quinta-feira, 14 de abril de 2022

O Sacerdote na celebração do Tríduo Pascal

A Carta aos Hebreus é o único texto do Novo Testamento que atribui a Nosso Senhor Jesus Cristo os títulos de “Sacerdote”, “Sumo Sacerdote” e “Mediador da Nova Aliança”, graças à oferenda do sacrifício do Seu corpo, antecipado na Ceia mística da Quinta-Feira Santa, consumado sobre a cruz e apresentado ao Pai com a ressurreição e a ascensão ao Céu (cf. Hb 9,11-15). Este texto é meditado na Liturgia das Horas da quinta semana da Quaresma – ou da Paixão, como no calendário litúrgico da forma extraordinária do Rito Romano – e na Semana Santa.

Nós, sacerdotes católicos, devemos contemplar sempre Cristo e ter os mesmos sentimentos d’Ele; esta ascese acontece com a conversão permanente. Como se realiza a conversão em nós, sacerdotes? No rito da ordenação é-nos pedido o ensino da fé católica, não das nossas ideias; “celebrar com devoção os mistérios de Cristo – isto é, a liturgia e os sacramentos – segundo a tradição da Igreja”, e não segundo o nosso gosto; sobretudo, “estar cada vez mais unidos a Cristo Sumo Sacerdote, que, como vítima pura, Se ofereceu ao Pai por nós”, isto é, conformar a nossa vida segundo o mistério da Cruz.

A Santa Igreja honra o sacerdote e o sacerdote deve honrar a Igreja com a santidade da sua vida – este foi o propósito de Santo Afonso Maria de Ligório no dia da sua ordenação –, com o zelo, com o trabalho e com o decoro. Ele oferece Jesus Cristo ao Pai Eterno e por isso deve estar revestido das virtudes de Jesus Cristo, para preparar-se para o encontro com o Santo dos Santos. Que importante é a preparação interior e exterior para a sagrada liturgia, para a Santa Missa! Trata-se de glorificar o Sumo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo. Pois bem, tudo isso se realiza em grau máximo na Semana Santa, a Grande e Santa Semana, como dizem os orientais. Vejamos alguns dos seus principais actos, com base no cerimonial dos bispos.

1. Com a Missa in Cena Domini, da Quinta-Feira Santa, o sacerdote entra nos principais mistérios – a instituição da Santíssima Eucaristia e do sacerdócio ministerial –, assim como no mandamento do amor fraterno, representado pelo lava-pés, gesto que a liturgia copta realiza ordinariamente cada Domingo. Nada melhor para expressá-lo do que o canto Ubi caritas. Após a comunhão, o sacerdote, usando o véu umeral, sobre ao altar, faz a genuflexão e, ajudado pelo diácono, segura a píxide com as mãos cobertas pelo véu umeral. É o símbolo da necessidade de mãos e corações puros para aproximar-se dos mistérios divinos e tocar o Senhor!

2. Na Sexta-Feira Santa in Passione Domini, o sacerdote é convidado a subir ao Calvário. Às três da tarde, às vezes um pouco mais tarde, acontece a celebração da Paixão do Senhor, em três momentos: a Palavra, a Cruz e a Comunhão. Dirige-se em procissão e em silêncio ao altar. Depois de ter reverenciado o altar, que representa Cristo na austera nudez do Calvário, ele prostra-se por terra: é a proskýnesis, como no dia da ordenação. Assim, expressa a convicção do seu nada diante da Majestade divina, e o arrependimento por se ter atrevido a medir-se, por meio do pecado, com o Omnipotente. Como o Filho que se anulou, o sacerdote reconhece o seu nada e assim tem início a sua mediação sacerdotal entre Deus e o povo, que culmina na oração universal solene.

Depois faz-se a ostensão e a adoração da Santa Cruz: o sacerdote dirige-se ao altar com os diáconos e lá, em pé, recebe-a e descobre-a em três momentos sucessivos – ou mostra-a já descoberta – e convida os fiéis à adoração, em cada momento, com as palavras: Eis o madeiro da cruz, no qual esteve suspenso o Salvador do mundo

O sacerdote, após ter depositado a casula, se possível descalço, aproxima-se da Cruz, ajoelha-se diante dela e beija-a. A teologia católica não teme em dar aqui à palavra “adoração” o seu verdadeiro significado. A verdadeira Cruz, banhada com o sangue do Redentor, torna-se, por assim dizer, uma só coisa com Cristo e recebe a adoração. Por isso, prostrando-nos diante do lenho sagrado, dirigimo-nos ao Senhor: “Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo”.

3. A Páscoa do Reino de Deus realizou-se em Jesus: oferecida e consumida a Ceia, “na noite em que ia ser entregue”; imolada sobre o Calvário na Sexta-Feira Santa, quando “houve escuridão sobre toda a Terra”, mais uma vez a noite recebe a consagração da aprovação divina, na ressurreição de Cristo Senhor: por João, sabemos que Maria Madalena se aproximou do sepulcro “bem de madrugada”; portanto, aconteceu nas últimas horas da noite após o Sábado pascal.

No Novus Ordo, o sacerdote, desde o início da Vigília, está vestido de branco, como para a Missa. Ele abençoa o fogo e acende o círio pascal com o novo fogo, após ter aplicado, como na liturgia antiga, uma cruz. Depois grava sobre o lado vertical da cruz a letra grega alfa e, abaixo, a letra omega; entre os braços da cruz, faz a incisão de quatro algarismos para indicar o ano em curso, dizendo: Cristo ontem e hoje. Depois, feita a incisão da cruz e dos demais sinais, pode aplicar no círio cinco grãos de incenso, dizendo: Pelas suas santas chagas. Depois, cantando o Lumen Christi, guia a procissão rumo à igreja. O sacerdote está à cabeça do povo dos fiéis aqui na Terra, para poder guiá-lo ao céu.

É o sacerdote que entoa solenemente "Eis a luz de Cristo!". Ele canta-o três vezes, elevando gradualmente o tom da voz: o povo, depois de cada vez, repete-o no mesmo tom. Na liturgia baptismal, o sacerdote, estando de pé diante da fonte, abençoa a água, cantando a oração: Ó Deus, por meio dos sinais sacramentais; enquanto invoca: Desça, Pai, sobre esta água, pode introduzir nela o círio pascal, uma ou três vezes.

O significado é profundo: o sacerdote é o órgão fecundador do seio eclesial, simbolizado pela fonte baptismal. Verdadeiramente, na pessoa de Cristo Cabeça, ele gera filhos e, como pai, fortifica-os com o crisma e nutre-os com a Eucaristia. Também em razão destas funções maritais em relação à Igreja esposa, o sacerdote não pode senão ser um homem. Todo o sentido místico da Páscoa manifesta-se na identidade sacerdotal, chegando à plenitude, o plếroma, como diz o Oriente. Com ele, a iniciação sacramental chega ao cume e a vida cristã se torna o centro.

Portanto, o sacerdote, que subiu com Jesus à cruz na Sexta-Feira Santa e desceu ao sepulcro no Sábado Santo, no Domingo de Páscoa pode afirmar realmente: “Sabemos que Cristo verdadeiramente ressuscitou dentre os mortos”.

Mons. Nicola Bux, Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice


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terça-feira, 12 de abril de 2022

Nós Vos adoramos e Vos bendizemos, Senhor Jesus

Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo


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75 anos da primeira aparição de Nossa Senhora delle Tre Fontane

No dia 12 de Abril de 1947, há 75 anos, houve uma aparição em Tre Fontane (nos arredores de Roma): onde São Paulo sofreu o martírio (tendo a cabeça dele, depois de decapitado, batido no chão 3 vezes onde imediatamente brotaram 3 fontes).

Nossa Senhora apareceu a Bruno Cornacchiola e fez-lhe a primeira de (cerca de) revelações, que continuaram ao longo da sua vida. O próprio vidente escreveu-as no seu diário. Sendo apenas revelações particulares, Cornacchiola submeteu-as ao julgamento da autoridade eclesiástica.

No dia 22 de Julho de 1947 do mesmo ano, o vidente encontrou-se com o Papa Pio XII. A 5 de Outubro do mesmo ano, o Papa benzeu uma imagem de Nossa Senhora delle Tre Fontane. 9 anos mais tarde, em 1956, Pio XII permitiu o culto público a essa aparição, entregando a custódia do local aos franciscanos menores conventuais.

No dia 21 de Setembro de 1988, Bruno Cornacchiola escreve no seu diário:

«O que sonhei não pode acontecer, é demasiado doloroso e espero que o Senhor não permita que o Papa negue todas as verdades da Fé e se ponha no lugar de Deus. Quanto sofrimentos tive durante esta noite, fiquei com as pernas paralisadas e não me podia mexer, pela dor de ver a Igreja reduzida a um monte de ruinas.»


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sábado, 9 de abril de 2022

Cristo das trincheiras

Em 1918, durante muitos dias, um insólito cruzeiro com a imagem de Cristo, existente próximo de Neuve-Chapelle, na Flandres Francesa, fez companhia às tropas portuguesas ali estacionadas. Foi alvo de devoção, serviu de cenário a fotografias, “ouviu” preces e, de certa forma, velou pelos homens que aguardavam mais um confronto. A batalha de La Lys* deu-se a 9 de Abril e foi fatal.

Toda a zona foi bombardeada, remexida, destruída pelo fogo inimigo. No fim, pouco mais restavam que cadáveres, homens agonizantes, escombros e…entre tanta devastação, o Cristo, também ele mutilado, como muitos dos que combateram. O fogo alemão perfurou-lhe o peito, levou-lhe as pernas e parte do braço direito, mas deixou-o ali, ainda erguido, como um sinal de sobrevivência.
Esta batalha da I Grande Guerra, constituiu talvez a mais negra página da história bélica de Portugal, depois de Alcácer Quibir. Os militares do Corpo Expedicionário Português foram arrasados pelas tropas alemãs, milhares morreram, ficaram feridos ou foram aprisionados.

O “Cristo das trincheiras”, terá sido depois recolocado no espaço que lhe pertencia e onde permaneceu mais duas décadas.

Em 1958, por iniciativa do Governo português, rumou a terras lusas e, igualmente a 9 de Abril - há exatamente 64 anos - em cerimónia muito ao estilo do Estado Novo, foi instalado no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, à cabeceira do túmulo do Soldado Desconhecido, que representa todos os que pereceram a lutar pela pátria e cujo nome se desconhece.
Ironicamente, aqueles símbolos de derrota e perda estão no interior de um monumento que celebra uma grande vitória nacional e sob uma abóbada que, reza a lenda, também se manteve de pé devido à fé.

A homenagem ao soldado desconhecido, composta por túmulo de dois militares – um morto na I Grande Guerra e outro na Guerra Colonial – o grandioso lampadário denominado “chama da pátria” e o “Cristo das trincheiras”, tem guarda de honra permanente e situa-se na Casa do Capítulo do “Mosteiro da Batalha”, edificado para celebrar o triunfo em Aljubarrota (1385).

Sobre o memorial, ergue-se a colossal abóboda que desafia as leis da física e, conta o historiador Alexandre Herculano*, foi desenhada pelo mestre Afonso Domingues. Quase cego, às portas da morte, mas com uma crença inabalável no seu projecto, permaneceu sozinho por debaixo da abóboda, quando mais ninguém acreditava que esta se manteria intacta após retirarem as escoras. Ainda lá está. O Cristo também.

*A batalha deve o nome rio junto ao qual tiveram lugar os acontecimento.
**Embora a moderna historiografia não o confirme, atribuindo a obra ao mestre irlandês David Huguet.

in osaldahistoria.blogs.sapo.pt

Fontes:
http://www.momentosdehistoria.com/MH_06_05_Patriotismo.htm
http://www.mosteirobatalha.gov.pt/pt/index.php?s=white&pid=176
http://capeiaarraiana.pt/2015/04/04/efemerides-2015-4-de-abril/
http://portugalglorioso.blogspot.com/2014/03/o-cristo-das-trincheiras.html
https://www.erepublik.com/mk/article/cristo-das-trincheiras-2436880/1/20


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sexta-feira, 8 de abril de 2022

Via Sacra com meditações extraordinárias

I Estação
+ Jesus é condenado à morte

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

O juiz que cometeu o crime profissional mais monstruoso de toda a História, não foi a ele impelido pelo tumultuar de nenhuma paixão ardente. Não o cegou o ódio ideológico, nem a ambição de novas riquezas, nem o desejo de comprazer a alguma Salomé. Moveu-o a condenar o Justo o receio de perder o cargo, parecendo pouco zeloso das prerrogativas de César; o medo de criar para si complicações políticas, desagradando ao populacho judeu; o medo instintivo de dizer "não", de fazer o contrário do que se pede, de enfrentar o ambiente com atitudes e opiniões diferentes das que nele imperam.

Vós, Senhor, o fitastes por longo tempo com aquele olhar que em um segundo operou a salvação de Pedro. Era um olhar em que transparecia vossa suprema perfeição moral, vossa infinita inocência, e, entretanto, ele Vos condenou.

Senhor, quantas vezes imitei Pilatos! Quantas vezes, por amor à minha carreira, deixei que em minha presença a ortodoxia fosse perseguida, e me calei! Quantas vezes presenciei de braços cruzados a luta e o martírio dos que defendem vossa Igreja! E não tive a coragem de lhes dar sequer uma palavra de apoio, pela abominável preguiça de enfrentar os que me rodeiam, de dizer "não" aos que formam meu ambiente, pelo medo de ser "diferente dos outros". Como se me tivésseis criado, Senhor, não para Vos imitar, mas para imitar servilmente os meus companheiros.

Naquele instante doloroso da condenação, Vós sofrestes por todos os covardes, por todos os moles, por todos os tíbios... por mim, Senhor.

Meu Jesus, perdão e misericórdia. Pela fortaleza de que me destes exemplo arrostando a impopularidade e enfrentando a sentença do magistrado romano, curai em minha alma a chaga da moleza!

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

II Estação
+ Jesus leva a Cruz às costas

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Inicia-se assim, meu adorado Senhor, a vossa caminhada para o lugar da imolação. Não quis o Pai Celeste que fôsseis morto num golpe fulminante. Vós teríeis de nos ensinar em vossa Paixão, não apenas a morrer, mas a enfrentar a morte. Enfrentá-la com serenidade, sem hesitação nem fraqueza, caminhando, até, para ela com o passo resoluto do guerreiro que avança para o combate, eis a admirável lição que me dais.

Diante da dor, meu Deus, quanta é a minha covardia! Ora contemporizo antes de tomar a minha cruz; ora recuo, traindo o dever; ora, por fim, eu o aceito, mas com tanto tédio, tanta moleza, que pareço odiar o fardo que vossa vontade me põe sobre os ombros.

Em outras ocasiões, quantas vezes fecho os olhos para não ver a dor! Cego-me voluntariamente com um otimismo estulto, porque não tenho coragem de enfrentar a provação. E por isto minto a mim mesmo: não é verdade que a renúncia àquele prazer se impõe a mim para que não caia em pecado; não é verdade que devo vencer aquele hábito que favorece minhas mais entranhadas paixões; não é verdade que devo abandonar aquele ambiente, aquela amizade que minam e solapam toda a minha vida espiritual; não, nada disto é verdade... fecho os olhos, e atiro de lado minha cruz.

Meu Jesus, perdoai-me tanta preguiça, e pela chaga que a Cruz abriu em vossos ombros, curai, Pai de Misericórdias, a chaga horrível que em minha alma abri com anos inteiros vividos no relaxamento interior e na condescendência para comigo!

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

III Estação
+ Jesus cai pela primeira vez

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Como então, Senhor? Não Vos era lícito abandonar vossa Cruz? Pois se a carregastes até que todas as vossas forças se exaurissem, até que o peso insuportável do madeiro Vos lançasse por terra, não estava bem provado que Vos era impossível prosseguir? Estava cumprido vosso dever. Os Anjos do Céu que levassem agora por Vós a Cruz. Vós havíeis sofrido em toda a medida do possível. Que mais haveríeis de dar?

Entretanto, agistes de outro modo, e destes à minha covardia uma alta lição. Esgotadas vossas forças, não renunciastes ao fardo, mas pedistes mais forças ainda, para carregar novamente a Cruz. E as obtivestes.

É difícil hoje a vida do cristão. Obrigado a lutar sem tréguas contra si, para se manter na linha dos Mandamentos, parece uma exceção extravagante num mundo que estadeia na luxúria e na opulência a alegria de viver. Pesa-nos aos ombros a cruz da fidelidade à vossa Lei, Senhor. E, por vezes, o fôlego parece faltar-nos.

Nestes instantes de prova, sofismamos. Já fizemos quanto em nós estava. Afinal, é tão limitada a força do homem! Deus terá isto em conta... deixemos cair a cruz à beira do caminho e afundemos suavemente na vida do prazer. Ah, quantas cruzes abandonadas à beira dos nossos caminhos, quiçá à beira dos meus caminhos!

Dai-me, Jesus, a graça de ficar abraçado à minha cruz, ainda quando eu desfaleça sob o peso dela. Dai-me a graça de me reerguer sempre que tiver desfalecido. Dai-me, Senhor, a graça suprema de nunca sair do caminho por onde devo chegar ao alto do meu próprio calvário.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

IV Estação
+ Encontro de Jesus com a sua Mãe

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Quem, Senhora, vendo-Vos assim em pranto, ousaria perguntar por que chorais? Nem a Terra, nem o mar, nem todo o firmamento, poderiam servir de termo de comparação à vossa dor. Dai-me, minha Mãe, um pouco, pelo menos, desta dor. Dai-me a graça de chorar a Jesus, com as lágrimas de uma compunção sincera e profunda.

Sofreis em união a Jesus. Dai-me a graça de sofrer como Vós e como Ele. Vossa dor maior não foi por contemplar os inexprimíveis padecimentos corpóreos de vosso Divino Filho. Que são os males do corpo, em comparação com os da alma? Se Jesus sofresse todos aqueles tormentos, mas ao seu lado houvesse corações compassivos! Se o ódio mais estulto, mais injusto, mais alvar, não ferisse o Sagrado Coração enormemente mais do que o peso da Cruz e dos maus tratos feriam o Corpo de Nosso Senhor! Mas a manifestação tumultuosa do ódio e da ingratidão daqueles a quem Ele tinha amado... a dois passos, estava um leproso a quem havia curado... mais longe, um cego a quem tinha restituído a vista... pouco além, um sofredor a quem tinha devolvido a paz. E todos pediam a sua morte, todos O odiavam, todos O injuriavam. Tudo isto fazia Jesus sofrer imensamente mais do que as inexprimíveis dores que pesavam sobre o seu Corpo.

E havia pior. Havia o pior dos males. Havia o pecado, o pecado declarado, o pecado protuberante, o pecado atroz. Se todas aquelas ingratidões fossem feitas ao melhor dos homens, mas por absurdo não ofendessem a Deus! Mas elas eram feitas ao Homem-Deus, e constituíam contra toda a Trindade Santíssima um pecado supremo. Eis aí o mal maior da injustiça e da ingratidão.

Este mal não está tanto em ferir os direitos do benfeitor, mas em ofender a Deus. E de tantas e tantas causas de dor, a que mais Vos fazia sofrer, Mãe Santíssima, Redentor Divino, era por certo o pecado.

E eu? Lembro-me de meus pecados? Lembro-me, por exemplo, do meu primeiro pecado, ou do meu pecado mais recente? Da hora em que o cometi, do lugar, das pessoas que me rodeavam, dos motivos que me levaram a pecar? Se eu tivesse pensado em toda a ofensa que Vos traz um pecado, teria ousado desobedecer-Vos, Senhor?

Oh, minha Mãe, pela dor do santo Encontro, obtende-me a graça de ter sempre diante dos olhos Jesus Sofredor e Chagado, precisamente como O vistes neste passo da Paixão.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

V Estação
+ Jesus ajudado pelo Cirineu a levar a Cruz

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Quem era este Simão, que se sabe dele, senão que era de Cirene? E que sabe o geral dos homens sobre Cirene, senão que era a terra de Simão? Tanto o homem como a cidade emergiram da obscuridade para a glória, e para a mais alta das glórias, que é a glória sagrada, num momento em que bem outros eram os pensamentos do Cirineu.

Vinha ele despreocupado pela estrada. Pensava tão somente nos pequenos problemas e nos pequenos interesses de que se compõe a vida miúda da maior parte dos homens. Mas Vós, Senhor, atravessastes seu trajeto com vossas Chagas, vossa Cruz, vossa imensa dor. E a este Simão tocou tomar posição perante Vós. Forçaram-no a carregar convosco a Cruz. Ou ele a carregaria mal-humorado, indiferente a Vós, procurando tornar-se simpático ao povo por meio de algum novo modo de aumentar vossos tormentos de alma e de corpo; ou a carregaria com amor, com compaixão, sobranceiro ao populacho, procurando aliviar-Vos, procurando sofrer em si um pouco de vossa dor, para que sofrêsseis um pouco menos. O Cirineu preferiu padecer conVosco. E por isto seu nome é repetido com amor, com gratidão, com santa inveja, há dois mil anos, por todos os homens de fé, em toda a face da Terra, e assim continuará a ser até a consumação dos séculos.

Também pelos meus caminhos Vós passastes, meu Jesus. Passastes quando me chamastes das trevas do paganismo para o seio de vossa Igreja, com o Santo Batismo. Passastes quando meus pais me ensinaram a rezar. Passastes quando no curso de catecismo comecei a abrir a minha alma para a verdadeira doutrina católica e ortodoxa. Passastes na minha primeira Confissão, na minha primeira Comunhão, em todos os momentos em que vacilei e me amparastes, em todos os momentos em que caí e me reerguestes, em todos os momentos em que pedi e me atendestes.

E eu, Senhor? Ainda agora, passais por mim neste exercício da Via-Sacra. O que faço quando Vós passais por mim?

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

VI Estação
+ Verónica enxuga o rosto de Jesus

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Dir-se-ia, à primeira vista, que prêmio maior jamais houve na história. Com efeito, que rei teve nas mãos tecido mais precioso do que aquele Véu? Que general teve bandeira mais augusta? Que gesto de coragem e dedicação foi recompensado com favor mais extraordinário?

Entretanto, há uma graça que vale muito mais do que a de possuir milagrosamente estampada num véu a Santa Face do Salvador. No Véu, a representação da Face divina foi feita como num quadro. Na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana ela é feita como num espelho.

Em suas instituições, em sua doutrina, em suas leis, em sua unidade, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, a Igreja é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador. Mais ainda, Ela é o próprio Corpo Místico de Cristo.

E nós, todos nós, temos a graça de pertencer à Igreja, de sermos pedras vivas da Igreja!

Como devemos agradecer este favor! Não nos esqueçamos, porém, de que noblesse oblige. Pertencer à Igreja é coisa muito alta e muito árdua. Devemos pensar como a Igreja pensa, sentir como a Igreja sente, agir como a Igreja quer que procedamos em todas as circunstâncias de nossa vida. Isto supõe um senso católico real, uma pureza de costumes autêntica e completa, uma piedade profunda e sincera. Em outros termos, supõe o sacrifício de uma existência inteira.

E qual é o prémio? Christianus alter Christus. Eu serei de modo exímio uma reprodução do próprio Cristo. A semelhança de Cristo se imprimirá, viva e sagrada, em minha própria alma.

Ah, Senhor, se é grande a graça concedida à Verônica, quanto maior é o favor que a mim me prometeis!

Peço-Vos força e resolução para, por meio de uma fidelidade a toda prova, verdadeiramente o alcançar.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

VII Estação
+ Jesus cai pela segunda vez

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Cair, estirar-se ao longo do chão, ficar aos pés de todos, dar pública manifestação de já não ter força, são estas as humilhações a que Vos quisestes sujeitar, Senhor, para minha lição. De Vós ninguém se condoeu. Redobraram as injúrias e os maus tratos. E enquanto isto vossa graça solicitava em vão, no íntimo daqueles corações empedernidos, um movimento de piedade.

Mesmo neste momento, quisestes continuar vossa Paixão para salvar os homens. Que homens? Todos, inclusive os que ali estavam, aumentando de todos os modos a vossa dor.

Em meu apostolado, Senhor, deverei continuar mesmo quando todas as minhas obras estiverem por terra, mesmo quando todos se conjugarem para atacar-me, mesmo quando a ingratidão e a perversidade daqueles a quem quis fazer bem se voltem contra mim.

Não terei a fraqueza de mudar de caminho para agradá-los. Minhas vias só podem ser as vossas, isto é, as vias da ortodoxia, da pureza, da austeridade. Mas, nos vossos caminhos sofrerei por eles. E unidas as minhas dores imperfeitas à vossa dor perfeita, à vossa dor infinitamente preciosa, continuarei a lhes fazer bem. Para que se salvem, ou para que as graças rejeitadas se acumulem sobre eles como brasas ardentes, clamando por punição. Foi o que fizestes com o povo deicida, e com todos aqueles que até o fim Vos rejeitaram.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

VIII Estação
+ Jesus consola as filhas de Jerusalém

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Não faltaram então almas boas, que percebiam a enormidade do pecado que se praticava, e temiam a justiça divina.

Não presencio eu algum pecado assim? Hoje em dia, não é bem verdade que o Vigário de Cristo é desobedecido, abandonado, traído? Não é bem verdade que as leis, as instituições, os costumes são cada vez mais hostis a Jesus Cristo? Não é bem verdade que se constrói todo um mundo, toda uma civilização baseada sobre a negação de Jesus Cristo? Não é bem verdade que Nossa Senhora falou em Fátima apontando todos estes pecados e pedindo penitência?

Entretanto, onde está essa penitência? Quantos são os que realmente vêem o pecado e procuram apontá-lo, denunciá-lo, combatê-lo, disputar-lhe passo a passo o terreno, erguer contra ele toda uma cruzada de idéias, de atos, de viva força se necessário for? Quantos são capazes de desfraldar o estandarte da ortodoxia absoluta e sem jaça, nos próprios lugares onde pompeia a impiedade, ou a piedade falsa? Quantos são os que vivem em união com a Igreja este momento que é trágico como trágica foi a Paixão, este momento crucial da História, em que uma humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?

Ah, meu Deus, quantos míopes que preferem não ver nem pressentir a realidade que lhes entra olhos a dentro! Quanta calmaria, quanto bem-estar miúdo, quanta pequena delícia rotineira! Quanto saboroso prato de lentilhas a comer!

Dai-me, Jesus, a graça de não ser deste número. A graça de seguir vosso conselho, isto é, de chorar por nós e pelos nossos. Não de um choro estéril, mas de um pranto que se verte aos vossos pés, e que, fecundado por Vós, se transforma para nós em perdão, em energias de apostolado, de luta, de intrepidez.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

IX Estação
+ Jesus cai pela terceira vez

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Estais, Senhor meu, mais cansado, mais depauperado, mais chagado, mais exangue do que nunca. Que Vos espera? Chegastes ao termo? Não. Precisamente o pior está para suceder. O crime mais atroz ainda está para ser praticado. As dores maiores ainda estão por serem sofridas. Estais por terra pela terceira vez e, entretanto, tudo isto que ficou para trás não é senão um prefácio. E eis que Vos vejo novamente movendo este Corpo que é todo ele uma chaga. O que parecia impossível se opera, e mais uma vez Vos pondes de pé lentamente, se bem que cada movimento seja para Vós mais uma dor. Eis-Vos, Senhor, ereto ainda uma vez... com vossa Cruz. Soubestes encontrar novas forças, novas energias, e continuais. Três quedas, três lições iguais de perseverança, cada qual mais pungente e mais expressiva que a outra.

Por que tanta insistência? Porque é insistente nossa covardia. Resolvemo-nos a tomar nossa cruz, mas a covardia volta sempre à carga. E para que ela ficasse sem pretextos em nossa fraqueza, quisestes Vós mesmo repetir três vezes a lição.

Sim, a nossa fraqueza não pode servir-nos de pretexto. A graça, que Deus nunca recusa, pode o que as forças meramente naturais não poderiam.

Deus quer ser servido até o último alento, até a extenuação da última energia, e multiplica nossas capacidades de sofrer e de agir, para que nossa dedicação chegue aos extremos do imprevisível, do inverossímil, do miraculoso. A medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medidas, disse São Francisco de Sales. A medida de lutar por Deus consiste em lutar sem medidas, diríamos nós.

Eu, porém, como me canso depressa! Nas minhas obras de apostolado, o menor sacrifício me detém, o menor esforço me causa horror, a menor luta me põe em fuga. Gosto do apostolado, sim. De um apostolado inteiramente conforme com minhas preferências e fantasias, a que me entrego quando quero, como quero, porque quero. E depois julgo ter feito a Deus uma imensa esmola.

Mas Deus não se contenta com isto. Para a Igreja, quer Ele toda a minha vida, quer organização, quer sagacidade, quer intrepidez, quer a inocência da pomba mas a astúcia da serpente, a doçura da ovelha mas a cólera irresistível e avassaladora do leão. Se for preciso sacrificar carreira, amizades, vínculos de parentesco, vaidades mesquinhas, hábitos inveterados, para servir a Nosso Senhor, devo fazê-lo. Pois que este passo da Paixão me ensina que a Deus devemos dar tudo, absolutamente tudo, e depois de ter dado tudo ainda devemos dar nossa própria vida.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

X Estação
+ Jesus despojado das suas vestes

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Tudo, sim, absolutamente tudo. Até vergonha devemos sofrer por amor de Deus e para a salvação das almas.

Aí está a prova. O Puro por excelência foi despido, e os impuros O escarneceram em sua pureza. E Nosso Senhor resistiu às chacotas da impureza.

Não parece insignificante que resista à chacota quem já resistiu a tantos tormentos? Entretanto, mais esta lição nos era necessária. Pelo desprezo de uma criada, São Pedro negou. Quantos homens terão abandonado Nosso Senhor pelo medo do ridículo! Pois se há gente que vai à guerra expor-se a tiros e morte, para não ser escarnecida como covarde, não é bem exato que há certos homens que têm mais medo de um riso do que de tudo?

O Divino Mestre enfrentou o ridículo. E nos ensinou que nada é ridículo quando está na linha da virtude e do bem.

Ensinai-me, Senhor, a refletir em mim a majestade de vosso Semblante e a força de vossa perseverança, quando os ímpios quiserem manejar contra mim a arma do ridículo.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

XI Estação
+ Jesus pregado na Cruz

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

A impiedade escolheu para Vós, meu Senhor, o pior dos tormentos finais. O pior, sim, pois que é o que faz morrer lentamente, o que produz sofrimentos maiores, o que mais infamava, porque era reservado aos criminosos mais abjetos. Tudo foi aparelhado pelo inferno para Vos fazer sofrer, quer na alma, quer no corpo. Este ódio imenso não contém para mim alguma lição? Ai de mim, que jamais a compreenderei suficientemente se não chegar a ser santo. Entre Vós e o demônio, entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, há um ódio profundo, irreconciliável, eterno. As trevas odeiam a luz, os filhos das trevas odeiam os filhos da luz, a luta entre uns e outros durará até a consumação dos séculos, e jamais haverá paz entre a raça da Mulher e a raça da Serpente... Para que se compreenda a extensão incomensurável, a imensidade deste ódio, contemple-se tudo quanto ele ousou fazer. É o Filho de Deus que aí está, transformado, na frase da Escritura, em um leproso no qual nada existe de são, num ente que se contorce como um verme sob a ação da dor, detestado, abandonado, pregado numa cruz entre dois vulgares ladrões. O Filho de Deus: que grandeza infinita, inimaginável, absoluta, se encerra nestas palavras! Eis, entretanto, o que o ódio ousou contra o Filho de Deus!

E toda a História do mundo, toda a História da Igreja não é senão esta luta inexorável entre os que são de Deus e os que são do demônio, entre os que são da Virgem e os que são da serpente. Luta na qual não há apenas equívoco da inteligência, nem só fraqueza, mas também maldade, maldade deliberada, culpada, pecaminosa, nas hostes angélicas e humanas que seguem a Satanás.

Eis o que precisa ser dito, comentado, lembrado, acentuado, proclamado, e mais uma vez lembrado aos pés da Cruz. Pois que somos tais, e o liberalismo a tal ponto nos desfigurou, que estamos sempre propensos a esquecer este aspecto imprescindível da Paixão.

Conhecia-o bem a Virgem das Virgens, a Mãe de todas as dores, que junto de seu Filho participava da Paixão. Conhecia-o bem o Apóstolo virgem que aos pés da Cruz recebeu Maria como Mãe, e com isto teve o maior legado que jamais foi dado a um homem receber. Porque há certas verdades que Deus reservou para os puros, e nega aos impuros.

Minha Mãe, no momento em que até o bom ladrão mereceu perdão, pedi que Jesus me perdoe toda a cegueira com que tenho considerado a obra das trevas que se trama em redor de mim.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidélium ánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

XII Estação
+ Jesus morre na Cruz

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Chegou por fim o ápice de todas as dores. É um ápice tão alto, que se envolve nas nuvens do mistério. Os padecimentos físicos atingiram seu extremo. Os sofrimentos morais alcançaram seu auge. Um outro tormento deveria ser o cume de tão inexprimível dor: "Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes?" De um certo modo misterioso, o próprio Verbo Encarnado foi afligido pela tortura espiritual do abandono, em que a alma não tem consolações de Deus. E tal foi este tormento, que Ele, de quem os Evangelistas não registraram uma só palavra de dor, proferiu aquele brado lancinante: "Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes?"

Sim, por quê? Por que, se era Ele a própria inocência? Abandono terrível, seguido da morte e da perturbação de toda a natureza. O sol se velou. O Céu perdeu seu esplendor. A Terra estremeceu. O véu do Templo de rasgou. A desolação cobriu todo o universo.

Por quê? Para remir o homem. Para destruir o pecado. Para abrir as portas do Céu. O ápice do sofrimento foi o ápice da vitória. Estava morta a morte. A Terra purificada era como um grande campo desbastado, para que sobre ela se edificasse a Igreja.

Tudo isto foi, pois, para salvar. Salvar os homens. Salvar este homem que sou eu. Minha salvação custou todo este preço. E eu não regatearei mais sacrifício algum para assegurar salvação tão preciosa. Pela água e pelo Sangue que verteram de vosso divino Lado, pela Chaga de vosso Coração, pelas dores de Maria Santíssima, Jesus, dai-me forças para me desapegar das pessoas, das coisas que me possam distanciar de Vós. Morram hoje, pregadas na Cruz, todas as amizades, todos os afetos, todas as ambições, todos os deleites que de Vós me separavam.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidéliumánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

XIII Estação
+ Jesus é descido da Cruz

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

O repouso do Sepulcro Vos aguarda, Senhor. Nas sombras da morte, abris o Céu aos justos do limbo, enquanto na Terra, em torno de vossa Mãe, se reúnem uns poucos fiéis para Vos tributar honras funerárias. Há no silêncio destes instantes uma primeira claridade de esperança que nasce. Estas primeiras homenagens que Vos são prestadas são o marco inaugural de uma série de atos de amor da humanidade redimida, que se prolongarão até o fim dos séculos.

Quadro de dor, de desolação, mas de muita paz. Quadro em que se pressagia algo de triunfal nos cuidados indizíveis com que vosso divino Corpo é tratado.

Sim, aquelas almas piedosas se condoíam, mas algo nelas lhes fazia pressentir em Vós o Triunfador glorioso.

Possa eu também, Senhor, nas grandes desolações da Igreja, ser sempre fiel, estar presente nas horas mais tristes, conservando inabalável a certeza de que vossa Esposa triunfará pela fidelidade dos bons, pois que A assiste a vossa proteção.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidéliumánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen.

XIV Estação
+ Jesus posto no sepulcro

V. Adorámus te Christe et benedícimus tibi.
R. Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum.

Correu-se a laje. Parece tudo acabado. É o momento em que tudo começa. É o reagrupamento dos Apóstolos. É o renascer das dedicações, das esperanças. A Páscoa se aproxima.

Ao mesmo tempo, o ódio dos inimigos ronda em torno do sepulcro e de Maria Santíssima e dos Apóstolos.

Mas Eles não temem. E em pouco raiará a manhã da Ressurreição.

Possa também eu, Senhor Jesus, não temer. Não temer quando tudo parecer perdido irremediavelmente. Não temer quando todas as forças da Terra parecerem postas em mãos de vossos inimigos. Não temer porque estou aos pés de Nossa Senhora, junto da qual se reagruparão sempre, e sempre mais uma vez, para novas vitórias, os verdadeiros seguidores da vossa Igreja.

Pater Noster. Ave Maria. Gloria Patri.
V. Miserére nostri Dómine. R. Miserére nostri.
V. Fidéliumánimae per misericordiam Dei requiéscant in pace. R. Amen

Texto: Plínio Corrêa de Oliveira


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As 7 promessas de Nossa Senhora das Dores

Esta Sexta-Feira antes da Semana Santa é tradicionalmente dedicada a Nossa Senhora das Dores. Nossa Senhora prometeu a Santa Brígida conceder Sete Graças a quem rezar, todos os dias, Sete Avé Marias em honra das suas Dores e Lágrimas:

1) Porei a paz nas suas Famílias.
2) Serão iluminados sobre os Divinos Mistérios.
3) Consolá-los-ei em suas penas e acompanhá-los-ei nas suas aflições.
4) Conceder-lhes-ei tudo o que me peçam contanto que não se oponha à vontade adorável do Meu Divino Filho e à santificação das suas almas.
5) Defendê-los-ei nos combates espirituais contra o inimigo infernal e protegê-los-ei em todos os instantes da vida.
6) Assistir-lhes-ei visivelmente no momento da morte e verão o rosto da Sua Mãe Santíssima. 
6) Obtive do Meu Filho que, os que propaguem esta devoção (às minhas lágrimas e Dores) sejam transladados desta vida terrena à felicidade eterna, directamente, pois ser-lhes-ão apagados todos os seus pecados e o Meu Filho e Eu seremos a sua eterna consolação e alegria.

Oração das 7 Avé Marias

1ª Dor
Pela dor que sofrestes ao ouvir a profecia de Simeão, de que uma espada trespassaria o vosso Coração, Mãe de Deus, ouvi a nossa prece.
Ave Maria...

2ª Dor
Pela dor que sofrestes quando fugistes para o Egipto, apertando ao peito virginal o Menino Jesus, para salvar das fúrias do ímpio Herodes, Virgem Imaculada, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

3ª Dor
Pela dor que sofrestes quando da perda do Menino Jesus por três dias, Santíssima Senhora, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

4ª Dor
Pela dor que sofrestes quando viste o querido Jesus com a Cruz ao ombro, a caminho do calvário, virgem Mãe das Dores, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

5ª Dor
Pela dor que sofrestes quando assististes à morte de Jesus, crucificado entre dois ladrões, Mãe da Divina graça, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

6ª Dor
Pela dor que sofrestes quando recebestes nos vossos braços o corpo inanimado de Jesus, descido da Cruz, Mãe dos Pecadores, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...

7ª Dor
Pela dor que sofrestes quando o Corpo de Jesus foi depositado no sepulcro, ficando vós, na mais triste solidão, Senhora de todos os povos, ouvi a nossa prece.
Avé Maria...


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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Clericalização de leigos e pecados não pregados

De há, talvez, umas décadas a esta parte tem-se verificado, pelo menos nas Dioceses em que estive, uma clara clericalização dos leigos. Muitos, para os considerar empenhados na Igreja, cuidam que teem de assumir tarefas nas paróquias. Esta mentalidade, infelizmente, tem ocupado de uma maneira exagerada os fiéis leigos, chegando ao ponto de desviá-los da missão fundamental a que Deus os chama, a saber, ser fermento no mundo, na família, no trabalho, na vida social, cultural e política, ou seja, em todos os âmbitos da vida temporal. 

Para isso é da maior importância ter uma formação séria e adequada na Doutrina Social da Igreja, tal como é exposta, no compêndio da Doutrina Social da Igreja e na Encíclica O Evangelho da vida.
 
Acresce que há lacunas verdadeiramente graves na formação dos fiéis. De facto, de nada adianta pregar que os fiéis não deverão receber a Sagrada Comunhão em pecado grave, se eles ignoram quais são. Como poderão, aliás, fazer uma boa Confissão Sacramental, se ignoram aquilo que, por amor e justiça verdadeira, lhes devia ter sido ensinado?
 
Há, evidentemente, muitos casos em que poderia exemplificar o que digo; peço licença para vos apresentar somente um que se passou há mais de vinte anos. Sucedeu que um fidelíssimo fiel leigo, membro de há várias décadas de uma eminente associação católica, perguntou-me, aquando de uma consulta popular, se era pecado (grave ou mortal) votar a favor da legalização/liberalização do aborto provocado. Respondi-lhe de imediato que se alguém votasse assim tornar-se-ia moralmente responsável por todos os abortos provocados realizados ao abrigo dessa “lei”. 

Espantou-me, no entanto, a ignorância crassa em matéria de tanta importância. Que importa advertir do púlpito que ninguém deverá comungar se estiver objectivamente em pecado grave, ou mortal, se ninguém sabe ao certo quais eles são?
 
Importa muito pregar sobre os Mandamentos, as virtudes naturais, e as Teologais, bem como os Dons do Espírito Santo. É absolutamente incompreensível essa ausência nas homilias, em particular em relação à virtude da Castidade. De facto, provavelmente, como nos tempos da pastorinha Sta. Jacinta - assim lho revelou Nossa Senhora -, os pecados contra esta virtude serão os que mais almas levam ao Inferno.

Padre Nuno Serras Pereira


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quarta-feira, 6 de abril de 2022

Arrependamo-nos, convertamo-nos

"Arrependamo-nos; convertamo-nos da ignorância ao verdadeiro conhecimento, da loucura à sabedoria, da injustiça à justiça, da impiedade a Deus."

S. Clemente de Alexandria in 'Protréptico', cap. 10


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Levanto-me neste dia que amanhece

Levanto-me, neste dia que amanhece,

Por uma grande força, a invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade,
Pela afirmação da unidade
Do Criador da criação.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do nascimento de Cristo e do Seu baptismo,
Pela força da Sua crucificação e sepultamento,
Pela força da Sua ressurreição e ascensão,
Pela força da Sua descida para o julgamento dos mortos.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do amor dos Querubins,
Em obediência aos Anjos,
A serviço dos Arcanjos,
Pela esperança da ressurreição e do prémio,
Pelas orações dos Patriarcas,
Pelas previsões dos Profetas,
Pela pregação dos Apóstolos
Pela fé dos Confessores,
Pela inocência das Virgens santas,
Pelos actos dos Bem-aventurados.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do céu:
Luz do sol,
Clarão da lua,
Esplendor do fogo,
Pressa do relâmpago,
Presteza do vento,
Profundeza dos mares,
Firmeza da terra,
Solidez da rocha.

Levanto-me, neste dia que amanhece:
Que a força de Deus me dirija,
Que o poder de Deus me ampare,
Que a sabedoria de Deus me guie,
Que o olhar de Deus me vigie,
Que o ouvido de Deus me ouça,
Que a palavra de Deus me faça eloquente,
Que a mão de Deus me guarde,
Que o caminho de Deus me esteja à frente,
Que o escudo de Deus me proteja,
Que o exército de Deus me defenda
Das armadilhas do demónio,
Das tentações do vício,
De todos os que me desejam mal,
Longe e perto de mim,
Agindo só ou em grupo.

Conclamo, hoje, essas forças a protegerem-me do mal,
Contra qualquer força cruel que me ameace o corpo e alma,
Contra a encantação de falsos profetas,
Contra as leis negras do paganismo,
Contra as leis falsas dos hereges,
Contra a arte da idolatria,
Contra feitiços de bruxas e magos,
Contra saberes que corrompem o corpo e a alma.

Cristo guarda-me hoje:
Contra o veneno, contra o fogo,
Contra o afogamento, contra o ferimento,
Para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.

Cristo comigo,
Cristo à minha frente,
Cristo atrás de mim,
Cristo em mim,
Cristo em baixo de mim,
Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita,
Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar,
Cristo ao me sentar,
Cristo ao me levantar,

Cristo no coração de todos a quem eu falar,
Cristo na boca de todos os que me falarem,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade,
Pela afirmação da Unidade,
Pelo Criador da Criação.


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terça-feira, 5 de abril de 2022

Ontem como hoje: Clero traidor

Não temo aos perseguidores da religião, não temo aos ímpios, maçons e ateus. O que temo é a ausência de Fé na maior parte do Clero de França. Trata-se da infidelidade à sua vocação, à sua sublime Missão...

Que faz o Clero de nossos dias para lutar contra as torrentes de males que nos rodeiam, que parte assume na guerra que se faz contra Cristo? Nada. Teme com um temor servil e sua preocupação é cuidar de seus bens materiais, salvaguardar sua honra, seus cargos, seus bens.

O Clero acolheu o Segredo [de La Salette] com soberba; pois este Segredo descobre as chagas que tratam de cobrir com o véu da devoção, toda fingida, toda superficial, enquanto o Segredo levantou uma ponta do véu; então o clero grita como outrora o sumo sacerdote: blasfemou...

O Segredo apenas propõe a observância da Lei de Deus, somente lamenta pela inobservância desta mesma Lei... Por outro lado, por acaso não sabemos que Nosso Senhor foi condenado, foi crucificado pelos Sacerdotes? E hoje em dia de novo, sim, sim são os sacerdotes a causa de nossos males, porque eles não são fiéis à sua vocação.

Mélanie Calvat (vidente de La Salette) in 'Carta ao Pe. Le Baillif' (10/07/1882)


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domingo, 3 de abril de 2022

sábado, 2 de abril de 2022

Uma Missa jamais proibida

A eleição de João Paulo II em 1978 marcou um ponto de viragem na tentativa de tomar de novo as rédeas sobre o rumo que estava a tomar o pós-concílio, ainda que de modo extremamente tímido*. A 18 de Novembro de 1978, um mês depois de sua eleição, por iniciativa do Cardeal Siri, João Paulo II recebia o arcebispo Lefebvre na presença do Cardeal Seper.

1981: O Cardeal Ratzinger toma em mãos a questão litúrgica

A mudança que se seguiu deveu-se em grande parte ao facto de João Paulo II ter chamado a Roma, em 1981, o Arcebispo de Munique, o Cardeal Ratzinger, para lhe confiar aquele que era o cargo de confiança por excelência nesses tempos de grande confusão doutrinal: o de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O Relatório sobre a Fé, que o cardeal publicou em 1985, expôs o seu pensamento no campo teológico e disciplinar, resumido pela palavra "restauração", que devia ser entendida - explicou-o claramente - num quadro conciliar e não com um propósito de “involutivo”. Em todo o caso, pelo menos não expressamente involutivo.

Já nas questões litúrgicas, existia claramente na mente do cardeal uma perspectiva de retorno a um estado anterior. Importa não esquecer que Joseph Ratzinger, ex-perito do Cardeal Frings, Arcebispo de Colónia, uma das figuras proeminentes da maioria conciliar, havia lançado o seu primeiro sinal de alarme em matéria litúrgica numa conferência em Münster, em 1966, onde era então professor, seguindo-se depois outro, nesse mesmo ano, em Bamberg, no Katholikentag (o encontro de católicos alemães organizado a cada dois anos). Atacou o “novo ritualismo” dos especialistas litúrgicos, que haviam substituído os velhos costumes pela fabricação de “formas” e “estruturas” suspeitas, entre as quais, a obrigatoriedade do “virado-para-o-povo”, por exemplo. 

Pela primeira vez na sua vida, o ex-especialista do grupo maioritário do Vaticano II via-se descrito como “conservador” (pelo Cardeal Döpfner). Nomeado professor da Escola Católica da Universidade de Tübingen no final de 1966, assistiu aí ao Maio de 68 à maneira alemã, ou seja, a marxização de uma universidade (Ernst Bloch era então a figura dominante no corpo docente), na qual a Escola Católica passara a seguir em grande parte a teologia da desmitologização de Bultmann.

Em 1969, aceitou o cargo de professor de teologia dogmática e história dos dogmas em Ratisbona, ao mesmo tempo que era nomeado membro da Comissão Teológica Internacional. Foi também em Ratisbona que se veio a tornar amigo do historiador da liturgia Klaus Gamber, que permanecera fiel à missa tradicional. Ali, nas margens do Danúbio, esperava-o um novo choque após o da primeira etapa da reforma e da revolução de 68: o completar-se da reviravolta litúrgica. É certo que muitos aspectos dessa reforma lhe convinham, mas a sua radicalidade parecia-lhe insustentável, escorado como estava neste seu juízo reprovador pelas longas conversas das caminhadas diárias com o seu colega Gamber. “Destruímos o antigo edifício para construir outro”, viria a escrever mais tarde.

Foi nesse momento que se cristalizou o pensamento complexo de Joseph Ratzinger sobre as coisas litúrgicas, o de um centrista fundamentalmente conciliar, mas atento à voz tradicionalista dos seus amigos da universidade, o Professor Klaus Gamber, e mais tardo o Professor Robert Spæmann e o Professor Heinz-Lothar Barth. Foi também em Ratisbona que, em 1977, foi nomeado por Paulo VI, cada vez mais assustado com "a fumaça de Satanás no interior da Igreja", para uma das sedes mais importantes da Alemanha, a de Munique e Freising. João Paulo II viria depois a tirá-lo de lá para o pôr à cabeça da Congregação para a Doutrina da Fé, em 25 de Novembro de 1981.

1982: a ab-rogação do antigo missal posta em questão

Todos se tinham já apercebido da impossibilidade de reduzir a importância a contestação à reforma, tanto doutrinal como litúrgica, por parte de todo um sector da Igreja, cuja figura mais proeminente era a de Mons. Lefebvre, ex-arcebispo de Dacar. João XXIII e Paulo VI, "príncipes esclarecidos", haviam presidido ao processo que punha fim ao modelo tridentino na Igreja Romana. Mas eis que, de repente, o espartilho disciplinar tridentino já não constringia ninguém, mas também não constringia os defensores de Trento, os tradicionalistas.

Não é irrelevante ter noção de que o próprio Annibale Bugnini, exilado como núncio em Teerão, havia enviado uma carta em 1976 ao Cardeal Villot, Secretário de Estado de Paulo VI, na qual propunha que, permanecendo ressalvada a obrigação de princípio da Missa de Paulo VI, a Missa de São Pio V pudesse ser celebrada, sob certas condições e em igrejas específicas, para grupos com dificuldades com o novo Ordo Missæ.

Foi precisamente o que Joseph Ratzinger propôs, uma vez em Roma. Logo em 16 de Novembro de 1982, organizou uma reunião interdicasterial no Palácio do Santo Ofício sobre a questão litúrgica e a questão lefebvrista, na qual participaram: o Cardeal Sebastiano Baggio, Prefeito da Congregação dos Bispos; o Cardeal William W. Baum, Arcebispo de Washington; o Cardeal Agostino Casaroli, Secretário de Estado; o Cardeal Silvio Oddi, Prefeito da Congregação do Clero; o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; e Dom Giuseppe Casoria, Pró-Prefeito da Congregação para o Culto e os Sacramentos. Todos os participantes deste encontro afirmaram que, uma vez que «se podia duvidar da plena validade jurídica da ab-rogação do antigo missal», o «antigo» missal romano deveria ser «admitido pela Santa Sé em toda a Igreja para as missas celebradas em língua latina». Em 1982, ou seja, 25 anos antes do Summorum Pontificum!

1984: Quattuor abhinc annos

No entanto, foi preciso esperar até 1984 para que esta permissão ganhasse forma. Em 19 de abril de 1984, teve lugar uma nova reunião entre os Cardeais Casaroli, Ratzinger e Casoria.

Numa carta de 18 de março de 1984, o Cardeal Casaroli, Secretário de Estado, pedia ao Cardeal Casoria, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que preparasse um decreto nesse sentido, invocando como precedente a permissão concedida por Paulo VI para a Inglaterra e o País de Gales em 1971, precisando que «uma proibição absoluta [do missal anterior] não [poderia] ser justificada nem do ponto de vista teológico nem do ponto de vista litúrgico». Isto veio a resultar na carta circular Quattuor abhinc annos, da Congregação para o Culto Divino, de 3 de outubro de 1984, que concedia aos bispos diocesanos a faculdade de usar um indulto pelo qual os fiéis que o solicitassem pudessem beneficiar da missa celebrada segundo missal romano na sua edição típica de 1962.

O Cardeal Stickler revelaria que o Cardeal Ratzinger organizou ainda uma outra reunião com nove cardeais em 1986, para de novo perguntar se, na sua opinião, a missa tridentina havia sido ou não sido juridicamente ab-rogada: 8 em 9 consideraram que não, mas todos convieram unanimemente em que não se podia impedir um sacerdote de a rezar. Em 1986, ou seja, 21 anos antes do Summorum Pontificum!

Quatro anos depois, após a consagração por Mons. Lefebvre, sem mandato apostólico, de quatro bispos, Monsenhores de Galarreta, Tissier de Mallerais, Williamson e Fellay, a 30 de junho de 1988, era publicado um novo texto: o motu proprio Ecclesia Dei adflicta, de 2 de julho de 1988, em que se determinava que os sacerdotes do rito tradicional podiam criar institutos votados à liturgia tradicional. Além disso, constituía-se aí uma Pontifícia Comissão, a Comissão “Ecclesia Dei”, da qual haviam de depender esses institutos, e que também ficaria encarregue de regular as autorizações dadas pelos bispos para usar o missal tridentino nas respectivas dioceses.

A partir desse ano de 1988, foi-se tornando relativamente grande o número de prelados que começaram a celebrar ocasionalmente o Missal Tridentino, e alguns entre eles logo surgiram como uma espécie de protectores desse modo de celebração. Assim, para falar apenas de cardeais da Cúria, podemos evocar os cardeais Oddi, Palazzini, Stickler, e depois, o próprio Cardela Ratzinger, e ainda os Cardeais Medina, Castrillón, e mais tarde, os Cardeais Burke, Rodé, Ranjith, Cañizares, Cordes, Sarah. É de sublinhar muito especialmente que três deles, Medina, Cañizares e Sarah, foram prefeitos da Congregação para o Culto Divino.

***

Seria ainda necessário esperar dezanove anos para se chegar à promulgação do motu proprio Summorum Pontificum de 7 de Julho de 2007. Sob a pressão duma contestação que não podia ser travada, e que agora já se estendia ao mais alto nível, passo a passo, o legislador acabava por reconhecer que se devia interpretar as prescrições do Missale Romanum de 1969 como não obrigatórias.

* Inspirámo-nos aqui no livro do Padre Claude Barthe, La messe de Vatican II. Dossier historique, Via Romana, 2018, e nas observações que dele decorrem.



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sexta-feira, 1 de abril de 2022

Imagens dos êxtases da Beata Alexandrina

Alexandrina de Balasar, apesar de ser tetraplégica, sofria a Paixão de Cristo às Sextas-Feiras às 3 da tarde. Ficam aqui algumas imagens desses fenómenos sobrenaturais e também das peregrinações à sua terra, Balasar, no Norte de Portugal.  



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