quarta-feira, 9 de março de 2016

O problema do mal


I. A versão lógica

Todos nós conhecemos o problema do mal... desde a queda que o mal afecta o ser humano, quer seja pela utilização indevida da sua liberdade, quer seja através de doenças, catástrofes, e outros problemas que, à partida, parecem não ter nada a ver com os defeitos humanos, mas que causam grande transtorno às pessoas por eles afectadas.

Mas como conciliar este problema com a ideia Católica de Deus? Um Deus Omnipresente, Omnipotente, Omnisciente, Bom e Misericordioso, que nos ama a todos mas, ainda assim, permite que nos aconteçam coisas desagradáveis... não será uma visão um pouco contraditória? Este raciocínio está na base do argumento do mal contra a existência de Deus e, neste pequeno texto, vou abordar a versão lógica deste argumento e explicar porque é que, do ponto de vista racional, a existência do mal não é contraditória com a existência do Deus Católico. Vou parecer um pouco frio, mas essa é a consequência de levar a discussão para o plano da argumentação lógica.

Para começar, quando se coloca o argumento numa forma mais explícita como, por exemplo, "Deus é Bom, Omnipotente e Omnisciente; O mal existe; Logo Deus não existe." notamos que há uma falha no raciocínio, a conclusão não segue das premissas. Na verdade há uma premissa implícita, a de que um Deus Bom, Omnipotente e Omnisciente não permitiria a existência de mal no mundo... e esta premissa é altamente duvidosa.

Para podermos amar a Deus é necessário que sejamos livres. O amor é um acto livre que só é possível quando quem ama tem liberdade para dizer não. Se alguém nos apontasse uma pistola à cabeça e pedisse para dizermos que a amávamos, até poderíamos dizer isso, mas o sentimento não seria amor pois não é possível obrigar alguém a amar.

Posto isto, é necessário que o Homem seja livre mas, com esta liberdade, vem também a possibilidade de negar Deus e cair no pecado.

A partir do momento em que existem seres livres, apesar de haver a possibilidade teórica de eles fazerem sempre as escolhas correctas, não é fazível criar um Universo no qual o mal não exista. A única forma de isto acontecer seria não existirem seres livres mas, nesse caso, não existia amor nem, consequentemente, salvação (por não ser possível amar Deus). Além disso, é possível que certos males sejam requisito para que um Bem maior possa ocorrer.
Daqui tiramos que a versão lógica do argumento do mal é falaciosa, uma vez que, existindo seres livres, é possível a existência do mal no mundo, mesmo com um Deus Bom. Por este motivo trata-se de um mau argumento contra a existência de Deus.

II. Tipos de mal

Apesar de termos visto que a existência do mal não implica a não existência de Deus, há ainda algumas questões que podemos colocar sobre o mal.

À primeira vista podemos catalogar dois tipos de mal, o mal que vem dos seres livres e o mal natural, que inclui catástrofes naturais, doenças, entre outros. A existência do primeiro é bastante óbvia, como foi dito na parte I deste texto, a existência de seres livres permite automaticamente este tipo de mal...

O problema aqui é o mal natural. Já que o outro tipo não se pode evitar, porque permitiria Deus a existência do mal natural? É algo que não vem, na maioria das vezes, da liberdade do Homem mas da própria natureza e que apenas parece piorar as coisas.

Esta questão daria bastante que falar, contudo gostaria de salientar apenas um ponto, nada nos garante que o mundo teria, no total, menos mal se existisse apenas o mal da liberdade, basta olharmos para a nossa história recente.

No século XX vários milhões de pessoas foram mortas pelo regime Nazi e pelos regimes Comunistas da União Soviética e da China, entre outros. Neste período histórico qualquer catástrofe natural de grandes dimensões que tenha ocorrido é practicamente desconhecida para o público em geral, uma vez que a sua gravidade é “desprezável” quando comparada com os genocídios destes governos.

Vemos assim que o mal que causamos com a nossa liberdade consegue ser muito pior que o mal vindo da natureza. Nada nos garante, por isso, que um mundo sem catástrofes naturais seria, em geral, um mundo melhor do que aquele que temos. É bastante razoável acreditar que este tipo de mal, ao mudar as condições em que as pessoas se encontram, permita que muitas mudem a forma como vivem, despertando o desejo por ajudar os outros e tornar o mundo melhor... vemos isto quando se levantam ondas de solidariedade para apoiar as vítimas de terramotos e outros cataclismos.

É, então, bastante provável que, mesmo com catástrofes naturais, este mundo seja melhor do que seria sem estas.

III. O mal e a Salvação

Uma das grandes dificuldades quando lidamos com o problema do mal é o facto de nos focarmos demasiado nas coisas deste mundo.

O grande objectivo das nossas vidas deve ser a Santidade, a nossa ida para junto de Deus após a nossa morte. A presença de Deus terá um efeito incomparavelmente superior a todo o mal deste mundo. Além disso, uma vez que a salvação é para toda a eternidade, a sua "duração" (se é que se pode usar esta palavra neste contexto) também excede por uma margem mais que confortável a duração da nossa vida sofredora. Deste ponto de vista, os males que sofremos neste mundo não passam de alguns bagos de areia numa imensa praia...

Tendo em conta que Deus quer que O escolhamos de livre vontade para nos poder salvar, possibilidades que podemos conceber para o melhor mundo seria aquela em que, desde o início até ao fim dos tempos, o maior número possível de pessoas opta livremente por amar Deus e seguir o Seu caminho.

Como vimos na parte II, nada nos garante que um mundo sem o mal natural fosse melhor deste ponto de vista e, como tal, não temos forma de saber se tal mundo conduziria a um maior número de almas salvas no fim dos tempos... há simplesmente demasiadas variáveis que não conhecemos.

Mas há ainda outro aspecto a notar... nunca devemos tirar da mente que Jesus Cristo, Deus feito Homem, veio ao nosso mundo e sofreu pelos nossos pecados... também Ele se sujeitou ao mal... Aquele que, pela Sua Perfeição e ausência de pecado menos merecia ser exposto ao sofrimento, entrega-Se por amor... para nos salvar... assim, apesar de ser difícil gerir emocionalmente, devemos, através da oração, unir os nossos sofrimentos à Cruz redentora de Nosso Senhor e oferece-los como forma de Santificação das nossas almas.

IV. O mal como argumento para a existência de Deus

Para terminar esta série de reflexões sobre o problema do mal gostaria de fazer uma pequena referência à forma como é possível dar a volta à questão e usar a existência do mal para argumentar a favor da existência de Deus.

Se Deus não existe então tudo o que temos são interacções cegas entre partículas... não existe uma referência absoluta sob a qual julgar o certo e o errado, o mal e o bem, e tudo não passam de sensações para os nossos sentidos. Pessoas diferentes podem ver o mundo de formas diferentes e, não havendo um termo de comparação absoluto, nenhuma delas tem um ponto de vista mais válido do que a outra. Assim, se discordarem quanto a certa coisa ser boa ou má, não há forma de confirmar... não existe objectivamente forma de fazer esta classificação.

Assim, se Deus não existe, então o mal não existe... não há forma de o definir... o problema é que, como todos concordamos, o mal existe... o que, seguindo as regras da lógica, nos permite concluir que Deus existe.

Nota: Pessoalmente não concordo a 100% com este argumento, pelo menos se passarmos para o plano da moralidade, pois mesmo admitindo a não existência de Deus, é possível argumentar para uma moralidade partindo das causas finais de Aristóteles. Esta via parte do princípio que um acto moral é aquele que respeita as causas finais das entidades intervenientes. Gostava só de acrescentar que, admitindo a existência de causas finais, já se está no caminho para admitir a existência de Deus (ver 5ª via de Santo Tomás de Aquino).

Gonçalo Andrade
Finalista do Mestrado de Física, Instituto Superior Técnico


blogger

terça-feira, 8 de março de 2016

"Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão"

Sabeis o que dizemos a Deus na oração, antes de comungarmos: «Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.» Preparai-vos interiormente para perdoar, porque estas palavras estão na oração. Como as ides dizer? Talvez não as digais? 

Enfim, a minha pergunta é esta: Direis ou não estas palavras? Odeias o teu irmão, e dizes: «Perdoai-nos como nós perdoamos.» Evito estas palavras, responderás. Mas então, será que rezas? Estai atentos, meus irmãos. Daqui a nada, ireis rogar; pois perdoai de todo o coração!

Desejas pôr um processo ao teu inimigo? Fá-lo primeiro no teu coração. Diz a esse coração: «Pára de odiar» 

Mas, nesse caso, como não queres perdoar, a tua alma entristece-se quando lhe dizes: «Pára de odiar». Então, respondes-lhe: «Porque estás triste, minha alma, e te perturbas? Confia em Deus» (Sl 41, 6). Estás pouco à vontade, suspiras, o teu mal fere-te, não consegues livrar-te do ódio. 

Confia em Deus, Ele é o médico. Por ti, foi suspenso na cruz, sem desejar vingança. E tu procuras vingança, pois tal é o sentido do teu rancor. Olha o teu Deus na cruz: é por ti que sofre, para que o Seu sangue se torne remédio. Queres vingar-te? Olha Cristo suspenso, ouve-O rezar: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34).

São César de Arles in Eophata II


blogger

segunda-feira, 7 de março de 2016

Beata Teresa de Calcutá escreve às suas Irmãs

Os pobres têm sede de água, mas também de paz, de verdade e de justiça. Os pobres estão nus e têm necessidade de roupas, mas também de dignidade humana e de compaixão para com os pecadores. Os pobres estão sem abrigo e têm necessidade de um abrigo feito de tijolos, mas também de um coração alegre, compassivo e cheio de amor. Eles estão doentes e têm necessidade de cuidados médicos, mas também de uma mão amiga e de um sorriso acolhedor.

Os excluídos, os que são rejeitados, os que não são amados, os prisioneiros, os alcoólicos, os moribundos, os que estão sós e abandonados, os marginalizados, os intocáveis e os leprosos [...], os que estão na dúvida e confusos, os que não foram tocados pela luz de Cristo, os que têm fome da palavra e da paz de Deus, as almas tristes e angustiadas [...], os que são um fardo para a sociedade, os que perderam toda a esperança e a fé na vida, os que se esqueceram como se sorri e os que já não sabem o que é receber um pouco de calor humano, um gesto de amor e de amizade – todos eles se voltam para nós para serem reconfortados. Se lhes viramos as costas, viramos as costas a Cristo.

in Carta às suas colaboradoras de 10/04/1974


blogger

quinta-feira, 3 de março de 2016

Como falar com as crianças sobre sexo?

Como é que devem falar às crianças sobre sexo?


Antigamente, quando as crianças viam galinhas, porcos, cavalos e vacas a terem relações e a dar à luz, viam a anatomia e rapidamente deduziam que as mamãs e os papás traziam os irmãos ao mundo de uma forma análoga.

Mas já não vivemos na quinta e a nossa cultura está imoralmente sexualizada. Portanto, como é preparam os vossos filhos, netos e irmãos para esta perigosa arena?

Falei com alguns sacerdotes e pais sobre isto e aqui está o consenso:

1. Se alguém chegar ao vosso filho ou filha antes de vocês, já sofreram uma primeira derrota. Não deixem um amigo na escola ou (pior) a internet dar a primeira "lição".

2. Deviam falar com a vossa criança antes dos 10 anos. 8 anos parece o melhor. A discussão e os ensinamentos sobre a moral sexual deviam acontecer antes da testosterona e do estrogénio começarem a bombear pelas veias dos vossos filhos.

3. Os filhos deviam ter a primeira conversa com o pai. As filhas com a mãe.

4. Deviam associar o comportamento sexual ao padrão da vossa família, tribo e religião. "Nós Marshalls não fazemos isto. Nós Católicos não fazemos isto."

5. Insistam que estes ensinamentos fazem a pessoa feliz mais tarde na vida. Eu disse ao meu filho isto: "Eu não quero que olhes para pornografia porque vai afectar a forma como vais gostar do sexo com a tua mulher quando cresceres."

6. A Santa Pureza é uma virtude para raparigas e rapazes.

7. As virtudes são hábitos e não leis. Têm que os ajudar a pô-las em prática.

8. Têm que ser específicos. "Se um amigo puxar do seu iPhone e disser, 'Vê só esta miúda nua', tens que dizer e fazer..."

9. Entrevistei uma mãe que teve 10 filhos. Todos são agora adultos e Católicos praticantes que estão casados com esposos Católicos. Eu perguntei-lhe qual era o "segredo". Ela disse que têm falar constantemente sobre o que não apetece e insistir no que a família espera deles. Ela também disse que não dizia simplesmente que estas coisas estavam erradas. Ela explicava.

10. Têm que ser muito específicos sobre a pornografia e a masturbação.

Na Primavera (2016), o New Saint Thomas Insititute vai dar guias precisos aos pais e jovens (14-23) sobre o que significa ser um Católico hoje e como PERMANECER Católico ao longo da vida (cobrindo tópicos como apologia, ateísmo, sexualidade, ética, política, dívidas e como namorar e casar de um ponto de vista Católico). Chama-se "LifePrep" e vai estar disponível a partir de Abril 2016.

Taylor Marshall


blogger

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A mulher mais poderosa do mundo

«A mulher mais poderosa do mundo», foi o título de capa da edição americana da «National Geographic» de Dezembro passado. No interior, a revista trata o tema profissionalmente. Documentou-se e convence: mesmo descontando milagres e aparições, o poder da Mãe de Jesus chega a definir a identidade de povos inteiros. Nem sequer a rainha de Inglaterra se compara! Notícia que deixou os leitores norte-americanos impressionados e teve grande eco na imprensa.

Na viagem ao México, Francisco brincou com o assunto: até os mexicanos ateus se identificam com a mensagem de Nossa Senhora em Guadalupe. Quanto mais ele, Papa! Na viagem de ida anunciou: «O meu desejo mais íntimo é ficar a olhar para a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, um mistério que se estuda, estuda, estuda e continua sem explicação... é uma coisa de Deus». 

O Papa referia-se a algumas características daquela imagem que ainda hoje não se conseguem imitar, mas o importante para ele era ficar a olhá-la e saber-se olhado. O santuário percebeu o recado e colocou-lhe uma cadeira em frente da imagem, para que o Papa se demorasse ali, quase sozinho. Quando os jornalistas lhe perguntaram o que tinha estado a rezar durante aquele tempo todo, Francisco desvendou uma ponta, mas guardou o resto: «...as coisas que um filho diz à sua querida mãe são um segredo!».

Na escala anterior, em Cuba, o Papa tinha-se deparado com outro sinal impressionante do poder de Maria. É uma longa história, com passagem por Portugal: o ícone de Nossa Senhora de Kazan que o Patriarca Kirill ofereceu ao Papa.

A imagem original, pintada em data incerta, esteve vários séculos no mosteiro de Kazan e dela se fizeram muitas reproduções, em igrejas espalhadas pela Rússia. Despareceu em 1209, nas guerras, e foi recuperada em 1579, nos escombros de um incêndio, em circunstâncias miraculosas. Tornou-se então a referência da Rússia, a salvadora da pátria: primeiro contra os polacos; depois contra os suecos; a seguir contra Napoleão. 

A imagem tornou-se o ícone da família do Czar e Pedro o Grande colocou uma cópia na catedral dedicada a Nossa Senhora de Kazan, em São Petersburgo, a nova capital. Esta catedral também tem uma história curiosa. Nalgumas fotografias, parece a praça de S. Pedro em Roma, com a colunata e a basílica, e a intenção era mesmo essa, como expressão do anseio de a Rússia se unir novamente à Igreja católica. A Igreja ortodoxa protestou com todas as forças contra aquela arquitectura, mas o Czar foi mais teimoso.

A imagem foi roubada da catedral em 1904 e por isso os comunistas já não lhe deitaram a mão, limitaram-se a destruir os outros exemplares e arrasar as respectivas igrejas, ou destiná-las a instalações sanitárias e funções ridículas. Só conservaram a catedral de São Petersburgo, para Museu do Ateísmo. Ao cabo de clandestinidades várias, o ícone escapou da União Soviética e foi parar às mãos de comerciantes oportunistas. A associação católica «Exército Azul» (azul, cor de Nossa Senhora) resgatou-o colocou-o na capela bizantino-russa da «Domus Pacis» (Casa da Paz), junto ao santuário de Fátima, à espera de ser devolvida aos russos. 

Em 1993, depois da queda do muro de Berlim, foi para Roma, onde o Papa João Paulo II a guardou com grande devoção no seu gabinete, com a intenção de a levar pessoalmente à Rússia. Infelizmente, a igreja ortodoxa russa rejeitou todas as tentativas de o Bispo de Roma visitar o país.

Em 1997, ao tornar-se pública alguma documentação da II Guerra Mundial, soube-se que Elias, então Metropolita russo no Líbano, tinha enviado uma missiva a Stalin, levada em mão pelo próprio Chefe do Estado-Maior da Armada Vermelha, a contar-lhe uma visão: Stalin devia libertar o clero da prisão e deixar que o ícone de Kazan fosse levado em procissão em várias cidades. 

O receio supersticioso de Stalin explica o chamado «período religioso» (entre 1941 e 1942) e o ter atribuído ao Metropolita Elias o prémio Stalin, «por serviços eminentes à União Soviética e à causa do socialismo». Elias não quis receber dinheiro do ditador e entregou-o para ajuda aos órfãos da guerra; derrotados os nazis, Stalin esqueceu o «período religioso».

Em 2004, João Paulo II desistiu de esperar pela oportunidade de visitar a Rússia e enviou uma delegação para entregar o ícone ao Patriarca ortodoxo, como sinal do desejo de unidade. A delegação foi acolhida, mas a oferta foi desvalorizada: a primitiva pintura tinha-se perdido, aquela era só uma cópia, talvez a roubada da catedral de São Petersburgo; afinal, o Papa só devolvia aos ortodoxos o que já lhes pertencia...

Tanta coisa mudou entretanto que Kirill, actual Patriarca de todas as Rússias, escolheu justamente uma cópia dessa imagem para a oferecer ao Papa Francisco, como «expressão de unidade».

José Maria André in Correio dos Açores, 28-II-2016


blogger

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cardeal Patriarca de Lisboa abençoa a cidade com o Santo Lenho

D. Manuel Clemente abençoou a cidade de Lisboa com uma relíquia da Santa Cruz, durante a Procissão do Senhor dos Passos da Graça. Esta é a procissão mais antiga de Portugal, acontecendo todos os anos, ininterruptamente, desde 1587.


blogger

Umberto Eco: de católico a ateu - Vittorio Messori

Vittorio Messori, jornalista famoso em matérias relacionadas com a Santa Sé, entrevistou em tempos Umberto Eco. A entrevista focou-se sobretudo no facto de Umberto Eco ter deixado de ser Católico.

Agora, depois de Eco morrer, Messori escreveu um texto sobre essa entrevista.

Fica marcada a forma como Umberto Eco encarava a morte. Ao contrário de muitos católicos, que não aceitam a doutrina da Igreja, Umberto sabia que não iria mudar a sua opinião diante de Deus após a morte - antes pelo contrário, iria mantê-la para sempre. E isto é precisamente o que acontece: quem não acreditou em Deus até morrer, não passará a acreditar depois de morrer.

O intelectual formado no culto cristão que aterrou numa posição relativista:


Encontrando-o, entrevistando-o, lendo-o, não posso fugir a uma espécie de lamento. Justamente porque lhe admirava muito a inteligência, a cultura, o estilo, a ironia, o savoir vivre, senti (e disse-lhe também uma vez, recebendo um sorriso enigmático), senti a tristeza do crente diante de um homem que falava da sua "definitiva apostasia" de qualquer fé religiosa, a começar obviamente pela Católica. Um jovem que foi dirigente da Giac, a juventude de acção católica, um homem que aprendeu na universidade pelos crentes antigos e modernos, um homem de comunhão diária e confissão semanal e que escolheu São Tomás para a sua tese, pensando na fé a defender e não num título a conquistar.

E eis que, em vez do extraordinário apologeta do catolicismo, do polémico cintilante  que os crentes teriam recebido como um dom, eis que do ateneu de Turim, sai o Umberto liberal. Um Eco que se tornou apologeta sim, mas primeiro do agnosticismo e depois - como admitiu - de um relativismo ateu (nomina nuda tenemus [nada temos além dos nomes]), decidido com a habitual ligeireza de uma aparência distraída, mas na realidade impenetrável. A desilusão não me impediu, no que me toca, de sentir afecto sincero e agora tristeza porque não teremos mais piadas como aquela que lhe ouvi dizer no nosso primeiro encontro: «Se Pascal habitasse no meu condomínio, falar-nos-íamos com educação, mas não nos daríamos muito. Se, pelo contrário, no meu andar estivesse Tomás de Aquino, ao jantar jogaríamos à bisca mas acabaríamos por discutir, à procura de argumentos um contra o outro [andare per avvocati]. E talvez ele me denunciasse à Digos (forças secretas italianas) por suspeita de terrorismo»

Por umas minhas Perguntas sobre o cristianismo (o título do livro que lancei com muitas entrevistas, sobretudo com ex-crentes, para perceber as suas razões), passámos juntos uma tarde milanesa que aproveitei não para falar genericamente de cultura, mas de fé, de vida e de morte. Pedi-lhe a ele, que conduzia o discurso em direcção à filosofia, que deixasse os esquemas verbais e que fosse ao concreto. A decisão por Deus ou contra Deus vem mais da de uma questão existencial do que de argumentações teóricas. Por que motivos (assumindo que seja capaz de decifrá-los) uma pessoa abraçava o Evangelho - e com tanto fervor - como o jovem Eco, decide retirar a sua esperança de Cristo? Parecia-me, com todo o respeito, que os argumentos da sua resposta não fugiam à suspeita de terem sido elaborados a posteriori para racionalizar uma repulsa que vinha do coração e da vida, mais do que da razão. Disse-lhe eu. E ele respondeu com sinceridade: «Concedo-lhe de bom grado que qualquer 'prova' ou raciocínio serve apenas para nos convencer daquilo de que já estamos convencidos. É verdade: o aspecto racional não chega para explicar a minha história. Mas também não é suficiente o aspecto biográfico.»

«Outros que tiveram uma vivência parecida com a minha permaneceram crentes. A mim parece-me que a perda da fé foi como uma interrupção de um circuito eléctrico. As causas verdadeiras, profundas? Quem sabe?» Falámos da morte: um drama que, disse-me, vivera na carne, desde quando o seu pai morreu de um modo inesperado. «Passaram tantos anos desde então, mas penso nisso todos os dias. Não procuro, à Freud, vingar-me do meu pai, mas vingá-lo. Também vem daqui o que me tornei profissionalmente. Eu, um coleccionador de honras, como disse alguém? Não, uma pessoa que quer dar aos seus filhos a satisfação que eu esperava ter tido como seu filho e que não tive.» Então perguntei-lhe, onde está o seu pai? Onde estão todos os mortos? Onde iremos nós também? Resposta: «Para além daquelas portas de bronze é o caos, a confusão.»

«Mas talvez também esteja o Nada ou um deserto plano e desolado, sem fim.» A morte, lembrei-o, é a decisão por excelência, aberta a muitas saídas possíveis. E se tivessem razão aqueles que dizem que será Jesus o Cristo a vir ao nosso encontro? Não pareceu hesitar, como quem já pensou nisso muitas vezes: «Oiça, se por acaso esse Nazareno existir mesmo e quiser pôr-me um processo, digo-lhe mais ou menos as coisas que lhe estou a dizer a si: pensei assim e assim e cheguei à conclusão que não serás tu a esperar-me. Penso que poderemos chegar a caminhos razoáveis. Se pelo contrário for o Deus cruel e vingativo de certas seitas protestantes, então é melhor não ter nada a ver com ele. Ele que me mande então para o inferno onde ao menos há boa gente». Uma pausa e depois: «Mas veja que estou convencido que se Deus existisse mesmo, seria o de São Tomás, com quem discutiria na vida, mas que era um homem com quem, apesar de tudo, se podia argumentar sobre as coisas que importam.» Ora, parece que Umberto Eco «sabe». E ao respeito que merece da parte de todos por uma vida tão activa, os crentes, com discrição em relação às convicções, acrecentaram uma oração diante do túmulo diante do qual - com coerência, sem hipocrisia - não se quis uma presença religiosa.

Vittorio Messori in Corriere della Sera


blogger

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Pensas que a caridade é facultativa?

Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o facto de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o facto de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. 

Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-O à nossa mesa como Simão, não só ungindo-O com perfumes como Maria, não só dando-Lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-Lhe ouro, incenso e mirra como os magos. 

Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos.

S. Gregório de Nazianzo in Sermão 14, sobre o amor aos pobres


blogger

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Belíssima ordenação de 20 sacerdotes na Coreia do Sul



blogger

Zika, o 'mal menor' e as freiras do Congo - uma explicação

Muito se tem escrito e falado sobre a pequena resposta que o Papa Francisco deu a bordo do avião da Aeromexico para Roma sobre o uso de anticoncepcionais e o vírus Zika.

Muitos ficaram escandalizados por o Papa ter usado uma história que, aparentemente, não aconteceu. Para estas pessoas, pelos vistos, o Papa também devia ser infalível em história. Escândalo verdadeiro seria se o Papa tivesse contradito a Fé ou a Moral mas, como tentarei mostrar, não foi esse o caso.

Escrevi, pouco depois da entrevista, um texto onde abordei precisamente este assunto:


No dia seguinte, um leitor amigo, sacerdote, disse-me que o Papa dizia ainda mais uma coisa que reforçava o meu argumento.

Vejam o texto original:
"Papa Francesco: L’aborto non è un “male minore”. E’ un crimine. E’ fare fuori uno per salvare un altro. E’ quello che fa la mafia. E’ un crimine, è un male assoluto. Riguardo al “male minore”: evitare la gravidanza è un caso – parliamo in termini di conflitto tra il quinto e il sesto comandamento. Paolo VI - il grande! - in una situazione difficile, in Africa, ha permesso alle suore di usare gli anticoncezionali per i casi di violenza. (...)
Invece, evitare la gravidanza non è un male assoluto, e in certi casi, come in quello che ho menzionato del Beato Paolo VI, era chiaro. Inoltre, io esorterei i medici che facciano di tutto per trovare i vaccini contro queste due zanzare che portano questo male: su questo si deve lavorare… Grazie."
Vejam agora o último parágrafo traduzido para português (com um negrito adicional):
Pelo contrário, evitar a gravidez não é um mal absoluto, e em alguns casos, como naquele que mencionei do Beato Paulo VI, era claro. Nos outros, exortarei aos médicos que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que transportam este mal: deve-se trabalhar sobre isto.
Ora, o Santo Padre não está a comparar o caso das freiras no Congo com o caso do vírus Zika. Como expliquei no texto anterior, a resposta oficial do Papa foi apenas que não se podia recorrer nunca ao aborto.

Para mostrar um caso extremo em que se pode optar por um "mal menor", o Santo Padre referiu o caso das freiras no Congo. Eram mulheres entregues a Cristo, numa vida de celibato, que corriam um grave risco de serem violadas. Neste caso o Papa Francisco admitiu (julgando seguir Paulo VI) que as freiras podiam tomar anticoncepcionais, para não engravidarem. Nos outros casos, o Papa diz outra coisa completamente diferente. Nos outros, os médicos que façam tudo para resolver problema, porque (acrescento eu) não se pode usar anticoncepcionais.

Notem agora uns aspectos menores que se seguiram à entrevista. A resposta que o Papa deu mesmo, que está online em vídeo, não foi igual, palavra-por-palavra, ao texto que está no site da Santa Sé. Na verdade, não foi tão claro como o texto oficial que transcrevi aqui, ainda que deva (e possa) ser interpretado da mesma maneira. Mas se estão ambos na mesma língua, porque é que o texto oficial da Santa Sé está ligeiramente diferente das palavras usadas pelo Papa? Parece-me que o texto oficial pretendia tornar as coisas mais claras, sem alterar o significado do que o Papa disse.

Por outro lado, o Pe. Federico Lombardi SJ, director da Sala de Imprensa da Santa Sé, veio dar uma interpretação não tão clara do que o Papa disse. Segundo o Pe. Lombardi, o Santo Padre disse que "o contraceptivo e o preservativo, em particulares casos de emergência e gravidade, podem também ser objecto de um discernimento de consciência sério". Mas o Pe. Lombardi não disse que o caso do vírus Zika era um caso destes. Antes pelo contrário, usou outros exemplos. Voltou a mencionar o caso das freiras do Congo e referiu também uma resposta do Papa Bento XVI na entrevista Luz do Mundo. Nesta entrevista o Papa Bento disse que "podem haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização".

As freiras no Congo

Parece que o caso citado pelo Papa Francisco e reforçado pelo Pe. Lombardi sobre os comentários de Paulo VI nunca aconteceu. Não há nenhuma fonte de informação que indique, mesmo que superficialmente, que o Beato Paulo VI tenha feito alguma vez na vida este comentário. Como a história já andava em circulação há algum tempo é o caso típico de um "mito urbano". É bastante provável que tenha sido assim que o Papa Francisco soube dela.

Para perceberem, recomendo que leiam o texto do jornalista Sandro Magister:

Paul VI and the Nuns Raped in the Congo. What the Pope Never Said

Apesar do Papa Paulo VI nunca ter feito este comentário, houve de facto um caso em que as autoridades da Igreja Católica no Congo deram autorização às freiras para tomar a pílula. (Uau, este é mesmo um caso diferente do vírus Zika - qual a polémica?)

As freiras estavam sob risco altíssimo de sofrerem violação, e as autoridades da Igreja permitiram que tomassem hormonas que as impedisse de fazer ovulação. Assim evitariam uma das consequências de um acto terrível de violência. Esta história está contada no livro Rape within marriage: a moral analysis delayed (1985) do Pe. Edward Bayer (pgs. 82 e 83).

As autoridades eclesiásticas do Congo não têm a mesma autoridade que o Bispo de Roma. Mas agora o Papa Francisco usou este exemplo. Mesmo que a história esteja mal contada, o Santo Padre usou-a para explicar uma ideia. Em ciência usam-se mesmo histórias inventadas para discutir leis da Física (as famosas experiências mentais de Einstein). Portanto a questão é, será que o Papa está errado na sua ideia? Será que os contraceptivos neste caso são um 'mal menor' a ser utilizado?

O caso do mal menor

Para perceber isto, é importante saber que 'mal menor' tem vários significados. Muitas vezes usamos o termo 'mal menor' para designar algo que não é mal nenhum. Por exemplo, perder uma hora de estudo para ajudar os avós numa necessidade urgente. Não estudar uma hora, normalmente, não é mal nenhum. Nem maior nem menor.

No entanto, em Teologia Moral, 'mal menor' é uma designação técnica. Aplica-se às situações em que se faz um mal para evitar outro mal maior. Mas a doutrina da Igreja ensina que nunca é lícito fazer o mal. Por exemplo, uma pessoa não pode abortar nunca, independentemente do mal que venha de tal gravidez. Reparem que o próprio Papa Francisco disse isto. Significa que mesmo quando uma rapariga violada fica à espera de bebé, não deve nunca abortar. É uma situação dramática mas que felizmente a Igreja está preparada, com instituições e boas pessoas, para ajudar estas mães. A doutrina do 'mal menor' está muito bem explicada na encíclica do Papa São João Paulo II, Veritatis Splendor (1993).

Um dos exemplos onde esta doutrina fica explícita é no caso de matarmos alguém que nos está a atacar. Pode parecer que este é um acto de homicídio, pois matámos o atacante. E o homicídio não se pode cometer nunca. Mas a doutrina da Igreja (e qualquer especialista em moral, mesmo não Católico) explica que este não foi um acto de homicídio, mas sim um acto de legítima defesa. A legítima defesa pode ter como consequência a morte de alguém, mas não é moralmente classificada como um homicídio. Na legítima defesa não há um mal menor a ser cometido, porque não houve homicídio nenhum.

No caso das freiras do Congo é exactamente a mesma coisa. Ao usarem a pílula, estas freiras estavam a cometer um acto de legítima defesa e não a evitar a gravidez durante o acto conjugal. Estavam a impedir que o esperma do violador se unisse aos seus óvulos. Como disse Janet Smith, elas estavam "a repelir um violador e toda a sua fisicalidade". Para se perceber isto melhor recomendo a leitura do artigo da Janet Smith, uma teóloga americana, especialista em Teologia do Corpo e autora dos livros Humanae Vitae: A Generation Later e Why Humanae Vitae Was Right: A Reader:

Contraception, Congo Nuns, Choosing the Lesser Evil, and Conflict of Commandments

Ou seja, o 'mal menor' usado pelo Papa Francisco não é o termo técnico da teologia, mas o que usamos na linguagem vulgar. Isto não nos devia surpreender, pois quando é para falar de teologia o Papa Francisco, um Papa que quer estar próximo dos mais simples, normalmente usa poucas palavras. Recomenda sim a leitura do Catecismo.

Preservativos: podem-se usar ou não?

Enfim, o recurso aos contraceptivos pode ser feito alguma vez? O Beato Paulo VI ensinou claramente que não, na encíclica Humanae Vitae. Disse o Papa que é "de excluir toda a acção que, ou em previsão do acto conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação". Mais ainda, continuou o Papa, "não se podem invocar, como razões válidas (...) o mal menor".

A mim parece-me que o acto de violação não é um acto conjugal. Quem seriam então os "cônjuges"? Sendo assim, nem sequer faz sentido aplicar aqui essa afirmação Humanae Vitae. O que a Igreja ensina é isto: a violação é má e deve ser impedida. O mesmo se diz sobre as afirmações do Papa Bento sobre o uso dos preservativos no caso da prostituição. O que a Igreja ensina é que a prostituição é má e deve ser impedida.

Recomendo vivamente a leitura dos artigos já citados neste texto e também de uma nota da Congregação da Doutrina da Fé sobre este assunto:

Note on the banalization of sexuality

Já agora, a Igreja diz que os casais podem sim evitar a gravidez: abstendo-se de terem relações sexuais.

Com tanta discussão sobre este assunto, pode parecer que a Igreja é feita de normas morais e rígidas, que era precisamente aquilo que o Papa Francisco queria evitar. Na verdade, é uma pena que de uma entrevista com tantas outras respostas, apenas tenha chegado ao público a resposta sobre o vírus Zika. Além disso, os ensinamentos morais da Igreja têm apenas um objectivo: ajudar e ensinar os homens a serem verdadeiramente felizes. Como disse S. João Paulo II, a Igreja coloca-nos assim diante do Esplendor da Verdade.

Nuno CB


blogger

domingo, 21 de fevereiro de 2016

D. Athanasius Schneider fala sobre alguns temas "quentes"

A MISSA "TRIDENTINA"
RC: Vossa Excelência é muito conhecida por celebrar a Missa "Tridentina" por todo o mundo. Quais são, segundo Vossa Excelência, as lições mais profundas que se aprendem ao dar a Missa "Tridentina", como padre e como bispo, e que outros padres e bispos podem esperar receber ao celebra- la?
D. Athanasius Schneider: As lições mais profundas que aprendi ao celebrar o Rito Tradicional foram estas: Sou apenas um simples instrumento de uma acção sobrenatural muitíssimo sagrada, cujo principal celebrante é Cristo, o Eterno Sumo Sacerdote. Sinto que durante a celebração da Missa perdi de certa forma a minha liberdade individual, uma vez que as palavras e gestos são prescritos até nos mais ínfimos pormenores e não posso descartá-los. Sinto profundamente no meu coração que sou apenas um servo e um ministro, que embora tenha livre arbítrio, com fé e amor, cumpro não a minha vontade, mas a vontade de Outro.
O Rito Tradicional e mais que milenar da Santa Missa, que nem o Concílio de Trento modificou porque o Ordo Missae antes e depois do Concílio eram quase idênticos, proclama e poderosamente evangeliza a Incarnação e a Epifania da indescritível santidade imensa de Deus, que na liturgia como "Deus connosco" e "Emanuel" se torna tão pequeno e perto de nós. O Rito Tradicional da Missa é uma obra de arte e, ao mesmo tempo, uma proclamação do Evangelho, que realiza o trabalho da nossa salvação.
RC: Se o Papa Bento está certo ao dizer que o Rito Romano existe (ainda que estranhamente) em duas formas em vez de uma, porque razão é que ainda não é exigido que os seminaristas estudem e aprendam a Missa Tridentina como parte do seu plano de estudos do seminário? Como pode um pároco da Igreja Romana não saber ambas as formas do único Rito da sua Igreja? E como é que é possível que seja negada a tantos Católicos a Missa Tradicional e os respectivos sacramentos se é uma forma igual?
D. Athanasius Schneider: De acordo com a intenção do Papa Bento XVI, e as normas claras da Instrução Universae Ecclesiae, todos os seminaristas Católicos devem saber a forma tradicional da Missa e ser capazes de a celebrar. O mesmo documento diz que esta forma é um tesouro para toda a Igreja - e portanto para todos os fiéis.
O Papa João Paulo II fez um apelo urgente a todos os bispos para acomodar generosamente o desejo dos fiéis em relação à celebração do Rito Tradicional da Missa. Quando os clérigos e bispos põem entraves ou restringem a celebração da Missa Tradicional, não estão a obedecer ao que o Espírito Santo diz à Igreja, e estão a agir de um modo muito anti pastoral. Não se comportam como os detentores do tesouro da liturgia, que não lhes pertence, uma vez que são só os administradores.
Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho.

A RÚSSIA AINDA NÃO EXPLICITAMENTE CONSAGRADA
RC: Há muitos ortodoxos russos onde Vossa Excelência vive. Aleksandr de Astana ou alguém do Patriarcado de Moscovo perguntou a Vossa Excelência acerca do recente Sínodo ou sobre o que está a acontecer à Igreja sob Francisco? Interessam-se sequer?
D. Athanasius Schneider: Os Prelados Ortodoxos, com os quais contacto, geralmente não estão bem informados acerca das disputas internas na Igreja Católica, ou pelo menos nunca falaram comigo desses assuntos. Ainda que não reconheçam a primazia jurisdicional do Papa, veem mesmo assim o Papa no primeiro cargo hierárquico da Igreja, do ponto de vista na ordem do protocolo.
RC: Estamos apenas a um ano do centenário de Fátima. A Rússia não foi, indiscutivelmente, consagrada ao Coração Imaculado de Maria e certamente não foi convertida. A Igreja, embora impoluta, está numa desordem completa - talvez ainda pior que durante a Heresia Ariana. Irão as coisas ficar ainda piores antes que melhorem e como devem os verdadeiros Católicos fiéis preparar-se para o que aí vem?
D. Athanasius Schneider: Temos de acreditar firmemente: A Igreja não é nossa, nem do Papa. A Igreja é de Cristo e só Ele a detém e lidera infalivelmente mesmo nos períodos mais negros de crise, como de facto está a nossa situação.
É uma mostra do Divino carácter da Igreja. A Igreja é essencialmente um mistério, um mistério sobrenatural, e não podemos aproximarmo-nos dela como fazemos a um partido político ou uma sociedade puramente humana. Ao mesmo tempo, a Igreja é humana e no seu nível humano está actualmente a sofrer uma dolorosa paixão, participando na Paixão de Cristo.
Podemos pensar que a Igreja nos nossos dias está a ser flagelada como foi Nosso Senhor, está a ser despida como foi Nosso Senhor na décima estação da Via Sacra. A Igreja, nossa Mãe, está atada por cordas não só pelos inimigos da Igreja, mas também por alguns dos colaboradores das classes do clero, e até mesmo do alto clero.
Todos os bons filhos da Mãe Igreja, como corajosos soldados, devem tentar soltar esta Mãe - com as armas espirituais de defesa e proclamação da verdade, promovendo a liturgia tradicional, adoração Eucarística, a cruzada do Santo Terço, a batalha contra o pecado na sua vida particular e aspirar à santidade.

Temos de rezar para que o Papa consagre explicitamente a Rússia ao Imaculado Coração de Maria com brevidade, para que então Ela possa vencer, como a Igreja rezou desde a antiguidade:"Alegrai-vos, ó Virgem Maria, porque sozinha derrotastes todas as heresias do mundo inteiro" (Gaude, Maria Virgo, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo).

O resto da entrevista exclusiva ao blog católico Rorate Caeli pode ser lida aqui (em inglês): 
http://rorate-caeli.blogspot.com/2016/02/exclusive-bishop-athanasius-schneider.html


blogger

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A incrível entrevista do Papa Francisco no voo do México

Independentemente do que têm dito sobre a entrevista do Papa no voo do México para Roma, esta entrevista merece ser lida e podem encontrar aqui o original.

A verdade é que muitos Católicos se assustam ao ler os comentários do Papa. Pior ainda, julgam-no ao duvidarem da sua doutrina. Correm linhas e linhas sobre isto em certos blogs e sites de notícias: The Most Confusing Papal Interview Ever. Só acrescenta à enorme confusão que os media têm estado a criar, como sempre fizeram com os comentários de qualquer Papa. 

Mas foi uma entrevista magnífica, que qualquer Católico devia imprimir e guardar em casa para ler quando duvidar da rectidão doutrinal do Santo Padre. Como Católicos devíamos ler o que o Papa Francisco diz com olhos de caridade e de compreensão, sem a mínima influência dos media. Não nos podemos esquecer que ele é o Papa, Vigário de Cristo na terra. 

SEIS ideias da entrevista que o Papa deu, para além do Donald Trump e dos preservativos:

1. O Papa Bento XVI foi um herói no combate contra a pedofilia, já mesmo enquanto Cardeal.

2. O aborto é sempre mau, independentemente das circunstâncias (isto é, é um mal absoluto).

3.  O que o Papa Francisco diz sobre os homossexuais é o que diz o Catecismo da Igreja Católica (palavras do próprio Papa).

4. Há ainda diferenças doutrinais entre Ortodoxos e Católicos.

5. Ter uma relação amorosa com uma mulher que não a esposa é pecado.

6. Talvez saia a exortação da Família antes da Páscoa (há quem diga que sai no dia de S. José).


Por fim, um pequeno esclarecimento sobre o que o Papa disse sobre os preservativos:

1. No aborto nunca há mal menor.

2. Foi para explicar o mal menor que o Papa falou dos preservativos.

O comentário já não tinha nada a ver com o Zika.
Todos conhecemos o Papa Francisco. Tenta mostrar sempre o lado bom.
Ao dizer que o aborto não podia ser mal menor, o Papa tentou lembrar-se de um caso em que pode haver um mal menor.
Não passava pela cabeça do Santo Padre sugerir o preservativo para evitar o Zika (ou a SIDA, etc.), como vêem no exemplo que o Papa deu, já a seguir.

3. Em casos de violação de freiras, o Papa permitiu que as freiras usassem (elas próprias) anti-concepcionais.

4. Já o Papa Bento XVI tinha falado que compreendia o uso de preservativo da parte de homens prostitutos, na entrevista Luz do Mundo.

Deixo aqui a tradução inglesa do Catholic News Agency (que tem um erro, como verão em baixo):
Pope Francis: Abortion is not the lesser of two evils. It is a crime. It is to throw someone out in order to save another. That’s what the Mafia does. It is a crime, an absolute evil. On the ‘lesser evil,’ avoiding pregnancy, we are speaking in terms of the conflict between the fifth and sixth commandment. Paul VI, a great man, in a difficult situation in Africa, permitted nuns to use contraceptives in cases of rape.
Don’t confuse the evil of avoiding pregnancy by itself, with abortion. Abortion is not a theological problem, it is a human problem, it is a medical problem. You kill one person to save another, in the best case scenario. Or to live comfortably, no?  It’s against the Hippocratic oaths doctors must take. It is an evil in and of itself, but it is not a religious evil in the beginning, no, it’s a human evil. Then obviously, as with every human evil, each killing is condemned. 
On the other hand, avoiding pregnancy is not an absolute evil. In certain cases, as in this one [o Papa não disse "as in this one", vejam no original em baixo], or in the one I mentioned of Blessed Paul VI, it was clear. I would also urge doctors to do their utmost to find vaccines against these two mosquitoes that carry this disease. This needs to be worked on. 
E aqui o original:
Papa Francesco: L’aborto non è un “male minore”. E’ un crimine. E’ fare fuori uno per salvare un altro. E’ quello che fa la mafia. E’ un crimine, è un male assoluto. Riguardo al “male minore”: evitare la gravidanza è un caso – parliamo in termini di conflitto tra il quinto e il sesto comandamento. Paolo VI - il grande! - in una situazione difficile, in Africa, ha permesso alle suore di usare gli anticoncezionali per i casi di violenza. 
Non bisogna confondere il male di evitare la gravidanza, da solo, con l’aborto. L’aborto non è un problema teologico: è un problema umano, è un problema medico. Si uccide una persona per salvarne un'altra – nel migliore dei casi – o per passarsela bene. E’ contro il Giuramento di Ippocrate che i medici devono fare. E’ un male in sé stesso, ma non è un male religioso, all’inizio, no, è un male umano. Ed evidentemente, siccome è un male umano – come ogni uccisione – è condannato. 
Invece, evitare la gravidanza non è un male assoluto, e in certi casi, come in quello che ho menzionato del Beato Paolo VI, era chiaro. Inoltre, io esorterei i medici che facciano di tutto per trovare i vaccini contro queste due zanzare che portano questo male: su questo si deve lavorare… Grazie.
 Nuno CB

blogger

A contracepção hormonal provoca efeitos profundos no cérebro

Um artigo no jornal de medicina Frontiers veio demonstrar os possíveis efeitos da contracepção hormonal no cérebro humano, sugerindo que os efeitos podem ser muito mais profundos do que antes se pensava, e convocando a comunidade científica a dedicar mais pesquisas nesta área.

“Os contraceptivos hormonais estão no mercado há mais de 50 anos e são usados por 100 milhões de mulheres em todo o mundo,” escreveram Belinda A. Pletzer e Hubert H. Kerschbaum, neuropsicólogos austríacos da Universidade Paris-Lodron, em Salzburgo. “Enquanto esteróides endógenos vêm sendo associados, de maneira convincente, a alterações na estrutura, função e performance cognitiva do cérebro, os efeitos dos esteróides sintéticos contidos nos contraceptivos hormonais têm sido muito pouco estudados.”

Com base nos poucos dados científicos existentes e controlando mudanças neurológicas e comportamentais nos usuários de contraceptivos hormonais, os autores afirmam que “esteróides sintéticos podem acarretar efeitos masculinizadores assim como feminizadores no cérebro e no comportamento.”

“Nós concluímos que há uma grande necessidade de estudos mais sistemáticos, especialmente sobre as mudanças estruturais, funcionais e cognitivas no cérebro provocadas pelo uso de contraceptivos hormonais,” escrevem Pletzer e Kerschbaum.

“Mudanças na estrutura e na química do cérebro provocam mudanças na cognição, na emoção e na personalidade e consequentemente em comportamentos observáveis,” continuou a dupla. “Se uma maioria de mulheres faz uso de contraceptivos hormonais, tais mudanças comportamentais podem causar uma alteração na dinâmica social. Como a pílula é o principal instrumento de controlo populacional, é preciso descobrir o que ela faz ao nosso cérebro.”

Pletzer e Kerschbaum chamaram à contracepção hormonal “experimento global” e observaram que, enquanto a ingestão de esteróides e hormonais por atletas é considerada “doping” e condenada pela sociedade, quando mulheres ou adolescentes que desejam reduzir os riscos de uma gravidez fazem a mesma coisa esse comportamento não é só tolerado, mas é até mesmo encorajado; e a jovens cada vez mais jovens, a despeito da falta de dados científicos a respeito da segurança do seu uso.

“Adolescentes começam a tomar contraceptivos hormonais cada vez mais cedo, muitas vezes pouco depois da puberdade,” escreve a dupla. “E, no entanto, a maioria das pesquisas sobre acções dos esteróides no cérebro concentra-se na terapia de reposição hormonal pós-menopausa.”

Uma preocupação especial de Pletzer e Kershbaum é o facto de que a maioria dos estudos neurológicos não leva em conta se as mulheres fazem uso de métodos hormonais de contracepção.

“Tradicionalmente, a pesquisa médica, assim como a psicológica, focava-se em participantes do sexo masculino, porque se suspeitava que as flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual afectavam os resultados – e estavam de facto certas,” escreveram. “Hoje, um grande número de mulheres participa de estudos científicos. E, embora os participantes que estejam fazendo uso de medicação sejam excluídos, os estudos dificilmente restringem as usuárias de contracepção hormonal.”

Depois de analisar os dados disponíveis sobre o impacto cognitivo dos contraceptivos hormonais, os cientistas encontraram indícios de que as drogas alteram fundamentalmente a maneira como as mulheres processam e reagem à informação. Citando uma série de estudos que mostram diferenças na comunicação verbal, memórias, lembranças emocionais e até mesmo na escolha de companheiros de usuárias de contraceptivos, concluíram que é possível que as drogas “causem uma reorganização estrutural no cérebro.” Observaram também que alguns estudos vincularam a contracepção hormonal a transtornos de humor de origem química como depressão, ansiedade, fadiga, sintomas de neurose, compulsão e cólera.

Em face da seriedade da evidência revelada com base em uma quantidade relativamente pequena de dados, Pletzer e Kershbaum chamaram atenção para a necessidade de uma investigação mais exaustiva dos efeitos dos contraceptivos hormonais em adolescentes, e fizeram um apelo aos pesquisadores de todas as áreas da medicina a que levem em consideração essa variável comum

“Em primeiro lugar, concluímos que há uma grande procura por estudos suplementares sobre como contraceptivos hormonais afectam o cérebro, desde o nível molecular até o comportamental,” escreveram os autores. “Portanto, estudos futuros que pretenderem investigar o funcionamento “normal” do cérebro deverão restringir o uso de contraceptivos hormonais entre os participantes.”

“Como o número de mulheres que usa contraceptivos orais aumenta constantemente, ao passo que a idade do primeiro uso de contraceptivo é cada vez menor, as alterações correspondentes na personalidade e no comportamento social implicam consequências significativas para a sociedade”, concluem os autores.

Kirsten Andersen in Notifam


blogger

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Vladimir Putin, Viktor Orban e o monograma IHS

Vladimir Putin, Presidente da Rússia, recebeu em Moscovo Viktor Orbán, Primeiro-Ministro da Hungria. Muito se poderia escrever sobre o encontro entre dois dos políticos mais mal-amados pela União Europeia, mas a curiosidade aqui é outra. 

Se repararem, entre os dois políticos, encontra-se o monograma IHS. Trata-se de uma referência muito antiga, datada do séc. III, ao Santíssimo Nome de Jesus. Em grego aquelas são as primeiras três letras da palavra Jesus (Ἰησοῦς), ou seja 'Ἰησ'. Mais tarde o monograma foi adaptado para latim, significando 'Iesus Hominum Salvator' (Jesus Salvador dos Homens).

No Ocidente foi bastante usado por grandes santos, como: S. Bernardo de Claraval, Beato João Colombini, S. Vicente Ferrer, S. Bernardino de Siena e S. Inácio de Loyola.

Hoje em dia não estamos habituados a ver símbolos cristãos nos encontros entre os políticos do Ocidente. O politicamente correcto não permite. Ao menos estes dois não sofrem dessa doença.


blogger