Em 25 de Março de 1961, L’Osservatore Romano publicava
na primeira página um artigo, assinado com três estrelas, intitulado Latino, lingua della Chiesa,
onde se defendia vigorosamente a necessidade que a Igreja tinha de uma língua “universal, imutável e não
vulgar“.
O artigo desenvolvia, em termos amplos e articulados, a afirmação
de São Pio X, segundo a qual “a língua latina é considerada,
por direito, a língua própria da Igreja“, e a passagem de Pio XI na
Epístola Officiorum omnium,
de 1 de Agosto de 1922, segundo a qual a Igreja “exige, pela sua própria
natureza, uma língua que seja universal, imutável e não vulgar“.
Vale a pena recuperar as teses de fundo do referido artigo ao qual nunca foi
dada uma resposta convincente:
“O primeiro requisito da língua da Igreja, ensina o Pontífice, é
ser universal. Esta
língua deve servir, na ordem da instituição eclesiástica, para colocar o centro
da Igreja em contato rápido, seguro e igual, com todos os raios que se dirigem
a este centro. Se, em discursos proferidos em ocasiões solenes perante este ou
aquele povo, os Pontífices não hesitam em usar as respectivas línguas
nacionais, já quando se devem dirigir à família católica universal, o uso desta
ou daquela língua moderna, própria de uma comunidade singular, seria um
favorecimento dessa mesma comunidade, em prejuízo das restantes.
A Igreja, que, com palavras de São Paulo, proclama ‘ubi non est gentilis et iudaeus […] barbarus et Scyta, servus
et liber‘ (Col 3, 11; Gal 3,28; Rom 10,12), não tirará nunca do
prato da balança, com o objetivo de favorecer os interesses terrenos de um povo
em detrimento de outros, o peso dos valores eternos da qual é a guardiã. Nem em
caso algum forçará os povos com menor poder político ou cultural a
inclinarem-se diante dos mais fortes, como os feixes no sonho profético de José
(Gen 37, 6ss).
Donde o uso do latim que não é uma língua própria de nenhum povo,
nem favorece nem desfavorece parcialmente qualquer deles, cumprindo assim uma
condição essencial que tem de ter, na ordem cristã, uma língua universal.
O uso do latim por parte da Igreja não tem apenas a função
negativa de eliminar parcialidades e ressentimentos. A facilidade que ele
proporciona aos sacerdotes de todo o mundo de compreenderem, prontamente e com
precisão e uniformidade, os actos de magistério, de legislação, de exortação do
Sumo Pontífice; a possibilidade de seguirem, nos Acta Apostolicae Sedis,
as disposições dos dicastérios romanos; a possibilidade de acederem
directamente, durante o seu tempo de estudo, e depois, às obras dos Padres e
dos grandes mestres; o uso de uma terminologia precisa, imutável, universal; a
difusa capacidade que é o fundamento da ciência, de aceder às fontes originais;
a rápida compreensão dos textos litúrgicos; e, finalmente, a comunhão numa
supercultura que enriquece e não diminui as culturas nacionais; tudo isto
constitui um feixe de ligações que contribui para ressaltar a unidade de todos
os membros da Igreja, da ordem sacerdotal antes de mais, e, mediante ela,
também a de todos os fiéis.
Pio XI (Epístola Officiorum omnium,
de 1º de agosto de 1922): ‘É disposição providencial que o latim proporcione
aos cristãos mais cultos de cada nação um poderoso vínculo de unidade,
permitindo-lhes conhecer mais profundamente aquilo que se refere à Santa Madre
Igreja e manter uma coesão mais íntima com o Chefe da família’. E Pio XII
resumia e confirmava: ‘A liturgia latina é um vínculo precioso da Igreja
Católica.
Além do requisito da aptidão para a universalidade étnica e
geográfica, a língua da Igreja deve possuir, afirma o Sumo Pontífice, o atributo da imutabilidade:
‘A Igreja, que está destinada a durar até o fim dos séculos, exige pela sua
natureza própria, uma língua que seja imutável.’ É um fato que as línguas vivas
estão em permanente mutação; e, quanto mais os povos que as falam participam
dos movimentos da história, tanto mais as suas línguas se alteram. […]
O terceiro requisito da língua da Igreja, prossegue o Sumo
Pontífice, é que não seja vulgar.
Não seria natural que a Igreja, a quem o Senhor pede que ‘olhe propícia para as
tribulações da plebe, os perigos dos povos, os gemidos dos prisioneiros, a
miséria dos órfãos, as privações dos desterrados, o abandono dos fracos, o
desespero dos doentes, a decadência dos velhos, os anseios dos jovens, os votos
das virgens, os lamentos das viúvas’ , e que aplica a esta humanidade sofredora
as palavras do seu Divino Fundador: ‘Vós sois todos irmãos’, e o comentário de
Paulo: ‘Em Cristo, não há judeus nem grego, nem escravo nem homem livre’,
a ninguém ocorrerá pensar que a Igreja se deixe tomar por um horaciano desígnio
em favor do ‘profanum vulgus‘.
O vulgus são as massas imensas da vida quotidiana, com os seus
interesses e as suas paixões. E a Igreja, se por um lado aprende e usa também o
obscuro dialecto de uma pequena tribo do Congo ou da Amazónia, a fim de
evangelizar estes filhos que Cristo lhe confiou, por outro lado sente a
necessidade e o dever de confiar o sagrado depósito das suas verdades a uma
língua que não se identifique com esta ou aquela de um povo singular, nem
esteja genericamente ao nível de paixões e de interesses particulares.
E também estes requisitos de elevação vai encontrá-los no latim,
que, por isso, é ‘uma arca de incomparável excelência’ (Pio XII, discurso Magis
quam) para as verdades eternas e imutáveis. Se o latim lhe não tivesse sido
oferecido pela Providência no começo da sua longa história, ela ter-se-ia visto
forçada a procurar uma língua que possuísse os três requisitos que o Papa Pio
XI especificou: ‘Dado que o latim realiza plenamente esta tríplice exigência’,
conclui o Pontífice, ‘consideramos ter sido disposto pela Divina Providência
que ele se tivesse admiravelmente colocado ao serviço da Igreja docente’
Roberto De Mattei in 'O Concílio Vaticano II – Uma história nunca
escrita'