revela conhecimentos, não nos transmite uma doutrina, não nos dá os preceitos ... Ele apenas nos diz para viver de forma participativa, dialogando com os outros, porque Deus revela-se a todos e não apenas aos cristãos.

Deus faz perguntas e não dá respostas

A Doutrina Social da Igreja, não obstante o seu carácter prático e até mesmo experimental, tinha a pretensão de fornecer as respostas para o bem e a salvação para a humanidade. Porém, para Rahner, Deus não dá regras, sugestões ou indicações. A presença de Deus em todos os homens consiste na sua “natureza questionável”, isto é, na insaciabilidade que os leva sempre a colocar em questão os resultados adquiridos. O cristão é simplesmente aquele que está aberto ao futuro, daqui resultando todas as doutrinas teológicas do futuro e a praxis que têm caracterizado as décadas pós-conciliares.

Desaparecimento da doutrina e da lei moral natural

A Doutrina Social da Igreja sempre afirmou ser baseada na revelação - ou seja, na doutrina da fé - e no direito natural. Mas na perspectiva de Rahner deixam de existir quer a revelação, quer o direito natural. A revelação não nos faz conhecer as verdades doutrinais, os dogmas são históricos e evoluem, a "natureza" é completamente absorvida na história e constitui um resíduo metafísico do passado.

Como se pode ver a partir destas breves anotações – melhor desenvolvidas no livro acima mencionado –, existe uma incompatibilidade absoluta entre a teologia de Karl Rahner e a Doutrina Social da Igreja. Tal facto explica, repito, porque esta tem sido tão contestada e combatida. Mas a razão não está do lado de Rahner e do rahnerismo, mesmo se estes parecem prevalecer hoje na Igreja.

Stefano Fontana in vanthuanobservatory.org


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O que é o adultério?

ADULTÉRIO
é a cópula entre pessoa casada e outra que não seja o seu cônjuge. É pecado mortal contra a castidade, e também contra a justiça, porque viola o direito do cônjuge inocente; é uma profanação da santidade do Matrimónio; é uma quebra da promessa feita solenemente à face da Igreja. O Apóstolo São Paulo condena o adultério, dizendo que os adúlteros serão excluídos do Reino de Deus (Ep. I Cor. VI., 9). 

Padre José Lourenço in Dicionário da Doutrina Católica


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domingo, 6 de setembro de 2020

6 frases de Madre Teresa sobre o aborto

1) “Um país que aceita o aborto não está a ensinar os seus cidadãos a amar, mas a usar a violência para obter o que querem. É por isso que o maior destruidor do amor e da paz é o aborto.”

2) “Eis porque o aborto é um pecado tão grave. Não somente se mata a vida, mas nos colocamos mais alto do que Deus; os homens decidem quem deve viver e quem deve morrer.”

3) “Temos medo da guerra nuclear e dessa nova enfermidade que chamamos de SIDA, mas matar crianças inocentes não nos assusta. O aborto é pior do que a fome, pior do que a guerra.”

4) “Mas eu sinto que o maior destruidor da paz hoje é o aborto, porque é uma guerra contra a criança – um assassinato directo da criança inocente – assassinato pela própria mãe. E se nós aceitamos que uma mãe pode matar até mesmo sua própria criança, como podemos dizer para outras pessoas que não se matem uns aos outros?”

5) ”A pior calamidade para a humanidade não é a guerra ou o terremoto. É viver sem Deus. Quando Deus não existe, admite-se tudo. Se a lei permite o aborto e a eutanásia, não nos surpreende que se promova a guerra!”

6) “O aborto pode ser combatido mediante a adopção. Quem não quiser as crianças que vão nascer, que as dê a mim. Não rejeitarei uma só delas. Encontrarei uns pais para elas. Ninguém tem o direito de matar um ser humano que vai nascer: nem o pai, nem a mãe, nem o estado, nem o médico. Ninguém. Nunca, jamais, em nenhum caso. Se todo o dinheiro que se gasta para matar fosse gasto em fazer as pessoas viver, todos os seres humanos vivos e os que vêm ao mundo viveriam muito bem e muito felizes. Um país que permite o aborto é um país muito pobre, porque tem medo de uma criança, e o medo é sempre uma grande pobreza.”

in ChurchPop


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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Tendências "religiosas" modernas

O verdadeiro adversário está no panteísmo, nas suas múltiplas formas. Arranhe-se qualquer sistema filosófico com ares de novo, qualquer forma mais ou menos recente de "espiritualismo", e, logo abaixo do verniz, encontrar-se-á o panteísmo. 

O Universo é divino, e a Humanidade, parte integrante do Universo, também é divina. A felicidade do Homem consiste em tomar consciência de seu carácter divino, excitando dentro de si a sensação vivida da sua própria divindade, o que consegue por uma série de exercícios mentais ou fórmulas litúrgicas mais ou menos mágicas, cujas modalidades variam de sistema a sistema, e em geral - como acontece em toda a magia - são conhecidas apenas por uns poucos iniciados. 

Esta manifestação das energias divinas no íntimo do nosso ser, além de nos prestar toda a sorte de serviços psíquicos interiores úteis e deleitosos, também é muito proveitosa para o próprio cosmos. Com efeito, quanto mais excitamos em nós as energias divinas, tanto mais elas se activam nos outros seres. E, à medida em que se activam nos outros seres, progride todo o Universo cujo desenvolvimento consiste, em essência no desdobrar das energias divinas que se encontram neles mais ou menos como o vento no espaço.

Este sistema traz, evidentemente, a morte da inteligência. Se o homem quer conhecer Deus, e comunicar-se com Ele, não deve estudar nem pensar. Basta-lhe conhecer os métodos aptos a suscitar nele a experiência sensível da presença e da acção das energias universais e divinas dentro de si mesmo.

Também a vontade perde a sua razão de ser dentro deste sistema. Não há propriamente uma união com a divindade por meio do esforço da vontade aplicada em praticar o bem e evitar o mal. Basta que o Homem consiga despertar dentro de si por meio de métodos adequados a sensação experimental de que seu ser está naturalmente impregnado de forças divinas; o que aliás não é tão difícil pois todo o iniciado conhece tais métodos e nele se pode exercitar.

Está claro que nada disto teria capacidade de sedução, nem encanto, se não se envolvesse nos véus do mistério. Assim, a magia ressurrecta do século XX inventou não só vocábulos mas vocabulários inteiros, novos e complicados, todo um sistema literário cheio de figuras esfumaçadas e vistosas, em que estas afirmações fundamentais, variáveis aliás de escola para escola quase ao infinito nos seus pormenores, vão sendo postas em circulação para uso da pobre Cristandade diluída, narcotizada e insensível do século XX.

Daí, evidentemente, uma imensa confusão de conceitos, de sistemas, de tendências. 

Assim, fora das fronteiras da Igreja grassa uma religiosidade que em última análise é perfeitamente ímpia. E nos meios católicos? Ao mesmo tempo que formulamos a pergunta, contrai-se de tristeza nosso coração. Manda a verdade que se diga que também aí a confusão existe.

'Sob o signo da confusão e da esperança' in Catolicismo nº 13, Janeiro de 1952


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A luta pela toalha

Na noite da Última Ceia, os Apóstolos estavam a discutir qual deles teria o primeiro lugar. Nessa altura Nosso Senhor ajoelhou-se, lavou os pés deles e secou-os com uma toalha. Quão poucos há a lutar pela toalha. 

Venerável Arcebispo Fulton Sheen


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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Breves sobre alguns aspectos da Confissão e da Comunhão

Quem tem acompanhado os meus escritos, nestas duas últimas décadas, saberá bem quanta amargura me traz escrever estes textos (como aliás já vos tenho confessado). Como todos sabeis não sou naturalmente um escritor. Para escrevinhar estes artigos tenho de violentar-me a mim mesmo; preciso, como dizer?, sentir-me e verificar que o essencial está entre a espada e a parede. 

É verdade que muitos, desconhecendo ou esquecendo expressões dos textos evangélicos, das pregações dos apóstolos, dos Padres da Igreja, dos seus Doutores e dos pregadores franciscanos, através dos séculos, me acoimam de injurioso, violento, psicopata(?), vazio de Caridade. 

E, por isso, concluem que estes escritos são indignos de um Sacerdote, rejeitando-os com veemência, recusando-se sequer a lê-los e a dar a conhecê-los. Não contesto as suas conclusões. Afinal quem sou eu para o fazer? Mas agradeço toda essa fúria e indignação colérica que brotando de corações tão benignos e misericordiosos seguramente se transformarão em preces, súplicas, penitências e mortificações por esta alma desgraçada.
 
(Procuro, aqui, tão só, tentar responder a questões que me foram postas)
 
1 - Sobre o Sacramento da Confissão:

a) Por parte do penitente: A Confissão, para ser válida, tem que, juntamente com a contrição[1], o propósito firme de emenda, a confissão integral de todos e cada um dos pecados graves, desde a última confissão, - o seu número, tipo, circunstância. 

Caso, depois de um exame atento e profundo da sua consciência, se tenha esquecido de confessar algum pecado mortal, não precisa de se voltar logo a confessar, bastando que na próxima confissão o faça. Se assim não for terá de fazer uma confissão geral, para seu grande alívio e verdadeira Comunhão com Deus, à qual trará também os pecados das confissões mal feitas. Tudo isto deveria ser ensinado nos Seminários, antes da Ordenação Sacerdotal. E mais deveria ser ensinado ao povo de Deus.

b) Por parte do Sacerdote: Quando um penitente, de boa-fé, se vai confessar e não “preenche” as condições requeridas o Padre poderá supôr que ele estará num estado de ignorância inculpável ou mesmo, de momento, invencível[2], pelo que, segundo a circunstância, lhe poderá dar a absolvição na esperança que volte e venha a reconhecer o que lhe falta; ou, sendo possível, poderá convidá-lo a adiar a absolvição até estar melhor preparado. 

Mas o que não será conveniente ou mesmo desaconselhável dizer (para não transformar um pecador material num pecador formal), em determinadas circunstâncias, deverá ser dito em homilias, sermões, retiros, conferências, palestras, escritos, etc.

c) Não raro sucede que muitos não contando coisas em confissão acabam por fazê-lo com todos os detalhes no psicanalista com frequentes resultados lastimáveis.

d) É bom e salutar que os cristãos se envergonhem de pecar. Mas não é bom nem salutar que se envergonhem de os confessar. Quem assim o faz com coragem e humildade ficará engrandecido aos olhos de Deus e do confessor.
 
2 - Sobre a Sagrada Comunhão:

a) Segundo percebi circula por aí uma ‘polémica’ sobre receber a Sagrada Comunhão na boca ou na mão. Alguns afirmam que outros disseram que para receber dignamente a Comunhão teria de se estar em comunhão eclesial com os nossos legítimos Pastores, a saber, os Bispos portugueses, alinhando com a recomendação de receber a Comunhão na mão. Ora, isto é, evidentemente, um dislate colossal senão mesmo uma chantagem altamente manipuladora - como se alguém dissesse: se queres Comungar terás que receber Nosso Senhor na mão.
 
i) A Lei Universal da Igreja que somente pode ser excepcionada por indulto determina que se Comungue na boca e de joelhos. O indulto, porém, não pode obrigar ninguém a receber a Comunhão na mão e/ou em pé. O Santo Padre é o único que poderá derrogar esta Lei Universal, pelo que estar em Comunhão eclesial significa está-lo com o legítimo Papa. Nenhum Bispo, Episcopado ou Conferência Episcopal poderá determinar algo que a ela se oponha. 

De resto, foi isso o que os nossos Bispos decidiram, a saber, não contradizer o Papa, mas tão só recomendar, em virtude dos conhecimentos (falíveis) que lhes foram transmitidos, que a Comunhão fosse recebida na mão. De contrário, para estar em comunhão eclesial com os Bispos teria de se romper a comunhão eclesial com o Santo Padre. Fazer desta recomendação um critério de comunhão eclesial ultrapassa a mais delirante das ficções. Como se o católico só pudesse Comungar se estivesse em comunhão com a DGS[3]! Espantoso.

b) Alguns Sacerdotes, cientes da adoração devida ao Sacramento do Corpo de Deus humanado, muito louvavelmente não se recusam, pelo contrário, a dar a Comunhão a quem a quer receber na boca e de joelhos. Porém, tomados de um zelo pouco esclarecido, não têm consciência de se entregarem a um sério risco de profanação em virtude de desinfectarem os dedos, imediatamente após a Comunhão, com receio de poder contagiar os outros fiéis. 

Ora está por provar, mesmo quando há contacto com a saliva dos fiéis, que daí resulte algum contágio. Não deixa, no entanto, de ser prudente fazê-lo, mas não do modo que acabo de referir. O Sacerdote adorador, fiel e prudente deverá em primeiro lugar purificar os dedos em água, preparada para o efeito, e somente depois proceder à desinfecção.
 
À Honra e Glória de CRISTO. Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira
 
[1]“Na realidade, reconciliar-se com Deus supõe e inclui o apartar-se com lucidez e determinação do pecado, no qual se caiu. Supõe e inclui, portanto, o fazer penitência no sentido mais pleno do termo: arrepender-se, manifestar o arrependimento, assumir a atitude concreta do arrependido, que é a de quem se coloca no caminho do regresso ao Pai. Isto é uma lei geral, que cada um deve seguir na situação particular em que se encontra.” - Papa João Paulo II - Reconciliação e Penitência, nº 13 c
[2]Durante a confissão sacramental há que ter o cuidado de não contribuir para que um pecador material se transforme num pecador formal. Embora aqui haja também limites ou excepções como, por exemplo, no caso do aborto provocado.
[3] Direcção Geral de Saúde


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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Actos de Contrição

Muita gente não sabe que acto de contrição dizer quando se confessa a um sacerdote ou depois do exame de consciência ou simplesmente depois de ter cometido um pecado. Deixamos aqui duas versões

Versão curta

Meu Deus, porque sois infinitamente bom,
eu Vos amo de todo o meu coração,
pesa-me ter-Vos ofendido,
e, com o auxílio da vossa divina graça,
proponho firmemente emendar-me
e nunca mais Vos tornar a ofender;
peço e espero o perdão das minhas culpas
pela vossa infinita misericórdia.
Ámen.

Versão Longa

Senhor Jesus Cristo,
Deus e homem verdadeiro,
Criador e Redentor meu,
por serdes Vós Quem sois
sumamente bom
e digno de ser amado
sobre todas as coisas,
e porque Vos amo e estimo,
pesa-me, Senhor,
de todo o meu coração,
de Vos ter ofendido;
pesa-me também
por perdido o Céu
e merecido o inferno,
e proponho firmemente,
ajudado com o auxílio
da vossa divina graça,
emendar-me
e nunca mais vos tornar a ofender,
e espero alcançar o perdão
das minhas culpas,
pela vossa infinita misericórdia.
Ámen.


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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Defesa da propriedade por G.K. Chesterton

Estou perfeitamente consciente de que na nossa época a palavra 'propriedade' foi pervertida pela corrupção dos grandes capitalistas. Pelo que as pessoas dizem, poder-se-ia pensar que os Rothchilds e os Rockfellers são partidários da propriedade. Mas é óbvio que eles são seus inimigos, porque são inimigos dos seus limites. Não desejam a sua própria terra, mas a dos outros. (...) 

O homem que leva consigo a verdadeira poesia da posse deseja ver um muro no encontro do seu jardim com o do sr. Smith, uma cerca no encontro da sua fazenda com a do sr. Brown. Não consegue ver a forma da sua própria terra sem ver os limites da do vizinho. 

O duque de Sutherland possuir todas as chácaras (quintas) numa única propriedade rural é a negação da propriedade, assim como seria a negação do casamento se ele tivesse todas as nossas esposas num único harém.

G. K. Chesterton in 'O que há de errado com o mundo'


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Asperge me

Domine, hysopo et mundabor:
lavabis me, et super nivem dealbábor


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Uma confissão com o Padre Pio

Depoimento da conversão de Frederick Abresh
Em Novembro de 1928, quando fui ver o Padre Pio pela primeira vez, poucos anos tinham passado desde que eu me convertera do protestantismo para o catolicismo, algo que apenas tinha feito por mera conveniência social. Eu não tinha fé; pelo menos agora entendo que apenas tinha a ilusão de tê-la. Tendo sido criado numa família muito anti-católica e imbuído de preconceitos contra os dogmas - até o ponto de que uma ligeira instrução não era suficiente para apagá-los - eu estava sempre ansioso por coisas secretas e misteriosas.

Encontrei um amigo que me introduziu nos mistérios do espiritismo. Muito rapidamente, no entanto, cansei-me dessas mensagens pouco conclusivas que vinham do além-túmulo; entrei pesadamente no campo do ocultismo e das magias de todos os tipos. Foi então que eu conheci um homem que me disse, em ares de mistério, que ele detinha a verdade única: a 'teosofia'. Rapidamente tornei-me seu discípulo, e nas nossas mesas, fomos acumulando livros com os títulos mais atraentes e tentadores. Com muita presunção, ele utilizava palavras como reencarnação, logos, Brahma, Maja, esperando ansiosamente alguma nova e grande realidade que supostamente deveria acontecer.

Não sei porquê - ainda acho que era para agradar à minha esposa - mas de vez em quando ainda me acercava dos santos sacramentos. Este era o estado da minha alma, quando, pela primeira vez, ouvi falar do padre capuchinho que descreviam como um crucifixo vivo, fazendo milagres contínuos. Cheio de curiosidade, decidi ir vê-lo com os meus próprios olhos. Ajoelhei-me no confessionário e disse ao Padre Pio que considerava a confissão uma boa instituição social e educacional, mas que não acreditava de modo algum na divindade do sacramento. O padre, com expressão de viva dor, respondeu-me: 'Heresia! Então, todas as suas comunhões foram sacrílegas...tem de fazer uma confissão geral. Examinar a sua consciência e lembrar quando foi a última vez que fez uma boa confissão. Jesus tem sido mais misericordioso consigo do que com Judas'.

Olhando, então, por cima da minha cabeça, com um olhar severo, disse em alta voz: 'Louvados sejam Jesus e Maria!' E dirigiu-se à igreja para ouvir as confissões de algumas mulheres, enquanto eu fiquei na sacristia, profundamente comovido e impressionado. A minha cabeça girava e eu não me conseguia concentrar, pois martelavam-me nos ouvidos as suas palavras: 'Lembre-se de quando foi a última vez que fez uma boa confissão!' Com dificuldade, consegui chegar à seguinte decisão: vou dizer ao Padre Pio que eu era protestante e que, depois da abjuração, fui rebaptizado condicionalmente e que todos os meus pecados de minha vida passada haviam sido apagados pelo santo baptismo mas, para a minha inteira tranquilidade, eu gostaria de começar a confissão desde a minha infância.

Quando o padre retornou ao confessionário, repetiu-me a mesma pergunta: 'Então, quando foi a última vez que fez uma boa confissão?' '. Eu respondi: 'Padre, eu ... e ele então interrompeu-me, dizendo: 'a última vez que fez uma boa confissão foi quando regressou da sua lua de mel, vamos deixar tudo o mais de lado e começar a partir daí'. Fiquei sem palavras, tomado de estupor, e percebi que havia tocado o sobrenatural. 

O padre, entretanto, não me deu tempo para reflectir. Revelando o seu conhecimento do meu passado, na forma de um questionário, enumerou todas as minhas culpas com absoluta precisão e clareza. Depois me fez conhecer todos os meus pecados mortais com palavras impressionantes, que me levaram a compreender a gravidade dos meus pecados, acrescentando com um tom de voz inesquecível: 'cantava um hino a Satanás, enquanto Jesus, de braços abertos, ardia de amor à sua espera'. Então deu-me a penitência e absolveu-me.

Katharina Tangari in 'Stories of Padre Pio'


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sábado, 29 de agosto de 2020

Sanctus da Missa 'De Angelis'

Sanctus da Missa 'De Angelis' from Senza Pagare on Vimeo.



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Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro

Os bem-aventurados apóstolos foram os primeiros a ver Cristo suspenso na cruz; choraram a sua morte, ficaram atemorizados face ao prodígio da sua ressurreição mas, logo a seguir, transportados de amor por esta manifestação do seu poder, não hesitaram em derramar o seu sangue para atestar a verdade do que tinham visto. 

Pensai, irmãos no que era pedido a esses homens: ir por todo o mundo pregar que um morto tinha ressuscitado e subido ao céu; e sofrer, devido à pregação dessa verdade, tudo o que aprouvesse a um mundo insensato: privações, exílio, cadeias, tormentos, carrascos, feras ferozes, a cruz e morte. Teriam sofrido tudo isso por um desconhecido?

Teria Pedro morrido para sua própria glória? Teria pregado em proveito próprio? Ele morria e Outro, que não ele, era glorificado por essa morte; ele foi morto e Outro foi adorado. Só a chama ardente da caridade, unida à convicção da verdade, pode explicar semelhante audácia! Eles pregavam o que tinham visto. 

Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro. Ou deveriam eles negar o que tinham visto? Mas não negaram, antes pregaram esse Morto que sabiam estar perfeitamente vivo. Eles sabiam por que vida desprezavam a vida presente, sabiam por que felicidade suportavam provas passageiras, por que recompensa espezinhavam todos esses sofrimentos. A sua fé pesava mais na balança que o mundo inteiro.

Santo Agostinho in Sermão 311, 2


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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Colher o que Semeámos

Estudos recentes revelam que os níveis de esperma de homens no ocidente desceram 60% desde 1971, evocando a grande distopia de P.D. James “Os Filhos dos Homens”, com a sua visão de uma sociedade que já não se consegue reproduzir. Baseado no Reino Unido, em 2021, esta ficção assustadora descreve uma mundo de infertilidade em massa entre os homens, um mundo em que não nascem crianças há 25 anos. No livro, o último bebé que nasceu é agora um adulto e a população está a envelhecer. Tal como na realidade actual, os cientistas no livro de James ainda não conseguiram descobrir uma cura, ou sequer uma causa, para a infertilidade. 

No artigo em que publicam as suas descobertas, na revista Human Reproduction Update, os investigadores – de Israel, Estados Unidos, Dinamarca, Brasil e Espanha – concluem que o total de contagem de esperma caiu 59.3% entre 1971 e 2011 na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia. 

Alguns cientistas afirmam que a “vida moderna” causou sérios danos à saúde dos homens. Pesticidas, poluição, dieta, stresse, tabaco e obesidade… todos têm sido associados ao problema, com algum grau de plausibilidade. Mas há menos homens a fumar do que nunca e os controlos de poluição e de pesticidas que os governos têm implementado ao longo dos últimos 40 anos diminuíram vários destes riscos. 

Durante a Revolução Industrial, no século XIX, os homens incorriam em riscos de saúde muito maiores ao trabalhar em fábricas numa altura em que não havia sequer regulamentos sobre a qualidade do ar. Havia menos problemas de fertilidade nessa altura, as famílias eram numerosas e ninguém se preocupava com a contagem de esperma. 

A obesidade pode ser um factor, mas os investigadores ainda não conseguiram estabelecer uma ligação. Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Loma Linda fez um estudo ao longo de quatro anos com uma população de Adventistas do Sétimo Dia, que são rigorosamente vegetarianos. Os resultados revelaram que os vegetarianos têm uma média de contagem e de mobilidade de esperma significativamente mais baixas que carnívoros, mas o veganismo é um estilo de vida minoritário ainda, especialmente entre homens, e por isso não pode ser a principal causa do fenómeno. 


As causas para este declínio de fertilidade continuam por apurar. Mas para se compreender as consequências de uma sociedade estéril, a história de P.D. James descreve um mundo sombrio em que emerge um Governo totalitário para manter a ordem – e fornecer “conforto” aos residentes. É um mundo em que os animais de estimação se substituem às crianças e a religião parece ter perdido o seu sentido. Porém, na tentativa fraca de manter os rituais cristãos as igrejas anglicanas levam a cabo cerimónias de baptismo elaboradas para os gatinhos de estimação da população, repletas de vestidos brancos e boinas. 

Na sociedade estéril de P.D. James, o sexo entre os jovens tornou-se “o menos importante dos prazeres sensoriais do homem”. E embora os homens e as mulheres ainda se casem, é frequentemente com pessoas do mesmo sexo. O desejo sexual diminuiu a par da fertilidade masculina, não obstante os esforços do Governo para estimular o desejo através de lojas de pornografia patrocinadas pelo Estado. 

De certa forma o romance de James descreve uma sociedade que conseguiu precisamente aquilo que queria: prazer sexual sem risco de gravidez. Mas a ironia é que não havendo possibilidade de procriação, o sexo perde o seu sentido. É um facto que enfrentamos cada vez mais hoje enquanto debatemos se o Estado deve obrigar todos os contribuintes, incluindo aqueles que têm objecções religiosas, a pagar pelos “direitos reprodutivos” de todas as mulheres, numa altura em que há cada vez mais preocupações com a infertilidade masculina. 

Há muito que os antropólogos e os sociólogos sabem que a questão da fertilidade humana numa dada população tem de ser vista de uma perspectiva cultural. A cultura é a forma de vida, ou a concepção de vida que caracteriza cada sociedade humana. Inclui os valores partilhados, normas e comportamentos de uma dada sociedade. 

Para compreender as taxas de fertilidade e a diminuição da população, devem-se identificar e modificar as influências culturais. A cultura é importante para se compreender as taxas de fertilidade e para modificar a actividade sexual, criando uma relação entre o sexo e a reprodução e o sistema de valores de uma cultura. Quando, numa determinada sociedade, a chegada de uma criança é desvalorizada, o acto sexual que produz a criança também se desvaloriza. Note-se que os níveis de fertilidade masculina estão em queda no Ocidente e não em África, onde as crianças continuam a ser altamente valorizadas e acolhidas em amor. 

Esta perspectiva sociológica ou cultural estava claramente expressada na Humanae Vitae: Sobre a Regulação da Natalidade, emitida pelo Papa Paulo VI no dia 25 de Julho de 1968, onde se lê: 

“O problema da natalidade, como de resto qualquer outro problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais – sejam elas de ordem biológica, psicológica, demográfica ou sociológica – à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna.” 

Talvez seja chegada a hora de considerar a sociologia em torno da cultura de “direitos reprodutivos” que criámos – a cultura de contracepção que o Ocidente abraçou. Temos de nos questionar sobre o eventual custo psíquico de uma cultura em que a contracepção e o aborto são de tal forma importantes que o ObamaCare procurou obrigar todos os empregadores – incluindo instituições religiosas – a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluíam cobertura para medicamentos contraceptivos e abortivos abortivos para todos. 

É importante realçar que estes declínios de fertilidade começaram a registar-se em 1971 com o surgimento da pílula contraceptiva e liberalização do aborto a pedido através de Roe v. Wade. Será que, tal como na distopia de James, há um preço psíquico a pagar quando começamos a partir do princípio que podemos controlar todos os aspectos das nossas vidas? Será possível que tenhamos sobrecontrolado a nossa própria fertilidade? 

Anne Hendershott in thecatholicthing.org (traduzido por 'Actualidade Religiosa')

Anne Hendershott é professora de Sociologia e directora do Centro Veritas para Ética na Vida Pública, da Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio. É autora do livro The Politics of Deviance


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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Se Deus aparecesse nos noticiários...

Se Deus aparecesse nos noticiários que lugar restaria à liberdade humana, ao livre arbítrio e à Fé? Como poderíamos duvidar de uma evidência?

Como faria o homem o caminho da confiança, de volta a uma relação entretanto traída? Não! A maior razão da Fé reside na salvaguarda da liberdade humana; em reganhar uma confiança entretanto perdida pela Queda. 

É preciso viver a revolução permanente, contra o espírito da época, contra a heresia da moda. Só assim se obtém o perdão e o regresso a casa. 

G.K. Chesterton


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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Falar com Deus

Se o facto de contares aos homens os teus infortúnios pessoais e descreveres as provações por que passaste traz algum alívio à tua desventura, como se através das palavras se exalasse uma brisa refrescante, com muito mais razão se falares ao Senhor dos sofrimentos da tua alma encontrarás consolo e conforto em abundância! 

De facto, muitas vezes os homens dificilmente suportam aqueles que vêm lamentar-se e chorar para o pé de si: afastam-se e repelem-nos. Mas Deus não age assim; pelo contrário, Ele faz com que te aproximes e abraça-te; e mesmo que passes o dia inteiro a narrar os teus infortúnios, ficará ainda mais disposto a amar-te e a acolher favoravelmente as tuas súplicas. 

São João Crisóstomo



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