terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Cardeal Roche criticou o Rito Tradicional. Joseph Shaw respondeu.

Durante o recente Consistório, a reunião de Cardeais em Roma, o Cardeal Arthur Roche, Prefeito do Dicastério para o Culto Divino, distribuiu aos presentes uma folha de papel, frente e verso, contendo algumas reflexões sobre a liturgia. A liturgia figurara entre os quatro temas inicialmente propostos para discussão na reunião, mas os Cardeais decidiram concentrar‑se apenas em dois, deixando de fora a liturgia. O texto do Cardeal Roche foi, portanto, distribuído sem ser formalmente debatido.

Existiam versões em italiano e em inglês. Esta última foi claramente traduzida a partir da primeira, e não de modo impecável: a palavra italiana "sintonia", que significa “harmonia”, foi vertida por “syntony” (parágrafo 4). É surpreendente que um Cardeal inglês não tenha dado por esta calinada, e isto sugere que não foi ele próprio a redigir o documento.

O argumento do texto não é difícil de resumir. Em primeiro lugar, apresenta um argumento histórico segundo o qual a liturgia se desenvolveu frequentemente: “A história da liturgia … é a história da sua contínua ‘reforma’ num processo de desenvolvimento orgânico.”

Isto é ligado, em segundo lugar, à autoridade do Concílio Vaticano II, a pedido do qual a liturgia foi reformada.

Em terceiro lugar, o texto repete, com ilustrações da época do Papa Pio V, do Concílio Vaticano II, do Papa Bento e do Papa Francisco, a afirmação de que a unidade litúrgica é necessária para a unidade da Igreja.

Como contribuição para o debate desencadeado pela Carta Apostólica do Papa Francisco que restringe a Missa Tradicional, Traditionis custodes, isto representa um reforço da linha já assumida, e não uma tentativa de dialogar com os críticos.

O ponto central do argumento é o terceiro ponto acima: como o texto cita o Papa Francisco, “Por este motivo escrevi o Traditionis custodes, para que a Igreja possa elevar, na variedade de tantas línguas, uma e a mesma oração capaz de exprimir a sua unidade.” As palavras “uma e a mesma oração” são tiradas da Constituição Apostólica Missale Romanum (1969) do Papa Paulo VI.

Esta afirmação tem sido constantemente confrontada com a questão da legítima diversidade de ritos na Igreja. E os Ritos Orientais? E os diferentes ritos ocidentais reformados depois do Vaticano II, como os Ritos Ambrosiano, Cartuxo e Mozárabe? E as formas litúrgicas mais recentes, como o Uso do Ordinariato, o Rito Congolês e o novo uso aprovado, tão recentemente como 2024, para um grupo de indígenas numa única diocese no México?

No texto citado, o Papa Francisco dá a entender que a Missa Tradicional impede de algum modo essa possibilidade de elevar uma e a mesma oração em toda a Igreja. Ao pé da letra percebe‑se porque é que isto poderia ser assim. Mas, se há uma explicação para o facto de isto ser verdade neste rito e não em todos os outros, essa explicação não nos é fornecida neste texto.

Não é, de facto, surpreendente que a Igreja pós‑conciliar tenha tolerado uma variedade de ritos e usos religiosos, uma vez que o Concílio ensinou que estes não comprometem, na realidade, a unidade da Igreja. Ele exortou as Igrejas Orientais em comunhão com a Santa Sé a “regressarem às suas tradições ancestrais”: por outras palavras, deveriam pôr em marcha atrás o processo de “latinização” que tinha levado a uma convergência gradual dos seus ritos com os do Ocidente (Orientalium Ecclesiarum, 6). Quanto ao próprio Ocidente, a Sacrosanctum Concilium insiste em que “a Igreja não deseja impor uma rígida uniformidade” (37).

Se as palavras do Papa Paulo VI sobre “uma e a mesma oração” parecem estranhas neste contexto, é porque foram ao mesmo tempo mal traduzidas e retiradas do contexto. A tradução da Constituição Apostólica no sítio do Vaticano dá a expressão mais exacta “uma oração única” (una eademque cunctorum precatio). Dado que o latim fora defendido por alguns como garantia de unidade, o Papa Paulo está a sublinhar que, apesar das diferentes línguas a serem doravante usadas, a Missa continua a ser a Missa: é uma oração única que une a Igreja apesar da variedade litúrgica. Na realidade, ele está a dizer precisamente o contrário daquilo que lhe é atribuído na citação feita pelo Papa Francisco.

O truque utilizado para fazer funcionar este argumento tem paralelos com as outras etapas do raciocínio. É‑nos dito que a reforma do Vaticano II teve precedente na “reforma parcial” do Concílio de Trento, e mesmo em anteriores “reformas franco‑germânicas” e outros casos, mas em nenhum destes exemplos houve uma reescrita total dos textos litúrgicos. Em vez disso, nessas “reformas”, os textos encontrados num missal antigo eram privilegiados em relação às versões encontradas noutros missais, que se consideravam menos fidedignos.

De modo semelhante, o argumento segundo o qual a autoridade do Concílio Vaticano II garante os resultados dos reformadores litúrgicos ignora o facto de o Concílio não ter mandado todas as coisas que os reformadores fizeram: tal coisa teria sido, evidentemente, impraticável. Há também o incómodo facto de os reformadores terem na prática contrariado alguns dos princípios estabelecidos pelo Concílio na Sacrosanctum Concilium. O caso mais conhecido é o do parágrafo 36.1: “o uso da língua latina deve ser conservado nos ritos latinos”. O parágrafo 23 é, porém, ainda mais devastador: “não haja inovações, a não ser que o bem da Igreja o exija de modo genuíno e certo”. É uma das ironias da história que os Padres conciliares tenham acrescentado a palavra “certo”, certa (no texto original em latim), a uma versão anterior deste parágrafo, tentando travar um processo que rapidamente haveria de sair seriamente fora de controlo.

O texto do Cardeal Roche não procura responder às objecções levantadas pelos críticos de Traditionis custodes. Este texto não é uma tentativa de entrar num debate, mas, por assim dizer, de afastar o debate simplesmente insistindo numa narrativa histórica e teológica que sustentaria a supressão da Missa Tradicional. Sobre aqueles cardeais, provavelmente a grande maioria, que não sabem muito sobre a história da liturgia, isto poderá muito bem produzir o efeito desejado. Cumpre esperar que, antes de os cardeais oferecerem o seu parecer sobre este assunto ao Papa Leão, tenham a oportunidade de ouvir uma resposta completa.

Joseph Shaw, Presidente da Federação Internacional Una Voce


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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Vários Cardeais comentam o Consistório

O 'The Catholic Herald' cita vários Cardeais, a maioria falando sob anonimato, que se pronunciaram sobre o Consistório extraordinário de 7 e 8 de Janeiro, em Roma:

Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Jerusalém: “Reforma não é uma linguagem da Igreja. Na Igreja não há reformas. Devemos reflectir sobre a nossa missão e vocação segundo os tempos, mas fiéis às raízes e à missão da Igreja.”

Cardeal Frank Leo, Toronto: “Não creio que o Colégio Cardinalício esteja dividido de forma alguma.”

Arcebispo Anders Arborelius, Estocolmo, sobre a liturgia: “Espero que possamos encontrar um compromisso.”

Outro Cardeal: “Alguns amigos do Papa Francisco falaram de uma nova Igreja e de uma mudança absoluta.”

Cardeal conservador, anónimo: “Todo este estilo sinodal não faz sentido para mim. Não compreendo os homens inteligentes que escrevem incessantemente sobre o assunto.”

Cardeal progressista, anónimo: “Estar sentados em torno de mesas, em vez de voltados para líderes à frente, é um sinal brilhante de colegialidade.”

Um Cardeal conservador sugeriu, acerca dos consistórios, “fazê-los por Zoom ou algo do género para poupar dinheiro”.

Cardeal conservador, anónimo: “Estava tudo muito controlado. Um cardeal chegou mesmo a chamá-lo de ‘escola secundária’.”

Outro Cardeal conservador: “Houve tempo para as intervenções livres, mas foram muito, muito curtas. Penso que as chamadas intervenções livres não eram livres, mas sim intervenções impostas.”

Cardeal europeu, antigo membro da Cúria, anónimo: “Falámos durante três horas, não? Mas, no fim, ninguém levou em conta a nossa opinião.”

Cardeal africano sobre a ideia do Sínodo: “Poderia tornar-se num grupo de pressão de leigos, sacerdotes, talvez até de bispos e cardeais.”

in gloria.tv


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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Centenas de "Sacerdotes" Anglicanos Converteram-se ao Catolicismo

Os Bispos católicos ficaram surpreendidos com a dimensão do êxodo, motivado, em parte, pela ordenação de mulheres na Igreja de Inglaterra.

Várias centenas de "sacerdotes" e mais de uma dúzia de "bispos" abandonaram o anglicanismo para se converterem ao catolicismo nas últimas três décadas, num 'surto' impulsionado em parte pela decisão de permitir a ordenação de mulheres na "Igreja" de Inglaterra, segundo um estudo recente.

Os números são “muito maiores do que a maioria das pessoas imaginaria”, afirmaram os analistas, constatando que quase um terço de todos os sacerdotes católicos ordenados em Inglaterra e no País de Gales desde 1992 são convertidos provenientes do anglicanismo.

Os investigadores afirmaram que os dados surpreenderam até os próprios Bispos católicos, que não se haviam apercebido da verdadeira dimensão das conversões.

Desde 1992 — o ano em que o Sínodo Geral da "Igreja" de Inglaterra votou a favor de permitir o acesso das mulheres ao sacerdócio — cerca de 700 "sacerdotes" anglicanos e membros de ordens religiosas anglicanas de Inglaterra, País de Gales e Escócia tornaram-se católicos.

Também houve 16 "bispos" anglicanos que fizeram a transição, muitas vezes após a reforma.

in complicitclergy.com


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Os Cardeais evitaram o assunto-chave no Consistório: a ajuda não vem a caminho

Ontem, num artigo cautelosamente optimista sobre a reunião desta semana do Colégio de Cardeais, observei que “é difícil imaginar como é que o consistório poderia discutir a liturgia sem imediatamente levantar o tema mais controverso dentro desse âmbito: a supressão da Missa Tradicional em Latim ao abrigo da Traditionis Custodes.
Pois bem, os Cardeais conseguiram desfazer as minhas esperanças imediatamente. Ainda antes de os meus comentários serem publicados, já tinham votado retirar o tema da liturgia da ordem de trabalhos do consistório. Em vez disso, a reunião de dois dias irá concentrar-se principalmente em… preparemo‑nos… sinodalidade.

Sinodalidade: o mesmo tema que foi discutido nas duas últimas assembleias do Sínodo dos Bispos. O mesmo tema que foi tratado num número sem precedentes de reuniões preparatórias, nas quais católicos que trabalham para a Igreja falaram entre si sobre como alargar as suas conversas. Sinodalidade: um tema que tem dominado por completo as conversas nos meios eclesiásticos há já vários anos, sem que daí tenha resultado qualquer compreensão clara do que a palavra significa.

Quando se encontra com os outros paroquianos depois da Missa de Domingo, dá por si a notar que a conversa deriva para a sinodalidade? Eu também não. Não é um tema de que os católicos comuns e fiéis falem. No entanto, tornou‑se o assunto preferido — quase obsessivo — nas conversas entre os responsáveis eclesiásticos.

Os leitores que acompanham os meus escritos há tempo suficiente hão‑de lembrar‑se de que, quando o Papa Francisco foi eleito, a minha primeira reacção foi entusiástica. Fiquei entusiasmado com a sua rejeição de um modelo “auto‑referencial” de Igreja — um modelo em que os responsáveis eclesiásticos dedicavam a sua atenção e energia a programas e problemas internos, em vez de à administração dos sacramentos e à difusão do Evangelho. Infelizmente, o seu pontificado foi uma traição a essa promessa, produzindo uma abordagem ainda mais “auto‑referencial”, que não se manifestou em parte alguma de modo tão evidente como na obstinada perseguição da sinodalidade.

De todos os temas que os Cardeais poderiam ter escolhido, ao procurarem aconselhar o Papa Leão na sua orientação da Igreja universal, como pôde a sinodalidade chegar ao topo da lista? Não se preocupam os Cardeais com a deserção generalizada dos jovens em relação à fé — ou, se adoptarem a atitude do “copo meio cheio”, não estão ansiosos por compreender os recentes sinais de um novo interesse pelo catolicismo nessa mesma geração emergente? Não se inquietam com o colapso das famílias, das sociedades e até dos próprios Estados‑nação? Com o desafio do Islão? Com a toxicodependência, o suicídio, o niilismo e o ressurgimento do paganismo? Mais importante ainda, não reconhecem a importância primordial da celebração da Eucaristia, “fonte e ápice da vida cristã”?

Aliás, o consistório também retirou da sua agenda uma proposta de discussão de 'Praedicate Evangelium' e da reforma da Cúria Romana. Na medida em que os Cardeais estão a aconselhar o Pontífice sobre o seu cuidado da Igreja Universal, e na medida em que a Cúria existe para servir as Igrejas locais, é evidente que os Cardeais — que interagem regularmente com os ofícios da Cúria, se é que não servem neles — hão‑de ter opiniões esclarecidas sobre o assunto. As mudanças iniciadas pelo Papa Francisco estão a produzir uma verdadeira reforma, ou apenas mais uma rearrumação do organograma? O consistório também escolheu não abordar essa questão.

Oh, os Cardeais podem ainda abordar esses outros temas, se assim o quiserem. “Um tema não exclui outro”, assegurou aos jornalistas Matteo Bruni, director da Sala de Imprensa da Santa Sé. “Pode encontrar‑se um modo de os abordar dentro dos outros.” Assim, um Cardeal determinado poderá ainda levantar questões sobre a liturgia. Mas o consistório já decidiu que não será um tema principal. Não mudem de assunto: sinodalidade!

No seu discurso à sessão de abertura, o Papa Leão disse aos Cardeais: “Não devemos chegar a um texto, mas continuar uma conversa.” Parece que a tradução vaticana do seu discurso não é exacta; talvez fosse melhor verter assim: “Não precisamos de chegar a um texto…” Mas o deslize na tradução é revelador; tal como está, a afirmação do Papa sugere que o objectivo do consistório não é chegar a qualquer conclusão clara, não é fixar uma orientação nítida. Se assim for, então este consistório não é uma reunião para resolver problemas, não é uma reunião orientada para a acção, mas uma reunião auto‑referencial.

E, no entanto, nesse mesmo discurso o Papa apontou para além dos limites do Salão do Sínodo, para além das trocas entre prelados, para lhes recordar:

«Além disso, não é a Igreja que atrai, mas Cristo; e, se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque através desse “canal” corre a linfa vital da caridade que jorra do Coração do Salvador.»

Há uma esperança para o futuro da Igreja expressa de modo tão simples e claro nesta formulação da Fé cristã fundamental, centrada em Cristo. Esta é uma mensagem que o mundo precisa de ouvir, uma mensagem que o mundo pode compreender.

Quanto à “sinodalidade”, se depois de todos estes anos de palavreado os responsáveis da Igreja ainda não chegaram a uma compreensão comum do que ela significa — e, no entanto, persistem na discussão inflexível do tema — alguém poderia ser perdoado por concluir que afinal a tradução vaticana estava correcta e que o objectivo do consistório é não falar com clareza.

Phill Lawler in pflawler.substack.com


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Bênção das casas depois da Epifania

Ontem, dia 6, foi o dia da Epifania, uma das solenidades mais importantes do ano litúrgico. A Epifania, que significa manifestação, é uma das solenidades mais importantes do ano litúrgico. Neste dia a Igreja celebra as manifestações divinas de Jesus, em particular a adoração dos Reis Magos, o baptismo de Jesus no rio Jordão e o primeiro milagre público de Jesus, nas bodas de Caná.

A esta Solenidade desde muito cedo se associou o louvável costume de abençoar ouro, incenso e mirra, e giz. Este último é usado para abençoar a casa dos fiéis. No ritual da bênção marca-se, por cima da porta da casa, do lado exterior, a seguinte inscrição com giz abençoado: 20+C+M+B+25.

O 20 e o 26 representam 2026, o ano em que nos encontramos. O “C M B” representam “Christus Mansionem Benedicat” – Cristo Abençoe esta Casa, e cada letra é intercalada com uma cruz.

A sigla CMB significa também o nome dos 3 Reis Magos: Gaspar, Melchior e Baltasar.

Bênção do Giz (feita pelo sacerdote)

V. Adiutorium nostrum in nomine Domini.
R. Qui fecit caelum et terram.

V. Dominus vobiscum. 
R. Et cum spiritu tuo. 

Bene+dic, Domine Deus, creaturam istam cretae: ut sit salutaris humano generi; et praesta per invocationem nominis tui sanctissimi, ut, quicumque ex ea sumpserint, vel ea in domus suae portis scripserint nomina sanctorum tuorum Gasparis, Melchioris et Baltassar, per eorum intercessionem et merita, corporis sanitatem, et animae tutelam, percipiant. Per Christum Dominum nostrum. R. Amen 

Com o giz abençoado, um membro da Família, normalmente o Pai, faz a inscrição do texto na parte superior das portas: 20+C+M+B+26.


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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Bênção da Água na Vigília da Epifania

Neste dia da vigília da Epifania é feita a tradicional bênção da água. Existe uma ligação a este ritual e à água do Jordão, onde Nosso Senhor Jesus Cristo foi baptizado por São João Baptista - cerimónia que é (também) comemorada no dia da Epifania. A bênção da água foi usada durante muitos séculos no rito oriental até que, no séc. XIX, foi permitida pela Sacra Congregação para os os Ritos para ser feita em rito romano.

É uma bênção bastante longa, com vários salmos, orações, ladainha dos santos, muitos exorcismos, aspersão de água benta sobre o povo e termina com o Te Deum. Fica aqui a transcrição de parte dos exorcismos:

Em nome de nosso Senhor Jesus + Cristo e pelo seu poder, expulsamo-vos, todo o espírito imundo, todo o poder diabólico, todo o assalto do adversário infernal, toda a legião, todo o grupo e seita diabólicos; retirai-vos e permanecei longe da Igreja de Deus, de todos os que foram feitos à imagem de Deus e remidos pelo preciosíssimo sangue do divino + Cordeiro. Nunca mais ouseis, serpente astuta, enganar o género humano, perseguir a Igreja de Deus, nem ferir os eleitos de Deus e peneirá-los como + trigo. Porque é o Deus Altíssimo que vos ordena, + Ele, a quem outrora, no vosso grande orgulho, vos considerastes iguais; Ele que deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Deus Pai + vos ordena. Deus Filho + vos ordena. Deus Espírito + Santo vos ordena. A majestade de Cristo, o Verbo eterno de Deus feito carne + vos ordena...

Portanto, dragão maldito e toda legião diabólica, conjuramo-vos pelo Deus + vivo, pelo Deus + verdadeiro, pelo Deus + santo, pelo Deus que tanto amou o mundo que entregou o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna; cessai de enganar o género humano e de lhe dar a beber o veneno da condenação eterna; deixai de prejudicar a Igreja e de tolher a sua liberdade. Retira-te, Satanás, pai e mestre da mentira e inimigo do género humano. Cede lugar a Cristo, em quem não encontraste nenhuma das tuas obras; cede lugar à Igreja una, santa, católica e apostólica, que o próprio Cristo adquiriu com o Seu sangue. Sejas abatido sob a poderosa mão de Deus. Treme e foge ao invocarmos o santo e tremendo nome de Jesus, diante do qual o inferno estremece...


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domingo, 4 de janeiro de 2026

Festa do Santíssimo Nome de Jesus

O próprio Deus revelou o Nome a ser imposto ao Verbo Encarnado, para significar a sua missão de Salvador do género humano. É um nome grande e eterno, poderoso e terrível, vitorioso e misericordioso, o único que nos pode salvar. É melodia para o ouvido, cântico para os lábios e alegria para o coração... “Ilumina, conforta e nutre; é luz, remédio e alimento” (São Bernardo).

A devoção ao Santíssimo Nome de Jesus, já arraigada na Igreja desde o seu início, foi pregada e inculcada de modo particular por São Bernardo, por São Bernardino de Sena (Franciscano) e pelos Franciscanos, os quais difundiram pequenos quadros trazendo as letras do Nome de Jesus.

História e significado do Santo Nome

No caminho para a capela na qual São Filipe orava, em Monte Spaccato, percebem-se algumas inscrições reproduzidas na pedra ao lado do atalho: círculos com a inscrição YHS. Elas foram reproduzidas pelo próprio São Bernardino, pois era sua missão proclamar o Nome de Jesus, e foi daquela forma que ele abreviou o Nome Santo, embora outros o tenham substituído pela forma mais familiar IHS. 

O nome “Jesus Cristo” foi-nos dado em grego, e pode ser escrito em letras maiúsculas gregas deste modo: IHCOYC XPICTOC Durante séculos, a forma padrão de abreviar este nome foi usar simplesmente a primeira e a última letras, IC XC, como se encontra na maioria dos ícones orientais. São Bernardino, no começo do século XV, mudou tudo, escolhendo usar as duas primeiras letras com a última, portanto IHC e XPC. A letra grega “c” é na verdade um “s”, então era natural escrever IHS XPS, forma na qual o Nome Santo se tornou muito familiar. 

Mas por que São Bernardino quis inserir o “h” (que é, na verdade, um “e”)? E por que mudar o “i” em “y”, uma letra não usada em italiano nem em latim? A resposta é que estudiosos cristãos cabalísticos deram atenção ao facto de que o Nome de Jesus, na sua forma original hebraica, contém as quatro letras no Nome Impronunciável de Deus revelado no Antigo Testamento. Com o acréscimo de duas letras hebraicas extras, torna-se pronunciável o Nome Impronunciável. O Nome revelado a Moisés no Êxodo (Ex 3) é apropriadamente escrito apenas com consoantes, YHWH. De acordo com uma tradição de 3.000 anos, não é permitido tentar pronunciá-lo, e ninguém realmente saberia como fazê-lo, mesmo se pudesse ser feito. Isso porque o Nome, YHWH, não é simplesmente um nome como outro qualquer: ele tem um significado, que é: o nosso Deus é Aquele que É, o único Ser essencial, o “fundamento do nosso ser”. 

Nós apenas existimos por causa Dele. O Nome Inefável expressa que: Ele É e Ele Será. Revelando o Seu Nome a Moisés, Deus revelou algo absolutamente essencial sobre Ele e sobre a Sua relação com o Seu povo. Os deuses de outras nações têm nomes comuns como qualquer pessoa, Moloch ou Astarte, Diana ou Baco. Estes nomes dizem-nos algo sobre as pessoas que os usam, mas não muito... São realmente nomes comuns que muitas pessoas poderiam usar, o próprio São Paulo mesmo enumerou um Apolo e um Dionísio entre seus amigos.

O Nome de Deus é diferente. Mas, o Nome tornou-se um nome humano, pelo acréscimo das letras hebraicas ‘shin’ e ‘ain’ às quatro originais, produzindo Yehoshuwah; a forma hebraica do nome que conhecemos por JESUS. Assim o Nome Divino se torna um nome humano, o inacessível e impronunciável se torna próximo e familiar. Assim Deus se torna um de nós, e o Nome realmente é “Emanuel – Deus connosco”.

A São José é dado o tremendo privilégio de Lhe dar o Nome: “Ela dará a luz um filho e tu lhe porás o nome de Jesus”. Assim fazendo, São José transfere para a criança a plenitude da rica herança de Israel, tornando Nosso Senhor o herdeiro de todos os nomes que lemos nas genealogias de Mateus e Lucas.

O Nome é dado novamente por Pôncio Pilatos, pela forma hebraica da inscrição na Cruz, usando as quatro letras do Nome Divino como as iniciais das quatro palavras: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus: Yeshu Ha-Nozri, WaMelek Ha Yehudim. Não é de se admirar que os chefes dos sacerdotes tivessem ficado tão preocupados com tal inscrição! (Jo 19,19-22) Pois Pilatos, de improviso, escreveu – e para todo o mundo ver! – que o seu galileu crucificado é o Deus eterno, o Criador, assim como o Redentor do Mundo! A devoção Nós não podemos pronunciar o Nome do Êxodo, mas nós podemos, e devemos, pronunciar o Nome de Jesus, como São Paulo e todos os escritores espirituais subsequentes enfatizaram.

São Bernardino de Sena, como todos os grandes pregadores, não estavam a ensinar algo novo, mas lembrar aos seus ouvintes o que eles já deveriam ter plena consciência. Ao pregar, ele costumava segurar uma pequena prancheta de madeira, na qual o monograma IHS que ele privilegiava, era circundado por doze raios de luz, e ele encorajava “cada joelho a se dobrar” perante o monograma. A devoção ao Nome Santo espalhou-se pela Europa com rapidez surpreendente. Em 1432, o Papa Eugénio IV emitiu uma Bula promovendo a devoção ao símbolo IHS escrito.

A devoção popular levou à composição de um Ofício do Nome Santo, e ao estabelecimento de um dia comemorativo.

Em Camaiore di Luca (Itália) começou-se a celebrar a festa, depois de aprovada para a Ordem dos Franciscanos (1530) e sob o pontificado de Inocêncio XIII (1721), estendida a toda a Igreja.

O dia da festa variou através dos séculos, mas muitos o lembram como o domingo depois do Natal, até 1969, quando foi suprimido. O Santo Padre João Paulo II, na mais recente edição do Missal Romano, restabeleceu a Festa do Santíssimo Nome de Jesus no dia 3 de Janeiro.

Para os Franciscanos esta devoção continua muito forte. Em muitos conventos, pelo mundo fora, se vê nas portas das "celas" - quartos - cópias destas placas difundidas por s. Bernardinho de Sena e depois "aproveitadas" pela Companhia de Jesus na sua missão evangelizadora.

Termino com palavras, à guiza de oração - do próprio S. Bernardino de Sena:

"Ó nome glorioso, gracioso, amoroso e animoso! Por ti se perdoam todos os pecados, se vence o inimigo, se curam os enfermos e nas adversidades se encorajam e consolam os que sofrem. Tu és a glória dos que crêem, o mestre dos que pregam, a força dos que trabalham, o remédio dos que estão em necessidade.

Ao calor e fervor do teu fogo, os bons desejos encandescem; as orações que se fazem têm bom despacho; as almas contemplativas se arroubam; e sumamente se alegram os que já triunfam no paraíso. Com os quais, por este vosso santíssimo Nome, fazei que reinemos, ó dulcíssimo Jesus."

O mês de Janeiro é dedicado ao Santo Nome de Jesus. Através dessa devoção, a Igreja recorda-nos o poder do Nome de Cristo. A oração abaixo deve ser dita como uma devoção, e esperança de obter graças pelos méritos de Jesus, pode ser rezada enquanto executamos nossas tarefas automáticas, para evitar pensamentos inutéis é bom criar o habito da oração e adoração.

in Pale Ideas


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sábado, 3 de janeiro de 2026

Traditiones Custodes partiu o coração de Bento XVI

Mons. Georg Gänswein, secretário do Papa Bento, disse que o Papa sofreu um rude golpe com a publicação do motu proprio Traditiones Custodes, que veio limitar/perseguir a Missa Tradicional. Disse ainda que aquele documento, publicado em Julho de 2021, partiu o coração de Bento XVI.
 
Há décadas que o Papa Bento criticava a perseguição aos sacerdotes e fiéis que querem ter acesso à Liturgia Antiga. Quando foi eleito Papa publicou o motu proprio Summorum Pontificum, que procurou trazer alguma liberdade e acabar com a guerra litúrgica dentro da Igreja.

Apesar de ter sido desprezado por parte relevante do episcopado, aquele documento gerou muitos frutos espirituais, conversões, etc que continuam a fazer-se sentir.

Bento XVI será sempre o Papa do Summorum Pontificum. Deo gratias!


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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Considerações sobre o Tempo

Não tenho tempo para nada, é lamento que inúmeras vezes me sai. No entanto não se pode dizer que não faça nada. Mas o que faço, faço-o sem tempo. E como, creio eu, o tempo acaba por ser a medida de todas as coisas, as coisas sem tempo não se podem medir. É como se não existissem.

É paradoxal que tenha sido no tempo finito que a Eternidade infinita Se revelou. Isso diz muito do tempo. O próprio tempo é resgatado da sua finitude, e como que enxertado naquele que não tem ocaso. Como o homem. Um homem sem tempo é um homem sem eternidade.

No Salmo 90 cantamos: "Senhor, Tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração(…)Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria de coração".

O tempo da nossa vida precisa de voltar a tornar-se sagrado, de voltar ao ritmo das horas litúrgicas, de voltar a parar ao toque das Avé-Marias, de voltar a ser marcado pela passagem das estações e das festas populares e dos santos.

O nosso tempo tornou-se informe, a nossa vida por isso disforme.

Os avanços tecnológicos, longe de nos pouparem tempo para o ócio que é raiz da nossa civilização, transformaram-nos em máquinas insensíveis e insensatas que correm sem origem e sem destino, com uma única finalidade: a de não parar.

Há uma tendência no homem para a mudança; mas noutro tempo desejavam essa mudança para se aproximarem d’Aquele que não muda, ao passo que hoje querem mudar para se adaptar ao que muda continuamente.

Vamos assim perdendo os laços que o tempo foi construindo e que nos atavam ao nosso lugar e à nossa gente. Ao nosso Deus.

Sem tempo não há raiz que se afunde e que se estenda, perdendo-se o alimento austero mas amoroso que sempre dela corria. Vivemos numa época, como dizia Saint-Exupery, em que o homem morre de sede. E escreveu também: “É belo o movimento que nos leva a alcançar as nossas metas, mas também o é a imobilidade, a estabilidade do património, esse lento costume chamado religião que pouco a pouco dá cor a todas as coisas. É preciso repouso para que a alma se nutra, e o sermão da montanha seja escutado através dos séculos. A mobilidade não é outra coisa que ausência.”

As antigas formas da sociedade, ao impregnar de sagrado quase todas as manifestações da vida temporal, tornavam o tempo permeável ao eterno e a Deus presente na história (Gustave Thibon).Um homem com tempo contempla. E a contemplação leva-nos inevitavelmente a Deus, onde está a nossa origem, onde está o nosso fim.

John Senior– um Pai espiritual que aconselho vivamente nesta época em que tão órfão nos sentimos - deixou dito: “há qualquer coisa de destrutivo – destrutivo do próprio humano – no separar-nos da terra de onde provimos e das estrelas, dos anjos e do próprio Deus para onde vamos”.

Naquele tempo onde havia tempo, era possível que florescesse o amor pela pátria e pela família. Um amor que demorou e que durou séculos. Um amor com tempo que permitia ir fazendo uma casa para várias gerações, que fecundava uma terra onde as nossas raízes se podiam nutrir e espraiar.

Precisamos, meus amigos, de recriar pacientemente e de novo este tempo. Parece-me ser a principal missão de quem, com todo o tempo, tem a dita de participar nestes demorados e tão bem preparados almoços mensais.

Ante os conservadores que criam obstáculos ao futuro e aos progressistas que renegam o passado, devemos ser antes de mais homens do eterno – como mo revelou Gustave Thibon, um outro mestre que descobri neste ano que passou -, os homens que renovam, a partir duma fidelidade atenta e incessante, todos os dias posta à prova e todos os dias renascida, aquilo que há de melhor no passado.

Assim podemos viver no tempo todo, passado, presente e futuro, experimentando a Eternidade onde queremos chegar.

Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio

Pedro de Castro Pernas


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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Hino para ser cantado no início de ano: Veni Creator Spiritus

Veni, Creator Spiritus,
mentes tuorum visita,
imple superna gratia
quae tu creasti pectora.

Qui diceris Paraclitus,
altissimi donum Dei,
fons vivus, ignis, caritas,
et spiritalis unctio.

Tu, septiformis munere,
digitus paternae dexterae,
Tu rite promissum Patris,
sermone ditans guttura.

Accende lumen sensibus:
infunde amorem cordibus:
infirma nostri corporis
virtute firmans perpeti.

Hostem repellas longius,
pacemque dones protinus:
ductore sic te praevio
vitemus omne noxium.

Per te sciamus da Patrem,
noscamus atque Filium;
Teque utriusque Spiritum
credamus omni tempore.

Deo Patri sit gloria,
et Filio, qui a mortuis
surrexit, ac Paraclito,
in saeculorum saecula.

Amen.


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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Te Deum de acção de graças por 2025

Te Deum laudámus: te Dóminum confitémur. Te ætérnum Patrem, omnis terra venerátur.Tibi omnes ángeli, tibi cæli et univérsæ potestátes: tibi chérubim et séraphim incessábili voce proclámant: Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dòminus Deus Sábaoth. Pleni sunt cæli et terra maiestátis glóriæ tuæ.

Te gloriósus apostolórum chorus, te prophetárum laudábilis númerus, te mártyrum candidátus laudat exércitus. Te per orbem terrarum sancta confitétur Ecclésia, Patrem imménsæ maiestátis; venerándum tuum verum et únicum Filium; Sanctum quoque Paráclitum Spíritum.

Tu rex glòriæ, Christe. Tu Patris sempitérnus es Filius. Tu, ad liberándum susceptúrus hóminem, non horrúisti Virginis úterum. Tu, devícto mortis acúleo, aperuísti credéntibus regna cælórum. Tu ad déxteram Dei sedes, in glória Patris. Iudex créderis esse ventúrus.


Te ergo quǽsumus, tuis famulis súbveni, quos pretiòso sanguine redemísti. Ætérna fac curo sanctis tuis in glória numerári. Salvum fac pópulum tuum, Dómine, et bénedic hereditáti tuæ. Et rege eos, et extólle illos usque in ætérnum. Per síngulos dies benedícimus te; et laudámus nomen tuum in sǽculum, et in sǽculum sǽculi.



Dignáre, Dómine, die isto sine peccáto nos custodíre. Miserére nostri, Dómine, miserére nostri. Fiat misericórdia tua, Dómine, super nos, quemádmodum sperávimus in te. In te, Dómine, sperávi: non confúndar in ætérnum.
Nós Vos louvamos, ó Deus, nós Vos bendizemos, Senhor. Toda a terra Vos adora, Pai eterno e omnipotente. Os Anjos, os Céus e todas as Potestades, os Querubins e os Serafins Vos aclamam sem cessar: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo, o céu e a terra proclamam a vossa glória.


O coro glorioso dos Apóstolos, a falange venerável dos Profetas, o exército resplandecente dos Mártires cantam os vossos louvores. A santa Igreja anuncia por toda a terra a glória do vosso nome: Deus de infinita majestade, Pai, Filho e Espírito Santo.


Senhor Jesus Cristo, Rei da glória, Filho do Eterno Pai, para salvar o homem, tomastes a condição humana no seio da Virgem Maria. Vós despedaçastes as cadeias da morte e abristes as portas do céu. Vós estais sentado à direita de Deus, na glória do Pai, e de novo haveis de vir para julgar os vivos e os mortos.

Socorrei os vossos servos, Senhor, que remistes com vosso Sangue precioso; e recebei-os na luz da glória, na assembleia dos vossos Santos. Salvai o vosso povo, Senhor, e abençoai a vossa herança; sede o seu pastor e guia através dos tempos e conduzi-o às fontes da vida eterna. Nós Vos bendiremos todos os dias da nossa vida e louvaremos para sempre o vosso nome.

Dignai-Vos, Senhor, neste dia, livrar-nos do pecado. Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós. Desça sobre nós a vossa misericórdia, Porque em Vós esperamos. Em Vós espero, meu Deus, não serei confundido eternamente.



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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Os números da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X em 2025

Número total de membros: 1482
- Bispos: 2
- Sacerdotes: 733
- Seminaristas: 265
- Irmãos: 145
- Oblatos: 88
- Irmãs: 250

Idade média dos membros: 47 anos
Membros falecidos: 99
Nacionalidades: 50
Países onde a FSSPX está presente: 77
Distritos e Casas Autónomas: 17

Lugares de culto:
- FSSPX: 798
- Comunidades aliadas: 79

Seminários: 5

Número de casas:
- FSSPX: 184
- Comunidades aliadas: 19

Colégios:
- FSSPX: 94
- Comunidades aliadas: 46


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Puer Natus in Bethlehem

Hino de Natal em latim e português
Legendas: Iniciativa Condor


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'O Deus Na Caverna' de Cherterton: uma descrição magnífica do Natal

Este esboço da história humana começou numa caverna: a ciência popular associou o conceito de caverna ao de cavernícola. Nas cavernas descobriram-se desenhos arcaicos de animais. A segunda metade da História humana, que equivale a uma nova criação do mundo, começa, também, numa caverna.

E para que a semelhança seja maior, também existem animais nesta caverna. Porque se trata de uma cova usada como estábulo pelos montanheses que habitavam as terras altas dos arredores de Belém e que, ainda hoje, recolhem, ao cair da noite, os seus gados a esses lugares. A ela chegou, uma noite, um casal sem lar, que teve de compartilhar, com as bestas, daquele refugio subterrâneo, depois de todas as portas das casas da povoação se lhes terem fechado, surdas às suas súplicas.

Foi aí, debaixo da terra pisada pelos indiferentes, que nasceu Jesus Cristo. Mas, nesta segunda Criação havia, sem dúvida, alguma coisa de simbólico como nas rochas primitivas. Deus foi, também, um cavernícola; também Ele desenhou figuras estranhas de criaturas, de caprichoso colorido sobre os muros do mundo, porém, a estas figuras lhe deu Ele vida desde logo.

A lenda e a literatura, inesgotáveis, repetem, à saciedade, as variantes deste paradoxo: que as mãos que fizeram as estrelas e o sol foram tão pequenas que não alcançaram, sequer, à cabeça das bestas que cercavam o seu berço. Sobre este paradoxo, sobre esta pilhéria, diríamos melhor, se funda toda a literatura da nossa Fé. O gracejo escapa à toda a crítica científica, tem todas as virtudes da verdade, salvo a de não ser verdade.

O contraste entre a criação cósmica e o nascimento infantil e minúsculo foi repetido, reiterado, sublinhado, cantado e salmodeado em centenas de milhares de hinos, de ritos, de cânticos, de poemas, de descrições e de pinturas. Por ele, necessita-se de um espírito crítico muito superior para emancipar-se da sugestão constante da associação de ideias. 

Os críticos modernos dão uma grande importância à educação na vida e à psicologia na educação. Estão fartos de dizer-nos que as primeiras impressões são as que fixam o caráter, assinalando, como exemplos angustiosos o do rapaz que perturba seu sentido visual com as cores falsas de um prisma, ou cujos nervos são prematuramente sacudidos por um exterior cacofônico. Nós fundamos, precisamente nisto, a nossa afirmação de que há uma diferença entre o nascer cristão e o nascer judeu, muçulmano ou ateu.

As crianças católicas, em vez disso, aprenderam tudo nos cadernos e nas estampas. As protestantes nas narrativas, e uma das primeiras impressões recebidas pela sua imaginação foi esta combinação terrível de ideias em contraste. Não se trata simplesmente de uma diferença teológica, mas sim de uma diferença psicológica. 

Os agnósticos e os ateus, que na sua juventude conheceram o Nascimento, que assistiram a esta festa cristã, não poderão nunca impedir, por maiores esforços que façam, que na sua mente se opere esta associação de ideias: a ideia de um menino e a ideia de uma força desconhecida capaz de sustentar as estrelas. O seu instinto fará, imediatamente, esta associação de ideias, por mais que a sua razão procure convencer-se de que não há necessidade de realizar-la. 

Mais ainda: a simples visão de um quadro que representa uma mãe com um filho terá para ele como que um sabor de religião, e, da mesma maneira, experimentará uma sensação de piedade e de ternura com a tão só menção do nome de Deus. Ainda que ambas estas ideias não necessitem estar combinadas. Naturalmente que não seriam associadas para a imaginação de um grego ou de um chinês antigos, fossem eles Aristóteles ou Confúcio.

Não obstante se hão arraigado em nossa mente, porque somos cristãos, e em consequência da Natividade. Quer isso dizer que psicologicamente somos cristãos, ainda que teologicamente não queiramos sê-lo. Há uma grande diferença entre o homem que sabe e o que não sabe. É indispensável que esta diferença exista entre o muçulmano, o judeu e nós mesmos, para que no nosso horóscopo particular se verifique essa cruz de duas luzes particulares, essa conjunção de duas estrelas. Omnipotência e impotência, ou divindade e infância, formam, definitivamente, uma espécie de epigrama que não se pode apagar nem desfigurar por milhões e milhões de vezes que se repita. Belém é, enfaticamente, o lugar onde os extremos se tocam.

Aqui começa — não é necessário dizê-lo — uma nova influência para a humanização do Cristianismo.
Se o mundo necessitasse tomar um aspecto do Cristianismo que não desse lugar a controvérsias, seguramente escolheria o Natal. E não é necessário falar do que se poderia estimar um aspecto controvertível (não quero em um só instante de meu raciocínio imaginar porque): o respeito unânime à Santíssima Virgem. Quando eu era pequeno, uma geração mais puritana opôs-se à colocação de uma estátua, numa igreja paroquial, representando a Virgem e o Menino Jesus. Depois de muitas discussões, transigiu-se em que se suprimisse o Menino. Acreditava-se que a Mãe tornava-se menos perigosa despojando-a do que lhe era uma espécie de defesa.

Tudo inútil. Não se pode arrancar dos braços da estátua de uma Mãe a figura do seu recém-nascido. Não se pode separar dela. Da mesma maneira, não se pode suspender no ar a ideia de um recém-nascido, isola-la, esmiúça-la. A ideia da Mãe vai, forçosamente, unida, associada. Não se pode chegar ao filho senão através da Mãe. Se pensamos em Cristo, neste aspecto, a ideia segue, como segue a história. Não se pode separar a ideia de Cristo da ideia da Natividade, e, como nos quadros antigos, compreender que estas duas sagradas cabeças estão demasiado juntas, demasiado unidas, para que seja possível estabelecer uma separação entre os halos luminosos que as circundam.

O Universo reencontra-se. No meu entender, todos os olhares de poderio e de esforço esparramados por fora, pelas coisas grandes, voltam-se, agora, para dentro, para as coisas menores. As imagens multiplicam ante esta maravilha de múltiplos olhares convergentes que dão às imagens católicas tantas cores como as que tem a cauda do pavão real. Deus, que fora, sempre, uma circunferência, é considerado como um centro, e um centro é infinitamente pequeno. A espiral espiritual vem de fora para dentro não de dentro para fora. É, neste sentido, centrípeta, não centrífuga. A fé se converte, em muitíssimos aspectos, numa religião de coisas pequenas. Mas, as suas tradições, consagradas na arte, na literatura e nas lendas populares, justificam, suficientemente, esse maravilhoso paradoxo que significa a Divindade no berço. Talvez não se tenha concebido, ainda, com tanta clareza, a significação da Divindade na Caverna.

Tem se procurado reproduzir a cena de Belém com a maior pontualidade de tempo e de espaço, de paisagem e de arquitetura. Mas, enquanto todos coincidem em que se trata de um estábulo, poucos sabem que se trata, também, de uma caverna. Alguns críticos têm querido encontrar uma contradição entre estas duas coisas, de forma que demonstram saber muito pouco dos costumes da Palestina. E, como tenham visto diferenças em onde não as há, bom será assinalar essas diferenças onde elas existem. 

Porque um crítico bem conhecido disse, por exemplo, que Cristo, nascido numa caverna rochosa, é como Mitra, saindo de uma rocha. Fez, assim, uma paródia de religião comparativa, comparando uma mentira com uma história. Isto, à parte da ideia de Palas saindo amadurecido do cérebro de Zeus, é o que mais se pode opor à ideia de um Deus nascido como um menino qualquer e em situação de dependência absoluta da sua mãe. É estúpido procurar equipará-las apenas pela repetição do conceito pedra. Tão estúpido como comparar o castigo do Dilúvio com o baptismo no Jordão, porque em ambos os acontecimentos intervém a substância água.

O evidente é, como dizia antes, que a caverna não foi interpretada tão comum e claramente como um símbolo, como as demais realidades que cercam a primeira Natividade. A explicação pode ser encontrada na dificuldade que apresenta o achado de uma nova dimensão. Cristo nasceu não só na superfície do mundo, mas, dentro do mundo. O primeiro acto do drama divino desenvolveu-se não no cenário superficial, à vista dos que o olhavam, senão num cenário escondido e escuro, distante da luz; e é esta uma ideia muito difícil de expressar-se de uma maneira artística. Os artistas de todos os tempos, quanto mais sabiam de realismo e de perspectiva, menos podiam pintar, ao mesmo tempo, os Anjos no Céu e os rebanhos nas colinas, e a glória da obscuridade, debaixo e dentro dessas colinas.

Seria inútil procurar dizer nada de original, nada de novo, acerca da concepção de uma divindade nascida como um Jesus Cristo, como um caído sem lar e sem lei, e, precisamente, com os atributos da máxima lei e do máximo dever para os pobres e para os sem lei. Naquele momento é quando adquire profunda e verdadeira significação a verdade de que já não há mais escravos. Haverá, não obstante, gente que carregue com este título legal, enquanto a Igreja não tiver poder suficiente para extirpá-lo; mas, já não existirá o estado de servilismo dos pagãos. O indivíduo adquire uma importância nova. Um homem não pode já ser um simples meio para um fim. De nenhuma maneira, o meio para o fim de outro semelhante. 

Este facto popular e fraternal tem sua analogia com a história dos Pastores que se encontraram, tête-a-tête, um dia, falando com o Rei dos Céus. Os homens do povo, os homens humildes, como os pastores, foram, em todas as partes, os criadores dos mitos. Foram eles os criadores das ideias venturosas, da mitologia, que foi bem como um afã de investigação. Souberam decifrar que a alma de uma paisagem é uma história e a alma de uma história é uma personalidade.

O racionalismo destroçara já estes tesouros de imaginação, realmente irracionais, do homem rústico, ao qual se arrancava do lar com um procedimento sistemático de escravidão. Sobre todas estas ingenuidades caiu um crepúsculo de desilusão. As Arcádias desaparecem ao tirarem-nas do bosque. Pan morreu, e os pastores esparramaram-se com as suas ovelhas. E, no entanto, a hora estava próxima em que tudo ia mudar. Ainda que ninguém o ouvisse, estava próxima a hora em que das montanhas partiria um grito de libertação, numa língua desconhecida. 

Os pastores encontravam, afinal, o seu pastor. O que encontravam, então, estava de acordo com as coisas que viam todos os dias. O populacho equivocou-se em muitas coisas, mas não se equivocou crendo que as coisas sagradas teriam uma habitação, e que a Divindade não necessita desdenhar dos limites do tempo e do espaço. Os bárbaros que conceberam a fantástica ideia do sol captado e encerrado numa caixa, ou o mito selvagem daquele deus que era resgatado com a pedra com que abatia a seu inimigo, estavam mais aproximados do sublime segredo da caverna e sabiam mais das vicissitudes do mundo que todos os habitantes das cidades que circundavam o Mediterrâneo e que se contentaram com frias abstrações ou com generalizações cosmopolitas; mais que todos os que fiavam delgadíssimo o pensamento na troca do transcendentalismo de Plauto ou do orientalismo de Pitágoras.

Todos sabemos que na representação da história popular dos pastores, em autos e comédias, atribui-se a eles o vestido, o idioma e a paisagem, separadamente das comarcas de Europa e da Inglaterra. Sabemos, também, que, desses pastores, uns falam o dialeto de Somerset, e outros nos dizem que levam o seu gado de Conway para Clyde. Muitos sabemos, não obstante, quanta verdade encerra este erro, quão sábio, quão artístico, quão intensamente cristão e católico é este anacronismo. Por isso é lamentável que alguns críticos modernos vejam só um classicismo forçado no facto de que homens como Crashaw e Herrick concebessem os pastores de Belém sob a forma dos pastores virgilianos. E, não obstante, eles estão certos, e, convertendo sua comédia de Belém em uma égloga latina, não fizeram mais do que unir os dos mais importantes degraus da história humana. Virgílio, como já vimos, representa o paganismo sensato, enfrentando o paganismo insensato que sacrifica o homem; mas, as virtudes virgilianas e o seu paganismo sensato estavam em incurável decadência, delineando um problema cuja solução não chegou a revelar-se aos Pastores.

Se o mundo houvesse feito uma escolha, ao cansar-se de ser demoníaco, se teria curado, simplesmente, com o ser sensato. Mas, também, se tivesse se cansado de ser sensato, o que teria acontecido? O sucesso esperado é o que alegra aos pastores da égloga arcadiana. Uma das églogas é considerada uma profecia do que ia acontecer. Mas onde encontramos maior identificação com o grande acontecimento é no tom e na dicção acidental do grande poeta, e, mais ainda, nas próprias frases humanas dos pastores virgilianos: incipe, parve puer, risu cognoscere matrem… Nele encontram o melhor que existe nas remotas tradições dos latinos. Alguma coisa mais que um ídolo de madeira presidindo para sempre a família humana: um Deus e um Lar. A mitologia tem muitos erros, porém não andou muito mal em ser tão carnal como a Encarnação. Com voz parecida à que se supõe ressoou nas grutas, pode gritar outra vez: “Vimos, Ele nos viu, um Deus visível!”, a cuja voz os pastores dançam alegremente nos cimos sobre a frieza dos filósofos. Mas os filósofos também ouviram o grito.

Entretanto, fica, ainda, outra história estranha e bela. Os filósofos chegaram às terras do Oriente, coroados com a majestade de reis e vestidos com o mistério dos magos. Seu mistério é tão melodioso como seus nomes: Melchor, Gaspar, Baltasar. Acompanha-os toda a sabedoria que tem olhado as estrelas da Caldeia e o sol da Pérsia. Nele vemos a mesma curiosidade que impulsiona a todos os sábios. Anima-os o mesmo ideal humano, como se fossem seus nomes Confúcio, Pitágoras ou Platão.

Eram dos que indagavam, não a lenda, mas a verdade das coisas. A sua sede de verdade, era sede de Deus, e tiveram a sua recompensa. O prémio foi ver completo o que estava incompleto. Nas suas próprias traduções e nos seus próprios raciocínios encontravam confirmado que aquilo era a Verdade. Confúcio teria encontrado uma nova fundação da família na Sagrada Família. Buda veria novas renúncias: de estrelas mais que de jóias, de divindade melhor do que realezas. Buda desceria do seu paraíso impessoal para adorar a uma pessoa. Confúcio deixaria os seus templos de adoração ao passado para vir adorar a uma criança, a um Menino.

O novo cosmos era mais amplo que o velho, porque o Cristianismo é maior que a Criação, tal e como era antes de Cristo, porque nele se incluem as coisas que eram e as que não eram. Vale a pena insistir neste ponto, estabelecendo uma comparação com a crença piedosa dos chineses, que é semelhante à virtude de outras crenças pagãs. Ninguém ignora que forma parte das nossas doutrinas um razoável respeito aos pais, do qual Deus mesmo participou, durante a sua meninice, com respeito aos seus pais da terra. Mas, no respeitante ao amor dos pais, para Ele, a ideia é completamente distinta à da crença confuciana. O menino Cristo nunca é semelhante ao menino Confúcio; o nosso misticismo concebe-o numa eterna infância. A Confúcio não se lhe aparecera nunca o Menino como chegou aos braços de S. Francisco.

A Igreja contém o que o mundo não contém. A própria vida não atende tão bem como a Igreja a todas as necessidades de viver. A Igreja pode orgulhar-se da sua superioridade sobre todas as religiões e sobre todas as filosofias.

Onde têm os estóicos e os adoradores do passado um Menino Jesus? Onde está a Nossa Senhora dos muçulmanos, a mulher que não foi feita para nenhum homem e que está sentada por cima de todos os anjos? Qual é o S. Miguel dos monges de Buda, cavaleiro e clarim que guarda para cada soldado a honra da espada? Quem poderia representar S. Tomás de Aquino na mitologia do bramanismo, ele que restabeleceu a ciência e o raciocínio da Cristandade?

E o mesmo nas filosofias ou heresias modernas. Como passaria Francisco, o Trovador, entre os calvinistas e, ainda, entre os utilitaristas da escola de Manchester? Como passaria Joana d’Arc, uma mulher, esgrimindo a espada que conduzia os homens à guerra, entre os Quakers ou a seita toltoiana dos pacifistas? E, entretanto, homens como Bossuet e Pascal são tão lógicos e tão analistas como qualquer calvinista ou utilitarista, e inumeráveis santos católicos passaram suas vidas predicando a paz e evitando as guerras. Outro tanto sucede com as ultra-modernas tentativas de novas religiões. Nenhuma foi capaz de fazer uma coisa que, ainda em sendo maior que o Credo, não deixasse algo de fora.

Os teosofistas edificam um panteon, mas um panteon só para panteístas. Chamam, ostensivamente, Parlamento de Religiões ao que não é mais do que um parlamento de pedantes. Elevou-se um panteon fazem dois mil anos nas margens do Mediterrâneo e convidou-se os cristãos a colocarem a imagem de Cristo ao lado das de Júpiter, de Mitra, de Osíris, de Átis e de Amon. A negação dos cristãos foi o que mudou o curso da História. Se os cristãos tivessem aceitado, eles e o mundo inteiro, teriam caído — se nos permite a grotesca metáfora — no grande caldeirão onde se liquidavam já, em cosmopolita corrupção, todos os outros mitos e mistérios.

Há a registrar o importante facto de que os Magos, que representam no Nascimento o mistério e a filosofia, foram levados pelo desejo de indagar alguma coisa nova, e encontraram, realmente, alguma coisa inesperada. Porque, nesta ideia de investigação e de descobrimento que inspira a Natividade, chega-se, com efeito, à descoberta de uma verdade científica.

Nas outras figuras místicas da milagrosa comédia — no Anjo e na Mãe, nos pastores e nos soldados de Herodes — poderão ver-se os aspectos, às vezes, mais simples e mais sobrenaturais, porém, elementares ou mais emocionantes. Mas, aos Reis do Oriente há que considerá-los no seu desejo de sabedoria; a luz que vão receber dirige-se, directamente, ao intelecto. E a luz é esta: que o credo católico é o único católico e nada mais que católico. A filosofia da Igreja é universal. A filosofia dos filósofos não o é. 

Se Platão ou Pitágoras ou Aristóteles houvessem podido receber por um instante a luz saída da pequena cova, se convenceriam, eles mesmos, de que sua própria luz não era universal. O descobrimento desta grande verdade é o que dá a sua tradicional majestade e mistério às figuras dos três Reis; o descobrimento de que a religião abarca mais do que a filosofia, e que esta Religião é a que mais abarca de todas as religiões. O grande paradoxo do grupo que contemplamos na caverna é que, enquanto a nossa emoção tem uma simplicidade infantil, nossos pensamentos enlaçam-se com uma complexidade infinita. Contentemo-nos em dizer que a mitologia apareceu com os pastores, e a filosofia, com os Magos, e que ambas se fundaram no reconhecimento da religião.

Houve um terceiro elemento que não deve ser ignorado. Esteve presente, com efeito, desde as primeiras cenas do drama aquele Inimigo que sujou as legendas com o pecado e congelou as teorias do ateísmo. Este Inimigo não tardou em ter uma intervenção imediata. Herodes, alarmado com os rumores de que surgira um misterioso rival, revive o gesto selvagem dos caprichosos déspotas da Ásia, e ordena o assassinato da nova geração popular. Toda a gente conhece a história, mas nem todos perceberam o seu significado, nem, ainda, o flagrante contraste em que está com as colunas corintias e com as calçadas romanas daquele mundo superficialmente civilizado. Quando o tenebroso plano começou a fazer brilhar os olhos de Herodes, pode-se ele aperceber de que uma sombra pardacenta se lhe projectava por detrás, olhando por cima dos seus ombros. A mirada era a do Moloch dos cartagineses. Era a do demónio que, neste primeiro festival da Natividade queria celebrar, também, a sua própria festa.

Se não compreendemos bem a presença do Inimigo, estamos expostos a falsear a significação da Natividade. A Natividade para nós, no Cristianismo, chegou a ser uma coisa doce, aprazível, singela, quando, na realidade é uma coisa muito complexa. Não é uma nota única, senão o som resultante e simultâneo de muitas notas juntas: a humildade, a alegria, a gratidão, o medo místico; mas, ao mesmo tempo, o alarma e o drama. Não é só uma comemoração para os pacifistas e para os romeiros; não é só uma conferência da paz entre judeus, nem só uma festa de inverno escandinavo. 

Há nela, também, algo de luta e de desafio. Alguma coisa que faz com que quando os sinos tangem, à meia-noite, o seu tangido seja horrível como o troar do canhão numa batalha, numa batalha que se acaba de ganhar. A atmosfera de festa que respiramos nas Natividades, como uma reminiscência da festa daquele sagrado dia, não nos pode fazer esquecer que a festa do Nascimento celebrou-se numa masmorra, numa como fortaleza subterrânea adiantada no campo inimigo, cujas hordas pisavam por cima. Herodes, inquieto, sentia que o ataque vinha de baixo da terra e se desmoronava como se desmoronava um palácio. O significado é bem clara: de baixo viria a força que sacudiria e abateria o orgulho das torres e dos palácios.

Os homens, que, até então, tinham dirigido as suas vistas para o alto, hão de olhar para baixo, agora, se quiserem descobrir o Céu. O Olimpo permanecia suspenso no firmamento como uma nuvem branca e quieta de formas suntuosas. A filosofia estava, ainda, encimada mais alto, nos tronos reais, enquanto Cristo nascia numa cova e a cristandade nas catacumbas. A realeza, a majestade hão de ser recuperadas pelo seu verdadeiro possuidor, por alguma coisa que indubitavelmente é uma revolução.

O grande paradoxo da caverna é esse: por um lado, é um buraco, um recanto desprezível onde os sem-pátria se amontoam como escórias; por outro, é como um palácio encantado, algo mui valioso que os tiranos procuram como um tesouro. Os falsos reis mandam para esse recanto os párias, porque não querem recordá-los; mas, também, porque, com pesar seu, querem tê-los sempre presentes. Este paradoxo é a iniciação da vida da Igreja. Era importante ao mesmo tempo que insignificante e impotente. E era importante porque era intolerável, e justo é dizer que era intolerável porque, por sua vez, era intolerante.

Herodes tem o seu papel na comédia milagrosa de Belém, porque significa a ameaça à Igreja militante e no-la apresenta, desde o princípio, perseguida e obrigada a lutar por sua vida. E isto é o que nos propúnhamos neste lugar. Reunir a combinação de ideias que edificam a ideia cristã e católica, e fazer notar que todas elas cristalizaram na bela história da Natividade. Há duas coisas distintas que formam, entretanto, uma só coisa. A primeira é a intenção humana de que um céu há de ser, assim, alguma coisa tão local e tão retraída como um lar. É a ideia que perseguem todos os poetas e todos os mitos pagãos: que uma paragem qualquer pode ser o altar de um deus ou a habitação dum bem-aventurado. Eu não compreendo por que razão o racionalismo se nega a satisfazer esta necessidade. O paganismo é, neste ponto, menos absurdo, pois o caso de Belém e de Jesus está na história de Delos e Delfi, e não está em todo o universo de Lucrécio, nem em todo o universo de Spencer.

O segundo elemento deste estudo é a realização de uma filosofia mais vasta que as outras filosofias: mais vasta que a de Lucrécio e infinitamente mais vasta que a de Spencer. Por ela observamos o mundo através de mil janelas, enquanto que os antigos estóicos e os modernos agnósticos não dispunham senão de uma. Olha a vida com milhares de olhos, correspondentes às mil e mil classes de gente, ali onde os estóicos e os agnósticos não têm mais que um ponto de vista individual. Esta filosofia tem alguma coisa para cada categoria de homem; interpreta os segredos de cada psicologia; é cauta ante as tentações do Demónio; é capaz de distinguir entre as maravilhas autênticas e falsas e resolve os casos mais árduos e mais diversos, tudo com uma multiplicidade e um subjetivismo e uma compreensão de todas as variedades da vida, que nenhuma das filosofias antigas nem modernas foram capazes de alcançar.

O terceiro ponto é que, ao mesmo tempo que reúne a localização da poesia e a maior amplitude da mais ampla filosofia, é, também uma luta e um repto. Porque se deliberadamente está disposta a abraçar qualquer aspecto da verdade, está inflexivelmente disposta a batalhar contra qualquer aspecto do erro. Requer de todo o homem que lute por ela, e toda a classe de armas para essa luta. Proclamava a paz na terra, porém, não esquece nunca porque houve guerra nos Céus. Essa é a trindade de verdades simbolizadas aqui por três personagens da velha história da Natividade: os pastores, os Reis e aquele outro rei que assassinou os meninos.

Não é verdade que as outras religiões sejam, neste aspecto, suas rivais. Não é verdade, tampouco, que qualquer delas reúna essa combinação de caracteres. O budismo jacta-se de ser místico em igual grau, porém, não aspira ser, em grau igual, militante. O islamismo também se jacta de ser em grau igual militante, porém, não quer aspirar a ser em igual grau metafísico e subtil. O confucionismo jacta-se de satisfazer a sede de ordem e de razão dos filósofos, mas não pode satisfazer a sede dos místicos de milagre e de sacramento e de consagração de coisas concretas. São muitas as seguranças da presença de um espírito ao mesmo tempo universal e único.

Resumindo o que é o símbolo e o tema deste capítulo: que não há nenhum motivo na lenda pagã, nem no anedotário filosófico, nem no acontecimento histórico, capaz de impressionar-nos tão profundamente como a palavra Belém; que nenhum nascimento ou infância de um deus ou de um sábio pôde emocionar-nos como a Natividade. Porque aqueles serão, sempre, ou demasiado frios e frívolos, ou demasiado formais e clássicos ou, ainda, demasiadamente simples e selvagens ou ocultos e complicados. Ninguém, quaisquer que sejam as suas ideias, pode ver esses factos como algo íntimo e próprio.

A verdade é esta: que neste episódio da natureza humana, que é o Nascimento, há um caráter individual e peculiarissímo, psicologicamente substancial que não se pode interpretar como uma mera lenda ou a simples história da vida de um grande homem. Porque não incluía as nossas mentes, sistematicamente, para a grandeza, para essa admiração empolada e exagerada dos reis e dos deuses a que, em todas as idades, encontrou propícia a mente humana, senão que é alguma coisa substancial em nós, que nos surpreende de dentro do nosso próprio ser, como se, explorando a nossa habitação espiritual, déramos, de pronto, com um aposento ignorado, até então, do qual saíra uma clara luminosidade. 

Alguma coisa que, ainda aos mais endurecidos corações, atraiçoa, com uma irresistível atração para o bem. Alguma coisa que não está feita com o que o mundo chamaria “matéria forte”. Alguma coisa que é tudo o que existe em nós de ternura eterna. Alguma coisa que é a palavra quebrada e a razão perdida, que se concretizam e se fazem positivas. Alguma coisa, por fim, pela qual os reis exóticos vieram de um país distante, os pastores deixaram as suas correrias na montanha e a noite e a caverna imperaram sós, recebendo algo que era mais humano do que a própria Humanidade.

G.K. Chesterton in 'The Everlasting Man'


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